DA
SEMENTE AO CAOS (Imagem:
Abstrato, da artista plástica e escritora Vanice Zimerman) – Um ínfimo grão embrionário
num monturo de areia. Ah, sempre me achei nada diante da imensidão do universo.
Tudo é adverso: o caos, o abismo, o vazio do deserto. Primordial, do nada pra
alguma coisa: de ser maior que a si próprio. E rompo a casca, limites,
barreiras, redomas. Absorvo água, luz e calor. Dilato-me e saio do casulo: o
mato rasteiro, o lodo do rio, as larvas, os excrementos, descobertas. Os que
vêm e vão: ascendem, descendem. Nem tudo é do mesmo jeito: brotamento,
cissiparidade, esporulação, regenerações, hermafroditismo. E testemunho o ciclo
dos proglotes pro cisticerco, a viagem do grão do pólen das anteras aos
carpelos, os ventos, a chuva, o tempo, vicissitudes, simulacros. Fixo-me no que
sou e estou. E alicerço o primeiro com outros repetidos esforços aos mínimos tentáculos,
criando incipientes raízes. Inauguro a expansão e me enraízo no mundo: o chão,
a minha moradia. Sou piso, sou teto e sou eu: o imenso de mim que é nada. Tento,
ouso, enfrento e vou. Minúsculo, não sou capaz de preencher meus vazios;
maiúsculo, muito menos. Não basta o que me cabe. Quero mais e sou responsável
por meu destino. Escolho, encontros; voltas, despedidas. E broto, cresço-me,
faço-me caule, folhas, frutos. Cumpro minha missão. Sou pleno e nada. Eterno retorno.
Regresso-me: degenero e sou nada mais ainda e outra vez. Cinzas aos ventos. Sou-me.
Renasço em você. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.DITOS &
DESDITOS
Encontramos a
importante semelhança de virtude com a habilidade em habilidades onde duas
coisas estão unidas: a necessidade de aprender e o impulso de aspirar... Sou responsável por tudo o que faço; sempre há algo mais
que eu poderia ter feito, alguma outra atitude que eu poderia ter adotado. Dizer
que fui dominada pela emoção é uma forma de fugir do fato de que fui eu quem
agiu, quem, naquele momento, pensou que o que estava fazendo era a coisa certa
a fazer...
Pensamento da filósofa britânica Julia Annas (Julia Elizabeth Annas), autora de obras como Intelligent
Virtue (2011), Plato: A Very Short Introduction (2003), Ancient
Philosophy: A Very Short Introduction (2000), Voices of Ancient
Philosophy: An Introductory Reader (2000), entre outras.
ALGUÉM FALOU:
Hoje, o luxo
reside em tudo aquilo que se torna raro: comunhão com a natureza, silêncio,
meditação, lentidão redescoberta, o prazer de viver à margem dos outros, o ócio
estudioso, o deleite das grandes obras da mente – todos esses são privilégios
que não podem ser comprados, pois são literalmente inestimáveis...
Pensamento do
escritor francês Pascal
Bruckner, autor de livros
como Fanaticism of the Apocalypse: Save the Earth, Punish Human Beings (2011),
Les voleurs de Beauté (1997) e Bitter Moon (1993).
SONHO DE ORQUÍDEAS - […] É melhor deixar os sonhos em paz do que vê-los destruídos
em questão de instantes. [...] Com que insensatez
todos nós nos prendemos às mesmas correntes que poderiam nos destruir. [...]
Suponho que nos deparemos com acasos e coincidências todos os dias. O que
importa são as escolhas que fazemos. Se deixamos passar uma oportunidade
importante sem sequer tentar, então, o que nos resta? [...]. Trechos extraídos da obra Dream of Orchids (Doubleday,
1985), da escritora japonesa Phyllis Whitney (Phyllis Ayame Whitney –
1903-2008), autora de obras como Secret of the Emerald Star (1964), Mystery
of the Haunted Pool (1960) e The Trembling Hills (1956). Veja mais
aqui.
DOIS POEMAS - PEÇO DESCULPAS
PELO ATRASO: Corro na pista de atletismo, \ para perder a vida em vez de ser
atropelada pelo trem. \ Minha calça está rasgada. \ As escadas me quebraram \ da
cabeça aos pés.\ Corro na faixa de corrida. \ O trem me persegue, me agarrou. \
Pelos cabelos, \ corro na faixa de corrida. \ Uma reclamação salta da minha
bolsa. \ Não toque. Não toque. \ Para escapar. \ Meu pé transformado, uma mão
correndo. \ O corpo se esvazia \ como um Camembert esquecido. \ Eu me derramo
na raia da piscina. ÚTERO - Meu útero. \ O umbigo do vazio. \ Abóbada celestial
desmoronando num terremoto de carne. Poemas da poeta, crítica, tradutora e musicóloga
francesa Katia-Sofia Hakim.
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: ACONTECÊNCIAS NAS QUEBRADAS! - Ninguém passa incólume, ninguém finda
impune, muito menos se isenta nas encruzilhadas da vida! Que é que houve, meu,
que hoje tais tão filosofante? Tem quatro coisas no mundo que dói demais no
coração: uma casa com goteira, a visita de um pidão, uma mulher ciumenta e um
menino chorão. Hahahaha! Tá chorando de barriga cheia. Aguento no balanço. Que
é que está pegando, hem? Este lugar é o purgatório das almas penadas! Baixo
astral é esse, hem? Na volta do homem até tatu anda de gibão! Já vi que não
quer conversa. Ô Mariquinha, que é que deu nesse homem, hem? Ah, os chifres
dando circuito! Vixe! Oxe, é comelô como a praga, tudo pendurado nas calçadas,
a gente tem que andar pelo meio da rua e com cuidado para não ser atropelado
pela zoadeiro dos carros-de-som. Reclamão! Pode um negócio desses? Cada um se
vira como pode. Comboio de asno. Você soube da Dindinha? Que deu nela! Sonhou a
vida toda numa vida majestosa, não queria nada com ninguém, engraçou-se por aquele
estrangeiro metido à bosta, levantou a saia, perdeu o cabaço e o juízo, o cara
bateu as botas e o resultado da herança: um bule de barro, três marimbas e seis
coités. Lascou-se. Tá toda serelepe com a doença da princesa encantada: mal de
amores. Se vier, eu estraçalho e deixo pra lá. Coitada, agora rebola as ancas
jeitosas e ninguém chega perto. Se ela vier pra minha banda eu pego e fodo. Tem
gosto para tudo. Ah, eu só quero aquilo com que se compram as coisas, mais
nada, o resto é troco. E a eleição, será que o Zé Capilé leva mesmo? Tem
dúvidas? Mas Cabraí tá jogando dinheiro pela culatra para todo mundo. Tem que
fazer isso, quatro anos sem fazer nada, chegou a hora do vamos ver, vai amargar
decepção. Também acho, mas nunca se sabe. Eu sei que o povo é traíra e na
horagá caga fora do caco, isso eu sei, mas entre os dois, eu prefiro ninguém,
estamos muito mal servido, é tudo a mesma merda. Veja como são as coisas: o
Coronelão sempre apoiou os que vão ganhar, só ganha quem ele apoia. O Cabraí é
filhote dele, foi ele quem criou para ser picado com o veneno da cria. Traiu,
se arrumou e está botando banca. O fim dele será nefasto. Além do mais, o que
este lugar tem evoluído? Nada. Pois é, todo dia de mal a pior. Seja Cabraí ou
Capilé, só quem sairá ganhando é o Coronelão e os seus, mais ninguém. A
pesquisa dá a vitória ao Cabraí. E você ainda acredita em pesquisa? Tudo
manipulada, acho que o Coronelão tá dando corda para ele se enforcar. O jogo
logo vira, a água passa e a podridão fica. Mais dia, menos dia, a mesma coisa,
a vida passa, a gente envelhece, fica burro e morre. Você hoje está intragável!
Meu amigo, quem pode acordar num dia nublado com uma crise desgraçada dessa,
tudo arrevirado, temporal a vista, tudo do contra, como ficar feliz da vida com
a morte por perto, hem? Amargando tudo mesmo. Não posso enganar a mim mesmo e
sair por aí aos pulos e risadagens, isso é para quem está mamando ou só tem
minhoca na cabeça. E qual seria a solução? Não acredito em mais nada. E as
trelas do Canoeiro, hem, tem alguma novidade? Oxe, nunca deixará de esborrar.
Quem ele já comeu que a gente sabe? Um harém. O cara é virado da breca mesmo.
Ele não brinca em serviço, ontem mesmo teve um cerco para pegá-lo, ele estava
na Volta do Rio, encarou o Estreiro e danou-se de só dar sinal de vida no
Tanque de Piabas três dias depois. Eita, bicho da moléstia! Esse é bom de dar
toque de arrodeio na cabroeira. E já ouvi dizer que ele passou por Tara Velho,
danou-se pela Pedra Rolada, arranchou em Sancoquinho e saiu virado na peste por
Itacaité até bater em Cimbres e de lá tomar o rumo das ventas. E isso
emplacando saias, caçolas e beijos da mulherada. Até a Dindinha anda atrás
dele, ora! É mesmo? Todas no rastro dele. É foda! Oxe, elas já chegam com as
saias levantadas e a calcinha nas mãos, tudo fuviando e doida para levar a
mangueira no rabo. É, o cara tá nas paradas, o Coronelão tá lambendo os beiços
para pegá-lo e castrá-lo, destá. E então, em tudo que é canto ele está armando
tocaia para pegar o sujeito no contrapé. Ah, mas ele é ladino, escapa das
arapucas e ainda sai dando língua e chauzinho. Como é que pode? Um dia é da
caça; outro, do caçador, já se diz. Esperar pra ver... Veja mais aqui.
ELA, MENINA AZUL
Nela estoutro
desejorgia: ela é minha via, pura fantasia, revivarando adorocer mar irizaçada
cheia: ela nua inteira, margeia, ruborizada. Ela lua cheia e me beira nuadada.
Lasciva, poema de Luiz Alberto Machado, arte de Derinha Rocha.










