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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

ŽIŽEK, GIROUX, HALLDÓR LAXNESS, JOSEPH BENNET, JACOB DE HAAN, CRIS OLIVEIRA, JANINE JANSEN, YVONNE JEANETTE KARLSE, CORLISS LESSER, DAY WILLIAMS & JUSTINITA

A SINA DE JUSTINITA – Imagem: Lady Justice under fire, art by Day Williams. - Desde o dia em que fora atropelada pela cabrita, ocorrera uma drástica transformação no comportamento de Justinita. Ao pensar se ao invés do golpe caprino fosse ela recolhida pelo caminhão desgovernado, hoje estaria de pés juntos no reino dos esquecidos. O destino assim quisera, ela refeita do susto. Esse fato fizera repensar a vida e pode perceber ao seu redor a miséria dos famintos, o desamparo dos despejados, o sofrimento dos desvalidos, o desespero dos desabrigados. Aos seus olhos isso tudo era injusto, Deus não promoveria tanto sofrimento à toa, por certo haveria outra razão para tal desgraça. Homens, mulheres, crianças, idosos, tanta gente supliciada, tudo isso provocava nela um ar de soturnidade jamais visto na sua sempre sorridente forma de ser. Tinha de fazer alguma coisa, não sabia, logo descobriria. E assim passou dias imaginando como saber a verdade e ajudar os pobres coitados que sofriam em todos os lugares pela periferia da cidade. Voluntariamente passou a assistir os necessitados, visitando abrigos, hospitais, penitenciárias, manicômios, e a cada visita chorava com tanto meninos e meninas cancerosas, tantos macróbios abandonados, tantos pobres desassistidos, tantos presos amontoados, era sofrimento demais para sua sensibilidade. Nas suas visitas levava o que podia de alimentos, abraços, palavras amigas, lágrimas de solidariedade. Mas logo percebeu que caridade não resolveria, dia mais dia, nada mudaria se ficasse apenas na filantropia, precisava fazer algo mais e não sabia. E usou de sua jovialidade encantadora para promover campanhas em defesa dos desassistidos. Por ser uma jovem bela e sedutora, muitos simpatizantes logo acorreram em socorro e aumentaram o prestígio das suas manifestações. Cobiçada por todos os marmanjos da cidade, não demorou muito a ser disputada por advogados, promotores, juízes, desembargadores e até ministros que lhe prometiam fundos vultosos para seus pleitos, afora o apoio irrestrito no que ela pretendesse realizar para alcançar seus intentos. A sua causa logo alcançou a marca de milhões de participantes, chegando mesmo a ter ações como a construção de casas populares, assistência médico-hospitalar gratuita para os enfermos, assistência social para os desamparados, enfim, tornou-se o símbolo da defensora dos pobres e oprimidos. Logo cogitaram filiações partidárias para pleito eleitoral, ao que ela imediatamente rechaçou alegando completa descrença nas coisas de política e nas promessas eleitoreiras, deixando claro que se os políticos e autoridades até então nada fizeram por tais problemas, não seria agora que partidos e gestores tomariam a iniciativa de fazê-lo. Não, mil vezes disse não, alegando a partir de agora ser a responsabilidade de cada ser humano a preservação da sua espécie, promovendo a existência do outro na verdadeira iniciativa pela proteção e promoção do exercício da cidadania e dignidade da pessoa humana entre todos e isso começava por ela, era o seu exemplo, quem quisesse que seguisse. Contudo, não contava ela com as astúcias ardilosas dos cortejadores, entendia que era presenteada não por algo em troca, mas pela sensibilização das pessoas por sua causa. Jamais previra a incestuosa intenção de um seu irmão de criação agora representante do Ministério Público, nem a investida estupradora de um primo em terceiro grau, muito menos que seria vendada pelo juridiquês de advogados, a ponto de não ver mais nada e enredada numa teia de tenebroso coral barítono, Eu não vejo nada, e mãos tateavam suas carnes por baixo de suas vestes, pegavam-lhe dos pés à cabeça a puxar-lhe a calcinha pernas abaixo, a soltarem o sutiã, remover-lhe as vestes e deixa-la nua desamparada, pegada, puxada, levada, agarrada, beliscada, apertada, e uma grave voz: Cumpra-se! E mais era tomada por muitas mãos na sua cegueira, e riam cochichando que ia dormir com o juiz no primeiro sono, muitos juízes, e com desembargadores o segundo o sono, e com os ministros o terceiro sono, e ouvia e tentava se soltar e acorrentada por mãos e riam, murros em mesas, gritos exigindo silêncio, muitas vozes no seu juízo e sentiu a vagina invadida por um pênis enlouquecido, muitos outros e tantos pênis se enfiavam nela, no seu ânus, sua boca, ouvido, muitos e mais pênis esfregando-se em suas faces, ao pescoço, aos ombros, seios, mãos, entre as pernas e coxas, costas e ventre, gargalhadas insolentes explodiram enquanto sentia a urina deles sobre seu rosto e corpo, chamavam-na de puta, gritavam safada, quenga, puta, puta, e quanto mais relutava mais era fodida, cuspida, mijada, seviciada, nada podia fazer senão desmaiar e morrer, nunca mais acordar. Ao recobrar os sentidos, nua algemada, vendada e amordaçada, o frio e vozes como solenidade do Tribunal do Juri, muitas vozes de ambiente repleto de gente e ela ali desamparada entre sentenças e penas. Não sabia nada, não via nada, nada podia fazer ali, nada mais a fazer por nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: Bound Justice, art by Corliss Lesser.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do compositor holandês Jacob de Haan: Concerto d’ Amore, Ross Roy, Utopia & Pacific Dream; a interpretação da virtuosa e belíssima violinista e violista holandesa Janine Jansen: Concert Tchaikovisky Live, Four Seasons Vivaldi e Concert Violin Dvorak; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ensinar, nos termos de Paulo Freire, nãoé simplesmente estar na sala de aula, mas estar na hostória, na esfera mais ampla de um imaginário político que oferece aos educadores a oportunidade de uma enorme coleção de campos para mobilizar conhecimentos e desejos que podem levar a mudanças significativas na minimalização do grau de opressão na vida das pessoas. [...]. Extraido da obra Um livro para os que cruzam fronteiras (Cortez 1996), do pedagogo e crítico cultural estadunidense Henry Giroux.

DESERTO DO REAL - [...] Sempre que cencontramos um mal tão puro no exterior, devemos reunir a coragem para apoiar a lição hegeliana: nesse exterior puro, nós devemos reconhecer a versão destilada de nossa propria essência. Pois nos últimos cinco séculos a prosperidade e paz (relativas) do Ocidente “civilizado” foram compradas pela exportação de impiedosa violência e destruição ao Exterior “bárbaro”: a longa história desde a conquista da América ao massacre no Congo. Por mais que soe cruel e indiferente, nós também deveríamos, agora mais do que nunca, ter em mente que o efeito desses ataques é de fato muito mais simbólico do que real. [...] Os EUA apenas experimentaram o que acontece no resto do mundo diariamente, de Sarajevo a Grozni, de Ruanda e do Congo a Serra Leoa. Se forem adicionados à situação em New York atiradores de elite e estupros em massa, é possível ter uma ideia do que era Sarajevo uma década atrás. Foi quando assistirmos na tela de TV ao colapso das duas torres do World Trade Center que se tornou possível experimentar a falsidade de “reality shows” da TV: mesmo se esses shows forem “de verdade”, as pessoas ainda atuam neles – elas simplesmente atuam como elas mesmas. [...]. Trechos extraídos da obra Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas – Estado de Sítio (Boitempo, 2003), do filósofo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui e aqui.

A ESTAÇÃO ATÔMICA – [...] E como essas palavras de uma saga soavam falso, em sua boca, tentou dar=-lhe peso, atirando-se em cima de mim. Bateu-me, várias vezes, com seus punhos serrados. Depois tentou morder-me, mas não o permiti. Acabou perdendo a vontade de lutar comigo e quando viu que não conseguia desembaraçar-se voltou ao vestíbulo e lá, bem no meio do aposento, após a luta, deixou escorregar, de seus ombros magros, até o chão o casado de pele, como se o estivesse perdendo. E lá o deixou, como se abandonasse uma pele de animal dos encantamentos. Voltara a ser uma menina, com seus gestos desajeitados e desarticulados. Encolheu-se a um canto do sofá, o queixo nos joelhos, os pinhos fechados sobre os olhos e pos-se a chorar: a princípio, com grandes soluços e grandes suspiros, depois, lamuriante como uma criança que se lamenta. Então vi que não se tarataba apenas de comédia. Ou seria uma comedia bem representada? Tentei aproximar-me dela, com o máximo de precaição possível [...] O resultado dessa discussão foi que a senhorita Sangue de Maçã nada fez do que ameaçou. Por sua vez, não iria suicidar-se, nem mataria seu amante. Mas pediu-me licença para dormir comigo o resto da noite, porque era pequena e tinha os nervos fracos, enquanto eu era robusta e vinha do campo. [...]. Procurei com o olhar o caminho mais curto para sair dessa praça, apertei meu buquê de flores contra o peito e pus-me a caminhar. Que preço teria tido a vida, a meus olhos, se essas flores não tivessem existido? Trechos da obra A estação atômica (Delta, 1966), do escritor islandês Halldór Laxness (1902-1998), Prêmio Nobel de 1955.

OUTONAL – Andas sobre o outonal assoalho, onde o seu corpo, / dela, sob três pés de folhas decompõe-se / imensos membros seus trazidos pelo vento. / E nos montes de terra o cavalo furioso / mergulha, vira e corre através de tal carne. / Ela, a flama outonal, a carne em taça molda, / onde sólida e espessa a carne impede o vento. / A fumaça a fluir do arruinado cadáver / oculto à palidez no intimo da pele / e a urina as folhas suja embaixo do cavalo. / O sentido da massa envolve estes cavalos / ao tempo emque um a um mergulha sobre a carne. / A sempre devagar liquescência da pele / é o espesso queimar do cadáver corrupto. / Esra plimagem trela ao vento solta livre! / Nesse vento a fluir os gases que se evolam / as memórias arrancam do afogado cavalo. / As árvores, largando a carne, cegas vão. / A folha a se erodir na fusão do cadáver. / As fissuras se abrindo em chamas pela pel. / Suporta a forte vinha o impulso sob a pele. / Combustivel suporta o óleo espesso da carne, / o gás a vista ensopa ao cavalo enforacado / as chamas a jorrar pelos poros do vento / pegam o focal estilo achado no cadáver. / Cadáver em chama nu exposto a todo vento / o cavalo a arder se difundindo em pele / a folha a extinta folha a correr sobre a carne. Poema do poeta estadunidense Joseph Bennet.

O LEITO POR DETRÁS DO RIO, DESTILAR A PELE
O leito por detrás do rio, destilar a pele é um solo concebido e interpretado pela atriz Cris Oliveira, resultado da pesquisa interdisciplinar sobre a percepção e os cinco sentidos, em especial o tato. A experiência partiu da interação da pele com os elementos: leite, mel, água, óleo e sangue. A temática trata dos limites do corpo e a re-materialização da própria identidade, enquanto substância. O trabalho apropria-se do sentido filosófico e alquímico dos elementos na busca por transformação.

Veja mais:
Justinita & a cabrita braba, o pensamento de Amartya Sen & Zilda Arns, a crônica de Kledir Ramil, o cinema de Penny Marshall & Elizabeth Perkins, a arte de Dorina Costras, a música de Arnaldo Antunes & Roberta Sá aqui.
Rascunho solitário, a literatura de Arturo Ambrogi, a música de Edino Krieger, a pintura de Camille Corot & a arte de Jim Thompson aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás, a música de Sonia Bach, a fotografia de Mariana Beltrame & a pintura de Umberto Boccioni aqui.
Quando te vi na Crônica de amor por ela, Marques Rebelo, Eduardo Giannetti, Luzilá Gonçalves, Francis Poulenc, William Shakespeare, Patrícia Petibon, Anatol Rosenfeld, Anésia Pinheiro Machado, Marcela Rafea, Franz von Bayros, Asztalos Gyula & Magda Zallio aqui.
Marguerite Duras & Todo dia é dia da mulher aqui.
Pagu – Patrícia Galvão & Todo dia é dia da mulher aqui.
Serenar na Crônica de amor por ela, Dinah Silveira de Queiroz, Jacques Prévert, Validivar, Paulo Santoro, Arieta Corrêa, Wong Kar-Wai, Manuel Puig, Peter Greenaway, Elisete Retter, Shirley Kwan, Agi Strauss, A educação e seus problemas & Lilian Pimentel aqui.
A árvore de Humberto Maturana & Francisco Varela, Darel Valença Lins, Luiz Melodia, Terra Oca & Lady Francisco aqui.
Debussy, Pierre Bonnard, Laurindo Almeida, Carl Rogers, Emily Greene Balch & Pós-Modernidade aqui.
Projeto Tataritaritatá aqui.
Educação, Sexualidade & Orientação Sexual aqui.
Big Shit Bôbras: Ói nois aqui traveiz aqui.
Big Shit Bôbras: o despranaviado geral aqui.
A campanha do Doro Presidente aqui.
Tolinho & Bestinha: Quando Bestinha enfiou-se na bronca da vida e num teve quem desse jeito aqui.
O que deu, deu; o que não deu, só na outra aqui.
Aprendi a voar nas páginas de um livro aqui.
Canção de quem ama além da conta aqui.
Inutescência & Maria Luísa Persson aqui.
Ulysses Gaze, Eleni Karaindrou & Kim Kashkashian, Tunga & Giuseppe Gioachino Belli aqui.
Steven Pinker & Lou Vilela aqui.
Psicanálise & Roger Cruz aqui.
Nélida Piñon, Oduvaldo Vianna Filho & Júlio Pomar aqui.
O pensamento de Arthur Schopenhauer aqui e aqui.
O cinema de Luis Buñuel aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A arte de Andy Warhol aqui e aqui.
Dia Branco, Ítalo Calvino, Isaac Newton, Henrich Heine, Mark Twain, Moisés, John Watson, Meio Ambiente & Programa Tataritaritatá aqui.
As muitas e tantas do Rei Salomão aqui.
Cantiga de amor pra ela & Programa Tataritaritatá aqui.
Haroldo de Campos & Jacques Lacan aqui.
Tempo & Expressão Literária de Raúl Castagnino & Totem e Tabu de Freud aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Yvonne Jeanette Karlse.
Veja mais aqui.

quinta-feira, março 07, 2013

DEOLINDA ALMEIDA, LAXNESS, GORZ, MONTERROSO, SHIRLEY HAZZARD, DENMARK, INA GARDEN & XENÓFANES

 


PALAVRAS & VÍRGULAS – UMA: LIÇÃO SUPERCENTENÁRIA: Estava eu no meio das minhas leituras quando me deparei com uma revista aberta e lá constava uma matéria sobre a pediatra supercentenária estadunidense, Leila Denmark (1898-2012), que expressava: Qualquer coisa na terra que você queira fazer é jogar. Qualquer coisa na terra que você tem que fazer é trabalho. O jogo nunca vai te matar, o trabalho sim. Nunca trabalhei um dia na minha vida... Ôpa, lição valiosa essa. Principalmente porque vinha da única mulher a graduar-se na Escola Médica e, ao se casar, foi morar com o marido na ilha de Java, onde as esposas não eram permitidas. Entre as suas grandes façanhas está a desenvolver a vacina da tosse convulsa, afora ter dedicado à pediatria grande parte da sua vida nos mais diversos hospitais, até festejar sues longos 114 anos de idade. Vida longa e exemplar. DUAS: DO DESTINO & DA POESIA – Não foi à toa que, depois de ler grande parte da biografia da média, logo em seguida, me caiu às vistas as palavras do escritor e dramaturgo islandês, Halldór Laxness (1902-1998): A esperança e o destino são irmãos, e ambos repousam no mesmo coração... Pois o homem está essencialmente sozinho, e deve-se ter pena dele, amá-lo e sofrer com ele... Quem não vive na poesia não pode sobreviver aqui na terra... (Veja mais dele aqui e aqui). TRÊS: PRA QUÊ LEVAR TUDO TÃO A SÉRIO – Fiquei um tempo meditando a respeito, no meio da confusão dos pensamentos, eis que me surgem as palavras da escritorapresentadora estadunidense Ina Garden, que falava das suas proezas com receitas culinárias: Diversão é o mais importante. Se você fizer coisas por dinheiro, nunca funciona. Eu tenho hora para tudo. Eu sou um cientista no coração... De fato, fazer o que gosta é fundamental para não se martirizar na vida. E vamos aprumar a conversa!

 


DITOS & DESDITOS - A ideologia do trabalho e a ética do esforço tornam-se assim disfarces para o egoísmo e o carreirismo ultracompetitivos: os melhores triunfam, os outros só podem culpar a si próprios; o trabalho árduo deve ser incentivado e recompensado, o que significa que não devemos subsidiar os desempregados, os pobres e todos os outros 'preguiçosos'... Diante dessa sociedade que se tornou estranha a sí mesma, temos dois tipos de rebeliões em todos os países. Por um lado, as pessoas culturalmente equipadas para assumir sua autonomia, elas exigem do poder do estado e do dinheiro a criação de espaços de solidariedade autogerida, por outro lado, temos a reação regressiva daqueles que gostariam de reencontrar a segurança de uma ordem pré-moderna, estável, hierarquizada, fortemente integradora, na qual, desde o nascimento, cada um tem seu lugar garantido e determinado pelo fato de pertencer a sua nação ou raça... Pensamento do filósofo austro-francês André Gorz (1923-2007). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O homem não está satisfeito em ser o animal mais estúpido da criação; Além disso, ele se permite o luxo de ser o único ridículo... Você sofre de uma das doenças mais normais da raça humana: a necessidade de se comunicar com seus semelhantes... Um leitor aborrecido é o fracasso do escritor... Pensamento recolhido das obras do escritor hondurenho Augusto Monterroso Bonilla (1921-2003). Veja mais aqui.

 

TRÂNSITO DE VÊNUS - [...] Quando você percebe que alguém está tentando te machucar, dói menos... A menos que você os ame. [...] Eu nunca tive, ou desejei, poder sobre você. Isso não é verdade, claro. Eu queria o maior poder de todos. mas não vantagem ou autoridade. [...] Mas, com uma nostalgia ininteligível de uma vida que ela nunca viveu, sabia que tudo teria sido sutil e profundamente diferente se seu marido a amasse muito. [...] Ela estava começando a olhar para homens e mulheres como companheiros de sobrevivência: bons dissimuladores de seus infortúnios, que, com poucos sinais de pesar, haviam contido, assimilado ou colocado em uso sua própria destruição. Daqueles que suportaram o pior, nem todos se comportaram de maneira nobre ou consistente. mas todos, involuntariamente, tornaram-se parte de alguma afirmação mais profunda da vida. [...] No outro extremo da sala, os três velhos discutiam enfermidades; trocando sintomas em voz baixa, como os meninos podem falar de luxúria. [...] Seus olhos estavam arregalados e desbotados com a descoberta do que, de comum acordo humano, é melhor não divulgar. [...] A doçura que todos ansiavam noite e dia. Alguma tragédia pode ser imaginada à toa - perda ou doença. Ela tinha a luminosidade de quem está prestes a morrer. [...]. Trechos extraídos da obra The Transit of Venus (Virago, 1995), da escritora australiana Shirley Hazzard (1931-2016), autora de frases lapidares como: Os seres humanos precisam de infelicidade pelo menos tanto quanto eles precisam de felicidade... A tragédia não é que o amor não dure. A tragédia é o amor que dura... Nada cria tal inverdade em você como o desejo de agradar... Para a maioria das pessoas é mais fácil apoiar uma pessoa eminente em desgraça merecida do que um obscuro que foi injustiçado...

 

DOIS POEMAS - A MAMÃ: África \ Mamã África\ Geraste-me no teu ventre\ nasci sob o tufão colonial\ chuchei teu leite de cor\ cresci\ atrofiada mas cresci\ juventude rápida\ como a estrela que corre\ quando morre o nganga.\ Hoje sou mulher\ não sei já se mulher se velhinha\ mas é a ti que venho\ África\ Mamã África.\ Tu que me geraste\ não me mates\ não praguejes um rebento teu,\ senão\ não tens futuro.\ Não sejas matricida\ Sou Angola, a tua Angola.\ Não te juntes ao opressor\ ao amigo do opressor\nem a teu filho bastardo.\Eles caçoam de ti.\ Caíste na ratoeira\ enganada\ não distingues o verdadeiro do falso\ no teu candidato e secular vigor\ cegaste,\ e agora és tu\ África\ Mamã África\ que dás força ao irmão bastardo\ para asfixiar-me\ azagaiar-me pelas costas.\ O opressor, o amigo do opressor \ o teu filho bastardo\ (também tu, Mamã África?)\divertir-se-ão\ \ao ouvir-me expirar. \Mas África\Mamã África\ P’lo amor de coerência\ Inda quero crer em ti. INQUIRINDO: Carrascos de upistas\ espia de tugas\ prostituta\ mulher metida em política\ aqui estou etiquetada disso\ inquirindo o fim deste pesadelo\ inquirindo\ cada vez que soa o passo bruto,\ ronca o jeep militar,\ a corneta toca formatura geral.\ Colam-me o guarda à porta.\ Será o pelotão do talho,\ a minha vez, a dele\ um camarada na margem direita\ o capitão conga vem levar-nos\ agora ou nunca?\ Aqui estou eu inquirindo\ sempre inquirindo\ Na ilha do inferno não há túnel.\Vietname acabou abuso yankee.\ Colômbia retomou caminho da dignidade.\ Outra mina rebentou em Pretória.\ Acima de tudo\ Ripanzu\(com Cienfuegos, Kamy e o outro)\avança.\ Consertando o estragado\ varrendo o colonialista\ edificando o lógico.\Brazza transmitiu a marcha do Kamy?\ Inquirindo\ inquirindo p’ra manter\ a luta constante\ entre o suicídio à espreita\ e este louco redemoinho\ até a manhã chegar,\ sair viva do campo da morte\ e poder ser útil\ na liberdade de escolha\ da responsabilidade a tomar\ a liberdade de ação\ para realizá-la. Poema da poeta e socióloga angolana Langidila -  Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida (1939-1967), cognominada Mãe da Revolução e autora das obras como "Caxicane” (1956), "Luanda – Já não és a Luanda de então” (1956) e "Estrela de Belém” (1957), que foi capturada, torturada e executada pela União dos Povos de Angola (UPA), mais tarde denominada Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), no contexto da luta fratricida que opunha o MPLA à UPA/FNLA. Um documentário sobre a sua vida foi realizado em 2014 e seus poemas foram recolhidos da obra Antologia da poesia feminina dos PALOP - Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – (Laiovento, 1998), organizada por Xosé Lois Garcia.

 



OS ELEATAS: XENÓFANES DE COLOFÃO – A filosofia eleática representa uma importação grega e precisamente jônica, para a Italia do sul. O fundador da assim chamada escola, do lugar onde ela floresceu, Eléia, é Xenofanes, nascido em Colofão, na Asia Menor, pelos anos 580-75 a.C. ele foi poeta, sábio e rapsodo, cantando seus poemas atra´vés da Grécia. Quando os persas avançaram vitoriosos para a Jonia, fugiu de sua terra natal em 546, e, apos longa peregrinação, estabeleceu-se em Eléia, colonia jonica da Magna Grecia, onde fundou sua escolacom mais de noventa anos. Ele expôs as suas concepções filosoficas em um poema doutrinal A natureza, de que restam fragmentos, onde ele expos idéias filosoficas, narrando fatos sobre a invasão dos medas e sobre sua vida pessoal. Além disso, deixou poemas satíricos, criticando, em nome das novas idéias filosoficas, a mentalidade vulgar, particularmente quanto à concepção do divino, criticando decididamente o politeismo e o antropomorfismo de Homero e Hesíodo – que nada mais representam que a concepção popular, vulgar da religião e do divino – sustenta que há uma unica substancia divida, eterna e imutável, tudo abraçando e governando com o pensamento. Vale dizer, lança as bases do monismo acósmico, a caracteristica dos eleatas. Apoiado na visão do universo como constituido a partir de uma única origem, a arché, que os pensadores jonicos qualificavam de divino, Xenófanes proclamou que “Um deus supremo entre os deuses e os homens; nem em sua forma, nem em seu pensamento é igual aos mortais”. Começava o combate aos deuses antropomórficos, gerdados da tradição homérica. Fez-se famoso pelos ataques contra Tales, Pitágoras e Parmênides.
Xenófanes determinou primeiro o ser absoluto como o um: “O todo é um”. Designou isso também Deus; afirmou que Deus está implantado em todas as coisas, que ele é supra-sensível, imutável, sem começo, meio e fim, imóvel. Em alguns de seus versos diz ele: “Um Deus é o maior entre os deuses e os homens, e não é comparável aos mortais, nem quanto à figura nem quanto ao espírito”. E: “Ele vê em toda parte, pensa em toda parte e ouve em qualquer lugar”. Então, o verdadeiro somente é que Deus é o um – não no sentido de que haja um deus (isto é, uma outra determinação), mas de que ele é apénas este igual a si mesmo; nisto, pois, não está contida outra determinação que na afirmação da Escola Eleática. “É impossíevl que algo venha do nada. Mas quer tudo tenha surgido, quer apenas nem tudo seja eterno, em ambos de casos viria do nada. Pois, se tudo tivesse surgido, antes nada poderia ter sido. E se apenas algumas coisas fossem e delas todo o resto se originasse, então, este um, do qual todo o resto (que aparece) surgiria, tornar-se-ia mais e maior. Mas o mais e o maior se originariam, desta maneira, do nada de si mesmo; pois no menos não está contido seu mais, nem no menor seu maior. Tampouco pode algo surgir do ente, pois o ente já é, e não surge desde o ente”.
Veja mais aqui e aqui.

FONTES:
ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Atica, 2002.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luis. Historia da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
PESSANHA, José Américo Motta (Org). Os pré-socraticos. São Paulo: Abril, 1978.
SOUZA, José Cavalcante. Os pré-socrático. São Paulo: Abril, 1978.




Veja mais sobre:
Por você na Crônica de amor por ela, Safo, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Autran Dourado, Regina Silveira, Khadja Nin, Alexandre Dáskalos, Sam Taylor-Wood, Erika Leonard James, Eduardo Schloesser, Dakota Johnson & Kel Monalisa aqui.

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Darcy Ribeiro, Autran Dourado, Damaris Cudworth Masham, Loius Claude de Saint-Martin, Juan Orrego-Salas, Irina Vitalievna Karkabi, Doença & Saúde aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!
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Paz na Terra: 
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...