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segunda-feira, maio 01, 2017

OS NEGROS DE ARTHUR RAMOS, GLAUCE ROCHA, AS SINFONIAS DE MAHLER & COR DA PELE

COR DA PELE – Imagem: Negro+Globo, art by Luiz Philippe. - Sou filho da Terra, de qualquer lugar, qualquer cor da pele, a minha escura do lar invadido, cassado como as feras do deserto e das savanas, arrancado do chão com a expulsão da liberdade no conferido dos dentes, para ser sacudido no porão da desgraça flutuante das águas atlânticas, o balanço do mar e a degeneração humana. Na terra distante do outro lado, a escravidão do sangue no terreiro adubando a terra do canavial para adoçar a vida dos colonizadores e traficantes da corte e dos nobres do deus cristão. Qualquer iniciativa as chibatadas no lombo em carne viva no tronco dos suplícios, quase morto-vivo a valer do querosene da candeia por alimento na noite escura da senzala, enquanto as mulheres tratadas como cães domesticados pra serviçais mucamas da luxúria do senhor, tornam-se mães santas estupradas fabricando mulatos como eu e todos os filhos dos prazeres escusos do senhor, na negritude das fogosas irmãs tratadas igualmente as índias de Pindorama na brasilidade dos condenados e a fuga de todos com mamelucos e cafuzos pros quilombos dos sonhos Zumbi. Quando muito nenhuma alforria, mata fechada e a captura pra surra, cuspe, asco, desprezo e a vida como se o dia não tivesse a noite, como se o teto não soubesse o chão, como se a lua não reconhecesse o Sol, como se a luz não tivesse a escuridão, como se viver não valesse nada e o trabalho fosse só escravidão. Ah, todas as cores no preto e no branco, todos os tons e sustenidos ou bemóis que formam o acorde na harmonia do universo, não havendo sobre nem sob, nem sub, nem super, nem superior ou inferior, nem maior ou menor, assim como em cima é embaixo. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

OS NEGROS DE ARTHUR RAMOS
[...] a abolição da escravatura nas várias partes de Toda-a-América não havia libertado o Negro da pesada cadeia de preconceitos seculares. A sua alma continuava presa aos grilhões do seu complexo de inferioridade coletivo. E a "cintura negra", a "color line" cingia a pobre raça num círculo constritivo mais forte do que os "colares de ferro", o "tronco", o "anjinho" e outros instrumentos de suplício da escravidão. Isso que, no Brasil, era apenas sentido como um constrangimento psíquico, interno, sem coação exterior, na América do Norte era a expressão flagrante de uma realidade palpável. [...] É assim que, depois de sua viagem à América do Norte, se expressou C. G. Jung, o grande psicanalista suíço dissidente: "O que logo me feriu a atenção foi a grande influência dos negros, influência psicológica sem mistura de sangue [...] Mas, no conjunto, a influência do negro sobre o caráter geral do povo é inegável".[...]. Como para a América do Norte, como para as Antilhas, o negro foi introduzido no Brasil para mão de obra, nas plantações de açúcar e algodão, cacau e café, nas zonas agrícolas de Pernambuco, Bahia e Rio, a princípio, depois Maranhão e estados limítrofes, e por fim nas zonas centrais de mineração. [...] Estudando as representações coletivas das classes atrasadas da população brasileira, no setor religioso, não endosso absolutamente, como várias vezes tenho repetido, os postulados de inferioridade do negro e da sua incapacidade de civilização. Essas representações coletivas existem em qualquer grupo social atrasado em cultura. É uma conseqüência do pensamento mágico e pré-lógico, independentes da questão antropológico-racial, porque podem surgir em outras condições e em qualquer grupo étnico nas aglomerações atrasadas em cultura, classes pobres das sociedades, crianças, adultos nevrosados, no sonho, na arte, em determinadas condições de regressão psíquica... Esses conceitos de "primitivo", de "arcaico", são puramente psicológicos e nada têm a ver com a questão da inferioridade racial. Assim, para a obra da educação e da cultura, é preciso conhecer essas modalidades do pensamento "primitivo", para corrigi-lo, elevando-o a etapas mais adiantadas, o que só será conseguido por uma revolução educacional que aja em profundidade, uma revolução "vertical" e "intersticial" que desça aos degraus remotos do inconsciente coletivo e solte as amarras pré-lógicas a que se acha acorrentado.
Trechos da obra O negro brasileiro: etnografia religiosa e psicanálise (Civilização Brasileira, 1934), do médico psiquiatra, psicólogo social, etnólogo, folclorista e antropólogo Arthur Ramos (1903-1949). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

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Primeiro de maio, Os sete pecados sociais de Mahatma Gandhi, O trabalho e os dias de Hesíodo, o pensamento de Karl Marx, Adam Smith & David Ricardo, a pintura de Tarsila do Amaral, a música de Chico Buarque & Milton Nascimento, Esopo & o Dia da Literatura Brasileira aqui.

E mais:
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O trabalho: escravidão, subordinação e desemprego aqui.
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Damaianti, A sede dos deuses de Anatole France, Manifesto dadaísta de Tristan Tzara, O grande ditador de Charlie Chaplin, O Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, a pintura de Henri Fantin-Latour, a música de Edson Natale & Tons & Sons aqui.
Recomeçar do que vai e vem, A arte da poesia de Ezra Pound, Trajetória da juventude de Miriam Abramovay, Carta ao poeta de Rui Knopfli, a pintura de Aleksandr Gerasimov, a música de Tanita Tikaram, a arte de Annette Kellerman & Luciah Lopez aqui.
Direitos de toda mulher, A gravidade e a graça de Simone Weil, Declaração dos direitos da mulher de Olympe de Gouges, a poesia de Magdalena Isabel Monteiro, a pintura de Jose Higuera, a música do Quarteto Radamés Gnattali, a escultura de Bruno Giorgi & a fotografia de Arne Jakobsen aqui.
Minha nossa, quanta poluição, A teia da vida de Fritjof Capra, a poesia de António Gedeão, Máquinas e seres vivos de Humberto Maturana & Francisco Varela, a pintura de Patricia Awapara, a música de Sarah Brightman, a fotografia de Stefan Kuhn & a arte de Kézia Talisin aqui.
Tudo é Brasil, A colonização do imaginário de Serge Gruzinski, a literatura de Hermilo Borba Filho, Literalmente de Pasquale Cipro Neto, a escultura de Emilio Fiaschi, a música de Jamiroquai & a fotografia de Jennifer Nehrbass aqui.
E lá vou eu noutras voltas, Variações do corpo de Michel Serres, a literatura de Antonio Tabucchi & Vianna Moog, a música de Mundo Livre S/A & Ataulfo Alves, a pintura de Aja-ann Trier, a fotografia de Raoul Hausmann & a arte de Matthew Guarnaccia aqui.
As mulheres mandam ver nas olimpíadas & a arte de Hubert B. W. Ru aqui.
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GLAUCE ROCHA: "OLHA, O SENHOR ME DÁ LICENÇA DE ACREDITAR NA NATUREZA HUMANA?".
Frase da atriz de teatro, cinema e televisão Glauce Rocha (1930-1971), quando da proibição do filme Rio, 40 graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos. Ela começou atuando no cinema, numa trajetória que começou com Aviso ao navegantes (1950), Aventura no Rio (1952), Com o diabo no corpo (1952), Ruas sem Sol (1954), Rio, 40 graus (1955), O noivo da girafa (1957), Traficantes do crime (1958), É um caso de polícia (1959), Mulheres e milhões (1961), Cinco vezes favela (1962), Os cafajestes (1962), Quatro mulheres para um herói (1962), Sol sobre a lama (1962), Marafa (1963), O beijo (1064), Engraçadinha depois dos trinta (1966), A derrota (1966), Terra em transe (1968), Na mira do assassino (1968), Tempo de violência (1969), Incrível, fantástico, extraordinário (1969), A navalha na carne (1970), Roberto Carlos e o diamante cor de rosa (1970), O dia marcado (1970), Um homem sem importância (1971) & Cassy Jones, o magnífico sedutor (1972). No teatro ela começou com A Lição (1958), A Cantora Careca-(1958), A Beata Maria do Egito(1959), As Três Irmãs (1960), Doce Pássaro da Juventude(1960), Terror e Miséria no III Reich (1963), Electra (1965), Perto do Coração Selvagem (1965), Amor por Anexis (1967), A Agonia do Rei (1968), Um Uísque Para o Rei Saul (1968- Prêmio Moliére de melhor Atriz), O Exercício (1969) e, encerrando a carreira, com Uma Ponte Sobre O Pântano (1971). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: As sinfonias (Deutsche Grammophon, 2010), do maestro e compositor checo-austríaco Gustav Mahler (1860-1911), sob a regência do maestro Leonard Bernstein & Royal Concertgebouw Orchestra, Westminster Choir & New York Philarmonic.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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segunda-feira, junho 20, 2016

SUAD AMIRY, ARTHUR RAMOS, ROGER BACON, NAÇÃO ZUMBI, JIDDU SALDANHA, HANS RICHTER, RIBEMONT-DESSAIGNES & TRANSHUMANCE

APRENDENDO NO COMPASSO DA VIDA – (Imagem: acervo LAM) - Quando minha mãe soube o que eu queria ser quando crescesse, quase teve um troço. A professora, amiga íntima dela, logo depôs: - Viu o que seu filho quer ser quando crescer? Um médico? Não, poeta. Oxe, minha mãe pôs uma mão sobre o seio, outra sobre a cabeça e quase cai dura de raiva: - Isso é lá profissão que se preze!?! A professora, coitada de inocência, não sabia que minha mãe ia ter aquela reação. Arrependeu-se de ter contado, tentando corrigir o meu desplante. – Não, mulher, isso é lá coisa que se diga! Ele só tem quatro anos, é uma criança. Mas é de criança que a gente corrige pra não ficar torto de vez. E como ela sonhava me ver médico, pôs-se, então, na empreitada, esquecendo-se que eu não tinha a menor condição de sê-lo, vez que desmaiava até na hora da vacina. Aí, com do meu pai chegou de noite em casa, ela logo colocou por desaforo: - Viu o que seu filho quer ser quando crescer? Um advogado? Não, uma porcaria de poeta, como se isso valesse alguma coisa na vida. Meu pai riu-se da minha asneira, todavia, ficou um tanto contrafeito com a indignação dela, vez que ele, vez por outra, cometia umas sonetadas caprichadas nas reuniões sociais. Ele era mesmo achegado a um violão, copo de cerveja e rodas de amigo a largar redondilhas, decassílabos e alexandrinos, soltando pilhérias com motes glosados em quadrões, toadas e martelos. De modo que não seria de bom alvitre ter minha mãe repudiando coisa tão séria levada por ele, sabedor que se o sujeito não tivesse uma profissão de verdade, nunca passaria de um poetastro de água doce. Com o tempo ele se esqueceu disso, mas minha mãe manteve em cima da risca a vigilância, me desviando a atenção proutras coisas interessantes recolhidas de enciclopédias: - Tá vendo? Isso que é decente e certo. Pensasse ela em ao menos ouvir falar de qualquer poeta, ela logo providenciava uma mudança abrupta de assunto para que eu não tivesse uma recaída. Duas vezes coitada, não sabia ela que eu andava, às escondidas, cometendo todo dia umas quadrinhas inocentes pra professora que, tanto sabedora do transtorno que causaria pra minha mãe, como filha de um poeta e dramaturgo de relevo na cidade, resolveu guardar segredo. Não demorou muito e minha mãe descobriu o meu horrendo pecado pelas mãos do bispo, ao elogiar minhas publicações no suplemento infantil do principal jornal do estado todo sábado. Ela ficou sem saber o que fazer, não se conformando que eu era uma causa perdida. Os anos se passaram e o hábito de ler enciclopédias provocados por ela, me levou a descobrir uns livros escondidos nas estantes do meu pai, sobre versificações, métricas e rimas. Lá estava eu, em casa, lendo e relendo livros de poesias e, na rua, ouvindo atento aos improvisos de sábios emboladores e repentistas. É evidente que no início da adolescência, amontado num bigodinho ralo, eu já me achava o poeta dos poetas. Cometia versos e rimas pra cima e pra baixo, a ponto de já me esgueirar a estudar também o teatro e a música. Aprendi logo a tocar violão do meu jeito e a querer representar minhas loas e petas nos palcos da vida. Leia-se querer, porque na horagá, dava um branco, eu ficava lívido e travado pela timidez. Juro que me esforçava, todavia o que saía era um dedilhado trastejado, uma voz afônica e desafinada, um horror de coisa que nem era eu mesmo. Bom, de mesmo, só embaixo do chuveiro ou trancado na acústica do meu quarto que eu dava o meu verdadeiro show. Ao dar de cara na rua, uma lástima. E o que escrevia e compunha todo esse tempo só me fizeram uma coisa: ruborizado de vergonha. Pois tive o desplante de publicar o meu primeiro livro com poemas adolescentes e que, se não fosse um poetamigo a dar uma corrigida do título ao epílogo, eu ainda hoje estaria querendo achar um buraco no chão para me socar. Indiferente a tudo isso, saí metendo bronca nos versos e asneiras. Com as lapadas da vida fui aprendendo com o que havia lido e continuava lendo, que se eu não quisesse passar mais vergonha, tinha que mudar de ramo. Findado o colegial, era a hora de eu mostrar ao que vim. Mais um equívoco: queria ser escritor e fui fazer Letras. Menos mal. Por conta de uma estratégica condução do meu pai, abandonei o Jornalismo e fui bater com as ventas no curso de Direito. Aí minha mãe que já havia perdido as esperanças de me ver o seu doutor em Medicina, reiterou: - Menos mal, realmente. Coitados dele e dela, incorrigível, eu queria mesmo era ser poeta. Foi quando aprendi a rir de mim mesmo: ô bicho besta. Aprender, não aprendera; podia até saber, apreciava por gostar. Dos trocentos e tantos poeminhas pouco relevantes, um ou outro que, diga-se lá, se salvava. Se hoje o fosse, seria bissexto: um ou outro uma vez lá na vida. Claro que tem um ou outro verso que se salve mesmo, marca de uma tirada de valor. Mas apenas versos. No cômputo geral, continuo aprendiz teimoso. Como dizia o poeta Patativa que aqui é um verso em cada galho, um poema em cada flor, vou parafraseando o poeta conterrâneo Abel Fraga: tanto poema dando sopa e eu sem colher pra tomar. E como se trata de ofício de valor, hoje folgo mais em destilar umas sapecadas prosaicas pra não perder o vício, mais por intuição e prazer que por vocação. Uma coisa é certa: incorrigível mesmo, eu sou. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: River and Hills, do artista e escritor francês associado ao movimento Dadaísta, Georges Ribemont-Dessaignes (1884-1974).

Curtindo o álbum Fome de tudo (Deckdisc, 2007), da banda Nação Zumbi.

PESQUISA
Introdução à Psicologia Social (Casa do Psicólogo, 2003), do médico psiquiatra, psicólogo social, etnólogo, folclorista e antropólogo Arthur Ramos (1903-1949), apresentando suas inclinações antropológicas de orientação psicanalítica.

LEITURA 
Sharon e minha sogra: diários de guerra de Ramallah, Palestina (Francis, 2004), premiado livro da escritora e arquiteta palestina Suad Amiry, registrando suas impressões e sentimentos durante os combates e outro lado do conflito.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Creio que a humanidade aceitará como regra axiomática o princípio pelo qual sacrifiquei a minha vida – o direito de investigar. É esse o credo dos homens livres – a oportunidade de ensaiar, o privilégio de errar, a coragem de tornar a experimentar. Nós, os cientistas do espírito humano, havemos de experimentar, experimentar, experimentar sempre. Através de séculos de tentativas e erros, através de angustiosa dificuldades... experimentos com leis e costumes, com sistemas monetários e governos, até podermos traçar o caminho verdadeiro – até encontrarmos a majestade da nossa órbita como, acima de nós, os planetas encontraram a sua... e então, por fim, nos moveremos juntos na harmonia das nossas esferas, sob o grande impulso de uma criação única – uma unidade, um sistema, um desígnio.
Trecho do pensamento do filósofo inglês empirista Roger Bacon (1214-1294), o Doctor Mirabilis.

IMAGEM DO DIA 
A arte do professor de teatro, diretor, produtor, publicitário, mímico e escritor Jiddu Saldanha.

Veja mais sobre o Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura, Terry Eagleton, Osamu Dazai, Hermilo Borba Filho, Silvia Pontual, Léon Bonnat, Jacques Offenbach, Jean-Paul Rappeneau, Kim Roberti & Isabelle Adjani aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, artista gráfico, filme-pesquisador e produtor alemão Hans Richter (1888-1976).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Imagem: Transhumance, Design for Peace.
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...