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terça-feira, junho 07, 2016

GINA BIVER, EIKO OJALA, SOFAN CHAN, ARACAJU, RUDSON COSTA, POESIA ERÓTICA, CORRUPÇÃO & HISTÓRIA DO DIREITO


LUGOME, SUA FAMILIA, SEU INFORTÚNIO - (Imagem: Happy Family, da pintora australiana nascida em Hong Kong, Sofan Chan) – Alguns anos atrás apareceu pelas bandas de Alagoinhanduba, um certo cidadão que atendia pela graça de Lugome. Este senhor pretendia alugar imóveis para residência e negócio, com o fito de ali se estabelecer. Poucos dias depois adquiriu uma casa pro seu lar e alugou uma loja, na qual passou a atuar no ramo de farmácia. Poucos dias mais, o empreendimento fora igaugurado e logo se conheceu sua esposa e filhos, que eram seus funcionários. Por sinal, uma bela esposa e uma formosíssima filha adolescente. Por se tratar de gente boa praça, logo apareceram os fregueses e, com eles, convites para Maçonaria, Lions, Rotary, Legião da Boa Vontade, tornando-se ao cabo de poucos meses depois, paraninfo de turmas escolares e figura carimbada nos mais diversos eventos e efemérides dali. Durante a semana ele se dividia no atendimento da clientela no expediente laboral e, à noite, ao convívio caseiro quando não havia reuniões regulares da loja maçônica, sempre as segundas, e dos clubes de serviço, entidades religiosas e outras instituições das quais fazia parte, nos demais dias. No sábado o expediente se estendia até alta noite, quando fechava o estabelecimento e rumava para o restaurante com familiares. Como não tinham ali parentes, amigos ou aderentes, no domingo saíam para passear pela redondeza, conhecendo as paragens da região: praias, balneários, locais pitorescos. Lugome sempre fora um sujeito de casa para o trabalho. Aliás, ele e sua esposa Editilda, eram tidos como o casal padrão, sempre junto dos filhos Júnior e a mais que graciosa Dilinha. Diga-se de passagem, eram pessoas simpáticas, bem vistosas, destacando-se a beleza de mãe e filha, juntas pareciam mais irmãs. Não havia quem não passasse um rabo de olho de admiração para elas quando iam ou vinham nas calçadas. A mãe, diplomada em Pedagogia, tornara-se, também professora em escolas particulares e, depois de prestar concurso, ministrava aulas em escolas públicas. Os filhos estavam no curso secundário da melhor escola particular dali, andavam sempre juntos, poucas amizades e conversas com a população. O pai por ser comerciante era o porta-voz e o mais enturmado, enquanto a mãe se reduzia às relações com outras professoras, pais e alunos. Viviam na deles e só entre eles, nunca se sabendo de compadrios e amizades íntimas. Mais de dez anos, quase quinze por certo, já tidos como da sociedade local, de repente, fizeram as malas e arribaram da noite pro dia de domingo pra segunda, sem despedidas nem acenos. O que houvera? Ano passado topei com ele em um aeroporto do sul do país. Esperávamos a aeronave juntos, embora com destinos diversos: ele ficaria na primeira escala do voo dali pro sudeste e eu seguiria adiante até o nordeste. Enquanto aguardávamos o embarque, trocamos conversa, até que ele me confessou com face lívida e triste, o motivo de sua saída intempestiva de Alagoinhanduba. Você não sabe, rapaz – disse-me com tom lacrimoso bastante consternado -, fui vítima de uma situação para lá de constrangedora. Seguia num passeio domingueiro, numa manhanzinha em família, quando fulano (disse-me o nome, não me recordo, filho de um certo barão fazendeiro Rudenilio Brasilão que eu já ouvira falar), pediu-me para parar meu carro e quando o fiz, ele e os capangas da fazenda, uns doze ao todo, nos renderam, eu e minha família, escoltando-nos para um matagal perto de uma mata da bica de Xareta, em Japarandubas. Lá amarraram a mim e a meu filho, aprisionaram minha esposa e, se dizendo vingador da negativa da minha filha em aceitar-lhe o namoro, esbravejou já que ela não seria dele, não seria de mais ninguém. Furiosamente a estuprou violentamente na minha frente e aos gritos: - Vou desmoralizar você e todos da sua família, peste desgraçada. E abusou com torturas e penetrações anal, vaginal, oral, afora utilização de instrumentos pontiagudos e cilíndricos, canos de revolveres e espingardas enfiadas nas intimidades dela. Depois de satisfeito, exigiu que cada um dos capazes fizesse o mesmo com ela, enquanto ele e outros dois estupravam minha esposa, aos meus olhos e aos de meu filho, com a mesma sandice torturante. Presenciamos tudo, uma orgia de horas, sem poder gritar, armas engatilhadas na minha cabeça e na de meu filho, minha filha e esposa sofrendo com a selvageria sexual dos brutamontes. Quando as duas desmaiaram completamente ensanguentadas e nuas, eles se voltaram para mim e meu filho e nos espancaram até cairmos desacordados. Quando voltei à consciência, estava completamente cheio de dores por todas as partes do corpo, minha mulher e filha desfalecidas e meu filho desmaiado. Esforcei-me em carregá-los todos para o meu automóvel completamente danificado pela destruidora ação deles, e não sei como consegui chegar ao hospital, sermos medicados e receber alta quase de madrugada. Ao sair da emergência hospitalar não poderia fazer nada, a não ser juntar tudo que podíamos num caminhão que aluguei, carregando ali todos os móveis e estoque da farmácia para nunca mais voltar àquele lugar, nem vê a cara de mais ninguém dali. Minha mulher e filhas ainda hoje, tantos anos passados, ainda não se recuperaram por completo daquela trágica situação. Eu mesmo já não sei de mim nem de nada, aquela cena me persegue todos os dias e noites sem me deixar dormir. Vivo insone e conchilo a base de tranquilizantes. Só lhe contei tudo porque a gente não vai se vê nunca mais. Passe bem e até. Nem consegui dizer nada depois do relato, vez que ele se levantou bruscamente e rumou pro embarque. Tentei me restabelecer e seguir, já que íamos no mesmo voo. E como a aeronave estava cheia, não consegui localizá-lo nas poltronas para oferecer-lhe minha solidariedade. Resolvi deixá-lo em paz e fiquei com aquele relato repassando na minha cabeça. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte Digital papercuts do premiado designer gráfico e ilustrador estoniano Eiko Ojala.

Curtindo o álbum From Where I Sit (Independent, 2006), da compositora, professora, instrumentista multimídia & performática estadunidense Gina Biver.

PESQUISA
Fundamentos de história do direito (Del Rey, 2008), organizada pelo professor e doutor em Direito, Antonio Carlos Wolkmer, tratando sobre o direito nas sociedades primitivas, na antiguidade, na Idade Média, na modernidade e na atualidade. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Poesia erótica em tradução (Companhia das Letras, 2006), organizada pelo poeta, ensaísta, jornalista e tradutor José Paulo Paes (1926-1988), reunindo dos poetas gregos aos surrealistas, como Catulo, Ovídio, Aretino, Goethe, Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Apollinaire, Neruda & Joyce Mansour, entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Em ambiente em que a corrupção predomina dificilmente se prospera um projeto para beneficiar os cidadãos, pois suas ações se perdem e se diluem na desesperança. De nada adiante uma sociedade organizada ajudar na canalização de esforços e recursos para projetos sociais, culturais ou de desenvolvimento de uma cidade, se as autoridades municipais, responsáveis por esses projetos, se dedicam ao desvio do dinheiro público.
Trecho recolhido da obra O combate à corrupção nas prefeituras do Brasil (Ateliê, 2003), organizado por Antoninho Marmo Trevisan, Antonio Chizzotti, João Alberto Ianhez, José Chizzotti e Josmar Verillo.Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Sou da laia do mar de Aracaju,
Eu sou azul nas raias de lá, sou Atalaia Velha. (LAM)
Aracaju, da fotógrafa Luiza Machado.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Norbert Elias, Alexander Pushkin, Jean-Luc Lagarce, Luis Fernando Veríssimo, Paul Gauguin, Eduardo Camenietzki, Luiza Curvo & Flávia Alessandra aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte de Rudson Costa.
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

sexta-feira, junho 24, 2011

PAUL GREENGARD, HUGO ARGÜELLES, ARAGON, BALAGUER, ERIN GRABOSKI, LITERÓTICA & GINOFAGIA

A arte da fotógrafa estadunidense Erin Graboski.


O SABOR DA PRINCESA QUE SE FAZ SERVA NA MANHÃ -
A manhã esquentou no dia do aniversário dela. Vejo, logo, cobiço. Lá fora o sol estonteante incendeia o mundo enquanto ela imune e esguia me provocava relâmpagos de temporal. Era. Ela faceira e linda ocupada na pia manipulando a comida. No corredor da cozinha, eu, de esguelha, segurava o copo de cerveja com mirabolantes fantasias no quengo lambendo os beiços para devorá-la naquela sedução. Fiquei inquieto, dali pra sala e voltando a fitá-la sedutora em seus trajes sumários, quando ela diligentemente focada no preparo em temperar legumes, verduras e carnes, roubei-lhe a vida tascando um beijo sedento na nuca dela arrepiar-se toda. Ao meu contato ela arqueou e se debruçou sobre a bandeja de pratos, insinuando a bundinha, ajeitando as coxas com um Cupido entre as pernas, uma rendição atraente porque o corpo estava mais palpitoso, os seios insinuantes, o jeito provocante e a vida não era mais a mesma naquela hora. Estava ela cônscia que era a minha caça. E eu faminto levantando a sua saia que, obediente santa, quer ser rasgada. E ela fêmea selvagem quer que a loucura salte fora, mande ver. É por isso que remexe para cima, para baixo, de lado, trota, u-lalá! Espreguiça, estremece, o corpo vibra rosnando à porta da cozinha, os cabelos desalinhados com seu contorcionismo e eu fazendo uma devassa no meio dos seus suspiros exclamativos na promessa do gozo interminável. Ela mais rendida se faz mais solícita e estendida de bruços sobre a pia, se esfregando manhosa, dengo à flor da pele para que eu alise sua cintura, garanhando seu sexo com meus dedos firmes e ela manhando mais, sussurrando baixinho, gemendo de acordar o mundo. Era a comida e a fome. A captura. E ela indomável fazendo uma boquinha ofegante, dificultando um pouco enquanto eu achava a melhor maneira de abatê-la. E mantinha os olhos fechados, xameguenta, enquanto eu vasculhava seus sótãos e porões, seguindo a pista com meu faro obsceno, farejando suas reentrâncias. Deixa? Deixa, vai. Caçada desconcertante, ela em apuros, destronada de seu reino, eu implacável: o jogo que os dois podem jogam, o xeque-mate aprazível. Mas ela blefa, faz que não quer enquanto se esparrama no tabuleiro do meu desejo reduzida a nada com seus segredos suicidas. Via-me obrigado a cercá-la, domá-la, arremessando meu beijo sobre seus olhos, voz, gesto e corpo. Ela mais depravada pra minha montada numa tigresa que eu não queria apear nem tão cedo porque estava suspensa no meu sexo e mais se ajeitava procurando melhor penetração e virando meu tapete mágico, meu trenó. E adorava o estupro porque eu enterrava minha clava com bola e tudo pro gol que ela deslizava acolhedora, perversa, condenada e pronta pro meu fuzilamento, com o sexo em brasa, o coração agitado, a boca entreaberta, um sorriso de sol. Uma princesa que virou serva e saiu do faz-de-conta e arreou nua no meu sexo enquanto eu o mocinho, à força, gemendo poemas na sua carne, esfregando minha loucura na sua queixa que mais quer e querendo mais se gaba, tira e bota para que eu recolha sua oferenda divina, a sua oferta dadivosa, batendo o punho malvado, esmurrando a parede, sonsa e aboletada sobre a pia enquanto eu vou retalhando sua carne em postas, a comida fatiada no meu paladar e sem escapar da minha captura que ela mais puxa e preme, e sacoleja numa dança em câmara lenta, o lombo, saliências, o dia de seus anos... meus dedos e ela lambendo, chupando, Cupido entre as penas e os seus seios na minha mão e ela descalça arregalando os olhos como quem quer mais com seus pés suspensos para ser melhor penetrada, devorando o tempo na loucura efêmera e gritando: Sou sua. Sou sua! Sou suaaaa! Ah, princesa serva. Era aniversário dela. E eu com um buquê de flores nos beijos, com todo carinho do universo nos braços, toda uma guerra de gozos para explodir sua alma. Foi quando ela deitou os olhos sobre o meu braço, deliciada e desfalecida de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aquiaqui.

 


DITOS & DESDITOS - Tenho certeza de que nossos cérebros estão trabalhando inconscientemente. Quando você tem um pensamento criativo, são partes do cérebro conversando entre si sem que você perceba. Tenho muita confiança nas minhas realizações. Estou sempre tentando provar que não sou a criança inútil que dizem que sou. Não queria passar minha vida contribuindo para o desenvolvimento de mais armamentos atômicos. Pensamento do neurocientista estadunidense Paul Greengard (1925-2019).

 

ALGUÉM FALOU: Diante da possibilidade de morrer quando meu apêndice estourou, eles me operaram bem na hora, mas me deram três paradas cardíacas. Por fim acreditaram que eu estava morto e até separaram a capela de Gayoso. Eu estava no outro mundo, fascinado, em repouso total e desfrutando de um estado de luz e paz que nunca havia sentido. Eu sabia que era a morte e reagi. Desde então, tenho visto a morte como uma parceira de vida. Pensamento do escritor e dramaturgo mexicano Hugo Argüelles (1932-2003).

 

DA VIDA - A vida é um viajante que deixa a sua capa arrastar atrás de si, para que lhe apague o sinal dos passos. Reinventei o passado para ver a beleza do futuro. A literatura é um assunto sério para um país, pois é afinal de contas o seu rosto. Pensamento do escritor francês Louis Aragon (1897-1982). Veja mais aqui e aqui.

 

BALADA CATALANA - Arrebatada paixão ardia /na alma do jovem; /exceção dela nada existia /no mundo para ele. / - Aquilo que se enquadre em teus caprichos / disse à amada - o farei. / Se as jóias de minha mãe / me pedires, te as darei! / E ela, infame como bela, / disse com horrendo prazer: / - Suas jóias? É muito pouco! / Eu quero é o coração! / Em fogo impuro ele ardendo / até sua mãe correu /e, de imediato, o peito abrindo, /o coração lhe arrancou. / Com tanta pressa volvia / que tropeçando na via, / tombou no solo a rodar. / E brotou uma voz suave / do coração materno / ao ingrato perguntando: / - Filho, não te hás machucado? Poema do poeta espanhol Víctor Balaguer (1824-1901).

 


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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(Arte by Ísis Nefelibata)
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...