terça-feira, julho 28, 2015

FEUERBACH, DUCHAMP, VERÍSSIMO, DIDEROT, CHAUSSON, PSICANÁLISE, DICIONÁRIO DA CACHAÇA & ZINE NASCENTE.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? ZINE NASCENTE – A minha primeira experiência com zine foi o Vozes do Una, que era encartado nas edições da Revista A Região, nos anos da década de 1980. Uma experiência e tanto: era bom demais receber os poemas dos remetentes e publicá-los. Tanto é que em outubro de 1996, estava eu revivendo com o lançamento do zine Nascente Poético, número inaugural dedicado ao Egberto Gismonti pelo apoio sempre dispensado, e com o Ineditorial no Plano de Voo: Este é um espaço do Nordeste para o mundo. Na trlha da Toca do (meu) poeta, do Protexto, do Sol de Versos, do Ulalume, do Vozes do Una e tantos outros nanicos. Este espaço é dos amigos da Banca, do Bacca, da Leila, da Pirata, da Bagaço, dos que, enfim, fazem da poesia a própria vida. É espaço para todos, apesar de pequeno. É aquela cuia, aquela semente, coisa miúda com espírito de Grande Otelo. Um gnomo, um duende, uma miniatura. Um minúsculo. Umm ínfimo pedaço. Um grão. Pequenino com coração grande: cabe todo mundo. Sempre caba mais um quando se usa da poesia. Neste número inaugural trago alguns amigos. Daqui, dali, dacolá. Levando os tentáculos deste pequeno alternativo direto ao coração. E começa agora. Vários anos de tormento visando viabilizá-lo e um prazer enorme de trazer esta gente de boa cepa à tona, como uma vingança contra o marasmo e inexorabilidades. Esta é a nascente, daqui só Deus saberá paradeiro. E no conteído poesias de Eliane Ferraz (PE), Sérgio Campos (RJ), Leontino Filho (RN), Núbia Marques (SE), Felipe Maldaner (RS), Claudete Richieri (SP), Ari Lins Pedrosa (AL) e Benilson Pereira (ES). Já o segundo número, de novembro/1996, dedicado a Maurício de Souza & Turma da Mônica pelo apoio de sempre, com o editorial Portinhola: O coração deste nanico está aberto. Muitas correspondências nos saudaram de todos os redcantos da nação brasileira, nação multicolorida de todas as loucuras possível e improváveis. Daqui nossa gratidão antecipada. Aqui nunca constará os episódios inatingíveis nem o niilismo dos pragmáticos. Decerto que se flagrará o estoico sensível, a ascese da paixão, a emoção anacoreta de quem na sua solidão rabisca num naco de papel seus sentimentos. Saudamos com nossa inicitiva a todos das matas, das chapadas, dos agrestes, dos planaltos, das serras, dos alagados, das planícies, das montanhas, dos tabuleiros, das ribanceiras, dos aclives, dos abismos, das cachoeiras, das transversais, das cordilheitas, das logitudinais frequências do coração. Alô torcida do Flamengo! Aquele abraço. E nossa homenagem aos 60 anos de ausência do nosso poeta de várias faces, dos múltiplos versos, das plurais canções: Fernando Pessoa. Saravá, Portugal! Os amigos aqui veiculados também acenam com ternura ao grande vate luso que nos encheu de vida com seus versos tão humano. E a poesia de Olga Savary (PA), Karin Elizabeth Foldes (SP), Ilma Fontes (SE), Wilmar Antonio Carvalho (PW), Bartyra Soares (PE), José Mata Roma (MA), Nicolas Behr (DF), Leila de Souza Biagioni (AP), Álvaro Luiz Guedes (PB), Renata Pallottini (SP) e Cicero Herculano Machado (AL). Nessa edição recebemos os zines Jornal – Informativo da Associação Alagoana de Imprensa, Capital – Jornal de Resistência Ordinário (SE), Com Textos – O jornal da UBE (SE), Correio Mimosense (ES), Blocos (RJ), Notas Literárias (AL) e A Voz da Poesia – Movimento Poético Nacional (SP). E digo por conclusão: é um prazer enorme poder caminhar com todo esse pessoal de todas as partes do Brasil, um momento inesquecível. E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Nude Seated in a Bathtub, do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968).


Curtindo Concerto in D Major Op. 21 & String Quartet in C Minor, Op. 35, do compositor francês Ernest Chausson (1855-1899), com a soprano de ópera francesa Sandrine Piau & Quatuor Parisii String Quartet. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO FUTURO – O livro Princípios da Filosofia do Futuro (1843 – LusoSofia, 2008), do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), traduzido por Artur Morão, é composto de 65 lemas centrados na denúncia do a priori teológico da antiga filosofia, criticando os pressupostos do pensamento europeu desde Descartes e dissecando o idealismo especulativo de Hegel, ao criticar o solipsismo gnoseológico e a “razão separada” dos modernos e abordando temas como a relação entre conhecimento e conversação na apreensão do ser, o valor da comunidade como critério da verdade e da universalidade, a captação do mundo e do objeto através da mediação do tu, a presença do não-eu (do outro) em mim, e assim por diante, definindo o seu ateísmo e profundo hermeneuta da filosofia ocidental. Da obra destaco os trechos a seguir: [...] A nova filosofia faz do homem, com a inclusão da natureza, enquanto base do homem, o objeto único, universal e supremo da filosofia – faz, pois, da antropologia, com inclusão da fisiologia, a ciência universal. A arte, a religião, a filosofia ou a ciência são apenas as manifestações ou revelações do ser humano verdadeiro. Homem perfeito e verdadeiro é apenas quem possui o sentido estético ou artístico, religioso ou moral, filosófico ou cientifico – homem em geral somente é aquele que nada de essencialmente humano exclui de si mesmo. Homo sum, humani nihil a me alienum puto – esta frase, tomada na sua significação mais universal e mais elevada, é a divisa do novo filósofo. A filosofía da identidade absoluta inverteu completamente o ponto de vista da verdade. O ponto de vista natural do homem, o ponto de vista da distinção em eu e tu, em sujeto e objeto, é o ponto de vista verdadeiro e absoluto, por conseguinte, também o ponto de vista da filosofia [...] A antiga filosofia possui uma dupla verdade – a verdade para si mesma, que não se preocupava com o homem – a filosofia – e a verdade para o homem – a religião. Pelo contrário, a nova filosofia, enquanto filosofia do homem – é também essencialmente a filosofia para o homem – possui, sem prejuízo para a dignidade e a autonomia da teoria, mais, na consonância mais íntima com a mesma, essencialmente uma tendência prática e, claro está, prática no sentido mais elevado; vem ocupar o lugar da religião, tem em si a essência da religião, ela própria é em verdade religião. As tentativas de reforma até agora feitas na filosofia distinguem-se, mais ou menos, da antiga filosofia apenas segundo a espécie, não segundo o gênero. A condição mais imperativa de uma filosofia realmente nova, isto é, independente e que corresponde à necessidade da humanidade e do futuro, é que ela se distinga da antiga filosofia segundo a essência. Veja mais aqui.

FREUD E AS BESTEIRAS SOBRE A MULHER – O livro As besteiras que a psicanálise disse (e continua dizendo) sobre as mulheres (Ideia Jurídica, 2015), do médico e psicanalista Mario Jorge Pereira Reis, aborda temas como saber escolástico, o pênis invejado, demoníacas e selvagens, masoquismos, homicídios e estupros, a mulher como ser deformado, lógica imagina Freud e Einstein, o demoníaco em Freud, Kaput: fim do reinado masculino e o verdadeiro da verdade. Na obra destaco o trecho: [...] Para Freud, a sexualidade humana, libidinal, é masculina, exclusivamente masculina. O que o inventor da Psicanálise conceitua é um buraco feminino, como uma ausência de pênis, o que faz da mulher sujeito não homem. o mundo seria povoado por indivíduos homens e não homens. Se o feminino é não homem, a mulher não existe. A palavra mulher apenas recobria um não existente no real do mundo simbólico. A palvra cão não late, representa o cão real, aquele que late. As palavras não são coisas. A palavra mulher não fode, representa um vazio feminino irreal, um sem-nome no centro de si. Não havendo o nome designativo nem significativo, o feminino se aparenta com o mutismo, isto é, com uma essência fora da linguagem simbólica que organiza as interrelações humanas. Se o mutismo é apanágio da morte, a mulher, como lacuna no psiquismo e na fala, está próxima do não ser que é a morte em si; sem existência, sem sexo e sem fala. Pura carne real, desespiritualizada. Puro gozo. Não estou fazendo piada. [...] Se você que lê estiver realizando uma psicoterapia com um freudiano ou com um lacaniano ortodoxo, saiba que as crenças desse profissional passam por tais convicções teóricas sobre o feminino. Creio que seria relevante considerar que ele está trabalhando suas questões personalíssimas pela via de determinações conceituais passiveis de serem tendenciosamente baseadas em observações pertinentes a uma cultura vienense e vitoriana do século XIX [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

NÃO É DEFEITO BEBER – No livro Dicionário folclórico da cachaça (Fundak, 1980), do escritor, advogado, pesquisador e folclorista Mário Souto Maior (1920-), encontrei uma série de verbetes com indicações sobre a cachaça e a bebedeira, bem como trechos de um poema oriundo do livro Não é defeito beber, de Adão Filho (Typ. Chaves, 1927), do qual destaco os trechos a seguir: Eu conheço um camarada ; que não gostando da branca / chega na venda e se abanca / falando em barriga inchada... / - Depois toma uma bicada / sem uma careta fazer! / Todo mundo pode ver / que esse sujeito é manhoso / beber por achar gostoso / não é defeito beber. [...] Eu não gosto de aguardente / salvo sendo misturada, / tomando uma cachimbada / eu fico até mais contente, / às vezes viro valente / sem espalhafatos fazer / para ninguém conhecer / quando estou na carraspana, / beber roendo coirana / não é defeito beber. [...] Da mulher não digo nada / por ser boa criatura, / um amigo me assegura / que a sua vive chumbada, / e que é valente e malcriada / faz qualquer homem correr, / bebe para engradecer / seu valor e sua fama, / se todo mundo come rama / não é defeito beber. Da mulher não digo nada: / por ser melhor criatura, / à noite, muito segura, / toma bonita copada, / alguma por despachada, / bebe para a gente ver; outras para ninguém saber / bebem por detrás da porta / o sumo da cana torta... / não é defeito beber. [...] Quando o serviço é pesado / gosto de andar prevenido. / Levo um botijão escondido / para beber no roçado. / Estando o almoço botado / a mulher vem me dizer, / eu para não me esquecer / tomo uma dose acrescida, / e beber durante a comida / não é defeito beber. [...] Às vezes depois da ceia / chegando alguma visita / um copo de giribita / beber não é ação feia, / esquentando o sangue na veia / mal nenhum pode fazer, / mesmo sem aparecer / para distrair ninguém / beber para dormir bem / não é defeito beber. [...] A anti-alcoólica semana / passou desapercebida, / tendo aumentado a bebida / no ventre da raça humana! / Consumiu-se até mais cana / em lugar de a combater! / Se quiserem me atender / não fabriquem mais a usga! / Então o usineiro rusga / não é defeito beber. O beber já foi defeito / nas tabernas do passado, / mas hoje se vê molhado / até juiz de direito / juiz de fato e prefeito / bebem depois de comer / para o discurso fazer / com toda a pontuação / para quem tem posição / não é defeito beber. Quando chega a hora da janta / está vazio o garrafão, / a mulher bota o feijão / enquanto eu molho a garganta / quando o calor se levanta / fazendo o suor descer / sou fraco e devo dizer / tomo uma dose aumentada / defendendo a feijoada / não é defeito beber.  Hoje o beber é um uso / em todo e qualquer distrito, / enquanto a tomar-esprito / bem poucos terão abuso; / eu de copo bem me acuso / só deixo quando morrer. / Não censurem o meu dizer, / nem me digam que isso é falta; / bem-nos da gente mais alta / não é defeito beber. Enfim, senhores, não nego, / falo sem ter medo algum, / pois sempre pelo comum / gosto de tomar meu prego / neste destino me rego, / pronto a não me arrepender, / quem duvidar venha ver: / ela com mel ou imbira / faz milagre, que admira / não é defeito beber. Veja mais aqui , aqui e aqui.

PARADOXO SOBRE O COMEDIANTE – O livro Paradoxo sobre o comediante (Escala, 2006), do filósofo e escritor francês Denis Diderot (1713-1784), trata sobre o teatro com reflexões críticas acerca da arte teatral que deveria se espelhar na sociedade e nos seus movimentos sociais, de pensar e querer, espelhando, assim, a vida vivida, real do homem, político e do povo. Para ele, o comediante é o ator de teatro, tanto o cômico como o trágico, tanto o que representa o herói como o anti-herói: são homens de raro talento e de uma utilidade real, são pregadores mais eloqüentes da honestidade e das virtudes do que aqueles vestidos de batina e barrete quadrado na cabeça que pregam do alto dos púlpitos. Da obra destaco os trechos: [...] O grande comediante observa os fenômenos; o homem sensível serve-lhe de modelo, ele o medita, e encontra, por reflexão, o que cumpre adicionar ou subtrair para o melhor. E, ainda assim, fatos segundo razões. [...] Um ator é tomado de paixão por uma atriz; uma peça os coloca por acaso em cena em um momento de ciúme. A cena ganhará com isso, se o ator for medíocre; perderá, se for comediante; então, o grande comediante tornar-se-á ele próprio e não mais o modelo ideal e sublime que imaginara de um ciumento. Prova de que então o ator e a atriz se rebaixam um e outro à vida comum é que, se conservassem a grandiloquência, rir-se-iam na cara; o ciúme empolado e trágico não lhes pareceria muitas vezes senão uma farsa do seu. [...] As comédias de verve e mesmo de caracteres são exageradas. O gracejo de sociedade é uma espuma ligeira que se evapora no palco; o gracejo de teatro é uma arma cortante que feriria na sociedade. Não se tem com seres imaginários o comedimento que se deve a seres reais. A sátira é de um tartufo, e a comédia é do Tartufo. A sátira persegue um vicioso, a comédia persegue um vício. Se houvesse existido apenas uma ou duas Preciosas Ridículas, poder-se-ia fazer uma sátira delas, mas não uma comédia. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EROTIQUE – O longa metragem Erotique (1994), filme com direção e roteiro de Ana Maria Magalhães, Monika Treut, Lizzie Borden e Clara Law, reúne episódios de comédia, drama, erótico e romance de cineastas do Brasil, Alemanha, Estados Unidos e Hong Kong, ou seja, são quatro contos realizados por quatro diretoras de quatro continentes diferentes, tendo como tema os diversos aspectos íntimos do relacionamento amoroso em quatro situações totalmente diferentes. Os episódios são Let's Talk About Love de Lizzie Borden (Estados Unidos), Wonton Soup de Clara Law (Hong Kong), Taboo Parlor de Monika Treut (Alemanha) e Final Call, este último da atriz e diretora brasileira Ana Maria Magalhães que conta a história de uma moça que é seduzida à força, numa adaptação livre do conto A língua do P, de Clarice Lispector. O filme conta com música composta por Tats Lau e Andrew Belling, com destaque para a atriz e cantora Claudia Ohana. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA

Imagem: Cartoon do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui e aqui.

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui & aqui.


segunda-feira, julho 27, 2015

DUOFEL, BAUDRILLARD, PINA BAUSCH, JAYME GRIZ, VADIM, KAUB-CASALONGA, TRISTÃO & ISOLDA.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DUOFEL, TRÊS POR UM – Era uma sexta de 1997, parece. Direto feito cantiga de grilo e na maior tirineta da munheca empolgada de ancho todo folgado, foi assim que descobri a maravilhosa música do Duofel. Seguinte: era a terceira edição do Maceió Jazz e eu teria a oportunidade de mais uma vez ver um show do Hermeto Pascoal. Estava feliz com a edição nº 9 do meu tabloide Nascente impresso para distribuir na ocasião, com uma entrevista do Milton Nascimento. Tudo pronto numa área ao ar livre do hotel na praia de Mata-Garrote, em Maceió, eu devidamente aboletado à espera do bruxo alagoano dos sons no palco, quando apareceu uma dupla que encheu o ar com sua violada. Gente, era cada cipoada bonita nas cordas! Eles arreavam a ripa com cada lapa de música, eu pegando bigu no prazer das harmonias melodiosas, só molhando a goela dando um bico na austeridade e confirmando tudo pela profusão: eles esbanjavam talento. Quem são? Não sabia. Queria mesmo aproveitar a oportunidade, enquanto dentro de mim ficava mais buliçosa a curiosidade. De tão bom, nem dei fé da chuviscada insistente que caía. Fazia parte do espetáculo: o som deles era como uma cachoeira do tamanho do Brasil distribuindo a beleza que havia em todas as coisas da vida. No acorde final, aplaudi extasiado de pé. Já não eram mais os chuviscos amenos, ameaçava cair uma senhora chuvada. Pois bem, chuva, copos e aguardando Hermeto. Quando estava para começar a apresentação, caiu um pé d’água. Não arredei: botei a mesa na cabeça e fiquei lá insistente. De repente, uma explosão. Meia hora depois devolveram os ingressos para o domingo. – Ué, o festival não é até sábado? O show do Hermeto fora transferido para mais um dia de evento. Foi quando voltei pra real e o apagão se expandia geral. Parecia mais com um causo do Daniel Cavalcanti dando conta da visita de funcionários do ministério de Brasília para estudar a seca do Nordeste. Uma chuvada despencou do céu quando eles estavam em Recife, malas prontas pra viajar: “[...] Viero de Brasilia uma comissão, instudá o meu sertão. Sabe adonde fôro s’hospedá? In riba do Grande Hoté Boa Viagem, bem na beirinha do mar. Aí Sunpedo parece que por maicação, abriu as portas do céu e fincou água no chão. Aí eles atelegrafaram ao prisidente da Nação: nóis tá tudo preso, nóis num pode sair não. Inté a data de hoje nóis num feiz reunião. E pra encurtá essa história: nóis num intende esse sertão”. Tanto é que na minha terra de Ascenso Ferreira, tem outro poeta de valia, Jayme Griz que diz num de seus poemas da antologia Poetas de Palmares (Nordestal, 1973), assim: Verão! Sol quente de tinir! Sol quente de rachar o chão! De repente: chuva chuva chuva chuva chuva chuva de danar a paciência! Chuva do sapo pedir aos céus clemencia! Mãe Natura endoideceu... e se ela, que é mãe, que é sábia, que é única, a cabeça perdeu.... quanto mais eu... quanto mais eu. Esse o meu Nordeste. Cenário: em casa, faltando energia, bebericando umas e outras. Quando um amigo meu liga do celular: - E aí, que achou do show do Duofel? Quem? Duofel, cara, eu vi você lá! Ah, agora sabia: Duofel. E ficamos jogando conversa fora até amanhecer o dia. Quando o comércio abriu, corri pra comprar qualquer cd deles, adquiri três: o Espelho das águas ao vivo (1994), As cores do Brasil (1990) com participação do percussionista João Parahyba, e Duofel (1993). Tasquei os três encarreados no som e cada vez mais ficava maravilhado. Aí, fui pesquisá-los. Bruta ignorância essa minha! Eles existiam desde 1977 e só agora que sabia: tava passando a vida sem viver. Agora sim, o duo do paulistano Luiz Bueno e o alagoano de Arapiraca, Fernando Melo. Deles Hermeto havia dito: "o Duofel não é um duo, é um trio, às vezes um quarteto e outras uma banda inteira, por isso acho que deveriam mudar o nome para Trio Du’Ca”. Nunca uma verdade foi tão explícita. Desse dia em diante virei fã e nem me dei conta que comi o sábado todinho ouvindo e reouvindo os cds, até amarrar o bode e me acordar na ensolarada tarde de domingo, prontinho da silva para marcar presença no show do Hermeto. Quanto chego lá: Duofel! A sexta estava valendo pelos três dias numa verdadeira festa de dia santo com direito a roda-gigante, pirotecnia e meio mundo de gente – como festa de padroeira na minha cidade do interior! E premiada com a bruxaria do Hermeto e, por troco, fechando tudo, um grandioso show do Gilberto Gil. Não sei como acordei na segunda pra trabalhar, depois de três dias de verdadeira apoteose. Agora, Duofel já com 35 anos de história, não cochilei e me danei conferindo tudo: Kid of Brazil (1996), Duofel 20 (2000), Duofel Experimenta (2006), Olho de boi (2008), Beatles (2010) e o comemorativo Pulsando MPB (2013). Ao todo são doze cds e dois dvds que não tenho todos, mais hei de tê-los. Estou repetindo tudo agora, enquanto mando ver nessas mal traçadas linhas. Fica o convite: veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: Nu aux roses, da pintora francesa Alice Kaub-Casalonga (1875 – 1948)


Curtindo Espelho das águas ao vivo (1994), do Duofel & Badal Roy. Veja mais aqui.

A SOCIEDADE DE CONSUMO – No livro A sociedade do consumo (Edições 70, 2008), do sociólogo e escritor francês Jean Baudrillard (1929-2007), me deparo com as seguintes reflexões: [...] Nova arte de viver, nova maneira de viver, dizem as publicidades, o ambiente quotidiano que se respira: pode fazer shopping agradável no mesmo local climatizado, comprar de uma só vez as provisões alimentares, os objetos destinados ao apartamento e à casa de campo, os vestidos, as flores, o último romance ou a última quinquilharia, enquanto marido e filhos vêem um filme ou almoçam todos ali mesmo, etc [...] As comunicações de massa não nos oferecem a realidade mas a vertigem da realidade […] Vivemos desta maneira ao abrigo dos signos e na recusa do real. Segurança miraculosa: ao contemplarmos as imagens do mundo, quem distinguirá esta breve irrupção da realidade do prazer profundo de nela não participar. A imagem, o signo, a mensagem, tudo o que consumimos, é a própria tranqüilidade selada pela distância ao mundo e que ilude, mas do que compromete, a alusão violenta ao real. [...] Todas as sociedades desperdiçaram, dilapidaram, gastaram e consumiram sempre além do estriti necessário, pela simples razão de que é no consumo do excedente e do supérfluo que tanto o individuo como a sociedade, se sentem não só existir, mas viver. [...] A noção de utilidade é substituída pela produção de valores: a noção de utilidade, de origemn racionalista e economista, tem portanto de rever-se segundo uma lógica social muito mais geral em que o desperdício, longe de figurar como resíduo irracional, recebe uma função positiva, substituindo a utilidade racional numa funcionalidade social superior e se revela, no limite, como a função essencial – tornando-se o aumento da despesa, o supérfluo, a inutilidade ritual do “gasto para nada”, o lugar de produção de valores, das diferenças e do sentido – tanto no plano individual como no plano social. [...] uma definição do “consumo” como “consumição”, isto é, como desperdício produtivo – perspectiva inversa da do “econômico”, fundado na necessidade, e na acumulação e no cálculo em que, pelo contrário, o supérfluo precede a necessário e em que a despesa precede em valor (se é que não no tempo) a acumulação e apropriação. [...] As necessidades visam mais os valores que os objetos e a sua satisfação possui em primeiro lugar o sentido de uma adesão a tais valores. A escolha fundamental, inconsciente automática do consumidor é aceitar o estilo de vida de determinada sociedade particular (portanto, deixa de ser escolha! – acabando igualmente por ser desmentida a teoria da autonomia e soberania do consumidor).[...]. Veja mais aqui e aqui.

AMORES IMPOSSÍVEIS – Tristão e Isolda é uma das sagas germânicas que o maestro e compositor alemão Richard Wagner (1813-1883), tomou como assunto de ópera, baseando na lenda do Príncipe de Estrasburgo, órfão desde a infância, tendo sido despojado de sua herança pelos vassalos do seu pai, fora para o castelo de seu tio, Rei da Cornualha, para ser educado e tornar-se cavaleiro. Torna-se ele, o mais brilhante dos Cavaleiros da Távola Redonda que realizou a façanha de derrotar e matar o gigante Morlot. Dessa luta ganha um ferimento que só poderá ser curado pela Rainha da Irlanda, que é inimiga declarada do seu tio. Disfarçado ele consegue penetrar no castelo, tornando-se professor de música da Princesa Isolda. Retorna curado e encantado com a beleza da princesa. O rei resolve então pedi-la em casamento e é aceito. Abandonando a Cornualha na tentativa de esquecer Isolda, Tristão se casa com outra mulher também Isolda, a das mãos brancas, mas não consegue esquecer a princesa. É quando ele se vê mortalmente ferido e pede para buscar a princesa para que ela assista sua morte. A esposa vê o navio da princesa chegando, diz a Tristão que ela se negou a vir. Quando a princesa, agora rainha, entra nos aposentos, já o encontra morto. Dominada pela dor mais profunda, ela igualmente morre. Existem outras versões para esta história, sendo tema para teatro, cinema, poemas e outras manifestações artísticas. Exemplo disso é essa versão do escritor francês Joseph Bédier (1864-1938), traduzida por Maria dos Anjos Braacamp Figueiredo (Francisco Alves, 1994), da qual destaco o trecho a seguir: [...] XXXII - O PECADO E A PENITÊNCIA DE ISOLDA - Mal encontrou a rainha, Audret disse-lhe: “Senhora, sei agora que Tristão regressou a este país. Avistei-o perto daqui, num bosque, em companhia de um desconhecido. Ambos se puseram em fuga por um velho caminho abandonado. Por três vezes o intimei a parar esconjurando-o em nome de Isolda, a loura, mas ele amedrontou-se e não ousou esperar por mim.” “Sire Audret, falais mentira e loucura! Nunca me fareis crer que Tristão, esconjurado em meu nome por três vezes, não tenha parado e não tenha ousado fazer-vos frente!” “No entanto, foi ele quem eu vi! Até me apoderei de um dos cavalos: podeis avistá-lo, todo aparelhado, lá embaixo no pátio.” Com isto, Audret despediu-se da rainha, que deixou completamente desamparada. Começou a chorar e disse: “Infeliz, vivi demasiado, pois vi o dia em que Tristão me despreza e amaldiçoa. Outrora, esconjurado em meu nome, que inimigo não defrontaria? É ousado e valente: se fugiu diante de Audret e se se recusou a obedecer à tripla esconjuração que lhe era feita em meu nome, é porque a outra Isolda o possui e já não faz, na realidade, nenhum caso de mim! Todavia voltara e eu recebera-o com alegria. Ora, não lhe bastou trairme, quis desonrar-me também! Não estava eu farta dos meus tormentos antigos? Que volte, pois, por sua vez amaldiçoado, para Isolda das mãos brancas!” A rainha chamou Périnis, o fiel, e repetiu-lhe as notícias que Audret lhe trouxera: “Amigo Périnis, procura Tristão na estrada abandonada que vai de Tintagel a Lancien. Dir-lhe-ás que não o saúdo e que não seja tão audacioso que ouse doravante aproximar-se de mim, pois fá-lo-ei expulsar pelos sargentos e lacaios.” Périnis põe-se imediatamente à procura de Tristão e de Kaherdin; quando os encontrou, transmitiu- lhes a mensagem da rainha. “Irmão — exclamou Tristão, espantado —, que me contas? Como teríamos fugido, Kaberdin e eu, perante o duque Audret, se não encontramos os nossos escudeiros no bosquezinho onde nos deviam esperar? Não tínhamos os cavalos. Procuramos em vão Gorvenal e o escudeiro de Kaherdin; ainda os procuramos.” Nesse mesmo momento, Gorvenal e o outro escudeiro desembocaram do velho caminho abandonado, seguidos por um único cavalo. Interrogado por Tristão, Gorvenal não pôs nenhuma dificuldade em confessar que haviam fugido: “Senhor, que outra coisa podíamos fazer para não cairmos nas mãos do duque Audret e da sua gente? Se me tivesse deixado reconhecer, o traidor teria descoberto logo o segredo do teu regresso à Cornualha.” Então o bravo disse a Périnis: “Querido amigo, volta depressa para a tua senhora: diz- lhe que lhe mando saudações e amor, que não faltei à lealdade que lhe devo e que nunca fugi diante de ninguém nem ignorei uma esconjuração feita em seu nome. Pede-lhe que me perdoe, uma vez que não falhei e que toda esta história é o resultado de um mal- entendido. E não deixes de voltar trazendo-me o seu perdão: aguardarei aqui o teu regresso.” Périnis contou à rainha o que vira e ouvira; esta recusou-se a acreditar: “Ah!, Périnis, eras o meu fiel servidor e o meu pai havia-te afeiçoado, ainda criança, à minha pessoa. Durante anos, nada houve que te censurar, mas eis que agora Tristão, o enganador, te conquistou com as suas mentiras! Também tu me traíste: vai-te!” O lacaio prosternou-se de joelhos diante dela, as mãos estendidas: “Senhora, dizeis-me palavras duras que me ofendem e afligem. Nunca senti tal dor em toda a minha vida! Mas pouco me importa por mim: se me aflijo, é por vós, senhora, que ultrajais injustamente o meu senhor Tristão, e vos mostrais iníqua com ele. Estou certo de que um dia. mas demasiado tarde, vos arrependereis.” “Vai-te, não te acredito! Também tu, Périnis, o fiel, me atraiçoaste!” Tristão esperou muito tempo pelo perdão da rainha: Périnis não voltou. De manhã, Tristão vestiu uma grande capa em farrapos e tingiu o rosto com suco de casca de noz e vermelhão, a fim de ficar com o aspecto de um doente carcomido e desfigurado pela lepra, como fizera quando da assembléia da Charneca Branca. Tomou entre as mãos o bastão de madeira venada que lhe dera a rainha e uma matraca. Penetrou assim nas ruas de Tintagel e, disfarçando a voz, começou a pedir esmola aos passantes. O seu único desejo e esperança eram avistar a rainha e fazer-se reconhecer por ela. Finalmente, ela saiu do castelo, acompanhada por Brangia e um grupo de lacaios e de sargentos. Quando meteu pela rua que levava à igreja, o falso leproso juntou-se ao grupo de lacaios fazendo tinir a matraca e suplicando com uma voz dolente: “Rainha, fazei- me algum bem, não sabeis a que ponto sofro e estou necessitado!” Isolda não se deixou iludir pela velha capa usada e pela matraca: reconheceu Tristão pelo belo corpo, pela nobre estatura e pelo bastão de madeira venada que lhe havia oferecido. Mal o reconheceu, o seu corpo estremeceu todo, mas, ofendida no orgulho, não se dignou baixar o olhar para ele. O mendigo implorou de novo e metia dó ouvi-lo. Suplicava-lhe arrastando-se ao pé dela: “Rainha, não vos enfureçais se ouso aproximar-me de vós! Vede a minha miséria: tende piedade de mim!” Em vez de se comover, chama os lacaios e os sargentos: “Expulsai este vagabundo” — ordena-lhes. Os lacaios empurram-no e afastam-no batendo-lhe com os paus. Ele enfrenta-os ferozmente e exclama: “Rainha, tende piedade! Sofri tanto por vós!” Quando ouviu estas palavras, Isolda desatou a rir e entrou rapidamente na igreja. O mendigo calou-se e afastou-se. Nesse mesmo dia. Tristão, depois de abandonar as vestes de leproso, despediu-se de Dinas de Lidan. Estava tão desanimado que parecia ter perdido o juízo. No dia seguinte, em companhia de Gorvenal, de Kaherdin e do seu escudeiro, todos vestidos de peregrinos, fez-se ao mar para regressar à Pequena Bretanha. Pobres amantes! A rainha não tardou a arrepender-se do seu orgulho e dureza. Recordando a sucessão dos acontecimentos, compreendeu finalmente que Périnis falara verdade. Tristão jamais fugira diante do duque Audret; jamais fora esconjurado em nome de Isolda, a loura; cometera um grave erro ao expulsá-lo. “Infeliz de mim! — exclamou. — Pequei contra o meu amor! Doravante odiar-me-á e nunca mais o verei. Jamais saberá quão arrependida estou nem que penitência irei impor a mim mesma e oferecer-lhe como penhor dos meus remorsos.” Desde esse dia. Isolda, a loura, passou a usar um cilício e fez o voto de trazê-lo contra a carne até que Tristão a perdoasse. [...] Veja mais aqui.

POETAS DE PALMARES – O poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981), é autor de uma diversidades de livros, entre eles Palmares, seu povo e suas tradições (1953), Gente, coisas e contos do Nordeste (1954), O lobisomem da porteira velha (1957), Negros (1965), Acauã, O cara de fogo (1969). Da sua poesia, destaco as que foram selecionadas na antologia Poetas de Palmares (Nordestal, 1973), a primeira Cachoeira de Paulo Afonso: Que ruído! / Que barulho! / Que coisa atordoante! / Até que enfim, / vi a mijada do gigante! Também A preguiça da raça: Rede. / Rede. / Rede./ Muita rede! / Rede armada de norte a sul, / rede gemendo em todo lugar... / E no Hino Nacional, / consagrada, / a nossa preguiça. / a nossa vasta e gostosa preguiça, / afrontando o dinamismo universal: / “Deitado eternamente em berço esplêndido”... E, por fim, Abusão: No silêncio da mata / mergulhada nas trevas / de uma noite sem fim, / um grito se ouve, / vindo de além, / ninguém sabe de quem: / - Ô Jooooooão! / E logo em seguida, / dentro das trevas, / outro grito ecoou: / - Inhôôôôôôôôô! / A noite é só treva, / assombro e pavor... / E quem por desdita / (assim diz a lenda) / esta abusão encontra, / da mata não volta, / e a história não conta. / Foi numa noite assim, / que Bento, o caçador, / das matas do Mearim / nunca mais voltou... Veja mais aqui, aqui e aqui.

A COREOGRAFIA DA ARTE – A memorável coreografa, dançarina, pedagoga e diretora de balé alemã Pina Bausch (1940-2009), é um dos mais expressivos nomes da dança contemporânea, que foi diretora da Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. Ela tornou-se onhecida principalmente por contar histórias enquanto dança, sendo suas coreografias baseadas na experiência de vida dos bailarinos e feitas conjuntamente. Várias delas são relacionadas a cidades de todo o mundo, já que a coreógrafa retirava de suas turnês ideias para seu trabalho. Entre os seus temas recorrentes estavam as interações entre masculino e feminino - uma inspiração para o cineasta espanhol Pedro Almodóvar que realizou o filme Fale com ela, em que Pina aparece em uma bela sequência de dança. Rendemos nossa homenagem. Veja mais aqui.

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS – O filme Histórias Extradordinárias (:Histoires extraordinaires, 1968), reúne cineastas como Roger Vadim, Federico Fellini e Louis Malle, para realização de três contos do escritor, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849). Para o cineasta Roger Vadim (1928-2000), coube a história Metzengerstein, contando a história de uma condessa promíscua, interpretada por Jane Fonda, que se apaixona por um barão que é seu primo, sendo rejeitada por ele por seu comportamento amoral, incendeia seus estábulos e causa a morte do barão no incêndio, quando tentava salvar seus cavalos premiados. Um cavalo negro selvagem escapa do incêndio e foge para o castelo de Metzengerstein, onde vive a condessa, que, impressionada com sua beleza, resolve domá-lo e tê-lo para si. Durante uma tempestade de raios, o cavalo a arrasta para o incêndio que os raios haviam causado. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Ilustrações do pintor, desenhista, escultura, professor e poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), par o livro Do Amazonas a Paris: as lendas indígenas de Vicente do Rego Monteiro (Edusp), editadas em francês nos livros Légendes, croyances et talismans des Indiens de l’Amazone (1923) e Quelques visages de Paris (1925), ambos organizados por Pierre-Louis Duchartre. Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Reading by MilesWilliams Mathis
Veja mais aqui & aqui.


domingo, julho 26, 2015

JUNG, HUXLEY, SHAW, CASSIANO RICARDO, KUBRICK, COROT, PERANZZETA & SENISE, DEMÓCRITO BORGES & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? ALTER EGO - Abri a porta e o céu estava cinzento. E na penumbra da sala, o meu coração está feliz com os acordes do Koln Concert de Keith Jarret. A minha pena ainda transcreve imagens da cabeça: um asno na lira e seus fragmentos múltiplos desentoados de pedaços outros. Deus me abençoe. Deus me proteja nessa desolação, uma ausência que atormenta. Joguei meu último poema no riacho e outros tantos no interior das garrafas para jogá-los ao mar, quem sabe alguém desavisado não se importune ao ler meus versos. A solidão me silenciou. Estou esvaziado. Logo eu que vim curumba da terra batida do Una, nascido em sessenta com Brasília e o videoteipe, expondo agora sintaxes exclusivas do coração. Inauguro a minha agonia. Eu que morri tantas vezes sem chegar ao desespero, que vim de longe, de um mundo pequeno onde hoje a vida é quase reduzida a uma condição inóspita. Eu que ergui a minha própria casa, o meu contíguo pardieiro e fiquei entregue ao meu abandono, sem nunca haver ambicionado grandes palácios ou usado um cajado para imprimir a ordem. Eu que sou o mar que beija a terra na pose mais íntima de se amar. Sou eu que valho o que medra nada, um astronauta intrépido no mundo da lua, um zagueiro insone das coisas da minha gente, um lavrador dos dias que venham depois. E quando beijo eu sou de mim o que é para todos. E quando abraço eu sou de graça o que é de mim. E quando sorrio eu sou de paz pra não ser guerra. E quando eu choro eu sou em flor mais que a ternura. Sou eu calor a quarenta e tantos graus. Eu sou o tom de si, de mim, Jobim. O tom que salte, deite, Waits. O que faz, que foi, que é, Tom Zé. O tom depois, de antes, Tom Cavalcanti. Sou eu que gosta de cheirar xibiu de moça donzela. Sou a que já no caritó reza todas as noites por Santo Antônio casamenteiro ajeitar um príncipe encantado para esquentar os pés nas noites de frio. Sou meu coração Caravaggio pintando o sete e santos e sempre atraído pela promiscuidade e rebeldia. Meu coração de frases obscenas na calada da noite, na luta para não ser devorado na competição natural da vida. Meu coração pavão a legislar em causa própria, sempre a me desvencilhar da espada de Dâmocles sobre a cabeça. Sou eu que tenho a força do braço Anteu sem poder largar o chão do meu país. Eu, depositário de tudo, sempre paguei o pato, azougado como quê, completo de emoção e sob o efeito do álcool, hum! um timoneiro na proteção de mercúrio seduzido pelo insólito já que nada me é estranho. As minhas batalhas algumas ganhei, muitas perdi. Nunca gostei de jogo, claro, um mau jogador. Coisas que vi que fiquei passado. Nomes que não sei dizer. Ainda perdi o que de melhor me restava e tive de ser São Jerônimo depondo à caveira, aguçando os meus cem olhos de Argus, apenas sabendo o que é bom ou mal por ser desobediente, plagiando Shulock, “Us” de Peter Gabriel e o meu trono absoluto no banheiro, reunindo os meus pecados, You’re the top de Cole Porter. A fascinação pelo proibido. Os meus gritos até me assustam e alguns até me extasiam. Eu divido a minha mesa, partilho a minha alegria, meu ancestral fenício, minha herança viking. Devo estar me masturbando: minha solidão, meu claustro. Duvido que eu tenha sanidade mental. Os demônios estão soltos, quem sabe e por alguma forma possam me perdoar. Eu sei dos meus fracassos no meio dos sonhos de Kurosawa. Bastar-me-ei a mim mesmo se de mim sobrar alguma coisa. (Alter ego - O trâmite da solidão. Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui e aqui.


Imagem: The Potato Gatherers, do pintor francês Jean Baptiste Camille Corot (1796-1875). Veja mais aqui e aqui.


, compositor, arranjador e maestro brasileiro Gilson Peranzzeta & saxofonista, flautista, arranjador e professor de música brasileiro Mauro Senise, a dupla comemorando 25 anos de parceria. Inclusive, logo mais, às 23hs, estarão na Rádio MEC FM 99.3.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpática Ísis Corrêa Naves. Na programação voltada pras comemorações do Dia dos Avós, participação de Ruth Moura (aluna do Colégio e Curso Fator-RJ), Viva Senior, Titio Avô, Gabryel Gomes (aluno do Colégio e Curso Fator-RJ), Julio Castex (aluno do Colégio e Curso Fator-RJ), Cristina Mel, A infância, Meimei Corrêa, Nitolino & muito mais músicas, poesias, brincadeiras e histórias para a garotada. No blog além das dicas de Psicologia Infantil, Educação Infantil, Direito da Criança e do Adolescente, Literatura Infantil, Música Infantil e Teatro Infantil, também os destaques comemorativos dos parceiros do Brincarte: a arte de Rollandry Silvério, Marcos Palmeira e Ismael Oliveira. Para conferir clique aqui ou aqui.

CRIANÇAS: UMA LIÇÃO DE CIDADANIA – Como resultado de uma atividade desenvolvida pela professora Rachel Lucena na sala de aula com alunos do 7º Ano do Colégio e Curso Fator-RJ, que desenvolveram trabalhos poéticos que foram destacados no blog Brincarte do Nitolino. A matéria conta com entrevista da professora, poesias dos vinte e dois alunos selecionados e um histórico da escola. Os trabalhos publicados revelam uma verdadeira lição de cidadania dada pelos alunos do educandário, fazendo eco com a proposta da canção Todo dia é dia de ser criança, cujo refrão expressa: Todo dia é dia de ser criança e de ter a esperança por meu país melhor, por um Brasil melhor pras crianças e todos nós! Hoje essas crianças estão destacadas e ganharam uma homenagem com a dedicatória do programa para elas e para a professora. Confira aqui.


A PSICOLOGIA DO ARQUÉTIPO DA CRIANÇA – O livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Vozes, 2000), do psicólogo e psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), trata de temas como o conceito de inconsciente coletivo, o arquétipo com referência especial ao conceito de anima, aspectos psicológicos do arquétipo materno, exacerbação do eros, psicologia do renascimento, psicologia do arquétipo da criança, função do arquétipo, aspectos psicológicos da core, fenomenologia do espirito no conto de fadas, psicologia da figura do trickster, estudo empírico do processo de individuação, o simbolismo da mandala, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] A "criança" é portanto também "renatus in novam infantiam", não sendo portanto apenas um ser do começo mas também um ser do fim. O ser do começo existiu antes do homem, e o ser do fim continua depois dele. Psicologicamente, esta afirmação significa que a "criança" simboliza a essência humana pré-consciente e pós-consciente. O seu ser pré-consciente é o estado inconsciente da primeiríssima infância; o pós-consciente é uma antecipação per analogiam da vida além da morte. Nesta ideia se exprime a natureza abrangente da totalidade anímica. Esta nunca está contida no âmbito da consciência, mas inclui a extensão do inconsciente, indefinido e indefinível. A totalidade é pois empiricamente uma dimensão incomensurável, mais velha e mais nova do que a consciência envolvendo-a no tempo e no espaço. Esta constatação não é uma simples especulação, mas uma experiência anímica direta. O processo da consciência não só é constantemente acompanhado, mas também frequentemente conduzido, promovido e interrompido por processos inconscientes. A vida anímica estava na criança ainda antes de ela ter consciência. Mesmo o adulto continua a dizer e fazer coisas cujo significado talvez só se torne claro mais tarde, ou talvez se perca. No entanto, ele as disse e fez como se soubesse o que significavam. Nossos sonhos dizem constantemente coisas que ultrapassam a nossa compreensão consciente (razão pela qual são tão úteis na terapia das neuroses). Temos pressentimentos e percepções de fontes desconhecidas. Medos, humores, intenções e esperanças nos assaltam, sem causalidade visível. Tais experiências concretas fundamentam aqueles sentimentos de que nós nos conhecemos de modo muito insuficiente e a dolorosa conjetura de que poderíamos ter vivências surpreendentes conosco mesmos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

EMINÊNCIA PARDA – O romance histórico Eminência parda (Grey eminence - Hemus, 1980), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963),é uma biografia romanceada do sacerdote católico, poderoso político e colaborador do Cardeal Richiliey, François Leclerc du Trembley - o Padre Joseph, chamado de eminência parda devido a cor do hábito de sua origem religiosa, os Capuchinhos. Com essa obra o autor faz um ataque à igreja do séc. XVII, retratando o papel desempenhado pela instituição na política da época, fazendo um paralelo entre a vida espiritual e a degeneração da fé. O livro é dividido em duas partes, na primeira o trabalho do padre na criação da ordem das Irmãs do Calvário até a luta contra os huguenotes e calvinistas. Na segunda parte, conta da atuação do padre na Guerra dos Trinta Amos e o seu nacionalismo. Da obra destaco o trecho: [...] Para a transformação radical e permanente da personalidade, um único método efetivo foi descoberto: o dos místicos. É um método, exigindo daqueles que o experimentam uma grande dose de paciência, resolução, autossacrifício e conscientização, que muitas pessoas não estão preparadas para dar, exceto, talvez, em tempos de crise, quando ficam predispostas, por um curto período, a fazer imensos sacrifícios. Mas, infelizmente, o aperfeiçoamento no mundo não pode ser alcançado mediante sacrifícios em tempos de crise. Ele depende de esforços feitos e continuamente repetidos durante os períodos monótonos e desinteressantes que separam uma crise da outra e dos quais a vida normal consiste principalmente [...]. Este trecho foi destacado, também, por Raymond Andrea, no seu artigo Crises no desenvolvimento místico (The Modern Mystic and Montly Science Review – O Rosacruz, 2013), no qual ele expressa que: Citei essa passagem de Aldous Huxley [...] por ele anunciar ali uma verdade fundamental acerca do desenvolvimento místico. [...] certamente se esforçou bastante para se informar, mediante a orientação de reconhecidos escritos místicos, sobre o método de disciplina seguido pelos místicos das primeiras escolas de pensamento, disciplina que, aliás, está em triste necessidade hoje [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

A FLAUTA QUE ME ROUBARAM – A coletânea poética A flauta que me roubaram (2001), do poeta e jornalista, representante do grupo Verde-Amarelo do Modernismo, Cassiano Ricardo (1895-1974), organizado pelo jornalista Júlio Ottoboni, reúne poemas temáticos do autor, entre os quais destaco Ciente: [...] 4 O mundo me ensinou, / me cuspiu no rosto, / me fez triste e sábio. / E em meio ao triste pão / que minha mão amassa, / em meio à convicção / que substituiu o êxtase, / em meio à mais abjeta / condição de vida, / resta-me, só, a ironia / da poesia. / Resta-me só esta graça / de ser poeta. / Poesia! Única coisa / que, depois de sabida, / continua secreta... Também o poema Outro epigrama: Se perdi a inocência / para ganhar o pão de cada dia, / com o suor do próprio rosto / lamento apenas tenha sido tão escassa / a inocência de que eu era servido. / Para que tão facilmente eu a houvesse perdido / e o pão de cada dia, em consequência, / me seja, agora, uma simples migualha. / Por que não foi maior minha inocência? Por fim o belíssimo poema Elegia para minha mãe: Só me resta agora / esta graça triste / de te haver esperado / adormecer primeiro. / Vivo continuamente longe / de mim, nas horas em que me decomponho / num sonho; estou no outro hemisfério, / que é um não sei onde, onde só ausência lavra. / Só me encontro comigo, ó amigo / se divido em dois, diante do espelho, / um em frente do outro, / sem nenhuma palavra. Veja mais aqui e aqui.

A PROFISSÃO DA SENHORA WARREN – A peça teatral em quatro atos A profissão da senhora Warren (1960 – Peixoto Neto, 2004), do escritor e dramaturgo irlandês e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1925, George Bernand Shaw (1856-1950), conta a história de uma mulher rica que dá a sua única filha uma educação elitista, para que ela possa entrar na aristocracia de Cambridge, quando uma revelação sobre a origem da riqueza e ascensão social da mãe, passa a perturbar a tranquilidade burguesa da família. Da obra destaco a cena do segundo ato: [...] ATO II  (O interior da casa, à noite. Olhando-se de dentro, inverte-se a posição da janela, com suas cortinas baixadas, e que agora é vista no meio da parede principal. A porta de entrada fica à esquerda da janela. No primeiro plano da parede esquerda, a porta que dá para a cozinha. Mais para o fundo, na mesma parede, existe uma cômoda sobre a qual se vê um candelabro e uma caixa de fósforos. Por trás desses objetos, o rifle de Frank com o cano apoiado nas prateleiras. No meio da sala está colocada uma mesa. Sobre ela uma lâmpada acesa. Os livros e papéis de Vivie estão colocados sobre uma outra mesa, colocada contra a parede, à direita da janela. Uma lareira apagada, na parede direita, tendo ao lado um pequeno banco. Duas cadeiras estão colocadas à direita e à esquerda da mesa do centro. A porta se abre mostrando uma linda noite estrelada. A Sra. Warren, com os ombros protegidos por um xale de Vivie, entra seguida de Frank que atira a sua capa sobre a cadeira. Ela caminhou muito e faz um gesto de alívio enquanto tira os alfinetes do chapéu para retirá-lo da cabeça, repõe os alfinetes no chapéu e o coloca em cima da mesa) WARREN – Oh! Deus. Não sei o que será pior no campo. Passear ou ficar em casa sem nada para fazer. Eu tomaria com prazer um uísque com soda, se isso existisse por aqui. FRANK – Talvez Vivie possa arranjar. WARREN – Não diga bobagens. O que faria uma moça na idade dela com uma garrafa de uísque em casa! Deixe estar, não tem importância. Não consigo fazer uma ideia de como ela passa o tempo aqui. Seria melhor que tu tivesses ficado em Viena. FRANK – Poderia levá-la para lá? (Ajuda a Sra. Warren a tirar o xale, acariciando delicadamente os seus ombros) WARREN – Gostaria, não? Estou começando a pensar que você é um galho do mesmo tronco. FRANK – Como o pastor, hein? (Coloca o xale sobre a cadeira mais próxima, sentando-se nela) WARREN – Não se preocupe com essas coisas. O que você entende disso? Ainda é muito jovem. (Afasta-se até o meio da sala para estar a salvo tentação) FRANK – Iria comigo a Viena? Nós nos divertiríamos como loucos. WARREN – Não, obrigada. Viena não é lugar para você. Quando tiver alguns anos a mais... (Faz um gesto com a cabeça para reforçar o que disse. Frank faz uma cara triste, desmentida por seu olhar sorridente. Ela olha para Frank e se encaminha de volta, em sua direção) Agora ouça, menino: eu o conheço como a palma de minha mão, exatamente como conheço seu pai e muito mais do que você a você mesmo. Portanto tire da cabeça essas idéias bobas em relação a mim, compreende? FRANK – (cortejando-a galantemente com um tom acariciante de voz) É impossível, minha querida Sra. Warren. É mal de família. (A Sra. Finge dar-lhe uma bofetada; depois olha para o belo rosto sorridente do rapaz, tentada. Finalmente o beija e, imediatamente, volta-se irritada consigo mesma) WARREN – Ora veja! Não deveria ter feito isso. Eu sou mesmo impossível. Mas não dê importância, meu querido. Foi apenas um beijo maternal. Vá-se embora. Vivie está a sua espera. Vá brincar com ela. FRANK – Já brinquei! WARREN – (volta-se para Frank, com voz assustada) O quê? FRANK – Eu e Vivie somos tão bons amigos! WARREN – O que você está querendo dizer? Não permitirei que sedutor algum se divirta às custas de minha filha, ouviu? Não permitirei. FRANK – (imperturbável) Minha querida Sra. Warren, não tem por que ficar assustada. Minhas intenções são honestas e a sua menina é capaz de se defender sozinha. E também não necessita de metade dos cuidados de que necessita a sua mãe. Não é tão bonita quanto a Sra., sabia? WARREN – (surpreendendo-se com a segurança de Frank) Não se pode negar que não lhe falta cinismo. Não sei a quem você saiu assim. A seu pai, certamente, não foi. CROFTS – (do jardim) Creio que são os ciganos. O REVERENDO – (respondendo) Sim, mas os bruxos ainda são piores. WARREN – (a Frank) Psst! Lembre-se do que lhe preveni. (Crofts e o reverendo entram, continuando o que conversavam) Então, o que foi feito de vocês? E por onde andam Praddy e Vivie? CROFTS – (colocando o chapéu sobre o banco e a bengala no canto da lareira) Fomos até a cidade. Estava com vontade de beber. (Senta-se no banco, esticando as pernas sobre ele) WARREN – Vivie não devia Ter saído assim sem me avisar antes. (A Frank) Pegue uma cadeira para seu pai, Frank; onde está a sua educação? (Frank levanta-se, oferece educadamente ao pai a sua própria cadeira e pega uma outra para si, sentando-se perto da mesa entre seu pai e a Sra. Warren) George, onde você irá passar a noite? Não poderá ficar aqui. E Praed, como se arranjará? CROFTS – Gardner me dará hospedagem. WARREN – Não duvido que você já tenha se arranjado. Mas Praed? CROFTS – Não sei. Que procure uma hospedaria. WARREN – Você não teria um lugar para ele, Sam? O REVERENDO – Bem... Como pastor dessa região... Isto é... Não tenho liberdade para fazer o que quero. Qual a posição social do Sr. Praed? WARREN – Oh! É uma pessoa direita, um arquiteto. Mas como você é convencional, Sam! FRANK – Ela tem razão, chefe. Praed construiu em Gales o castelo do duque. O Castelo de Caernarvon. Você já deve Ter ouvido falar. (Pisca maliciosamente para a Sra. Warren, olhando depois, com inocência, para seu pai) O REVERENDO – Bem, nesse caso está claro que ficaremos muito contentes. Suponho que ele conheça o duque pessoalmente, não? FRANK – São íntimos amigos. Você poderá colocar Praed no velho quarto de Georgina. WARREN – Bem, então está resolvido. Se aqueles dois já tivessem voltado, nós poderíamos jantar. Afinal de contas, já é tarde e eles não podem mais ficar passeando. CROFTS – (agressivamente) Que mal lhe estão fazendo? WARREN – Mal ou não, eu não gosto disso. FRANK – É melhor não esperá-los mais. Sra. Warren. Praed não voltará tão cedo. Ele nunca soube o que fosse passear pela Campina, em uma noite de verão. Acompanhado de uma moça como a minha Vivie. CROFTS – (endireitando-se no banco, com ar de certo desalento) E você sabe? Vamos? O REVERENDO – (levantando-se, deixando de lado o seu modo profissional de falar, usando de força e sinceridade) - Frank, de uma vez por todas, isso não está em discussão. A Sra. Warren poderá lhe dizer que este assunto não lhe diz respeito. CROFTS – Claro que não. FRANK – (com encantadora placidez) É verdade, Sra. Warren? WARREN – (refletindo) Bem, eu não sei. Se a menina quer se casar, não será justo conservá-la solteira. O REVERENDO – (espantado) Casar-se com ele? A sua filha casar-se com meu filho? Inteiramente impossível! CROFTS – Claro que é impossível, Kitty. Não seja boba. WARREN – (irritada) Por que não? Minha filha não será suficientemente digna de seu filho, Sam? O REVERENDO – Mas certamente a minha cara Sra. Warren conhece razões... WARREN – (desafiadora) Eu não conheço razão alguma. Se você conhece poderá contá-la ao rapaz, à menina... Ou a toda e congregação, se quiser. O REVERENDO – (sentando-se desanimado na cadeira que ocupava) Você sabe muito bem que eu não poderia contá-las a ninguém. Mas meu filho acreditará quando eu lhe disser que existem razoes... FRANK – Perfeitamente, papai, ele acreditará. Mas desde quando as suas razões influíram no comportamento de seu filho? CROFTS – Você não poderá se casar com ela e isso é tudo. (Levanta-se e fica de pé no meio da sala, de costas para a lareira, com um ar acintosamente grave) WARREN – (virando-se para Crofts, asperamente) Por favor, o que você tem a ver com isso? FRANK – (com o tom mais lírico de sua voz) Era exatamente o que eu ia perguntar, com a elegância que me é habitual. CROFTS – (à Sra. Warren) Acho que você não deseja casar sua filha com um rapaz mais jovem do que ela e sem ocupação ou bens que lhe permitam sustentar uma mulher. Pergunte a Sam, se não me acredita. Quanto você está disposto a dar ar a seu filho? O REVERENDO – Nem um xelim. Ele já recebeu de mim o que tinha para receber, e acabou de gastar tudo em julho do ano passado (A Sra. Warren assume um ar sombrio) CROFTS – (olhando-a) Está ouvindo? Não lhe disse? (Volta a sentar-se no banco, esticando as pernas, como o assunto estivesse definitivamente encerrado) FRANK – (queixosamente) Tudo isso é tão mesquinho. Supõem então que a Srta. Warren se casaria por dinheiro? Se nós nos amamos... WARREN – Muito obrigada, mas o amor de vocês tem poucas garantias, meu rapaz. Se você não tem meios suficientes para manter uma mulher, então não há mais o que conversar. Vivie não será sua. FRANK – (divertindo-se) O que diz a isso, chefe? O REVERENDO – Concordo com a Sra. Warren. FRANK – E o bondoso velho Crofts já expressou a sua opinião? CROFTS – (olhando-o com rancor) - Olhe aqui, rapaz. Eu não tolero mais as suas impertinências. FRANK – Perdoe-me se o irritei. Mas ainda há pouco você falou comigo como se fosse meu pai e... Basta-me um pai, obrigado. CROFTS – (enfurecido) Ah ... (Volta-lhe novamente as costas) FRANK – (levantando-se) Sra. Warren, eu não abriria mão de Vivie nem mesmo para lhe ser agradável. WARREN – (resmungando entre dentes) Canalha! FRANK – (continuando) E como tenho a certeza de que irá procurar outros candidatos à mão de Vivie, falarei imediatamente com ela. (Todos olham fixamente para ele, que recita, com grande encanto) “Quem do destino tem medo nunca será vencedor; ou tudo ou nada é o segredo de todo bom jogador.”... (A porta da casa se abre enquanto Frank recita. Vivie e Praed entram. Ela pára. Praed coloca o seu chapéu sobre a cômoda. Há uma brusca mudança nas atitudes de todos, que tentam dissimular o assunto de que tratavam. Crofts retira as pernas do banco, recompondo-se, enquanto Praed junta-se a ele perto da lareira. A Sra. Warren perde a naturalidade, refugiando-se em uma pergunta de repreensão) [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LARANJA MECÂNICA – Quando li pela primeira vez o romance distópico Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962), do escritor, compositor e critico britânico Anthony Burgess (1917-1993), eu tinha pouco mais de dezoito anos de idade e me impressionei bastante, a ponto de procurar imediatamente assistir o filme originado na obra: um depoimento acerca de experiências de um jovem inglês e uma sátira aguda à sociedade inglesa. Depois foi que eu soube que o romance foi inspirado num fato real ocorrido em 1944 e que já havia um filme lançado em 1971, com direção do cineasta, roteirista, fotografo e produtor estadunidense Stanley Kubrik (1928-1999). O filme não deixa a desejar: violência, perturbações psicológicas e psiquiátricas, delinquência juvenil, gangues de rua e, principalmente a sociopatia carismática do protagonista interpretado por Malcom McDowell: a Nona Sinfonia de Bethoven, estupros, arruaceiros violentos que cometem crimes terríveis, até que o jovem protagonista e capturado pela polícia e submetido a um processo de reabilitação por meio de um condicionamento psicológico – uma crítica aguda ao Behaviorismo, a psicologia comportamental dos psicólogos John Watson e B. F. Skinner –, quando a obra escandaliza com a paródia da terapia da aversão. Tudo começa a escandalizar quando o jovem é condenado a 14 anos de prisão e, com dois anos apenas de cumprimento da pena, ele se torna a voluntária cobaia do tratamento Ludovico, uma terapia experimental de aversão para a reabilitação de criminosos num processo de uso de drogas e lavagem cerebral, no prazo de duas semanas. A história, a partir daí, toma um rumo inesperado e instigante que vai explicitar o significado do título: orgânico do lado de fora, mecânico no interior. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: desenho (bico de pena) do artista plástico paisagista Demócrito Borges.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico com a reprise da semana, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Imagem: desenho (bico de pena) do artista plástico paisagista Demócrito Borges.
Aprume aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...