Mostrando postagens com marcador Leo Huberman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leo Huberman. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, abril 27, 2016

HERMILO, HUBERMAN, MAURO SENISE, ARMAND POINT & OTTO LINGNER


ROMPENDO O PASSADO PRO FUTURO - Marcialita acordou-se inheta, algo bulia por dentro dela. Não podia mais viver daquele jeito, tinha de fazer alguma coisa. E levantou-se decidida e pronta para mudar sua vida a partir daquele instante. Foi pra cozinha, conferiu o que tinha na petisqueira, arrumou a frigideira com uns pedaços de galinha de granja no fogão, com duas outras panelas nas quais colocou arroz e feijão em cada uma, e foi lavar os pratos. Depois arrumou a mesa pro café da manhã do marido e dos filhos, passou a vassoura na casa, arrumou a roupa no varal e foi acordar a garotada pra escola, deixando apenas o mais velho e a caçula para acordá-los depois. Empurrou os bruguelos pro banheiro, deu banho em tudo, arrumou a roupinha de cada, fez sentá-los à mesa e comerem pra zarparem logo dali. Foi quando ouviu o pigarro e o arrastado do chinelo do marido que se espreguiçava em direção ao quintal. Lá ele ficou cantarolando e conferindo uma a uma das suas plantações. Trouxe umas pimentas malaguetas pra mesa, junto com umas carambolas, dois cajus, umas acerolas e uma manga que roubou do pé do vizinho, colocou tudo sobre a mesa e soltou a primeira pilhéria do dia: - Eita, hoje a mulé começou cedo, deu furmiga na cama, foi? Ela não respondeu. – Ih, achu quela tá naqueles dia! Fez-se de mouca e manteve-se arrumando os meninos, passando perfurme, penteando os cabelos, e reclamando: - S’aprume, camboio de malavados, seje homi, s’ajeite, vá! Tomi jeito de gente, sinão o pau come logo cedo, s’avie. Tudo aprumado, fila indiana, obedientes porque sabiam que se assim não fosse tabefe e beliscões comiam no centro. Tudo engomadinho nos trinques, lancheiras e bisacas com cadernos e livros. – Vão-se pra escola, arreda, simbora! Um pegado na mão do outro! Rico, tome jeito, cuidi dos seus irmão e num deixi queles se inrolem cum briga no coléjo. Chispa! Saíam um pegado na mão do outro, não antes passarem em fileirinha pra pedir a bênção do pai, e ele: - Deus-tabençoi! Ela levou-os até a porta, empurrou-los casa afora, fez uma oração pra que Deus guardasse seus filhos, ficou olhando até dobrarem a esquina e trancou-se dentro de casa. O marido digladiava com os talheres fazendo barulho. Ela foi lavar os pratos sujos dos que saíram sem dizer uma palavra. – Ih, começou cedo -, zoou o marido. – Arrumi o que fazê, seu traste. E vê se chega cum dinhêro pra fera que já s’acabou tudo! Certo. Num precisa fica embirrada assim. Vancê num faiz nada que preste! Mulé, sô artista e vô sê prisidente! Prisidente? Do quê? Ora, os homi são todo assim: vive de sonho, s’amuntam nele e num enxergam a rialidade! Seja hômi, arrumi um serviço qui preste! Doro logo esquentou as orelhas, foi pro quarto, vestiu-se, calçou a bota e até tentou fazer um carinho na mulher antes de sair, mas ela estava com cara de poucos amigos, ingicada com a situação. Foi-se pisando nos cascos. Quando ele saiu que dobrou a esquina, ela fechou a porta e foi acordar o mais velho: - Chau, acorda! Vamos, s’alevanta. A caçula fazia festa no berçário: - Mama, mama, mama! Ela bejou-lhe, fez-lhe um mimo, abraçou apertadamente, encheu os olhos d’água. – Bora, Chau. O menino já estava de pé e ao seu lado, sabia que ali era lei braba, não levantasse, a lamborada cobria. – Vá tomá café, cuide da sua irmã, fique atento, não abra a porta, num deixi ninguém entrá aqui e quano fô meio dia, trate de botá seus irmão pra cumê, cuidi de tudo, vancê é o hômi da casa hoje. – Vai pra onde, mãe? Vou ali arrisolvê um negóço. Tomi conta da casa, seja hômi e s’assunte, viu? Ela beijou o filho, deu um abraço apertado na caçula e foi até a porta, os olhos rasos d’água. Estava revestida de uma força interior, virado Coretta Scott King naquele dia e ia dar um rumo na sua vida. Fechou a porta, encarou o mundo, respirou fundo e saiu. Ouvi umas batidas na minha porta. Quando abri, Marcialita estava com uma cara atarantada. – Marcialita, bom dia! Cadê o Doro? Foi trabaiá. Quéqui manda, Marcialita, tá precisando dalguma coisa? Tô! Diga lá, quanto? Num é dinhêro, quero imprego. Emprego? Trabaiá. De que? Quero fazê faxina. E quero começá aqui na sua casa. Eita! Entre. Coçei a cabeça sem saber o que fazer, mas minha casa estava realmente precisando de um ajeitado bom. Acho que quando ela encarasse a bronca, desistiria logo. Não tive dúvidas, virei-me pra ela e disse: - A casa é sua. E logo ela se dirigiu pra cozinha, arrumou os pratos, ajeitou a mesa, passou pelos quartos, ouvi vassouradas e ajeitados de todo jeito pela casa toda, quando, ao meio dia, levantei-me dos meus afazeres e fui até ela: - Você quer o que pra almoçar, Marcialita? O almoço já tá na mesa. Quando me virei, estava tudo pronto sobre a mesa. Ela havia obrado um verdadeiro milagre. – Então vamos almoçar -, disse-lhe. – Não posso, vô dá um pulo in casa pra vê os minino cumestão, e volto logo pra findar a faxina. E zarpou. Nem bem meia hora depois ela retornou e novamente as vassouradas, aguaceiro, barulho de arrumações pela casa toda. Lá pelas cinco da tarde, ela entrou no meu escritório: - Pronto, tá tudo arrumado, vá vê si gostô! Levantei-me só pra dar-lhe atenção e quando fui saindo da sala, logo vi que milagres acontecem mesmo. – Nossa, tudo perfeito, Marcilita. Brigada. Quanto é sua faxina? Vinte. Quanto? Tá caro, pague dez. Não, não é isso. Peguei a carteira e peguei uma cédula de cinquenta e lhe entreguei. Era o mínimo pra ser justo. Não tenho troco. Não quero troco, é isso que você deve no mínimo cobrar pra começo. Brigada. - Agora vômimbora qui os minino pricisa da janta. Tudo bem. E saiu. Chegou em casa chorosa, as crianças ficaram assustadas, silenciosas, não era hora para travessuras, sua mãe estava tristonha. Nem bem deu o anúncio da Hora do Ângelus, Doro adentrou meio invocado, reclamando da vida e do mundo e que rodara o dia todo e não conseguira nada de dinheiro pra feira. A meninada já estava jantada, asseada e revirando a casa de pernas pro ar, enquanto ela no terceiro tempo de sua jornada laboral diária. – O qui tem pru jantá, mulé? Ela, então, vingativa e corajosamente, meteu a mão no sutiã e tirou os cinquenta reais que eu havia lhe dado. – Olhaqui, seu traste, tá aqui dinhero pra feira qui eu arrumei! Eita, arrumou como? Fez ponto na esquina, foi? Rodou a bolsinha adonde? Fiz faxina hoje e arrecebi na hora. Mulé minha não faz faxina na casa de seu ninguém! Faxina não é serviço pra mulé dereita! Fiz e faço, a partí de hoje. Pela primeira vez ela enfrentou o marido e os seus próprios medos: o fantasma do pai que lhe perseguia o dia todo com cara de reprovação durante os seus dias. Pra onde se virava era ele lá em pé, severo, inexorável, como se dissesse: - Mulé é pra sirvir e vivê pru marido! Mulé tem qui fazê o qui marido manda e só! Era a hora de dar um basta no fantasma do pai e nos mandos do marido. Ela era dona de suas ventas e ia trabalhar daquele dia em diante, como podia, para trazer dinheiro pra casa e sustentar da forma que puder os seus filhos. Ela acreditava nisso! E tinha a sua dignidade, fosse chamada de piniqueira ou do que fosse, que sofresse preconceito ou reprovação do marido ou de quem quer que seja. Era o trabalho dela, digno e honesto. E virou-se pro marido e berrou: - O que faz um hômi sê um hômi, num é o qui ele diz ou que o ele diz qui faiz. É a honra e a humildade de trabaiá honestamente, tê seu denhero, sustentá sua famía, seja qui profissão qui for, digna e séria. Isso sim, si vancê num é hômi pra isso, sô mulé di verdade e num tenho vergonha de nada. Sô mulé e honro minhas saia. Seje hômi! E daquele dia em diante, nunca mais o fantasma do pai lhe apareceu para atanazar sua vida, estava enterrado de vez, agora só na memória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: a arte do pintor, gravador e designer francês Armand Point (1860-1932).


Curtindo o álbum Dançando nas nuvens (2001), do grupo Mauro Senise Quarteto, formado pelo saxofonista, flautista, arranjador e professor de música Mauro Senise, Paulo Russo (baixo), Mamão (bateria) e o Itamar Acieri (piano).

PESQUISA
História da riqueza do homem (LTC/Guanabara, 1996), do jornalista e escritor marxista estadunidense Leo Huberman (1903-1968). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
O general está pintando (Globo, 1973), do escritor, romancista e dramaturgo Hermilo Borba Filho. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Pra quem precisa e não tem o que fazer, basta começar por si próprio a mudar de vida e seguir adiante pra tudo se ajeitar nos conformes. (LAM)

Veja mais Ayn Rand, Bossa Nova, Agar, Jean-Louis Barrault, Adalgisa Nery, Marilyn Monrow, Anita Loos, Cláudia Riccitelli, Jose Gutierrez de la Vega & Delasnieve Daspet aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Liegender Frauenakt, do pintor alemão Otto Lingner (1856-1917).
Veja aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


segunda-feira, dezembro 21, 2015

POUND, TERTULIANO, KIRINUS, CALASSO, LENDAS ÁRABES & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PERDOAR UMA TRAIÇÃO - Em vários momentos da vida presenciamos ou somos vítimas de atos de traição, coisa corriqueira a qual ninguém está ileso. A cena da peça shakespeariana Júlio Cesar (1599), com a sua famosa frase “Até tu, Brutus”, tem se perpetuado ao longo dos anos. Nas empresas, nas escolas, nas instituições, em qualquer lugar, pode-se presenciar o pé na goela de uns e outros, puxando a língua e enfiando o outro buraco abaixo. É a lei da concorrência, da competitividade. E vencer em detrimento de todos, a glória da conquista, da vitória de um sobre quem quer que seja. Pra se ter ideia, na semana passada eu vi um amigo completamente desorientado com o desenlace de um idílio que se dava como para sempre. Era que ele e a sua amada personificavam satiríase e ninfomania, às maiores juras de amor eterno. Carne e unha, o mundo nem ninguém mais existiam: só eles. Trancafiados em sua paixão, os dois seguiram por anos até que um dia ele faliu, ela pulou fora – disse-me ele completamente transtornado pela indignação que, na verdade, ela acabou num dia e, no outro, já perdia a caçola com outro. E completamente atordoado começou a dizer de forma atrapalhada que ela, ainda por cima, para justificar seu procedimento, o culpava por tudo, ao mesmo tempo em que lamentava as saudades e que sentia falta dele e que o mantinha no coração como um segredo só deles, que o outro atual não soubesse. Triste, mas até o amor não resiste à falta de dinheiro. E repetia ele completamente desconsolado: era tudo mentira e sedução. Procurei ao máximo manifestar apoio e solidariedade, ao mesmo tempo em que repassava os tristes fins de amores como o de Abelardo e Heloisa, Tristão e Isolda, e tantos e muitos outros que já trouxe aqui em edições passadas. Alguns findam comumente como a tragédia que envolveu o assassinato do escritor Euclides da Cunha, ou nas manchetes de jornais em que homens acometidos por excesso passional trucidam a amada por julgá-la ser dele e mais ninguém. Casos e casos ilustram os inquéritos policiais e processos judiciais. Não há como mensurar a dor de quem se sente traído. O que me resta dizer, que tudo isso é do umbigocentrismo que tornou agudo o individualismo possessivo, transformando as pessoas em reféns de consumo e posse. Acumular, desde as mais remotas eras, tem sido a tônica: mais poder, mais dinheiro, ser maior e melhor, almejando um gigantismo (que não é nada mais que ser menor que o próprio tamanho), que só satisfaz aos infelizes egoístas e a sua claque de baba-ovo, não se percebendo o que Freud chamava de conflito entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Passam-se anos e milênios e não aprendemos a sermos superiores. Então é preciso saber que perdoar é uma das mais nobres formas de valorizar o verdadeiro sentido da vida. E vamos aprumar a conversa aqui.

PICADINHO

Venus at a forest pool, do pintor e professor francês Thomas Couture (1815-1879)


Curtindo Luzia (Polygram, 1998), do guitarrista e compositor flamengo espanhol Paco de Lucía (1947-2014).

O PROBO ORGASMO – No livro 49 degraus (Companhia das Letras, 1997), do ensaísta italiano Roberto Calasso, encontro O probo orgasmo em que ele fala de Wilhelm Reich: O casamento místico entre marxismo e psicanalise, a denuncia dos erros da família, a reabilitação dos esquizofrênicos, o orgasmo como panaceia: todos esses temas, pelos quais durante anos nos batemos e debatemos sem cessar, com pedantismo [...] Profeta, cientista, crítico da sociedade, charlatão cósmico – Reich era sobretudo um visionário desesperadamente dominado por uma única visão, que considerava ser, como é óbvio, a chave do universo. Tinha, além disso, um dos vícios mais graves que podem enganar um visionário: o literalismo, o culto dos fatos, da real thing, da medida quantitativa, da formula resolutória. Assim, não lhe bastou introduzir uma noção inconveniente como a do orgasmo no centro da psicanalise. [...] Pretendeu ir mais longo, com passo de elefante: quis acreditar que a palavra biologia ou qualquer aparelho de medida estranho garantissem sozinhos uma abordagem segura para os segredos do mundo, permitindo-lhe tocar, ver, quantificar a fantástica e inapreensível energia orgânica que pensava ter descoberto [...]. E veja mais aqui.

JOSÉ E A MULHER DE PUTIFAR – Entre as Lendas Religiosas Árabes (Cultrix, 1962), reunidas por Jamil Almansur Haddad, encontro a de José e a mulher de Putifar: Foi na época de El Raiân que entrou no Egito um jovem vindo da Síria, que seus irmãos, astuciosamente, haviam conseguido vender. As caravanas da Síria acampavam-se no lugar que hoje tem o nome de El Maouqef. O jovem, parado ali, foi posto à venda. Era José, filho de Jacó. Putifar comprou-o para dá-lo de presente ao rei. Quando o levou ao palácio, sua mulher Zuleika, que era sua prima, viu-o e disse: “Deixai-o para nós; educa-lo-emos, e ele nos servirá”. Então, aconteceu-lhe o que Deus conta no Corão. Ela ocultou o seu amor até que não pode resistir mais. Então se retirou com José, enfeitou-se para ele, e fez-lhe saber que o amava; e se consentisse no que ela quisesse, dar-lhe-ia riquezas consideráveis. Ele recusou-se. Ela imaginou que o venceria, e não cessou de persegui-lo, não obstante a resistência, até que o seu marido apareceu, enquanto ele se esquivava da conquistadora. El ‘Aziz era eunuco e não podia aproximar-se de mulheres. José desculpou-se perante ele, mas ela falou: “Eu dormia e ele veio agarrar-me à força”. Mas testemunhas vieram e declararam que a culpa era da mulher. “Deixai disso”, disse Putifar a José, ou melhor – “deixai dessas desculpas”. Depois disse à sua mulher: “Pede perdão por tua culpa...”. [...] “Não é possível”; - disse Zuleika – “mas já que ele se recusa, eu proibir-lhe-ei qualquer entretenimento; aprisiona-lo-ei e tomarei tudo o que lhe dei”. José respondeu: “Prefiro a prisão ao que se pretende de mim”. Então, ela jurou por seu deus – era uma estatua de esmeralda verde, de nome Mercúrio – que se ele não obedecesse, faria executar imediatamente as suas ameaças. Ordenou que lhe tirassem as vestimentas régias, o vestissem de lã, e pediu a El ‘Aziz aprisiona-lo para fazer cessar as acusações lançadas contra ela. Seu marido ordenou que ele fosse preso. Veja mais aqui.

UM POEMA DE POUND – No livro Poesia (Hucitec/EdUnB, 1983), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972), organizado por Augusto de Campos, encontro o belo poema Alba: Enquanto o rouxinol à sua amante / gorgeia a noite inteira e o dia entrante / com meu amor observo arfante / cada flor / cada odor, / até que o vigilante lá da torre / grite: / “Levanta, patife, sus! / Vê, já reluz / a luz, / depressa, corre, / que a noite morre...”. Veja mais aqui e aqui.

INCOMPATIBILIDADE ENTRE A VERDADEIRA RELIGIÃO E O TEATRO – No livro A Moda Feminina / Os espetáculos (Verbo, 1974), do prolífico autor das primeiras fases do cristianismo, Tertuliano (160-220dC), encontro o trecho sobre a incompatibilidade entre a verdadeira religião e o teatro: Considerai, servos de Deus, o que as exigências da fé, um bom sistema doutrinal e um estatuto disciplinar, entre outros, podem fazer para nos livrar do engodo dos erros mundanos, nomeadamente das representações teatrais; vós que andais muito perto de Deus como tendes testemunhado e confessado, examinai isto de novo para que ninguém resvale no pecado por ignorância ou fazendo vista grossa. Tão grande é o poder de arraste dos prazeres que chega a abrir ocasião de pecas nas trevas da ignorância, e a fazer que a consciência se iluda a si mesma. Talvez alicie às duas coisas a mais que um pensar o dos pagãos vezeiros em arguir conosco nesta questão pro este modo: que nenhum detrimento advem à religião que é coisa espiritual, e menos à consciência, uma tal ou qual avidez de olhos e ouvidos para o que se arma lá fora; nem Deus se vai ofender, por outra parte, com o deleite que o homem haja, nem é crime algum gozar dele em seu tempo e lugar; contanto que se mantenha o temor de Deus e se lhe prestem as honras devidas [...]. Veja mais aqui.

COISAS DE CINEMA – No livro História da riqueza do homem (LTC, 1986), do jornalista e escritor marxista estadunidense Leo Huberman (1903-1968), encontro o trecho em que ele fala: Os diretores dos filmes antigos costumavam fazer coisas estranhas. Uma das mais curiosas era seu hábito de mostrar as pessoas andando de carro, depois descerem atabalhoadamente e se afastarem sem pagar ao motorista. Rodavam por toda cidade, divertiam-se, ou se dirigiam a seus negócios, e isso era tudo. Sem ser preciso pagar nada. Assemelhavam-se em muito à maioria dos livros da Idade Média, que, por páginas e páginas, falavam de cavaleiros e damas, engalanados em suas armaduras brilhantes e vestidos alegres, em torneios e jogos. Sempre viviam em castelos esplendidos, com fartura de comida e bebida. Poucos indícios há de que alguém devia produzir todas essas coisas, que armaduras não crescem em árvores, e que os alimentos, que realmente crescem, tem que ser plantados e cuidados. Mas assim é. E tal como é necessário pagar por uma corrida de táxi, assim alguém, nos séculos X e XII, tinha que pagar pelas diversões e coisas boas que os cavaleiros e damas desfrutavam. Também alguém tinha que fornecer alimentação e vestuário para os clérigos e padres que pregavam, enquanto cavaleiros lutavam. Além desses pregadores e lutadores existia, na Idade Média, um outro grupo: os trabalhadores. A sociedade feudal consistia dessas três classe – sacerdotes, guerreiros e trabalhadores, sendo que o homem que trabalhava produzia para ambas as outras classes, eclesiástica e militar. [...]. Veja mais aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016 – As previsões para 2016 do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee (1931-2010)

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora peruana do Brasil (ou brasileira do Peru, tanto faz!) Glória Kirinus. Veja aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sexta-feira, setembro 28, 2007

KHAYYÃM, SAINT-MARTIN, MABEL COLLINS, BUDA, BLUMENTAL, INGRES, JOÃO CÂMARA, GAWLIK & FECAMEPA!


REMOENDO AS CATRACAS: QUANDO O BOCÓ DÁ NUM MATA-BURRO DA VIELA, VIRGE! A COISA TÁ FEIA MESMO PRONTA PRO FIM DO MUNDO! - Gentamiga do meu Brasil de Maria-vai-com-as-outras! Hoje eu trago uma indagação: Se um sujeito inventasse de começar lendo a “História da riqueza do homem”, de Leo Huberman e, numa tabacada só, emendasse com “O fim do mundo”, de Otto Friedrich, ao final da leitura ele teria esperança ainda no ser humano? Enquanto o Leo Huberman faz um levantamento da evolução das instituições políticas, dos sistemas econômicos e modelos sociais europeia, pautada no materialismo dialético, desde a idade média até o nascimento do nazifascismo, trazendo uma ideia inicial de como surgiram as primeiras teorias econômicas, relacionando o surgimento das teorias com a história, o Otto Friedrich traz o mito do apocalipse presente em todas as culturas, transmitido geração após geração pela tradição oral, analisando as catástrofes que se abateram sobre a humanidade, desde os tempos bíblicos ao medo do holocausto nuclear. Vamos aprumar a conversa aquiaqui e aqui!


 Imagem: Bathing women, do pintor e desenhista Romantismo francês Dominique Ingres (1780-1867). Veja mais aqui.

Curtindo os álbuns da coleção de oito cds com a interpretação da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908 - 1991), iniciativa da filha dela Annette Celine e da Brana Records. Veja mais aqui.

EPÍGRAFESe um homem conquista em batalha mil vezes mil homens, e outro conquista a si mesmo, este é o maior dos conquistadores, trecho extraído do livro Dhammapada (Caminho do Dharma), com máximas em versos agrupados em quatrocentos e vinte e três estrofes, composto por Siddhartha Gautama, o Buda. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O FILÓSOFO DESCONHECIDO – Entre as obras lidas do Filósofo Desconhecido, atribuídas ao filósofo, advogado, pensador e místico francês Loius Claude de Saint-Martin (1743-1803), destaco um dos importantes trechos: Não, homem, objeto caro e sagrado do meu coração, não temerei o ter-te enganado ao te pintar em cores tão consoladoras as riquezas, os apoios e os testemunhos que se impõem ao teu redor, a fim de atestarem ao mesmo tempo o teu destino e os meios que te são oferecidos para cumpri-lo. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA HUMANA - Entre as várias obras lidas da escritora mística e teosofista britânica Mabel Collins (1851-1927), destaco os trechos: [...] Estuda os corações dos homens, de modo que possas saber como é o mundo em que vives e do qual serás uma parte. Olha a vida constantemente mudando e movendo-se ao teu redor, pois ela é formada pelos corações dos homens, e, à medida que tu aprenderes a compreender a natureza e o significado dos corações, serás capaz, gradualmente, de ler a palavra maior da vida. [...] Quando o discípulo está preparado para aprender, então é aceite e reconhecido. Assim deve ser, porque ele acendeu a sua lâmpada, e esta não pode estar oculta. [...] Cada homem é absolutamente para si mesmo o caminho, a verdade e a vida. [...] Cada homem é seu absoluto legislador, o dispensador de glória ou escuridão para si mesmo, o decretador de sua vida, recompensa e punição. [...]. Veja mais aqui.

RUBAIYAT – O livro Rubaiyat, do poeta, matemático e astrônomo persa dos séculos XI e XII, Omar Khayyãm (1048-1131), construído com poemas cujas estrofes de duas linhas com dois hemistíquos cada formando um quarteto, canta a existência humana, a brevidade da vida, o êxtase e o amor. Entre os poemas destaco os trechos: Além da Terra, pelo infinito, / procurei, em vão, o Céu e o Inferno, / depois uma vez me disse: Céu e Inferno estão em ti. [...] Silêncio, dor da minha alma, / deixa-me procurar um remédio. / É preciso viver; os mortos não se lembram / e eu quero rever a minha amada. / É grande a tua dor? Não lhe dês atenção. / Lembra-te dos outros que sofrem inutilmente. / Procura uma linda mulher; mas cuidado, evita amá-la, / e ela, que não te ame. / Rosas, taças, lábios vermelhos: / brinquedos que o Tempo estraga; / estudo, meditação, renúncia: / cinzas que o Tempo espalha. Veja mais aqui e aqui.

CAMINHOS DO FAZ-DE-CONTA - No livro Jogos teatrais (Perspectiva, 1984), da escritora, tradutora e professora universitária Ingrid Koudela, encontrei a parte Caminhos do faz-de-conta, da qual destaco o trecho: Vejo um caminho. Às vezes tortuoso, apontam curvas e trilhas sinuosas. De repente a estrada é larga para dar novamente em uma picada onde se torna necessário até abrir o caminho com a foice. [...] Algumas ideias-chave são essenciais para o entendimento do processo de Jogos Teatrais. A condição fundamental é a criação coletiva onde os jogadores fazem parte de um todo orgânico motivado pela ação lúdica. Aliada a essa condição está eliminação dos papéis tradicionais aluno/professor, dicotomia superada pelo principio de parceria a partir do qual é dissolvido o apelo da aprovação/desaprovação. Não existe certo errado, nem formas certas ou erradas para a cena. Cada cena é uma cena. O método das ações físicas propõe que o jogador saia de si mesmo e focalize o campo de jogo (espaço). [...] Veja mais aqui e aqui.

LE DIVORCE – A comédia romântica Le divorce (À francesa, 2003), dirigido por James Ivory e baseado no romance de Diane Johnson, conta a história de uma mulher que viaja dos Estados Unidos para a Europa, com a intenção de visitar sua irmã que está grávida e foi abandonada pelo seu marido. Ao chegar ao seu destino, ela acaba por se apaixonar por um diplomata francês que é igualmente casado. O destaque do filme é para o time de beldades, a primeira delas a atriz Naomi Watts que ganhou o Prêmio Wella de melhor atriz no Festival de Veneza, mais Kate Hudson, Glenn Close e Leslie Caron. Veja mais aqui.

VEJA MAIS:
Por um novo dia, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Sônia Goulart, Ruy Guerra, Sarah Bernhardt & Georges Henri Tribout, Victor de Aveyron aqui.
Psicologia & Literatura, Anton Walter Smetak, Costa-Gavras, Olga Benário, Kazimir Malevich, Pegada de Carbono, Irene Pappás & Camila Morgado aqui

O baquete do Beliato, Erich Fromm, James Joyce, Manoel de Barros, Jean Genet, Édith Piaf, Peter Greenaway, Suzana Jardim, Nathan Oliveira, Vivian Wu, Literatura & Ilustrações Eróticas aqui.
Imagem: a arte da pintora polonesa Ewa Kienko Gawlik. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Circa (1980), litografia do artista plástico João Câmara.
Veja aqui e aqui.
 


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...