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sexta-feira, março 16, 2018

HEIDENSTAM, BOAL, HEIDEGGER, HÉLIO DELMIRO, MASI, CAPDEVILLE, JUAREZ MACHADO, DUBUFFET, MARCUS ACCIOLY & VIOLINOS DE PALMARES

A TAPA & O INFARTO – Imagem: arte do escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e artista plástico Juarez Machado. - Manhã de sol, quentura escorrendo pelos poros naquela sexta. Ali, no estabelecimento comercial, era maior o calor, enquanto recolhia a assinatura dos sócios. Eis que entra um distinto sujeito, muito bem apessoado, uma finura no trato, foi logo atendido por um dos irmãos do empreendimento, identificando-se como vendedor de uma empresa multinacional, na oferta de produtos do interesse empresarial. A conversa corria nos conformes e, a certa altura, o sócio largou uma piada que, apesar de picante e pejorativa, havia sido bem digerida pelo profissional de vendas que continuou demonstrando por meio de cartazes e folders os inúmeros recursos e avanços tecnológicos de seus produtos. O sócio insatisfeito repetiu a dose com nova pilheria pesada, não conseguindo, mesmo assim, transtornar ou causar nenhum desconforto ao visitante a se manter sóbrio e indiferente às indiretas alfinetadas. Insistente, o sócio ironizava procurando desconcertá-lo, desviando o assunto para desconcentrar o expositor, utilizando de todas as formas possíveis para derrubar-lhe a sobriedade. Até então, tudo ainda mantido socialmente, quando o recalcitrante inquiriu em pé de guerra: Ué, você tem sangue de barata, rapaz? Não entendi, senhor. Estou aqui o tempo todo espinafrando você e suas engenhocas e você não desce dos tamancos, qual que é, você não tem amor-próprio? Ah, meu senhor, sou um profissional de vendas e tenho apreciado suas brincadeiras, o senhor tem muito bom humor. Bom humor, uma porra! Você é covarde ou incapaz de encarar uma briga boa? Ah, meu senhor, sou de paz e estou aqui apenas para satisfazer suas necessidades, apresentando-lhe produtos da mais revolucionária tecnologia. Ah, acho que você é mesmo um cagalhão, um filho da puta qualquer! O senhor realmente tem uma dose alta de bom humor! Não é bom humor não, seu porra! É que estou cheio da sua cara! Pronto. Nessa hora, o sócio partiu para cima com uma tapa bem dada na face do vendedor. Ao estapear, afastou-se e ficou esperando a reação da vítima. Simplesmente, face serena, tranquilo, do mesmo jeito como desde que chegara, expôs a outra face e disse: Dê outra aqui. O sócio enfureceu-se e não só deu uma tapa na outra face como o esmurrou, depois se afastou e se preparou para o revide. Não foi dessa vez. Tranquilo, sereno, sem alterar a voz nem a fisionomia, simplesmente o vendedor arrumou a papelada, reuniu tudo e colocou dentro da sua valise, dirigindo-se ao algoz como se nada tivesse acontecido: Muito obrigado, passe bem. E estendeu a mão para ser apertada, recebendo a negativa e xingamentos: Ora, vá tomar no cu, fresco! Despediu-se dos demais desejando um bom dia para todos e saiu. O ambiente estava tenso e como meu trabalho havia sido concluído ali, finalmente, acompanhei toda a cena e me despedi, saindo logo em seguida. O clima estava tenso entre os familiares. Ainda ouvi quando um dos irmãos censurou o outro por atitude tão descabida: O que foi que ele fez? Nada, ora. E por que agiu daquele jeito? Ah, queria esquentar a mão no maluvido dele, só! Isso não se faz. Por que não? Porque ele não fez nada. Ah, não preciso de nada para fazer alguma, faço porque me deu vontade, está feito e fim de papo. Isso não é certo! Ah, ele não revidou, não quis revidar, saiu apanhado e pronto, fiz e faço, ele não é rei nem melhor que ninguém! Você ainda vai se dá mal com esse seu pavio curto! Destá! Ainda deu pra ouvir os desentendimentos entre os irmãos, mas não quis tomar conhecimento de mais nada. Apenas soube que o ofensor, no dia seguinte, estava acamado com dores por todo corpo. E, horas depois, dera entrada na emergência hospitalar. Já era tarde da noite quando soube do seu falecimento, acometido de infarto agudo do miocárdio. Que coisa! Ainda ontem vi o vendedor saudável e feliz saudando a todos, apresentando seus produtos com a cordialidade e profissionalismo de sempre. É a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A ARTE DE JUAREZ MACHADO
A arte do escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo, ator e artista plástico Juarez Machado. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e guitarrista de jazz Hélio Delmiro: Emotiva, Compassos & Repertório Popular; a compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville (1937-1992): Libera-me, Momento & Renaissance Portuguese; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O papel do artista é justamente embaralhar as categorias habituais, deslocá-las, e, desse modo,. Restituir à visão e ao espírito sua ingenuidade, seu frescor. [...]. Pensamento do pintor e escultor francês Jean Dubuffet (1901-1985). Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: [...] um mundo não é a simples reunião das coisas existentes, contáveis ou incontáveis, conhecidas ou desconhecidas [...] Mundo nunca é um objeto, que está ante nós e que pode ser intuído. O mundo é o sempre inobjectal a que estamos submetidos enquanto os caminhos do nascimento e da morte, da benção e da maldição nos mantiverem lançados no Ser. [...]. Trecho extraído da obra Ser e tempo (Vozes, 1998), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O TRABALHO & OS TEMPOS ATUAIS - [...] A humanidade espera com volúpia novas descobertas: substâncias para debelar definitivamente a dor, sistemas para acabar com o lixo radioativo transformado em matéiras inócias, para eliminar o barulho e a fome e reabsorver a população. Paralelamente, nunca tivemos tantas ferramentas para eliminar as quatro escravidões da escassez, da tradição, do autoritarismo e do cansaço físico. [...] Para nós, homens pós-industriais, há uma terceira alternativa. Sísifo vai construir um mecanismo eletrônico ao qual delegará a canseira do transporte inútil e banal e se sentará no alto do morro para contemplar o seu robô em função, saboreando enfim a felicidade do ócio prazeroso. [...]. Trecho extraído de Em busca do ócio, do sociólogo italiano Domenico de Masi, autor da obra O Ócio Criativo (Sexante, 2000), na qual defende o conceito de viver do ócio através da interseção entre três elementos, vendas, faculdade e raciocínio lógico: Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o tempo livre […] Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. [...]. Veja mais aqui.

OS CAROLINOS – [...] Longe, nunca casa que fica à esquina da rua do Padre, em Estocolmo, uma velha senhora solitária segurava o seu livro de sermões; ela esperava e escutava, aguardando  que lhe enfiassem uma carta por baixo da porta, ou se um invalido não subia a escada, trazendo-lhe alguma mensagem dos desertos; perguntava a si mesma se eu não retornaria mais, se eu não estaria morto, meu cadáver entregue à corrupção. Todas as noites eu rezava por ela. Pensara nela no meio do tumulto da guerra, entre as padiolas e os gemidos. Mas, naquele instante, dela não me lembrei. Só via e escutava Feodosova. E contudo torcia-me e lutava contra algo pesado, que me esmagava o coração e que a princípio não pude afastar; mas, pouco a pouco, tive forças para compreender. Inclinei-me para Feodosova, a fim de lhe beijar a mão; ela, porém, murmurou: - S mão do czar; a mão do czar! – Não quero trair minha fé, nem o meu real senhor – disse0lhe com brandura. A face do czar novamente se enrugou e os anões, aterrorizados, puxaram a zaporoga do canto onde ele estava, para que o seu aspecto ridículo fizesse rir o czar. [...] Todos, inclusive os bêbedos, começaram a tremer e a escapulir para as portas. Assustadíssimo, um dos boiardos gritou: - Tragam a mulher! Tragam-na perto! Logo que ele vê a cara bonita e o corpo de uma mulher, acalma-se. Agarraram Feodosova, rasgaram-lhe o corpete desbrindo o seio e, gemendo baixinho, ela foi empurrado passo a passo até o czar. Tudo se escureceu ante mim e, recuando, saí da sala. Parei na rua, sob as estrelas; ouvi que o barulho cessava e que os anões recomeçavam a cantar. Apertei as mãos e lembrei-me da promessa que fizera no campo de batalha [...]. Trechos extraídos da obra Os carolinos: crônica de Carlos XII (Delta, 1963), do escritor sueco Verner von Heidenstam (1859-1940), Prêmio Nobel de Literatura de 1916.

POEMA XXIIVaidade das vaidades (Sísifo / escuta o pregador) tudo é vaidade / que proveito de todo o seu trabalho / tem o homem debaixo deste sol? / (a eterna mesmice) a geração / vai e vem mas a terra permanece / levanta-se o sol e põe-se o sol / e volta ao seu lugar de onde nasceu / o vento vai ao sul e faz seuy giro / para o norte e retorna aos seus circuitos / todos os rios correm para o mar / e o mar nunca se enche com os rios / todas as coisas são canseiras tais / que o homem não as explica com palavras. Poema extraído da obra Sísifo (Quíron/MEC, 1876), do poeta Marcus Accioly (1943-2017). Veja mais aqui e aqui.

AUGUSTO BOAL
[...] Sonhar é humano e não realizar o sonho não é um problema em si. Sonhar é humano. Árvores não sonham. Pedras também não sonham. E mortos já sonharam [...].Que cada um diga o que fez, a que veio e por que ficou. E que cada um tenha a coragem de, não sabendo por que permanece, retirar-se [...].
Homenagem ao dramaturgo, ensaísta e escritor brasileiro Augusto Boal (1931-2009). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Workshop Violinistas de Palmares & muito mais na Agenda aqui.
&
O que esperar do amanhã, a literatura de José Joaquim da Silva, a música de Montserrat Figueras, a fotografia de Araki Nobuyoshi, a poesia de Angel Popovitz, a arte de Rajkumar Sthabathy & Gerda Wegener aqui.
&
Na calçada da tarde, a poesia de Antonio Botto, a escultura de Rosa Bonheu, a música de Yara Bernette, As narrativas memorialísticas de Patricia de Cassia Porto, a arte de Maria Lynch & William-Adolphe Bouguereau aqui.
&
O mergulho das manhãs e noites nas águas profundas do amor, a música de Constança Capdeville, o cinema de Luchino Visconti, a Escola Estadual Joaquim Fernando Paes de Barros Neto, a arte de Aubrey Beardsley & Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, setembro 13, 2017

FEUERBACH, CARUANA, NATÁLIA CORREIA, ANTÔNIO TORRES, ANÍBAL BEÇA, ALEX GREY, JACQUELINE BISSET & ELISEU PEREIRA

EMOÇÕES QUE ME DOU FELIZ DE SONHAR - Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.- Fora de casa, pé no mundo, passo a passo: andejo noitedia voo do que sou pro que quero ser, caminho que sei pra me encontrar. Se vago por todos os trajetos, sei aonde chegar. Se me perco, desencontros nas trevas, são minhas, para reencontros tardios que nunca foram demais, na horagá e tudo volta ao normal no meio das trepidações, a ser como era para ser novo outro dia. Basta a alvorada para que eu saiba pra onde eu tenho que ir, aprendo a fechar meus olhos pra escuridão da noite e me valho da firmeza, mesmo que tudo dê errado, mesmo que me seja estranho a passagem ou ignore o paradeiro inóspito, o caminho é um só: a mim mesmo. Se me desencontro é porque perco a noção da vida, coisas de ir ali e voltar já, contando até dez, retomando o fôlego, firmando a razão pra que a emoção seja mais que válida na hora de errar ou de vingar acertando na veia, e logo me reconduzo como sangue por vasos, corrente de rio pro mar, reaprumo a direção e sou novamente na estrada do Sol. Mais que distâncias incertas repletas de altos e baixos, sei das ondas, pulso com as vibrações, sou roda que gira no dom de voar, passo em qualquer lugar, seja mais que paradeiros perdidos, mais que ermos atravessados, sei-me sempre na verdadeira travessia: um palmo abaixo do nariz e tudo é luz, sou pro amor. É praí que converge todas as minhas errâncias e devaneios: nada mais que a estrada pra dentro do coração, emoções que me dou, feliz de sonhar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com Por que eu não pensei nisso antes, Bicho de sete cabeça, Beleléu Léu Eu & Sampa Midnight do compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical Itamar Assumpção (1949-2003); Paino Works da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896); Pierrot Lunaire & Concerto Piano op. 42 do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951); e Libera-me & amém  para uma ausência da compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PALESTRA ELISEU: ÉTICA, CIDADANIA & MEIO AMBIENTE
Atendendo convite das professoras Janeide e Romina, realizei ontem no Colégio Estadual Eliseu Pereira de Melo, em Palmares – PE, a palestra Eliseu: Ética, Cidadania & Meio Ambiente, pros alunos da instituição escolar. Veja mais aqui & aqui.

MANIFESTO DA ARTE VISIONÁRIA - [...] Porque essa ênfase na acurácia? Falando pelo Realismo Fantástico, Fuchs relata que “Desde o início nós queremos re-animar a arte dos Antigos Mestres. Mas, mais do que isso, nós queremos representar a imagem fantástica de uma maneira como se ela tivesse sido pintada, não pela mão, mas pelo próprio sonho, não deixando traços de arte para trás. [...] a Arte do Visionário procura mostrar o que está além do limite de nossa visão. Através de sonhos, transe, e outros estados alterados, o artista procura ver o não-visto – atingindo um estado visionário que transcende nossos modos regulares de percepção. A tarefa que o espera, a partir daí, é comunicar sua visão numa forma reconhecível para o campo de visão cotidiana. [...]. Trechos extraídos da obra Primeiro Manifesto da Arte Visionária (Amorc, 2013), do artista e escritor maltês Laurence Caruana, expressando que por meio desta arte o artista busca expressar, em sua obra, suas visões, provenientes de Estados Alternativos de Consciência (EAC), como sendo experiências entendidas comumente como espirituais .Veja mais aqui.

PRELEÇÕES RELIGIOSAS - [...] deuses são seres que só existem para e através dos homens; por isso não velam o homem quando este dorme, mas quando os homens dormem, dormem também os deuses, isto é, com a consciência do homem se esvai também a existência dos deuses. [...] Um ser sem qualidade é um ser sem objetividade, e um ser sem objetividade é um ser nulo. [...] Deus não é o que o homem é, o homem não é o que deus é. Deus é o ser infinito, o homem, o finito; deus é perfeito, o homem imperfeito; deus é eterno, o homem transitório; deus é plenipotente, o homem impotente; deus é santo, o homem é pecador. Deus e o homem são extremos: deus é o unicamente positivo, o âmago de todas as realidades, o homem é o unicamente negativo, o cerne de todas as nulidades. [...] Trechos extraídos da obra Preleções sobre a essência da religião (Vozes, 2009), do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872). Veja mais aqui.

POR UM PÉ DE FEIJÃO - Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (a nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida. Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar... Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar? E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta. No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem negra, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão. Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe. E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que arrancava os pés de feijão: - Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido? E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca. À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu barco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado. Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando. — Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos. E disse mais. — Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo. Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão. Texto extraído da obra Meninos, eu conto (Record, 1999), do escritor Antônio Torres. Veja mais aqui e aqui.

A DONZELA DE ZEUS - Caço um rugido de sol / Odisseu sedento e lasso / alço-me a um mar de ninfas / escarpado / nos ventos de cílios / céleres / Das ondas vejo-a nascida / do botão do olho mais dócil / onde um vitral fundeado / recolhe as velas da nave. / Tomo-lhe a mão / de cambraia / a vestidura de / incógnitas / Desço / suavemente ao dorso / com as mãos cheias de lavas / devolvidas ao vulcão / num jogo de fogo e espelho / Só na brasa dos mamilos / encontro a concha das mãos / suor sereno / arrepio / um mar salgado na boca / Ó Ítaca distante! / A língua se evola lânguida / estilingue em espiral / pedra elástica na praia / tomando de assalto o lago / Por um momento sei-me prancha / e ela um trampolim de pétalas / Na fúria de Poseidon / pousa Penélope. Poema do poeta, tradutor, compositor, teatrólogo e jornalista Aníbal Beça (1946-2009). Veja mais aqui.

A ARTE DE JACQUELINE BISSET
A arte da premiada atriz britânica Jacqueline Bisset no filme Screts (Intimate Games, 1971), dirigido pelo diretor e ator britânico Philip Saville (1830-2016), no qual a atriz desempenha uma dona de casa que tem alguns problemas com o marido que concede uma entrevista de emprego, quando ela se depara com alguém que lhe ser ela parecidíssima com a esposa dele morta. A partir disso, relacionamentos se confundem entre uns e outros, levando a uma situação inesperada.

Veja mais:
A arte musical de Clara Schumann aqui e aqui.
A arte musical de Constança Capdeville aqui e aqui.
A arte musical de Arnold Schoenberg aqui e aqui.
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ODE À PAZ
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
Deixa passar a Vida!
Poema extraído da Antologia poética (Dom Quixote, 2013), da poeta e ativista social açoriana Natália Correia (1923-1993) (Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.)Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.
Veja mais aqui.


sexta-feira, março 17, 2017

LUCHINO VISCONTI, TUNICK, CONSTANÇA CAPDEVILLE, AUBREY BEARDSLEY, MERGULHO DO AMOR & LUCIAH LOPEZ

O MERGULHO DAS MANHÃS E NOITES NAS ÁGUAS PROFUNDAS DO AMOR – Imagem: foto/arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Iaravi das manhãs lá vem ela com o frêmito dos seios tremulantes na sua nudez de Sol, e nem desconfia o quanto a amo por inteiro e a desejo além da vida e da morte. Anfitriã dos meus mais obscenos e secretos desejos, ela se serve pirão que o meu mar engrossa e eu mais a amo e ela não sabe e me dá o melhor de si só por dar e por amar e eu raspo o tacho de todas as suas deliciosas emanações até lamber os dedos como quer mais e muito mais. Ela não arrefece e remexe traquina inocente, enquanto eu estreio a cobiça buscando agasalhos no seu corpo pra me arranchar, o maior vuque-vuque ao seu cozimento e eu fervendo na nossa gangorra e vira a virar. Tudo desemboca ventre abaixo se avolumando entre eu e ela, só pra me fazer parque de diversão na sua devastadora gula e tesão que a consagra dona inestimável do meu coração menino travesso e agora mais cresço e torno a crescer dentro dela. E eu me insinuo com sacudidelas me apoderando para arrematá-la lambendo os beiços e atacando suas intimidades, roçando-lhe a nuca com o meu bafejo safado e todos os ardis para vergá-la, rendê-la, varar-lhe o âmago, o dorso, a garganta e tudo dela e todos os gozos com minhas mãos e posses em suas reentrâncias, atravessando-lhe o ventre e ancas enfeitiçadoras para arrancar seus suspiros mais vibrantes e minando de emoção. Dominada, mais se entrega a mim como quem ao carrasco se deixa golpear e eu a sorver a ameaça a cada bocado de sua mais deliciosa entrega corpórea e anímica, quando Freya das noites ela me enfeitiça como a venero língua de fora, pernas pra que te quero além do poder, a perseguir seus passos de deusa e a perseverar de tê-la comigo para todo o sempre e toda a todo momento. Ah o seu jeito lindo de ser sensacional encantadora pronunciada na exibição da sua carne saborosa, mexendo-se e a cada movimento eu me deliciando com suas curvas, remexidos, tudo sensual demais e ao meu dispor, a cada olhadela uma pegada pronto para agarrá-la com diligência e a lhe tomar o pulso, puxar ao braço e alisar sua pele e agarrar seus quadris e abocanhar suas pernas e coxas e a recolher inteira totalmente minha, Freyaravi, na explosão medonha que rasga noites e dias e sou mais que a eternidade atravessado nela e eu faço juras enloquecidas de amor e paixão por ela. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui & aqui.

Curtindo a arte musical da compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville (1937-1992).

Veja mais sobre:
O Cravo e a Rosa, Clitemnestra – Oréstia & a trilogia de Orestes, Antônio Torres, Elis Regina, Bernardo Bertolucci & Maria Schneider, Clara Redig & Antônio Maria, Antoine-Jean Gros, Pierre-Narcisse Guérin & Programa Tataritaritatá aqui.

E mais:
Nietzsche & a Música, Luis Soles & as raízes árabes da tradição poético-musical do sertão nordestino, Otto Maria Carpeaux & a História da Música, José Ramos Tinhorão, Edigar de Alencar & O carnaval carioca através da música aqui.
Platão, Albert Sánchez Piñol, Aracaju, Toninho Horta, Amos Gitai, Cia. Cenica Nau de Ícaros, Paul Helleu, Ricardo Cabús, Helena Yaralova, Biritoaldo & Cidadania e Direitos Políticos aqui.
Paz & Alberto Enstein, Jiddu Krishnamurti, Alexander Scriabin & Paul Gauguin aqui.
Gaia – Mãe Terra, Isaac Asimov, Caetano Veloso, Teresa Filósofa & s Jean Baptiste de Boyer aqui.
Buda, Darcy Ribeiro, August Macke & Yes aqui.
Christian Bernard, Isaac Newton, Casimiro de Abreu, Keith Jarrett, Carlos Saura & Mia Maestro, Julio Hübner & A lenda da criação no gênese africano aqui.
Umberto Eco, Friedrich Dürrenmatt, Abelardo da Hora, Humberto Teixeira & Eliane Ferraz aqui.
Litisconsórcio, Tavito, Bruno Vinci & Teco Seade aqui.
Psicologia na Educação, Eek, Gato Zarolho & Palhaço Paranoide aqui.
Decameron, João Albrecht & Jiddu Saldanha aqui.
Riacho Salgadinho, Eliezer Setton, Zé Barros, Naldinho Freire, Wilson Miranda & Webrádio Maceió aqui.
Hermilo Borba Filho & Sônia van Dijck, Teoria da Literatura, Solange Palatnik, Constituição, Psicologia, Dialogicidade & Representações Sociais aqui.
A vontade, Amanda Garruth, Deborah Rosa, Luciana Soler, Bete Sá, Vanessa Morais & Cantora Sol aqui.
Afetividade, Lília Diniz, Lucinha Guerra, Thathi, Ezra Mattivi, Juliana Sinimbu & Anna Ratto aqui.
Dos destroços pra solidão criativa, Fabian Dobles, Rosa Passos, André De Dienes, Joan Fullerton & Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.
É ela a soberania do mar na foz do meu rio, Naura Schneider, Marianna Leporace & Luciah Lopez aqui.
Cenário em ebulição: pra quem vai do lado de lá ou quem vem do lado cá & vice-versa, Hélène Bernard & As grandes iniciadas, Willem de Kooning, Arabella Steinbacher & Rubens Gerchman aqui.
Os dois mundos de quem vive de um lado só, Angelo Agostini, Juliette Herlin, Hannah Wilke, Fernando Botero, Nik Helbig, Doro, Robimagaiver & Zé Corninho aqui.
Reflexões de jornada à sombra da amendoeira, Albert Einstein, William Byrd, Jeff Kolker& Otgo aqui.
A miséria obscena da avareza & Zinaida Evgenievna Serebryakova aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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A arte do ilustrador e escritor inglês Aubrey Beardsley (1872-1898).

DESTAQUE: LUCHINO VISCONTI
Entre os cineastas da minha predileção está o premiado cineasta italiano Luchino Visconti (1906-1976), do qual tive o prazer de assistir, entre outros filmes, Rocco e os seus irmãos (1960), com a bela atriz Annie Girardot; Belíssima (1951), com a lindíssima atriz Anna Magnani; Noites Brancas (1957), com o qual arrebatou o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1957, com a linda Maria Schell;  e Violência e Paixão (Gruppo di famihlia in un interno, 1974). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Fotopoema da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

DEDICATÓRIA:
A edição de hoje é dedicada a todos que fazem a Escola Estadual Joaquim Fernando Paes de Barros Neto, de Itapecerica de Serra, São Paulo.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: foto de Spencer Tunick. Veja mais aqui.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

sábado, setembro 22, 2007

JOÃO UBALDO, FECAMEPA, ALCMEON, HIPÓCRATES, CAPDEVILLE, ELEONORA DUSE, MARCO POLO, CORR & MUITO MAIS!!!



OS PERÓS: O ACHAMENTO E A INVASÃO DE PINDORAMA - “[...] num mundo que o português criou”. (Gilberto Freire) - O Brasil não foi descoberto pelos perós - nome dado aos portugueses pelos brasílicos. Foi achado e invadido por eles. Esta tese se apoia na constatação lusitana de Rocha-Trindade e Caieiro (2000) de que ocorreu um achamento do Brasil em 22 de abril de 1500. É o que também confirma o lusitano Castro (2003, p. 67), ao mencionar que: “Sobre esta palavra “achamento” – descoberta, encontro – basearam-se as diversas teorias sobre a intencionalidade ou menos da descoberta do Brasil pelos portugueses”. O que houve, na verdade, foi que os portugueses vieram tomar posse, simplesmente. Além do mais, comprova esta tese o fato registrado por Barbalho (1982), com base no historiador austríaco Ludwig Schwenhagen, de que dois mil e seiscentos anos antes de Cabral, o Nordeste brasileiro já teria sido explorado pelos fenícios. E nessa controvérsia surge o posicionamento do professor Assis Cintra que contestava o feito de Cabral, alegando que muito antes do citado descobrimento, os portugueses já conheciam o Brasil, tendo-se por base mapas, cartas e outros documentos datados até de 1343, ou seja, quase dois séculos antes do “descobrimento” oficial. A respeito do depoimento do professor, que no arquivo secreto do Vaticano, mais precisamente no livro 138, folhas 148 e 149, por exemplo, encontra-se guardada uma carta do d. Affonso IV, rei de Portugal, ao papa Clemente VI, então autoridade suprema da política Europeia. Também é assinalado que na correspondência datada de 12 de fevereiro de 1343, d. Affonso descreve as terras, o povo e os produtos descobertos: Diremos reverentemente a Vossa Santidade que os nossos naturaes foram os primeiros que acharam as mencionadas ilhas... – dirigimos para alli os olhos do nosso entendimento e desejando por em execução o nosso intento, mandamos lá as nossas gentes e algumas naos para explorarem a qualidade da terra, as quaes, abordando as ditas ilhas, se apoderaram, por força, de homens, animaes e outras cousas e as trouxeram com grande prazer aos nossos reinos. Ainda consta na matéria em referência e baseada nas ideias de Assis Cintra, que um mapa das terras atlânticas foi enviado também ao papa, onde se achava como grande ilha, a terra do Brasil. Com base nesse mapa, escreve a jornalista sobre as ideias do professor, que foi feito um grande mapa mundi, por ordem de Carlos V, da França. O mapa, que se encontra na Biblioteca Nacional de Paris, é datado de 1375 e traz, na posição atual do Brasil – e com conformação semelhantes à da América do Sul -, uma grande ilha com o nome de Ilha do Brasil, a 1,5 mil milhas do Cabo Verde – distancia aproximada do Cabo Verde ao Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Há indícios, reitere-se inclusive, que o étimo Brasil já era conhecido desde remotas eras, sendo referenciado como paraíso terrestre e fora registrado na bula papal de 1445. Isto quer dizer que, pelo menos, vigente desde a época medieval, a dádiva de Deus era de que o domínio territorial do mundo, segundo Barbalho (1982, p. 51), era representado pelo papa, o sumo pontífice, vigário de Cristo, chefe inconteste da cristandade. E o papado generosamente, entre 1417 e 1431 privilegiava Portugal, a exemplo do papa Martinho V, concedendo, a priori, “[...] todas as terras ainda desconhecidas que fossem descobertas, através do oceano, desde o cabo Bojador até as Índias, inclusive”. Por força disso, Barbalho (1982, p. 52) registra que: Aos 5 de janeiro de 1445, o papa Eugenio IV assinava bula confirmatória das doações feitas ao príncipe d. Henrique pelos reis d. Duarte e d. Afonso V, quando a jurisdição espiritual das conquistas, religiosa e militar, em favor da Ordem de Cristo, cuja sede, na época da descoberta do Brasil, já estaria situada na cidade de Thomar. A bula dagora, por sinal, seria homologada, aos 24 de dezembro de 1481, pelo papa Sixto IV, que concederia para sempre, àquela Ordem, todo o espiritual das terras do ultramar descobertas ou por descobrir. Também a bula Cuncta Mundi, assinada por Nicolau V e confirmada pelo papa Calixto V, por meio da bula Inter Coetera, em 1454, concedera a Portugal todas as ilhas, mares e terras firmes da África. Esta a razão pela qual Messias Junqueiro já dizia que o Brasil já pertencia a Portugal antes de ser descoberto. Há, ainda, o registro de Williamson (1970, p. 187), de que os ingleses desde 1480 andavam em busca da Ilha do Brasil, para onde fizeram várias viagens infrutíferas até, que em 1494, encontraram a terra nova. E nos depoimentos do professor Assis Cintra revela no seu livro “Limiar da Historia”, que consta ainda a referência a uma carta do navegador Duarte Pacheco Pereira ao rei d. Manoel, que incumbira de determinar com segurança as terras do Brasil: E por tanto, bemaventurado Príncipe, temos sabido e visto como no terceiro anno de vosso Reynado anno de nosso senhor de mil quatrocentos e noventa e oito donde nos vossaalteza mandou descobrir há parte occidental, passando alem há grande do mar ociano honde he achada e navegada huma tam grande terra firme.... que se estende a setenta graaos de Ladeza da linha quinocial contra o pólo ártico. Registra a matéria que na citada carta, Pacheco Pereira acrescenta que: [...] por esta costa sobredita do mesmo circulo equinocial em diante per vinte e oyto graaos de ladeza contra o pólo antártico he achado nella munto e fino Brasil com outras muitas couzas de que os navios nestes Reynos vem grandemente carregados. Registra, por fim, a matéria da jornalista já mencionada que, para Assis Cintra, no texto do navegador está “determinado com precisão o Brasil”, dois anos antes do descobrimento de Cabral, lembrando, também, a história do Tratado de Tordesilhas para sustentar sua posição: Si Portugal não conhecia o Brasil em 1494, porque dispender, como dispendeu, milhões de cruzados de ouro para conseguir a posse de terras (tratado de Tordesilhas) no occidente do Cabo Verde, até 370 milhas? (...) Porque o litoral brasileiro se achava comprehendido nessa distancia. Um país não se empenha como se empenhou Portugal, sacrificando um rio de ouro para conquistar terras hypotheticas. Há que se considerar, ainda, conforme Lima (2000, p. 7) que: [...] O Atlântico abria-se, oferecido a todas as cobiças. No princípio, apenas os contrabandistas, os traficantes das riquezas existentes nas terras recém-descobertas, enfrentavam a grande travessia e alcançavam as costas do Brasil. Depois, com o aparecimento das primeiras cidades, vieram os piratas – por conta própria – e depois os corsários – a serviço de governos que patrocinavam os assaltos. Além dessas constatações, é preciso levar em conta, também, que os primeiros caraíbas, nome dado pelos índios para estrangeiros que eram vistos por eles como seres sobrenaturais, foram os espanhóis, isto é o que o inglês Southey (1965, p. 23) defende: “A primeira pessoa que descobriu a costa do Brasil, foi Vicente Yañez Pinzon (...) a 26 de janeiro de 1500, em lat. 81/2ºS, a que Vicente pôs o nome de Cabo da Consolação... mas que hoje se chama de Santo Agostinho”. E mais adiante ele assinala que “A costa descoberta por Pinzon ficava dentro dos limites portugueses de demarcação”. Este mesmo argumento é usado por Thomas (1964, p. 15) que menciona que: Vicente Pinzón, amigo e companheiro de Colombo na primeira expedição à América, avistou, em janeiro de 1500, o cabo Branco (ou de S. Agostinho) que denominou Santa Maria de la Consolación ou cabo de Rostro Hermoso. (...) Diego de Lepe, espanhol zarpou de Palos. Chegou ao cabo de Santo Agostinho, verificando então que o litoral seguia a direção do sudoeste; virou depois para o norte, mais ou menos na rota de Pinzon, perdendo 10 pessoas num assalto do gentio ainda irritado pela crueldade do seu predecessor. Também identicamente é o entendimento de Lindoso (2000), ao defender que Diogo de Leppe descobriu o Cabo de Santo Agostinho antes de Cabral descobrir o Brasil no litoral da Bahia, e navegou pelo mar do norte de Alagoas, onde deu o bordo de retorno à Europa. Tais confirmações não deixam, portanto, dúvidas históricas quaisquer quanto a quem chegou primeiro no séc. XVI ao Brasil. Porém, existem 3 correntes distintas a respeito. A primeira corrente defende que em 26 de janeiro de 1500, o espanhol Vicente Yánez Pinzón teria atingido o litoral brasileiro. A segunda corrente entende ter sido Diego Leppe, primo de Pinzón o primeiro a avistar terras brasileiras em fevereiro de 1500. Uma terceira promove que foi o português Duarte Pacheco, que teria chegado ao Brasil em dezembro de 1498.  Muito embora a história oficial atribua a Pedro Álvares Cabral, há quem apresente a posição de Julião Marques de que: Esta é uma discussão bastante longa. Para solucionar esta dúvida eu tenho que retroceder no tempo e no espaço, e trabalhar com fenícios e vikings. É uma longa história. É assunto suficiente para um seminário. Vem mais celeuma, também, quanto ao fato de os portugueses acharem as terras do Brasil em 1500 por acidente ou de propósito firmado. Ou como bem se manifesta o lusitano Saraiva (1993, p. 166), ao mencionar: Em 8 de março de 1500, saiu do Tejo uma frota formada por treze navios, com mil e duzentos homens a bordo. (...) e o destino da viagem era a Índia. (...) Discute-se muito o carácter do descobrimento: ocasional ou intencional? (...) Ou chegou ali em consequência de um desvio de rota, provocado pelos ventos ou por algum erro de navegação? As duas correntes se confrontam e cada qual apresenta a sua razão. Não para por aí. Veja mais aqui, aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana - Subsídios para a História do Agreste e do Sertão. Recife: FIAM, 1982
CASTRO, Silvio. A carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2003.
LIMA, José Roberto. Uma revisão no processo histórico brasileiro. O Jornal, fascículo de 27/02/2000.
LINDOSO, Dirceu. Formação de Alagoas Boreal. Maceió: Catavento, 2000.
ROCHA-TRINDADE, Maria Beatriz; CAEIRO, Domingos. Portugal – Brasil: migrações e migrantes. Lisboa: Inapa, 2000.
SARAIVA, José Hermano. História de Portugal. Lisboa: Alfa, 1993.
SOUTHEY, Robert. História do Brasil. São Paulo: Obelisco, 1965.
THOMÁS, Cláudio. História do Brasil. São Paulo: FTD, 1964
WILLLIAMSOM, J. A. A expansão da Europa. In: Pequena enciclopédia da história do mundo. São Paulo: Cultrix, 1970.

Imagem: Reclining Maja with blue and gold, do pintor espanhol Ignacio Zuloaga y Zabaleta (1870-1945)

Curtindo o álbum que reúne as composições da compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville (1937-1992). Veja mais aqui.

EPÍGRAFEPelo cheiro do tição sabe-se a madeira que queimou, provérbio empregado no desmascaramento de malfazenças ou de incivilidade. Diz-se do irremediável, na identificação do malfeitor. Veja mais aqui.

FISICALISMO NA GRÉCIA ANTIGA – Na Grécia Antiga, o filósofo e médico Alcmeón de Crotona (500 A.C. – 450 A.C.), foi o primeiro a considerar que o cérebro era o centro de todas as sensações e sede da razão, da cognição e da sensação. Foi ele que influenciou Hipócrates, ao defender que o cérebro era o criador da mente humana, fazendo distinções entre os seres humanos e os animais, atribuindo ao homem ser o único animal a compreender, uma vez que os outros animais apenas percebiam. Alcmeón foi responsável pela suposição de que a percepção e a compreensão são processos distintos, propondo a existência de canais sensoriais que proporcionavam que as sensações chegassem até o cérebro, bem como foi ele quem apresentou os nervos ópticos como conectando os olhos ao cérebro e propôs a primeira doutrina médica do ocidente na relação entre doença e saúde. O sucessor de Alcmeón foi Hipócrates (460- 377 a. C.), que se baseava numa teoria dos humores, na qual o ser humano era descrito como formando um todo composto de quatro partes independentes que eram os quatro humores: o sangue, a fleuma (chamada também linfa ou pituíta), a bílis amarela, a bílis negra ou atrabílis, cada uma das quais relacionada a um órgão particular: o coração, o cérebro, o fígado e o baço. A saúde seria o resultado do equilíbrio dos humores. A medicina de Hipócrates assinalou o desempenho do cérebro no organismo e o reconheceu como a sede da inteligência. Também descreve as ramificações do cérebro com todas as partes do corpo e o modo como recebe as informações dos diversos canais dos sentidos. A sua obra Corpus Hippocraticum reuniu um conjunto de textos médicos e traziam as formas de pensar, além de discorrer sobre embriologia, fisiologia, patologia geral e ginecologia, fazendo muitas observações importantes sobre como o cérebro controlava vários órgãos do corpo. Para ele o cérebro é a sede do julgamento, das emoções e de todas as atividades do intelecto, assim como a causa dos transtornos neurológicos, tais como espasmos, convulsões e desordem da inteligência. Tem-se, portanto, que Hipócrates desenvolveu a arte da medicina, considerando o cérebro o centro da razão, afora outras especulações sobre a relação entre o corpo e a mente. Veja mais aqui e aqui.

O FEITIÇO DA ILHA DO PAVÃO – O livro O feitiço da ilha do pavão (Nova Fronteira, 1997), do grande e imortal escritor baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), tem como pano de fundo uma ilha fictícia no recôncavo baiano, apresentando uma galeria de personagens típicos do universo do autor. Da obra destaco o trecho: [...] Boas negras, Vitória, Naná, Das Dores, Pureza, Eulâmpia e outras, mulheres com quem qualquer se gabaria de haver deitado e delas recebido chamego e dengo, mas fieis não eram. Pelo contrário, na casa de todas elas dormiram homens [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POEMA CARNÍVORO – No livro Voo subterrâneo (Bagaço, 1986), do poeta, cantor, compositor e jornalista Marco Polo Guimarães, destaco o Poema Carnívoro: Mastigo tua carne e te machuco / chulo espermal e canibal / mas não te sei cosida e temperada / antes te como crua / antes te como nua e salgada / antes te deito sobre a língua tesa / como Eliot deitou a noite / na mesa de operações. Veja mais aqui.

A INTROVERSÃO E PAIXÃO PELA LEITURA - "Se a visão do céu azul o enche com alegria, se uma folha de relva florescendo tem o poder de lhe comover, se as coisas simples da natureza têm uma mensagem que você entendem, rejubile-se, pois sua alma está viva", frase atribuída à atriz italiana Eleonora Duse (1958-1924), que começou sua carreira aos quatorze anos de idade, interpretando Julieta, atingindo o sucesso aos vinte anos interpretando Thérèse Raquin (1878), de Émile Zola, entre outros papéis relevantes. Depois de um turnê pela América do Norte e do Sul, formou sua própria companhia, tornando-se famosa por sua interpretação nas peças de d’Annunzio e Ibsen. Esteve no Brasil por duas vezes, quando em 1923, foi estampada na capa da revista Time. Ela inovou com as representações nos palcos em descrevia como eliminação do eu, para se conectar internamente com a personagem, permitindo que a expressão se manifestasse por si mesma. Envolveu-se amorosamente com o poeta italiano Arrigo Boito até a morte dele. Logo em seguida ela se envolveu com o poeta e teatrólogo D’Annunzio, para quem ele escreveu quatro peças teatrais, só rompendo a relação quando ele deu o papel principal de uma de suas peças para Sara Bernhardt. Abandonando os palcos, teve um relacionamento amoroso com a feminista italiana Lina Poletti, que durou dois anos e teve rompimento brusco. Em 1916, ela fez um filme mudo, Cenere (Cinzas), retornando aos palcos em 1921 para uma turnê na Europa e na América. Veja mais aqui.

ARCA RUSSA – O drama histórico Arca russa (2002), dirigido por Alexander Sokurov, conta a história de um narrador sem nome que vagueia e que se diz fantasma vagando por ter morrido em um acidente horrível. Ele encontra outra pessoa de fora do espectro visível e segue-o através das numerosas salas do palácio, enquanto cada sala manifesta um período diferente da história russa e que não se encontram em ordem cronológica. O destaque do filme vai para a atriz russa Mariya Kuznetsova.Veja mais aqui.

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FECAMEPA: CPMF - Imagem: esta é a nossa bandeira recebida por mail. Gentamiga do meu Brasil de Pindorama & blá blá blá!!!É o seguinte: escrevi uma croniqueta desavergonhada "Quando o troço da CPMF entra no oba-oba do ora veja!" e deu o maior cloro! Uma tuia de gente deu a sua opinião, foi gente até de um-olho-só, avalie! Até o Governo Federal enviou um mail para mim e fez publicar matéria no Portal do Governo/Secretaria de Comunicação a respeito. Fiz o seguinte: juntei todas as manifestações no Fórum do Guia de Poesia e mandei ver.Agora estou esperando a sua manifestação. Então, qualé a sua, hem? Lembre-se: foi aprovado apenas em primeiro turno na Câmara dos Deputados. Ainda faltam: o segundo turno lá e a votação no Senado Federal, viu?Veja mais no Fórum do Guia de Poesia e mais aqui.


IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da musicista irlandesa e baterista da banda The Corrs, Caroline Corr.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Foster girls, ilustração de Fred Moore.
Veja aqui e aqui.


ALI COBBY ECKERMANN, MAGGIE O'FARRELL, LORRAINE DASTON & ANITA PAES BARRETO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to t...