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sábado, dezembro 09, 2017

HERMANN BROCH, BERTOLDO KRUSE. TAMARA KAMENSZAIN, JENNIFER RUBELL, ORQUESTRA ARMORIAL, LUPEMPROLETARIADO & PRIMAVERA

PALMARES, SONHOS & VENTOS - Imagem: Paradiso, da escultora, pintora e artista conceitual estadunidense Jennifer Rubell. - Trago uma rosa ao peito e nas mãos, confesso dúvidas e cansaço, reajo o tanto que posso das profundezas do meu ser desacorrentado, derrubando muros e paredes, ameaças e rendições, cavernas e mentiras. Saí de casa domingo e nem sei que dia é hoje, o que fiz, eu não sei, esqueci no câmbio das marchas subindo ladeiras enquanto o meu poema atravessa os céus e eu rompo a barreira ocidental para que a Terra seja inteira, não meio olho, meio gozo, meia luz, meia vida vendida na esquina como se fosse qualquer no meu coração de mar aberto. Vou com meu andar descrente pelos inauditos gritos da Rua Esconde Negro, um horizonte escurecido pelo bestiário antigo feito de agora pela cidade destroçada na ambição dos tesouros ocultos e apodrecidos nomes do canavial empestando a mordida da penúria impiedosa dos que se danam a arrancar o ouro do chão perdido por dias anoitecidos no consumo da vida e das horas de solidão. Não sei se hoje é terça ou quinta da emancipação de 9 de junho, sei que a feira do mercado está em polvorosa, coisa de parecer um sábado qualquer, ao descer a Rua Nova, se vou pra Rua da Ponte ou rumo à Soledade, a vontade de chupar frutas no quintal do passado, correndo o matagal, por avelois e bambus, canaviais. Se me dou conta, alcanço o Beco do Mijo lembrando do tempo em que empinei papagaio, comi quebra-queixo, os roletes de cana, a Festa do Dia 8 caindo de cima da casa numa lavanderia cheia de garrafas e dormir o sono como quem vagueia pela Rua da Palma até alcançar o Engenho Verde pra ir pra Serro Azul e deparar com Catuama, o sinal do último refúgio, quando me vem à memória a professora Hilda Galindo Correia nas aulas do primário na Maçonaria e Dudu Bode-Branco mangando das minhas leseiras de pular o pó de serra, porque eu fugia para a Biblioeta de Jessiva e lá Aluizio Freitas encrecava comigo para eu falar com Maurício Baita que me perguntava cadê Mauriciinho e Giba, hem? Quantas vezes sucumbi e renasci das cinzas no meio dos alunos do Ginásio com os quadros das mulheres de Darel Valença Lins na cabeça, as inatalações e performances de Tunga tocando fogo nas minhas ideias que estavam nas pinturas de Murilo Lagreca e eu nem sabia ainda das telas de Profeta que apenas poetava aos meus ouvidos, enquanto eu me danava com a Besta do Berto e a música de Zé Ripe. Quantas vezes recorri às mãos apoiadoras de Paulo Cabral, ao abraço solidário do Juareiz Correya, ao afeto estrangeiro de Durán y Durán nas Noites da Cultura que me falavam de Paul que invadi com Bagaço embaixo do braço para me entreter no Cocão do Padre, ou ficar zanzando na Rua das Pedreiras para ver o rio passar e encher a cidade para lavar tudo e eu correr pelo pontilhão do Matadouro até subir por Bigode e ver tudo de longe porque chorei demais. Muitas vezes fiquei sem saber se fugia por Japaranduba BR afora ou se ficava com a saparia do Caçotinho no arruado da Usina. Não, eu não sabia nada, cabeça de vento e fé na vida. Tantas vezes mergulhei sem saber nada e fiquei íntimo do Una, das quedas de Pirangi e do Riacho dos Cachorros e providente intervenção de Rodolfo para me salvar da morte certa, olhos à flor d’água flagravam tardias estrelas no firmamento, a saudade é um fantasma reluzente na ausência, quantas noites no lenço molhado e peito em chamas, quase tudo é deserto nas cabeças pra lá e pra cá, os olhos de fogo e o coração em ruínas, não sabem dizer de si enquanto vivem a vida que não possuem, só estranhos com outro estrangeiro que querem ser, sombra nomeada na identidade, espantalhos que morrem e saem pelas ruas comprando afetos. As praças deram guarida ao meu abandono, a da Luz e Maurity, o colo plácido dos bancos das praças, a brisa morna e o meu degredo nas pegadas infames que imperam no silêncio e os ventos trazem as águas de julho pra lembrar dos desatinos atravessando palavras que nunca foram escritas e que são gritadas para inflar a descrença da razão e a doidice dos órfãos, ninguém é capaz de amar na insanidade dos gestos, só o coito abrasado nos corpos extravasados pelas estacas dos interditos, como prêmio da hipocrisia nos cinturões de misérias e fortuna das desgraças no estandarte da festa. A rosa é viva no meu coração e nas minhas mãos elas brotam para que eu possa poetar aos quatro ventos, para que eu possa aos quatro cantos da cidade, cantar o meu poema de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com Chamada da Orquestra Armorial & Do romance ao galope nordestino do Quinteto Armorial. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Urge modificar o que se constata frequentemente no Nordeste – o drama das populações que nãopodem satisfazer a mais imperiosa das necessidades, que é a de se alimentar. Essas populações merecem e necessitam algo mais, além da esperança e da promessa.  Trecho do artigo Políticas de alimentação e nutrição no Brasil: delineamentos conceituais e propositivos, de Bertoldo Kruse Grande de Arruda & Ilma Kruse Grande de Arruda, extraído da obra Reflexões para transformar possibilidades em realidades, de Bertoldo Kruse (IMIP, 2010). Veja mais aqui.

LUPEMPROLETARIADO – [...] Nas piores conjunturas, de crescente agravamento do pauperismo, quando aumentam os segmentos de subempregados e desempregados pertencentes à classe trabalhadora, esta pode desagregar-se, e uma parte dela, premida pela miséria e pela ausência de alternativas, está sujeita a deslocar-se para o lupemproletariado. Mas, enquanto o pauperismo é uma condição econômica inerente à existência do capitalismo, o lupemproletariado é simplesmente um efeito perverso do desenvolvimento capitalista, do mesmo modo que “certas formas atuais do crime são uma conseqüência da ordem social mas não pré-requisito”. [...]. Trecho da obra As classes perigosas: banditismo urbano e rural (EdUFRJ, 2008), do ensaista e pesquisador da justiça social Alberto Passos Guimarães (1908-1993). Veja mais aqui e aqui.

PRIMAVERA – O município de Primavera administrativamente é formado apenas pelo distrito sede e pelo povoado de Pedra Branca. O seu povoamento deu-se em torno do engenho Primavera, sendo o distrito criado pela Lei Municipal nº 19, de 27 de novembro de 1913, subordinado ao município de Amaraji. Pelo Decreto-Lei Estadual nº 952, de 31 de dezembro de 1943, passou a denominar-se Caracituba. Tornou-se município autônomo, com a denominação de Primavera, pela Lei Estadual nº 4.984, de 20 de dezembro de 1963. O município foi instalado em 2 de março de 1964. Conta com o Parque Ecoturístico da Cachoeira do Urubu, no qual encontra-se uma das cachoeiras mais altas do estado, com 77 metros de queda d’água, emoldurada pela Mata Atlântica. Segundo os antigos moradores, a cachoeira tem este nome por ser local de desova e acasalamento de urubus. A cachoeira é muito procurada para a prática de canyoning (descida de cachoeiras através de cordas). Infelizmente as águas da cachoeira provém do Rio Ipojuca, atualmente poluído, o que torna as águas impróprias para banho. Entretanto há no parque quatro piscinas naturais oferecidas pelas cachoeiras do Banho da Zezé e Poço da Mata, abastecidas pelas nascentes da região que possibilitam o banho. Veja mais aqui.

A MORTE DE VIRGÍLIO – [...] conservava-se diante de seus olhos. [...] a severa imagem do conhecimento da morte, e profissão alguma podia ser adequada a ela, já que não existe nenhuma que não estivesse sujeita exclusivamente ao conhecimento da vida, nenhuma, com a única exceção daquela à qual finalmente se sentira impelido e que se chama Poesia. [...]. Trechos da obra A morte de Virgílio (Mandarim, 2001), do escritor austríaco Hermann Broch.

SOZINHAAgora que enfim estou desvelada / como que pra comprovar que algo cresci / sei que não só o sorriso daquele homem / como também seus gestos / e que não só esses gestos / como também suas palavras / tudo me alcança posso caminhar / acrobata cambaleante porém segura / pela corda bamba da minha própria casa. Poema extraído do livro La novela de La poesia (Adriana Hidalgo, 2012), da poeta e ensaísta argentina Tamara Kamenszain, traduzido por Guilherme Gontijo Flores.

ARTE JENIFER RUBELL
A escultora, pintora e artista conceitual estadunidense Jennifer Rubell.

Veja mais:

A literatura de Clarice Lispector aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A literatura de John Milton aqui.
A literatura de Aníbal Machado aqui, aqui e aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A escultora, pintora e artista conceitual estadunidense Jennifer Rubell.
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sexta-feira, novembro 03, 2017

BETINHO, HENRY MILLER, ALZIRA RUFINO, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO, CYANE PACHECO, LUCIAH LOPEZ & CUPIRA

POESIA VITAL ABSOLUTA - Imagem: arte da artista plástica e desenhista Cyane Pacheco. - Desde daquela hora Pirata de 1982, dúbios passos trocando pés e pernas pelo meio fio, calçadas, asfaltos entre o Capibaribe e o Beberibe até a Livro 7 – tudo acontecia ali, asas livres na rua - para voar o céu do Recife além do Brasil e planeta. Mais fizera da intromissão do verbo a minha invocação pra saber do Burocracial e sem saber do Título Provisório nem que Só às paredes confesso, o Palpo a quimera e o tremor, ou Ora Pro Nobis Scania Vabis. Só agora, a vida à deriva e de pernas pro ar, dei de cara com o Bando de Mônadas revisitando Liebniz, quando o poeta se confessa atravessando o pomar do apocalipse, preparando seu próprio féretro pra viver aos extremos e além deles, insepulto na sua morte voluntária entre poemas surgidos do nada da intuição, confissões, loucuras de Catuama abarcando úteros e partos abandonados nas ruas de Palmares, com as cinzas do ego pelo céu vagaroso de Garanhuns, palavra como valor de troça nas metades perdidas do ser pra viver além da redoma de si, dos limites do plano cartesiano, das medidas e comprimentos. A sua Poesia Absoluta é feita de vida: sem explicações, regras, significados ou necessidade de compreensão: vive, apenas, simplesmente, e o poeta cônscio de sua natural vitalidade vocifera lírica paradoxal enraivecida por oxímoros que recriam sintagmas destronando hierarquias, taxonomias, distinções, porque o id vital é um jumento priápico celebrando a paudurescência das orgias dionisíacas na festa dos escombros da decadente sociedade neoposmoderna e despótica, tão corajosa quanto Dom Quixote enfrentando seus gigantes moinhos, tão desafiador quanto o eco de eu oco de Eliot e as provocações dos muitos eus Pound, Zizek, Cummings, Valéry, Wittgenstein, demasiadamente humano Nietzsche e tão ousado quanto o lance de dados de Mallarmé, tão intenso quanto as disparadas do Finnegans de Joyce, tão iconoclasta quanto o brincarte de Ascenso, tão paradoxal quanto a vida daquela tribo do Informe de Brodie da cegueira de Borges traduzida por Hermilo. É correr risco, o sema mata e ler VCA causa AVC e o leitor pode se perder no meio da poesia pura doída e doida contra o euismo poético com seus monósticos de carbono priapoéticos – respire fundo antes de usar – para a sublime incompreensão total: entender não é preciso, poetar livremente sim, isso sim é preciso, a talvez sincera confissão final no futuro que não virá nunca nas meditações do abismo profeta pra quem sabe Deus nos detalhes (nas reentrâncias de um punhal navalha e cutelo), demolindo sintaxes e sentidos – só o significante, nada de significados, esses pra lata de lixo! - pelas rieiras inóspitas das faces humanas com o peso da culpa, dos esgares, da usura nos omoplatas e o tempo escancarado sem horas nem contagem nem medidores no labirinto imprevisível: nada de inspiração, piração é a palavra de ordem! Que diga, ué! E só, dizer  e dizer mesmo sem ter nem pra quê, ora! O que é ao se revelar pode – ou deve - ser reconhecido como outra coisa, outras mais, muitas: do útero à cova, tudo, a semente, o fruto. Salve, salve, Vital Corrêa de Araújo (Veja mais abaixo). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal: Slave Mass & Live Montreux Jazz Festuval; a compositora, pianista e escritora Jocy Oliveira: Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, Solares, Medea Ballade & Noturno de um piano; a iniciativa de criação da arte erudita com elementos da cultura popular Orquestra Armorial & Quinteto Armorial, oriundos do movimento criado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna: Chamada & Do romance ao galope nordestino; e a artista experimental e performática compositora estadunidense Laurie Anderson: Homeland & Mister Heartbreak. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] No Brasil, a história é longa. Houve um tempo, antes de os portugueses chegarem, em que os povos indígenas viviam seus regimes comunitários em que cabia todo o mundo, uma sociedade de todas as gentes, ninguém era excluído. Não eram todos iguais, mas todos estavam contemplados com alguma parte do que era de todos. É fantástico pensar esse mundo onde cada pessoa tem um lugar, onde ninguém está excluído. Com a chegada dos portugueses, que naquela época se consideravam a modernidade, começou o regime da escravidão e da exclusão. Índios dizimados, negros africanos escravizados como assalariados, migrantes, trabalhadores de todo o tipo desse tremendo apartheid chamado Brasil. Brasil onde a terra nunca foi bem dividida, sempre concentrada. A riqueza grande, fabulosa para muito pouca gente. E o poder nas mãos de quem tem chicote, cerca de arame farpado, grupos armados. Depois, o poder de quem tem informação e meios de comunicação. Primeiro, a oligarquia e, depois, todos os outros senhores desta terra e dos bens que nela se produzem. Assim foi que se produziu o Brasil para chegarmos hoje a 80% de pobres e milhões de indigentes divididos entre o campo e a cidade. E isso num país onde o que não falta é riqueza. A matemática brasileira soma, acumula e multiplica, não aprendeu a dividir, a compartir. Aqui, o bolo sempre cresce, nunca é dividido. Hoje, temos uma bomba social explodindo nas nossas grandes cidades, literalmente. A miséria concentrada nas grandes cidades foi tomando forma de mendigos, alcoólatras, crianças de rua, contrabando, ilegalidade, marginalidade, roubo, seqüestro e narcotráfico que se confronta com as próprias forças armadas. E crescendo. As pessoas foram sendo excluídas, mas insistem em sobreviver à margem. Os ricos passaram a viver no medo, em bunkers onde se protegem da sociedade que criaram. Essa é uma bomba terrível e que não foi nem está sendo efetivamente desativada, cresce seu poder de destruição como se fosse um fato inexorável que todos vêem, mas não podem evitar. [...]. Trecho extraído do texto Democracia e cidadania (Democracia Viva, 28 – 1997) do sociólogo e ativista dos direitos humanos, Herbert de Souza – Betinho (1935-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ABELHAS CUPIRA - [...] Como as demais cidades, Cupira nasceu de uma pequena povoação localizada em torno de uma capela, sob a iniciativa do senhor Aleleuia, à margem de uma lagoa, onde existia uma grande barauna. Nesta baraúna, árvore grande e frondosa, fizeram “morada” umas abelhas conhecidas por Cupira. O local ficou sendo escolhido pelo povo como ponto de reunião para “acerto” de negócios e conversações, e ficou conhecido como Cupira, a pequena povoação pertencente ao município de Panelas. O distrito de Cupira foi criado pela Lei municipal 10, de 30 de março de 1900, com sede na povoação de Taboleiro. Passou a denominar-se Cupira em virtude da Lei municipal 56, de 7 de dezembro de 1914. O Decreto estadual 1818, de 29 de dezembro de 1953, criou o município de Cupira, desmembrado de Panelas e elevando sua sede à categora de vila. Sua instalação ocorreu em 20 de 1954. Anualmente, no dia 29 de dezembro, o município comemora a sua emancipação política. Administrativamente é formado pelos distritos sede, Lage de São José e pelo povoado de Gravatá Açu. Trecho extraído da obra Enciclopedia dos Municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aquiaqui.

ESCREVER E VIVERO escrever, como a própria vida, é uma viagem de descobrimento. A aventura é de caráter metafísico; é uma maneira de aproximação indireta com a vida, de aquisição de uma visão total do universo, não parcial. Com freqüência, escrevo coisas que não entendo, embora certo de que depois me parecerão claras e significativas. Tenho fé no homem que está escrevendo, no homem que sou eu, no escritor. E não creio nas palavras, mesmo quando as junta o homem mais hábl: creio na linguagem, que é algo que está mais além das palavras, algo do qual as palavras não oferecem mais do que uma ilusão inadequada. As palavras só existem separadamente nos cérebros eruditos, filólogos, etimólogos, etc. As palavras divorciadas da linguagem são coisa morta e não entregam segredos. Como o princípio do universo, como o imperturbável Absoluto – o Uno, o Todo -, assim o criador, ou seja, o artista, se expressa a partir e por meio da imperfeição. Esse é o tecido da vida, o verdadeiro signo do vivente. A arte nada ensina, senão a significação da vida. A grande obra será inveitavelmente obscura, exceto por um punhado de homens, para aqueles que, como o próprio autor, foram iniciados nos mistérios. Uma vez realmente aceita, a arte deixa de sê-lo. Constitui apenas um substituto, uma linguagem simbólica que substitui algo que deverá ser captado diretamente. Mas para que isso seja possível, o homem terá de transformar-se em um ser totalmente religioso e não simplesmente em um crente, em um primeiro motor, em um deus em ato. Inevitavelmente, chegará a sê-lo. E de todos os rodeios ao longo dessa senda, a arte é o mais glorioso, o mais fecundo, o mais instrutivo. Texto escrito pelo controverso escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980), extraído da obra O escritor e seu fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor argentino Ernesto Sábato. Veja mais aqui e aqui.

RESGATE & CRIOULAI - Sou negra ponto final / devolvo- me a identidade / rasgo minha certidão / sou negra / sem reticências / sem vírgulas sem ausências / sou negra balacobaco / sou negra noite cansaço / sou negra / Ponto final. II - eu sou crioula decente / não sou vil / estou nas cordas / em equilíbrio / de um Brasil / a minha cor apavora / essa raça agride ouvi dizer / não é nos dentes do negro / não é no sexo do negro / é na arte do negro / de viver / melhor dizendo / sobreviver / com essa coisa que arrasta / o tronco que tentam esconder / mas esses troncos existem / no conviver / os troncos estão nas favelas / vejo troncos nas vielas / nas moradias fedidas / nas peles sem esperança / nas enxurradas de não / no jogo das damas e reis / eu me perdi / nas rotas dos estiletes / nas celas e nos engodos / negro carretel de rolo / querem fazer um mundo / marginal crioulo. Poemas da poeta e ativista política atuante no Movimento Negro e no Movimento das Mulheres Negras, Alzira Rufino. Veja mais aqui.

A ARTE DE CYANE PACHECO
A arte da artista plástica e desenhista Cyane Pacheco.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
NUVENS & CÉU DE PALMARES DE LUCIAH LOPEZ
No fim do mundo, um pé de sonhos
que mais parece ser__________um pé de nuvens.
Meu olhar afirma: são penas nuvens!
Meu coração me diz: são os teus sonhos nascendo outra vez.
Poena da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez
Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

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CINCO TERCETOS DE PALMARES – VITAL CORRÊA DE ARAUJO
Caminho pela tarde imaginária
Descendo de hunos e coivaras.
Das horas perdidas vestígios fumegam
Nas absolutas avenidas da vida não me demoro.
A sombra do Porto (do Recife) se arrastava do cais
E ferros das naves pareciam efêmeros (grilhões).
Ao absurdo cotidiano do homem do mundo
À cata de usuras obesas e salvações vãs.
(Gaia para salvar-se prescindirá da vida humana).
Reino das Águias, 15/05/2014
ADENDO: A ordem é o caos e sintagmas voam pelo meu peito como águias.
Poema extraído da obra Semata (Autor, 2017), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui.
 

quinta-feira, junho 23, 2016

JOSÉ CONDÉ, BURLE MARX, CUSSY DE ALMEIDA, CASCUDO, SERRADOR, RUTINALDO MIRANDA, SEVERINO BORGES, J. MIGUEL & VERMELHO


QUADRILHA DAS PAIXÕES MAIS INTENSAS – Imagem: A quadrilha, xilogravura de J. Miguel - As hostilidades pairavam tenebrosas nas imediações porque o pai da noiva prenha estava injuriado, arrancando os cabelos da venta e da barba, virado na gota serena e cagando raios. Tudo isso, justamente, por causa de um lazarento dum cabra muito do folgado e medroso que descabaçou a jovem donzela, morrendo de medo dele e, quando do comprovado embuchamento, se escafedera para lugar incerto e não sabido. Como o irmão do ultrajado era o sargento que fazia a vez de delegado na província de Alagoinhanduba, logo botou o destacamento de prontidão à caça do fugitivo. Nessa hora tudo estava fora dos conformes, o padre nervoso não parava de olhar para o relógio e a mundiça toda em volta estava em polvorosa. A qualquer momento a espoleta da desgraça podia ser acionada e não havia como medir as consequências. Por graça divina, eis que no maior agitado aponta o batalhão em marcha arretada no oitão da casa, abrindo espaço entre o povaréu e trazendo o salafrário pendurado pelos colhões. – Pronto! Agora pode começar o casório, seu padre! E ligeiro que ainda quero dar uma pisa nesse safado! -, gritou o sargento dando início à solenidade matrimonial. Todo mundo a postos, casal, padrinhos e familiares, começou o teitei que não durou mais de quinze minutos, encerrando logo após o sim dos noivos. Festa entre os convivas. Logo o que parecia malsinado foi transformado num foguetório que comeu no centro esvoaçando as bandeirolas e incendiando os esqueletos ao som da sanfona, zabumba e triângulo, no maior trupe de pé-de-serra dando o tom dos festejos. O cantor logo começou: - Vamos organizar a quadrilha! Nessa hora as moças casamenteiras ajeitaram o busto, espremeram as carnes e empinaram os peitos, deitando olhares manhosos e safadinhos pros seus preferidos. Os rapazes serelepes se encheram empáfias e mesuras, ajeitando a gola e a fivela, pisando forte no salto da bota e castigando nos esssseesssss, largando prosa mole carregada de galanteios pra cima delas. Logo as piscadelas acenderam os risinhos das sonsas, fascinando os mancebos agora encorajados a uma intimidade vigiada e envolvida pelo eflúvio do idílio no ar. Os afetos à flor pele, toques inadvertidos e mãos bobas pra lá e pra cá, tornando todos os casais reféns das raias das paixões. Lábios, suspiros, latências, simpatias, preferências e estreitamentos, mão na mão, outra na cintura, passos ensaiando movimentos embalando os corações apaixonados e tudo além da festa fazem o congraçamento do amor. E os casais enamorados logo se juntam no meio do terreiro e os paqueradores aproveitam do momento pra catar suas damas e firmar namoro sério. Logo fazem filas e lá se vai todo mundo no balancê. – En avant tour! – grita o cantor e todo mundo responde: Alavantu! Anarriê. Returner! Os seus lugares. Cavalheiros cumprimentam as damas. As damas cumprimentam os cavalheiros. Trocar de lado, trocar de novo, aos seus lugares. Passeio, trocar de dama, damas trocam de cavalheiro, olha o túnel, não pode ir pras moitas, nem pras capoeiras, aos seus lugares. Seu delegado tem dois casais que se desviaram no meio do caminho, estão chambregando na chã do roçado! Dancê. Caminho da roça, olha a cobra, é mentira! Aos seus lugares. Caracol, desviar, fazer a grande roda, damas à esquerda, cavalheiros à direita, coroar as damas, coroar cavalheiros, duas rodas, reformar a grande roda, aos seus lugares, dancê. A despedida. É hora de arrodear a mesa e provar da canjica, pamonha, angu, arroz doce, bolo de milho, milho cozido, quentão, pipoca, cuscuz, cocada, rolete de cana, pé-de-moleque. Eita, como é bom namorar de barriga cheia. Bucho cheio atrapalha safadear. A fogueira queima para comemorar a fartura da safra, muitos pedidos pra São João e São Pedro. As vitalinas se arranjam com Santo Antonio pra arrumar casamento, se ajoelham, fazem promessas e se aprontam pra hora da simpatia: enterre uma faca virgem numa bananeira pra saber logo o nome do noivo que virá como príncipe encantado. A noite vai adentro na madrugada, no outro dia os noivos nem viram direito o que é lua de mel. A vida volta ao normal, o inverno vai aguar a terra e a botada da cana na primavera trará outra safra feliz. E assim caminha o canavial. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: nanquins da série Erótica, do arquiteto e pintor brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994). Veja mais aqui.

 Curtindo o álbum Chamada (1975), da Orquestra Armorial, sob a regência do violinista, compositor e regente Cussy de Almeida (1936-2010). Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro Vaqueiros e cantadores (1939 - Itatiaia/EdUsp, 1984), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui.

LEITURA 
O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Eu me criei no sertão

E quase não tive escola

Mas aprendi a cantar

Dentro de toda bitola

Sem sair do meu terreiro

Nunca me faltou dinheiro

Cantando nesta viola
Setilha, ou verso de sete pés, do poeta cantador e repentista pernambucano Serrador - Manoel Leopoldino de Mendonça, nascido em meados do séc. XIX, em Bom Conselho (PE), onde faleceu em 1915. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Cartaz do espetáculo O Casamento de Maria Feia, comédia de Rutinaldo Miranda Batista Junior, encenada pela Cia de Teatro Na Arte a Verdade, com direção de Rod Pereira, contando a história dos irmãos Zé das Baratas e Matilde que cruzam com Lamparina, primo de Lampião, que procura um cabra macho para casar sua filha, a Maria Feia.

Veja mais sobre Anna Akhmátova, João Guimarães Rosa, Rozana Lanzelotte, Giambattista Vico, João Silvério Trevisan, Vilmar Lopes, Eliseo d'Angelo Visconti, Luiz de Barros, Dercy Gonçalves, Roberto Santos, Walter Carvalho & Moacir aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Desejo, do xilogravurista Vermelho.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Imagem: Bandinha de pífano, xilogravura de Severino Borges.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.



MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...