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terça-feira, junho 04, 2019

LORCA, ZAIDAN FILHO, MARTHA GRAHAM, PAUL LANDOWSKI, MATA ATLÂNTICA, MAIDENTRIP & HORROR VACUI


HORROR VACUI – A vida é uma viagem para longe ou perto, quantos passageiros e eu lá perante o brasileto arrancado da mata, exterminado. Já não sei nada, tudo virou de ponta cabeça, porque o Sol sorriu na floração do lótus que brotou das águas turvas e paradas, enquanto fazem da manhã seguinte uma eterna noite de ontem. A casa cheia, o auditório lotado, espaços preenchidos, lacunas, hiatos, nenhum silêncio, ninguém morreu, ora, nenhum obirapiranga para remédio, porquanto achacados com a dor de muitos e nem sabem ou sentem. O caos salta aos olhos com os remorsos do vazio: a solidão. Todos me parecem como se usassem um ornamento facial da mulher Maori, do ramo sinuoso às espirais, e me avisavam: não se deve calar, é preciso dizer. A mim, a inquietação me faz falar sozinho com as paredes, coisas e invisíveis. Acho que enlouqueci no meu horror vacui, como se tivesse apenas uma Caesalpinia echinata para fazer um país. Estou só e me tomam por um louco: esquecer quem sou a deslizar na pele do outro, mas não há ninguém. Sonho sonhos que o criador esqueceu de sonhar e os mistérios nunca revelados, só tinha o pé de ibirapitanga, uma efígie de barba numa jarra belarmina, uma cerâmina shibui e bricabraques aos montes. Cá entre nós: as coisas já passaram do ponto e ninguém se deu conta, muito menos fazem o que precisa ser feito: só o olhar da morte, mãos e pés da morte, tudo para matar, a extinção do orabutã. Nesse pesadelo escatológico, ouço O Corvo de Poe, a loucura de Lovercraft, os delírios de Stephen King, as fantasias de Clive Baker, tudo é o Inferno de Dante. Não são demônios nem bruxas, vampiros ou lobisomens, nenhum desses seres horripilantes: são gentes como eu, de carne e osso, fanatismo e desencantos. Nada tão amedrontador: o pânico do terror diante da destruição. Ah, o meu horror não, não apenas, de todos: fabricar mortes, vender mortes, excretar mortes. Nenhum ibirapita para sombra no ermo e eu vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O desafio que o terceiro milênio reserva para o nordeste é convencer as elites econômicas e dirigentes do país de que é possível se integrar na economia mundial sem abandonar seus pobres e miseráveis. E que o principal ativo de uma nação é seu povo e suas tradições culturais. Países sem política de desenvolvimento regional e social e sem identidade estão destinados a ser meras plataformas de exportação para o mundo, sem cidadãos, direitos e identidade cultural [...] Vislumbram-se o nascimento de uma civilização planetária, bem como o de um novo setor público supranacional. Com o revivescimento da “comunidade”, em um registro planetário, animado por outros atores, outras solidariedades e outras políticas. É a reconstrução da ética em outros termos: não mais fabril, nem estatal; nem pública, nem privada. Local e global ao mesmo tempo. Ligada à comunidade, ao mundo da vida ou à cotidianidade. Um mundo de interação simbolicamente mediada, em que a linguagem e a significação passam a ter importância fundamental.
Trechos extraídos da obra O fim do nordeste e outros mitos (Cortez, 2001), do professor e filósofo Michel Zaidan Filho. Veja mais aqui e aqui

COMO É QUE ALGUÉM VAI DEFENDER O QUE NÃO CONHECE?
[...] Pela sua riqueza e por toda a diversidade que contém, a Mata Atlântica foi também considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
[...] Condomínios de luxo se instalam nas matas de restinga (que é como é chamada a Mata Atlântica na região das planícies, perto do mar); famílias de migrantes pobres erguem barracos e cortam árvores em áreas de preservação permanente e/ou de risco. E, assim, a nossa Mata Atlântica vai desaparecendo. Devemos desanimar? Nunca! Conhecer o problema é meio caminho andado. Repetimos: a gente só ama e preserva aquilo que conhece. Só se exerce a cidadania quando se tem conhecimento dos temas que devem ser objeto de luta. [...].
Trechos extraídos da obra Mata Atlântica: vinte razões para amá-la (Musa, 2005), da jornalista e fotógrafa Regina Helena de Paiva Ramos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MAIDENTRIP
O meu sonho é ser a pessoa mais jovem do mundo a navegar sozinha.
O documentário Maidentrip (2013), dirigido por Jillian Schlesinger, conta a história da adolescente holandesa nascida na Nova Zelândia, Laura Decker que, com apenas 14 anos de idade, se tornou a mais jovem a velejar ao redor do mundo sozinha por 518 dias, depois de um ruidoso processo que tramitou no tribunal holandês. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor francês Paul Landowski (1875-1961). Veja mais aqui & aqui.

A DANÇA DE MARTHA GRAHAM
A dança é a linguagem escondida da alma. Ninguém se importa se você não sabe dançar bem. Apenas se levante e dance. Bons dançarinos são bons por causa de sua paixão.
A arte da dançarina e coreógrafa estadunidense Martha Graham (1894-1991). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE FEDERICO GARCIA LORCA
A Terra é o provável paraíso perdido.
A obra do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936) aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, junho 05, 2017

A POESIA DE LORCA, A PINTURA DE VICENTE MONTEIRO, O GRAFITE DE MARIO BAND’S & MEIO AMBIENTE!

A TERRA QUE SOU - Piso esse chão da minha carne vermelha primitiva, porque dela sou e ela é em mim como as águas, o fogo e os ventos, a seguir ambulante e visionário pela música da vida e por ela levado de mãos dadas aos amigos invisíveis e desconhecidos, sobre a terra que sou da minha pele fria e pálida que é o solo da minha epiderme escura condenada, para que eu seja muitos senão todos no abrigo da minha mãe que sou na comunhão dos afetos. Vou por esse chão que é meu céu ensolarado de nuvem rara e zis estrelas, como quem não tem história e esqueceu o passado ao acordar de manhã livre pássaro pelas estações, pra saber só do agora na alma ancestral reinventada no sorriso incoerente e insensato pela perplexidade dos meus olhos que tudo vêem no caos da areia movediça dos interesses que levam vivos e mortos à exaustão. Sigo nesse chão que me alimenta e sou nele a raiz que desabrocha e cresce planta pra doação dos frutos, porque sou eu e o outro mais tantos que são em mim o que sou, o meu duplo multíplice no meio do turbilhão. É nesse chão que vou e me perco a tomar e retomar a direção entre tantas na trilha de sons e tons que me levam pro silêncio das respostas ocultas e que são nossas porque pertencem a nós e só nos dizem respeito pelas perguntas que não calam e nos espreitam como enigmas difusos e insólitos na unidade de tudo. Sou o que vai nesse chão como quem leva no coração tudo que ele é e abriga. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

TERRA E LUA, DE FEDERICO GARCÍA LORCA
Fico com o transparente homenzinho
Que come os ovos da andorinha,
Fico com o menino desnudo
Que pisoteiam os bêbados de Brooklyn,
Com as criaturas mudas que passam sob os arcos.
Com arroio de velas ansioso por abrir suas mãozinhas.
Terra tão-somente. Terra.
Terra para as toalhas estremecidas,
Para a pupila viciosa da nuvem,
Para as feridas recentes e o úmido pensamento.
Terra para tudo o que foge da terra.
Não é a cinza suspensa das coisas queimadas,
Nem os mortos que movem suas línguas sob as árvores.
É a terra desnuda que bale pelo céu
E deixa atrás os grupos ligeiros de baleias.
É a terra alegríssima, imperturbável nadadora,
A que eu encontro no menino e nas criaturas que passam os arcos.
Viva a terra de meu pulso e do baile dos fetos,
Que deixa às vezes no ar um duro perfil de Faraó!
Fico com a mulher fria
Onde se queimam os musgos inocentes,
Fico com os bêbados de Brooklyn
Que pisam o menino nu;
Fico com os signos desgarrados
Da lenta comida dos ursos.
Mas então baixa a lua despenhada pelas escadas,
Enfeitando as cidades de oleada celeste e talco sensitivo
Enchendo os pés de mármore a planície sem ângulos,
E esquecendo, sob as cadeiras, diminutas gargalhadas de algodão.
Oh! Diana, Diana, Diana vazia!
Conexa ressonância em que a abelha enlouquece.
Meu amor de passagem, trânsito, longa morte degustada,
Nunca a pele ilesa de tua nudez fugidia.
É terra, meu Deus!, terra, o que venho buscando.
Embuço o horizonte, latejo e sepultura.
É dor que se acaba e amor que se consome,
Torre de sangue aberto com as mãos queimadas.
Porém a lua subia e baixava as escadas,
Repartindo lentinhas dessangradas nos olhos,
Dando vassouradas de prata nos meninos dos cais
E apagando minha aparência no término do ar.
Terra e Lua, poema extraído da Obra Poética Completa (Martins Fontes/EdUnB, 1989), de Federico Garcia Lorca. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Domingo do que fui e não sou, O erotismo de Georges Bataille, a poesia de Federico Garcia Lorca, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de MS, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa: a questão ambiental, O retorno da deusa de Edward C. Whitmont, Baú de ossos de Pedro Nava, Pequeno poema infinito de l Federico García Lorca, Zuzu Angel & Sérgio Rezende, a pintura de Tereza Costa Rego, a música de Martha Argerich & Kenny G aqui.
Dia Branco, A jaca na cabeça de Isaac Newton, a literatura de Ítalo Calvino & Mark Twain, Meio Ambiente, a música de Geraldo Azevedo, A promessa do behaviorismo de John B. Watson & Programa Tataritaritatá aqui.
Todo dia é dia do meio ambiente aqui.
LAM no Bom Dia, Alagoas da TV Gazeta de Alagoas, Conteúdo, didática & educação aqui.
Por você, a fotografia de Kate Winslet & a gravura de Franz von Bayros aqui.
Inclusão social pelo trabalho & Washignton Novaes, o pensamento de Pitágoras, A imprensa de Ralph M. Lewis, O romance reportagem de José Louzeiro, Doces palavras de Ednalva Tavares, A entrevista de Samir Yazbek, o cinema de Jacques Rivette, a pintura de Xue Yanqun, a arte de Lisa Lyon, Conselho do Doro, Cantadores populares & Responde a roda outra vez aqui.
Miolo de pote na volta da teibei aqui.
O que tiver de ser, será, A sociedade dos indivíduos de Norbert Elias, A morte como efeito colateral de Ana Maria Shua, a coreografia de Nadja Sadakova, a escultura de Zhang Yaxi, o teatro do grupo Tá na Rua, o cinema de Cristoph Stark & Cristoph Stark, a pintura de Mino Lo Savio & Pavlos Samios, a arte de Gustav Klimt & Lola Astanova, Brincar para aprender, a entrevista de Clara Redig & A sedução da serpente aqui.
Literatura & pós-modernidade, Só desamparo no descompromisso social, Cidadania de Evelina Dagnino, Quadrinho de história de Gláucia Vieira Machado, a música de Viviane Hagner, a coreografia de Yi-chun Wu, a escultura de Michael Talbot, Outro cântico de Micheliny Verunschk, o teatro de Buraco d’Oráculo, o cinema de Niki Caro & Keisha Castle-Hughes, a pintura de Oresteia Papachristou & Hajime Sorayama, A menina do sorriso ensolarado, a arte de Márcio Baraldi & Luciah Lopez aqui.
Escapando & vingando sonhos, A imprensa & O colapso do neoliberalismo de Nilson Araújo de Souza, a música de Bob Dylan, Fenomenologia do olhar de Alfredo Bosi, A memória coletiva de Maurice Halbwachs, Dinheiro roubado de Ricardo Piglia, a coreografia de Sandro Borelli, Lume Teatro, o cinema de Álex de La Iglesia & Rosie Perez, a escultura de Johann Heinrich von Dannecker, a pintura de Pablo Picasso & Roberto Chichorro, a fotografia de Roberta Dabdab, a arte de Marcos Carrasquer & Eugene Reunier, a entrevista de Leila Miccolis, Cidadania na escola & O poeta chora aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Adeus ao trabalho de Ricardo Antunes, Trabalho & capital monopolista de Harry Braverman, a música de Nadja Salerno-Sonnenberg, a fotografia de Dane Shitagi, Escambo de Teatro Livre de Rua, Cinema de Rua, a escultura de Kvitka Anatoly, a entrevista de Cláudia Telles, a pintura de Eugene Huc, a arte do Eduardo Paolozzi & Coletivo Transverso, Quando Tomé mostrou ao que veio & Arte na rua dos municípios aqui.
Poema em voz alta, Cidadania & Meio Ambiente, Ciranda dos libertinos de Marquês de Sade, O corpo obsceno de Maryam Namazie, A mulher suméria, O erotismo de Georges Bataille, a pintura de Paul Cézanne & Olivia de Berardinis, a escultura de Leroy Transfield, Decameron de Pier Paolo Pasolini, a coreografia de Ângelo Madureira & Ana Catarina Vieira, a música de Karina Buhr, Núpcias do NUA, a entrevista de Frederico Barbosa & a arte de Mozart Fernandes aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

VIDA VERDE VIVA
Imagem: Graffiti Arte A Natureza Verde Vida, Viva!, pintura decorativa na Casa das Crianças, do artista interventor Mario Band's.
Convém lembrar da vida aos olhos de todas as manhãs.
Convém lembrar da terra dos pés de todas as cores, coisas, raças e crenças.
Convém lembrar de todos os ventos,
do rio de todos os peixes, todas as canoas, brejos, lagos e lagoas.
De todos os mares, oceanos e marés.
De todas as várzeas, todos os campos,
todos os quintais de todas as frutas e infâncias,
de todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas,
de todas as matas, de todas as flores e folhas,
de todas as aves, repteis e batráquios.
De tudo que brilha pra gente um outro sentido de vida.
Convém lembrar, acima de tudo, o direito de viver e deixar viver.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992. Veja mais Meio Ambiente aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Paz na Terra: destaque pra obra do pintor, desenhista, escultor, professor e poeta Vicente do Rego Monteiro.
Veja mais aqui.

PROGRAMA TATARITARITATÁ
 

quarta-feira, abril 26, 2017

LORCA, BERNARD LOWN, MAGDALENA CAMPOS-PONS & AMOR EM ALAGOINHANDUBA

AMOR EM ALAGOINHANDUBA - Alagoinhanduba é um lugar que não existe, só no meu coração e na minha molecagem de aprendiz de poetastro. Para ela eu faria uma canção de amor de filho pródigo desterrado. Todavia, ela é a minha casa, meu abrigo e lugar. Nela sobrevivo e angario meu sustento, alimento esperanças, vomito decepções. Quando ela chora, estou desolado. É quando sei de suas angústias e frustrações: ela sempre sonhou imortalizada feito Macondo, Antares, Dublin, ou o Aquário das Cobras, ou mesmo aquela que Paris só é melhor à noite. Infelizmente, o único filho que se poderia considerar por ilustre, desculpe a imodéstia, sou eu aquele que é o cúmulo do anonimato entre os inúteis. Triste sina, a dela. A par de tudo isso, asseguro: ela é só de nome, um distrito perdido no mapa, onde a vida mais parece desenho animado. Não há rio, deságua seus lamaçais. Todo dia e o ano todo, a vida é uma só: ou chuva, ou ensolarada, só inverno ou verão, sem meio termo, só eu e ela, meio a meio. As suas ruas, umas com nomes de santos, outras na glória dos seus vencedores, como a sua principal atração que se diga turística, a Praça Coronel Tinhoso da Gruta, montada no cume do morro, e que o povo só trata por Catombo da Bêba; ou a Travessa Prefeito Bordão que ninguém sabe ou lembra mais nem quem foi, pois a ela só se refere como o Beco do Cu da Mãe. Nela se faz de tudo: abusos, chantagens, malquerenças, arrumadinhos, blasfêmias e pirataria. Nela se mata, arranca, enterra, cavouca e revira insepultas desavenças, escabrosas vilanias, indecorosas safadezas. Só se vê o prefeito Zé Peiúdo em conchavo com os poderosos para se manter no poder, mandando o cabo distribuir lotes da beira do rio pros eleitores achegados, e os capangas a dar sumiço em tudo quanto for de putas e gays na localidade. Lá Tomé e Vitalina todas as tardes às escondidas trocam juras de amor no banco da praça deserta, e no meio de um sarro pesado são surpreendidos por ladrões que levaram seus pertences, não antes abusar libidinosamente dos dotes dela. Biritoaldo junta pules de bicho e canhotos da loteria de domingo a domingo, apelando pra sorte na esperança de arribar desse lugar odiento pra ele. Zé Corninho serra tronco das árvores a mando do dono que maldiz todo dia dos prejuízos que elas deram às suas casas e casebres que ruíram pelas raízes. Robimagaiver na maior faxina dentro de casa, juntando o que acha de imprestável na sua mania de colecionar o que lhe cai às mãos, e ao sair do aluamento joga tudo no primeiro terreno baldio que encontrar pela frente que sirva de lixão. Cada morador ama esta cidade ao seu modo: entre xingamentos, fofocas, ganâncias, bofetadas, abrindo valetas, levantando muros, promovendo intrigas. Como em qualquer lugar, os fieis rezam na igreja por suas misérias, esponsais comparecem às obrigações do coito, fossas e lixos alagando meio fio, a festa dos insetos pelos arruados emporcalhados por pôsteres e cartazes dos políticos, comemorações entre fezes de animais mortos ao relento, inaugurações entre esgotos a céu aberto, monturos e detritos, procissões pelas guaritas e lixeiras destruídas nas calçadas iguais as ruas esburacadas, passantes pra e pra cá entre os entulhos, muco, pus, catarro, santos e crucifixos, discussões entre metralhas, poças, matagal, sacos plásticos levitando aos ventos; namoricos entre moedas pelos regos com pedaços de fios, arames, vidros, cordões, retalhos, madeiras e pegadores, traições com maçanetas, parafusos, telhas, galhos, folhas e fotos, enterros entre flores, papéis, caixas, pregos, roelas, clips, caqueiras e latões, colações de grau pelas varetas, rótulos, bisnagas, cachetes e flâmulas, comícios entre botons, sacolas, sandálias, panelas e talheres, homicídios entre brinquedos, penicos, livros, balas e bulas, a vida toda entre destroços, tapumes e escombros. Cada qual se livra das broncas jogando pro lado, ou pro quintal do vizinho ou soltando na primeira esquina: agora o problema é dos outros. A cidade que chore, definhe, apodreça, cada um que se vire, resolvendo o seu, o resto se dane. A cidade é o retrato do povo que nela habita. Até que um dia, por desgraça do destno, enforcou-se o último alagoianhandubense com as tripas do último índio que havia na redondeza. A cidade foi varrida do mapa e tudo se perdeu numa brecha do tempo para nunca mais. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

BODAS DE SANGUE DE LORCA
(Minutos antes acabam de partir o noivo e sua mãe, que vieram pedir a mão da noiva em casamento e deixaram presentes). CRIADA Estou louca para ver os presentes. NOIVA (áspera) Sai! CRIADA Ai, menina, deixe eu ver! NOIVA Não quero. CRIADA Ao menos, as meias. Dizem que são todas rendadas! NOIVA Já disse que não! CRIADA Por Deus. Está bem. É como se não estivesse com vontade de casar. NOIVA (mordendo a mão com raiva) Ai! CRIADA Menina, filha, o que você tem? É pena de deixar tua vida de rainha? Não pense nessas coisas tristes. Tem algum motivo? Nenhum. Vamos ver os presentes. (apanha a caixa) NOIVA (agarrando-a pelos pulsos) Larga. CRIADA Ai, mulher! NOIVA Larga, já disse. CRIADA Tem mais força que um homem. NOIVA Não tenho feito trabalho de homem? Antes eu fosse! CRIADA Não fale assim! NOIVA Cale-se já disse. Vamos mudar de assunto! CRIADA Você ouviu um cavalo ontem à noite? NOIVA Que horas? CRIADA Às três. NOIVA Era algum cavalo solto? CRIADA Não era, tinha cavaleiro! NOIVA Como você sabe? CRIADA Porque eu vi. Estava parado na sua janela, estranhei muito. NOIVA Não seria o meu noivo? Algumas vezes ele passa essa hora! CRIADA Não. NOIVA Você o viu? CRIADA Vi. NOIVA Quem era? CRIADA Era Leonardo. NOIVA (forte) Mentira! Mentira! O que veio fazer aqui? CRIADA Veio. NOIVA Cale-se! Maldita seja a sua língua! CRIADA (à janela) Olha. Chega aqui! Era? NOIVA Era.
Trecho da peça teatral Bodas de Sangue (Agir, 1968), do poeta, dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Ganhar o mundo no rumo das ventas, O mito e a política de Jean-Pierre Vermant, a literatura de Cesare Pavese, a pintura de Eugène Delacroix & Caroline Vos, a música de Wagner & Hélène Grimaud aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein, o Teatro Futurista de Filippo Marinetti, a literatura de Azar Nafisi, a pintura de Eugène Delacroix, a música de Nelson Freire, a fotografia de John De Mirjian, Augustine de Charcot, a arte de Stéphanie Sokolinski, a cangaceira Dadá & Maria Iraci Leal aqui.
Do espírito das leis, de Montesquieu aqui.
Caxangá, a literatura de Cervantes & Lima Barreto, o Abstracionismo & Vassili Kandinsky, a música de Sainkho Namtchylak, o cinema de Anthony Minghella & Gwyneth Kate Paltrow, a pintura de Guido Cagnacci, a arte de Adelaide Ristori & Clara Sampaio aqui.
A poesia de Gabriela Mistral & William Wordsworth, a literatura de Gregório de Matos Guerra & Ana Miranda, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Irène Jacob, a música de Ravi Shankar & a pintura de Almada-Negreiros aqui.
Brincarte do Nitolino & Lendas do Nordeste, Buda, O caso Anna O de Freud & Bertha Pappenheim, A fenomenologia de Edmund Husserl, a poesia de Basílio da Gama, o teatro de Edmond Rostand, a pintura de Sergei Semenovich Egornov, a música de Steve Howe & a arte de Anne Brochet aqui.
O que deu, deu; o que não deu, paciência, fica pra outra, A teoria das emoções de Jean- Paul Sartre, a literatura de Dyonélio Machado, O fim da modernidade de Gianni Vattimo, a pensamento de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Laurence Revey, a pintura de Fernando Rosa & Jonas Paim, a fotografia de Faisal Iskandar & O sisifismo na segunda de outra semana aqui.
Para quem vai & para quem vem, A filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, a Fenomenologia & o fenômeno de Armando Asti Vera, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Djavan, a fotografia de Gal Oppido, a pintura de João Evangelista Souza, A pancada insólita se alastra na culatra: viver, a arte de Luciah Lopez & Elciana Goedert aqui.
Se o sonho pra se realizar está custoso demais, paciência..., As origens da vida de Jules Carles, Elementos da dialética de Alexander Soljenítsi, a poesia de Gilka Machado, a música de Álbaro Henrique, a fotografia de Camila Vedoveto, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, As torturas prazerosas de Quiba, Aos futuros poetas de J. Martines Carrasco, a arte de Fernando de La Rocque & Fernando Nolasco aqui.
Quando a poluição torna o ar irrespirável, a vida vai pro beleleu, O mundo de Albert Einstein, a literatura de Imre Kertész, a Educação de Dermeval Saviani, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Mafalda Veiga, A pluralidade cultural de Manuel Diégues Júnior, a fotografia de Eustáquio Neves, a pintura de Evelyn Hamilton, a fotografia de Cida Demarchi & Os erradios catimbós de Afredo aqui.
Quem, nunca aprendeu a discernir entre o que é e o que não é, jamais aprenderá a votar, a literatura de Marguerite Duras & Stanislaw Ponte Preta, o pensamento de Friedrich Nietzsche, O combate à corrupção, a música de Miriam Ramos, o Conhecimento de Cipriano Carlos Luckesi, a arte de Lenora de Barros, a fotografia de Ed Freeman, Luciah Lopez & O amor é tudo no clarão dos dias e na escuridão das noites aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, fotógrafa, escultora, performer e artista visual cubana María Magdalena Campos-Pons.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: [...] Sinto-me por vezes desanimado quando vejo que, após investir muito tempo na coleta de detalhada história médica que me diz exatamente o que há, o paciente de mostra incrédulo. Mas, quando o levo para minha sala de exames, onde tenho a um canto um antiquado fluoroscópio com intensificador de imagens, máquina cujo painel de instrumentos se assemelha ao de um avião, o paciente fica impressionado e posso imaginá-lo dizendo com seus botões:”Ah, que bom estar num consultório tão bem equipado”. Ou talvez: “O doutor vai usar comigo essa máquina maravilhosa?”. A fé pueril na magia da tecnologia é uma das razões pelas quais o público vem tolerando a desumanização da medicina. [...].
Trecho da obra A arte perdida de curar (Peirópolis, 1998), do médico, professor e inventor lituano Bernard Lown, que só aceitou o Prêmio Nobel da Paz de 1985 em nome dos Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, que fundou com o cardiologista russo Yevegeny Chazov.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

domingo, junho 05, 2016

BATAILLE, LORCA, LAURIE ANDERSON, RAIMUNDO CARRERO, MARTA NAEL, CECILY BROWN, OLORUNNISOMO, MS & PAULA VALÉRIA DE ANDRADE

DOMINGO DO QUE FUI E NÃO SOU - (Imagem: Sunday, by Benedict Olorunnisomo) - Um dia como outro qualquer e um sonho na palma da mão. Tudo é espelho no vazio da novidade. As nuvens descansam na sombra e as águas mansas do espelho do céu na vigência da primavera trazem a brisa abissal dos ventos de maio. O verso é apenas o trâmite dos dias na agonia das horas. Sou duas ou três coisas ínfimas na vitrine de tudo. De resto, o que foi feito será a semana do amanhã de nunca, pois valho-me por fazer aquilo que não se vê. Dou-me do que tenho pra não ser só das vísceras coração: os olhos nas estrelas e os pés no chão. Do que fiz das cinzas, ninguém é mais que vivo que eu na solidão: o presente com a silheura de ontem e o adeus do amanhã. Hoje é só deserto do que fizera fonte. Dos caminhos que não fui, outra estrada desaparece e o que é tudo por certo já não tem nenhuma valia. Se tivesse que erguer castelo, não haveria alicerce: a vida vai no vento e tudo se desfaz. O que era pra ser feito na beira dos limites: uma parede intransponível aplaca a trilha das pedras; há mais que sonhos destroçados nas pedras do caminho. Se trago ao peito a mão contrita é que me fiz de réu na noite desgraçada e não mais que um palitó na ombreira do desalinho nas vestes, nem do pouco que foi justo nas horas minguadas e que se fizera inútil mais do que guardado. Se eu tivesse mais que um dia e a tarde fosse mais que a conquista da vitória, não teria eu que juntar cacos e trapos do que sobrou que fui. Hoje é só domingo, é só um dia, igual a outro qualquer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte da pintora, ilustradora e desenhista Marta Nael.

Curtindo o álbum Laurie Anderson Live in New York (Nonesuch Records, 2002), da compositora, escritora e artista experimental estadunidense Laurie Anderson.

PESQUISA
 Os segredos da ficção: um guia para escrever narrativas (Agir, 2005), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, no qual o autor revela que a literatura está ao alcance de todos que possuam o impulso da criação pelos caminhos da arte de escrever. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
O erotismo (Arx, 2004), do polêmico escritor francês Georges Bataille (1897-1962), ensaio ooriginal e perturbador sobre a sexualidade, sua relação com a vida e a morte, a presença oculta na religião e filosofia e temas controversos sobre misticismo, incesto, entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Diz a tarde: "Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: "eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamentos,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).
Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
Poema Cantos novos, da Obra poética completa (Martins Fontes/EdUnB, 1989), do escritor e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
A premiadíssima escritoramiga, designer e diretora de arte Paula Valéria de Andrade, premiada no Salão Internacional do Livro de Turim, pelo texto de literatura infantil A Beija-flor Dodo & Gil Girassol, no Concurso Internacional Literário Amor & Amore, da Associação Cultural Internacional Mandala (A.C.I.M.A), de Turim, Itália. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Federico García Lorca, Martha Argerich, Tereza Costa Rego, Kenny G, Meio Ambiente, Retorno da deusa, Pedro Nava & Zuzu Angel aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem: Don't Miss (Berlin 2010), da pintora britânica Cecily Brown.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Xilogravura do pernambucano MS (Marcelo Alves Soares).
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...