Mostrando postagens com marcador Thomas Kuhn. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Thomas Kuhn. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, janeiro 31, 2018

CLARICE, ROSEMONDE, THOMAS KUHN, BASIL BERNSTEIN, ANTONIO MADUREIRA, MIRIAM LEMLE, ROSANA PAULINO, YARA, JULES FEIFFER & THATHI

XEMENEXEM ENCARNA QUIXOTE! -  Imagem: As filhas de Eva (2014), da artista visual Rosana Paulino. - Xemenxem despertou atordoado com a abertura das cortinas para entrada do dia e a faxina que a funcionária realizava no seu quarto. Olhos aboticados de zarolho, ele deu de cara logo com o bundão da serviçal quase na sua venta, remexendo o corpo com a varrição e nas coisas para arrumação. Boquiaberto pensava consigo: Isso é que é um desmantelo de mulher. Espichou o pescoço e conferiu dos pés à cabeça: Essa camareira é de endoidar um, vai ser gostosa assim aqui na minha cama. Como se seu pensamento falasse em voz alta, logo ela se virou: Ah, acordou, bonitão? Seu quarto já está pronto, roupa limpa e lavada na gaveta e, quando quiser, pode descer pro café da manhã. Mais arregalado ficou quando viu os seios fartos no decote, de ficar imóvel de boca aberta por um bocado de tempo. Ela então balançou as mãos às vistas dele para ver se olhos piscavam e ele lá, imobilizado pelo impacto daquele corpanzil sedutor. Ei, quer se levantar para eu arrumar a cama? Posso não, enfermeira. Como não pode? Estou em estado interessante. Como assim? Ele se encolheu abraçado nos joelhos ao peito, insistindo: Posso não! Vamos, homem, é hora do café da manhã. A tesão do mijo não deixa. Ah, safadinho, você é bonitão, vou buscar lençol e fronha enquanto você se recupera. E saiu. Ele apressou-se pro sanitário, deu uma mijada demorada, aliviando-se. De repente ela entra, invade o banheiro para pendurar a toalha, ao vê-lo indefeso protegendo os seus guardados, havia sustado a micção e estava segurando com tudo de fora. Ela passou um rabo de olho e saiu. Ufa! Foi por pouco, hem? Acalmou-se e urinou por uns dez minutos ininterruptos. Eita! A bexiga estava cheia, hem? Agora, sim, posso ir pro café da manhã. Cheirou as axilas, os braços, as mãos, os pés, a cueca, nada fedia, então foi. Desceu a escadaria e ao chegar à praça da alimentação, deparou-se com uma multidão: Isso é gente como a praga! O hotel deve ser dos bons mesmo. E desceu, entrou na fila olhando os demais hóspedes, todos de pijama como ele, escolhiam sua comida. Depois de um bom tempo, chegou sua vez: Hummmm, cuscuz, salsichas, queijo, pão, café com leite, ah, posso vir depois buscar mais? Pode. Então tá. Pegou a bandeja e dirigiu-se para a primeira mesa vazia, bateu palma, psiu e gritou: Atenção, todos! Senhoras e senhores, ladys e gentlemans! Fez-se silêncio. Ham, ham. Pra quem não me conhece - pigarreia, imposta a voz: Sou Jerry Xemenexem! Aplausos. Uma jovem levantou-se aplaudindo: Nome de artista, hem? Mais aplausos. Sim, sim, obrigado. Mais aplausos. Obrigado. Sou cantor, compositor, ator e cineasta, por enquanto, para não abusar dos meus dotes artísticos. Aplausos. Obrigado, obrigado. Estou nesse hotel para selecionar elenco pro meu próximo filme. Os interessados, comparecerem ao apartamento 37, para os testes. Obrigado, bom apetite e um bom dia para todos. Obrigado. Foi uma gritaria: Eu! Eu! Eu! Eu! Eu! Eu! Calma, minha gente, tem espaço para todos no elenco. Só a partir das 11 horas que começo os testes, daqui pra lá, comam bem e estejam prontos. Saravá! E encarou a comilança, repetindo o prato umas três vezes e só não mais pela quarta, porque um dos cozinheiros fez uma cara feia e ele resolveu recolher-se ao seu quarto. Mal se deitou, entrou uma senhora já de idade, muito simpática, risonha e acompanhada duns 15 gatos. Bom dia. Bom dia. O senhor é? Sou Jerry Xemenexem, seu criado ao dispor. Ah, nome de artista. E sou mesmo. Muito bem. O que o senhor mais gosta? Na verdade, o que mais gosto é de cantar, mas componho, filmo, atuo, faço de tudo um pouco, sou multiuso. Muito bem. E pra comer? Adoro galinha guisada, meu prato preferido. De si para si, pensou: Ah, deve ser a nutricionista, hotel dos bons mesmos. Enquanto pensava, ela falou abrindo um caderno de anotações tirado do bolso: Conte-me sua vida... aí ele debulhou que era um entre 29 irmãos, 9 da mãe dele – santa dona Zefinha, veneração genuflexa com todas as orações dos céus e da terra  -, 13 da Lurdinha e 7 da Valdinete, todos irmãos por parte de pai. Isso não é um pai, é um garanhão fodedor! Gostei do nome, quando eu comprar minha Ferrary, vou apelidá-la de garanhão fodedor. Ah, mas continuando: que dessa tuia de irmãos, 16 são fêmeas de honrar as saias – tem uma que é bem doidinha, sei não, e 4 são meninas ainda - e os demais, uns machos e outros nem tanto assim, porque 5 são franguinhos ainda, afora dois que dão sinais de desmunhecar mesmo. Como é o nome do seu pai? Zé Xemenexem, mas só o chamam de Zé Flor, não sei por que, pois ele catinga que só, não sei como elas aguentam a fedentina, mas deve ser por ser aquele que tem três maridas, coisas de apelido mesmo. Você não gosta dele? Bem, gostar de mesmo, muito não, ele é rude, trata a gente na base do tapa-olho, bofete no maluvido e dedada no furico. As meninas, também? Oxe, não escapa umazinha sequer! O prazer dele é enfiar o dedão no cu de levantar a gente pra balançar as pernas soltas no ar e depois ficar cheirando o dedo, amolegando a peia. E olhe que o dedão dele é daqueles bem engrossado, viu? É quando ele dá risadas de gargalhar. Afora isso, é todo bruto a dar lapadas, cascudos, beliscões e corretivos em quem passar por perto. E a sua mãe? Ah, a minha mãe é uma santa. E as outras duas? Ah, são de lua! Um dia de careta, dois de xingamentos e, uma vez na vida, os dentes abrem, mas não muito, logo piram e viram o diabo. Sei. O senhor tem algum problema? Tenho. Qual é? Queria ter um dinheirinho pra comprar cigarro, a senhora empresta? Ela meteu a mão no bolso do jaleco, puxou duas cédulas e entregou pra ele. Obrigado, minha senhora, sou-lhe devedor pro resto da vida. De nada. Agora descanse pro almoço, amanhã a gente se vê nessa mesma hora. Bom dia. Mal ela saiu, apareceram dois olhos na beira da porta, que se escondiam e reapareciam. Entre. Pareciam brincar. Ele levantou-se e pegou o brincalhão pelas orelhas: Diga. Eu vim pro teste do cinema. Ótimo, como é seu nome? Napoleão. Muito bem, Napoleão, o que você faz da vida? Nada. Como nada? Sou o imperador, Napoleão Bonaparte. Ah, tá. Só isso? Posso ser Dom Pedro I, quer? Não, basta ser Napoleão mesmo. Já fez cinema? Bem, fazer de mesmo, não, mas eu corria na rua e meu primo batia umas fotos pruns monóculos, quer ver? Não. Já está quase na hora do almoço, enquanto isso me conte sua vida de artista. E saíram confabulando quando uma bela jovem esbarrou nele, ao se virar ele imaginou estar diante de uma dessas atrizes excêntricas com vestes estranhas – na verdade, ela estava descalça, descabelada e enrolada nos lençóis -, tudo fazendo crer uma grande atriz. Ela esticou o pé e levantou a perna, e ele: Pés de atriz, pernas de atriz, joelhos de atriz – aí ela soltou o vestido impedindo de que ele continuasse a examinar, esticando o braço e expondo a mão, e ele: dedos de atriz, mãos de atriz, pulso de atriz, braço de atriz, até muque de atriz ela tem, está vendo Napoleão? Ela fechou os braços e ele: Cabelo de atriz, testa de atriz, bochechas de atriz, olhos de atriz, nariz de atriz, lábios de atriz e... Ela fazia biquinho pra ele e, não teve dúvidas, foi lá e deu uma bitoca nela, dele tomar um susto na hora! O que é que é isso, meu Deus? Não é uma atriz, é uma deusa, é a Dulcineia del Toboso, a dona do meu coração. Fez uma mesura cavalheiresca e, qual Dom Quixote, convidou-a pra jantar! Ela aceitou. Então vamos, deram-se os braços e Napoleão acompanhou-os como se fora Sancho Pança. Sentaram-se elegantemente e ficaram aguardando o atendimento, ninguém apareceu. Sancho, meu fiel escudeiro, procure um garçon para nos servir e diga que não atrasem com a ceia. Mas, meu mestre, ainda não é nem meio-dia? Não discuta, Sancho. Com a saída de Sancho, ela se levanta com um olhar tentador, abre o vestido e mostra-se completamente nua. Ele não resistiu e voou em cima dela, vuque-vuque ali mesmo, impado, chamego, ali deitados no chão, dela estremecer toda, gritar enloquecida até desmaiar. E ele resfolegante, inquieto no maior ajeitado, estertorando numa tremedeira braba, sentiu gozar depois de semanas e meses na secura das mãos, saçaricando em cima dela, empurrando-se, espremendo-a, cavoucar, pelejar, e no maior estupor, quedou vertiginosamente até cair duro espalhado sobre ela e ali, sobre o macio dela, rendeu-se em sono profundo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista, maestro e compositor Antonio José Madureira: Violão, Instrumentos populares do Nordeste & Rosa Armorial; a cantora, compositora, guitarrista e multi-instrumentista Thathi: Recomece, Um dia a mais & Jardim japonês; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA –[...] Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver um mundo desordenado [...] essa necessidade [...] é a “tensão essencial” implícita na pesquisa científica. [...]. as mudanças de paradigma realmente lebam os cientistas a ver o mundo definido por seus compromissos de pesquisa de uma maneira diferente. Na medida em que seu único acesso a esse mundo dá-se através do que vêem e fazem, poderemos ser tentados a dizer que, após uma revolução, os cientistas reagem a um mundo diferente. [...]. Trechos extraídos da obra A estrutura das revoluções científicas (Perspectiva, 1998), do físico e filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). Veja mais aqui.

USO DA LÍNGUA NA ESCOLA – [...] A sua missão não é a de fazwer com que os educandos abandonem o uso de sua gramática “errrada” para a substituírem pela gramática “certa”, e sim a de auxili´-alos a adquirirem, como se fora uma segunda língua, competência no uso das formas lingüísticas da norma socialmente prestigiada, à guisa de um acrescimento aos usos lingüísticos regionais e coloquiais que já domunam. A noção essencial aí é a de adequação: existem usos adequados a um dado ato de comunicação verbal, e usos que são socialmente estighmatizados quando usados fora do contexto apropriado. A comparação com as regras de uso de vestimenta é esclarecedora: assim como difere o tipo de roupa a ser usada segundo o tpo de ocasião social, também diferem segundo a ocasião social as características da linguagem apropriada. Ficam socialmente estigmatizados os falantes inadimplentes às regras tácitas do jogo, tal como as pessoas que não cumprem as convenções sociais. Trecho de Heterogeneidade dialetal: um apelo à pesquisa (Tempo Brasileiro, abr/sey, 1978), da linguista e professora Miriam Lemle. Veja mais aqui.

MONÓLOGO DE POPULAREu pensava que era pobre. Aí, disseram que eu não era pobre, eu era necessitado. Aí, disseram que era autodfesa eu me considerar necessidade, eu era deficiente. Aí, disseram que deficiente era uma péssima imagem, eu era carenta. Aí, disseram que carente era um termo inadequado. Eu era desprivilegiado. Até hoje eu não tenho um tostão, mas tenho já um grande vocabulário. Extraído de cartum do humorista, escritor, cenógrafo e cartunista estadunidense Jules Feiffer. Veja mais aqui.

MÃE & FILHO NO ÔNIBUSPrimeiro diálogo - Mãe: Segure firme, querido. Criança: Por quê? Se você não segurar, vai ser jogado para a frente e vai cair. Por quê? Porque se o ônibus parar de repente, você vai ser jogado no banco da frente. Por quê? Agora, querido, segure firme e não crie caso. Segundo diálogo - Mãe: Segure firme. Criança: Por quê? Segure firme. Por quê? Segure firme. Por quê. Você vai cair. Por quê? Eu mande você segurar firme, não mandei? Trecho da obra Estrutura social, linguagem e aprendizagem (Queiroz, 1982), do sociólogo britânico Basil Bernstein (1924-2000).

O PRIMEIRO BEIJO –[...] De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro hole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estatua fitando-o e viu que era a estatua de uma mulher e que era a boca da mulher que saia a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. E soube então que havia colado sua boca na boca da estatua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia-se intrigado: mas não é de uma mulher que sai o liquido vivificador, o liquido germinador da vida... olhou a estátua nua. Ele a havia beijado. [...] Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil. Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... Ele se tornara homem. Trechos extraídos da obra O primeiro beijo & outros contos: antologia (Ática, 1995), da escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977). Veja mais aqui e aqui.

VERSOS AO BEM AMADOSe me disseres que se pressente / o hálito sutil da borboleta / ao adejar sobre as flores; / que foi achada a sandália de cristal / que, em sua fuga, Cendrillon perdeu... / se me disseres que a poesia é prosa; / que à mulher se pode confiar segredos; / que os lírios falam; / que o azul é róseo... / se me disseres que o astro luminoso / ao vagalume rouba o seu lugar; / que o Sol não passa de uma joia rara / que a Noite usa presa em seus véus;/ se me disseres que não existe mais / uma só amora à bera das estrdas; / que as penas d’um beija-flor são mais pesadas / que as penas dum coração... / quando me falas foge a tristeza, vencida, escravizada. / Se me disseres que a Ventura existe, e que me adoras... - / Vê que absurdo, amor! / eu te crerei. Poema da poeta e atriz francêsa Rosemonde Gérard (1866-1953).

YARA: O FASCINIO IRRESTIVEL DA MULHER
Yara, linda mulher cor de jambo, de traços finos e de figura soberba, vivia passeando pelas praias do Amazonas. Gostava de banhar-se em igarapés tranqüilos e de águas claras. Os jovens seguiam para conquistar-lhe a atenção e, com a atenção, o coração. Os velhos a olhavam com olhares languidos, sabendo de antemão da impossibilidade de qualquer favor. Yara via e sentia tudo. mas se dava demasiada importância, negando-se a todos. Passva, altaneira, como se desfilasse, solitária, diante de uma multidão de admiradores.  Fazia ouvidos moucos tanto aos elogios educados de alguns quanto aos assobios atrevidos de outros. Certo dia, o sol já posto, estava a linda Yara divertindo-se inatenta nas águas corredias do igarapé que mais apreciava. O tempo corria e ela se entregava ao prazer do corpo que emergia, ainda mais fascinante, do borbulhar das águas. Eis que escutou vozes barulhentas se aproximando. Não eram de seus irmãos e irmãs da tribo. Voltando-se, viu que eram homens brancos. Falavam uma língua estranha, com sons de agressividade. Traziam botas pesadas e roupas rudes. Seus olhares eram de cobiça e não de enternecimento. Pareciam animais famintos. As vozes em sua direção se faziam ameaçadorass. Yara, feminina, tudo pressentiu. Tentou fugir. Seu corpo era escorregadio e ela ágil. Mas mãos fortes a agarraram. Eram muitas. Todas a tocavam em todas as partes. A intimidade foi ameaçada. Com violência foi jogada ao chão. as areaias, antes macias, agora pareciam espinhos. Yara foi amordaçada e imobilizada. Por fim, violada por todos, um após o outro, em fila. Yara desmaiou. Parecendo morta, foi jogada ao rio. Os homens animalizados se afastaram no escuro da mata. Fez-se noite. O Espírito das águas teve imensa pena de Yara. Acolheu seu corpo machucado. Inspirou-lhe vida e devolveu-lhe todo o esplendor de sua beleza. Mas, para que não pudesse nunca mais ser violada, transformou-a em sereia. Metade do seu corpo, a parte de cima, de mulher, fascinante, de olhos de mel e de cabelos longos luzidios. Os homens sentir-se-ão atraídos por eçla. Jogar-se-ão atrevidos e loucos às águas para agarrá-la, abraçá-la e beijá-la. Mas a outra metade do corpo, a de baixo, escondida nas águas, tem a forma de peixe. Com isso pode viver sempre nas águas como em sua casa. Conversa com os peixes grandes e pequenos, que brincam ao seu redor, beliscando-lhe inocentemente a pele cor de jambo. Mas ai daqueles que lhe quiserem fazer mal, agarrá-la com violência e arrancar-lhe o afeto. Yara os tome, firme, pelas mãos e os leva, como se estivessem enfeitiçados para as águas profundas. E nunca se ouviu dizer que alguém voltou de lá vivo.
Entraído da obra O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil (Salamandra, 2001), do escritor, teólogo e professor universitário Leonardo Boff. Imagem: Art by Yara Damian. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
Reflexões de jornada à sombra da amendoeira, o pensamento de Albert Einstein, a música de William Byrd, a pintura de Jeff Kolker & Otgo aqui.
Mulher & Solidariedade, Sêneca, Molière, a música de Joyce & Julia Crystal, a pintura de Paulo Paede, a literatura de Nilza Amaral, a poesia de Dilercy Adler, o cinema de Neil Jordan & Ruth Negga, a arte de Claudinha Cabral & A mulher medieval aqui.
Zygmunt Bauman, Filosofia & Psicologia de Ken Wilber, a literatura de Kenzaburo Oe, A música de Franz Schubert & Maria João Pires, Kate Beckinsale, a pintura de Tereza Costa Rego & Tunga aqui.
Qualidade no atendimento do serviço público aqui.
Big Shit Bôbras: o carnaval, a terceira emboança aqui.
Solidariedade aqui.
Carlo, uma elegia aqui.
O ex-mágico de Murilo Rubião aqui.
A magia do olhar de quem chega aqui.
Papa Highhirte de Oduvaldo Vianna Filho aqui.
Wilson cantarolando pé de serra, Direito & Psicologia da Saúde aqui.
A arte de Zé Linaldo, Direito, Abuso Sexual, Psicologia & Sociologia aqui.
Contratos Mercantis & Denise Dalmacchio, Fernanda Guimarães, Jussanam, Consiglia Latorre, Aline Calixto & Fátima Lacerda aqui.
Hora de chegada aqui.
Poetas do Brasil aqui, aqui e aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Rosana Paulino.
Veja mais aqui.
 

sábado, julho 18, 2015

KUHN, YEVTUSHENKO, LEILAH, ROHMER, CORBIÈRE, DEBUSSY, RIGAUD, PIAU, POLIDORO & QUASE MEIO DIA!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUASE MEIO DIA – É sexta feira. Quase meio dia na praça centenária e a criança a dormir sem vida à sombra da estátua, entre o lixo e o descaso, o sono e a fome. É quase meio dia, mas tanto faz, tanto fez, sábado ou sei lá, podia ser meia noite, ou qualquer coisa. Não há sonhos, só comer as horas esfomeadas. É julho e o frio toma conta insone no inverno. Só dá pra pregar o olho ao raiar do sol quando aquece a pele enrilhada, afagando o seu desvalor. Ontem quando desperto, nenhum sonho ou pensamento além do trocado no semáforo para comida qualquer dos restos nas lixeiras dos bares ou das casas de caras fechadas. Tanto faz, tanto fez, hoje, ontem, amanhã, anteontem, é quase meio dia. Tem é de relutar sem escolhas e encurralado na paisagem das sombras invisíveis, superpostas e efervescentes, entre os automóveis velozes, transeuntes avexados, as cores da ruína extremamente cruel, tudo desbotado no meio dos monturos, algaravias, privações, sirenes, alarmes, embaixo da ponte, ou das marquises, sem saber de nada, saber pra quê? Não há acordo ao encalço de nada: só matar a fome. Dito ou não dito, dizer ou desdizer, tanto faz; nada faz sentido, tudo é porque é no seu embotamento. É tudo descorado no repertório de gestos. A casa é a rua, o abrigo é o dia, tanto faz, tanto fez. É quase meio dia de ontem e logo adiante nem é amanhã, é o ronco da mãe no cobertor esfarrapado de folhas de jornais e papelões, ao lado da cadela prenha enganchada no gradeado da loja abandonada. É como anteontem, não há afeto em sua pouquidade, tudo já é demais da conta e nem se distingue manhã, tarde ou noite. Tudo é madrugada de sol pleno e o que importa é vencer a fome, salvar-se da morte, o resto Deus dá. Destá. É quase meio dia e a vida é matar a fome. (Quase meio dia, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

Imagem: La Menasseuse (1709), do pintor francês Hyacinthe Rigaud (1659– 1743). Veja mais aqui.

Curtindo Mélodies de Jeunesse: Aparição, Romance, Les paillons, Calmes sans le demi-jour, Regret (Ingênua, 2002), do inovador músico e compositor francês Claude Debussy (1852-1918), com a soprano francesa Sandrine Piau & e o pianista Jos van Immerseel. Veja mais aqui.

A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS – O livro A estrutura das revoluções científicas (Perspectiva, 1998), do filósofo e físico estadunidense Thomas Samuel Kuhn (1922-1996), aborda temas como o papel da história, a natureza da ciência normal, resolução de quebra-cabeças, prioridade dos paradigmas, anomalia e a emergência das descobertas científicas, as crises e a emergência da natureza, necessidade das revoluções científicas, as revoluções como mudanças de concepção de mundo, a invisibilidade e a resolução das revoluções, os paradigmas e a estrutura da comunidade e a constelação dos compromissos de grupo, exemplos compartilhados, conhecimento tácito e intuição, exemplares e incomensurabilidade, revoluções e relativismo, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Se a História fosse vista como um repositório para algo mais do que anedotas ou cronologias, poderia produzir uma transformação decisiva na imagem de ciência que atualmente nos domina. Mesmo os próprios cientistas têm haurido essa imagem principalmente no estudo das realizações científicas acabadas, tal como estão registradas nos clássicos e, mais recentemente, nos manuais que cada nova geração utiliza para aprender seu ofício. Contudo, o objetivo de tais livros é inevitavelmente persuasivo e pedagógico; um conceito de ciência deles haurido terá tantas probabilidades de assemelhar-se ao empreendimento que os produziu como a imagem de uma cultura nacional obtida através de um folheto turístico ou um manual de línguas. Este ensaio tenta mostrar que esses livros nos têm enganado em aspectos fundamentais. Seu objetivo é esboçar um conceito de ciência bastante diverso que pode emergir dos registros históricos da própria atividade de pesquisa. Contudo, mesmo se partirmos da História, esse novo conceito não surgirá se continuarmos a procurar e perscrutar os dados históricos sobretudo para responder a questões postas pelo estereótipo a-histórico extraído dos textos científicos. Por exemplo, esses textos frequentemente parecem implicar que o conteúdo da ciência é exemplificado de maneira ímpar pelas observações, leis e teorias descritas em suas páginas. Com quase igual regularidade, os mesmos livros têm sido interpretados como se afirmassem que os métodos científicos são simplesmente aqueles ilustrados pelas técnicas de manipulação empregadas na coleta de dados de manuais, juntamente com as operações lógicas utilizadas ao relacionar esses dados às generalizações teóricas desses manuais. O resultado tem sido um conceito de ciência com implicações profundas no que diz respeito à sua natureza e desenvolvimento. Se a ciência é a reunião de fatos, teorias e métodos reunidos nos textos atuais, então os cientistas são homens que, com ou sem sucesso, empenharam-se em contribuir com um ou outro elemento para essa constelação específica. O desenvolvimento torna-se o processo gradativo através do qual esses itens foram adicionados, isoladamente ou em combinação, ao estoque sempre crescente que constitui o conhecimento e a técnica científicos. E a História da Ciência torna-se a disciplina que registra tanto esses aumentos sucessivos como os obstáculos que inibiram sua acumulação. Preocupado com o desenvolvimento científico, o historiador parece então ter duas tarefas principais. De um lado deve determinar quando e por quem cada fato, teoria ou lei científica contemporânea foi descoberta ou inventada. De outro lado, deve descrever e explicar os amontoados de erros, mitos e superstições que inibiram a acumulação mais rápida dos elementos constituintes do moderno texto científico. Muita pesquisa foi dirigida para esses fins e alguma ainda é. Veja mais aqui e aqui.

NÃO MORRA ANTES DE MORRER – O romance Não morra antes de morrer (Don’t Die before you’re Dead – Record, 1999), do escritor e ativista político russo Yevgeny Yevtushenko, na tradução de Gabriel Zide Neto, traz uma narrativa lírica sobre três dias da trama de um golpe de Estado em 1991, quando um ato coletivo se torna uma verdadeira barricada humana em defesa da democracia e do nascimento de uma nova nação, misturando lembranças políticas, fantasmas da ex-União Soviética, do comunismo para a democracia, da bandeira vermelha para a tricolor russa, a alma do povo carente da maturidade autossuficiente, a guerra no Afeganistão, as máfias, as delações, a KGB, a repressão, angústias e medos, amor universal e irrestrito pela humanidade, a visão do mundo em ebulição. Trata-se de um épico poético que mistura autobiografia daquele que foi a voz solitária contra o stalinismo e que recusou a condecoração da Ordem da Amizade entre os povos por causa da sangrenta invasão na Chechênia, com histórias de amor e suspense político que fazem da obra um documento histórico que se torna um retrato fiel da Rússia moderna. Veja mais aqui e aqui.

OS AMORES AMARELOS – O livro Os amores amarelos (Iluminuras, 1996), é a única obra do poeta francês Tristan Corbière (Édouard-Joachim Corbière - 1845-1875), tradução de Marcos Antônio Siscar, um poeta desconhecido até Paul Verlaine incluí-lo no ensaio Os poetas malditos (Les Poètes maudits, 1883), transformando-o em um dos mestres reconhecidos do Simbolismo e precursor do Surrealismo, influenciando Ezra Pound que o destaca no seu livro ABC da Literatura. Da obra destaco Paisagem má: Praias de velhos ossos – a onda / Dobra: som a som ela estertora ... / Paul pálido, onde a lua ronda / Buscando vermes, noite afora / - Calma de peste, onde a febre, / Como um duende danado, arde... / - Erva fétida, onde a lebre / Foge, feito um bruxo covarde... / - A Lavadeira branca lida / Na roupa dos mortos encardida, / Ao sol dos lobos ... – E singelo, / O sapo, cantor melancólico, / Envenena com sua cólica, / A própria casa, o cogumelo. Também o Aventura Galante e Fortuna: Eu faço o ponto, quando belo vai o dia, / Para a passante que, com satisfação, / À ponta da sombrinha me fisgaria / O piscar da pupila, a pele do coração. / E acho que estou feliz- um pouco- é a vida: / O mendigo distrai a fome na bebida... / Um belo dia- triste ofício! - eu assim,- / Ofício!...- velejava. Ela passou por mim. / - Ela quem? - A Passante! E a sombrinha também! / Lacaio de carrasco, toquei-a...-porém, / Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões / E... estendeu a mão, e... me deu uns tostões. Por fim, Infante em seu lençol: O prazer te foi duro, mais fácil é o mal / Deixa-o vir à luz do dia. / À musa funesta já não se faz madrigal; / Vais e o anjo fica — à revelia — / Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel; / Canta, mas deixa essa mania / De sair à rua estendendo teu chapéu, / Por vinténs de amor ou ironia. / Agora dorme: eis o sono que liberta; / Com tua agonia a Morte brinca esperta, / Como o gato magro e o rato; / Sorrateira, a pata te lança ou te deita. / E o velho paroxismo ainda te deleita: / Torce a boca, escuma... e seja grato. Veja mais aqui e aqui.

A CONSCIÊNCIA DA MULHER – O livro A Consciência da Mulher (Imprensa Oficial, 2007), traz uma reunião de textos da dramaturga e pedagoga brasileira Leilah Assumpção, entre os quais destaco o Capítulo VI - A manequim no teatro: Aqui em São Paulo, fiz cursos de desenho, publicidade e moda, tanto que meu primeiro emprego foi de desenhista de moda de Madame Boriska. Fiquei um mês, era exaustivo, ela não me deixava ficar um minuto sem desenhar, mas, em compensação, foi com meu primeiro salário da Boriska que comprei uma máquina Remington de datilografia e escrevi nela, em uma noite, Fala Baixo Senão Eu Grito. Fiz também cursos de teatro com a Renata Pallottini, o Miroel Silveira e o Eugênio Kusnet – método Stanislavski – e fui então trabalhar como atriz, uma quase figuração, em Vereda da Salvação, do Jorge Andrade, com direção do Antunes Filho. Atuei também na Ópera dos Três Vinténs, do Bertold Brecht, como a prostituta do bordel, então já com algumas falas – eu ainda era virgem nessa época, como no meu tempo inteiro de manequim, e a Ruth Escobar defendia com unhas e dentes a minha virgindade, ela conta isso até em livro. Gostei da experiência de atriz, mas foi o suficiente para eu ver que meu talento era mediano e eu queria fazer alguma coisa mais que mediano. Se uma segurança eu sempre tive, foi a da minha criatividade, e desde criança. [...] Também no Capítulo VII - Fala Baixo: a obra-prima: Um belo dia, esqueci tudo que tinha lido e estudado sobre carpintaria e escrevi Fala Baixo Senão Eu Grito, que quase não tem carpintaria e é um texto todo emocional, a história de uma solteirona que está no seu quarto de pensionato, de madrugada, quando entra um ladrão. Esse homem acaba não com suas joias, mas com todos os seus sonhos e ilusões. A Maria Gurtovenco, do pensionato, foi quem inspirou a Mariazinha Mendonça de Moraes, uma mulher boa, virgem, romântica. Baseei-me também em três amigas minhas virgens, solteironas mesmo, que mal saíam do quarto, não tinham namorados. A peça me veio quando eu perguntei a uma delas: Você sente orgasmo? E ela respondeu: Não. Eu insisti: Nem sozinha? E ela: Eu tento, mas não consigo. [...] Por fim, o Capítulo XI - Enfrentando o machismo: Minha peça Jorginho, o Machão trata dos conflitos profissionais e amorosos de um jovem moderno que não sabe se quer ser arquiteto ou pintor, e se deseja a seu lado a mulher conservadora ou a liberal. Foi montada em 1971, com sucesso, mesmo que nessa época as palavras machão e machista não fossem usadas, eram consideradas quase que palavrões. O jornal O Estado de S. Paulo proibiu o uso da palavra machão, substituía pelo termo sistema patriarcal. Jorginho era um homem frustrado, quase um bebê que não sabia o que queria – por incrível que pareça, um homem de hoje, tanto que acredito que não mexeria em nada do texto. A peça foi feita pelo Pedro Paulo Rangel na montagem paulista, com a Nonóca Bruno, o Cláudio Corrêa e Castro, a Maria Isabel de Lizandra como a namorada moderninha que encarna a liberação sexual e a Suely Franco como a namorada do interior. No Rio de Janeiro, com o Gracindo Jr., a Maria Gládys e a Marieta Severo fazendo a namorada antiquada. Jorginho era a semente do homem de hoje. [...] Veja mais aqui e aqui.

MA NUIT CHEZ MAUD – A comédia romântica Ma nuit chez Maud (Minha noite com ela, 1969), do cineasta, crítico de arte, roteirista e professor francês Eric Rohmer (1920-2010), conta a história de um fervoroso católico que encontrou a sua parceira ideal na celebração de uma missa, tornando-se sua namorada, desenrolando-se numa trama de alto nível, razão pela qual o diretor tornou-se uma das figuras mais importantes da nouvelle vague, além de se tornar editor de um influente jornal francês Cahiers du cinéma. O filme inteiro já é um destaque pela grandiosidade da obra, chamando, além disso, apenas atenção para a atuação da exuberante atriz argelina Françoise Fabian como a protagonista da história, bem como para a então belíssima atriz hoje setentona Marie-Christine Barrault. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Capas e fotos da publicação New Erotic Photography, do editor e historiador-Dian Hanson & do fotógrafo Eric Kroll.

Veja mais sobre:
Eita! Vou por ali no que vem e que vai, Viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino, Os tempos da Praieira de Costa Porto, O efêmero de Louise Glück, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a música de Edson Zampronha, a arte de Laszlo Moholy-Nagy & Anke Catesby, Mike Edwards & Betina Muller aqui.

E mais:
Dr. Ciuça Gorda & os cavaleiros do pós-calipso do nó cego, As aporias de Zenão de Eleia, Sonetos de Francesco Petrarca, Teatro de situação de Jean-Paul Sartre, a música de Carlos Santana, Viridiana de Luis Buñuel & Silvia Pinal, a escultura de Denise Barros, a pintura de Max Liebermann & a arte de Georgy Kurasov aqui.
Psicologia da Gestalt, Sonetos de Petrarca, Poesias de Adrian Pãunescu & Erik Axel Karlfeldt, a arte de László Modoly-Nagy, a música de Carlos Santana, a pintura de Max Liebermann & a arte de Luiz Edmundo Alves aqui.
O culto da rosa: canção à flor, mulher amada, Totalidade & infinito de Emmanuel Lévinas, Mundo fantasmo de Bráulio Tavares, A arte do teatro de Edward Gordon Craig, Sinfonia erótica de Jess Franco & Susan Hemingway, a música de Wojciech Kilar, a pintura de Paul Delaroche & Paul-Émile Bécat, Fernanda Guimarães & muito mais aqui.
Conselho dum bebão na teibei, Gênero & violência de Heleieth Safiotti, História do Brasil de Cláudio Vieira, Contra o golpe de Emir Sader, Coluna social de Edu Krieger, a pintura de Salvador Dalí & Fecamepa aqui.
Enfermeira & a dor de ser mulher, O ser e o nada de Jean-Paul Sartre, História do desejo de Jean-Manuel Traimond, Artista do corpo de Don DeLillo, a música de Anton Webern & Leonore Aumaier, a pintura de Joseph Beuys & Nanduxa aqui.
E num é que a Vera toda-tuda virou a bruxa das pancs na boca do povo, Iluminações de Walter Benjamin, Marxismo & literatura de Cliff Slaughter, Os bruzundangas de Lima Barreto, a música de Guiomar Novaes, a pintura de Pedro Sanz, a arte de Paolo Serpieri & Sara Vieira, LAM na TV Gazeta de Alagoas & muito mais aqui.
Em mim a vida & o estouro dos confins de tudo, Ísis sem véus de Helena Blavatsky, O jardineiro do amor de Rabindranath Tagore, Corpus Hermeticum de Hermes Trismegistus, a música de Kitaro, a fotografia de Jovana Rikalo & a pintura de Ewa Kienko Gawlik aqui.
Os cinco prêmios do amor, História da criança e da família de Philippe Ariès, Laços de família de Clarice Lispector, a música de Egberto Gismonti, Divã de Martha Medeiros, a pintura de Gustav Klimt & Nelson Shanks aqui.
História Universal da Temerança, Versos em lá menor de Yde Schloenbach Blumenschein, A divina increnca de Juó Bananére, Savitu-Vrta & Savarasti, Ator e estranhamento de Eraldo Pera Rizzo, a música de Mônica Feijó, a arte de Alfred Pellan & Kellie Day aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: La madia (The Cupboard), do artista plástico italiano Vittorio Polidori.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.



quinta-feira, fevereiro 21, 2008

FERNANDO PESSOA, MOACYR SCLIAR, EÇA DE QUEIROZ, THOMAS KUHN, MARITAIN, SEBASTIÃO UCHOA LEITE, TSUGOUHARU FOUJITA & PROEZAS DO BIRITOALDO


 
A arte do pintor modernista japonês Tsugouharu Foujita (1886-1968).


PROEZAS DO BIRITOALDO - XI - Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão - Biritoaldo era genioso, espalha-brasas, um cabra de rede rasgada, intrépido por desconhecer limites para suas artimanhas, destemido de enfrentar muxôxos reprovadores e bote vigor para reinar nas presepadas. Era um sujeito de beiço virado, esse. É certo que não reproduzia nunca, jamais, as qualidades chaboqueiras porém decentes das figuras paternais. Ao contrário, unânimes e veementes, acentuavam-lhes os desvios peculiares às causas perdidas: - Pau que nasce torto morre troncho com o espinhaço envergado numa coivara de cabeça pra baixo nos quintos dos infernos! - Eita, bôba-torreiro! Também, fez por onde ter a honra dos velachos mais desprezíveis e a repugnância dos mais achegados, distantes e desconsiderados. - Bicho do berro bom prova que tem sustância! -, chega falava ancho, de papo cheio, ufano, defendendo-se do desdém. Os pais não mais se deixavam levar por seus pisoteios antes graciosos e tão risíveis a ponto dos genitores quase morderem as orelhas de tão encantados com seus malabarismos endemoninhados, vendo-lhes, agora, só de esguelha, parece que já adivinhando as futuras aprontações que lhe sairia por desacerto. Pior: o que antes era a razão maior na felicidade do casal, agora só amargava reprimendas insistentes pra ver se desentortava o rapaz que num tomava jeito maneira nenhuma. Desapontado, Birito remoía consigo, sem platéia para afagar-lhe o ego, todos vacinados de suas estripulias. Mãe Nega que ainda paparicava suas chochas e meleguentas artimanhas: - Seja macho, não corte vara, sujeito! Boi sabe a rede que fura! No entanto, sua vida tinha que mudar, sair daquele aperto encarcado. Ah, se tinha. E já quase na maioridade, pertinho de homem-feito, ora, continuar de palerma portador do maior vacilão, não empata, pula fora. Estava já com o couro esticado das suas mazelas. - Sou ou não sou filho de Deus, caralho? Quem fica com a bunda na poltrona esperando dinheiro, é puta! Eu não, vou à luta! E foi. Sabe como? Contorcendo-se por forçar a prontidão do anjo-da-guarda. Foi mesmo. Espremeu-se tanto do acocho espragatá-lo todo. Chamou na grande, invocou com toda fé do coração, a ponto do quengo feder a chifre queimado e a bosta incensar o ambiente. Ora, sabia que tal entidade se escondera dele desde sua nascença, deixando-o na maior saia justa. Agora, era hoje de se ajustar tintim por tintim com recôndita entidade e acertar os ponteiros de sua aziaga vida. - Eita gota, quase cago nas calças. Ih! Isso é coisa de corno mesmo! A coisa foi se movimentando, um estalido meio brusco, ininterrupto. Fumaceiro brabo, fez-se. Mistério de mudar as cores das coisas, escurecer o dia, amanhecer a noite, desvirar o mundo de papo pro ar, tudo paralisado no tempo, estático, estrondos ensurdecedores, a terra escavoucada, árvores desenraizadas, água se solidificando, o mundo rangendo e Birito tremendo que só vara verde. Um fedor de alho foi surgindo e se transformando no ar. Era ele. Verdade! Era, emergindo do oco da terra num fiapo de fumaça. - Como é, hem? Desembaça ou fica nessa de chove num molha, hem? E o anjo aparecera parece com defeito de imagem, ora inteiro, ora apenas a penumbra, saltitante por se livrar daquela fria de quem já perdera o prazo e corria à revelia. Pitava o fumo ofegante e repetindo com voz fanhosa... - Mandu-sarará! Sambari! Tamaquaré! Mando-tiro-tiro-lá! Oh li-li-li-ó! Ó zarizé zariguê com sariguê! Ji-nongonongo!... - Vôte, capiroto! Ouvia-se um fungado intermitente deslocando-se daqui pralí, tudo muito confuso. Aí, Birito não se fez de rogado, mesmo torando o aço exigiu responsa no caso e o enquadramento dos afazeres protetores da sua pobre alma penada, botou pra fora uns xingamentos, fez fincapé nas exigências e chutou o pau da barraca na maior bronca. Um raio fulminou. - Oxente, você é ou não é o meu anjo-da-guarda, porra? - Mandu-sarará, sambari.... O devotado deu-lhe a impressão de um unípede invisível, enrolando dizeres, trupicando nos ares e bulindo na sua frente... - Vôte! Isso é lá santo que se venere! Parece mais o capiroto! - Mandu-sarará! Sambari.... - Danou-se, o cabra só tem uma vida e ter saci pererê como anjo-da-guarda, é o cúmulo dos cúmulos! - Tem encôsto! O teu sal tá se pisando, nego! - Se assunte, nego! - Tem encôsto! - Valha-me deus, que esse é empacado! Olhe, assuma seu posto e passe logo os meus desejos que quero sair dessa vida de merda, viu? Vamos, cumpra sua jornada de trabalho que o senhor só tá na moleza desde que nasci. Quero ver seu livro de ponto! - Sou anjo-da-guarda, num sou gênio da lâmpada não, Aladim de araque! - Não seja desatencioso comigo, seu desaforado! Tem que satisfazer meus desejos, se tem! Ou então boto advogado e vou brigar na justiça exigindo indenização, seu infeliz-das-costas-ôcas! Olhe, que eu mando você para a puta-que-pariu, santo de bosta! Duvide não, viu? Eu sou a bola que ninguém nunca chutou, sabia? - Sem registro! Favor tentar novamente noutra oportunidade. Câmbio! - Deixa de molecagem, isso aqui num é terrorista afegão nem desalmado imperador norte-americano, não, viu? Num cisque comigo que num tô pra jogar conversa fora! - Tem encosto!  - Desenrole, vá! - Ihh! Erro de soquete. A sua conexão não pode ser efetuada. Senha bloqueada. Tilti. O remoto não responde, verifique suas configurações e depois refaça sua conexão. Tilti! - Oxe, agora deu, só me faltava essa! Ponha-se no meu lugar e veja a merda que você me deixou, seu estropiado! - Sua solicitação encontra-se fora da área de cobertura ou a conexão está temporariamente desligada. Tente mais tarde! - Pronto! Agora deu! Será o fim do mundo! Ora, chegou a hora da onça beber água, vamos, cumpra logo o seu papel, aloprado! - Tem encosto! - Desembucha! Deixe de enrolança! Arrume logo uma galegona gostosa feito a Elaine Mickeli com aquela bocona de engulir a gente todo, bote logo um Porshe, uma Ferrari, ali uma cobertura, uma conta com saldo sem limite, empregados escravos para meu bel-prazer. Bora, se avexe e recupere o tempo perdido e faça eu mandar na política, na polícia, no judiciário, o país todo babando meus ovos, passe livre para estuporar qualquer um que me enjeitar, sair na televisão todo dia, ser aplaudido nos estádios de futebol, fama para ser respeitado mais que Pelé... se avie, me tire logo dessa de cachorro sarnento... é, com isso começa a pagar o que me deve! - Tem encosto! Você foi rebaixado para a vigésima divisão da vida! - Tô perdendo a paciência com tua embromação, nego-duma-figa! - Você num se compara nem com um cabrito, seu bosta fedida! - Será que eu pisei em rastro de corno?? Só sendo.... Êta sina desastrada essa minha, até o protetor quer me lascar em bandas! - Tem encosto! -, e o bicho tava puxando um fogo da vista ficar neblinando, assim, carburando idéias, sacumé? Maior pasmaceira no reduto e a inhaca de marijuana se enfiando no buraco da venta do desinfeliz solicitante. - Que enrolança é essa? Tá pegando fumo, é? Santo cheio dos braquearo já dá pra ver o tamanho da peta! O negócio tomou prumo com a ofensa. As coisas desencarnaram e tornaram a encarnar, destrambelhando tudo até que o vuque-vuque se estatelou com o anjo preto falando sério pro seu devoto. - Olhe: toda terça e sexta... da meia-noite.... às duas horas... você sai correndo... passa pelos sete adros de igreja... sete vilas acasteladas... sete partidas do mundo... sete outeiros... sete encruzilhadas... até regressar ao mesmo espojadouro... onde readquire sua fé. Diga três "Ave Maria"... ajoelhado e com toda fé do seu coração... haverá um grande estouro!... Rebentando!... Não afraqueje! Persista!... Depois duns cinco minutos assim... calado... passe a mão no furico e enfie o maior-de-todos com a maior força... dê um aperto na pêia dela avermelhar inchada... esbofetei-se... dê um cascudo com toda força no seu próprio quengo... se continuar acordado, diga: Valhei-me Nossa Senhora! Pronto! E some-se o encosto!... Pegue esse sino saimão... reze quatrocentos e cinqüenta e cinco Pais Nossos de cu pra cima... dois mil Creio em Deus pai sentado numa quina de pedra de ponta.... do cu ficar em carne viva... dê uma cagada... e uma mijada... coma sua própria merda... tome um copo do seu próprio mijo para tirar o gosto ruim... e depois... durma em paz, seu filho de uma porca parida... Tome, guarde direitinho, viu? Aprendeu tudo? - Só se fosse um estrupício de decorar tudo isso num instantim assim, ora, nem a cega-dedé fuderia nessa ligeireza, ora! Bote moral e fale direito comigo, senão, senão! - Toda terça e... - explicou tudo direitinho, com todos os pontos nos iis. - Sacou, boboca-da-cara-de-tacho? - E o que acontece? Fico vivo ou caio morto? - Faça isso e seu futuro nefasto vai mudar prum paraíso no céu! - Hum, sete.... sete... sete... sete... eita! Esse negócio de merda e mijo é que tá pegando... nunca vi um despacho desse! Ô, malasombrado, tu num tá pintando o sete comigo não, num é? - Tô te redimindo, buzuntão! - Que é que é isso? Parece mais que tu quer me matar, desgraçado! Isso num é penitência, é pagamento de trambique com o diabo com o condenado de cabeça-pra-baixo pendurado pelos ovos e queimando pelos inferno adentro! - Tô desentortando tua vida! Essa é tua penitência. - "Leu, leu, leu, se eu dessa escapar nunca mais boda no céu!" Foi aí que se deu um traque pipocado, daqueles de peido-de-véia, e o bicho sumiu talqualmente aparecera, cheio de emboança. Tudo ao normal agora, Birito espremia as vistas para melhor apreciar a redondeza e ver no que tinha dado aquilo tudo. - Danou-se! -, balbuciou tomando pé na situação. Caçou dos lados para ver se via alguma coisa e apenas uma voz se insinuava como a dos do outro mundo. - Tô aqui, viu? Birito arrudiou-se e nada vira, quase dá uma volta inteira no pescoço de dar um nó e cair duro. - Isso é brincadeira, amolestado!?! - Tô aqui, viu? Investigava direitinho e nada bulia ao seu redor. Estava invisível. Birito então, se recompondo de tudo, estufando o peito, sacudindo a coisa-ruim do corpo, enfrentando a circunstância, fez sermão de que o bode da vida havia dado uma marrada certeira no seu destino de banguela e que agora queria sua parlapassada lampeira e justa pra ficar de pernas pro ar, de catrâmbias, de colhões ao vento, só gozando das boas coisas que este mundão de meu deus tem para ofertar a qualquer ser vivente que nasce com uma estrela na testa. - Tô vendo, tô aqui, viu? E que ele num tratasse aquilo por gungunhana não, que ele tava definhando a olhos visto e por ser valetudinário merecia, agora, depois de tanta apertura e sofrência, o seu velocino de ouro, porque era devoto cagado e mijado do Frei Damião Bozzano, e tava na hora de minimizar seus aperreios, suas mandingas e bafafás. Sabia ele que havia perdido a hora porque não matou o galo na primeira noite, que nem davam um píris de doce para o seu dicomer, e já matutavam traição para esgoelá-lo na primeira esquina, ensinando o que ele já sabia, tomando o que ele possuía, que corria da coisa ruim com os bofes saindo pela boca, tudo se acabando pra banda dele. Agora, não, entendia do riscado e estava certo que mereceria benesses muitas com mulheres bonitas lambendo o solado dos seus pés, homens para carregá-lo nas costas, prazeres diversos ao seu dispor com mesas lautas e acepipes delicados e abundantes no meio da arrumação de garrafas das bebidas mais finas e do melhor quilate para se esbaldar e causar inveja nos de olho grande, dos seca-pimenteira e dos mau-olhado. - Tô vendo, tô aqui, viu? Nessa hora Birito foi se esfolando e se comovendo, chegando a passar na sua cabeça a figura paterna, Manuel Bertulino, homem probo de riscar em cima da linha e num desinretar um só milímetro do exato. Também da materna afeição de Táquia, sempre com afagos nas suas maiores empioradas acometidas nas horas mais estreitas. Da mãe Nega, a avó com todas as guloseimas juninas saboreadas desde tenra idade. Da tia Nevinha, sempre a bola da vez nas horas de aperto na safadeza, esfregando-lhe o pingulim no meio dos carões. E rememorava que namorou com ela, a tia desconfiada, reprovava a encenação do bicho. E se lembrou do bule quente do batizado, o ódio do sacristão que era também vizinho, amigo do pai dele, inventando, numa doidice, de sair construindo igreja pelos bairros. Do casal quasímodo, tanto o Ancheta, um velhaco chato, quanto Ternência, gostosona feito tanajura que se ensaboava toda tarde nua no quintal da casa para seu brechado por cima do muro e das quedas que levou amolegando a pêia enquanto ela se banhava. Lembrou-se da lapada da infância, doendo no quengo quando viu o piruliteiro de novo e queria se vingar. O dinheiro surrupiado da gaveta do balcão dos avós paternos era o seu bem-bom. As maleitas que lhe consumiam junto com os aniversários em anos bissextos, num tinha ungüento que salvasse do quebranto maldito, ficando arriado meses na cama. O pai que não achava mais graça no seu pisoteio. Era reclamo só. A mãe, coitada, imaginou um honrado médico, via-lhe, decepcionada, um traste. O tio Nestoldo era quem dava um certo apoio, também era outro perdido, botava o menino em maus caminhos. Sabia que se safara de tudo até agora, que ninguém ousara meter-lhe uma pisa, só a vida madrasta enganchava o destino numa roda-viva de recaídas enfermidades e contratempos. - Tô vendo, tô aqui, viu? - Porra! Cê só diz, tô vendo, tô aqui, viu? Mais nada? Resolva logo que quero enricar da noite pro dia! Foi aí que Birito acordou-se com o azáfama que faziam Penisvaldo e Rolivânio. - Dormindo meio dia em ponto no meio da rua, abestalhado? -, mangou Penisvaldo. - Que foi? Que foi? -, aturdido Birito estava mais pra cego em meio de tiroteio que pra vivo! - Tu tá com jeito que desmaiasse assim, sem mais nem menos e o cachorro lambendo a tua cara para te acordar, bicho-ruim! -, explicou Rolivânio. - Cês tão rindo da minha cara, né? - Héhéhéhéhé!!!!! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIAAs mudanças de paradigma realmente levam os cientistas a ver o mundo definido por seus compromissos de pesquisa de uma maneira diferente. Na medida em que seu único acesso a esse mundo dá-se através do que vêem e fazem, poderemos ser tentados a dizer que, após uma revolução, os cientistas reagem a um mundo diferente. Pensamento do físico e filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU DO AMORTodas as cartas de amor são ridículas / Não seriam cartas de amor se não fossem / Ridículas. / Também escrevi em meu tempo cartas de amor, / Como as outras, /Ridículas. / As cartas de amor, se há amor, / Têm de ser / Ridículas. / Mas, afinal, / Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas. / Quem me dera no tempo em que escrevia / Sem dar por isso / Cartas de amor / Ridículas. / A verdade é que hoje / As minhas memórias / Dessas cartas de amor / É que são / Ridículas. / (Todas as palavras esdrúxulas, / Como os sentimentos esdrúxulos, / São naturalmente / Ridículas.). Extraído da obra Poemas de Alberto Caieiro (Ática, 1974), do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935). Veja mais aqui.

METAFÍSICA – [...] A Metafísica estuda o ser enquanto ser, mas por isso mesmo deve estudar a causa do ser: eis a razão porque a sua parte mais elevada, que é por assim dizer a sua coroa, tem por objeto Aquele que é o próprio Ser subsistente. Chamam a esta parte da Metafísica Teologia Natural. [...]. Trecho extraído da obra Introdução geral à filosofia (Agir, 1970), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui.

A NOITE EM QUE OS HOTÉIS ESTAVAM CHEIOSO casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro. Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos. — E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não! O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa: — O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas? O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas. — Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo. O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante. No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio. — O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano: — Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado. O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram. Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré. Extraído da obra A massagista japonesa (L&PM, 1982), do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011). Veja mais aqui.

CRIME DO PADRE AMARO - [...] Meu caro padre-mestre. – Treme-me a mão ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu não posso, bem vê, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me o coração. Sua excelentíssima irmã lá estará tratando do enterro... Eu, como compreende, não posso. Muito lhe agradeço tudo... Até um dia, se Deus quiser que nos tornemos a ver. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre paróquia de pastores, acabar meus dias nas lágrimas, na meditação e na penitência. Console como puder a desgraçada mãe. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabeça. — Seu amigo do C. — Amaro Vieira. P.S. — A criança morreu também, já se enterrou. [...] E pondo-se diante, galhofando:— Ó Amaro, e você a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitência.O padre Amaro encolheu os ombros:— Que quer você, padre-mestre?... Naqueles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa... — Tudo passa, disse o cônego. E depois de uma pausa: — Ah! Mas Leiria já não é Leiria! [...].Trechos da obra O crime do padre Amaro (Tres, 1972), do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900). Veja mais aqui e aqui.

A VERDADEIRA DIALÉTICAAí os caçadores chegaram / mataram o lobvo e abriram a barriga / e encontraram a vovozinha / toda mastigadinha / quanto a chapeuzinho vermelho / eles comeram. Extraido de Obra em dobras (Duas cidades, 1988), do poeta, ensaísta e tradutor Sebastião Uchoa Leite.


A arte do pintor modernista japonês Tsugouharu Foujita (1886-1968).




Veja mais sobre
O encontro das sombras e olores, Cyro dos Anjos, Denis Diderot, Violeta Parra, Marieta Severo, István Szabó, Leo Putz, Erika Marozsán, Ida Rubinstein aqui.

E mais:
A Trupe do Fecamepa aqui.
Proezas do Biritoaldo Quando Risca Fogo, o Rabo Inflamável Sofre Que Só Sovaco de Aleijado aqui.
Painel das fêmeas, Lao Zi, Richard Flanagan, Heinrich Heine, Sally Nyolo, Fabiana Karfig, Gaspar Noé, Howard Rogers, Musetta Vander & Ação civil pública aqui.
Big Shit Bôbras: a chegada & primeira emboança aqui.
A Primavera de Ginsberg, Frederick Chopin, Valentina Igoshina, Paula Vogel, Jane Campion, Karl Briullov, Andréa Beltrão, Meg Ryan, Mademoiselle Dubois, Psicologia & Direitos Humanos, Cordel do Professor & Ísis Nefelibata aqui.
Lição pra ser feliz, Fernando Pessoa, Rajneesh, Graciliano Ramos, Aristófanes. Adriana Calcanhoto, Buster Keaton, Mikalojus Konstantinas, Victor Gabriel Gilbert & Literatura Infantil aqui.
O sonho de Desidério & Emmy Rossum aqui.
Literatura de Cordel, A mulher escandinava, Ettore Scola, Francisco Julião, Jarbas Capusso Filho, Sophia Loren, Linguística, Shaktisangama-Tantra, Fetichismo & Abacaxi aqui.
Albert Camus, Robert Musil, Maceió, Jools Holland, Denys Arcand, Pál Fried, Sandu Liberman, Eugene Kennedy, Anna Luisa Traiano, Lady Gaga, Gestão do conhecimento & Capital humano aqui.
Durkheim, Rodolfo Ledel, Claudio Baltar, Micahel Haneke, Samburá, Juliette Binoche, Ernesto Bertani, O artista e a fera, Janaína Amado, Intrépida Trupe, Direito & Mauro Cappelletti aqui.
Big Shit Bôbras aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...