quarta-feira, novembro 14, 2018

YOURCENAR, HAN-NA CHANG, AMADEO DE SOUZA CARDOSO, CAOS 2018 & JOÃODITO


O ESPELHO DE JOÃODITO - Arte do pintor português Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918). - Por muito tempo o espelho ficou virado pra parede. As mortes da casa haviam se ocupado disso. Dessa vez, pela primeira vez em anos, Joãodito o colocou no lugar devido e fitou-se, limpando a superfície, contemplando a moldura. Há quanto tempo não vira seu semblante, quase nem se reconhecia ali. Viu-se ali refletido e entressorriu. Fitou-se por um logo tempo até percerber que sua feição começara a mudar. Como pode? Assustou-se, distanciando-se. Que coisa! Arrepiou-se dos pés à cabeça, não era ele ali refletido, as feições mudavam de instante a instante. Não conseguia acreditar no que via. Apanhou de uma toalha e o cobriu. E passou a noite sem conseguir conciliar o sono, olhos no teto, luz acesa. Criou coragem, tocou o interruptor e desligou a lâmpada do quarto, podia ser que na escuridão adormecesse. Pelo contrário, ouvia ruídos nunca percebidos, pisadas, chiados, movimentações sutis dentro e fora do ambiente. Cadê coragem de se levantar para uma apurada investigação a respeito. Ficara deitado, atento a tudo. Assim, o dia amanheceu finalmente, tudo às claras, saiu para conferir dentro de casa, tudo no devido lugar, o espelho coberto pela toalha. Aliviado com o que constatara e pelo resto do dia ocupou-se com os seus afazeres, embora aquelas imagens não lhe saíssem da mente. Comprou, vendeu, passou troco, negou, assentiu, coisas do cotidiano. A cada sim e não, uma pancada forte no coração. Deu conta das escolhas inconscientes cometidas a todo instante. Tomou água, ia para o escritório e não foi, resolveu voltar e sair dobrando a direita e ao se dar conta, retornou, devia ter virado à esquerda. Não, melhor meditar enquanto não fazia nada que tivesse que optar, apenas sentar e pensar. O dia entrou pela tarde e só pensava chegar em casa e encarar tudo de novo. Ao anoitecer, retornou para o lar e foi diretamente ao espelho. Hesitou. Hoje não. E foi deitar-se, sem pregar os olhos. Três dias seguidos e se arrependia, preferia tentar dormir, tantas noites em claro não lhe fariam bem. Decidiu-se, enfim, removeu a toalha e ficou fitando sua imagem refletida por longo tempo. Estava disposto a isso, determinado. Não vacilaria dessa vez. Então, depois de um longo tempo, olhar fime, uma luz começou a brilhar no interior e a tomar conta de toda superfície do espelho. Transformou-se lentamente em uma lua, inicialmente diminuta, até tornar-se gigantesca dentro da moldura. Dentro da esfera lunar as coisas se distorciam como um eco interminável. Viu-se duplicado no centro das imagens, a si e o outro sendo ele mesmo, consumidos por chamas dentro de um palácio de cristal que emergia de dentro do satélite. Surgiu um Aleph que girava no meio das transformações e passou a reviver ali toda a sua vida por instantâneas visualizações expressas da infância, a família, os momentos, a escola, as festas, a bicicleta, a adolescência, o namoro, sandices, ignominias, tentações, tudo misturado atemporalmente, coisas vividas e revistas desordenadamente. No meio do caleidoscópio foi aparecendo lá do fundo uma vela com uma aura forte e multicor na chama a se transformar em movimentadas ebulições. De repente, um vulto insinua-se, não sabe ao certo, algo próximo de uma monstruosidade. Afastou-se e conseguiu identificar a Medusa que lhe falou com uma voz rouca tonitruante: Não tema, você já é de pedra, a sua indiferença, a sua insensibilidade, o seu egoísmo, já me apoderei de você, ser petrificado e desprezível, não me escapará. Estou avisando: você não me escapará. E sumiu no negrume feito para reluzir sua própria efigie escurecida. Não, não era ele. Era Narciso e pode ver quantas vezes se fizera de si em nome da vaidade, do orgulho, da soberba. O que fiz da minha vida? Negou-se a si e a tudo. Como poderia? Não havia como se salvar e chorou a sua sorte, perdido no tempo e no espaço. Sentia-se pronto, não mais vivo, apenas presente e humano, era tudo ilusão, a vida pelos poros. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O cônego explicava que o homem, ao infligir aos perversos o suplício das chamas, que dura apenas um momento, não faz senão conformar-se à lei de Deus, que os condena ao mesmo castigo, só que para sempre [...] Quando afinal Joana falou, o que lhe saiu dos lábios foi uma torrente de torpezas e obscenidades que sabiam ao mesmo tempo a esgoto e a Bíblia. O Rei (de Münster – Cidade de Deus) não fora jamais para a velha hussita senão um indigente a quem se concedia comer na cozinha e que ousou dormir com a mulher do patrão [...] Tais males, no entanto, nada mais eram do que a antecipação de uma calamidade infinitamente mais terrível. Vinda do Oriente, a peste entrara na Alemanha pela Boêmia. Viajava sem pressa, ao som dos sinos, como uma imperatriz. Debruçada sobre o copo do beberrão, soprando a vela do sábio recolhido entre seus livros, ajudando o sacerdote na missa, escondida como uma pulga sob a blusa da prostituta, a peste trazia à vida de todos um fator de insolente igualdade, um acre e perigoso fermento de aventura [...] Sua mulher era igualmente culpada, mas, como se considerasse indecente que uma criatura do belo sexo ficasse dependurada em pleno céu com as saias drapejando sobre a cabeça dos transeuntes, decidiu-se pelo antigo costume de enterrá-la viva. Essa brutal estupidez horrorizou Zênon, que, aliás, disfarçou a repulsa por detrás de uma impassível máscara facial, pois tinha por regra jamais deixar transparecer seus sentimentos relativamente a tudo o que se referisse às disputas entre o Missal e a Bíblia [...] A rigor, quase a contragosto, esse peregrino ao fim de um percurso de mais de meio século obrigava-se pela primeira vez n a vida a recompor em pensamentos os caminhos palmilhados [...] empenhando-se em fazer a escolha entre o pouco que parecia advir de si e o que pertencia ao acervo comum da sua condição humana [...].
Trechos extraídos de A obra em negro (Nova Fronteira, 1981), da escritora francesa Marguerite Yourcenar (1903-1987). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor portugues Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918).
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AGENDA:
CAOS 2018 – Arte e Tecnologia nas questões sociais & muito mais na Agenda aqui.
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Livros pras crianças neste final ano aqui.
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Praia da coroa grande, Osman Lins, João Ubaldo Ribeiro, William Shakespeare, Leibniz, Hegel, Heather Jane Wallace & Janet Mayled, São José da Coroa Grande, Mulheres & Desigualdade, Jayme Griz, Tom Jobim, Guiomar Novaes, Sebastião Tapajós & Teca Calazans aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cellista e maestrina sul-coreana Han-Na Chang: Cello Concert Haydn, Cello Concert Dvorak, Symphonie nº 5 Tchaikovsky & Adagio and allegro Robert Schumann & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


terça-feira, novembro 13, 2018

AGOSTINHO DE HIPONA, TONINHO HORTA, ALMEIDA JÚNIOR, FARPA, PADRE BIDIÃO & OUMUAMUA


PADRE BIDIÃO & O OUMUAMUA – Imagem: Confederação Intergaláctica dos Mundos Unificados e Livres - Um dia desses Deus estava preocupadíssimo com a condução dada ao planeta pelos humanos, achando por bem, por conta disso, de convocar o Padre Bidião para uma reuniãozinha costumeira para averiguação. Ao chegar diante do Altíssimo, o padre foi ajoelhar-se e logo interrompido pelo Todo-Poderoso: Deixe de seus pantins, você não precisa disso! Venha cá, dê-me um abraço apertado, meu amigo. O vigário então se dirigiu a Ele, abraçando-o afetuosamente. Conversaram animadamente, largaram pilhérias um com o outro, tudo na maior camaradagem, quando o Criador indagou: Como vão as coisas na nossa Amada Terra? Bem, Pai Eterno, os filhos de Caim... Eu sei, meu filho, estão passando da conta. Eu já avisei que o prazo para essas coisas findaria em 2020, correndo o risco dos humanos desaparecem dali em 2050, não foi? Foi, mas os filhos de Caim... Eu sei, vamos convocar uma reunião com todos os seres do Universo para ver o que podemos fazer por esses teimosos humanos. Onde poderíamos nos reunir? Bem, poderíamos... Já sei, no centro da Terra, porque na crosta terrestre corremos o risco de sermos atacados ou mesmo destruídos pelos terráqueos. Vou convocar todos os seres do Universo. E assim se deu. Numa bela manhã, num recanto paradisíaco do interior planetário, reuniram-se as inúmeras comitivas de seres intergalácticos, das mais distantes às mais próximas, que vieram atendendo à convocação do Onipotente. A grande maioria veio representada oficialmente por um ou dois casais, enquanto outras, a exemplo da população oriunda de Oumuamua aos milhares – alegando não ser possível perder a oportunidade de se encontrar diante de figura tão ilustre quanto a do padre - e de outras menos volumosas que se apressavam em participar daquele evento singular. A solenidade de abertura se deu com o anúncio feito pelo Redentor sobre a decisão de nomear o Padre Bidião na condição de substituto dele próprio Onipotente. Foi uma ovação, os milhões de presentes apaludiram por mais de horas a escolha. Por conta disso, a cerimônia de abertura durou uns quinze dias, vez que cada representação universal queria saudar o substituto com discursos de apoio. A mais demorada foi exatamente a dos representantes de Oumuamua que reiteraram continuamente o apoio irrestrito ao padre na sua empreitada de salvar a humanidade. Ao final, o padre foi chamado ao microfone celestial e proferiu um breve discurso: Tenho a honra de assumir o cargo de substituto do Onipresente, mesmo não sendo merecedor de tal deferência. Por outro lado, sei que a minha empreitada em salvar a humanidade será dificílima, mas estou feliz por receber o apoio de todos vocês, obrigado. Deu-se, então, início à reunião prevista na programação cosmogônica, para se encontrar uma saída para os humanos. Muitos debates, discussões, várias propostas foram apresentadas e nenhuma delas conseguiu ter a maioria dos votos e a aquiescência do Onicriador nem do Padre Bidião. A Grandeza Ubíqua então pediu uma sugestão ao nosso representante e Bidião assim se expressou: Como já dizia o nosso sábio Jesus: Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem. Então, deixemos que nós, os filhos de Caim, resolvamos por nossa própria conta e risco o destino que quisermos tomar. Tenho dito, obrigado. Deus manifestou-se felicíssimo com a proposta, aplaudindo efusivamente: Assim que se fala! Para finalizar, o Padre Bidião foi convocando para coordenar uma sessão iniciática que durou cerca de três meses e ninguém queria arredar mais o pé dali. Foi preciso que o padre batesse o martelo: Está encerrada a sessão. Pronto, cada qual pro seu canto e fim de papo. Foi saudado por todos que se despediram aos gritos de bravo! E todos discretamente retornaram ao destino de origem, enquanto os integrantes de Oumuamua ficaram passeando sobre o nosso céu, admirando nossas belezas e lamentando o porvir. Por isso foram flagrados por nossas câmaras e tiveram que fugir às pressas, temendo serem capturados e escravizados em nossos domínios e, nessa correria, deixaram cair alguns pertences em nossos mares. Só agora que as tevês e cientistas deram conta do sucedido, tendo o padre Bidião que prestar alguns esclarecimentos para toda população planetária: Acalmem-se todos, não são inimigos, vieram para salvar a humanidade, mas infelizmente, a bronca é nossa e temos que resolver. Ninguém levou a sério, até piadas foram inventadas para escárnio do sucedido. Assim caminha a humanidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O que agora parece claro e evidente para mim é que nem o futuro, nem o passado existem, e é impróprio dizer que há três tempos: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais correto dizer: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro. E essas três espécies de tempos existem em nossa mente, e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a percepção direta; o presente do futuro é a esperança. Se me é lícito falar assim, vejo e confesso que há três tempos. Diga-se também que são três os tempos: presente, passado e futuro, como abusivamente afirma o costume. Não me importo, nem me oponho, nem critico o modo de falar, desde que fique bem entendido o que se diz, e que não se acredite que o futuro já existe e que o passado ainda existe. Uma linguagem que expresse com termos exatos é incomum: com muita freqüência falamos com impropriedade, mas entende-se o que queremos dizer. [...]
Trecho extraído do Capítulo XX – Conclusão das Confissões (Porto, 1981), do filósofo e teólogo latino do cristianismo, Agostinho de Hipona (354-430). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e desenhista brasileiro Almeida Júnior (1850-1899).
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AGENDA:
Festival de Artes Psicodélicas & Astrais (FARPA) – de 1 a 6 março de 2019, às 18hs, no Sítio Macuca – Correntes – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Livros Infantis pras crianças neste final ano aqui.
&
A saga do Padre Bidião aqui.
&
A canção do poema que não fiz, Carl Gustav Jung, Erica Jong, Rémy de Gourmont, Johannes Itten & Maria Blanchard, São Benedito do Sul, Palmares & Adriano Sales, Moacir Santos, Érica Garcia, Jacob de Haan & Mawaca aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta: Terra dos Pássaros, Diamond Land, Minas Tókyo & com Orquestra Fantasma & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
 

segunda-feira, novembro 12, 2018

DRUMMOND, CLELIA IRUZUN, TATIANA MÓES, CATENDE & IMAGINAUTAS


VIAGEM DE VOLTA - Imagem da série Morpheus, da escritora, pintora e ilustradora Tatiana Móes. - Quantas vezes por janeiros que se pareciam férias no Zimbábue e pensei em quem espera a condução pra onde vai com dinheiro contado no bolso, só pra fugir do tédio e participar do movimento que ninguém sabe aonde e ler os letreiros nas marquises, os anúncios, rabiscos, pichações, os recados indecifráveis entre motores raivosos com seus pousos e decolagens, turbulências e trepidações, o mundo e o universo aos catabis na fantasia de fevereiro e nem sabia das paradas do trajeto, casas e casas, nenhum lar e escalas, embarques e desembarques para que o cenário voe depressa por sonhos que nascem do nada, só entretenimento. Quantos foram e nem voltaram, passagens sem destino, bagagens perdidas em Burundi como se o carnaval das árvores das queimadas, os céus esfumaçados e a vida dos mortos insepultos no cordão dos famélicos até o ponto do enguiço com o golpe do martelo inesperado na cabeça que endoida quantas cores, transeuntes, gente que apenas vive, tantos em marcha à ré e não sabem quão novas e mesmas são de tão imperceptíveis, como se a popa ditasse a direção e a proa só passeio, outras revisitas, reencontros não sabidos e a sensação mais vã de quem vai com todos em sentido contrário do que imagino ser o caminho exato ou líquido e certo, sei lá. Não dá pra entender, devo estar perdido no que penso por engates e reboques que a outros dão o prenúncio dos maremotos e enchentes por março das águas e o que deixei de ver por distração na camisa de Sol, atalhos perdidos, talhos que doem no abril das nênias e os afetos descartáveis por quintais devastados, leirões destruídos, pomares incendiados, mórbidas existências com seus sinistros sorrisos e alaridos nas travessias desmoronadas e escorregadias pelas britas dos armazéns da memória que se dissolvem nos plexos das desídias, amplexos da traição na língua dos efluentes para famintos do Haiti e as sílabas do Congo nas bandeiras apócrifas, estandartes dos interesses, a procissão de pedintes e camelôs nas indústrias das ruínas com todos os maios das ladainhas do apocalipse da Libéria e as molas inseguras com seus depósitos de abismos da Eritreia e nos descampados da razão do Niger, entradas confusas entre antenas e pararraios de Malawi, tudo é tão dolorido quanto sofrível, quem dera fosse diferente. As fogueiras de junho estão acesas, são patíbulos das vaidades e reputações de Madagascar, sou eu no meu Brasil de tantos brasis e eu crucificado nas placas indicativas e sinalizações do reino do impreciso, interditos, superstições, interstícios e tripas torcidas nos templos do paroxismo com as rezas das blasfêmias, ecos do passado sempresente, catequeses e delírios perenes, caduquices por pinhões e palmeiras e favelas do Afeganistão e as malsinações invernosas de julho pro aziago agosto que parecem Mali, porque sei quase não há mais galope à beira-mar, quase tudo devastado pela erosão do tempo que parou em Togo e a primavera nos dentes de setembro em Guiné, com as porteiras de morros intransponíveis, serragens, pedreiras, trilhas desfeitas pelo matagal, sabores que reportam coisa alguma de nada, ferro-velho, lixões, acessos proibidos, perigo de propriedade privada da Etiópia com as emancipadas crianças sexagenárias de outubro em Moçambique e quase também não há mais como levantar vanguardas defuntas pelos disparos de Natal. São chuvas de bombas ácidas de Ano Novo às vésperas dos túmulos de novembro, quando enterram-se as horas de dezembro com a implosão dos espaços e o ruir dos tempos nas sucatas recicladas e tudo é coisificado no reaproveitamento do câncer vivificado na reificação dos simulacros e outras ilusões pelos estuários das imundícies e nas fontes dos lodaçais e charcos das cloacas, ah, o inferno de Dante nas misérias de Huxley, difícil é voltar e a cidade é um deserto. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Convidaram-me a falar sobre a educação em face da guerra. Eis aí um grave problema. Antes de mais nada, os dois termos parecem repelir-se. Uma educação ideal importaria na eliminação da guerra como meio de solução do choque de interesses entre os homens. Uma guerra total, por sua vez, importaria no fim do trabalho educativo do homem. Entretanto, paradoxalmente, vemos que educação e guerra também se conciliam e que há mesmo, elaborada pelos regimes fascistas, uma “educação para a guerra”, monstruosa e implacável, como também, por outro lado, a guerra introduz nos sistemas normais de educação câmbios violentos e profundos. Dessa educação para a guerra seria pouco todo o mal que se dissesse. A criança submetida a um treinamento moral e psicológico para o ódio é, sem dúvida, o mais triste exemplar humano. E é com o coração encharcado de horror e piedade que pensamos nesse menino alemão, nascido de 1933, para cá, e destinado a aprender uma gramática, uma filosofia, uma poesia, uma arte preconceituosas, agressivas e totalitárias. Mas já que essa educação existe e produz os seus frutos cruéis, força é enfrentá-la, neutralizá-la, anulá-la. Não por uma contra-educação igualmente tendenciosa e dirigida. Mas sim por uma educação natural, a pura e desinteressada educação do espírito, destinada a formar homens de boa vontade e calma coragem, não autômatos ou possessos. A guerra que o facismo espalhou pelo mundo impõe-nos, assim, uma tarefa: a de restaurar a educação nos princípios básicos de que se haja afastado; e de cultivá-la na parte em que se haja mantido fiel a esses princípios. Ao lado dos problemas militares, econômicos e políticos que dizem respeito à organização e à movimentação da guerra, devemos cuidar de estabelecer normas educativas que importem na saúde moral e mental da criança e do jovem. E é voltando às letras clássicas, às boas e esquecidas humanidades [...] restituiu ao nosso currículo secundário, e temperando-as com gosto da pesquisa e o sentimento da vida moderna; é mantendo a tradição do espírito com as ferocidades do mito racial e político, é, em suma “cultivando o nosso jardim”, como queria o mestre francês, que prepararemos gerações mais felizes e menos susceptíveis da embriaguez pela guerra, mas realmente dispostas a fazer essa guerra quando periclitem os valores humanos. Cultivemos o nosso jardim, e que esse jardim seja espaçoso e nele caibam todas as espécies dignas de ser contempladas, como todos os encantos que se dirigem ao melhor da nossa sensibilidade e de nossa inteligência. Não deixemos que o animal feroz do nazismo invada esse horto sereno. Eis aí, em linguagem figurada, mas que pode ser facilmente transcrita para termos reais, o dever que incumbe hoje primacialmente ao educador. Mesmo não pegando em armas ele pode trazer uma contribuição inestimável à luta que todos os países livres hoje desenvolvem contra os países de rapina e destruição. Que o educador prepare homens livres, e a liberdade reinará no mundo.
A educação em face da guerra, do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), extraído da obra Drummond, testemunho da experiência humana (Abravídeo, 2011), de João Camilo Penna. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escritora, pintora e ilustradora Tatiana Móes. 
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AGENDA:
Estação do Bem: Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Vou danado pra Catende aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Ghuga Távora & Imaginautas aqui & aqui
&
A sexta é o dia!, Hermann Hesse, Rubem Braga, Lewis Carroll, Tomas Tranströmer, Carlo Mollino, Os pecados capitais de Fernando Fernández-Savater, Ninon de Lenclos, Camocim de São Félix, Turíbio Santos, Magda Tagliaferro, Álvaro Henrique & Anna Stella Schic aqui.
&
Professora Hilda, Osho – Bhagwan Shree Rajneesh, Mircea Eliade, Roland Barthes, Cyril Mann, Pelópidas Soares, Bhasílio Santtos, Rio Formoso, Paulo Moura, Eugénia Melo e Castro, Pat Metheny & Tomoko Mukaiyama aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da pianista Clelia Iruzun: Gotchalk Grand Fanatisie Trimphale sur L’Hymne National Bresilien, Concert nº 1 de Chopin & Impresões Seresteiras & Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.
 

sexta-feira, novembro 09, 2018

TURGUÊNIEV, AYREON, JIA LU & SÍLVIO HANSEN


SOLILÓQUIO MATINAL - Imagem da artista chinesa Jia Lu. - Ouço os pássaros na manhã e sou tons no voo da alegria de plantas, brisa, cores, campos, céus e chão. Nada mais ameno respirar o amanhecer para quem vivo. Daí a pouco um instantinho e a cidade emerge com estrépitos emergentes das algaravias aos ventos de quantas línguas e vozes irreconhecíveis. Nem parece e estou só nesse instante, nada pra dizer, nem ninguém me diz nada além de banalidades, lamúrias, padecimentos. Os gestos longínquos me dizem dos afobamentos e a ganância fala mais alto entre ninharias, sem que nada tenha significado, mesmo que preste atenção, é tudo muito lamentável, quantos restos amontoados, desperdício, ódio, chancelas. Há muito as linhas na palma das mãos guiaram o meu olhar e exprimiu de mim o que nem sei que sou. Sei: só posso conhecer-me com o outro e só serei se o outro existir, do contrário serei ermo ambulante, noite sem dia, cor sem luz. Também ouço o reluzir das flores, as árvoes trabalham e me lembram o oxigênio e isso eu sou vida inteira, a sentir as moléculas nas paredes como as células no corpo. Olhares avessos me falam, sou o que acontece ao meu redor e até o que não sei se deu certo ou não, se passou do ponto e gorou, se era pra chegar e não veio, se do visinvisível não percebesse nada e me diz respeito porque respiro e faço parte do que vai acontecer. Não me confesso perdido nesse momento, tateio um tanto deslocado por frentes frias, cargas de ar, correntes e rotas. As águas ensinam tão bem: tudo passa. A lição da chuva passageira e logo estiou para que eu fosse além pra me molhar de vida como as aves e todos os bichos que não sabem nada além de viver. Se não há mais calmaria no meio da algazarra das ferragens dos motores, do rangido das portas, do alarido das coisas, o riso cancela a tristeza porque o Sol é sempre maior e eu sei, os caminhos se comunicam e aprendo nos galhos as múltiplas possibilidades de sorrir, sonhar e ser feliz, basta que eu pise a Terra pra saber ali ao abrigo e fazer por onde merecer o entendimento do paradoxo, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Minha história se conta em duas palavras. [...] não sou nenhum mestre da narração: vai sair seca e curta, ou então prolixa e falsa; no entanto, se me permitirem, escreverei num caderno tudo de que me lembro... e lerei para os senhores. [...] A poucos passos de mim, numa clareira, entre arbustos verdes de framboesas, estava uma menina alta e formosa, num vestido de listras cor-de-rosa e com um lencinho branco na cabeça; em torno dela se aglomeravam quatro jovens, e ela batia alternadamente na testa deles com pequeninas flores cinzentas cujo nome ignoro, mas que são muito conhecidas das crianças: essas flores possuem uns saquinhos miúdos que se rompem com um estalo quando batemos com eles em algo mais duro. Aqueles jovens se revezavam com tanta boa vontade para oferecer sua testa — e nos movimentos da menina (eu via tudo de lado) havia algo tão encantador, cativante, carinhoso, engraçado e meigo que quase dei um grito de admiração e de prazer e tive a impressão de que, naquela hora, daria tudo no mundo só para que aqueles dedinhos encantadores também batessem em minha testa. [...] Senti vontade de lhe contar tudo, mas me contive e apenas sorri por dentro. Antes de me deitar para dormir, sem que eu mesmo soubesse para quê, rodopiei três vezes num pé só, passei pomada no cabelo, deitei e dormi a noite inteira como uma pedra. Antes de amanhecer, acordei por um instante, ergui a cabeça, olhei à minha volta, em êxtase — e adormeci outra vez. [...].
Trechos extraídos da obra Primeiro amor (Companhia das Letras, 2015), do escritor, tradutor e dramaturgo russo Ivan Turguêniev (1818-1883). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista chinesa Jia Lu. 
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AGENDA:
A arte de Sílvio Hansen – Compro qualquer coisa  IX - & muito mais na Agenda aqui.
&
Os quinze anos de Clarinha, Confúcio, Jim Peters, Arnaldo Tobias, Mulheres no Mundo de Rosemary Evaristo Barbosa, Escravidão e abolição de Ignez de Almeida Pessoa, Belém de Maria, Carl Orff, Chloë Hanslip, Nelson Freire & Mitsuko Uchida aqui.
&
Respeite o santo, Jiddu Krishnamurti, Claude Lévi-Strauss, Ernst Fuchs, Roseli Nascimento, Sebastião Vila Nova, Riachão do Gama & Cachoeirinha, Igor Stravinsky, Maria João Pires, João Guilherme Ripper & Martha Angerich aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da banda Ayreon, um projeto do multi-instrumentista holandês Arjen Anthony Lucassen: The Source, The Theory of Everything, Isis and Osiris & The dau that world breaks down & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.


quinta-feira, novembro 08, 2018

LYGIA FAGUNDES TELLES, ALISA WEILERSTEIN, TRESERRAS, NARCISAURA & SARAU AMIGOS DA ARTE


VIÚVA NEGRA - Imagem do artista francês Louis Treserras. - Narcisaura era bela e triste, pelos cantos, nem falar falava. Belíssima como a paisagem da tarde de verão em que o Coronel Barradão botou os olhos nela e logo se interessou: Quem é aquela putinha linda? Logo soube, capatazes pra isso. Foi ter com o pai dela: Ô Narcisildo, vou pegar tua filha pra casar! Pode levar, Coroné. E pegou-la, pôs nos braços e saiu ladeira abaixo, casa grande adentro: Cambada! Chegou a rainha da casa! As serviçais todas apareceram às carreiras: Quero banho, limpeza e formosura do melhor de tudo pressa aqui e agora! A rainha do meu império! Levaram-na aos gritinhos, risadagens e cochichos. Ele, então, apoderou-se de um copo e ficou bebericando da aguardente forte como o seu bafo, cuspindo no chão, enquanto pensava em casar, coisa que nunca quisera na vida, jamais, como podia acontecer justo agora, estava amarrado de paixão e aguardava o banho de loja. Imaginava uma grande festa, não, melhor não, uma cerimônia só para íntimos, com padre e juiz, não, isso não, nunca! Uma, duas, três doses, meiota, litro esvaziado, outro às doses, lá pras tantas ela aparece encantadora. Ele arregala os olhos espatando com tanta boniteza: Ô mulé bunita da gota! Então, abre a cortina e um lindo altar com um trono no cume aparece, ele toma-lhe uma das mãos e sobe degrau a degrau até sentá-la no trono: Daí você, minha rainha, só sai pras três refeições e pra cama comigo, nada mais; esse o seu trono de deusa. Ele desce, retoma o copo e fica admirando a lindeza. Toma todas as providências para que ela assuma o seu poder: fazenda, negócios, tudo dela. Nessa hora entra um jagunço: Que é cabra? O caboeta cochicha em seu ouvido: Mande ele vir aqui, agora! E volta pro seu entretenimento de não piscar o olho de tão arrebatado por tamanha beleza. E jurava amor e tudo dele pra ela, tudo. Alguns instantes depois, um sujeito espadaúdo, musculoso, rústico, deferente, entra e a ele se dirige: Sim, senhor, Coronel! Ela viu aquele moço corpulento, não conseguiu evitar-lhe o olhar. Eu soube dumas ações de vossência, é verdade? Sim, senhor. É isso mesmo que me contaram? Sim, senhor, sou seu escravo, estou às suas ordens. Está despedido! Não quero aqui ninguém mais macho que eu, caia fora e já. Sim, senhor. Ao sair, ela acompanha seus passos sem conseguir deixar de vê-lo, o porte atlético, a macheza, a robustez. Agora, minha deusa, desça e vamos já pro serviço no meu quarto. Ela desceu, ele a levou gentilmente nos braços e quando cerrou as portas, só se ouvia os gemidos e os gritos dela aos caprichos dele. Três dias ali enfurnados, ele nas intimidades dela. Logo ela se viu na monotonia de viver pendurada no trono dias, tardes e noites. Aos cochichos com as mucamas, soube a real razão da demissão daquele rapaz: pegava cobra de mão, matava bicho de murro, cabra mais macho do mundo, era Hércules o nome dele. E ela suspirava. Cadê ele? Ninguém sabia mais seu paradeiro. Já sei o que fazer. Dez dias se passaram e apartir daí o Coronel Barradão começou a definhar, raquítico, tísico, secou, bateu as botas, enterrado no oitão da fazenda, no jazigo da famíla. Tudo era dela, a viuva. Cadê Hércules? Ninguém sabia. Uns dez meses depois, cansada da procura, encontrou um bonitão de voz maviosa e cheio dos galanteios: o Ronitércio que chegava com uma mão na frente e outra atrás, lábia de derrubar o céu e o inferno, virilidade para dar e vender na maior safadeza. Ela agarrou-se nele de perder as saias, as anáguas, as calcinhas e quase a própria vida: o amor acontecia pela primeira vez na vida pra ela. Nem dois anos se passaram, a infidelidade dele de passar o rodo em quantas cruzassem seu caminho, chegou aos seus ouvidos. Como? Ah, é. Jurou vingança e dez dias depois ele começou a encruar, esmoreceu, até se esgotar de ficar só os ossos. Outro pro mausoléu da fazenda. Ela não derramou uma mínima lágrima, fechada, silenciosa, tristonha: Homem nunca mais! Isso, um ano e meio depois, aparecer o ricaço Ivonetildo com um baú repleto de posses: escrituras, dólares, ações do mercado, ouro e petróleo, tudo pra ela, ele e suas posses aos seus pés. E ela: Beije meus pés. E ele lá, por horas, ajoelhado aos ósculos e mimos. Lamba o solado dos meus pés! Não só lambidas, carinho extremo nos membros inferiores dela. Não passe do calcanhar, seu merda! Dias e mais dias e ele ali se arrastando aos seus caprichos. Vá embora, chato! Ele não ia, chorava, esperneava para ficar ao lado dela, queria era casar. Ela então passou a fazer exigências, tudo ele trazia e dava, de papel passado e tudo. Já tomei tudo, mas por via das dúvidas, vou casar com ele. E casou sob a condição dele nunca tocá-la sem autorização, só os pés, as pernas ou onde só quando ela mandasse. Ele aceitou, jurou pro padre e pro juiz. E se passaram alguns meses, quando quase um ano, o homem começou a murchar de sobrar só a caveira. Enviuvava pela terceira vez, poderosa e abastada. Nem havia passado o luto, ela viu alguém que já conhecera passando na rodagem em frente da fazenda. Quem é aquele que vai ali? É Hércules. Vá lá e mande ele vir aqui, é uma ordem! Ele veio, ela quase desmaia diante daquele que mexera com seu íntimo desde o primeiro dia. O que está você fazendo da vida, homem? No momento estou desempregado, senhora. Está empregado, você vai tomar conta de toda fazenda. Sim, senhora. E só se ouvia o dia pela noite: Hércules! Hércules! Ele pra lá e pra cá, dentro do quarto, virando a noite, mandando e desfazendo as coisas, saciando a patroa em tudo, aos beijos e solavancos pela sala, na escada, nos batentes, na cozinha, no passeio do jardim, até o dia que ela abriu a cortina e ofereceu o trono da casa a ele. Hércules olhou pra ela e disse: Já tenho tudo aqui, minha senhora. Eu quero você lá! Não nasci para ser rei, nasci para ser escravo e cumpro a minha missão. Eu ordeno! E ela agarrou-se nele sedenta para ser possuída por ele subindo os degraus até o trono. Assim foi o resto da noite até o dia amanhecer. Ao despertar, procurou por ele e só restava o lugar mais limpo. Hércules! Hércules! Nem sinal dele. Cadê Hércules? Ao dar por si, todas as faces da casa respondiam cabisbaixas que ele havia ido embora. Ela chorou por meses. Ele nada dissera, mas a população já dizia que ela havia matado os outros três maridos com um chá de sapo, por isso, ele foi embora desconfiado, para não morrer. Agora todos a condenavam, ninguém sequer sabia do que ela havia passado na infância e na adolescência, ninguém sequer desconfiava, somente ela, sozinha, tristonha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

DITOS & DESDITOS:
Anoiteceu e faz frio, quarenta e quatro anos e cinco meses, como passa rápido “Meu Deus”, eu sinto o frio circular que sai do assoalho e se infiltra no tapete, meu tapete é Persa, aliás, todos meus tapetes são Persas. Mas eu não sei o que esses bastardos fazem que não impedem que o frio se instale. Onde agora, onde?  Eu poderia pedir que acendessem a lareira, mais eu mandei o copeiro ir embora, o copeiro, a arrumadeira, a cozinheira; todos rua, um a um, uma corja que ri de mim pelas costas. Mas onde agora, onde?  A lenha, em algum lugar da casa, mais acender a lareira, não é tão fácil como parece no cinema, o xinês ficava horas e horas assoprando e mexendo até acender e eu mal tenho forças para acender meu cigarro. Onde agora, onde?  Eu desliguei o telefone da parede, peguei a garrafa de whisky, estou sentada aqui a não sei quanto tempo, bebendo, mais bebendo devagar, por que hoje, hoje eu não quero ficar bêbada, hoje não. Engraçado sabe, eu to sentada aqui a não sei quanto tempo, foi escurecendo e eu não acendi as luzes da casa e agora que está escuro eu vejo, vejo essa sala exorbitando de riqueza, uma riqueza inútil, fútil, coisas que eu comprei nas minhas viagens pelo mundo a fora e eu nem lembrava mais que tinha. Mas onde agora, onde?  Eu tenho um velho que me dá dinheiro, um jovem que me dá gozo e um sábio que me dá aulas de doutrinas filosóficas, uma filosofia tão platônica que na segunda aula ele se deito comigo, mais você acha que eu me importo com que ele ou qualquer pessoa pensa de mim? Claro que não, mais eu já me importei. E por causa da opinião alheia, é que hoje, ah hoje eu tenho um casaco de Vizon, um gato Siamês, eu tenho um sapato com fivela de diamante, eu tenho um piano com calda, uma chácara com piscina, um diamante que é quase do tamanho do ovo de uma pomba e um aquário com floresta de coral no fundo. Mas eu trocaria tudo, tudo, anéis e dedos, mais uma vez, só mais uma vez, ouvir o som do saxofone e saber que ele está bem em algum lugar, nem pediria para vê-lo, não eu não pediria tanto. Mas onde agora, onde? A primeira vez que nós nos amamos foi numa praia e era uma noite muito quente, então nós entramos na água do mar nús e a água parecia a água de uma banheira, uma água morna e ele ficou assustado quando eu disse que nunca tinha sido batizada, então com as mãos em concha, ele pegou a água depositou na minha cabeça e disse: Eu te batizo Luiziana, em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém! Eu pensei que ele tava brincando, mais ele nunca falou tão sério em toda sua vida. Luiziana, Luiziana, nunca mais ninguém me chamou assim. Onde agora, onde?  Nessa noite na praia eu disse a ele: Se você me ama, me ama mesmo, suba naquela duna, nú como está e toque seu saxofone o mais alto que você puder até a polícia chegar! Eu corri, vesti minha roupa, por que ele tocava tão alto que eu sabia que a polícia não ia demorar. Ah, ele tinha o cabelo todo bagunçado, a camiseta despencada, o sapato um lixo, mais o sorriso, ah, o sorriso era tão branco, tão lindo, que quando ele sorria eu parava de sorrir só para ficar olhando o sorriso dele.  Ele me levou pra morar com ele, era um apartamento no 10º andar, era um apartamento pequeno, pobre, feio, sujo, mas nós nos amamos tanto e fomos tão imensamente felizes naquele 10º andar. Em uma noite, uma noite ele me levou para jantar e afinal eu disse á ele: Se você me ama, me ama mesmo, dei me cá seu saxofone e suba naquela mesa, grite o mais alto que você puder cornudos, todos cornudos! Ele me entregou o saxofone, enquanto eu saia envergonhada eu escutei ele gritando: cornudos, todos cornudos! Me alcançou na rua e me implorou: Luiziana não me negue, não me negue. Era um amor grande demais, entende? Eu não sabia o que fazer com um amor tão grande assim, na hora a gente nunca sabe. Por acaso alguém dá valor na respiração? Haha, da né, quando ela se esculhamba toda, ai todo mundo da valor. “Poxa eu respirava tão bem.” Mais na hora que ta tudo dando certo, a gente não dá valor, eu não dei. Comecei a ficar exigente sabe; Se você me ama, me ama mesmo, me dê um par de brincos! Se você me ama, me ama mesmo me dê um vestido novo! Se você me ama, me ama mesmo me leve pra jantar em lugares chiques! Se vc me ama, me ama mesmo…, ele começou a trabalhar tanto que ele saia pra tocar nos bares durante a noite e só voltava no outro dia, já amanhecendo, cansado ele deitava na cama enrodilhado tocava o saxofone e ainda me dizia: Luiziana, Luiziana você é minha música e eu não vivo sem música. E abocanhava o bucal do saxofone como fazia com meu seio. Eu quis terminar sabe, mais eu não tive coragem, então eu decidi que eu faria tudo pra que aquele amor apodrecesse de tal forma que um dia ele fosse embora e nem olhasse para trás de tanto nojo. Então uma noite, uma noite eu tinha um compromisso, nessa época eu vivia cheia de compromissos, pintava meus olhos diante do espelho e ele tocava saxofone, eu ia me encontrar com um banqueiro sabe, ele sabia disso, então eu parei, parei de pintar os olhos, olhei pra ele e disse: Se você me ama, me ama mesmo, sai daqui agora e se mate, imediatamente!
Conto Apenas um saxofone, extraído da obra Antes do baile verde (Bloch, 1970), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Obra transformada no curta metragem homônimo, dirigido por Heber Trigueiro, em 2008, e estrelado pela atriz Solange DeBarros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista francês Louis Treserras.
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...