Sexta-feira, Setembro 24, 2010

IGREJA BIDIÔNICA DO FINAL DOS TEMPOS



Imagem: http://www.goya.pro.br/

IGREJA BIDIÔNICA DO FINAL DOS TEMPOS – REVELATUM, A HIEROFANIA: Era uma manhã ensolarada de terça-feira de junho de um ano lá de não sei quando, quando ele, o então menino sapeca e treloso estava todo engomado do gogó à braguilha, atacado de todos os botões nas casas da gola aos punhos, e alinhado num vinco da cintura aos pés engraxados da botina e roupas domingueiras, tudo isso na brancura do tecido para a primeira comunhão. Estava impando de satisfação. Eita! Uma alegria incontida. Logo organizou-se a fila e lá ele com seus pares para o momento de sua introdução eclesiástica. Era o sonho dele. De já coroinha, era sempre levado por fantasias de ser o maioral da paróquia, efetuando batizados, casamentos, exorcismos, extrema-unção, cumprindo seus deveres de pároco só para servir aos desejos de sua fé inabalável. Era. De tão convicto, sabia seu futuro: uma autoridade católica, seja padre, bispo, arcebispo, cardeal, ou até mesmo papa, quem sabe? A cada passo da caminhada, ele aumentava de grau na hierarquia. E não via limites. Agora, o único desejo dele, era comungar e receber o sacramento católico para seguir sua vida.

Quando chegou lá, na sua vez, o padre, na frente de todo mundo disse:

- Você não pode comungar porque seu pai não é casado com a sua mãe. Sai fora.

O mundo caiu. Como é?

- Bora, bora, se avie! Ainda têm muitos outros para comungar. Arreda!!!

Ele não enxergava nada, não ouvia nada, não entendia nada. Nessa hora, justo no momento mais agudo da mais repressiva humilhação, ele teve a revelação. Quem sou eu? Onde estou? Todas as interrogações levaram ao toque divino, oriundo não sei de onde. Virou lobisomem, saci-pererê, a perna cabeluda, salaminguê! Virou gente, virou bicho, vira virou. O barco, ora mar, ora rio, acolá. Teve toda verdade desvelada!




Num átimo soube de tudo. Quem era? Já estava certo. Onde estava? Ali era o templo dos fariseus, precisava libertar o mundo da mentira. Toda metamorfose fez presente, depois pietista, vuduísta, animista, manista, totemista e se envultou. Quando desencarnou, a vida desfez cinza, nada. Foi quando re-encarnou, jejuou por 99 dias e no centésimo aprendeu que o sexo é o êxtase místico de retorno ao paraíso. Teve, então, a catarse! E com a consciência quântica, lavrou o Evangelho segundo Padre Bidião para que a humanidade seja salva da mentira e possa redimir de todos os equívocos dos filhos de Caim.



Foi aí que se viu unívoco e começou a questionar o fato de que Deus não criou o mundo no dia 23 de outubro de 4004ª.C, às 9hs. Era mentira. Tanto é que debateu com Copérnico, Darwin, Freud e Nietzsche e botou todo mundo no bolso. Mais tivesse para engalobar. Até Einstein virou seu adepto. Foi aí que ele saiu para resolver a questão e desancar o criacionismo ou sobrenaturalismo: eu sou deus e deus sou eu, e não criei nada.



Colocou, então, deus no seu devido lugar: onisciente, onipotente e onipresente. Depois, foi ter com a deusa Nammu que deu à luz na Suméria ao céu e a terra. Deu-lhe uma bimbada dela gozar eternamente. Deixou-la lá absorta, foi-se. E de lá até a deusa Inanna para semear a terra: outra gozada de deixar tudo florido. Mas, teco. E assim fez entre todos os mitos indígenas e de todas as povoações primitivas, premiando sempre e, deixando prevalecer, a todo momento, só o matriarcado. Iconoclasta, voltou-se pra si mesmo e se achou desencaminhado quando esteve nos Jardins do Éden. Tudo muito lindo até no paraíso perdido, na Terra Santa, na sua caminhada. Seu passeio planetário dava conta de tudo entre as populações de Sodoma e Gomorra, uma festa! Nunca trepou tanto na vida para exorcizar seus demônios. De lá até Danares, nas margens do Ganges; indo pras torres do tempo de Kandariya Mahalev, em Khujarao; por toda dinastia Ming, até mergulhar no Pólo Norte e ter seu batismo solitário no centro da terra. Depois de consagrado a si mesmo, percorreu mais até descer num mandado-de-deus para se amasiar com a viúva Khadidja e depois presenteá-la para Maomé. E daí fez a trajetória da fuga de Meca para Medina; e visitou eunucos velhos no suntuoso refúgio de Pa Pao Shan Golf Club onde findou carregado de poderes supramundanos e teve a certidão de que ele realmente é deus e deus é ele.



O CISMA, A CONVERSÃO– Estava ele só no mundo quando se encontrou com purusa, o homem primevo, antes mesmo do de Pequim e de apascentar os antropóides e os Ramapithecus. Nessa hora ele disse: evoluirás e crescerás! Tua semana semeará a terra! Foi aí que deu, mais adiante com Adão e Eva e devolveu para eles o paraíso com a naturalidade da vida: sexo, brigas & rock´nroll. Aí tiveram muitos filhos e a coisa quase findou como Romeu e Julieta. Agora era com eles, nem se tocou, a natureza humana que se virasse.



Foi aí que dominou o fogo para dar aos deuses, ensinou o cultivo aos agricultores do neolítico, inventou a roda e esteve com Gilgamesh aprendendo a como dar trato às mulheres. De lá, praticou hábitos zoofilíacos entre os mongóis, brigou com Ghazali por causa do “Conselho para os reis”, aprendeu a tábua da árvore da consangüinidade de Isidoro, contou prostitutas no templo com Hesíodo, humilhou com putarias sábias os pecados da carne de São Jerônimo e Santo Agostinho, abominando o Penitencial Cumeano e brigando com Santo Tomaz de Aquino por causa da “Declaração sobre certas questões concernentes à ética social”, alegando que não há sacanagem maior que a lei do levirato. Isso é um vitupério! – reclamou ele, dizendo: porque toda sodomia é a maior alegria do mundo e são saudáveis as práticas de zoofilia, incesto, onanismo, aborto e parafilias outras. Cada qual que faça o que lhe aprouver, ora!



Empunhando uma estatueta de Vênus, ele seduziu as mulheres de Bushman, do Kalahari, e foi atrás da índias Carrier menstruadas nas regiões ermas. Era o seu segundo batismo. Nisso, foi ter com Ishtar na Babilonia quando colocou um peixe quente no umbigo dela. O terceiro batismo. De lá, Isis no Egito, e mais danou peiada em Madalena, Nefertiti, Cleópatra, Medéia, até desembocar entre as tríbades na ilha de Leucas quando encontrou Safo que teve uma recaída fêmea e o levou para Lesbos. Foi a sua consagração. Lá teve acesso à Tábua de Esmeralda e o Corpus Hermeticum, aprendendo a mexer com o planeta e atravessar paredes. Foi quando se tornou trimegistos e teve entre as mãos a pedra filosofal. A revelação final. Aí se encontrou numa esquina com Zaratustra e aprendeu a ficar invisível. A evolução da maestria iniciática. Achando pouco, se envolveu com harimtus e ishtaritus na Babilonia, tendo contato com a doutrina Tao, o Caminho e a Senda Suprema da Natureza: “Se, em uma noite, ele puder ter intercurso com mais de dez mulheres, tanto melhor”. U-hu!! Estava feito, lavou a jega! Ué, melhor que isso só outro disso junto com uma carrada dessa em cima. Estava no apogeu da sua evolução mística. Nisso foi conduzido por uma amante insaciável hindu pela “Arte da Câmara de Dormir”, aprendendo os mínimos detalhes do uso da Haste de Jade na Fenda Dourada e tomando afrodisíacos como a droga da galinha calva, a poção do chifre do veado, a bílis do macaco preto e Mingau de Cachorro. Virou deus e Príapo e esteve no culto dos prostitutos homens de Judá, quando botou a venta pra Grécia numa competição com Heracles, saindo vencedor ao violar duma só vez e numa mesma noite 51 virgens. Era o deus de todos os deuses. Foi daí que encontrou com Jesus Cristo e este encaminhou para as servas de Afrodite, as hetairas insaciáveis que na verdade eram adeptas do mestre Tsung-hsuan e o iniciaram nas sendas de Ishtar, a deusa do amor. Cristo o batizou finalmente, nomeando-o o maior de todos. Virou, então, promiscuo entre as dançarinas de Bagdá, gozando das delícias de mais de 3 mil concubinas nas mil e uma noites dos haréns onde aprendeu todas as canções de amor árabe. Era a glória!



Imagem: Giuliano Romano

Quando deu por si, estava praticando a Sultana Valideh entre um bocado de assanhadas do harém otomano. Nem pestanejou e já estava enrabichado com Dama Pan Chao com quem dividiu noites libidinosas com a leitura do “Livro dos Ritos” de Confúcio, até que entediado se arretou com o puritanismo das “Tábuas de Méritos e Deméritos”. Deu o fora e se envolveu com cortesãs chinesas que o levaram para Shen te-fu na sala dos Budas Joviais. Daí foi ter no menir de Kerkloas onde uma jovem casadoura se escorregava nuínha da silva aos seus passos. Agarrou e fodeu até 600 dias encarreados. Insatisfeito, foi até a fonte sagrada de Besné, em Loire-Atlantique, onde uma sacerdotisa sexy passeou sua cheba nua pela venta dele e alinhou todos os planetas. Tacada de mestre! Não demorou muito e já era a profetiza Véleda se enroscando safada com ele, escondendo tudo na sua túnica negra, sua carne branca, olhos azuis, lábios rosados, longos cabelos louros, num teitei medonho de esbaldar nas pedras-do-diabo pelo dólmen de Potangis, em Marne. Ele perdeu-se dentro dela e só se achou quando chafurdou com Otávia, irmã do imperador Augusto. Por troco, foi buliçoso nas intimidades de Julia, filha do imperador Tito. E, de lambuja, enrabou uma ornatriz ninfomaníaca que recitava a Ars Amatória de Ovidio. Na saída, uma rameira romana enredou-lhe num prazer báquico de aprender a teoria da roleta do Vaticano numa noite de esbanjar em plena vigência da lei Oppiana. Tudo era seu.



Depois disso, nem 10% de tudo que ocorreu estava pronto para ser revelado duma vez só, mas foi quando teve com o mestre Tung-hsuan, com quem teve acesso ao Kamasutra de Vatsyayana, assimilando o hindu indiano, para quem o sexo é um dever religioso. Nessa hora estava por debaixo das vestes e nudez de Pavarti, a inacessível de muitas formas, num ritual da sati, quando aprendeu todos os ritos básicos tântricos hindus e do Mahabharata, entoando o mantra “A jóia está no lótus”, para ficar uno com o Mundo do Espírito em si.



A partir daí sua odisséia não teve mais fim.



Imagem: Giuliano Romano

Só para ter uma idéia, por exemplo, foi ele quem enquanto mordia a pele duma mourisca doida de pedra, ensinava Marco Polo a navegar. Foi ele quem satisfez Heloisa nas noites solitárias depois da castração de Abelardo. Foi ele quem se lambuzou nas carnes nuas da Madame de Pompadour que lhe ensinou política. Foi ele quem, depois de uma aventura descabelada com Ema, a fez presente para Flaubert. E por aí vai. Entre tantas outras, depois de um furunfado bom numa galega de 2 metros de altura, ensinou Donizetti a como fazer o Elixir do Amor. Também depois de se enfiar noites a fio nas carnes de Carlota Corday, preparou a jovem para assassinar Marat, quando escapuliu e deu uma cobra domesticada pro Goethe. Foi por aí que teve um affair com uma adepta da Eubiose, quando esteve com São João Bosco e deu um toque para que ele antevisse a criação de Brasília, se acochando num fumo-de-Angola com uns tapas bem dado no braquearo até fugir com uma madrasta fogosa inglesa que foi bater nua enrolada num morim na ilha da Máfia, no Índico. Lá acasalou com uma negona do cabelo-mal-com-cristo, todo Mané-gostoso se banhando em maceiós até chegar na Bahia, bater bombo no xangô e se engalfinhar com uma Maria Bonita noite a dentro nas umbigadas de uis e ais, todo capaz de mamar-em-onça e ensinando sanfona a Luis Gonzaga e puxando maior rastapé até levar um lero com o ET de Varginha e de lá bater com uma frochosa mineira em Copacabana, enquanto ensinava poesia pra Chico Buarque. São só pouquíssimos exemplos, nem o,10% do tanto que se pode contar do padre Bidião, principalmente quando ele amalucou e resolveu criar o seu templo bidiônico.

OS SÍMBOLOS BIDIÔNICOS:



A instalação da igreja deu-se quando ele recebeu Ankh, a cruz ansata.



O símbolo da igreja é o santo bode Frederiko. E todos seguem o Evangelho Segundo Padre Bidião.



Amparo do Céu, columba, principal vestal e guardiã do umbral.

Confira mais:
Nitolino: Projeto Escola – Campanha Todo Dia é Dia da Criança ,
Os livros, CDs e DVDs do Nitolino
Desejo ganha FEMI 2010
TODO DIA É DIA DA MULHER
CRENÇA: PELO DIREITO DE VIVER E DEIXAR VIVER
MANUAL TCC/MONOGRAFIA
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
CANTARAU: CANÇÕES DE AMOR POR ELA
AGENDA


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Segunda-feira, Setembro 13, 2010

DORO PARA PRESIDENTE DO BRASIL!!!!



Arte: Derinha Rocha.

Doro é um menino bom.

Tirante as trapalhadas que sempre perseguiram a sua vida e fizeram dele um dos bocós Fabo mais cheios de nós pelas costas, seria um inapelável santo. Como ninguém passa incólume pela vida, ser um candidato a presidente sem projeto nenhum, não será nunca nada demais. Principalmente nesses tempos de Serra/Dilma & fichas toscas, nada que não embanane mais o nosso tresloucado processo eleitoral.

Para aparecer mais do que gosta, ele preparou a sua campanha fazendo uma previsão para todo mundo pro ano de 2010. Confira aqui.

Não satisfeito com esse despautério, inventou ele de participar do maior reality show da paróquia: o Big Shit Bôbras.

Foi quando conheceu o Padre Bidião e sua candidatura ganhou prestígio e força, principalmente por empunhar destemidamente a bandeira do Santo Bode Frederiko.

Foi daí que ele não baixou o facho e sapecou suas trelas no ar (vide: As trelas do Doro).

Deu fé que podia ir além que um palco além das ventas e danou-se a projetar suas decisões no primeiro dia do seu mandato. Um escarcéu. Foi com isso que ganhou a simpatia popular, não antes distribuir generosamente uma bebericagem a base da Teibei acompanhada do seu milagroso Mingau de Cachorro.

Agora se a campanha dele não vai de vento em popa, corre pelas beiradas e ele está certo que vai fazer um estrago dos grandes em todos os candidatos e será eleito com o apoio até dos que se engalfinham no topo das pesquisas.

- Será a maior barbada -, diz ele com a soberba dos vencedores.

Depois de tudo isso, confira o Brógui do Doro que ele abandonou desde 2006 porque ficou decepcionado com a condução política do país, mas que sendo mais um brasileiro que não desiste, ele vai à forra. Também veja o profile do infeliz no Orkut e confira a quantas anda essa presepada toda.

Confira mais:
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Sábado, Setembro 11, 2010

O SANTO BODE FREDERIKO



O SANTO BODE FREDERIKO


Luiz Alberto Machado


Tudo começou quando Reginaldito estava todo espragatado numa das mesas do bar de Joaquinzão.

Naquela de despojamento adiantado - que nem genro na casa de sogro -, estava o tal cliente todo pançudo de camisa desabotoada até o umbigo, buchão de biriteiro à mostra, braguilha com zíper a meio pau das virilhas, pernas zambetas descansando sobre a mesa e na maior folga, trovejando solicitação com aquela chata grosseria peculiar, a requerer cigarros para baforar desbragadamente, enquanto levantava implicâncias regadas a uma frenética cervejada com seus comparsas de sempre.

O dono do boteco com a cara enrugada de caretas, meio que com desdém pelo fiado que se afixaria como uma espada excalibur no peito da vampira cadernetinha de contas, com a maior má vontade colocou todo letárgico o requisitado em cima do balcão. E como o requerente pabulava muito com outros camaradas de sua laia, nem se dava conta do desleixe dele.

O maço de cigarros ficara no balcão um logo tempo.

Quando se deu conta, Reginaldito que sabia da remoeta do bodegueiro, exigiu atendimento cordial com presteza e dedicação praquele que seria um freguês dos bons, pois era a obrigação dele, ora, que entregasse na mão.

Joaquinzão, puto da vida, já optava que se ele quisesse que buscasse.

- E tome no cu! -, esbravejou o dono.

E ficou nisso.

- Dever de quem? -, cogitava o folgado.

Como ninguém arredara disso, nem mel, nem cabaça. Clima de tensão no ar para sacolejar a turma do deixa-disso.

Aí foi que o bode, figura apaziguadora de tantas malquerenças na localidade, foi até lá buscar o pedido a quem pedira.

Este fato chamou a atenção dos presentes, a ponto de Reginaldito e seus comparsas ficarem admirados com a proeza do caprino, agradecendo-lhe com um afago na cabeça.

- Esse é o Frederiko que eu conheço! Não existe garçom melhor!

Foi aí que tudo começou.

Toda alacridade dos achegados, tornaram assim o pai de chiqueiro fedorento numa azêmola para seus interesses.

Daí nasceram entrega de recados inscritos em papel para outrem distante, compras de remédio levadas por receitas obscuras à botica, cartas com juras enamoradas às preferidas, bilhetes contendo ofensas anônimas e rixas afloradas, marcação de rinhas no mormaço do meio dia, solicitações descabidas de empréstimos por velhacos a novos credores e até depósitos bancários, em espécie, o danado efetuava.

Era mesmo, gente. Isso não só eu vi, muitos testemunharam e, ainda hoje, confirmarão nos mínimos detalhes, tudo que pensem que eu inventara.

Pois é, tudo que fosse preciso bastava enrolar na barbicha do carneiro que ele levava onde quer que o necessitado suplique e o destinatário se escondesse.

Já o usavam até como correio exclusivo da cidade. Inclusive o seu melhor amigo, o Grilo carteiro, quando assolado duma priguicite aguda, se aproveitava de tal expediente ao precisar dismilinguir-se. E saía o bode entregando as correspondências uma a uma, pela cidade toda, sem sequer receber uma só reclamação de extravio ou troca de endereço.

Virou Frederiko, então, por tal diligência, o coqueluche do momento, o roliúde da situação.

O cordeiro, nosso amigo, era da raça Moxotó, com um lombo preto, de cor creme, oriundo de uma cabra de Bodocó, cidade interiorana do sertão pernambucano. Estava ele por aquelas bandas há muitos anos. Era partícipe de todas as famílias da localidade, onde todos o alimentavam, cuidavam bem dele, tudo por causa de sua serventia.

Não era fastioso, não, só andejo, invasor de cercados ou destruidor de hortas, não só se nutrindo de forrageiras comuns, de folhas de árvores e de arbustos, de frutos, de restos e até do lixo da cidade, viciando-se a comer de tudo, até a beber e fumar.

Ôxe, quando o mesmo chegava no bar do Joaquinzão, botavam logo uma tigela com aguardente ou cerveja ou vinho ou aperitivo que fosse, para ele se esbaldar. Era a paga do reconhecimento público.

Não incomodava ninguém, exceto quando, meio lá e meio cá de orelhas empinadas, avistava uma cabra Toggenburg ou uma outra Mambrina de alguns produtores da região. Vôte! Quando uma delas passava, o bicho berrava e corria atrás da faceira desaparecendo por dias. Cadê-lo? Tá molhando o biscoito, gente!

Aí vem que um dia deram de inventar um plebiscito para que a comunidade sufragasse se aceitava ou não a reeleição do prefeito.

Fora uma sugestão do próprio gabarola público, certo de confirmar suas bazófias por mais quatro anos na prefeitura.

Era um despropósito, mas era, na vera.

Não sabia ele, o edil aproveitador, ou não queria saber que, tal desplante, seria a pedra de escândalo dali. Isso porque o povo andava mordido de anos com as administrações públicas, arrombando tudo, de eleição em eleição, com a edilidade. Era uma atrás da outra e sempre enricando o bicho sabido com sua corriola, fodendo a populaça que não saía do miserê perene.

Tantas quizílias fomentaram para impetrarem muitas ações populares, instalações de requerimento de impeachment, pedidos de cassações, vuque-vuque eleitoreiro, tudo por causa dos postulantes entrarem liso na prefeitura e saírem ricos milionários ao término do mandato, com a população cada vez mais enterrada ao deus-dará.

Claro que Alagoinhanduba não seria uma exceção no Brasil, claro que não. Mas até que tentaram.

No dia aprazado o resultado explodira como uma bomba nos meios políticos.

Foi que noventa por cento da população votara pelo nome do Frederiko na condição de prefeito local na eleição vindoura.

O mais curioso de tudo é que oito por cento dos votantes se eximiram ao consignarem seus votos em branco e apenas os dois restantes se dividiram pela reeleição ou não do atual representante.

Bombástico!

Neguinho nem dormiu naquela noite com a insônia de ver seu mandato por água abaixo, mediante a preferência pelo bode na prefeitura.

Como a água estava esborrando pela borda, com certeza traria conseqüências desastrosas e com grandes animosidades, abrindo então reações as mais contrárias aos que se encontravam alojados, parece que por usucapião, no poder.

Candidatos outros da oposição ou mesmo concorrentes da situação passaram a usar o mamífero artiodáctilo ruminante como símbolo de campanha.

Frederiko nem tava aí para a puxação de saco, vez que vivia entre as comunidades mais pobres e entre os seus amigos que lhe davam o de comer dias e noites e noites e dias, regularmente.

Era fiel e isso bastava a todos.

O chefe da administração pública municipal, seus asseclas, prosélitos, claques e aproveitadores quase tiveram um colapso na hora.

Na reunião apuradora, todos ficaram de boca aberta sem piscar o olho, imobilizados com o estupendo resultado.

Estaria então toda administração comprometida.

- Isso é um vitupério! -, gritou o prefeito mais que aborrecido.

A notícia chegou à capital e as manchetes explodiram: povo prefere bode a prefeito. Bode é escolhido como candidato. Predileção popular por bode derruba prefeito.

Virou balbúrdia. Uma zona geral!

A televisão endoidou atrás dele oferecendo cachê caro para uma exclusiva, passagens aéreas, acomodações em hotel cinco estrelas, limusine e uma platéia enlouquecida no auditório. E o bode nem aí, nem se dava conta de sua popularidade, continuando, assim, ali a atender pedidos e bebericando com os seus.

Um outro desplante encolerizou o mandatário: puseram uma faixa presidencial verde-amarela no dorso dele e já o tratavam por prefeito antecipado.

Nossa, que desastre!

O escolhido que já ficava apenas em duas patas, todo garboso quando se executava o hino nacional, agora já ensaiava um bé bé bé acompanhando a letra de nossa egrégia representação musical. E seguia afinadíssimo do início ao fim, só voltando à posição de quadrúpede após o encerramento dos tons da banda marcial.

Esse fato chamou atenção até de programas televisivos nacionais, sendo inclusive convidado especial ao programa do Jô Soares para uma entrevista onde ele apresentaria sua plataforma política.

Alguns voluntários, que eram muitos, agendavam sua vida. Era uma penca de jornalistas e repórteres querendo a sua impressão sobre o fato.

Não havia programa no país inteiro que não apresentasse matéria de instante em instante sobre ele.

Até votos de solidariedade de inúmeros partidos das mais diversas regiões brasileiras abarrotavam o comitê de Frederiko.

Os animais dos zoológicos nacionais, dos parques e das reservas ecológicas do país, do Instituto Butantã, do pantanal matogrossense, da floresta amazônica e das matas sobreviventes, enviaram apoio solidário à sua candidatura.

Não foi menor a ovação quando o apresentaram como candidato a candidato para a convenção visando às eleições majoritárias de outubro e davam-no por certo unânime vencedor logo no primeiro turno em todas as pesquisas de boca de urna.

Por isso, confeccionaram bótons, crachás, bonés, camisetas, flâmulas, santinhos, folhetos, cartazes, faixas, out doors, out bus, inserções, vinhetas, impressões várias, e material fartíssimo de apoio propagandístico ao seu pleito. E mais que um chavão: o bode é a solução! Não fique com a cara de priquito, vote para prefeito no bode Frederiko. Não faça do seu voto um defeito, vote no bode para prefeito! Chega de tanto roubo, vote no bode, este é probo! Abaixo ladrão, o bode é povão! E a coisa pegou fogo, era nego arrotando CPI para apurar corrupção passiva, ativa e ineivada na prefeitura, se danando a remexer em tudo, vasculhar meandros, levantar lebre, pulga nas orelhas alheias, dúvidas, desconfianças, apontando improbidades, apropriações indébitas, malversações no erário público, averiguando abastecimento de água, inquirindo critérios no fornecimento de energia elétrica, na distribuição de lotes foreiros, nas sentenças jurídicas absolvendo facínoras, nas multas de trânsito dos guardas municipais, nos medicamentos das farmácias, nos combustíveis dos postos de gasolina, nas remarcações dos supermercados, na admissão de bóias-frias para colheita das usinas de cana-de-açúcar, nos concursos públicos para provimento de cargos, nos atendimentos das urgências hospitalares, na venda do açúcar para o exterior, na extração da Petrobrás, nas entradas e saídas dos motéis, nos buracos das vias de acesso da cidade, nas vendas de pneus e peças de veículos, na poluição do rio, no tráfico de animais e drogas e influências, na derrubada das árvores pelos dendroclastas gratuitos, na câmara de vereadores, na assistência da previdência social, no peleguismo do sindicato rural, na colônia de pescadores, na creche da Casa da Criança, no escritório da LBA, nas ligações telefônicas, no flerte de ricos sobre as virgens pobres coitadas, no Lions, no Rotary, na venda de armas indiscriminadas, nos lucros sucroalcooleiros, nas secretarias da prefeitura, na regulamentação de táxis e perueiros, nos apadrinhamentos políticos, nas contas bancárias, nas despesas do vigário, nas comissões de desenvolvimento municipal, nos reclamos populares, nas contratações de empreiteiras e construtoras, nas cirurgias médicas equivocadas, no abuso do poder dos policiais, nas dependências do Detran, nas escrituras públicas do cartório de registro de imóveis, nas contrafações públicas, na vida dos fiscais e exatores da coletoria estadual, no pente fino da Receita Federal, na concessão de emissoras de rádio, na lavagem de dinheiro em factorings escusas, nas rendas dos clássicos esportivos, nas verbas do fundo de amparo ao trabalhador, nos programas de saúde pública, na penhora de bens pela justiça do trabalho, na fuga de bandidos da delegacia, nos prêmios da loteria federal, nos fuxicos das mulheres quando vão à manicura ou cabeleireiro, na usura dos agiotas, nos cafundós de Judas, na cabeça pra baixo seis metros de inferno a dentro, nas riquezas do subsolo e lençóis freáticos, nas nuvens carregadas, nos testamentos dos defuntos enterrados, nas certidões de óbitos do cartório de Registro Civil, no cadastramento do CIC, no recenseamento do IBGE, nas contas bancárias dos fantasmas da corrupção nacional, nas máquinas registradoras dos mercadinhos, na História do Brasil, no Planalto Central, se puseram por debaixo das camas dos munícipes, pelos lençóis, pelas bicas, pelas caieiras, pelas calhas, pelos esgotos, pelas canaletas, pelos combongós, pelas infiltrações, pelas manilhas, pelas escorredeiras, pelas chaminés, fossas, brechas, frestas, canais, - ui! - buracos, furicos, - êpa! - etc, etc, etc...

- Nessa aqui não!

- O quê quié, qué encobrir safadeza, é?

- Tem boi na linha, besta!

- Quer levantar lebre? Vá pra casa da mãe, seu fidumaputa!!!

- Tudo tem que ser apurado em nome da honra de Frederiko! Vamos entregar a ele um município e um país limpos!

- Temos que limpar essa sujeira toda, né? Vixe! Num vai ter vassoura que dê vencimento!

- Deus é grande, mas o mato é maior!

- Ostente menos e faça mais!

- Quem faz mal, mal espere.

Queriam mesmo, os acochados, passar tudo a limpo, preto no branco, ou vai ou racha, ou quebra o pau ou entroncha ou lasca a pica, e usavam o Frederiko como testa de ferro, o laranja da salvação nacional.

As ameaças chegavam montadas no cavalo de Átila, devastadoras.

I-hi! É fogo na roupa, meu nego!

A cidade se tornara insone, isso devido intenções investigativas dos munícipes. E o bode angariava cada vez mais a acolhida popular.

Numa nova pesquisa realizada e ele alcançava noventa e oito por cento da preferência do eleitorado.

O município que possuía quinze mil il habitantes, segundo o senso divulgado pelo IBGE de 1975, com dois mil eleitores, já viu a proporção, né? Apenas poucos apaniguados estavam fora dessa adesão, isto é, justamente os alvos investigatórios que puxavam uma corda de siri interminável, queimando a bunda até de quem se achava absoluto inocente.

A febre tomou conta. Atocha, macacada!

A maioria avassaladora queria participar da CPI, até os trambiqueiros fizeram lobby.

Foi a maior esculhambação.

A cidade virando notícia diária nos jornais.

O prefeito foi buscar uma saída quando escarrou com raiva e se aproveitou da ocasião do aniversário do padre para entregar-lhe uma vultosa côngrua, antes que o sacerdote lhe chamasse a atenção e debandasse para as bandas dos 007s de plantão. Generosidade de usurário.

Quanta tramóia nascia então.

Até os castiçais da matriz tremiam como num terremoto.

As autoridades estavam corridas de vergonha. Quanta ignomínia? Quantos infratores? Surdos e cínicos com seus subterfúgios sofriam agora transidos de medo, totalmente desfigurados.

Os pérfidos tapiaram armando conspiração contra aquele símbolo da refrega popular.

Olhe só o tamanho da fedentina.

Às vésperas do dia da viagem de Frederiko ao sul para entrevistas em cadeia de rede nacional, reuniram todas as catrevagens e os basculhos dele num escaninho, esconderam-no assim na capital, longe, poupando-lhe qualquer atentado. Foi em vão.

Na hora de seguir para o aeroporto, a população maciça com banda de música e tudo às portas do avião, recebeu a notícia decepcionante: Frederiko fora crivado de balas numa via expressa enquanto era ovacionado na capital.

Esticou as canelas ali mesmo, na hora.

Um carro popular branco com cinco ocupantes não identificados desferiram tiros de metralhadora contra a esperança de todos.

- Salvou-se uma alma!

- O Brasil se lava com sangue de pobre inocente!

Foi um reboliço medonho acompanhado do maior chororô! Fora, então, a maior tragédia daquelas paragens. Ninguém se contentava e jurava vingança.

Meses depois fizeram construir na praça principal, apesar dos protestos dos maiorais do lugar, uma estátua em homenagem a Frederiko.

Aí o enterro voltou e a coisa cresceu mais, quanto mais gente chegava que tocasse numa das partes do bode se curava das mais diversas chagas e doenças.

A parte mais tocada era a peia, tocasse nela, tava curado. Um escândalo! Uma peia que salvava o povo do sofrimento, das doenças e dos vigaristas.

Uma romaria enorme, quantos pedinchões oriundos de norte a sul do país ali se penitenciavam buscando solução para os seus problemas, milagres até de última hora.

Já tinha nego reclamando do tanto pega-pega no cacete da imagem.

- Vão terminar gastando os milagres do caralho dele, ora!

Uma flâmula enorme fora hasteada, drapejando solta ao vento com a insígnia dele clamando por justiça.

Não faltou quem pleiteasse a canonização do bode o que gerou uma grande briga com o Vaticano.

- Ué, de que lado está a igreja católica afinal?

Não fora canonizado oficialmente, mas o povo do país inteiro trata até hoje por Santo Bode Frederiko.


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