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terça-feira, maio 21, 2019

KEATS & FANNY, LAING, JANE CAMPION & ALEXANDER ARCHIPENKO


FANNY, O TESTEMUNHO DERRADEIRO – Agora o meu testemunho derradeiro: compartilho definitivamente meu sofrimento com esta ode, para que meu sangue seja a vida na corrente do seu coração que esvoaça ubíquo por todo meu corpo e lugar. Você mudou a minha vida e aliviou meu coração com sua presença para começar meu sonho. A sua beleza é a música que respira a alegria brilhante na queimadura amorosa do meu peito e rechaça a minha dor sufocante na esperança do seu amor. Eu sei, um homem apaixonado é a mais triste figura do mundo, estou à sua mercê, deslumbrado com a sua confessa mão macia a premiar minha vida subjugada, tudo é gracioso em seus movimentos, voa em todas as direções dos meus sentidos. Sou apenas um aprendiz de cirurgião que desistiu da saúde para ser poeta, um pobre poeta que vive do nosso grande segredo e dele sobrevivo a enlouquecer, minha doce Fanny. Para você, a miniatura do meu retrato e todos os meus poemas e cartas que são seus, porque os seus mil beijos estarão sempre comigo. Só você é o meu prazer, minha docê Fanny, minha bela dama Sans Merci, a vida do meu amor confinado, cavaleiro desmontado pelos infortúnios, desassossegado, não há nada no mundo tão delicado, meu credo é o amor e você é seu único princípio, na paixão submetida a uma quarentena, chafurdando desesperado em autopiedade. Com a minha partida as autoridades sanitárias queimarão toda minha mobília, rasparão as paredes do meu quarto para novas portas, janelas e chão, meus poemas entre labaredas, minhas cartas incendiadas, ah, meus olhos se fecharão com você em mim, doce Fanny, que plantem margaridas sobre minha sepultura! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A existência é uma chama que constantemente ataca e revivifica as nossas teorias. O pensamento existencial não oferece qualquer segurança,nenhum abrigo ao sem-abrigo. Não se dirige a ninguém, salvo a vocês e a mim. Encontra a sua justificação quando, por cima do abismo das nossas linguagens, dos nossos erros, dos nossos devaneios e das nossas perversidades, fazemos, na comunicação com outrem, a experiência de uma relação estabelecida, perdida, destruída ou reencontrada. Esperamos partilhar a experiência de uma relação, mas o único ponto de partida honesto (e talvez o único fim) é talvez partilhar a experiência da ausência de relação. [...].
Trecho extraído da obra A psiquiatria em questão (Presença, 1972), do psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927-1989), que na sua obra O eu dividido (Vozes, 1978), expressa que: [...] o principal agente na integração do paciente, no fazer com que as peças se reunam de modo coerente, é o amor do médico, um amor que lhe reconhece o ser total e o aceita sem quaisquer limitações. [...]. Ele também é autor de obras tais como A política da experiência: a ave do paraíso (Vozes, 1978), Fatos da vida (Nova Fronteira, 1982), Laços (Vozes, 1977), O eu e os outros: o relacionamento interpessoal (Vozes, 1989), Percepção interpessoal (Eldorado, 1972), A política da família (Martins Fontes, 1983), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

BRIGHT STAR
Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente!
Não suspenso da noite com uma luz deserta,
A contemplar, com a pálpebra imortal aberta,
– Monge da natureza, insone e paciente –
As águas móveis na missão sacerdotal
De abluir, rondando a terra, o humano litoral,
Ou vendo a nova máscara – caída leve
Sobre as montanhas sobre os pântanos – da neve,
Não! mas firme e imutável sempre, a descansar
No seio que amadura de meu belo amor,
Para sentir, e sempre, o seu tranquilo arfar
Desperto, e sempre, numa inquietação-dulçor,
Para seu meio respirar ouvir em sorte,
E sempre assim viver, ou desmaiar na morte.
(Soneto Bright Star, de John Keats)
O drama Bright Star (Brilho de uma Paixão, 2009), da cineasta neozelandesa Jane Campion, é baseado nos três últimos anos de vida do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821), focando seu relacionamento amoroso entre os anos de 1818-1821, com a inglesa Fanny Brawne (1800-1865), interpretado pela atriz australiana Abbie Cornish. O poeta por ela se apaixonou e se casaram em 18 de outubro de 1819, mantendo o enlace em segredo, porque ele havia desistido de sua carreira na medicina e passou a se dedicar somente à poesia, fato que levou a família dela a se opor. Separados por conta das dificuldades financeiras e saúde precária do poeta, eles trocaram correspondências mútuas. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e artista plástico ucraniano Alexander Archipenko (1887-1964). 
Veja mais aquiaqui.
&
A OBRA DE JOHN KEATS
Eu sou a morte, trilhada sob os pés de uma bela dama.
A obra do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, dezembro 23, 2015

CRÔNICAS NATALINAS, BETINHO, KEATS, GREGÓRIO, LAMPEDUSA, ZEFFIRELLI, CHET BAKER, PSICANÁLISE, TEATRO RENASCENTISTA & MUITO MAIS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CRÔNICA NATALINA – Doro andava acabrunhado nos últimos dias. Pudera, depois das insistentes incursões na candidatura política sem um voto sequer, de atirar buscando oportunidades em todas as direções sem êxito e de ter, depois de quase dose meses enclausurado preparando as suas previsões para o ano de 2016 – o ano que, segundo ele, será o ano da sua redenção -, nada vingou e restou-lhe sem um centavo no bolso para fazer a feira, coisa, inclusive, muito corriqueira nos últimos anos. A mulher e os bruguelos não lhe deixavam em paz, a ponto do cara sair de manhã de casa e ficar enchendo o mundo de pernas atrás de botija, coisa perdida, bico ou o que fosse, para amealhar tostão que fosse para a ceia de Natal. Não deu. Saía e voltava mais liso do que antes. A mulher cada vez mais enfurecida e os filhos nem mais olhavam pra ele, tratado qual espantalho. Mas eis que vencido e completamente inutilizado, pensou em suicídio e voltou pra casa pronto pra acabar de vez com a sua desgraça de vida. Qual não foi a sua surpresa. Lá chegando a mulher estava aos vivas com a bruguelada toda escolhendo os presentes. – Qué qui hôve, mulé?, perguntou curioso. Dona Marcialita com os dentes quase mordendo as orelhas de tanta alegria, despachou na hora: - Você é um traste, mas Deus é bom! Umas madamas católicas trouxeram uns presentes pra gente e depois umas granfinas da igreja protestante trouxeram cesta básica e mais presentes. É Natal, bestão. Não fosse a caridade dessas senhoras a gente ia passar fome. Doro teve um alívio e, ao mesmo tempo, sem saber o que fazer. As influências do padre Bidião não lhe deixavam acreditar na bondade alheia, o que o fez, por causa disso, procurar saber o motivo disso tudo. Foi quando lhe passou pela cabeça de procurar o doutor Zé Gulu que, apesar de ateu convicto, poderia esclarecer-lhe o fato. Ao encontrá-lo, soube do intelectual que o Natal passou a ser a festa máxima da cristandade a partir do século II, quando foi instituída pelo Papa Telésforo. Porém foi o Papa Julio I quem, uns duzentos anos depois, definiu a data de 25 de dezembro, como sendo a da comemoração do nascimento de Jesus, sob a justificativa de ter sido aquele que morreu na cruz pra salvar a humanidade. Trata-se de uma festa que passou a ocorrer coincidente com a Saturnália romana, quando penduravam máscaras de Baco em pinheiros. Foi daí que surgiu o presépio em 1223, por iniciativa de Francisco de Assis. E a comunidade cristã ascendente em todo ocidente, começou a cultuar a data com o espírito de profunda piedade por inúmeros semelhantes menos afortunados e que não possuíam recursos para que o seu natal se tornasse uma data mais festiva, com donativos e presentes, tornando diferente a triste rotina de privações de todos os outros dias. Séculos mais tarde, surgiu, então, uma curiosidade a respeito do Natal de Rua que, ao que parece, surgiu no Brasil, por iniciativa de um certo paulista descendente de italiano e católicos praticantes, Carlos Mazzei – mais tarde afortunadíssimo barão -, que, começou na sua residência e rua no bairro de Pinheiros, o inicio de um grande espetáculo de luzes e cores no período natalino. Tem-se registro de que foi ele quem idealizou os grandes presépios coletivos nas praças públicas, ruas da cidade e logradouros comuns, dando prosseguimento à tradição cristã e dos rituais pagãos que ocorrem até hoje durante o solstício de inverno, com a simbolização da árvore de natal e do pinheiro, dando origem ao que, no século XVI, passou a ser cultuada pelo autor da Reforma Protestante, Martinho Lutero (1483-1546). Com isso, o futuro barão solicitou da prefeitura de São Paulo, a ornamentação da cidade para a festiva comemoração, justificando-se detalhadamente pelos nobres motivos cristãos. Mesmo não obtendo resposta nem apoio, manteve sozinho a sua iniciativa junto com amigos, até que a partir de meados dos anos 1950, passou a ser oficializada na capital paulista a ornamentação das ruas, fachadas, praças e jardins particulares, com lanternas, lâmpadas coloridas e enfeites. Daí virou costume no país inteiro alcançando, inclusive, o exterior e tornando-se uma prática bastante comum em todos os continentes do planeta. Ouvindo atentamente a exposição do pensador, Doro pensou consigo mesmo: - Rapaize, tô atrapalhado. Fiz de tudo, não deu nada. Num fosse a iniciativa dessas madamas, eu tava frito. Que é que é isso, Deus meu? O doutor Zé Gulu olhou pra ele e perguntou: - E o Natal do Popó, como vai ser? E ele respondeu: - Acho que vou matá aquele papagaio safado e comer na ceia. – Ih, cuidado pra não ser preso de novo! Pois é, depois de tentar ser Papai Noel desastrado no shopping, ser preso por assustar e intoxicar crianças e adultos com seus presentes natalinos, de preparar um pastoril que lhe findou fugindo da maior surra e de ser barrado no banquete do Beliato, não lhe restava mais nada ser preso por se vingar do seu estimado papagaio. E vamos aprumar a conversa curtindo as crônicas natalinas aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. E confira também aqui.

PICADINHO

Imagem
Leda And The Swan, do pintor austríaco Hans Makart (1840-1884).

 Curtindo o álbum She Was Too Good to Me (CTI Records, 1974), do trumpetista e cantor de jazz estadunidense Chet Baker (1929-1988).

EPÍGRAFE – Do poeta inglês John Keats (1795-1821): Não existe nada estável no mundo; tumulto é a nossa única música. [...] Se a poesia não vier tão naturalmente como folhas em uma árvore, seria melhor que não viesse. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ENFIM... O INÍCIO – No livro Fatos: a tragédia do conhecimento em psicanálise (Imago, 1989), do psiquiatra e psicanalista Paulo Cesar Sandler, encontro que: Quando uma intuição é seguida, um sentimento é sentido, quando um pensamento é agarrado pelo seu pensador, existe a dor, pelo menos parcialmente ligada a uma escolha. Todos os outros sentimentos, todos os outros pensamentos são perdidos. Existe dor quando se abandonam certas ilusões de onipotência. Experimentar sentimentos de amor traz consigo o risco de excluir algumas contrapartidas que são sinônimos de prazer. além disso, amar implica dar, o que pode renovar a dor caso prevaleça a voracidade. Não estou sugerindo que a pessoa tenha de alucinar o seio para sentir que está sendo alimentada, mas aquele que não pode intuir e fantasiar o seio e só recebe leite concreto também não pode se perceber alimentado. Uma busca interminável de coisas e objetos concretos no mundo externo é a consequência. [...]. Veja mais aqui e aqui.

DOS CONFLITOS ENTRE O CORPO E A FÉ RELIGIOSA – O livro O leopardo (Abril, 1979), do escritor italiano Giuseppe Tomasi, o príncipe de Lampedusa (1896-1957), traça um panorama da evolução social da Sicília durante a segunda metade do século XIX, tratando a decadência de uma família aristocrática. Da obra destaco o trecho: [...] Sou um pecador, sei-o, e duas vezes: perante a lei divina e perante o amor humano de Stella. E disso não pode haver dúvidas [...] É verdade que peco, mas peco para pôr termo ao pecado, para não continuar a excitar-me, para arrancar este espinho que me atormenta a carne, para não ser levado a cometer maiores pecados. O Senhor sabe-o bem. [...] Sou fraco e ninguém me ajuda. Stella! Diga-me a verdade! O Senhor sabe como a amei: casamos aos vinte anos. Mas ela agora é tão tirânica e tão velha! Ainda sou um homem vigoroso; como posso, pois, contentar-me com uma mulher que na cama, antes de apertá-la nos meus braços, faz sempre o sinal-da-cruz e que, depois nos momentos de maior emoção não sabe dizer mais do que: Jesus-Maria! Quando casamos, quando ela tinha dezesseis anos, tudo isto me exaltava, mas agora... Tive sete filhos dela, sete, e nunca lhe vi o umbigo. Será isto justo? [...]. Veja mais aqui.

SONETO DA BAHIA – Na obra do poeta brasileiro Gregório de Matos Guerra (1633-1696), muitas de suas poesias se destacam, inclusive este soneto que fala da realidade da Bahia à sua época: A cada canto um grande conselheiro / que nos quer governar cabana, e vinha, / não sabem governar sua cozinha, / e podem governar o mundo inteiro. / E cada porta um frequentado olheiro, / que a vida do vizinho, e da vizinha / pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, / para levar à Praça, e ao Terreiro. / Muitos mulatos desavergonhados, / trazidos pelos os homens nobres, / posta nas palmas toda a picardia. / Estupendas usuras nos mercados, / todos, os que não furtam, muito pobres, / e eis aqui a cidade da Bahia. Veja mais aqui e aqui .

TEATRO RENASCENTISTA - - Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Desde o final da Idade Média, as grandes casas senhoriais contratavam seus próprios atores em substituição aos antigos menestréis. Nas datas festivas, sobretudo no Natal e nos casamentos, esses comediantes domésticos encenavam peças especialmente escrita para a ocasião. Mesmo quando se organizavam em companhias independentes, continuavam respeitando a relação de serviço, pois submetendo-se ao patronato ganhavam proteção contra a animosidade das autoridades da cidade. Além disso, recebiam uma pequena anuidade e somas extras quando representavam na casa do amo. Os atores domésticos são herdeiros direto dos menestréis e bobos da corte e estabelecem o elo com os artistas profissionais da Renascença, do Barroco e da Idade Moderna. Com a gradual decadência das velhas famílias e o progressivo fortalecimento do poder real, os comediantes tiveram a principio de se sustentar por si mesmos. No entanto, a centralização da vida cultural e palaciana em cidades como Florença, Londres, Madri e Paris serviu de poderoso incentivo para a formação de companhias regulares de teatro. os países europeus – uns mais, outros menos – achavam-se então em plena Renascença, quando as artes começaram a se emancipar dos dogmas eclesiásticos para se ligar intimamente à filosofia humanista. O teatro sofreu de alguma forma essa evolução, embora o drama religioso despontasse ainda com certa insistência na obra de portugueses, como Gil Vicente e de autores espanhóis do chamado Século de Ouro (XVI e XVII), entre eles Diego Sanchez de Badajoz, Juan de Timoneda, Lope de Vega, Tirso de Molina, Mira de Amescua, Josef de Valdivielso, Calderón de La Barca e o próprio Miguel de Cervantes. Veja mais aqui e aqui.

O CINEMA E A TELEVISÃO – No livro O novo mundo das imagens eletrônicas (70, 1985), de Guido e Teresa Aristarco, o cineasta italiano Franco Zeffirelli, deu o seguinte depoimento: Ninguém parece dar-se conta de que, depois de decênios de maravilhosas ilusões e de legitimas esperanças, a televisão (ou, mais precisamente, o consumismo televisivo) está a fazer das nossas ilusões e das nossas esperanças carne para canhão. Quotidianamente, assistimos ao massacre, ignaros ou, pior, cegos, estúpidos. Perseguimos as nossas ilusões. E entretanto, os toalhetes Lines intrometem-se prepotentemente nas nossas sofridas narrativas, tolhem as palavras das nossas personagens, um pensamento dos seus olhos, interrompem uma fantasia, um sonho, para nos recordarem que vivemos num mundo de patrocínios, de computadores, de executivos. Remetem-nos para a realidade mais aviltante, mais humilhante. Desta trágica situação, ninguém ousou ainda falar. Estamos todos preocupados em fazer boa figura perante os outros e em falar do sexo dos anjos enquanto Roma está a arder. E entretanto, o cinema acaba por ficar irremediavelmente à mercê do consumo eletrônico, de um passatempo televisivo. E continuará a manter de pé meritórias estações televisivas para delícia digestiva dos deserdados, desiludidos com a TV do estado, que nunca vieram um filme de Fellini e que agora podem gozá-lo na santa paz das suas casas. E durante a publicidade – pelo menos – podem ir à casa de banho, ou meter os filhos na cama, ou dar uma olhadela à panela da sopa para amanhã, que ferve em cima do fogão. E veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do fotógrafo belga Willy Kessels (1898-1974).

DEDICATÓRIA
O desenvolvimento humano só existirá se a sociedade civil afirmar cinco pontos fundamentais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade
A edição de hoje é dedicada ao Natal Sem Fome, criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1937-1977), na Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria e Pela Vida. Veja aquiaqui e aqui.

AS PREVISÕES DO DORO 
Confira aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sábado, outubro 31, 2015

PAULO FREIRE, DRUMMOND, KEATS, RAPHAEL RABELLO, LELOUCH, LARISSA, AROSA, PSICOLOGIA COMUNITÁRIA & SÓ PORQUE HOJE É SÁBADO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SÓ PORQUE HOJE É SÁBADO - Só porque hoje é sábado é um dia de comemoração. U-hu! É o dia que Vinícius fez o Dia da Criação só pra gente saber que ontem foi sexta de uma semana corrida e desalmada, e que amanhã é domingo, o dia em que o descanso nem sempre ou quase sempre nunca é de verdade. Mas só porque hoje é sábado, há de haver motivo suficiente para a felicidade, é ou não é? Eu mesmo não sei bem quê comemorar, mas se assim o é, podia ser, digamos, o dia em que uma dona de casa abriu os olhos pro seu cotidiano, como sempre bem cedinho quando a madrugada se vai despedindo pro reino do Sol, e foi invadida por umas ideias que lhe pareciam toscas e nada valiosas para si, no seu modesto modo de ver. Ela sentiu no corpo o peso da idade e da labuta, e ao se levantar ajeitando as vestes mal dormidas, nem imaginou que podia ser um sábado diferente enquanto atravessava o corredor e um monte de coisas lhe agitava o quengo sem que pudesse concatenar nada entre um bocejo e outro com os desafios da rotina no meio. De repente, viu-se encorajada a dizer asneiras: - Basta! Vida de pinica já era. E valeu-se, como sempre, da força da sua munheca para sobreviver! – Por que não tenho uma vida como a da novela da TV com final feliz e tudo o mais? -, indagou-se, sentindo-se estranha lá meio grogue, revestida de um poder nunca antes sentido. Aí disse não ao fogão, depôs o avental, deu baixa na cozinha, até sair aturdida no centro da sala e diante da televisão: - Lá vem você com esse papo só pra botar merda na minha cabeça! Meio zonza com tudo aquilo e sem saber o que fazer, olhou pros lados e ainda viu tudo limpinho e fruto do seu trabalho árduo de três cargas horárias, noitedia e de domingo a domingo, de dar-lhe um paroxismo a ponto da revolta incendiar tudo e ela não ver-se mais que um sapato velho jogado na lama. Ah, hoje é sábado, ora! E por isso ela podia pensar se apenas um dia e uma lei bastavam. E sentia na pele o que os maleducados cospem no cúmulo do desrespeito! Quanta gente maleducada! Gente escolada, granfina, metida a besta, parece mais que a escola fabrica débeis que pisam e chutam quem não é da turma pra ser jogado pra escanteio e a universidade diploma todo dia histéricos felizes, psicóticos simpáticos, perversos sorridentes, esquizofrênicos paranoides. Ué e eu? Onde ela nisso tudo? Só porque é sábado ela se deu ao luxo de mudar de vida e se recordar do dia em que nasceu Deus sabe onde, por certo num bolsão de carência e da lei do morro que ela nem se lembra mais, com todas as incertezas e interrogações que mais privam da razão do que mostram qualquer sinal de que algum dia tudo pode dar certo. E viu-se na quimera dos seus sonhos de uma infância feliz e repleta de sacis que cultuavam a Cumadre Fulôsinha porque só ela podia enfrentar o Boitatá – o bicho-papão – que tomavam meninas malcriadas pra comer-lhe o fígado em noite sinistra. Ela que nunca viu Papai Noel, não sabia se era melhor ser uma menina bonita e obediente do tipo anjinha do céu no reino da deusa Felicitas, ou se arretando de vez de corpalma numa deusa Morrígan, cultuando o mais patético fervor da crueldade da pobreza, das competições raivosas e das deteriorações ambientais, a catar de cada sujeito o que é de mais desumano e insignificante pro seu orgulho e autossatisfação. Feliz, até sorriu com tudo isso vingando no peito. Afinal, hoje é sábado! E ela podia até pensar no trocado que sobrou da passagem do ônibus virando uma bolada da loteria para abrir uma caderneta de poupança e acumular até o dia em pudesse ficar rica comprando uma casa própia na beira-mar, com um carro novinho em folha na garagem e a peidar contra o vento porque agora não fazia a menor diferença pensar no que sofreu na vida, nem o que apanhou de tudo quanto fosse adversidade, mangando daqueles que não conseguiram vencer na vida como derrotados migrantes da desgraça. Agora ela estava do outro lado e por isso podia mangar à bessa! Podia até estudar pra fazer um concurso pruma repartição pública e viver no bem-bom, salário certo no fim do mês, roupa da moda, festinhas nos finais de semana, conversa mole e não ter que fazer mais nada que manter o emprego e fazer a sua parte que era a de ser feliz e o resto que se dane! Tudo isso lhe passou à cabeça só porque hoje é sábado, o dia e a lei sumiram – bastaram? E ela teve de esfregar os olhos e ver qual sonho ou pesadela lhe atormentara àquela hora da manhã, vez que era mais um dia de branco como outro qualquer e ela foi tomar pé nos afazeres senão podia acabar embaixo da ponte sem ter com quem conversar nem o que fazer. E vamos aprumar a conversa aqui.


Imagem: Baigneuse, da pintora francesa Marguerite Arosa (1854-1903).


Curtindo o álbum póstumo Cry, my guitar (GSP, 1994-2005), do violonista brasileiro Raphael Rabello (1962-1995).

PENSANDO A ATENÇÃO À SAÚDE SISTEMICAMENTE – No livro Psicologia na comunidade: uma proposta de intervenção (Casa do Psicólogo, 2006), organizado por Carmen Leontina Ojeda Ocampo Moré e Rosa Maria Stefanini Macedo, encontro a introdução intitulada Pensando a atenção à saúde sistemicamente, assinada por Rosa Maria Stefanini Macedo, da qual destaco os trechos a seguir: Aos ricos, suavemente chamados descompensados, estressados, ou surtados, as clínicas psiquiátricas e psicológicas de primeira linha e tratamentos com as mais moderns técnicas psicoterápics e medicamentosas; aos pobres, loucos, doido varridos, os hospícios ou as enfermarias de saúde mental nos hospitais públicos e tratamentos com os remédios tradicionais (“mansa-leão”) ou participação em grupos de pesquisa com novas drogas: essa é a situação mais comum na política de saúde mental entre nós. [...] Para lidar com tal situação é necessário que o profissional tenha uma visão global das relações pessoas-contexto, seja psicólogo, psiquiatra, enfermeiro ou assistente social, para poder contribuir efetivamente para a mudança da sensação de desamparo, ajudando a fortalecer a autoestima e a crença em si mesmo dos consultantes. A pessoa do profissional é peça chave dessa relação “empoderadora” e, para isso, ele deve ser introduzido, antes de qualquer coisa, aos demais funcionários do serviço, seja hospital, posto de saúde, repartição pública onde vai atender, para que aí deIxem de predominar preconceitos comuns em relação a ele, sobretudo se for psicólogo, ao qual em geral, são encaminhados todos aqueles que chegam aflitos, descontrolados, nervosos, sem uma queixa clara e/ou orgânica. [...] Os cursos de formação também precisam alargar sua visão, procurando modificar o currículo mais baseado em testes psicológicos e técnicas psicoterapêuticas voltadas para os aspectos intrapsíquicos do individuo. As mudanças políticas, sociais e econômicas urgem por atualização nas teorias e práticas que valorizem cada vez mais a pessoa como cidadão participante na construção da sociedade, na qual não pode ser ignorado, sob pena de causar grandes prejuízos aos cofres públicos. Saúde e educação são primordiais além de moradia e saneamento básico e a falta de investimento nesses setores volta como gastos para o governo em proporção geométrica, como tem sido fartamente demonstrado pelos estudos econômicos do desenvolvimento. Para as dores da alma não há elixir que cure, mas apoio que consola e modos de ver o mundo que constRoem esperança. [...] Termino essa introdução com as palavras de Paulo Freire, o melhor companheiro para esta útil e maravilhosa empreitada: “O utópico não é o irrealizável. A utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e a de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia também im compromisso histórico”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A DOIDA – No livro Contos de aprendiz (José Olympio, 1973), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), destaco o conto A doida: A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado.  E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. Era só aquele chalezinho, à esquerda, entre o barranco e um chão abandonado; à direita, o muro de um grande quintal. E na rua, tornada maior pelo silêncio, o burro pastava. Rua cheia de capim, pedras soltas, num declive áspero. Onde estava o fiscal, que não mandava capiná-la? Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados. Não explicavam bem quais fossem esses benefícios, ou explicavam demais, e restava a impressão de que eram todos privilégios de gente adulta, como fazer visitas, receber cartas, entrar para irmandade. E isso não comovia ninguém. A loucura parecia antes erro do que miséria. E os três sentiam-se inclinados a lapidar a doida, isolada e agreste no seu jardim. Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. Não aparecia de frente e de corpo inteiro, como as outras pessoas, conversando na calma. Só o busto, recortado, numa das janelas da frente, as mãos magras, ameaçando. Os cabelos, brancos e desgrenhados. E a boca inflamada, soltando xingamentos, pragas, numa voz rouca. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos populares, dos quais alguns pareciam escabrosos, e todos fortíssimos na sua cólera. Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de 60 anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer – mas nos racontos antigos abusava-se de veneno. De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la. O padeiro mal jogava o pão na caixa de madeira, à entrada, e eclipsava-se. Diziam que nessa caixa uns primos generosos mandavam pôr, à noite, provisões e roupas, embora oficialmente a ruptura com a família se mantivesse inalterável. Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passou a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão. Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita. Quarenta, e não há mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante, instalou-se no espírito das crianças. E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Finalmente, e já havia muito tempo, por hábito. Como a doida respondesse sempre furiosa, criara-se na mente infantil a idéia de um equilíbrio por compensação, que afogava o remorso. Em vão os pais censuravam tal procedimento. Quando meninos, os pais daqueles três tinham feito o mesmo, com relação à mesma doida, ou a outras. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí – explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação – toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem. Quando se tornam ferozes, são trancados no sótão; fora disto, circulam pacificamente pelas ruas, se querem fazê-lo, ou não, se preferem ficar em casa. E doido é quem Deus quis que ficasse doido... Respeitemos sua vontade. Não há remédio para loucura; nunca nenhum doido se curou, que a cidade soubesse; e a cidade sabe bastante, ao passo que livros mentem. Os três verificaram que quase não dava mais gosto apedrejar a casa. As vidraças partidas não se recompunham mais. A pedra batia no caixilho ou ia aninhar-se lá dentro, para voltar com palavras iradas. Ainda haveria louça por destruir, espelho, vaso intato? Em todo caso, o mais velho comandou, e os outros obedeceram na forma do sagrado costume. Pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé. O projétil bateu no canudo de folha-de-flandres enegrecido – blem – e veio espatifar uma telha, com estrondo. Um bem-te-vi assustado fugiu da mangueira próxima. A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Então o do meio vibrou um golpe na primeira janela. Bam! Tinha atingido uma lata, e a onda de som propagou-se lá dentro; o menino sentiu-se recompensado. Esperaram um pouco, para ouvir os gritos. As paredes descascadas, sob as trepadeiras e a hera da grade, as janelas abertas e vazias, o jardim de cravo e mato, era tudo a mesma paz. Aí o terceiro do grupo, em seus 11 anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. Não só podia atirar mais de perto na outra janela, como até, praticar outras e maiores façanhas. Os companheiros, desapontados com a falta do espetáculo cotidiano, não, queriam segui-lo. E o chefe, fazendo valer sua autoridade, tinha pressa em chegar ao campo. O garoto empurrou o portão: abriu-se. Então, não vivia trancado? ...E ninguém ainda fizera a experiência. Era o primeiro a penetrar no jardim, e pisava firme, posto que cauteloso. Os amigos chamavam-no, impacientes. Mas entrar em terreno proibido é tão excitante que o apelo perdia toda a significação. Pisar um chão pela primeira vez; e chão inimigo. Curioso como o jardim se parecia com qualquer um; apenas era mais selvagem, e o melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas, as roseiras pediam poda, o canteiro de cravinas afogava-se em erva. Lá estava, quentando sol, a mesma lagartixa de todos os jardins, cabecinha móbil e suspicaz. O menino pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar a janela. Chegou perto do animal, que correu. Na perseguição, foi parar rente do chalé, junto à cancelinha azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. Era um ponto que não se via da rua, coberto como estava pela massa de folha gemo A cancela apodrecera, o soalho da varanda tinha buracos, a parede, outrora pintada de rosa e azul, abria-se em reboco, e no chão uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras, que a louca desistira de reparar. A lagartixa salvara-se, metida em recantos só dela sabidos, e o garoto galgou os dois degraus, empurrou cancela, entrou. Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora. Tudo tão fácil, que até ia perdendo o senso da precaução. Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até aonde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida. Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas estaria a doida? A princípio não distinguiu bem, debruçado à janela, a matéria confusa do interior. Os olhos estavam cheios de claridade, mas afinal se acomodaram, e viu a sala, completamente vazia e esburacada, com um corredorzinho no fundo, e no fundo do corredorzinho uma caçarola no chão, e a pedra que o companheiro jogará. Passou a outra janela e viu o mesmo abandono, a mesma nudez. Mas aquele quarto dava para outro cômodo, com a porta cerrada. Atrás da porta devia estar a doida, que inexplicavelmente não se mexia, para enfrentar o inimigo. E o menino saltou o peitoril, pisou indagador no soalho gretado, que cedia. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão leve, entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava passagem a um corpo magro. No outro cômodo a penumbra era mais espessa parecia muito povoada. Difícil identificar imediatamente as formas que ali se acumulavam. O tato descobriu uma coisa redonda e lisa, a curva de uma cantoneira. O fio de luz coado do jardim acusou a presença de vidros e espelhos. Seguramente cadeiras. Sobre uma mesa grande pairavam um amplo guarda-comida, uma mesinha de toalete mais algumas cadeiras empilhadas, um abajur de renda e várias caixas de papelão. Encostado à mesa, um piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e caixas. Seguia-se um guarda-roupa de proporções majestosas, tendo ao alto dois quadros virados para a parede, um baú e mais pacotes. Junto à única janela, olhando para o morro, e tapando pela metade a cortina que a obscurecia, outro armário. Os móveis enganchavam-se uns nos outros, subiam ao teto. A casa tinha se espremido ali, fugindo à perseguição de 40 anos. O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa. Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para a frente, na investigação do rumor insólito. Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada. Ele encarava-a, com interesse. Era simplesmente uma velha, jogada num catre preto de solteiro, atrás de uma barricada de móveis. E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo. Mas os dedos desceram um pouco, e os pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o intruso com atenção voraz, desceram às suas mãos vazias, tornaram a subir ao rosto infantil. A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido. Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez. Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam. O menino aproximou-se, e o mesmo jeito da boca insistia em soltar a mesma palavra curta, que entretanto não tomava forma. Ou seria um bater automático de queixo, produzindo um som sem qualquer significação? Talvez pedisse água. A moringa estava no criado - mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber. Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria idéia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo. Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem. Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância – e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave. Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído obscuro, que fazia crescer as veias do pescoço, inutilmente. Água não podia ser, talvez remédio... Passou-lhe um a um, diante dos olhos, os frasquinhos do criado-mudo. Sem receber qualquer sinal de aquiescência. Ficou perplexo, irresoluto. Seria caso talvez de chamar alguém, avisar o farmacêutico mais próximo, ou ir à procura do médico, que morava longe. Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta e exposta a pedradas. E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer, e isso ele sabia que não apenas porque sua mãe o repetisse sempre, senão também porque muitas vezes, acordando no escuro, ficara gelado por não sentir o calor do corpo do irmão e seu bafo protetor. Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LA BELLE DAME SANS MERCI & OUTROS POEMAS - Na obra poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821), começo por destacar a tradução do poema La belle dame sans merci (1819), do estudo O feminino erótico encontrado na obra do poeta romântico John Keats, de Antonio Fernandes Lima Sobrinho, Diane Savier de Sousa e Fernanda Cardoso Nunes, do qual destaco os trechos: IV - Uma dama nos prados encontrei, / Todo-formosa, filha de uma fada: / A cabeleira longa, os pés ligeiros, / A vista descuidada. V - Tomei-a em meu corcel de passo lento, / E o dia inteiro nada mais vi, não; / Pois pendida de lado ela cantava / De fada uma canção. VI - Eu fiz-lhe uma grinalda para a fronte, / E pulseiras e um cinto redolente; / Ela me olhou com ar de quem amasse, / Gemendo suavemente. VII - Procurou para mim raízes doces, / Orvalho de maná e mel do mato; / E numa língua estranha murmurou: "Eu amo-te de fato" X - Guerreiros, e reis pálidos, e príncipes, / Todos, de morte pálidos, eu vi, / E me diziam: - "Pôs-te em cativeiro La belle Dame sans merci". XI - Com o negro aviso, seus famintos lábios / Vi escancarar-se à sombra vespertina; / E despertando me encontrei aqui, / No frio da colina. XII - E este é o motivo pelo qual eu me acho / Aqui, vagando pálido e sozinho, / Malgrado, seco o junco à beira-lago, / Não cante um passarinho. Também o poema Esta mão viva: Esta mão viva, agora quente e pronta / Para um sincero aperto, se estivesse fria / E no silêncio gélido da tumba, / Viria de tal forma te obsedar os dias / E esfriar-te as noites sonhadoras / Que quererias esgotar o sangue de teu coração / Para que em minhas veias - / Pudesse inda uma vez correr a vida rubra / E tranquila tivesses a consciência: / - Vê-a, aqui está, estendendo-a para ti. Mais o poema Mulheres, vinho e rapé: Dê-me mulheres, vinho e rapé / Até que grite “Chega!” / Pode fazê-lo sem objeção / Até o dia da ressureição; / Abençoe minha barba pois esta é / Minha adorada Trindade. Por fim um dos seus poemas Sem título: Repousando sobre os belos seios do meu amor / Sentir para sempre seu suave enrijecer / E abrandar para sempre acordado em um doce despertar / Imóvel, imóvel para ouvir o seu delicado respirar / Brilho da minha paixão, / Fosse eu imóvel como tu, astro fulgente / Não suspenso da noite com uma luz deserta. Veja mais aqui e aqui.

DE O DEFUNTO AO QUINTA DAS JANELAS – A trajetória da jovem e bela atriz Larissa Maciel começou quando ela tinha apenas nove anos de idade, atuando nas mini-peçs de teatro do seu colégio, fato que a levou a se apresentar no espetáculo Um conto de inverno (1996). Neste mesmo ano ela atua na peça O defunto. No ano seguinte foi estudar Artes Cênicas na UFRGS, o que a levou a atuar em diversos curtas e séries para a televisão gaúcha. Seguiram-se então a sua participação nas peças Barão das árvores (1998), Um gosto de mel (1999), Zona contaminada (1999), O menino maluquinho (1999), Não culpem ninguém (2000), Todos que caem (2004), Os sobreviventes (2005), Hotel Rosa Flor (2006), Aquelas mulheres (2010), A Eva futura (2011) e a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém (2012). Em 2006 ela estreia no cinema no filme A festa de Margarete, seguindo-se Vazio Coração (2012) e Quinta das Janelas (2012). Ao mesmo tempo ela atuou em comerciais, minisséries e em novelas na televisão. Esse um nome promissor da arte cênica brasileira. Veja mais aqui.

UM HOMME ET UNE FEMME – O filme Un homme et une femme (Um Homem, uma Mulher, 1966), dirigiro pelo cineasta, argumentista, produtor e realizador francês Claude Lelouch, conta a história de um piloto de corridas que está viúvo e encontra-se por acaso com uma bela mulher também viúva, ao visitarem seus filhos num colégio interno e isso se repete todos os finais de semana. Eis que num desses inesperados encontros no colégio de seus filhos, ela perde o trem e ele oferece uma carona de volta a Paris. Por causa disso, tornam-se amigos muitos chegados e, nesse vai e vem, finalmente se apaixonam um pelo outro, mas percebem que as lembranças dos seus cônjuges falecidos são ainda muito fortes entre eles. O destaque do filme vai para a sempre bela e premiadíssima atriz francesa Anouk Aimée. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004).

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...