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segunda-feira, julho 26, 2010

MELVILLE, SOPHIE DE SÉGUR, KLOPSTOCK, SÖDERBERG, GERDA TARO, LITERÓTICA: VADE-MÉCUM DO AMOR

A arte da fotógrafa, jornalista e anarquista alemã Gerda Taro (1910-1937), a primeira mulher fotojornalista que morreu enquanto fazia cobertura de guerra, documentando o cotidiano e as batalhas do front em vários momentos perigosos e, ao ficar sem filme para sua câmera, arrumou carona no carro de um general que estava sendo usado para transportar os feridos, um tanque desgovernado do exército republicano colidiu com eles e Gerda foi mortalmente ferida no estômago.

  
LITERÓTICA: VADE-MÉCUM-ENQUIRÍDIO, UM PREÂMBULO PARA O AMOR -(Imagem: arte de Tara McPherson). - Uma vez e ela apareceu. Primeiro como a indomável Lilith que saiu irada e nunca mais voltou. Depois, como a servil Eva, que emergiu da minha costela para roubar da maçã o pecado original e causar todos os males humanos. Uma vez e outra, ela decaída Madalena e ao mesmo tempo a serpente Nachásh. Ou ela uma das nove musas, ou como a sanguinária Anath, em Canaã. Ou como a cantada na Ars Amatória de Ovídio. Ou mesmo como uma das ninfas, ou a paciente Isis no Egito, ou Ishtar, a sagaz deusa do amor na Babilônia. Ela a mãe da terra como Dêmeter, bela e cruel como Semíramis, ou como uma serva de Afrodite. Nem outra vez se dera, ela já hetaira, exímia cortesã bem-sucedida e influente na Grécia. Ou ela a sabotadora Messalina, a auianime no México, harimtu na Babilônia ou a jovem dos aposentos verdes da China. Uma outra vez e de outra vez ela, a Esfinge que devora quem não decifra. Ela praticante da arte da Câmara de Dormir ou mesmo dama da corte, ou adúltera descarada. Vez e outra ela a giyán em Bagdá ou como madona bizantina na mariolatria. Ou mesmo como tríbade, ou eríneas, ou parcas, moiras, harpias, prostituta do templo ou filha do prazer. Outra de outra vez, ela a virgem descarnada e amedrontada ou uma daquelas vingativas femmes fatales. Ela, como a fuga de Helena de Tróia, como o sacrifício de Ifigênia, como o suicídio de Fedra, como a tragédia de Medeia, desejada Barbarela, ousada Norma Benguel, desencantada Maysa, leve e linda Joyce, filósofa Marilena Chauí, ou Claudia Bomtempo no devaneio da minha loucura noturna, ou Íris Bustamante na miragem da minha ilha deserta, ou mesmo como uma dessas celebridades efêmeras das bundas fugazes do reality show. Uma vez, outra e mais outra ela a trabalhadora insone com todas as horas de batente extrapolando a vida. Ou mesmo como uma desolada pra titia se espremendo em rezas pro Santo Antonio. Ela, a resignada esposa cristã reclusa e privada de gozar. Ou aquela que se cansou de ser apenas objeto para reprodução. Ela, a concubina maldita com o sexo disponível na mancebia pro amante, destruindo lares e famílias. Ou aquela adolescente privada de afeto seduzida pelo primeiro carinho. Ela que sangra, ri e chora e que no seio aplaca a fome do menino. Nas coxas, segura o prazer do homem. No corpo, carrega o açúcar e o fel do que é. Na alma, a premonição e a compreensão superior. Ela que traz a vida e por ela se deixa levar. De outra, ela comprada na feira, abominada por misóginos, propriedade paterna, do marido e dos filhos, subjugada, cantada, cuspida, adorada. Ela ninfomaníaca acendendo a vida, ela viúva ardendo na noite. Ela, Mata-Hari, ela Evita Perón. Ela a mais singular pedinte da esquina, ela rainha na Inglaterra. E de vez outra ela, caça do macho adorada como estatueta de Vênus. Ela que já foi o mar parindo céu e terra, semeando ventres e heroína de todos os encômios. Ela vítima de crimes passionais, tal lâmina que depila como a navalha nos pulsos, o fogo no ventre, a dor de parir, o vir a menstruar. É ela. E digo que é ela a minha vida e o meu amor. É ela. Cuidado. Muito cuidado. Todo cuidado é pouco. Primeira advertência: se não bate um coração (o amor é via de mão dupla), não use. Por favor, não abuse: é frágil. Não é descartável, nem vem com manual de instrução. Atente para as exigências, ela encanta pela maravilha que é: mulher com toda pujança divina nas linhas do rosto, todo fausto e glória da beleza na sua herança de deusa que eu venero com a minha língua em riste no seu corpo nu espalmado no meu desejo, como espetáculo da natureza que faço versos com meu sexo na sua alma assaltada, onde tudo é belo, tudo é verdadeiro e me acrescenta e em dobro vive no meu canto: mulher. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


DITOS & DESDITOS - A liberdade é mais vezes destruída pelos seus excessos do que pelos seus inimigos. Os homens sentem mais a necessidade de curar as suas doenças do que os seus erros. A história é uma apelação dos erros contemporâneos para os juízes da posteridade. O império da beleza não conhece rebeldes. Pensamento da escritora russa condessa Sophie de Ségur (1799-1874).

ALGUÉM FALOU: Existem coisas em que se tem de ser especialista para as não compreender. Eu acredito no prazer da carne e na solidão irremediável da alma. Pensamento do escritor sueco Hjalmar Söderberg (1869-1941).

DA VIDA & O VIVER – Não podemos viver apenas para nós mesmos. Mil fibras nos conectam com outras pessoas; e por essas fibras nossas ações vão como causas e voltam pra nós como efeitos. Ninguém pode salvar ninguém. Temos de nos salvar a nós próprios. Aprendi que amigos a gente ganha mostrando quem somos. Eu não sei tudo o que está chegando, mas seja o que for, eu vou até lá rindo. Pensamento do escritor estadunidense Herman Melville (1819-1891). Veja mais aqui.

SEU SONHO - Ela dorme. Ou derrame seu sonho, asas / vida suave através do seu coração gentil! / Fonte sem nuvens do Éden / Colher de sopa de branco, krystallnen a cair! / E deixá-lo na bochecha, ele fugiu do Röth / Há hinthaun perfumado! E você, ou melhor, / A virtude e o amor da paz, / Grazie suas capas Olympus, / Com seu Fittig Cidli. Como latente, / Como silencioso! Fique em silêncio, oh cadeia silenciosa! / Ele mostra que seu Lorbersprößling, / Se eu sussurrar para você da letargia Cidli! Poema do poeta alemão Friedrich Gottlieb Klopstock (1724-1803).




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sábado, junho 05, 2010

JUNE JORDAN, EVELYN LAU, KORZYBSKI, KLOPSTOCK, KATE WINSLET, FRANZ VON BAYROS & LITERÓTICA: POR VOCÊ

 
A arte do pintor e ilustrador austríaco Franz von Bayros (1866-1924). Veja mais abaixo.


Imagem: Foto de Kate Winslet. Veja mais aqui.

POR VOCÊ

“M´amour, m´amour o que é que eu amo e onde estás?” (Ezra Pound)

“...por você vou roubar os anéis de Saturno” (Rita Lee)

Por você tenho estado a levitar incólume pelas nuvens mágicas do amor, a cantar o Exagerado de Cazuza para orbitar contumaz toda flor de sua emanação. Por você tenho dedicado todo infrene teor do meu verso lascivo, toda meta da minha perseguição da felicidade, todo meu corpo, minha alma, idéias e pensamentos e já não consigo distinguir o que é meu de seu nessa correspondência para lá de imantada pelos nossos mais aderentes desejos. Por você sigo perseverante a desafiar de deus, do mundo e de tudo, a fazer da minha crença apenas a sua deificação. Por você vou rompendo barreiras porque recito de cor um a um dos cinco mil versos d´Os Cantos de Pound enquanto aliso a corcova de suas ancas miríficas onde perco todos os pontos cardeais afiançando a valia de todos os seus atributos. Por você subestimo convenções porque quero passear de mãos dadas e trocando beijos apaixonados no meio do espetáculo da aurora boreal até a austral e vê-la seguir com o meu monograma tatuado no seio como o distintivo do nosso amor. Por você vasculho o universo de sua compleição, faço surf no tsunami de suas carnes, viro goleador no Maracanã do seu ventre, percorro a nado todo Amazonas de suas águas profundas, faço happy hour na lua dos seus seios, enfrento a fera do seu desejo exaltado e recolho de sua mais absoluta e íntima graciosidade todos os acepipes exatos da minha esfomeada vontade de você. Por você todo limite usurpado no fogo insano do prazer a ponto de não haver extintor de incêndio capaz de apagar a feroz volúpia de possuí-la a mais das suas dimensões angulares. Por você toda exata e possessa como uma naja de capuz estufado, premida pela necessidade excitante de ver-me enveredar por seu olho pidão, por seus lábios bons de beijar, pelos seios de todos os sabores, pelas pernas carnudas, nádegas voluptuosas até o ventre ávido com nuto pro concúbito. Por você terei o muito de todo tudo, porque na paixão, o que for demais além da infinitude, para o querer, ainda é muito pouco. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOS – Há duas maneiras fáceis de se mover pela vida: acreditar em tudo ou duvidar de tudo. Ambos nos evitam de pensar. Uma das origens óbvias do desacordo entre os humanos é o uso de ruídos em lugar das palavras. Deus pode perdoar seus pecados, mas seu sistema nervoso não. Pensamento do filósofo, cientista e engenheiro polonês Alfred Korzybski (1879-1950).

ALGUÉM FALOU: O que não tem mais vontade nem mais gosto do que a vontade e o gosto alheios, pode ser tido como verdadeiro escravo. Fazer poesia é confessar-se. Pensamento do poeta e dramaturgo alemão Friedrich Gottlieb Klopstock (1724-1803).

A FUGITIVA – [...] Você se tornou aquilo que todos os assistentes sociais que sempre se preocuparam com você temiam. Seu temor mais profundo. Uma prostituta viciada. [...] A verdade dói, não dói? [...] Sou como aquelas bonecas russas. Têm o formato feminino, são feitas de madeira e têm motivos pintados nelas. Uma linha as corta ao meio. Você tira as duas metades e dentro encontra uma outra boneca, com exatamente os mesmos motivos, apenas menores. Você as desmonta, uma a uma, e sempre encontra uma por baixo – até que chegue ao miolo, a sólida mulher de madeira com seus motivos agora obscuros. Sempre me surpreendo e me desaponto quando não há mais bonecas multiplicando-se, sem fim, até a última, tão pequena que se tornaria microscópica. [...]. Trechos extraídos da obra A fugitiva: o diário de uma menina de rua (Scipione,1997), da escritora canadense Evelyn Lau. Veja mais aqui.

POEMA SOBRE OS MEUS DIREITOS - Mesmo hoje eu preciso dar uma volta e arejar / minha cabeça em relação a esse poema que é sobre porque eu não posso / sair sem trocar de roupa de sapato / a postura do meu corpo meu gênero minha identidade minha idade / meu status como mulher sozinha à noite/ sozinha na rua/ sozinha não é o problema/ o problema é que eu não posso fazer o que eu quero / fazer com meu próprio corpo porque eu tenho o gênero / errado a idade errada a pele errada e / suponha que isso não fosse aqui na cidade mas lá na praia / ou longe no interior e eu quisesse ir / pra esses lugares sozinha pensando em Deus/ ou pensando / sobre filhos ou pensando sobre o mundo/ tudo isso / revelado pelas estrelas e pelo silêncio: / eu não poderia ir e eu não poderia pensar e eu não poderia / ficar lá / sozinha / como eu precisava estar / sozinha porque eu não posso fazer o que eu quero com meu próprio / corpo e / quem neste caralho arrumou as coisas / desta forma? / e na França eles dizem que se o cara penetrar / mas não ejacular então ele não me / estuprou / mesmo se eu der uma facada nele e gritar / e implorar pro filho da puta e mesmo depois que eu esmagar / a cabeça dele com um martelo e mesmo se depois disso ele / e seus bróder me estuprarem mesmo depois disso / dizem que eu consenti e não houve / estupro porque finalmente você entende finalmente / ele me foderam porque eu estava errada eu estava / errada de novo por estar ali/ errada / por ser quem eu sou / o que é exatamente como na África do Sul / penetrando na Namíbia penetrando em / Angola e isso significa quero dizer... como você sabe se / Pretória ejacula como vai ser a evidência a / prova da monstruosa e ditatorial ejaculação na Terra Preta? / e se / depois da Namíbia e depois de Angola e depois do Zimbábue / e se depois de todos meus antepassados e antepassadas resistirem até mesmo / à autoimolação das vilas e se mesmo assim / depois disso perdermos o que os garotões vão dizer? eles vão / alegar que consenti?: / Você tá me entendendo?: nós somos as pessoas erradas / com a pele errada no continente errado e por que / caralhos as pessoas estão sendo razoáveis sobre isso? / e de acordo com o Times essa semana / lá em 1966 o Serviço Secreto Americano decidiu que eles tinham um problema / e o problema era um homem chamado Nkrumah então eles / mataram ele e antes dele teve Patrice Lumumba / e antes dele teve meu pai no campus / da universidade de elite que eu fazia e meu pai com medo / de entrar no refeitório porque ele disse que ele / estava errado a idade errada a pele errada a identidade / de gênero errada e ele estava pagando minhas mensalidades e / antes disso / era meu pai quem dizia que eu estava errada que / eu devia ter nascido menino porque ele queria um/ um / menino e que eu devia ter a pele mais clara / e que eu devia ter um cabelo mais liso e que / eu não devia ser tão paqueradora e em vez disso eu devia / ser apenas/ um menino e antes disso / era minha mãe sugerindo cirurgia plástica pro / meu nariz e aparelho pros meus dentes e me dizendo / pra deixar esses livros pra lá para deixá-los pra lá em outras / palavras / Eu estou muito ciente dos problemas do Serviço Secreto Americano / e dos problemas da África do Sul e dos problemas / das empresas petroleiras e os problemas da América / branca em geral e os problemas dos professores / e dos religiosos e da polícia e dos assistentes / sociais e em particular de Mamãe e de Papai/ eu estou muito / ciente dos problemas porque esses problemas / tornam-se / eu / Eu sou a história do estupro / Eu sou a história da rejeição de quem eu sou / Eu sou a história do aterrorizante encarceramento da / minha pessoa / Eu sou a história de ameaças espancamentos e infinitos / exércitos que são contra qualquer coisa que eu queira fazer com minha mente / e meu corpo e minha alma e / quer isso seja sobre andar de noite / ou sobre o amor que eu sinto ou / sobre a santidade da minha vagina ou / a santidade das minhas fronteiras nacionais / ou a santidade dos meus líderes ou a santidade / de cada um dos meus desejos / que eu conheço por causa do meu particular idiossincrático / inquestionavelmente solteiro e extraordinário coração / Eu fui estuprada / por- / que eu tenho tido o gênero errado a idade errada / a pele errada o nariz errado o cabelo errado a / necessidade errada o sonho errado a geografia errada / a roupa errada eu / Eu tenho sido o que estupro significa / Eu tenho sido o problema que todo mundo tenta / eliminar por penetração / forçada com ou sem evidência de secreção mas/ que esse poema seja inconfundível / ele não é consentimento – eu não dou consentimento / a minha mãe a meu pai aos meus professores / à polícia à África do Sul à periferia / ao bairro rico à empresa aérea aos vagabundos / com pau-duro nas esquinas aos tarados espiando de dentro dos / carros / Eu não estou errada: Errada não é meu nome / Meu nome é meu meu meu / e eu não posso te dizer quem fez as coisas assim nessa porra / mas eu posso te dizer que de agora em diante minha resistência / minha simples, diurna e noturna autodeterminação / pode muito bem custar a sua vida. Poema da premiada poeta, professora e ativista afro-caribenha June Jordan.





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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

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