terça-feira, maio 03, 2016

OSWALD, HANNAH ARENDT, GUIMARÃES ROSA, ELOMAR, PATATIVA DE ASSARÉ, SHERE CROSSMAN, KHNOPFF & NELSON BARBALHO


A VIDA, A TERRA, O HOMEM & A BIOÉTICA – As sucessivas crises por que tem passado a humanidade, tem levado a um momento decisório e dicotômico por parte de cada um de nós: ou a manutenção da dominação da natureza e do homem pela acumulação vinculada ao processo de produção capitalista, em que a natureza é objeto eterno e inesgotável da exploração humana, ou a constatação do desafio de se chegar a uma situação insustentável da autodestruição da espécie pela destruição da natureza, buscando uma relação mais harmônica com o planeta por meio da eleição de novos valores e paradigmas. Ou uma, ou outra. É chegada a horagá. Isso porque a crise ambiental tem levado toda humanidade a um processo de reorganização diante da ameaça de esgotamento dos recursos naturais com a explosão demográfica e consumo, os elevados níveis de poluição da atmosfera envenenando o ar e contaminando as águas, os riscos de alterações climáticas, o desmatamento, a desertificação, a perda da biodiversidade, entre outros tantos problemas que têm trazido uma série de outros tantos danos problemáticos quase insuperáveis. Diante desse fato, alguns posicionamentos têm se identificado por parte da sociedade, sejam por meio de atitudes naturalistas que consideram que a natureza é ordem e critério de bondade, como as emotivistas que defendem os direitos dos animais, as utilitaristas que apregoam que só sendo útil é que se proporciona o maior bem ao maior número de pessoas, as racionalistas que advogam que só o homem detém a razão e as ecologistas dando maior importância ao mundo. No meio disso tem-se revisitado os princípios kantianos da razão prática e a ética da convicção e da responsabilidade de Max Weber, defendida pelo filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993), levando em conta que os efeitos da ação humana devem ser compatíveis com a vida, não destruindo a futura vida humana e não comprometendo as condições de continuação da humanidade sobre a Terra, além de exigirem, portanto, que cada um deve se colocar no lugar do outro, incluindo as futuras gerações. Tal condução tem levado muitos pensadores, filósofos e estudiosos a sugerirem um novo paradigma que passe a tratar a natureza de forma complexiva, global e holística, com a convicção da profunda interconexão existente entre os processos naturais, saindo da visão antropocêntrica do mundo para uma dimensão biocêntrica, adotando a referência evolutiva como principio cosmovisional, considerando a espiritualidade humana e a questão global ecológica como um supraconceito. E isso se deu por conta do surgimento da Bioética que, segundo o cientista espanhol Javier Gafo Fernandes (1936-2001), trata dos problemas morais relacionados com a vida. Ah, tá. Pois bem. Diante de tudo isso, faz-se necessário indagar: afinal, de que lado a gente está? A gente está na maior correria devorando tudo e nem aí pra quem pintou a zebra e pro que está ocorrendo com o planeta, nem com o aparecimento de doenças cada vez mais desafiadoras da nossa resistência, nos autoenvenenando e, ao mesmo tempo, amontoando o lixo por nós fabricado no dia a dia a ponto de tornar o nosso ambiente impróprio para a nossa própria vida? Ou estamos de forma harmônica garantindo a nossa existência e das futuras gerações por meio de ações conscientes, solidárias e pró-vida? A resposta é sua. Vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE 
[...] a economia se caracteriza pelo desperdício, onde todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas tão rapidamente como surgem, em que as coisas surgem e desaparecem sem jamais durarem o tempo suficiente para conter em seu meio o processo vital [...], trecho extraído da obra A condição humana (Forense Universitária, 1997), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), Veja mais aqui.

Imagem: Earth Mother, da artista plástica Shere Crossman.

Curtindo o álbum Dos confins do sertão (1987), cantor e compositor Elomar Figueira de Mello. Veja mais aqui.

PESQUISA
Cronologia pernambucana: subsídios para a História do Agreste e do Sertão (CEHM/FIAM, 1982), do historiador, jornalista, lexicógrafo, pesquisador e compositor Nelson Barbalho (1918-1993). Veja mais aqui e aqui.

EPIGRAFE
[...] Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma doutoração. [...] No centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo! [...] Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera. [...] Sertão é o sozinho. Sertão: é dentro da gente. O sertão é sem lugar.
Trechos extradídos da obra Grande sertão: veredas (José Olympio, 1982), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
AS MENINAS DA GARE
Era três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.
Pau-Brasil (1925), do escritor, ensaísta e dramaturgo do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade (1890-1954). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA 
Imagem: Sertanejo, um poema à Terra (2011), do artista plástico Antonio Cláudio Massa.
A TERRA É NATURA
(fragmento, de Patativa de Assaré)
 [...] Esta terra é como o Só / Que nasce todos os dia / Briando o grande o menó / E tudo que a terra cria. / O só quilarêa os monte, / Tombém as água das fonte, / Com sua luz amiga, / Potrege, no mesmo instante / Do grandião elefante / A pequenina formiga.
Esta terra é como a chuva, / que vai da praia a campina, / móia a casada, a viúva, / a véia, a moça, a menina. / Quando sangra o nevuêro, / pra conquista o aguacêro / ninguem vai fazê fuxico, / pois a chuva tudo cobre, / móia a tapera do pobre / e a grande casa do rico.
Esta terra é como a lua, / este foco prateado / que é do campo até a rua, / a lampa dos namorado; / mas, mesmo ao véio cacundo, / já com ar de moribundo / sem amô, sem vaidade, / esta lua cô de prata / não dêxa de sê grata; lhe manda quilaridade.
Esta terra é como o vento, / o vento que, por capricho / assopra, as vez, um momento, / brando, fazendo cuchicho, / ôtras vez, vira o capeta, / vai fazendo pirueta, / levando tudo de móio / jogando arquêro nos óio / do grande e do pequenino [...]
Veja mais aqui.

Veja mais Brincarte do Nitolino, Nélida Piñon, Akhenaton, Kitaro, Oswald de Andrade, Eurípedes, Percy Bysse Shelley, François Truffaut, Medeia, Nicolau Maquiavel, Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, Otto Lingner & Nina Kozoriz aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Brutishness, do pintor simbolista belga Fernand Khnopff (1858-1921).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

segunda-feira, maio 02, 2016

KEROUAC, FRIEDMAN, FRANCIS CURTET, YES, SCHWABE, ROPS & DROGAS



AS DROGAS & AS CAMPANHAS ANTIDROGAS - Têm-se registros de que a droga apareceu na China com as plantas da alegria e o papiro Ebers e que era usada para fins religiosos, magias e iniciações nos mistérios culticos nas diversas culturas antigas, como a chinesa, a grega, a egípcia, a romana e a árabe, há mais ou menos uns cinco mil anos. Também é de muito tempo atrás o uso dela entre as primitivas comunidades indígenas, como o é até hoje, juntamente com o uso do café, da coca e de outras substâncias por parte de algumas populações do planeta. Um dado importante foi destacado no século XVII, durante o combate à malária, suscitando o aparecimento do fumo do ópio que, a partir de então, começou a ser traficado por mercadores portugueses e ingleses, sobretudo com os registros históricos das vitórias inglesas e a luta dos imperadores chineses contra o tráfico: não podia ser permitido na China o que era proibido na Grã-Bretanha. O resultado a que se chegou o impasse nessa época é o mesmo dos tempos atuais: não se podia abrir mão dos lucros da Companhia das Índias. E assim foi. Deu-se então o surgimento da morfina em 1806, de um poderoso analgésico denominado de heroína em 1898, vindo depois os barbitúricos, a cannabis sativa, a cocaína – o ídolo universal, o alcalóide da felicidade -, o LSD-25, as pílulas do amor, o crack e o ecstasy nas ultimas décadas do século XX e todo o pocesso de drogadicção formada por opiáceos, psicoestimulantes pesados e leves, psicodepressores, alucinógrenos, solventes e inalantes. Além do tráfico, o uso foi disseminado por meio de prescrições médicas – que o diga Freud -, e as estratégias militares nas guerras – vide depoimentos dos pilotos do Enola Gay, que fizeram uso delas para terem coragem de jogar a bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, na segunda grande guerra, ou o documentário Viagem ao inferno a Edgewood. A gravidade foi detectada quando apareceram os casos de dependências psíquicas e físicas, a síndrome de abstinência, redundando no que hoje se convencionou chamar de dependência química, que tem devassado famílias e causado grandes problemas à saúde pública. O combate ao uso das substâncias psicoativas começou faz tempo e até hoje está amargando um resultado de fracasso retumbante nas suas campanhas, por conta da hipocrisia de discriminação arbitrária, da indiferença geral, das sanções excludentes, do policonsumo e das falsas premissas, simplistas e redutoras do pragmatismo esclarecido. Ninguem é tão bobo o suficiente nem precisa ser tão sabido para saber que nessa bronca há mais coisas implicadas do que possa prever nossa vã presunção. Enfrenta-se o problema como quem, num campo de batalha, só desse conta do inimigo pelo pelotão aparente no front, ignorando-se que ele também tem estratégias, recursos e um grandioso arsenal escondidíssimo. Como sempre, voltamos praquela velha questão dos chineses: quem pode enfrentar o poder econômico e os lucros advindos do tráfico das drogas? Aí eclodem campanhas só pra tapiar, chamando pela moralidade mais fajuta e com a hipocrisia mais sem-vergonha de que se deve reprimir violentamente para salvar a humanidade dessa praga. Aí se deu o impasse do discriminar e descriminar. Discrimina-se as pesadas das leves, lícitas das ilícitas, e se esqueceram do chocolate, do café, tabaco, álcool e medicamentos como os soníferos, tranquilizantes, excitantes e os estupefacientes. Ou seja, repartiram o bolo e se esqueceram do prejuízo individual, das famílias e de toda sociedade. Por outro lado, se a ONU fosse de verdade, fecharia um pacto planetário pela descriminação, com uma campanha maciça educativa de prevenção sob a perspectiva da medicina e psicologia sociais no mundo todo. Aí sim, poder-se-ia augurar êxito para enfrentar o tráfico e, ao mesmo tempo, conscientizar individual e coletivamente os malefícios das drogas. Todavia, faz-se necessário evidenciar a vetusta e repetida pergunta que não quer calar: quem vai abrir mão dos lucros do tráfico das drogas? Afora isso, pelos estudos e leituras que fiz, o problema tem que ser visualizado a partir de determinadas óticas para que não sejamos tão canhestras quanto hipócritas. A primeira ótica necessária é de que o problema envolve desde os danos causados ao Sistema Nervoso Central, como as questões da tolerância, dependência e gratificação, afora o entendimento de cada casa é um caso, não se deve generalizar. Outro ponto que merece ser levado em conta é que a dependência química é oriunda de problemas pessoais complexos, relacionais e psicoafetivos que levam à fuga diante do enfrentamento de condições aversivas inexoráveis e sofrimentos ocultos causados pelo despreparo dos pais, pela destruição das relações familiares, pelo desafeto e indiferença nas relações comunitárias, pelo individualismo possessivo transformado no umbigocentrismo das líquidas relações da hipermodernidade, promovendo a banalização do catastrofismo, da espetacularização da repressão inócua e midiática como respostas que não passam de paliativos insignificantes, desinformação, alheamento e ineficientes ações preventivas numa sociedade que se apresenta como da performance e da aparência, constatando os mais desastrosos efeitos. Esse conjunto de erros só conduz a uma fonte de confusão e equívocos. A grita pela prevenção é unânime, porém na prática só se ataca uma das múltiplas faces do problema. É preciso educação sim, sobretudo na orientação do uso de qualquer dessas substancias de forma abusiva e que seu uso não resolverá os conflitos internos de ninguém, devendo ser dito ao dependente que não basta escapar de uma realidade insuportável, criando uma distorção da realidade. É preciso entender, reitero, que cada caso é um caso e que os pais são os principais atores na prevenção e que esta precisa ser aplicada com diálogo, afeto, sorriso, tolerância e confiança diante do riso desolador, e de que se faz necessário ser amável e amar para ser amado como se deseja ser amado. Afinal, o problema do dependente não é só ele nem só dele, tem profundezas subterrâneas bastante complexas, que me levam até a constatação de que a gente já nasce drogado ou com predisposição para tal, quando por conta de qualquer mal-estar mais ou menos sério, os médicos entopem nossas mães na gravidez, afora nos certificar do uso desde o útero de diversas drogas e de que vivemos nos autodrogando a cada iniciativa de automedicação. É evidente que não sou o dono da verdade, muito menos uma estudiosa autoridade sobre o caso em tela, apenas um simples beletrista pesquisador cidadão que busca a verdade. Por conta disso, dou minha contribuição honesta metendo o meu bedelho sobre o assunto. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte do pintor simbolista alemão Carlos Schwabe (1866-1926).

Curtindo o álbum Tales from Topographic Oceans (Atlantic Records, 1973), da banda britânica de rock progressivo Yes, formada Jon Anderson (vocal), Chris Squire (baixo), Rick Wakeman (teclados), Steve Hove (guitarra) & Alan White (bateria). Veja mais aqui e aqui.

PESQUISA
A droga é só um pretexto (Loyola, 2005), do médico, psiquiatra clínico, perito de tribunais e especialista em problemas ligados à droga, Francis Curtet. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE
“As drogas são uma tragédia para os toxicômanos. Mas a criminalização de seu uso foi desastrosa para a sociedade, para os usuários e os não-usuários. Se as drogas tivessem sido legalizadas há dezessete anos, o crack jamais teria sido produzido – os elevados custos das drogas ilegais fizeram da produção do crack um negócio rentável, por se tratar de uma droga mais barata -, e hoje haveria bem menos viciados, um contingente menor de pessoas estaria encarcerado e menos presídios teriam sido construídos”, do economista, estatístico, escritor estadunidense, Prêmio Nobel de Economia de 1976, Milton Friedman (1912-2006).

LEITURA 
On the road (Pé na estrada – Cultural, 1986), do escritor estadunidense Jack Kerouac (1922-1969). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Como já dizia o cientista espanhol especialista em Bioética, Javier Gafo Fernández (1936-2001), O grau de satisfação do indíviduo depende de sua capacidade de consumo. Ou seja, a felicidade hoje está reduzida à capacidade de consumir cada vez mais e, como nem todo mundo tem condições de acompanhar as descartáveis e constantes novidades tecnológicas, muito menos tem acesso a esse consumo desenfreado, sentem-se todos profundamente insatisfeitos e frustrados. Uma bronca da porra! É como eu digo: ou pra nossa infelicidade tudo está com preço conforme as nossas impossibilidades de compra, ou a gente deve adotar uma conduta consumerista. Vou na segunda.

Veja mais Antonio Carlos Nóbrega, Darel Valença Lins Aristóteles, John Donne, Henrik Ibsen, Marquês de Sade, Luis Buñuel, Hieronymus Bosch & Marilene Alagia Azevedo aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
La Tentation de saint Antoine (desenho em pastel, 1878), do pintor, desenhista, ilustrador e gravador belga Félicien Rops (1833-1898).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

domingo, maio 01, 2016

GANDHI, HESÍODO, TARSILA, MILTON & CHICO, TRABALHO & PRIMEIRO DE MAIO

PRIMEIRO DE MAIO - O melhor dia de trabalho é o primeiro de maio porque é feriado, isso quando não cai num dia de domingo, senão é mesmo que nada, ora. Afora esse dia, só os finais de semana que são denominados de repouso remunerado, ou as férias remuneradas. Tá bom. O resto é tudo dia de branco: maior trampo. Posso estar redondamente enganado, mas isso não faz a menor diferença. Isso é só pra dar um pontapé nesse papo, manifestando minha insatisfação com a usual conceituação do labor humano numa ótica convencional do processo industrial e capitalista. Fugindo do reducionismo de que o trabalho é apenas uma atividade que produz algo para outras pessoas, e de que é a atividade que dignifica ou de que Deus ajuda a quem madruga trabalhando, há também quem diga que ele serve para aquisição do domínio sobre si mesmo e adquirir sentimento de valor pessoal mediante a avaliação dos outros sobre os seus resultados, o que dá no mesmo. O que quero ressaltar é que o homem começou a trabalhar pela primeira vez quando lhe deu fome: ou caçava, ou morria. Precisando sobreviver, saiu explorando o espaço ao seu redor, a natureza. Depois de encher a pança, a sesta. Cansado de coçar o saco, investiu na desbravação do ambiente, foi aí que aprendeu a usar de madeiras e ossos, a lascar a pedra, a dominar o fogo e a cerâmica, a criar animais, a cultivar plantas, a inventar a roda e a fundir os metais na criação de armas rudimentares pra caça. Com isso, foram se sobrassaindo os mais sabidos e os mais fortes: uns sabidos passaram a governar, outros a filosofar, enquanto os que não eram lá tão bem providos das ideias, usavam da força. Apareceram, então, os dois lados da moeda: as histórias dos gloriosos trabalhos de Hércules e os inglórios de Sísifo, contadas por Homero e Hesíodo. E assim foi desde então, nascendo o primeiro ditado de que trabalha o feio pro bonito comer e que, depois, virou o da faina de mouro quem desfruta é o esperto, estes os manhosos que se prestam a dar continuidade ao trabalho das parcas: Cloto segurava a roca, Láquesis virava o fuso e Átropos em seguida cortava o fio, tudo isso porque as deusas infernais viviam de tecer a trama humana. Huuummmmm. Entendeu? No meio disso, dizem, havia também os que trabalhavam pro bispo: sem lucro, sem glória ou proveito. Eita! Tudo isso dando conta de como a evolução do trabalho foi da escravidão até os dias de hoje, nos quais quem gosta de trabalho é workaholic – ou melhor, quem é viciado em trabalho, trabalhador compulsivo e dependente do trabalho. Alguns poucos deles são multimilionários: estão a serviço de quem? Outros, uns tantos como eu, trabalham porque fazem o que gostam e só por isso. Outros muitos tantos possuem emprego: gozam das benesses da boa vida no reino da incompetência e ganham sem fazer nada, só ocupando os outros e dando trabalho à humanidade com a disfuncionalidade da burocracia, pois adoram dar nó cego e ver os outros pra lá e pra cá fazendo papel de bestas. Mais outros tantos trabalham apenas para ter o seu sustento, andar na moda e usufruir do status de estar empregado, exercendo o “estar” na profissão sem ter a menor vocação e não ter nada a ver com a mesma. Outrantos vivem pendurados nas circunstâncias: não levam desaforo pra casa, não se submetem à hierarquia e pintam o sete pro que der e vier, lícita ou ilicitamente se virando como podem pra defender as gambiarras do seu sustento e o que é seu. Muitoutrantos fazem o que podem com o que tiveram de oportunidades de qualificação ou semiqualificação ou mesmo diplomação que esconde a desqualificação, para serem digeridos pela meritocracia da colocação no cumprimento rígido de procedimentos e dos manuais internos, evitando-se o batalhão de reserva dos excluídos: outros fabos incompetentes. E por aí lá vai teibei. Pelo que posso ter de ideia, dos que possuem empregos majestosos aos que exercem suas profissões, sejam elas das mais humildes às mais chiques, ninguém está feliz com o que faz e com o quanto que ganha, excetuando-se, evidemente, aqueles que fazem o que gostam, reitero. Injustiças sempre vigoram e não é difícil encontrar um médico choramingando, ou um advogado se lamentando ou um engenheiro apertado: todos falam que trabalham demais para ter o que possuem ou para adquirir o que precisam. E que tudo tem o preço da impossibilidade de compra, exigindo-se aquela valsa de meses na aquição. O que quero mesmo levar em conta é que na vida, ou a gente está dormindo, ou trabalhando – óbvio que tem gente que faz outras tantas coisas, mas que aqui não vem ao caso. Ou seja, no dia a dia de uma penca de anos ou a vida toda, a gente está correndo atrás, se cansa e vai dormir; quando acorda, pé na bunda pra labuta, uns feito cantiga de grilo de domingo a domingo, a maioria de segunda a sexta, outros que vão até depois do meio dia de sábado, afora outro bocado de finórios que nem sabe o que é isso e que só dão o ar da graça um dia, dois ou mais por semana. Em suma: a gente vive pra trabalhar e vice-versa. Há o ditado de quem trabalha enrica - isso num país sério, até pode ser; porque aqui, só se amonta no bufunfa quem tem atributos corporais de chamar atenção, ou o sabido que sabe levar o que é dos outros, ou quem vive com dedo pronto pra rapar no gatilho e tomar o que é alheio. Pronto. Eu mesmo trabalho desde os dez anos de idade e nunca saí do lugar, pudera, nunca fiz nada que prestasse mesmo. Taí outro ditado: a ocupação laboral traz recompensas econômicas que determinam o padrão de vida e status social de cada um. Tradução: é mesmo? Parece. Mas quem trabalha de mesmo, veste a camisa na maior pilha, dá o sangue a ponto de se lascar todo, acabar com a saúde e findar da caridade alheia: inútil e chacoalhado de não valer um tostão furado. E quem comeu o vigor da gente, como é que fica? Eu hem!?! Como não estou dizendo coisa coisa, nem sou de reclamar, vou na do Hino Nacional “deitado eternamente em berço esplêndido”, entoando a Filosofia do Ascenso: Hora de comer, comer; hora de dormir, dormir; hora de vadiar, vadiar. Hora de trabalhar: pernas pro ar que ninguém é de ferro! Principalmente porque é Dia do Trabalho e, ainda por cima, é domingo, ora. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

 Imagem: Segunda classe (1933), da pintora brasileira Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui.

PRIMEIRO DE MAIO 
(Milton Nascimento & Chico Buarque)

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã.

PESQUISA
 Adam Smith (1723-1790), fudador da escola liberal clássica: O trabalho é a verdadeira e única fonte da riqueza das nações, pois os produtos, industriais ou agrícolas, são obtidos pelo esforço humano, que se torna sempre mais eficiente pela especialização. Agindo de acordo com seus interesses, o homem é conduzido, por mão invisível, ao desenvolvimento do bem comum.
David Ricardo (1772-1823), economista e político britânico: A base de todo o valor econômico é o trabalho-valor. O valor de troca de uma mercadoria é calculado pela quantidade de trabalho empregado na fabricação do produto. As máquinas têm como objetivo diminuir o valor de troca do produto. As máquinas também são trabalho humano acumulado.
Kark Marx (1818-1883), filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista: Não é o trabalho em si que interessa ao capitalista, mas a mercadoria, não por seu valor de uso, mas por seu valor de troca. Se o capital conseguir produzir, em certo período de tempo, com duas máquinas o equivalente em produtos ao que cinquenta operários conseguiriam, ele ficará com as duas máquinas. Ao capitalista interessa baixar os preços de custo do produto, para acumular mais capital. Para isso, só lhe resta uma saída: diminuir o custo do trabalho. Isso pode ser conseguido diminuindo os salários, ou, ainda, substituindo o trabalho humano pela máquina, cada vez mais aperfeiçoada. O fruto do lucro no capital é um trabalho humano não pago: se o trabalhador consegue o que precisa em seis das oito horas que trabalha, as duas horas restantes ele trabalha para manter o capital e garantir que se reproduza, o capital assim obtido é a mais-valia.
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

EPÍGRAFE
Os sete pecados sociais, do advogado, idealizador e fundador do moderno Estado indiano, Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), o grande Mahatma Gandhi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Os trabalhos e os dias (Hedra, 2013), poema épico do poeta oral grego Hesíodo (cerca de 750-650aC). Veja mais aquiaqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Para quem tá naquela da fábula de Esopo - de que a formiga só trabalha porque não sabe cantar -, no dia mundial do trabalhador, como toda formiga que se preze, ela comemora o Dia da Literatura Brasileira. Cuma? Eita! E quem quer saber disso? Pois é, uma data dessa só prova que a literatura do Brasil só serve pra estrangeiro ver.

Veja mais Salmo da Cana, o Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, Auguste Rodin, Chico Buarque, Peisândro de Rodes, Monteiro Lobato, Hércules, Hesíodo, Émile Zola, Vinicius de Moraes, Cândido Portinari, Jorge Luis Borges, Nelson Rodrigues, Charlie Chaplin, Magda Mraz & Darlene Glória aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
1º de Maio, Dia do Trabalhador: comemoração da secretária do Tataritaritatá!
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...