Quarta-feira, Abril 29, 2009

LITERATURA DE CORDEL


QUEBRA PAU NO STF
Bob Motta

Cum tristêza e cum véigonha,
no verso, relato eu,
na sessão do S.T.F,
o quiprocó qui se deu.
O Brazí intêro viu,
quando a impanada caiu,
ixpondo aos zóio da gente;
invéigonhando a Nação,
a briga de dois grandão,
Ministro cum Presidente.

A verdade é qui nóis sente,
puro acuntecimento.
Tenho qui dizê no verso,
sinceramente, eu lamento.
Uis dois prá lá de letrado,
num inzempro rim danado,
ixtrapolaro tombém;
e eu digo, in meu dialeto:
Lula é simi anaifabeto,
mais nunca agridiu ninguém.

A nutiça foi além,
dais frontêra do país.
A atitude duis dois lado,
foi munto triste e infeliz.
Foi bate bôca duis feio,
qui deu inté aperreio,
in nóis, de fora, assistindo;
um distempêro totá,
e o mais arto Tribuná,
in briga, se cunsumindo.

Parece inté tá caindo,
naquela instituição,
uma praga miseráve,
ô intonce uma mardição.
Duvido qui a isparréla,
num venha dêxá seqüela,
eu juro, sem brincadêra;
qui tanto do tréque tréque,
num vá incolocá in xeque,
a justiça brasilêra.

Da patrôa à cunzinhêra,
do aluno ao professô,
do inleitô ao deputado,
da quenga ao gigolô.
Tôda a Nação brasilêra,
lamenta aquela zonzêra,
totaimente istarrecida;
cum a tristeza da verdade,
qui a credibilidade,
da Justiça, tá ferida.

O ministro dixe arto,
qui na matéra in questão,
o seu Presidente tava,
sunegando infóimação.
O Presidente falô,
quando se manifestô,
quage batendo nuis peito;
qui o Ministro in questão,
tinha fartado à sessão,
e qui ixigia respeito.

O Ministro ainda dixe,
sem arquejá, sem isfôrço,
qui num era, do Presidente,
capanga de Mato Grosso.
O Presidente ingrossô,
chega ais suas vêia inchô,
de ira, se acumeteu;
na troca de disafôro,
uis dois quebraro o decôro,
foi triste o qui acunteceu.

Só sei qui o fato passado,
cum efeito de furacão,
no dia seguinte à briga,
foi adiada a sessão.
Na Câmara duis Deputado,
o Presidente indagado,
dixe pudê afirmá;
qui aquela cunfusão,
num afeta a reputação,
do mais arto Tribuná...

BOB MOTTA - Roberto Coutinho da Motta, é membro da Academia de Trovas do RN, da União Brás. de Trovadores-UBT-RN, do Inst. Hist. e Geog. do RN, da Com. Norte-Riog. de Folclore, da União dos Cordelistas do RN-UNICODERN, da Associação dos Poetas Populares do RN-AEPP e do Inst. Hist. e Geog. do Cariry-PB.

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TATARITARITATÁ

Quarta-feira, Abril 22, 2009

JOSÉ SARAMAGO



O EVANGELHO DE SARAMAGO

“(...) Eva errou por desobediência. Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e a agonia continua”.

“(...) sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade”.

“(...) Ora, por ser cidade maior, e apesar de ter sido nela que Deus mandou edificar a sua morada terrestre, a Jerusalém não chegam esses humanitários regulamentos, razão por que, para quem não traga dinheiros na bolsa, nem trinta, nem três, o remedio sempre será pedir, com o provavel risco de se ver repelido, por importuno, ou então roubar, com o certissimo perigo de vir a sofrer castigo de flagelação e cárcere, senão punição pior. Roubar este rapaz não pode, pedir, este rapaz não quer, vai pousando apenas os olhos aguados nas pilhas de pães, nas pirâmides de frutos, nas comidas cozinhadas expostas em bancas ao longo das ruas, e quase desmaia, como se todas as insuficiências nutritivas destes três dias, descontando a mesa do samaritano, se tivessem reunidos nesta hora dolorosa...”

“(...) A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, esse lobo de que falas já comeu o meu pai, então só falta que te devores a ti, e tu, na tua vida, foste comido e devorado, não apenas comido e devorado, mas vomitado”.

“(...) Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco, Deus é uno, completo e indivisível (...) mas o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada”.

“Atrás do tempo, tempo vem, é sentença conhecida e de muita aplicação, porém não tão obvia quanto pode parecer a quem se satisfaça com o significado próximo das palavras, quer soltas, uma por um,a quer juntas e articuladas, pois tudo vai é da maneira de dizer, e esta varia com o sentimento de quem as expresse, não é o mesmo pronunciá-las alguém que, correndo-lhe mal a vida, espere dias melhores, ou atirá-las como ameaça, como prometida vingança que o futuro haverá de cumprir (...) coisas boas e coisas más, atrás de umas, outras, atrás de tempo, tempo”.

“(...) Para a religião que cultiva e os costumes a que obedece, estes escrúpulos de Jesus são subversivos, haja vista a matança desses outros inocentes todos os dias sacrificados nos altares do Senhor”.

“(...) a humanidade foi posta neste mundo, para adorar e sacrificar (...) Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva”.

“(...) Eis aquilo que podeis comer dos diversos animais aquáticos, podeis comer de tudo o que, nas águas, mares ou rios, tem barbatanas e escamas, mas tudo o que não tem barbatanas e escamas, nos mares ou nos rios, quer o que pulula na água, quer os animais que nela vivem, são abomináveis para vós, e abomináveis continuarão a ser, não comeis a sua carne e considerai os seus cadáveres como abomináveis, tudo o que, nas águas, não tem barbatanas e escamas, será para vós abominável...”.

“(...)) Vai-te, disse-lhe pastor, nem tornar à sua própria casa, não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, quem sou eu, os montes e os vales não lhe respondem, nem o céu que tudo cobre e tudo devia saber, se agora a casa voltasse e a pergunta repetisse, sua mãe dir-lhe-ia, és meu filho, mas não te creio, ora, sendo assim, é tempo de que Jesus se sente nesta pedra que aqui está à sua espera desde que o mundo é mundo, e nela sentado chore lágrimas de abandono e de solidão...”

“(...) tudo é relativo, uma coisa má até pode tornar-se sofrível se a compararmos com uma coisa pior, portanto, exuga-me essas lágrimas e porta-te como um homem (...) o céu acompanha a minha dor, tolos somos (...) que um dia a vontade do Senhor suscitará um Messias, um Enviado, para que, de uma vez, fique o seu povo liberto das opressões de agora e fortalecido para os combates do futuro.”.

“(...) Pobrezinha de mim, que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que sim como poderá ser que não, digo-te até que melhor seria não teres descido aqui na Nazaré para vires deixar-me nesta duvida, aliás, se queres que te fale com franqueza, um filho do Senhor, mesmo tendo-me a mim como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quadro crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a palavra, ora, ainda que se diga que o amor de mãe é cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições, Maria, o teu primeiro grande engano é julgares que eu vim cá apenas para ter falar desse antigo episódio da vida sexual do Senhor, o teu segundo grande engano é pensares que a beleza e a facúndia dos homens existem à imagem e semelhança do Senhor, quando o sistema do Senhor, digo-to eu que sou da casa, é ele ser sempre o contrário de como os homens imaginam, e, aqui muito em confidência, eu até acho que o Senhor não saberia viver doutra maneira, a palavra que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o não, sempre ouvi eu dizer que o Diabo é que é o espírito que nega, não, minha filha, o Diabo é o espírito que se nega, se no teu coração não deres pela diferença, nunca saberás a quem pertences, pertenço ao Senhor, pois é, dizer que pertences ao Senhor e caíste no terceiro e maior dos enganos, que foi o de não teres acreditado no teu filho, em Jesus, sim, em Jesus, nenhum dos outros viu Deus, ou alguma vez o verá, diz-me, anjo do Senhor, é mesmo verdade que meu filho Jesus viu Deus, sim, e, como uma criança que encontrou o seu primeiro ninho, veio a correr mostrar-to, e, tu cética, e tu, desconfiada, disseste que não podia ser verdade...”

“(...) Uma árvore geme se a cortam, um cão gane se lhe batem, um homem cresce se o ofendem (...) Mas, sendo o pão dos homens aquilo que é, uma mistura de inveja e de malicia, alguma caridade às vezes, onde fermenta um fermento de medo que faz crescer o que é mau e atabafar-se o que é bom, também sucedeu brigarem companhas e companhas, aldeias e aldeias, porque todos queriam ter Jesus só para eles, os outros que se governassem conforme pudessem ”.

“(...) as palavras proferidas pelo coração não tem língua que as articule, retem-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler”.

“(...) Todo o homem (...) é um pecador, o pecado é, por assim dizer, tão inseparável do homem quanto o homem se tornou inseparável do pecado, o homem é uma moeda, vira-la e vês lá o pecado”.

“(...) Posso eu próprio, ver algumas coisas do futuro, mas o que nem sempre consigo é distinguir se é verdade ou mentira o que julgo ver, quer dizer, às minhas mentiras vejo-as como o que são, verdades de mim, porem nunca sei até que ponto são as verdades dos outros mentiras deles (...) já se sabe,. Não vejamos sempre, nós, homens, as mesmas coisas da mesma maneira”.

“(...) as palavras dos homens são como sombras”.

“(...) É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue”.

“(...) Não sou quem fui, é verdade, mas sou quem era, e aquela que sou e aquela que era ainda estão atadas uma à outra pela vergonha daquela que fui”.
“(...) está triste porque pensa que não há mais justiça no céu se a impura é a que recebe o premio, e a virtuosa tem o corpo vazio”.

“(...) Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes (...) quem nasce não tem pecados seus, não tem que se arrepender do que não fez”.

“(...) e todos nós, onde quer que estejamos e quem quer que sejamos, não fazemos mais na vida do que procurar o ligar onde iremos ficar para sempre”.

“(...) Sobre a cabeça dos filhos há-de sempre cair a culpa dos pais, a sombra da culpa de José já escurece a fronte do teu filho”.

“(...) Com as botas do meu pai é que eu sou homem”.

“O filho do homem enterrará o homem, mas ele próprio ficará insepulto”.

“(...) O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio”.

“(...) deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens”.

“(...) o destino existe, o destino de cada um é nas mãos dos outros que está”.

“(...) porque só o silêncio é certo”.

“(...) cada pessoa tem a sua hora e cada coisa o seu tempo”.



JOSÉ SARAMAGO – O escritor e poeta português José Saramago, filho e neto de camponeses nasceu na aldeia de Azinhaga na província do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922, apesar de constar no registro oficial o dia 18. Mas esse não foi o único fato curioso dos primeiro anos de Saramago. Quando foi registrá-lo, seu pai pretendia que seu filho se chamasse apenas José da Silva, mas como seu apelido na aldeia era Saramago, a pessoa encarregada de registra-lo deu ao filho o apelido do pai. Por isso José da Silva veio a chamar-se Saramago. A "brincadeira" foi descoberta quando a matrícula de José Saramago da Silva foi rejeitada porque este não tinha o mesmo nome do pai. O pai de Saramago teve, então, de mudar de nome (acrescentando Saramago) para que seu filho pudesse estudar. Aos dois anos Saramago acompanhou a família à Lisboa, mas nunca distanciou-se definitivamente da aldeia de Azinhaga. Aos doze anos, por problemas econômicos, Saramago teve que transferir-se para uma escola técnica. Se aos onze anos Saramago ganhou seu primeiro livro de sua mão (O Mistério do Moinho), aos 18 era um frequentador assíduo, noturno, da Biblioteca do Palácio das Galveias, onde, sem nenhuma instrução, lê tudo que pode. Até os 25 anos, quando publicou Terra do Pecado, seu primeiro romance, Saramago trabalhou como serralheiro, desenhador, funcionário da saúde e da previdência social. Terra do Pecado tinha por nome oficial, dado por Saramago, A Viúva, mas como editor o achou pouco comercial, decidiu mudá-lo. Ainda em 1949, Saramago escreveu Clarabóia, que foi recusado pela editora (esse romance ainda permanece inédito até hoje). Saramago só passa a se dedicar exclusivamente à literatura em 59, quando assume o lugar de Nataniel Costa como editor literário na Editorial Estúdio Cor. Daí até seu segundo livro publicado, Os Poemas Possíveis, são sete anos. Esse tempo todo de silêncio literário (de 1947 até 1966) Saramago atribui a não ter o que dizer. Seu próximo livro, Provavelmente Alegria, saí em 1970, dois anos antes de ingressar no jornalismo. E dessa passagem pelos jornais A Capital e Jornal de Fundão que nasce A Bagagem do Viajante, em 1973. A mudança de Saramago começa a acontecer em 1975, quando é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias. Neste mesmo ano é demitido do diário e toma a decisão que mudaria o curso de sua escrita: decidiu somente escrever. Nesse tempo, sua única fonte de renda fixa eram as traduções. No final do ano publica O Ano de 1993, até hoje seu último livro de poesias. A partir dos 55 anos a produção literária de Saramago cresce assustadoramente, se comparada com o que ele escreveu até então. Mas é em 1980 que Saramago dá a maior guinada da sua vida literária, com a publicação de Levantado do Chão. Muitos críticos dizem que esse livro é o início do estilo saramaguiano (escrita barroca, longos parágrafos e uma forma diferente de construir os diálogos: Saramago elimina os travessões, que ele diz não haverem num diálogo comum, o que dá uma maior dinámica ao texto). Em 1991, Saramago lançou aquela que seria a sua mais polêmica obra: O Evangelho Segundo Jesus Cristo . Em 92, o Evangelho foi indicado para concorrer ao Prêmio Literário Europeu, mas o governos português, mais precisamente Souza Lara, vetou a sua candidatura, dizendo que essa obra "não representa Portugal" e que desunia o povo português muito mais do que o unia. Magoado com a censura da sua obra, Saramago resolveu deixar Portugal e se mudar para Lanzarote , nas ilhas Canárias, em 1993. Todo o processo criativo de Saramago foi mundialmente reconhecido quando da entrega do Prêmio Nobel de Literatura, ganho por ele em 1998.

FONTE:
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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CIDADANIA & MEIO AMBIENTE: UMA PALESTRA
CANTARAU

Segunda-feira, Abril 20, 2009

CORDEL DO MEIO AMBIENTE

Meio Ambiente

Marcos Maciel - Janduís - RN

O ceatica traz um tema
Sobre o meio ambiente
O aquecimento global
E de que é conseqüente
Como o campo contribui
Soltando seus poluentes.

Todos estamos passando
Por momentos complicados
Por onde se anda vê
Sujeira pra todo lado
Ninguém tá se preocupando
Mas o mau se espalhando
Do litoral ao serrado.

Este grande aquecimento
É a prova cabível
Que a ação do homem é
Uma força destrutível
Onde ele põe a mão
Destrói a vegetação
A água e o combustível.

Onde tinha muita planta
Agora se vê deserto
Então nós nos perguntamos
Será que tudo isto é certo?
Cadê nossos animais
Pebas, tatus e preás?
Ninguém não vê mais por perto.

Não os vê mais simplesmente
Por causa da extinção
Aonde tinha fartura
Alimento de montão
Hoje tudo é decadente
Da carne ao seu nutriente
Dos animais do sertão.

As cidades poluem muito
Mas o campo, nessa briga
Pois estamos destruindo
Da melancia à urtiga
É através dessas coisas
Que muitas plantas do mato
Não dá pra nossa barriga.

O combustível do mundo
Aos poucos vão se acabando
Com esse aquecimento
A terra vai se rachando
Se não aramos agora
Nossa água vai embora
Pois está se evaporando.

Os raios batem na terra
E não conseguem voltar
Todos vão se acumulando
Fazendo pressão no ar
É esse aquecimento
Que no decorrer do tempo
Não iremos controlar.

O campo é uma vítima
Do aquecimento voraz
Os nutrientes da terra
Já não dão bons vegetais
Um solo que foi potente
Hoje rejeita a semente
Já não quer produzir mais.

As queimadas se alastrando
Devoram tudo que resta
A derrubada das árvores
Mutila nossa floresta
Com o solo maltratado
Msmos endo ele aguado
Nada que nasce ali presta.

O campo também polui
E ninguém mostra receita
Que possa curar de vez
As dores deste planeta
Mas uma é bem certa
Se a terra ficar deserta
A coisa fica mais preta.

Um ar puro é necessário
Pra limpar nosso pulmão
Mas uma coisa é bem certa
Quero que preste atenção
Se a cidade não mudar
E o campo não ajudar
Nada tem mais salvação.

Esta é a minha mensagem
Que vem do meu coração
O meu nome é Maciel
Sou do sítio permissão
Que pertence a Janduís
D’um povo bom e feliz
Longe da poluição.

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TATARITARITATÁ
CIDADANIA & MEIO AMBIENTE: UMA PALESTRA

Quinta-feira, Abril 16, 2009

SALETE MARIA



MULHER CARIRI – CARIRI MULHER

Salete Maria

A luta por igualdade
Não se dá como se quer
No seio do Cariri
Ela enfrenta a maré
Não há praia por aqui
Mas há serra de pequi
Eis um Cariri Mulher

Combatendo a violência
Não deixando ela surgir
Demonstrando consciência
Sem mais precisar mentir
Dominando a ciência
Ou cultivando uma crença
Eis a Mulher Cariri

Querendo a delegacia
Acreditando com fé
Soltando o grito na praça
Marchando sempre de pé
Rindo sem pedir licença
Pois sua luta compensa
Eis um Cariri Mulher

No trabalho ou no estudo
Passeando por aí
No centro ou no subúrbio
Temos que admitir:
Mais corajosa não há
Sempre pronta pra lutar
Eis a Mulher Cariri
Com suas cidades jovens
(Basta vir ver como é)
Cada qual mais promissora
(Em Crato e praça da Sé)
Balneários barbalhenses
Cascatas missão-velhenses
Eis um Cariri Mulher

Politizada e de luta
Como ninguém por aqui
Aguerrida na disputa
Matreira como saci
Sônia Maria não só
Dona Alice e seu forró
Eis a Mulher Cariri

Artesã e lavadeira
Professora também é
Cozinheira ou doutora
Para o que der e vier
Teimando sempre com garra
Seja na boa ou na marra
Eis um Cariri Mulher

Íris, sinônimo de arte
Não há como confundir
Cláudia Rejane e Nininha
A esquerda faz sentir
Maria José de Sales
Poesia contra males
Eis a Mulher Cariri

Passarelas, faculdades
Num barracão ou chalé
A presença feminina
Ascende tal chaminé
Não há coisa que não saiba
Nem lugar onde não caiba
Eis um Cariri Mulher

Em toda parte ela está
E nada a fará trair
A semente que plantou
É sua vez de gerir
Prefeitura ou parlamento
Ela já dá bom exemplo
Eis a Mulher Cariri

Mulher comandando a URCA
Pesquisando em Assaré
Advogando o direito
De viver como se quer
Na feira ou num tribunal
Seu nome tá no jornal
Eis um Cariri Mulher

Você que lê este verso
Chegou a vez de unir
A força que a gente tem
Não é só para parir
Vamos chegar lá um dia
Salve a beata Maria
Eis a Mulher Cariri.

SALETE MARIA - Salete Maria é advogada, professora universitária, ativista pelos Direitos Humanos, realiza estudos sobre Gênero e Direito e tem inúmeros cordéis publicados, sendo a maioria sobre direitos das mulheres, homossexuais e temas ligados às questões marginais e periféricas. É membro da Sociedade dos Cordelistas Mauditos e tem cordeis premiados pela Fundaçao Cultural do Estado da Bahia. Usa a literatura de cordel para dialogar sobre gênero e cidadania. Ela edita o excelente blog CORDELIRANDO.



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Quarta-feira, Abril 15, 2009

BOB MOTTA



AIS COISA QUI TU ME DIZ...-Poema Matuto Erótico

Tu diz tanta coisa linda,
quando nóis tá chamegando,
qui eu inté vô me assanhando,
cum o tezão qui tenho, ainda.
A jornada num tá finda,
chamegá me faiz feliz.
Vô morrê sendo aprindiz,
do qui se faiz numa cama,
e a mim, o qui mais inframa,
é ais coisa qui tu me diz.

Você diz, minha rainha,
qui tôda vêiz qui eu lhe bêjo,
sobe um fríi na sua ispinha,
e um arrupêio de desêjo.
Seus pêlo fica iriçado,
uis seus póro incaroçado,
cum a drumença do tezão;
qui quando eu tô te lambendo,
tu se mija, se tremendo,
cum o toque dais minhas mão.

Você diz qui se deleita,
cum o inxirimento qui eu faço.
Qui fica só na butuca,
isperando o meu abraço.
Qui adora eu sê inxirido,
decramando in seu uvido,
e qui goza de repente;
quando eu, cum munto zêlo,
lambo e incoloco in seus pêlo,
uis bêjo mais indecente.

Qui gosta dais minhas mão,
no seu côipo, dirlizando,
quando eu passo o sabunête,
quando bãe, tu tá tumando.
Quando ali mêrmo, no bãe,
antes qui você se acanhe,
um amô séivage, nóis faiz;
e eu lhe pego insabuada,
lhe dando uma madêrada,
pura frente ô pru detráis.

Qui cada vêiz qui eu dirlizo,
minha língua in sua fenda,
lhe transporto ao Paraíso,
numa viagem istupenda.
Quando nóis tá se agarrando,
nossos côipo se roçando,
trocando uis nosso calô;
tu se sente ixtenuada,
totaimente saciada,
quage morrendo de amô...

Bob Motta
http://www.bobmottapoeta.com.br/

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Terça-feira, Abril 14, 2009

RAYMUNDO ALVES DE SOUZA



A POESIA VIVA DE RAYMUNDO ALVES DE SOUZA

AMEI COM TANTA DOÇURA
QUE QUASE VIRO GARAPA

Eu gosto da formosura,
Mas sou muito precavido,
Para ser correspondido
Amei com tanta doçura;
Num perco a compostura
Mas de mim ninguém escapa,
Aproveito a minha etapa,
Acreditem se quiser,
Ontem comi tanto mel
Que quase viro garapa.

CANTIGA POPULAR

A benção, mamãe de Loanda.
- Deus abençoe, meu filho Nogueira.
Meu filho vá me dizendo,
O que foi que viu lá na feira.

- Eu vi foi Cirino doido,
Metido de cartucheira,
Com 400 caifás.
Cem adiante, cem atrás,
Cem dum lado,
Cem do outro,
Tapa num, bufete noutro,
É assim que um homem faz.

NAS FORNALHAS DO INFERNO
EU VI O DIABO DANÇANDO

Num dia triste de inverno
Bem pra lá do Rancho Fundo,
Juntinho do fim do mundo,
Nas fornalhas do inferno,
Eu vi no barco do averno
Virgilio e Dante falando,
Dum lado a morte pescando
Com jereré de brocados
Na dança dos renegados
Eu vi o diabo dançando.

QUANDO CHEGUEI NA ESTAÇÃO
O TREM JÁ TINHA PARTIDO

Pus o embrulho no chão,
Corri pra bilheteria,
O bilheteiro já saia,
Quando cheguei na estação:
Aumentou a minha aflição,
Agucei os meus sentidos,
Senti um grande ruído,
E vi a fumaça no ar,
Ouvi a máquina apitar
O trem já tinha partido.

QUANDO O SOL VEM NASCENDO
A LUA ESTÁ DESCANSANDO

Toda lavoura crescendo,
Ribeiros correndo pro mar,
Passarinhos a gorjear,
Quando o sol vem nascendo.
Alegria, no campo vivendo,
Os idealistas sonhando,
O universo se agitando,
Lutando pelo futuro
O mundo sai do escuro
A lua está descansando.

VI UM POETA DORMINDO
NO COLO DA POESIA

Na mente a musa sentida,
Achei a rima suprema,
Repousando num poema,
Vi um poeta dormindo.
Dum lado, a gloria sorrindo,
Na loucura da alegria
Sem saber o que fazia
Levou o vate de braço
E sacudiu no regaço
No colo da poesia.

RAYMUNDO ALVES DE SOUZA – Nascido em Panelas, em 1884, Raymundo Alves de Souza viveu em Palmares onde morava sua avó e onde se formou artisticamente, destacando-se entre os poetas, escritores e artistas locais do passado. Foi aluno da mãe do poeta Ascenso Ferreira, foi pro seminário desistindo depois da ordenação, passando a trabalhar no barracão do Engenho Japaranduba, quando se torna mestre alfaite. Daí, colaborou com jornais e revistas pernambucanos e de outros estados. Tornou-se ator, casou-se, estreitou amizade com Ascenso Ferreira, casa-se de novo quando vai pro Recife, re-casou-se e vai se casando infinitamente, tornou-se vereador palmarense pelo PSD, fundando a Academia Palmarense de Letras. Em 1979, foi publicado o primeiro e único número do caderno cultural Nova Caiana, em Palmares, “Vida & Poesia de Raimundo Alves de Souza”, sob a coordenação editorial de Juhareiz Correya. Posteriormente seus poemas foram incluídos na antologia “Poetas dos Palmares”, edição de 1987. Em 1988 foi publicado pelas Edições Bagaço o livro “Celeiros d´alma – antologia poética”.

FONTES:
CORREYA, Juhareiz (Coord). Poetas dos Palmares. Recife/Palmares: FUNDARPE/Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, 1987.
SOUZA, Raymundo Alves. Celeiros d´alma – antologia poética. Palmares: Bagaço, 1988.

VEJA MAIS:
TARITARITATÁ
RAYMUNDO ALVES DE SOUZA NO VAREJO SORTIDO
RAYMUNDO ALVES DE SOUZA NO CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Quarta-feira, Abril 08, 2009

JORGE FILÓ: UM POETA DA PORRA!!!



GENEALOGIA

O poeta já nasce destinado
Desde a hora de sua geração
Cada veia que sai do coração
É um verso a pulsar acelerado
Pela deusa da musa é coroado
Do castelo dos sonhos é o rei
Tudo quanto improvisa vira lei
Quando quer, tudo pode, tudo cria
Trago o gen imortal da poesia
Pela força do sangue que herdei.

Aprendi com meu grande professor
Que o xexéu o piston a tarde emuda
Que no mundo não há quem não se iluda
No caminho de pedras do amor
Aprendi os segredos que há na flor
E que tudo na vida quanto sei
Foi porque minha vida eu debrucei
Pra melhor entender FiloSOFIA
Trago o gen imortal da poesia
Pela força do sangue que herdei.

QUERO CESAR LEAL ME ABENÇOANDO PRA TORNAR IMORTAL MINHA GERAÇÃO

Quem desvenda as veredas da poesia
E a poetas imberbes abre espaço
Sem temer falatório ou embaraço
Sabe o peso que tem a sua cria
É Leal no caminho que inicia
Dando margem e voz à criação
De quem cedo, já diz com o coração
Tudo quanto o sentido vai criando
Quero César Leal me abençoando
Pra tornar imortal minha geração.

MARQUETINGUE FAMILIAL

Se você no fim do ano
Também tem esta mania
Se gosta de dar presentes
Dê livros de poesia.
Tenho três indicações
Poetas do mesmo pó
O meu pai, meu tio e eu
Todos da lavra Filó.
As curvas do meu caminho
Do meu pai, a grande obra
O mestre Manoel Filó
Que versos, tinha de sobra.
Versos em motes diversos
Retrata o grande poeta
Que é Gregório Filó
Trilhando na mesma meta.
A igreja do diabo
Ou a contradição humana
É o meu livro-cordel
Que aos outros se irmana.
Quem quiser adquirir
Sendo este seu desejo
Todos três estão à venda
Lá no Box Sertanejo.
O endereço do Box
Pra quem tá desavisado
Fica lá na Madalena
Mesmo dentro do Mercado.
Pode pedir pelo fone
Nove, nove, sete, cinco
Repetindo a mesma rima
Vinte e seis, quarenta e cinco.
O do meu pai custa 20
15 é o do meu tio
O meu custa 10 reais
Pra qualquer canto eu envio.
E como disse meu pai
Num autógrafo que deu
“Tô explorando os amigos
vendendo o que Deus me deu.”

TAMBÉM NÃO SEI O QUE É

Não consiste de matéria
Reside em todo ambiente
Até no vão da semente
Sua existência é etérea
Também está na artéria
Que espalha sangue num gato
Na faca de tratar fato
No gomo da poesia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato.

II

No solado de um chinelo,
No batente da calçada,
Em cima de uma latada,
No estrondo do martelo,
Pintado de amarelo,
Pode ter qualquer formato,
Tá na cidade e no mato,
No olhar frio da jia,
No oco da melancia,
Que a raposa deu um trato.

III

Não sei quem diabo já viu
Porém tá em todo canto
E pra me causar espanto
O danado hoje sumiu
Não sei por onde saiu
Pois ninguém tirou retrato
No sentido estrito ou lato
Às vezes ele se enfia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato

IV

Lhes digo sinceramente
Que eu nunca o avistei
Outro dia até pensei
Tê-lo inventado na mente
Mais nisso rapidamente
Ele veio em meu olfato
Trazendo seu cheiro inato
Que eu sei que já existia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato.

MEDIDA

Gente grande não se mede
Pelo volume da massa
O troço de medir gente
Também não é pela raça
Nem queira lograr pecúnia
Essa medida é de graça.

SAMICO

Eu vim aqui poetar
Sobre esta bela figura
Que é a xilogravura
Deste artista sem par
Quero lhe homenagear
Pois seu ofício é sagrado
Um artista renomado
Gilvan não é brincadeira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.
Marco Pólo já versou
Bráulio e Cida Pedrosa
Eu vou entrar nesta prosa
Pois poeta também sou
Acho até que demorou
Mas o meu tempo é chegado
Quero me ver enquadrado
Neste time de primeira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.
Tem um ente que não sei
Se está na água ou no céu
E vem estendendo um véu
Foi logo o que avistei
Eu também observei
Um casal apaixonado
Um pavão pra cada lado
Numa simetria inteira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.

NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA SILENCIA A RABECA GENIAL

O Cavalo Marinho silencia
O Ambrósio, o Mateus, o Bastião
A rabeca saiu da entonação
A cultura do povo, perde o guia
Toda Zona da Mata em nostalgia
Dá adeus a seu mestre colossal
Sua imagem agora é imortal
Para sempre guardada na lembrança
NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA
SILENCIA A RABECA GENIAL.

Foi o Mestre maior da nossa arte
Respeitado em todos os recantos
Pelo mundo artistas vertem prantos
Pois seu nome soou em toda parte
Dos brincantes foi grande baluarte
Com seu estro singelo, madrigal
O seu gênio, de forma magistral
Perpassou pela vida numa dança
NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA
SILENCIA A RABECA GENIAL.

JORGE FILÓ - Jorge Renato de Menezes nasceu em Recife em 1969. Poeta cordelista e produtor cultural. Viveu a infância entre as cidades de Recife, Tuparetama, São José do Egito e Arcoverde. Nesta última, viveu da adolescência a fase adulta, quando mudou-se para o Recife, onde reside até hoje. Membro daUnicordel - União dos Cordelistas de Pernambuco. Produtor da banda Vates e Violas. Como gosta de dizer, Jorge Filó é neto, filho, sobrinho, irmão e amigo de poetas e toca sua vida “respirando e transpirando poesia”. É filho de um grande nome da poesia popular nordestina, Manoel Filó, que faz parte da família poética do Pajeú, região do Sertão pernambucano farta em bons poetas e repentistas. Além de escrever cordéis Jorge é um hábil sonetista e escreve seus sonetos sob o pseudônimo ou quem sabe heterônimo de Anacreonte Sordano. Poeta antenado com seu tempo edita com regularidade o blog No Pé da Parede com o qual se articula na internet e divulga a pluralidade da cena literária nordestina. Transita nas diversas cenas literárias de Recife e foi um dos percussores em unir as manifestações da poesia alternativa e da poesia popular, transitando com igual desenvoltura em eventos culturais dos mais diversos gêneros, tendo seus poemas publicados pelos fanzines alternativos em circulação. Livro: A igreja do diabo ou a contradição humana - Editora Coqueiro, 2004. Alguns cordéis: A medusa moderna ou besta fera da televisão - Editora Coqueiro, 2005; Dois dedim de prosa entre Jesus e Lampião - Prefeitura do Recife, 2007. Participação em coletâneas: Petrus Apostolus Princeps Apostolorum – Um mote santo e algumas sacras glosas – Organizada pelos Autores, 2006; Amores Perfeitos na Beira do Mar (organizada por Marcos Passos) - Edições Bagaço, 2007. Em CD: A revolução dos pebas – como recitador, em parceria com a banda Fim de Feira, 2008. Links relacionados: cardápio de poesia figura da vez entrevista corda virtual. blog do poeta nopedaparede.blogspot.com

Veja mais:
TATARITARITATÁ

Terça-feira, Abril 07, 2009

ENTREVISTA: LUIZ ALBERTO MACHADO NA VILLA CAETÉ




A Villa Caeté em REVISTA § A Villa Caeté em REVISTA § A Villa Caeté em REVISTA
Entre & Vista A Villa

Pense num cabra arroxado, arretado e com um intelecto impressionante... Tive o privilégio e o prazer de conhecê-lo através do meu amigo Tchello d´Barros. Extremamente crítico e de um humor simpático esse artista que exala paixão pela cultura como um todo, nos dá o prazer de aprumar a conversa... Meus bons, com vocês... Luiz Alberto Machado...



01 - A Villa - Quem é Luiz Alberto Machado?

Luiz Alberto Machado - Um sujeito estradeiro que vive de versos e tons pelos altos e baixos da existência, como eu digo no meu xote "Cantador": "(...) passo nos peitos a ficar comendo orvalho e cantar é o meu trabalho, deus me deu toda canção".

Gosto de mangação sadia e um bom papo, de pileque com música e poesia, e de ter e manter as amizades.

Sou freiado com covardia e arengo que só a porra contra a injustiça.

O resto, traço o que vier e corro atrás no trampo.

02 - A Villa - Onde começou essa, como você mesmo diz, "mania de aparecer" e a falar mais que o homem da cobra?

Luiz Alberto Machado - Ah, menino, já comecei querendo aparecer mesmo. Num adianta: já nasci com mania de grandeza, hehehehehehehehehe. E mentia como a praga desde bruguelito afoito, falando que só o homem da cobra e inventando lero para cima dos mais velhos.

Como eu era o primeiro neto duma mundiçada de mais de 30 tios e tias nas proles dos meus genitores, aí eu virei o rei da cocada preta - o roliúde mesmo! -, com direito a toda atenção do mundo. Quer holofote maior prum fiapinho de gente de nada? Ôxe, a tiarada toda era só mimo. Eu logo virei o refúgio do dengo e da manha. Os avós, tudo babando. Afora as comadres, pariceiras e achegadas que engrossavam o caldo.

Nesse meio eu era, como diz o ditado, verdadeiro pinto no lixo. Num era pra menos, né?

Até que por causa dum namorico inventado na minha predileção de pirralho com uma tia bem mais velha que cuidava de mim e não sabia disso, bem como a primeira professora que tive porque inventava que sabia ler, descobri a poesia nas apresentações das feiras dos cantadores de cordel. Tinha que imitar os desafios para chegar todo pabo pra elas.

Foi por causa da minha ameninada paixonite pela tia e, depois, pela professora primária, que eu comecei a escrever umas quadrinhas para elas que findaram sendo publicadas no suplemento semanal e infantil Junior, do Diário de Pernambuco.

Imagine só, um presepeiro com pouco mais de 4 ou 5 anos de idade, folgado que só, todo metido às pregas artísticas, escrever umas baboseirazinhas safadas de paixão, ter publicado várias delas no meio de quadrinhas e poemetos sapecados da própria lavra no Júnior do Diário de Pernambuco, era o mesmo que ganhar o Prêmio Nóbel da Literatura de fraldas. Isso me fez logo me achar maior que o meu próprio tamanho, hehehehehe.

Por causa dessas paixonites precoces, fui levado a imitar meu pai, um poeta daqueles de uma boemia sonetista e de cometer uns versos livres carregados, que vivia agarrado aos livros e eu segui no embalo.

Tudo isso foi e é a minha perdição até hoje.

03 - A Villa - A sua inspiração para a cultura é meio "Mix". Como ela foi, ou é lapidada?

Luiz Alberto Machado - Eu sou seduzido pela vida. Ando com os olhos virados para todas as partes, procurando sempre, investigando tudo. Na verdade, antes de mais nada, desde menino que me descobri pesquisador. É isso que sou de verdade: um pesquisador.

Desde menino que ninguém podia dizer nada que eu ia logo pras enciclopédias, almanaques e livros para saber o que era. Além do mais, meu pai tinha a doidice de me levar na algibeira quando ia se reunir numas bicadas com alguns amigos poetas e intelectuais. Eu ficava ouvindo tudo, isso com 7 ou 8 anos de idade, e dizia para mim mesmo que um dia conversaria aquelas ocultidões com eles. Não deu outra.

Na minha terra tinha uns sujeitos muito doidos, mas tudo conectado. Tudo levado pelo Ascenso Ferreira, que foi o poeta mais original do Modernismo brasileiro, segundo Mário de Andrade.

Tinha o Hermilo Borba Filho, escritor injustiçadissimo que foi o mestre de Ariano Suassuna e de uma geração inteira de poetas, dramaturgos, teatrólogos e atores.

Tinha uma cambada da peste de menino já virado pelo repente, maracatu, frevo, caboclinhos, reisado, ciranda, que levou logo pras obras do Câmara Cascudo, Gilberto Freyre e para as noções da Estética de Ariano Suassuna.

Foi quando adolescente inventei de querer saber a razão da nomeação de Palmares para a minha cidade natal. Comecei a pesquisa mais ou menos por volta de 77 e 78, por aí, e persigo até hoje.

Como toda manifestação humana que se amplia na relação das pessoas vira um acontecimento cultural, a cultura me inspira a todo momento para que eu possa buscar o discernimento, atuando emocional e racionalmente entre as minhas indagações, reflexões e endoidamentos, sempre fugindo dos maniqueísmos, dos modismos, dos sectarismos e dos porrismos todos que rotulam nossa cultura humana.

Então, como eu disse, a cultura me inspira porque sou um pesquisador orgânico, o que me faz a todo momento revirar as idéias de cabeça pra baixo, plantando bananeira para chegar a uma idéia geral que dê numa nova e dialética interpretação.

Coisa de doido mesmo, viu?

04 - A Villa - Nos fale de suas Obras. Quantos e quais são seus Livros, Peças, CD... ?

Luiz Alberto Machado - Bem, como falei antes, comecei menino a escrever versinhos e quadras que foram publicadas no suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco.

A partir daí peguei outra mania: a de escrever mais que escrivão de polícia. Lia e escrevia demais. Escrevia versos, compus umas canções e preparei uns textos teatrais.

Depois de uma experiência que não deu certo na montagem de um texto de Fenelon Barreto, um teatrólogo palmarense, resolvi escrever meu próprio texto: "Em busca de um lugar ao sol sob a especulação imobiliária", criticando o bipartidarismo e fazendo maior auê pelo pluripartidarismo. Isso em 1977, contando eu com 17 anos de idade. Essa peça foi montada e encenada, mas com o tempo mudei o título para "O Prêmio".

Com a adolescência escrevi um livro com uns versos que tinha um título para lá de pretensioso. Felizmente, pela feliz sugestão de Juarez Correia, publiquei em 1982 com o título "Para viver o personagem do homem". Como eu disse era o meu primeiro livro com versos da adolescência.

Tinha letras de música que eu levei para festivais e o que eu chamava na época de poesia que eu fazia desde aprendiz aborrecente. Isso fora o teatro que eu tava doido para escrever e montar.

Foi em 1983 que publiquei o meu segundo livro de poesia pelas Edições Pirata, o "A intromissão do verbo". E, no mesmo ano, foi lançada a minha peça "A viagem noturna do sol" no Festival de Leitura do Recife, montagem do grupo TTTres Produções Artísticas.

Depois disso, eu e uns amigos conterrâneos, criamos a Revista A Região e fundamos na levada as Edições Bagaço.

Depois disso adaptei, dirigi e musiquei a peça "João sem terra", de Hermilo Borba Filho e transformei em teatro infantil as obras de Elita Afonso Ferreira.

Em 1985, reuni um volume de poemas do meu pai que só aceitaria publicar se eu publicasse com ele. Fizemos então o "Raízes & Frutos", os meus poemas e os deles reunidos num volume pela Bagaço.

No ano seguinte publiquei o "Canção de terra", pela Bagaço. Foi ai que assumi a direção regional do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco, a presidência do Conselho da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, a direção regional da Federação de Teatro de Pernambuco - FETEAPE, entre outras entidades.

Em 1991 publiquei meu livro de poemas, Paixão Legendária, pela Bagaço.

No ano seguinte, a Bagaço publicou minha antologia poética "Primeira Reunião" e o meu primeiro livro infantil, "O reino encantado de todas as coisas".

Parti pra música e fiz o show "Por um novo dia" com minhas composições que começavam a ser gravadas por várias artistas pernambucanos. Danei a voz no mundo.

Em 1995, depois de ter saído da Bagaço, lanço em Maceió o meu selo editorial, Edições Nascente, publicando o meu segundo livro infantil, "Falange, falange, falanginha", adotado por diversos educandários de Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Paraíba. Fiz uma recreação do livro e levei para as escolas públicas e privadas.

Em 1996 lanço a publicação lítero-cultural "Nascente", um tablóide com 24 páginas, colorido, distribuído gratuitamente pelo Brasil afora com entrevistas, poesias, artigos e muita informação. É quando lanço o Prêmio Nascente de Arte Infanto-Juvenil, voltado para os alunos do infantil até oitava série do primeiro grau. Esse premio resultou na publicação de 2 antologias Brincarte, nos anos seguintes, contando com apoio de Mauricio de Souza da Turma da Mônica, entre outras personalidades brasileiras.

Em 1998 lanço o infantil "O lobisomem Zonzo" que logo esgotou e transformei em peça teatral já com vários prêmios.

Em 1999 lancei o infantil "O cravo e a rosa" e em 2001, o "Alvoradinha: calango verde do mato bom". Esses me levaram pelo Brasil afora a contar a história de um curumim caeté sobre o seu território de existência: da mata sul de Pernambuco até o rio São Francisco, território da tribo condenada dos caetés.

Em 2008 retomei as atividades do meu selo editorial e publiquei os dois livros infantis "A turma do Brincarte" e o "Frevo Brincarte", juntamente com o meu folheto de cordel "Tataritaritatá" e saí pelas escolas, eventos e comemorações realizando recreações infantis, cantaraus e palestras.

É isso.

05 - A Villa - Você já estudou "direito". O que desencadeou sua parte "esquerda" e questionadora?

Luiz Alberto Machado - Pois é, rapaz, nunca fiz nada direito mesmo. Tudo sempre saiu meio troncho, não sou lá tão exímio nem perito, né? Hehehehehehehehe.

Então, primeiro fiz Letras. Depois comecei Jornalismo, mas meu pai me queria ver douto jurisconsulto, uma perda de tempo. Findei cheio de pileque dentro duma faculdade de Direito. Mas, como eu já disse por aí, saí mais errado do que quando entrei. Foi que me decepcionei logo no segundo ano do curso quando descobri que a justiça é uma utopia e que o direito não é tão justo nem direito assim. O direito é a mania de positivar tudo quando, na verdade, é de jurisprudência que se vive. Ué? Como é, hem? E as decisões para fazer justiça, procuram ver onde está o menor prejuízo, aí se decide. Como a gente é da banda da corda que logo se arrebenta, logo todos os prejuízos são nossos, seja em que Tribunal for.

Como sou pesquisador, emboquei de forma aprofundada no Direito para transitar na defesa da dignidade humana e exercício da cidadania, combatendo a injustiça.

Inclusive, empunho esta bandeira de combater a injustiça porque dentro dela está tudo o que se reclama e necessita no Brasil. A injustiça é a boceta de Pandora do Brasil. Tudo, desemprego, educação, saúde, trabalho, tudo, tudo no Brasil é vitima da injustiça.

Aí, com minha doidice vesga de tetéu amostrado, resolvi sair por aí cantando e recitando tudo que chame atenção para o combate à injustiça. Vamos nessa?

06 - A Villa - Fundador de editoras e articulador de concursos literários. Fale-nos um pouco sobre essas atividades.

Luiz Alberto Machado - Pois é, tudo começou quando ainda adolescente virei co-editor de uma revistinha do colégio, que era editada por professores e a gente, uma turma que era aluno - poetas, escritores, músicos, compositores, uma trupe arretada.

Era uma revistinha de um encontro semanal que a gente já fazia no Grêmio Cultural Castro Alves, que era dos professores e alunos do Colégio Diocesano dos Palmares, onde a gente reunia gente de peso, maloqueiros e amostrados feito eu. Era As Noites da Cultura Palmarense. Tinha maloqueiro feito eu e um bocado de gente de gabarito que apoiou a nossa arteirice. Foi um zoadeiro da peste com saraus, jograis, murais, melodramas, o escambau. Arretado mesmo!

Depois veio a Revista A Região que eu falei. Deu tanto prejuízo que a gente fundou na batata as Edições Bagaço que virou na hora movimento de apoio cultural. Foi a Bagaço nascendo e a gente matando, em seguida, a revista.

Sempre fiz zines, como o Vozes do Una que foi encartado na Revista A Região.

Depois fiz, com o artista plástico Rolandry Silvério, uma revista em quadrinhos, "Aventureiros do Una" que chamou a atenção do Mauricio de Souza, sendo nesta época, por volta de 1981, o meu primeiro contato com o autor da Turma da Mônica.

Depois de fazer parte do Conselho Editorial da Bagaço, criei o meu próprio selo Nascente e editei o tablóide que começou como zine, Nascente - Publicação Lítero-Cultural.

Agora estou capengando com o zine Tataritaritatá para divulgar minhas coisas cara a cara, enquanto mantenho meus sites, a minha própria home Page www.luizalbertomachado.com.br, o site de humor Tataritaritatá, edito o Guia de Poesia do Projeto SobreSites - O referencial humano, do Rio de Janeiro, e edito meus blogs, o Brincarte, na área infantil; o Varejo Sortido, para a literatura, artes visuais, fotografias e artes plásticas; o Música, Teatro & Cia, para o universo musical, teatral e mais cinema e o escambau; o Crônica de amor por ela, para os meus poemas e textos eróticos; o blog Pesquisa & Cia para minhas pesquisas e trabalhos acadêmicos; e mais meio mundo de coisa.

O que eu gosto mesmo é de divulgar, por isso, sou editor dessa tuia de coisas, hehehehehehehe.

07 - A Villa - O que fazer para desligar o trator de esteira, chamado analfabetismo? Existe essa chance?

Luiz Alberto Machado - Eita!!

O problema da injustiça no Brasil vem desde que o país foi invadido pelos portugueses e outros povos europeus. A cultura da sacanagem, do roubo, da invasão, da preação, da esculhambação começa aí. É quando se dá o evento inaugural do Festival de Cagadas Melando o Pais - o FECAMEPA. Tudo isso para privilégio de uns gatos pingados mamadores das tetas públicas e mantenedores dos lambecus que vivem fazendo deste território imenso uma pátria de Fabos - leia-se: fabricantes de bosta.

São exatamente quinhentos e tantos e lá vai teibei de anos de injustiça.

O analfabetismo, essa praga que persegue secularmente os excluídos brasileiros, é somente resultado desses privilégios que proporcionam os assaltantes da patriamada, deixar na exclusão um montão de gente. Gente que tem a sensibilidade de ser poeta, de ser músicos, de ser artistas, de ser gente! Só não tiveram a oportunidade de receber a escolaridade da civilização.

Eu mesmo encho o peito quando tenho oportunidade de ver, ouvir e saborear poemas dos matutos do cordel, dos curaus dos cocos e emboladas, de Patativa de Assaré, de Zé da Luz, Lourival e Otacilio Batista, Manuel Bentevi, Cego Aderaldo, gente que não teve a oportunidade de se escolarizar e dão show como verdadeiros e mais sensíveis sismógrafos da humanidade.

Por outro lado, tem por aí diplomado que botou catinga em bosta, até pós-graduado que não passa de uma besta-quadrada, intelectuais de sovaco.

Conheço tanta masturbação dos pós-doutorados que dá nojo de ver só o chato de galocha se empanzinando de sapiência inútil porque não leva a nada, a não ser a satisfação dos culhões deles.

Por isso que a gente vive duas violências trágicas: a primeira, das elites, autoridades e cheios das pregas, uma violência calada, traiçoeira e perversa que ninguém ver, mas que rouba e se apossa do que é de todos: merendas, saúde, serviços públicos e tudo. Essa violência é uma calamidade nacional: todos se arrumam, custe o que custar. E isso em detrimento do povo brasileiro.

A segunda violência, essa a gente ver nas ruas e que está banalizada na televisão. Esta segunda é resultante da primeira que é escabrosa e camuflada. Esta segunda violência é o efeito da primeira, ninguém agüenta mais. E quem não tem teta pública para mamar, das duas uma: ou morre fodido de liso - feito eu que não tenho coragem de me apossar do que é dos outros, só quero o meu mesmo -, ou vai roubar, traficar e se lascar se for pego pelo opróbrio popular.

Essa é a nossa tragédia. O brasileiro precisa delinqüir para ser feliz. Quem nunca usou do expediente do jeitinho brasileiro? Quem nunca molhou a mão de um barnabé ou dum ineivado agente público quando precisa? Quem nunca usou da espórtula para vasilinar os óbices da burocracia brasileira? Quando não é corrompido, passa de corrupto para corruptor, é ou não é?

Pois é, foi quando eu entrei de cabeça no teatro, a sedução que mais me fez trabalhar, foi o Teatro do Oprimido, baseado na pedagogia de Paulo Freire. Isso em 1980 quando comecei a estudar de forma aprofundada a Pedagogia do Oprimido, aprendendo a seguinte lição: "Ninguem se liberta sozinho. Ninguem liberta ninguém. Os homens se libertam em comunhão". Esta a minha crença. Com isso, acredito num mundo melhor paratodos.

08 - A Villa - Você reside em Maceió, há aproximadamente 15 anos. Porque sair de um berço cultural latente e vibrante e vir para essas paragens mornas? Atravessamos um bom momento cultural? O que Alagoas precisa para despontar como Pernambuco?

Luiz Alberto Machado - Eu cheguei em Alagoas, em 1994, atendendo convite de um grupo empresarial pernambucano que estava entrando no mercado com uma empresa no interior do estado. Lá fiquei até 1999. Depois disso, dei um bico na formalidade, virei informal e passei a viver do que gosto e do que sei fazer: pesquisa, música, literatura. Quer dizer, virei camelô da pesquisa, um ambulante da minha música e da minha literatura.

Como sou da Mata Sul de Pernambuco e vinha há anos, na verdade desde 1978, pesquisando a origem da minha cidade natal e outros acontecimentos históricos a ela ligados, quando cheguei aqui me identifiquei logo com minha raiz caeté. Aí virei pernambucanalagoano logo. Pronto.

Dei de cara com meio mundo de conterrâneo. Cheguei a pensar: aqui tem mais pernambucano que alagoano. Afinal, era tudo Pernambuco mesmo até uns 200 anos atrás, né? Tamo em casa.

Comecei logo adorando a poesia de Arriete Vilela e Marcos de Farias Costa, o som do Mácleim e do Junior Almeida, o teatro de Pedro Onofre e me senti em casa mesmo. Tanto é que viajo esse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada o tempo todo, mas é em Maceió que eu moro mesmo. Foi aqui que escolhi pra morar.

O caldeirão de Recife me faz sempre vibrar, sou apaixonado por Recife, vivo o Recife, mas não sou mais menino, preciso descansar, é aqui que eu hiberno, recrio e renovo as energias.

Infelizmente Alagoas, como de resto a grande maioria dos estados brasileiros, é levada pela elite - que é uma só no Brasil todo, igualzinha uma da outra, pariceiras mesmo - que só quer sugaro sangue do povo por dinheiro, enriquecer mais do que já é, peidar na venta dos apaniguados e mandar todo mundo se catar porque essa elite quer somente passear pelas terras de Oropa, França e Bahia.

O que fazer? Combater o bloco do eu sozinho e juntar tudo na tuia. Vamos nessa?

09 - A Villa - Uma de suas vertentes é a cultura Infantil. Como inserir atividades nas escolas? Existe espaço para isso? O que a escola pública precisa fazer para ter ações concretas?

Luiz Alberto Machado - Rapaz, desde que fundamos a Bagaço que a turma queria que eu escrevesse um livro infantil. Quis não, sempre tive medo de melar a idéia das crianças com minhas tronchuras. Preferi adaptar livros de Elita Afonso Ferreira e de outros autores da Bagaço pro teatro.

Mas a pressão foi tanta, que passei 12 anos estudando Paulo Freire, Vygotsky, Freinet, Piaget, teatro infantil, literatura infantil, tudo infantil, até que tive o estalo: descobri que a minha infância foi muito interessante de trelosa e presepeira, aí resolvi colocá-la nas páginas. Está dando certo, pelo menos. Mango de mim mesmo. Deixei o menino que vive dentro de mim se mostrar. Espia só.

Aí comecei em 92, como já disse. Depois, desde de 95 que venho nessa de brigar contra o divórcio da educação com a arte. Aliás, a educação está divorciada de uma porrada de coisas: da família, da sociedade, de tudo, só burocratizada por trás dos muros e seguindo aquela velharia da educação tradicional bancária de só depositar conhecimento na cachola da meninada, um saco! Educação não é mais isso, gente! Educação é descoberta, ensinar aprendendo e aprender ensinando. Ou como diz a titia Rita Lee: "Brinque de ser sério e leve a sério a brincadeira!".

Todo mundo coloca a culpa do fracasso educacional no final da ponta da corda: professores e alunos. Professores que estão despreparados, desqualificados e desestimulados. Pudera, carga horária dessas, hem?

Já os alunos, nossa! Tudo abandonado pelos pais que colocam na escola a responsabilidade do ensino deles. E o pior: o que a escola ensina, os pais desmancham e a televisão desarreda. No final: macunaimas catatônicos que não estão nem ai para quem pintou a zebra, né não?

Esses que são os culpados? Ou as vítimas?

Pata mim a boceta de Pandora da Educação tem o buraco mais embaixo: começa no Ministério onde um bocado de gabinetólogo de bunda quadrada acha que pode da punheta de suas idéias trancadas resolver o problema da educação do Brasil todo. É equivoco demais. Aliás, a humanidade está equivocada faz tempo.

Também nas secretarias estaduais, uma bronca. Vá lá que você ver de tudo, menos educação.

E nas secretarias municipais? Começa pelo prefeito, tudo um ré-pra-tras da porra!

Sem contar com a colaboração inestimável da contraproducência e da roda-presa dos diretores de escola pública, né? A direção com os seus paus-mandados, uma panelinha só. Aliás, em todo canto a panelinha manda ver, faz parte do jeitinho brasileiro de mafiar e se relacionar. Os guetos, as facções, cada qual com sua turma. Professor e aluno que se fodam com "ph" e dois "oo" que viram "óóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó"!!!!! E ó praí, né?

A LDB vigente tai e ninguém sabe de nada, nem dela nem de PCN, nem temas transversais, tudo levado nas coxas mesmo.

Como sou muito às avessas, resolvi colocar nos meus livros infantis as minhas experiências com teores éticos, diferenças, cidadania, meio ambiente, tudo com meus personagens e eu mesmo brincando no reino do faz de conta que é o futuro.

Transformei dois livros em recreação e resolvi fazer doação dos livros, da recreação e da minha presença para os alunos das escolas públicas, sempre procurando promover o hábito da leitura, já que os pais não lêem, professores também, diretores muito menos, então eu fui de escola em escola pública de Maceió, sendo barrado na porta, esconjurado pela peitica de inventar de levar essas baboseiras pras escolas, tendo os livros devolvidos quando não jogados na cara e muita coisa de causar indignação. Por isso acho que perdi a vergonha na cara. Eu insisto, persisto e persevero.

Não sei como consegui ainda lançar um livro na Escola Estadual Josefa Conceição da Costa, no Canaã, onde fiz palestras sobre cidadania e meio ambiente, além de recreações com a garotada e doação de livros para a biblioteca. Ah, lembrei, foi por causa da professora Cêiça Marques.

Também não sei como consegui lançar outro livro na Escola Municipal Jorge de Lima, fazendo lá uma recreação e sorteio de livros. Também por causa da professora Cêiça Marques, obrigado mais uma vez.

Ainda fiz uma palestra-espetáculo, Cantarau - cantoria/sarau - no Colegio Estadual Rosalvo Lobo, sobre Literatura de Cordel, onde contei um bocado de história, cantei, recitei, meti bronca e saculejei a moçada de lá. Ah, essa foi por causa da professora Márcia.

Pra falar a verdade, só fui muito bem recebido pela diretora Lilia da Escola Municipal Zaneli Caldas, onde pretendo desenvolver o voluntariado lá de criar um grupo de teatro infantil e trabalhar a arte com a garotada. Palmas pra ela, por favor! E muito obrigado pela carinhosa acolhida.

Infelizmente foi aí nesses lugares onde consegui fazer alguma coisa, na maioria das vezes sou mesmo é enxotado. Convidado de mesmo só pelas escolas privadas, a exemplo do Colégio Anchieta que estarei todo o próximo dia 17 de abril e na Escola Cecilia Meireles no dia 24 abril, entre outras agendadas.

Pois é, infelizmente a escola pública é o retrato da realidade brasileira: um descaso. O que fazer? Dar um basta na incompetência e contra a injustiça, e a gente cair em campo para mudar com nossa voluntaria solidariedade pela construção da cidadania. A educação, indubitavelmente, é a ferramenta ideal para começar a mudar para um mundo melhor. Vamos juntos? Vamos aprumar a conversa!!!

10 - A Villa - Você é dos poucos artistas que conheço que vive e sobrevive de cultura. Como é isso? Fale um pouco sobre esse fato.

Luiz Alberto Machado - Rapaz, é trampo! Trabalho muito, meu amigo.

Para viver do que se gosta, é só porque se gosta, senão, já viu.

Meu pai já dizia: o que é de gosto arregala o peito.

Como eu disse antes, eu sou pesquisador. Pesquiso, escrevo, componho e meto a boca no mundo. É disso que vivo, mais nada. E trabalho das 3 da madrugada até às 4 da tarde, direto feito cantiga de grilo, todos os dias. De domingo a domingo. É isso que gosto de fazer: pesquisar, escrever, compor.

Como eu comecei a trabalhar quando tinha 10 anos de idade, de saco cheio de pedir mesada ao pai, virei logo carimbador oficial dum cartório. Foi quando comecei no ringue de alteroscopista e dando tragadas daquelas de Luis Buñuel.

Depois virei copista - de copiador mesmo, registrando sentenças judiciais. Fui crescendo e virando dedógrafo na máquina de datilografia, onde eu sacudia as catanas para registrar meus versos e arroubos. Findei um xexéu: imitador barato de todas as minhas influências.

Sempre gostei de ler. E como diz Ziraldo: "Ler é melhor que estudar". Mas como gosto de ler, adoro estudar e pesquisar. Imitava meu pai: vivia escondido entre os livros.

Aprendi a pesquisar no comecinho da adolescência quando me intrigava com esse negócio de religião. E também com os Quilombos dos Palmares, a Guerra da Praieira, a tragédia dos índios caetés, por aí.

Minha mãe mesmo chegava perto de mim arrodeado de livros aos tragos de esquecer a comida, chega ela mangava: - Meu fio, pare de ler um pouquinho senão você endoida!

Eu disse pra ela: - Agora é tarde mãe, já me autoendoidei-me! Hehehehehehe.

Fiz de tudo e findei sem saber nada. Passei por faculdades de Letras, Jornalismo e Direito e não consegui nunca passar de um Zé-roela. Sou, como dizem, um ilustre desconhecido!

Não sou poeta, sou ainda um aprendiz. Na verdade sou um chué dum compositor de tons e versos que se mete a fazer uns cantaraus (cantorias + saraus), misturando minhas rimas pobres com meus acordes empenados. Tem gente que aprecia e eu adoro. Sempre agradeço, claro, obrigado, obrigado, obrigado. Tem amigo pra tudo, né? Por isso, mais uma vez, obrigado.

Normalmente sou convidado a participar de um congresso lá não sei onde, de uma bienal na casa de caixa pregos, de um festival ali, uma reunião aqui e acolá. Ou para ministrar uma palestra por aí, ou fazer uma recreação numa escola de educação infantil ou de ensino fundamental.

Quando eu menos esperava, quase que já conhecia esse Brasilzão todo. Rodo muito esse Brasil todo, um mundão bonito de se ver, arrevirado e de porteira escancarada. É só me convidar que eu vou.

11 - A Villa - Outra característica peculiar, é a ferramenta da internet. Atualmente, é o seu principal modelo de linguagem, ou é mais um? Explique.

Luiz Alberto Machado - Mais um. Eu sempre escrevo para jornais e revistas impressas do Brasil inteiro, escrevendo crônicas, artigos e outras coisitas mas.

Já publiquei vários artigos opinativos no Diário de Pernambuco, na Gazeta de Alagoas, no Diário de Natal, em um bocado de revista impressa do Brasil e por aí.

A internet é uma ferramenta que eu adoro.

Facilitou muito meu trabalho de pesquisa. E muito mais! Descubro muita gente nova, entrevisto, mantenho intercambio no Brasil e no exterior, estreito amizades, fico sabendo das novidades, está tudo nos meus blogs.

Tive surpresas agradabilíssimas na rede. Quando abriram pra mim 1 profile no Orkut, em pouquíssimos meses eu contava com 11 profile, pode? Deletei tudo ultimamente porque um hacker sacana estava invadindo tudo. Estou só nas duas comunidades que abriram pra mim lá no Orkut.

Também tem muita gente nos meus profiles do MySpace, do Youtube, do Videolog, do Hi5, do Clube Caiubi de Compositores, da comunidade MPB, do Sonico, do Violeiros do Brasil, do Vimeo, por aí, um montão de gente que agradeço à vida ter o prestigio de dividir amizade e emoções.

Eu registro tudo nas minhas páginas e blogs, está tudo lá. É só chegar lá e ver o monte de coisas que eu recebo, onde meio mundo de gente que eu conheço e destaco com novidades, poetas do Brasil e do exterior, gente de teatro, de música, da literatura, da fotografia, de cinema, de artes plásticas e visuais, da literatura de cordel, do escambau! É só dar uma entrada também na seção de entrevistas da minha home page www.luizalbertomachado.com.br e ver lá a turma toda.

Ultimamente tenho pesquisado sobre a inclusão digital, Pierre Lévy e meio mundo de gente que do universo cibercultural, acompanhando esse universo das linguagens líquidas e virtualidade. Estou nessa praia. Vambora?

12 - A Villa - Suas viagens e seus intercâmbios encontraram que tipo de público? O que fazer para estimularmos e semearmos novos "seguidores"?

Luiz Alberto Machado - Ah, tenho vivido plenamente na alegria da pluralidade multicultural.

Esse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada é um universo para lá de heterogêneo, riquíssimo e lindo. Êta, Brasilzim da gota!!!

Como eu tenho conversado muito com menino, adolescente, adulto, mestres e doutores, incultos e cheleléus, timoratos e perdulários, mulheres de todas as belezas e machos de todas as tronchuras, o que me tem chamado atenção é a forma como se engraçam das minhas paradoxalidades, hehehehehehehe.

É verdade, é gente até de um olho só, como dizem lá na minha terrinha, hhehehehehehehe.

Não se importam das curvas nas idéias que dou, minhas heterodoxias, molecagens e destemperos. Levam na boa.

É mais interessante enfrentar essa realidade trágica com um tanto de irreverência, né? Por isso dou meus saltos soltos e ainda caio de pé fazendo mesuras, hehehehehehe.

Como nunca perco o bom humor, vou transitando e dando minhas cutucadas contundentes na ferida do desgoverno da patriamada, esperando que a dignidade de Pindorama um dia faça desse Brasil um país de verdade.

13 - A Villa - Seu linguajar é arretado, esculhambado, erudito, eloqüente, da pega e aprumado... Qual a importância de unir o linguajar tipicamente nordestino aos chamados globalizados?

Luiz Alberto Machado - Hehehehehehehe! Vamos aprumar a conversa e tataritaritatá!!!!

Oxente, menino! Eu nasci entre um rio e um riso de mulher, quer mais o que? Isso na beira do mundo, em riba de muita manha e bebendo da água do rio Una. Desde molecote que comecei a apreciar a água que passarinho num bebe, sabe? Isso mesmo, aquela-que-matou-o-guarda mesmo!

Fui batizado na cultura popular: os violeiros e cantadores na feira, os caboclinhos do Rabeca, o pastoril, o frevo, a ciranda, os doidos de pedra, os mitômanos e os filósofos folclóricos do povo.

Confesso que tudo são influencias do meu pai que desde menino me abriu a curiosidade pro mundo do Ascenso, do Hermilo Borba Filho, dos poetas de Palmares, dos cantadores de cordel e os repentistas e emboladores de coco, do Luiz da Camara Cascudo, do Luiz Gonzaga, do Paulo Freire, do Ariano, do mestre Vitalino, do Gilberto Freire, do Nelson Barbalho, do José Antonio Gonsalvez de Melo, do Alceu Valença, do Gilvan Lemos, do Bajado, de meio mundo de gente que me ensinou a ler e muito!

Fui sempre contemplado de bons e generosos amigos, desde a grandiosa bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira que desde menino confiava em me emprestar os livros proibidos da biblioteca pública, até os intelectuais, sabichões, farosos, pedantes e jactantes amigos da hora e de plantão. Tem amigo safado quem pode, né?

Confesso que foi um poeta parente meu, Afonso PauLins, quem me ensinou ainda menino a conciliar a beleza do canto, da música e da poesia brejeira da minha terra pernambucana com a literatura de relevo, a música erudita, o jazz e o rock progressivo, me dando de bandeja desde Paulo Freire a James Joyce, Ezra Pound, Jorge Luiz Borges, Heidegger, Habermas até Stokenhausen e John Cage.

É isso, geléia geral, aprumando a conversa & tataritaritatá!!!!

14 - A Villa - Sabemos que são inúmeros projetos. Quais são os mais imediatos?

Luiz Alberto Machado - Vixe! Rapaz, teve uma época que eu tinha mais projeto que a Sudene na época das vacas gordas da roubalheira geral.

Na verdade, como diz o ditado: já fiz dois filhos, um está no céu. A filha que tenho é a minha única obra-prima. Publiquei uns livros. Plantei umas árvores. Parece mais que passei da conta, mas não. Como diz Caetano Veloso: "Eu sempre quis muito mesmo que parecesse ser modesto. Eu juro que não presto. Eu sou muito louco!".

Já fiz de tudo: promovi feira de música. Montei circo - o Circo Itinerante -, na época que ainda não existia Circo Voador, Circo Relâmpago, essas coisas. Promovi campanhas ambientalistas quando ecologia ainda não era moda no início da década de 80. Participei da Eco 92. Fiz shows que só sem nunca ter gravado um disco. Montei peças teatrais, fiz saraus, pulei cerca, fui locutor de rádio, pinotei de cruzeta, fui assessor de imprensa, fui professor, dei muito trabalho pra humanidade, me lasquei que só, escapando das adversidades, perseverando na vida eu corri mundo e ainda tenho muito gás para mandar ver e tataritaritatá!!!

Graças a mim e aos meus amigos, consegui sempre realizar uma boa parte dos projetos que inventei de pirar.

Agora ainda tenho um bocado na agulha: dois livros de poesias, inéditos; 4 noveletas; 4 de croniquetas, 1 de croniqueta engatilhado numa editora, 2 infantis, 1 cd engatilhado para sair no segundo semestre, meio mundo de coisa. Mas os mais próximos, são a publicação do livro infantil "Alvoradinha na Manguaba" e o de croniquetas "Tataritaritatá". Esses saem junto com o cd de músicas Tataritaritatá, no segundo semestre até o final do ano.

Afora isso, muitas idéias e de bem com a vida sempre!!!

15 - A Villa - Seu momento para finalizar a Entre & Vista a Villa?

Luiz Alberto Machado - Quero deixar aqui meu abraço de gratidão, dizer que estou superfeliz de estar por aqui, uma revista que acompanho semanalmente e que saúdo cantando o meu frevo "Folia Caeté": "(...) Cidadania vingar cantada bem pra valer, viver feliz é o que se quer. Mesmo que venha a nascer, cidadania é viver na folia caeté"!

Deixo aqui mais que meu abraço amigo recitando o meu poema "Maceió: uma elegia para os que ousam sonhar":

A cidade emerge no meu riso matinal e o sol faz paradeiro na minha alma desafortunada. Os meus passos reviram ruas redimindo meus pesares, remorsos e alucinações nessa paradisíaca paragem. É tudo muito lindo premiando o meu devaneio. E eu recito loas pelas beiradas da idéia, pelas abissais paralelas do meu exílio atrevido, de minha presença castigada.

Nesse cenário eu vou de corpo e alma. Vou pelas transversais, avenidas, perpendiculares, a reconhecer a punição da vida no que de vário se faz real pelo esplendor do mar e onde se lavam culpas no negrume do asfalto, onde se pezunham esperanças na imensidão do espaço, onde se constroem todas as avenças e desavenças de nada.

É outro dia sempre e a gente a sonhar com o estrondo da felicidade mesmo que tudo seja apenas feito de partidas e chegadas no desencontro dos anseios.

É outro dia sempre e a gente com o plano de vôo circunscrito na incerteza, como se a regra desse jogo fosse sempre o confronto da distância entre começar e acabar, sem ter prorrogação na morte súbita indesejada.

É outro dia e sempre a cidade emerge na minha finitude atlântica que bordeja pelas apaziguadoras ruas breves da Mangabeiras e se arrasta na expectativa da Jatiúca, aderna pelo emaranhado da Ponta Verde, singra pela beira-mar da Pajuçara e dá nos cotovelos rentes com a fabularia do Jaraguá. É lá onde me eternizo nas cinzas.

Adiante está a lama do Salgadinho empestando a Avenida onde uma guerra oculta cospe mulheres paridas e deserdadas dos arredores do Tabuleiro do Martins e homens ciclópicos que ululam desmemoriados de tudo sem nada, oriundos do longe mais distante das bandas de lá além do Mundaú e que povoam a superfície perversa da exclusão. E me refaço porque é outro dia e sempre me esforço subindo a rodoviária até o Farol onde contemplo de tudo: a fantástica panorâmica, o silêncio dos roncos cansados, a espera dos madrugadores por condução, a perspectiva que bate as botas em Cruz das Almas e o meu desejo que escorre descendo o Riacho Doce e se esquece dos pleitos que se tornaram causas inúteis revogadas previamente pelos tribunais de então. Mas é outro dia sempre e as crianças no meio fio da madrugada com seu cobertor de mar e de noite com sonhos incertos no barulho do trânsito indômito. É outro dia e um punhado de adultos amontoam o teatro cristão com o berreiro dos desentoados em preces devotadas com seus sotaques e timbres nas rezas por seus dissabores, por remoetas embaçadas, por sacrifícios ostentatórios, pela salvação das almas da ignomínia. E tudo parece um abstrato aceno de paradoxais festeiros na celebração da tragédia pelas mesquinharias políticas, pela soberba nos limites onde o canavial impera ao lado dos alguns poucos privilégios de gados e miséria nos pastos de outro tabuleiro, onde amadurece a desimportância da oportunidade e todos são escravos do passado mesmo que se achem senhores de si e do futuro, mesmo que a vida seja um lapso de tempo nas causas perdidas.

Mesmo assim a cidade emerge e meu coração se avexa com o tumulto do dia e se esboroa pela tarde e faz aconchego na noite que anuncia outro dia para um mais que desejoso amanhã. Amanhã que já será hoje, hoje que será ontem e tudo que esquecerá. E esquecendo não veja criança estendida na calçada da manhã, nem pedinte mendigando no semáforo, nem velho xingado nas filas, nem violência como efeito da desigualdade, porque os adultos precisam acordar ciosos de si a vingarem o humano à revelia dos mandos no sonho de todos os sonhos.

A verdade é que a cidade emerge nos meus olhos e já é outro dia. Mesmo assim continuo atrevido e teimoso de sonhos, enquanto o meu coração bate buliçoso e atônito pelas ruas de Maceió, entoando uma elegia para os que ainda ousam sonhar
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© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992. Poema incluído na antologia "Poesia de Alagoas". Recife: Bagaço, 2007.

Abração, vamos juntos na tuia & tataritaritatá!!!!!

Veja mais: Entrevistas LAM.

Sexta-feira, Abril 03, 2009

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: NÃO À FARRA DO BOI!!!!



FARRA DO BOI É CRIME - Organizações de defesa dos direitos dos animais catarinenses promovem nesta sexta-feira (03/04) manifestação pacífica contra a Farra do Boi no centro de Fpolis. É NESTA SEXTA!!! (03/04) - Manifestação contra a Farra do Boi -17 h – TICEN Farra do Boi é crime! Exerça sua cidadania, compareça, traga sua família e amigos e proteste contra esta barbárie disfarçada de cultura. Dia: 03/04/2009 (sexta-feira) A partir das 17:00 horas Terminal Central de Florianópolis-TICEN Será distribuído material com orientações de como proceder ao tomar conhecimento deste crime. Contatos: Instituto Ambiental Ecosul Fone: 48-9969.4660 E-mail: halemnery@yahoo.com.br Organização Bem-Animal (OBA!) Fone: 48-9114.2537 E-mail: oba@obafloripa.org Organização: ACAPRA, Instituto Ambiental Ecosul, Instituto É o Bicho, Justiça Animal, Organização Bem-Animal, WSPA

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