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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

ŽIŽEK, GIROUX, HALLDÓR LAXNESS, JOSEPH BENNET, JACOB DE HAAN, CRIS OLIVEIRA, JANINE JANSEN, YVONNE JEANETTE KARLSE, CORLISS LESSER, DAY WILLIAMS & JUSTINITA

A SINA DE JUSTINITA – Imagem: Lady Justice under fire, art by Day Williams. - Desde o dia em que fora atropelada pela cabrita, ocorrera uma drástica transformação no comportamento de Justinita. Ao pensar se ao invés do golpe caprino fosse ela recolhida pelo caminhão desgovernado, hoje estaria de pés juntos no reino dos esquecidos. O destino assim quisera, ela refeita do susto. Esse fato fizera repensar a vida e pode perceber ao seu redor a miséria dos famintos, o desamparo dos despejados, o sofrimento dos desvalidos, o desespero dos desabrigados. Aos seus olhos isso tudo era injusto, Deus não promoveria tanto sofrimento à toa, por certo haveria outra razão para tal desgraça. Homens, mulheres, crianças, idosos, tanta gente supliciada, tudo isso provocava nela um ar de soturnidade jamais visto na sua sempre sorridente forma de ser. Tinha de fazer alguma coisa, não sabia, logo descobriria. E assim passou dias imaginando como saber a verdade e ajudar os pobres coitados que sofriam em todos os lugares pela periferia da cidade. Voluntariamente passou a assistir os necessitados, visitando abrigos, hospitais, penitenciárias, manicômios, e a cada visita chorava com tanto meninos e meninas cancerosas, tantos macróbios abandonados, tantos pobres desassistidos, tantos presos amontoados, era sofrimento demais para sua sensibilidade. Nas suas visitas levava o que podia de alimentos, abraços, palavras amigas, lágrimas de solidariedade. Mas logo percebeu que caridade não resolveria, dia mais dia, nada mudaria se ficasse apenas na filantropia, precisava fazer algo mais e não sabia. E usou de sua jovialidade encantadora para promover campanhas em defesa dos desassistidos. Por ser uma jovem bela e sedutora, muitos simpatizantes logo acorreram em socorro e aumentaram o prestígio das suas manifestações. Cobiçada por todos os marmanjos da cidade, não demorou muito a ser disputada por advogados, promotores, juízes, desembargadores e até ministros que lhe prometiam fundos vultosos para seus pleitos, afora o apoio irrestrito no que ela pretendesse realizar para alcançar seus intentos. A sua causa logo alcançou a marca de milhões de participantes, chegando mesmo a ter ações como a construção de casas populares, assistência médico-hospitalar gratuita para os enfermos, assistência social para os desamparados, enfim, tornou-se o símbolo da defensora dos pobres e oprimidos. Logo cogitaram filiações partidárias para pleito eleitoral, ao que ela imediatamente rechaçou alegando completa descrença nas coisas de política e nas promessas eleitoreiras, deixando claro que se os políticos e autoridades até então nada fizeram por tais problemas, não seria agora que partidos e gestores tomariam a iniciativa de fazê-lo. Não, mil vezes disse não, alegando a partir de agora ser a responsabilidade de cada ser humano a preservação da sua espécie, promovendo a existência do outro na verdadeira iniciativa pela proteção e promoção do exercício da cidadania e dignidade da pessoa humana entre todos e isso começava por ela, era o seu exemplo, quem quisesse que seguisse. Contudo, não contava ela com as astúcias ardilosas dos cortejadores, entendia que era presenteada não por algo em troca, mas pela sensibilização das pessoas por sua causa. Jamais previra a incestuosa intenção de um seu irmão de criação agora representante do Ministério Público, nem a investida estupradora de um primo em terceiro grau, muito menos que seria vendada pelo juridiquês de advogados, a ponto de não ver mais nada e enredada numa teia de tenebroso coral barítono, Eu não vejo nada, e mãos tateavam suas carnes por baixo de suas vestes, pegavam-lhe dos pés à cabeça a puxar-lhe a calcinha pernas abaixo, a soltarem o sutiã, remover-lhe as vestes e deixa-la nua desamparada, pegada, puxada, levada, agarrada, beliscada, apertada, e uma grave voz: Cumpra-se! E mais era tomada por muitas mãos na sua cegueira, e riam cochichando que ia dormir com o juiz no primeiro sono, muitos juízes, e com desembargadores o segundo o sono, e com os ministros o terceiro sono, e ouvia e tentava se soltar e acorrentada por mãos e riam, murros em mesas, gritos exigindo silêncio, muitas vozes no seu juízo e sentiu a vagina invadida por um pênis enlouquecido, muitos outros e tantos pênis se enfiavam nela, no seu ânus, sua boca, ouvido, muitos e mais pênis esfregando-se em suas faces, ao pescoço, aos ombros, seios, mãos, entre as pernas e coxas, costas e ventre, gargalhadas insolentes explodiram enquanto sentia a urina deles sobre seu rosto e corpo, chamavam-na de puta, gritavam safada, quenga, puta, puta, e quanto mais relutava mais era fodida, cuspida, mijada, seviciada, nada podia fazer senão desmaiar e morrer, nunca mais acordar. Ao recobrar os sentidos, nua algemada, vendada e amordaçada, o frio e vozes como solenidade do Tribunal do Juri, muitas vozes de ambiente repleto de gente e ela ali desamparada entre sentenças e penas. Não sabia nada, não via nada, nada podia fazer ali, nada mais a fazer por nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: Bound Justice, art by Corliss Lesser.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do compositor holandês Jacob de Haan: Concerto d’ Amore, Ross Roy, Utopia & Pacific Dream; a interpretação da virtuosa e belíssima violinista e violista holandesa Janine Jansen: Concert Tchaikovisky Live, Four Seasons Vivaldi e Concert Violin Dvorak; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ensinar, nos termos de Paulo Freire, nãoé simplesmente estar na sala de aula, mas estar na hostória, na esfera mais ampla de um imaginário político que oferece aos educadores a oportunidade de uma enorme coleção de campos para mobilizar conhecimentos e desejos que podem levar a mudanças significativas na minimalização do grau de opressão na vida das pessoas. [...]. Extraido da obra Um livro para os que cruzam fronteiras (Cortez 1996), do pedagogo e crítico cultural estadunidense Henry Giroux.

DESERTO DO REAL - [...] Sempre que cencontramos um mal tão puro no exterior, devemos reunir a coragem para apoiar a lição hegeliana: nesse exterior puro, nós devemos reconhecer a versão destilada de nossa propria essência. Pois nos últimos cinco séculos a prosperidade e paz (relativas) do Ocidente “civilizado” foram compradas pela exportação de impiedosa violência e destruição ao Exterior “bárbaro”: a longa história desde a conquista da América ao massacre no Congo. Por mais que soe cruel e indiferente, nós também deveríamos, agora mais do que nunca, ter em mente que o efeito desses ataques é de fato muito mais simbólico do que real. [...] Os EUA apenas experimentaram o que acontece no resto do mundo diariamente, de Sarajevo a Grozni, de Ruanda e do Congo a Serra Leoa. Se forem adicionados à situação em New York atiradores de elite e estupros em massa, é possível ter uma ideia do que era Sarajevo uma década atrás. Foi quando assistirmos na tela de TV ao colapso das duas torres do World Trade Center que se tornou possível experimentar a falsidade de “reality shows” da TV: mesmo se esses shows forem “de verdade”, as pessoas ainda atuam neles – elas simplesmente atuam como elas mesmas. [...]. Trechos extraídos da obra Bem-vindo ao deserto do real: cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas – Estado de Sítio (Boitempo, 2003), do filósofo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Žižek. Veja mais aqui e aqui.

A ESTAÇÃO ATÔMICA – [...] E como essas palavras de uma saga soavam falso, em sua boca, tentou dar=-lhe peso, atirando-se em cima de mim. Bateu-me, várias vezes, com seus punhos serrados. Depois tentou morder-me, mas não o permiti. Acabou perdendo a vontade de lutar comigo e quando viu que não conseguia desembaraçar-se voltou ao vestíbulo e lá, bem no meio do aposento, após a luta, deixou escorregar, de seus ombros magros, até o chão o casado de pele, como se o estivesse perdendo. E lá o deixou, como se abandonasse uma pele de animal dos encantamentos. Voltara a ser uma menina, com seus gestos desajeitados e desarticulados. Encolheu-se a um canto do sofá, o queixo nos joelhos, os pinhos fechados sobre os olhos e pos-se a chorar: a princípio, com grandes soluços e grandes suspiros, depois, lamuriante como uma criança que se lamenta. Então vi que não se tarataba apenas de comédia. Ou seria uma comedia bem representada? Tentei aproximar-me dela, com o máximo de precaição possível [...] O resultado dessa discussão foi que a senhorita Sangue de Maçã nada fez do que ameaçou. Por sua vez, não iria suicidar-se, nem mataria seu amante. Mas pediu-me licença para dormir comigo o resto da noite, porque era pequena e tinha os nervos fracos, enquanto eu era robusta e vinha do campo. [...]. Procurei com o olhar o caminho mais curto para sair dessa praça, apertei meu buquê de flores contra o peito e pus-me a caminhar. Que preço teria tido a vida, a meus olhos, se essas flores não tivessem existido? Trechos da obra A estação atômica (Delta, 1966), do escritor islandês Halldór Laxness (1902-1998), Prêmio Nobel de 1955.

OUTONALAndas sobre o outonal assoalho, onde o seu corpo, / dela, sob três pés de folhas decompõe-se / imensos membros seus trazidos pelo vento. / E nos montes de terra o cavalo furioso / mergulha, vira e corre através de tal carne. / Ela, a flama outonal, a carne em taça molda, / onde sólida e espessa a carne impede o vento. / A fumaça a fluir do arruinado cadáver / oculto à palidez no intimo da pele / e a urina as folhas suja embaixo do cavalo. / O sentido da massa envolve estes cavalos / ao tempo emque um a um mergulha sobre a carne. / A sempre devagar liquescência da pele / é o espesso queimar do cadáver corrupto. / Esra plimagem trela ao vento solta livre! / Nesse vento a fluir os gases que se evolam / as memórias arrancam do afogado cavalo. / As árvores, largando a carne, cegas vão. / A folha a se erodir na fusão do cadáver. / As fissuras se abrindo em chamas pela pel. / Suporta a forte vinha o impulso sob a pele. / Combustivel suporta o óleo espesso da carne, / o gás a vista ensopa ao cavalo enforacado / as chamas a jorrar pelos poros do vento / pegam o focal estilo achado no cadáver. / Cadáver em chama nu exposto a todo vento / o cavalo a arder se difundindo em pele / a folha a extinta folha a correr sobre a carne. Poema do poeta estadunidense Joseph Bennet.

O LEITO POR DETRÁS DO RIO, DESTILAR A PELE
O leito por detrás do rio, destilar a pele é um solo concebido e interpretado pela atriz Cris Oliveira, resultado da pesquisa interdisciplinar sobre a percepção e os cinco sentidos, em especial o tato. A experiência partiu da interação da pele com os elementos: leite, mel, água, óleo e sangue. A temática trata dos limites do corpo e a re-materialização da própria identidade, enquanto substância. O trabalho apropria-se do sentido filosófico e alquímico dos elementos na busca por transformação.

Veja mais:
Justinita & a cabrita braba, o pensamento de Amartya Sen & Zilda Arns, a crônica de Kledir Ramil, o cinema de Penny Marshall & Elizabeth Perkins, a arte de Dorina Costras, a música de Arnaldo Antunes & Roberta Sá aqui.
Rascunho solitário, a literatura de Arturo Ambrogi, a música de Edino Krieger, a pintura de Camille Corot & a arte de Jim Thompson aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás, a música de Sonia Bach, a fotografia de Mariana Beltrame & a pintura de Umberto Boccioni aqui.
Quando te vi na Crônica de amor por ela, Marques Rebelo, Eduardo Giannetti, Luzilá Gonçalves, Francis Poulenc, William Shakespeare, Patrícia Petibon, Anatol Rosenfeld, Anésia Pinheiro Machado, Marcela Rafea, Franz von Bayros, Asztalos Gyula & Magda Zallio aqui.
Marguerite Duras & Todo dia é dia da mulher aqui.
Pagu – Patrícia Galvão & Todo dia é dia da mulher aqui.
Serenar na Crônica de amor por ela, Dinah Silveira de Queiroz, Jacques Prévert, Validivar, Paulo Santoro, Arieta Corrêa, Wong Kar-Wai, Manuel Puig, Peter Greenaway, Elisete Retter, Shirley Kwan, Agi Strauss, A educação e seus problemas & Lilian Pimentel aqui.
A árvore de Humberto Maturana & Francisco Varela, Darel Valença Lins, Luiz Melodia, Terra Oca & Lady Francisco aqui.
Debussy, Pierre Bonnard, Laurindo Almeida, Carl Rogers, Emily Greene Balch & Pós-Modernidade aqui.
Projeto Tataritaritatá aqui.
Educação, Sexualidade & Orientação Sexual aqui.
Big Shit Bôbras: Ói nois aqui traveiz aqui.
Big Shit Bôbras: o despranaviado geral aqui.
A campanha do Doro Presidente aqui.
Tolinho & Bestinha: Quando Bestinha enfiou-se na bronca da vida e num teve quem desse jeito aqui.
O que deu, deu; o que não deu, só na outra aqui.
Aprendi a voar nas páginas de um livro aqui.
Canção de quem ama além da conta aqui.
Inutescência & Maria Luísa Persson aqui.
Ulysses Gaze, Eleni Karaindrou & Kim Kashkashian, Tunga & Giuseppe Gioachino Belli aqui.
Steven Pinker & Lou Vilela aqui.
Psicanálise & Roger Cruz aqui.
Nélida Piñon, Oduvaldo Vianna Filho & Júlio Pomar aqui.
O pensamento de Arthur Schopenhauer aqui e aqui.
O cinema de Luis Buñuel aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A arte de Andy Warhol aqui e aqui.
Dia Branco, Ítalo Calvino, Isaac Newton, Henrich Heine, Mark Twain, Moisés, John Watson, Meio Ambiente & Programa Tataritaritatá aqui.
As muitas e tantas do Rei Salomão aqui.
Cantiga de amor pra ela & Programa Tataritaritatá aqui.
Haroldo de Campos & Jacques Lacan aqui.
Tempo & Expressão Literária de Raúl Castagnino & Totem e Tabu de Freud aqui.

ARTE DE YVONNE JEANETTE KARLSE
Art by Yvonne Jeanette Karlse


segunda-feira, setembro 18, 2017

LÉVIS-STRAUSS, WILDE, HELEN KELLER, VICTOR HUGO, WILLIAM CARLOS WILLIAMS, LUIZ BARRETO, MICROFISIOTERAPIA & CASARÃO DO ALTO DO INGLÊS

ALTO DO INGLÊS – Imagem: Chalé do Inglês, do pintor Luiz Barreto. Certa feita contou-se um dia lá de não sei quando, o povo todo inheto amontoado nos arredores da estação recém-construída, esperando Maria Fumaça que vinha lá de longe nos trilhos da linha férrea do Recife. Uma espera buliçosa com aquela do vem não vem, pra mais de hora ali plantado de pé, olhando dum lado pro outro, como seria o troço todo, um invento tão esperado, coisa de nunca se vê. Mais tempo depois, então, ouviu-se um apito de se parar a respiração: U-huuuuuuu! - É ela, já vem vindo! E vinha mesmo no maior zoadeiro, soltando fumaça, apareceu lá no fim bem pequenininha da lonjura, fumaceiro no meio do canavial, vixe, um corre-corre medonho, muita gente se escondeu de medo: - E se fosse a coisa ruim ao invés dum danado dum trem, ora? Sou lá besta de não me precaver, ora. Não tinha quem não tremesse com aquela barulheira chegando perto, quem não foi agora vai, quem não foi agora vai, quem não foi agora vai que eu acabei de chegar! Danou-se! Que bicho bonito danado, cheio dos apitos, descargas fumegantes, desafogos de engrenagens, arriados de puxa-encolhe, peidos de todo jeito: - Essa bicha pipoca que só, né maquinista? É a gota! Isso é que é um mondrongo de respeito! Arrepara só! O cabra amontado num negócio desse vai até o fim do mundo, se num vai! Já baixando a bufarra toda, apareceu um galegão embecado duns dois metros de altura, gritando umas coisas que ninguém entendia. Quem é, hem? Cochicharam que era um mandão engenheiro da Gretoeste que ia dar ordem naquilo tudo. Vixe! O homem esbravejava que só e logo um cheleléu dele desceu do trem às carreiras, explicando que ele procurava pelos funcionários para pegar as suas malas e levar lá pra casa nova do alto. Ah, tá! Aí que foi gente como a praga pra servir o homem e pegar as malas só pra ver como é que era a casa bonitona lá do alto. Oxe, o tanto de mala que tivesse, o povo todo levava. E assim subiram a íngreme elevação rumo ao casarão, a mundiça toda serpenteando o morro acompanhando o grandão a gesticular a frente, enquanto cá embaixo, quem ficou, deu de cara com um verdadeiro espetáculo: apareceu assim do nada uma galegona bonitona dos olhos brilhosos, vestido solto das pernas vistosas descendo da locomotiva, braços abertos no sorriso iluminado, cabelos e saias do vestido aos ventos de aparecer-lhe as mais espetaculares intimidades, e ela nem aí só gingando as passadas como quem levitasse feliz sem direção certa, tomando pé de toda aquela redondeza. Lá se ia a branquela como se bailasse no meio duma ventania boa de mexer com as plantas todas, passarinhos e passantes, e a gente só de flagrar ela nuínha embaixo de suas vestes soltas, aos boticões de não perder um segundo sequer de seu encantamento, aquela brancura da maior das bonitezas. E ia nem aí pra nada com quem ia ou quem viesse do chalé do alto pra pegar as coisas das mudanças deles e tornarem a subir, por vezes encarreadas carregando tudo, até ela se encontrar com o mandão, dar-lhe um beijo afetado e se desgarrarem indiferentes, o chefão descendo com o cheleléu na cola, ela subindo entre os que iam e vinham, solfejando suas cantigas como quem ganhou da vida o paraíso, às carreiras pelos degraus, reaparecendo em cada janela e portas da luxuosa moradia, até se encostar ao alpendre e ficar maravilhada com toda a paisagem da redondeza. Ela lá e muita gente aqui embaixo só acompanhando os seus mínimos movimentos, até que lá pras tantas, tudo já descarregado na mansão, vê-se o galegão dispensar todo mundo para sumir dentro de casa e apenas ouvir os gritos, gracejos, risadas e felicitações do casal na maior comemoração. A noite entrou pesada e quando amanheceu o dia, quando não era a chegada e partida da Maria Fumaça com estardalhaço, era ela não menos retumbante que aparecia desnuda rodopiante pernuda entre as fruteiras e florais que arrodeavam o oitão do palacete, exprimindo a satisfação de se encontrar naquele rincão encantador, quando, na verdade, ela que se tornava o encanto daquelas paragens para todo ser vivente da freguesia. Dali a pouco quando todos saíam acompanhando o gringo pro expediente na estação, ela adentrava e não mais reaparecia, ouvindo-se apenas sua voz cantarolando lá pra dentro de sua clausura. Nem bem a tarde começava a trazer o espetáculo do pôr do Sol pra noite, ouviam-se os passos do marido de volta pra casa, pra tudo ficar de ouvido colado pras estripulias do casal. Na escuridão da noite dava pra ouvir os cantos, risos e gritinhos dela com o vozeirão do marido, coisas de intimidades mais estreitas no maior dos regalos amorosos. Assim, todos os dias, enquanto o povo ficava vidrado com a travessia da Maria Fumaça, logo após ela ganhar chão pras bandas de Catende ou pra onde quer que fosse, as vistas se voltavam pra gringa cada dia mais bonita que antes; - Isso sim que é espetáculo pras vistas! E se passaram semanas, meses, anos, povaréu todo lá de butuca nos passeios da princesa nua pelos jardins e fruteiras do casarão logo que o dia amanhecia ou, vez em quando, no mormaço da tarde que seguia pro descanso do Sol, ela dançando pelas infâncias, adolescências, marmanjadas, vetustos esperançosos que viam nela o entretenimento jamais visto. Até que outro dia lá, muito tempo depois de rotineiras e surpreendentes aparições, a população deu-se com as notícias de que o gringo fora embora. Dizem ter ouvido durante a noite um estampido quebrando o silêncio, ninguém sabia o que ocorrera, era um entra-e-sai, nem a chegada da Maria Fumaça reanimou aqueles que queriam saber do gringo e sua rainha nua. O casarão estava fechado, coisa de anos nunca antes vista, sempre portas escancaradas e ela àquela hora, desfilando nua a cantar pros pássaros, árvores e ventos, pra felicidade da curiosidade de todos. Não mais ela no casarão do Alto do Inglês, só Maria Fumaça que vinha e zarpava proutas paragens, levando desejos e esperanças do povinho daqui. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os grandes sucessos  e álbuns Piano & Viola e Imyra, Tayra, Ipy, do cantor e compositor uruguaio Taiguara (1945-1996); o Concert Tchaikovisky Live, Four Seasons Vivaldi e Concert Violin Dvorak, na interpretação da virtuosa e belíssima violinista e violista holandesa Janine Jansen; a música do violonista, compositor, concertista, cantor e produtor musical Chico Mello com seus parceiros Silvia Ocougne, Helinho Brandão & Carlos Careqa; e o álbum Negra e canções como Espera e O meu lugar da cantora e compositora Consuelo de Paula. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAOs problemas impostos pelos preconceitos raciais refletem em escala humana um problema muito maior e cuja solução é ainda mais urgente: o das relações sobre o homem e as demais espécies viventes. [...] O respeito que desejamos obter do homem para com seu semelhante é apenas um caso particular do respeito que ele deveria manifestar para com todas as formas de vida [...]. Trechos extraídos da obra Raça e história (Presença, 2003), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui e aqui.

O CASARÃO DO ALTO DO INGLÊS – (por Vilmar Carvalho, escritor e historiador). Por que recuperar um casarão que também pode ser considerado símbolo da opressão praticada em outras épocas? 1. O casarão em questão, construído ao final do século XIX, foi residência dos engenheiros ingleses que trabalhavam em Palmares desde 1859, ano em que começou a construção da ferrovia que passava a ligar Recife e Palmares; 2. Seu habitante mais ilustre foi o inglês Edmund Cox, um engenheiro graduado da Grant Western Railway, fidalgo educado na ótica vitoriana, membro honorário do também fidalgo Clube Literário de Palmares; 3. O casarão entra em ruína conjuntamente com todos os equipamentos ferroviários a partir dos anos setenta, considerando que o Regime Militar fez opção pelo transporte rodoviário; 4. Da construção dele para 2014, somam nada mais que 38 governos municipais que ali não colocaram um centavo, não tinham ou não podiam investir: o casarão é da massa falida da antiga Rede Ferroviária Nacional? 5. O exemplo de ruínas como usinas, sobrados e casas grandes de engenhos, o casarão do Alto do Inglês é a carcaça que ficou de um tempo que se montou ainda na escravidão e que viu a opressão de milhares de famílias pobres para montar a chamada Civilização do Açúcar; 6. Pode-se perguntar: e um marco que homenageasse os trabalhadores anônimos que morreram na execução do projeto inglês? Afinal para cada dormente da expansão ferroviária do século XIX, certamente morreu um trabalhador pobre nordestino; 7. Pois, como diz Walter Benjamin, “para cada documento de cultura, um documento de barbárie!”; 8. Documento de barbárie: para cada dormente, um corpo exausto. Símbolo maior que este não haverá jamais e nunca será ruína. NOTA DO EDITOR DO BLOG: Ao que me consta, a Casa do Alto do Inglês foi adquirida juntamente com o Teatro Cinema Apolo pela Prefeitura dos Palmares, na gestão Luís Portela de Carvalho (1982-1988), para formação do patrimônio instituidor da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, fundada em 1983, constante do seu respectivo Estatuto. Veja mais aqui e aqui.

A GREAT WESTERN – (Por Lucia Gaspar, bibliotecária da FUNDAJ) – Em 1872, alguns capitalistas ingleses reunidos em Londres criaram uma companhia para construir estradas de ferro no Brasil, a Great Western of Brazil Railway Company Limited, que logo ficou conhecida no País como Greitueste. Como a sua similar inglesa, The Great Western Railway Company, criada em 1835, para fazer a ligação entre Londres e a sua parte oeste (Liverpool, Bristol), a nova empresa se destinava a abrir ferrovias em direção ao oeste, numa marcha para o agreste do Nordeste brasileiro. Em 1873, a Great Western foi autorizada a funcionar no Império do Brasil e, em 1875, conseguiu do Barão da Soledade, a transferência da concessão para construir em Pernambuco uma ferrovia que, passando por Caxangá, São Lourenço da Mata, Pau d`Alho e Tracunhaém (com ramais para Nazaré da Mata e Vitória de Santo Antão), ligaria o Recife a Limoeiro. A inauguração das obras, em 1879, foi bastante festiva e realizou-se em Santo Amaro, no Recife, com a presença do presidente da província de Pernambuco. O primeiro trecho Recife-Pau d’Alho só ficou pronto em 1881 e, em 1882, foi aberto ao tráfego a linha Pau d’Alho-Limoeiro, assim como o ramal para Nazaré da Mata. Os primeiros diretores da empresa no Brasil foram James Fergusson, David Davies, Hugh Robert Baines, Alfred Phillips Youle, Edward Keir Hett e Spencer Herapath. Com a saída de Hugh Robert Baines, Frank Parish passou a fazer parte da diretoria. Entre 1882 e 1883, a estrada de ferro de Limoeiro transportou 2.061 passageiros de 1ª classe e 33.377 de segunda. Em 1884 e 1885, com a introdução dos vagões de 3ª classe, foram transportados mais de 60.000 pessoas, sendo de apenas 4%, aproximadamente, os viajantes de 1ª classe. Além de passageiros, a Great Western transportava também os principais produtos da região, como açúcar, álcool, madeira, algodão, feijão. Depois da estrada Recife-Limoeiro, a empresa construiu a Estrada de Ferro Central de Pernambuco (1885-1896) ligando o Recife a Caruaru. A ferrovia iniciava no bairro de Afogados, no Recife, próximo à Casa de Detenção (atual Casa da Cultura), passando por Vitória de Santo Antão, Gravatá, Bezerros, terminando em Caruaru. Nessa época, Vitória possuía mais de 70 engenhos; Bezerros, mais de 20 fábricas de rapadura, e Caruaru exportava para o Recife uma grande quantidade de solas, couros, algodão, queijo, feijão, além de realizar uma das maiores feiras de gado da região. O primeiro trem que chegou a Caruaru foi todo ornamentado, levando o governador Barbosa Lima, o chefe de polícia Júlio de Melo e outras autoridades. A partir do século XIX, a empresa anexou a maior parte das estradas de ferro da região, o que abrangia linhas estaduais, municipais e estratégicas. Na época da II Guerra Mundial, a Great Western teve que recorrer à lenha em substituição ao carvão de pedra, o que concorreu para aumentar a devastação das reservas florestais da região. Para remediar um pouco a situação, a empresa criou vários hortos florestais, onde eram cultivadas milhares de mudas de plantas nativas e também aclimatadas no país. Depois, passou a utilizar o óleo combustível, poupando o restante dos recursos naturais existentes. Em 1945, a Great Western possuía quatro linhas principais: Recife-Nova Cruz, Recife-Albuquerque Né , Recife-Jaraguá e Paulo Afonso. A empresa chegou a possuir uma rede ferroviária de mais de 1.600 quilômetros distribuídos entre os Estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. A história da Great Western está tão ligada à da produção no Nordeste brasileiro, que ninguém pode escrever sobre a história econômica da região sem consultar seus relatórios e arquivos. REFERÊNCIAS: PINTO, Estevão. História de uma estrada-de-ferro do Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 310 p. (Documentos brasileiros, 61). SOUZA, Alcindo de. Antologia ferroviária do Nordeste. Recife: Bagaço, 1988. 100 p.

A HISTÓRIA DA MINHA VIDA - [...] Meus primeiros dias de vida foram como os de toda criança: como primogênita que fui, cheguei, vi e venci [...] Luz! Luz! Era o grito incompreendido da minha alma. Nesse dia o astro luminoso raiou para mim [...] Gradualmente acostumei-me ao silencia e à escuridão que me rodeavam e esqueci que algum dia fora diferente, até que ela chegou, a minha professora, a que iria libertar meu espírito [...] Não me lembro quando percebi pela primeira vez “ser diferente” das outras pessoas, mas eu sabia disso antes da vinda da minha professora. Eu notara que mamãe e meus amigos não usavam sinais como eu quando queriam algo, mas falavam com a boca. Às vezes eu ficava entre duas pessoas que conversavam e tocava seus lábios. Como não conseguia entender, ficava perturbada. Movia os lábios e gesticulava freneticamente sem resultado. Isso me deixava às vezes tão zangada que eu chutava e gritava até ficar exausta. [...] Não há melhor maneira de agradecer a Deus pela visão, do que dar ajude a alguém que não a possui [...] Se metade do dinheiro hoje gasto em curar cegueira, fosse utilizado em preveni-la, a sociedade ganharia em termos de economia sem mencionar considerações de felicidade para a humanidade [...] Que toda criança cega tenha oportunidade de receber educação e todo adulto cego, uma oportunidade para treinamento e trabalho útil [...] Quando uma porta de felicidade fecha-se, uma outra se abre; mas muitas vezes, nós olhamos tão demoradamente para a porta fechada que não podemos ver aquela que se abriu diante de nós [...] Não há barreiras que o ser humano não possa transpor [...] Aprendi a fazer tudo o que podia, para ajudar minha professora. Todas as manhãs, ela levava o marido de carro à estação, onde ele tomava o trem pata Boston, para depois se ocupar das compras. Eu tirava a mesa, lavava a louça e arrumava os quartos. Podiam estar clamando por mim montanhas de cartas, livros e artigos para escrever, mas, a casa era a casa, alguém tinha de fazer as camas, colher flores, catar lenha, por o moinho de vento a andar e para-lo quando a caixa estivesse cheia, enfim, ter em mente essas coisas imperceptíveis que fazem a felicidade da família. Quem gosta de trabalhar sabe como é agradável a gente estar ajudando as pessoas a quem estimamos nas tarefas diárias de casa [...]Andar com um amigo na escuridão é melhor do que andar sozinho na luz  [...] O resultado mais sublime da educação é a tolerância [...]. Trechos extraídos da obra A história da minha vida (José Olympio, 1902), da escritora e ativista social estadunidense Helen Keller (1880-1968), a primeira pessoa surda e cega a conquistar um bacharelado. O livro traz o impressionante relato autobiográfico de quem tendo ficado cega e surda aos 18 meses de idade, em fins do século XIX, conseguiu aprender a ler, escrever e falar, dominar línguas, graduar-se em Filosofia e tornar-se escritora reconhecida. Com a chegada da professora Anne Sullivan à sua casa, quando ela tinha pouco menos de sete anos, seu mundo transformou-se: aprendeu a manifestar – através das palavras, até então desconhecidas os seus desejos, e sentimentos, entendeu regras, aprendeu a criar. Veja mais aqui.

LIBERDADECom que direito pões pássaros em gaiolas? / Que direito tens tu, que o das aves violas? / Por que as roubas das nuvens... auroras... nascentes? / Por que privas da vida esses seres viventes? / Homem, tu crê que Deus, o Pai, faria nascer / asas p’ra que à janela as fosses suspender? / Se não o fazes, hás de viver descontente? / Que é que te fizeram esses inocentes / para que os condenasses, com a fêmea e seu ninho? / As desventuras deles é o nosso caminho! / Talvez o sabiá, que do seu galho roubamos, / e o infortúnio que aos animais nós causamos / e a escravidão inútil que impomos às bestas / qual Nero não cairão sobre nossas cabeças? / E se o cabresto então desprendesse os grilhões? / Oh! Quem sabe o desfecho de nossas ações, e que fruto nefasto estarão produzindo / as cruezas que na Terra perpetramos rindo? / Quando aprisionas sob o ferro de uma grade / pássaros feitos para o azul da liberdade, / os nadadores do ar que arribam por aqui / - Pintassilgo, Chopin, pardal ou bem-te-vi -, / O bico ensangüentado deles – ouve bem! - / ao se bater nas grades fere a ti também! / Tem cuidado com teu julgamento furtivo! / Deus olha em toda parte onde grita um cativo. / És incapaz de ver que és sórdido e cruel? / A esses detentos abre a porta para o céu! / Aos campos, rouxinóis! Aos campos, andorinhas! / Perdoai o que fizemos às vossas asinhas! / E a ti, pois, da justiça as misteriosas redes, / pois são masmorras que ornamentam tuas paredes! / Das treliças com fios de ouro nascem bastiões; / a perversa gaiola é a mãe das prisões. / Respeita o augusto cidadão do ar e do prado! / Tudo aquilo que aos pássaros é confiscado / o destino, que é justo, toma dos humanos. / Temos tiranos, pois somos também tiranos. / Queres ser livre, ó homem? Pois pensa primeiro, / se tens em casa um testemunho prisioneiro... / A sombra ampara aquilo que parece instável. / A imensidade inteira a essa ave miserável / vem se prostrar; e te condena à expiação. / É estranho, ó opressor, que grites: “opressão!” / tens sorte agora enquanto tua demência arrasa / a sombra desse escravo no umbral da tua casa; / porém essa gaiola com a ave infeliz / encarna nessa Terra triste cicatriz. Poema do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), que também se expressa: “Olha teu cão nos olhos e não poderás afirmar que ele não tem alma”. Tradução de Raul Passos. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE & O RETRATOO artista é o criador de coisas belas. O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista. O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas. A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia. Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito. Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, para esses há esperança. Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza. Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo. A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho. A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho. A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas. Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável. Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo. Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo. Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas. O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida. A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital. Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo. Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Toda a arte é completamente inútil. [...] A única coisa que desejo mudar na Inglaterra é o clima. A mim me satisfaz a contemplação filosófica. Porém, como o século dezenove falhou de tanto esbanjar condescendência, sugiro façamos um apelo à ciência, para que nos aprumemos. A vantagem das emoções é que elas nos desencaminham, e a vantagem da ciência é que ela não é emocional. [...]. Trecho do romance filosófico O retrato de Dorian Gray (1890 – Lanmark, 2012), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui e aqui.

MICROFISIOTERAPIA – Trata-se de uma técnica de terapia manual criada pelos fisioterapeutas e osteopatas Daniel Grosjean e Patrice Benini, em 1983, na França, que consiste em identificar a causa primária de uma doença ou sintoma e estimular a autocura do organismo, para que o corpo reconheça o agressor (antígeno) e inicie o processo de eliminação. Seu embasamento teórico iniciou pelos estudos da embriologia, filogênese, anatomia e ontogênese, e com essas informações desenvolveram mapas corporais específicos (similares aos meridianos de Medicina Oriental) e gestos manuais específicos e suaves que permitem identificar a causa primária de uma doença ou disfunção e promovendo o equilíbrio e manutenção da saúde. A Abordagem Manual é realizada seletivamente por camadas especificas do corpo. O trabalho foi reconhecido por ministérios da saúde de vários países, como Rússia, Polônia e Madagascar e África do Sul. Capaz de identificar tecidos que perderam sua função e vitalidade normal após eventos agressores ao organismo, a Microfisioterapia promove a normalização e a regulação das regiões corporais afetadas. Dessa forma, complementar à Medicina Tradicional, trata a mente e o corpo como um todo, do mesmo modo que a Homeopatia e a Medicina Tradicional Chinesa. Os seus benefícios proporcionam melhoria do estado emocional, tratamento das dores, estimulação do sistema Imunológico, identificação da causa primária de um sintoma ou de uma doença e promoção da saúde. Seu tratamento é indicado nos casos de depressão bipolar, alergias em geral, dores físicas, traumas emocionais, fibromialgia, fobias e ansiedade, sendo indicada para qualquer pessoa, independente da patologia ou idade, não se opondo à Medicina ou à Fisioterapia, atuando de forma preventiva ou curativa.

POEMA
Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas
o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata
direita da frente
depois a de trás
dentro
do vaso
de flores
vazio.
Poema extraído da obra Poemas (Companhia das Letras, 1987), do poeta estadunidense William Carlos Williams (1883-1963) - tradução de José Paulo Paes.

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A ARTE DE LUIZ BARRETO
Casa Grande do Engenho Paul, arte do pintor Luiz Barreto (Gentilmente cedida pelo acervo de Marcelo Tiriri – Foto de Eliandro Marques). Veja mais aqui e aqui.

sábado, agosto 27, 2016

FRIDA KAHLO, ROMAIN ROLLAND, SEBASTIÃO SALGADO, BACH, HEGEL, JANINE JANSEN, SAIKI, PADWORNY & GENESIO CAVALCANTI


A FOME E A LARANJEIRA - Faminto, estrada afora. Nem a saliva rebuscada na língua, lazarado até os ossos, doendo na alma, lívido até nas vísceras. Trôpego, famélico, diviso uma laranjeira: sedenta boca e removo a casca, espremo e o sumo ácido farto lava a garganta seca, festa pro estômago, saciedade provisória. Sorvo e ressorvo, sina de esfaimado: o prazer de haurir a vida ali, gratuita, solidária. Na avidez caroço engasga, forço ânsia de removê-lo, agonia dos náufragos, debater dos moribundos, estertor dos sucumbentes. Tusso e teimo em tossir e num esforço expectorante do âmago o algoz salta em minha mão. Desentalado, refrigério instantâneo, ojeriza furiosa da pevide. Fito aquela minúscula ameaça, capaz de matar, coisa abominável de jogá-la violentamente longe com a fúria de todas as vítimas. Nada mais, segui minha caminhada no ermo de mim mesmo. A cabeça mistura ideias nos passos do caminho, reviram sentimentos e emoções. Logo me vejo grão perdido na areia, gérmen na aridez: solitário ser no oco do mundo, abandonado. Eu me refaço no que sou e me cubro fuçando a Terra. Revolvo suas entranhas, cresço-me reprimido rasgando a pressão de sua movediça digestão, para encontrar seus minúsculos sulcos aos tentáculos que me vingam raiz ampliando-se para emergir flor na sua superfície. Sou-me talo ao Sol e floresço com a feição de caule que cresce vertical por galhos que frutificam e findo filho da laranjeira frondosa na orla de uma vereda perdida na vida. Por isso escrevo. A árvore além de tudo embeleza a vida, sombra pros deserdados, oxigênio pra viver e fruto pra chupar, matar a fome. Ela não sabe nem de si, faz por fazer: cumpre sua missão. Eu apenas vivo isso e disso. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Curtindo o álbum Bach Concertos (Decca Records, 2013), reunindo obras do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), na interpretação da virtuosa e belíssima violinista e violista holandesa Janine Jansen. Veja mais aqui e aqui.

PESQUISA: A INJUSTIÇA 
[...] No contrato, o direito em si está como algo de suposto, e a sua universalidade intrínseca aparece como o que é comum à vontade arbitrária e à vontade particular. Esta fenomenalidade do direito - em que ele mesmo e a sua existência empírica essencial, a vontade particular, coincidem imediatamente - torna-se evidente como tal quando, na injustiça, adquire a forma de oposição entre o direito em si e a vontade particular, tornando-se então um direito particular. Mas a verdade desta aparência é o seu caráter negativo, e o direito, negando esta negação, restabelece-se e, utilizando este processo de mediação, regressando a si a partir da sua negação, acaba por determinar-se como real e válido aí mesmo onde começara por ser em si e imediato. Ao tornar-se particular, o direito é diversidade infinita que se opõe à universalidade e à simplicidade do seu conceito: é a forma da aparência. E tal pode ser ele imediatamente, em si, ou afirmado como tal pelo sujeito, ou, ainda, como puramente negativo. A cada um destes casos corresponde o dano involuntário ou civil, a impostura e o crime.
Trecho extraído da obra Princípios da filosofia do direito (Martins Fontes, 1997), do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Companheiros trabalhadores Espírito espalhados por todo o mundo, separadas por cinco anos pelos exércitos, censura e o ódio das nações em guerra, enviamos-lhe, neste momento em que as barreiras caem e fronteiras reabrir um apelo para reformar a nossa união fraterna - mas uma nova unidade, mais forte e mais segura do que existia antes. A guerra tem jogado confusão em nossas fileiras. A maioria dos intelectuais coloca sua ciência, sua arte, sua razão a serviço de governos. Não quero acusar ninguém, apresentar as suas reclamações. Sabemos que a fraqueza das almas individuais e a força elemental de grandes correntes coletivas: eles têm varrido estes, por um momento, porque nada tinha sido esperado para resistir. Essa experiência, pelo menos, serve-nos para o futuro! E em primeiro lugar, ver os desastres que levaram a abdicação quase completa de inteligência do mundo e sua escravização voluntária às forças desencadeadas. Pensadores, os artistas têm adicionado ao flagelo minar a Europa na carne e no espírito quantidade incalculável de ódio venenoso; eles procuraram no arsenal do seu conhecimento, a sua memória, a imaginação dos antigos e novos motivos, histórico, científico, lógico, ódio poética; eles trabalharam para destruir a compreensão e amor entre os homens. E ao fazê-lo, eles fizeram feio, degradado, humilhado, pensamento degradado eles eram os representantes. Eles fizeram o instrumento das paixões e (inconscientemente, talvez) os interesses egoístas de um clã político ou social, um estado, um país ou uma classe. E agora esse corpo a corpo selvagem, onde todas as nações lutando, vitorioso ou derrotado fora maltratado, empobrecido, e em seu coração dos corações - embora eles não vão admitir isso - envergonhado e humilhado seu acesso de loucura, o pensamento comprometido em suas lutas com eles, caído. Levante-se! Assumem o espírito destes compromissos, essas alianças humilhantes, estas servidões escondidas! O Espírito não é o servo de nada, nós é que somos os servos do Espírito. Nós não temos nenhum outro mestre. Somos feitos de suportar para defender a sua luz, para reunir em torno dele todos os homens errados. O nosso papel, o nosso dever é manter um ponto fixo, mostram a estrela polar, em meio ao turbilhão de paixão, no meio da noite. Entre as paixões de orgulho e destruição mútua, não fazer uma escolha; rejeitamos todos; Nós honramos a verdade só é livre, sem fronteiras, sem limites, sem preconceitos de raça ou casta. Certamente nós não perdemos o interesse na humanidade. Para isso trabalhamos, mas para ela toda. Não sabemos as pessoas. Sabemos que as pessoas - única, universal e as pessoas que sofrem, que lutam, que cai e sobe, e sempre à frente da estrada áspera encharcada de suor e sangue - Pessoas de todos os homens, todos igualmente nossos irmãos . E isso é que eles são como nós, cientes desta fraternidade elevamos acima de sua cega luta a Arca da Aliança - o Espírito Livre, e múltipla, eterna.
Déclaration de l'indépendance de l'Esprit (Declaração da Independência do Espírito), publicada no jornal L’Humanité, em 26 de junho de 1919, pelo escritor, biógrafo, músico francês e prêmio Nóbel de Literatura de 1915, Romain Rolland (1866-1944), asinada por Albert Einstein, Rabindranath Tagore, Hermann Hesse, Bertrand Russel, Jane Addams, Upton Sinclair, Stefan Zweig, entre outros (incluída na obra Herman Hesse e Romain Rolland: correspondências, entradas de diário e reflexões).

PENSAMENTO DO DIA:
Eu sou apenas uma célula do mecanismo revolucionário complexo dos povos para a paz nas novas nações ... unidos no sangue mim.
Trecho extraído da obra O diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo (José Olympio, 1994), da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), reunindo suas cartas de amor, sua meditação pungente, suas crenças políticas. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA; 
Refugee camp at Benako (Tanzania, 1994), do fotógrafo Sebastião Salgado. Veja mais aqui.

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DESTAQUE
A xilogravura do artista plástico Fernando Saiki.



DESTAQUE II
Lançamento do livro & recital Tempo de Amar, do poeta e compositor Genesio Cavalcanti,  e da seleção de curtas metragens Gente de Minha Terra, que acontecerá neste sábado, a partir das 20h, no Teatro Cinema Apolo, em Palmares – PE.
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Untitled nude abstract, by David Padworny.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns Tempo Mínimo (2019), Hoje (2021), Andar com Gil (2023) e Delia Fischer Beyond Bossa (202...