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domingo, abril 17, 2016

MARCUS SANTURYS, APPELLATIO, TICIANO VECELLIO, A CORRUPÇÃO & A EVOLUÇÃO HUMANA



O HOMEM, A CORRUPÇÃO E A EVOLUÇÃO HUMANA – A corrupção é uma prática nociva e contagiosa que acompanha a evolução da espécie humana desde as mais remotas eras. Para se ter uma breve ideia a respeito, a Lei das XII Tábuas, vigente entre os anos 450aC., já previa a punição das práticas de corrupção. Também a Lex Calpurnia e a Lex Julia Repetundarum, de cerca de 149aC., também reprimiam esses maléficos atos. Desde esse tempo? Pois é. Assim, desde a divisão setorial e hierárquica da administração pública ocorrida em Atenas, na antiga Grécia, que o dinheiro e a sua malversação acompanham o desenvolvimento da sociedade. Contra ela surgiram os controles contábeis e a compulsória prestação de contas por parte do governo na Roma antiga, não logrando êxito, vez que desde o mais baixo ao mais alto escalão, inclusive os militares e os administradores públicos possuíam uma tabela de preços instituída com gratificação por meio de dízimos e roubos. Prova disso, são as obras do poeta Sêneca, um dos que testemunhou o enriquecimento ilícito nas pilhangens, entre as quais, até o famoro orador romano Cícero foi um dos que não resistiram de fazer uso dos saques aos cofres públicos em proveito próprio. Atravessando os séculos, na Idade Média esse delito passou a ser denominado de baratteria tão combatido quanto antes, e na Era Moderna, o filósofo John Locke já denunciava que o dinheiro e a propriedade aviltam o homem, justo quando se deu o surgimento da sociedade burguesa e seus funcionários inescrupulosos que participavam da busca desenfreada pelo ouro, não escolhendo meios para obtê-lo. Como se vê, a corrupção é uma íntima companheira da sociedade desde sempre e do conhecimento de todos os povos por todos os tempos. E dizem os mais zombeteiros, que esse crime só desaparecerá quando a galinha criar dentes. Tá. Refletindo a respeito: só existe corrupção porque existem corruptores e corruptos. Vamos destrinchar isso. A corrupção, também conhecida como peita, suborno, concussão, é entendida como o ato de subornar ou oferecer dádivas para alcance de resultados. Corromper, por sua vez, significa subornar, perverter, depravar. Isso eu aprendi quando, lá pelos anos 1980, entrei na faculdade de Direito e tomei conhecimento das palavras do eminente jurisconsulto Nelson Hungria, que a conceituava tal transgressão como o mercado da função pública por meio do dolo genérico para se conseguir vantagem indébita. Ou seja, aprendi que se tratava da mercância intrínseca às funções públicas que envolviam agentes e gestores públicos na insaciável busca pela vantagem indevida e dos gozos procurados ou prometidos por meio de tráfico de função na sórdida cobiça do dinheiro. Certo, agora veja a cena e seus protagonistas. Cenário: o serviço público. De um lado, o corruptor, palavra que vem do latim corruptus que significa tornar podre, ou seja, aquele que corrompe. Do outro, o corrupto, aquele que é identificado como o autor do crime, submetido ao suborno, às peitas, depravação e perversão, entendendo-se como um degenerado, deteriorado, estragado. Trocando em miúdos: a corrupção é o lubrificante que azeita a disfuncional burocracia da administração pública. E que esta para funcionar torna imprescindível o envolvimento de pessoas que estejam dispostas a facilitar o funcionamento da engrenagem no contexto dos meandros burocráticos, em troca de alguma vantagem pessoal, uma troca perniciosa que eiva toda sociedade, afinal, quem é a administração pública? Se isso é praxe, precisa-se saber como combatê-la de forma eficiente e eficaz, vez que desde sempre o processo coercitivo legal jamais conseguiu lograr êxito em erradicá-la, malgrado todo aparato constitucional e infraconstitucional prevendo a responsabilização e toda legislação repressiva da esfera penal. Pelo visto, lei se tem aos montes, certo? Só falta quem cumpra e a faça ser cumprida. Para que a lei seja cumprida ela precisa de efetividade, se assim não for, torna-se letra morta. Ou seja, tem riscado do muito, mas foi pro beleleu. E se não se cumpre é porque há impunidade. Das duas, as duas: inefetividade e impunidade. Sim, mas peraí, você pode me questionar que mesmo com lei como a praga prevendo, regulando e dispondo sobre tudo, a imprensa virada na gota flagrando tudo, o Poder Judiciário metendo as catanas, o Ministério Público virado na descavada, gente presa todo dia, a evolução tecnológica e o escambau, e mesmo com tudo isso não tem o que dê jeito nessa praga? Pois bem. A resposta é complexa e merece, ao invés de uma afirmação, uma reflexão: será que o ser humano acompanhou a evolução dos tempos? Ou será que o Brasil, apesar de estarmos em 2016, ainda está vivendo como se estivesse em 1500? A resposta é sua & vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui. 

 Imagem: a arte do pintor do Renascimento italiano Ticiano Vecellio (1477-1576).

 Curtindo o álbum Ancestral trance (MCD, 2002), do compositor, sitarista, pintor e multi-instrumentista Marcus Santurys.

LEITURA 
Relendo o Manifesto Appellatio – Fraternitatis Rosae Crucis 1614-2014:
[...] nos países ditos desenvolvidos a sociedade se tornou cada vez mais materialista, no sentido de que incita as pessoas a procurar o bem-estar através das possessões materiais e do consumo desenfreado. Essa tendência aumentou consideravelmente o poder do dinheiro e perverteu o seu uso. De meio, ele passou a ser um fim em si, uma coisa a qual se gosta de possuir como tal, ao passo que, por si mesmo, ele não é nada. [...] Enquanto moeda de troca, ele é uma necessidade para  viver em sociedade. Todos necessitamos dele para que obtenhamos aquilo que é necessário ao nosso bem-estar material e para satisfazer os prazeres legítimos que a existência pode oferecer. Porém, com o tempo ele adquiriu importância excessiva, a ponto de condicionar e reger praticamente todos os setores da atividade humana. em nossos dias, ele é objeto de um verdadeiro culto que faz as vezes de religião, sendo provavelmente aquela que tem o maior numero de adeptos ao redor do mundo. Infelizmente, sacrificam-se diariamente, nos altares do dinheiro, os valores éticos mais elementares (a honestidade, a integridade, a equidade, a solidariedade, etc.), de modo que ele constitui mais do que nunca um vetor de degradação. [...]. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Se alguma coisa tiver de dar errado, saiba logo que a Lei de Murphy é na batata: com toda certeza dará não só numa catástrofe da porra, como deixará o Zé-borná cheio de nó pelas costas. Tenho dito & tataritaritatá! (LAM).

POEMIUDINHO
(Imagem: pintura rupestre antiga)
DESCOBERTA
A pedra, a arte:
Eu me lapidando.
(LAM). Veja mais aqui.

Veja mais Adolfo Bioy Casares, Pierre Bonard, Charles Mingus, Guillaume de Poictiers, Louise Cardoso, Estética teatral, Cabra marcado para morrer & John Watson aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui, aqui e aqui.

sábado, abril 16, 2016

JUAN RULFO, FANTIN-LATOUR, VIGÉE-LE BRUN, ZÉ-GULU & OS EQUÍVOCOS


DESABAFO DO DR. ZÉ GULU: A CIVILIZAÇÃO DOS EQUÍVOCOS – Naquela tarde quando adentrei nas dependências do bar do Dudé, esperava apenas manter a costumeira bebericagem do final de semana. Não, não foi. A surpresa me pegou de cheio! Era que o Dr. Ze Gulu que sempre fora apenas uma presença que ocupava lugar por ali, nunca se envolvendo em conversas com ninguém - só quando instado ou perturbado por algum xué que buscasse esclarecimentos dele -, e que sempre se mostrara em seu mutismo solitário, na sua de eremita da maior sabedoria, empelicado e feliz que só filho de frade, sentado na mesa de sempre, agarrado na leitura de um livro qualquer e dando as suas talagadas, sorvendo de uma cerveja bem gelada, ou de um uísque com bastante gelo, ou de uma bebida qualquer que lhe desse na veneta, fosse vinho, gin, vermute, cachaça, licor, ou o que fosse, naquela tarde, não estava no seu modo peculiar. O homem saíra da sua forma introspectiva, para expectorar suas ideias no recinto. Além de se mostrar fora do seu normal, ao que parece, estava mordido do porco, inclemente e aos berros: - Nietzsche estava certo: a Filosofia só teve graça até os pré-socráticos! Depois disso, nasceu a civilização dos equívocos! -, era ele injuriado, falando pras paredes. Sim, um silêncio tumular, ninguém entendia nada, contudo, respeitava-se a erudição daquele intelectual de Alagoinhanduba. Sabia-se que na casa dele era livro do portão de entrada até os fundos, e do piso ao teto. Diziam até que na casa dele só tinha mesmo livros pra todo lado, tudo aos montes, abertos, marcados, riscados, pra onde se virasse era publicações de todo tipo nas estantes – que eram muitas e desarrumadas -, em cima da mesa, pelos cantos, de fato um homem letrado. Nesse dia ele estava com o pau nos galhos: - Não que Sócrates estivesse errado, mas o que se entendeu depois do pensamento dele do que foi interpretado de Platão e Aristóteles, nasceu, então, a rede de todos os equívocos e a chatura da racionalidade. Até ali, o planeta era um só, um todo. Depois disso, cortaram o corpo caloso dos hemisférios e um muro de ignorância dividiu o planeta, principalmente depois que se nomeou a Grécia como o berço da civilização equivocada do ocidente, como se não mais existisse oriente e só o pensamento dessa banda do mundo que valesse. Até Jesus foi engalobado nesse equívoco todo: entenderam tudo errado e o Cristianismo tornou-se um equívoco milenar até hoje. E foram se acumulando os sectarismos, os maniqueísmos, fabricando engodos, embustes e falácias que se avolumaram na Idade Média e quando se deu o Renascimento e o surgimento do Iluminismo, foi que a desgraceira logrou espalhafatosamente ar de verdade: o cartesianismo que ardilosamente passaram a manta e não entenderam Descartes e, então, só trocaram canhanha por corcoroca, porque mantiveram só as dicotomias: apolíneo ou dionisíaco, idealista ou materialista, fisicalista ou animista, sempre o dualismo psicofísico cultuado até hoje. Santo desacerto! E hoje, mesmo que Einstein tenha ampliado Newton e validado a quântica de Planc, enterrando as incorreções vesgas da ciência e da filosofia, ainda hoje, deu tudo em vasa-barris com o mal-entendido que é mantido nas universidades, criado por uma academia positivista, mecanicista. Isso é que é uma desgraceira dos diabos, só deu em pantanas, em águas de bacalhau! -, o homem estava virado da breca e ninguém entendia o português que ele falava, era um grego feito o padre na missa toda só em latim. Mas todos com as cabeças em nuto, sobrancelhas arqueadas e bocas fazendo bico de espanto. Para todos, aquele homem falava verdades oraculares, indiscutíveis. – E manda outra lapada que hoje eu tô virado na gota! – gritou pro Dudé. Foi nessa hora que Fubamba, mais bicado que nunca, mais pra lá do que pra cá, entrou na conversa: - Isso é que é doutô, devia de ser o prefeito daqui! Todos aplaudiram. O Dr. Zé Gulu, porém, levou isso na conta do desaforo, mas relevou devido o estado etílico de sempre do beócio. Não se contendo, Fubamba afinal abriu os olhos e com a língua engrolada dos bebuns falou pra ele: - Ô, doutô, que mal li pregunte: o sinhô é doutô de que mermo, hem? Das ideias. Vixe! Já vi doutô dos óio, dos dente, do bucho, mas da ideia nunca vi não. Isso servi pra que mermo, douto? Ah, aí passou da conta. – Sai desse imprensado, Fubamba! -, gritou alguém em sinal de apoio ao sábio. Todavia, o Dr. Zé Gulu bufou, respirou fundo e arretou-se: - Quem não come surucucu-pico-de-jaca, não almoça! Ou se investe maciçamente na Educação ou este país será sempre essa meleca troncha e arrevirada de sempre! Tenho dito! -, e saiu danado como quem foi pruma guerra, arrastando no peito as adversidades de suas ideias revolucionárias. Aí a mundiça ficou em polvorosa: - Que coisa?!? -, todos reprovando a insolência do Fubamba que já amarrava o bode na mesa, sem nem se dar conta do mundo ou do que estivesse acontecendo. Aos poucos o ambiente foi adquirindo a normalidade e os cochichos foram se tornando algaravias que retomavam os assuntos apropriados das mesas, regados a papos de futebol, infidelidade, trambicagem, envultamentos e outras baboseiras tão comuns em qualquer lugar, principalmente ali onde tudo é possível. Foi quando alguém se levantou e disse: - A gente veio aqui pra beber ou conversar? Ora, quem tem seu vintém bebe logo. A gente se garante porque tudo passa e o baião fica. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui. 

 Imagem: a arte do pintor do Romantismo francês Henri Fantin-Latour (1836-1904). Veja mais aqui. 

 Curtindo o álbum (cd, livro e dvd duplo) Um sopro de Brasil (Núcleo Contemporâneo), organizado por Myriam Taubkin para o Projeto Memória Brasileira.

LEITURA 
Livro Pedro Páramo & Chão Em Chamas (Record, 2004), do escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986).

PENSAMENTO DO DIA
Mesmo que você todo dia pise na merda, só encontre porta fechada, leve marretada como a peste, sofra que só sovaco de aleijado, se lasque todo, mesmo assim, saiba de uma coisa: você mesmo é a merda que desgraça sua própria vida. Guarde isso. (LAM).

POEMIUDINHO
FESTA
Imagem: foto do acervo de Valkirya Freya. 
Quando ela dá o ar da sua graça
A paixão grassa de montão
E o mundo noitedia é só festa
Na praça do meu coração.
(LAM). Veja mais aqui.

Veja mais Leonardo da Vinci, Charlie Chaplin, Anatole France, Tristan Tzara, Edson Natale, Nalá e Damaianti, Henri Fantin-Latour & Meimei Corrêa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Bachante, da pintora francesa Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842)
Veja mais aqui, aqui e aqui.
 

quinta-feira, abril 14, 2016

O NOME DA RUA


O NOME DA RUA - Imagem: Casario, do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (1896-1988)- A cidade pitoresca de Alagoinhanduba tem das suas inusitadas peculiaridades. Basta chegar ao jequeporto, logo na entrada da cidade, que se dá de cara logo com o imprevisível, uma placa enorme com a inscrição: Seja bem-vindo, mas não abuse da hospitalidade! Isso é ao mesmo tempo uma recepção e um aviso, é que o povo pacato e hospitaleiro do lugar é pra lá de receptivo, mas cagou fora do caco, viram uma fera de sacudir o fulustreco visitante pra fora dos limites do lugar. Como? Saberão mais adiante. E lá as informações são precisas: - Onde é que fica o cartório? Por ali, depois da Caga-raio! Como? Vamos por ali: uma via dois mandados. Como é mesmo o nome da rua? Ah, é a rua que era do xerife da cidade, o cabo Sinfrônio Caga-raio, um estopa grossa, cascudo, que quando doía o cabelo adivinhava coisa imprestável no ar. Bastava ele acordar abrindo a janela, o mundo já tremia. Vivia de sassangar delito. Cheirasse, era bronca no ar. E quando conferia o constatado, perdia as estribeiras. Rafamé que fugisse do estouvo dele. O homem tinha topete, sujeito pancada! Candeia às avessas. Onde botava as ventas, levantava lebre. Bastava desconfiar, franzia o cenho e só brandava quando pegasse o meliante pela orelha: - Peguei-lo traste! E trancafiá-lo pra nunca mais fazer besteira. Não errava uma! Quando dava a botada, trazia o beldroega nem que fosse amarrado. Era madeira de lei, vivia de caixa destemperada. Sentia fedor de bandido à distância, botava tudo pra correr. Finou-se num repente acometido de uma dor lá no toitiço dele. Nunca mais isso aqui foi a mesma. Ainda hoje guarda a gente. Dizem os que chegam de má índole e, bastam botar o pé no chão, voltam na mesma hora de ver o fantasma dele botando o malsinado pra correr. O senhor mesmo, só estou lhe acompanhando porque não viu, sinal de boa-fé. Agora vamos pela Rua D’água doce. Era onde morava um poeta, homenagem pra ele: poeta Eudócio D’Agua Doce. Era sujeito todo taful, frecheiro, tratado a vela de libra, todo fidalgo, nunca cantou serena estrela, sempre lavando a jega. Teteia bulisse na menina dos olhos dele, oxente, um mata-borrão: papava todas. Usava uma escrava de ouro pra presentear a primeira quejanda frochosa que lhe caísse às graças. Em cima da bucha ele jogava prosa de três dias de cigano. E ela: - Deixe de pagode comigo. Nem-nem, não tinha jeito, caía na lábia. Todo lépido, levava pelo beiço de furar a orelha dela, tudo na ponta do dedo. Um arroz doce de pagode. Elas mesmas, quando viam o vate soltando dos seus versos, era o mesmo que vissem passarinho verde. Mas sempre respeitava mulher do lugar. Não queria nenhuma delas por costela. Respeitante, não queria casada porque se dizia amigo de todos os maridos; das solteiras, não ia dar desgostos aos compadres pais; nem as viúvas, achegado que era aos que já se foram, não queria conversa, vai que um dia o defunto viesse prestar contas. Agora, quando dizia: - Vou em Rimbigundo! Oxe, a macharia de lá já coçava as gaias! Não perdia uma que fosse! Vamos por ali, a Rua Chora Menino, onde morava uma parteira e corta jaca famosa, enfarinhada na arte de salvar menino laçado ou que incruasse de não querer nascer. Buchuda chegasse, todos diziam: - Pronto, salvou-se uma alma. Nunca ninguém soube de uma perda de parto, podia vir bronca desenganada de médico que ela dava jeito. Uma santa pra salvar tanto rebento, quanto casamento. Casal brigado de feio chegasse, saía tudo como se fosse namorico de primeiro dia. Mulher respeitada. Era feito a daquela rua ali: a da Tem Três. A dona Abadessa, outra mulher afamada, matrona volumosa, mandona, donzela de candeeiro que andava pelos conventilhos caçando cabra macho. Ninguém dava conta. Na mão dela tinha que ser macho duas vezes! Tanto é que ela tinha três casas e três maridos que lambiam as unhas e se davam por conformados. Comiam e bebiam juntos. Ela roía couro pra bandas do D’água doce, espevitada a dona. Embora ele fosse xéo e ela bauá, tinham a venta furada. E o pior: ela tinha cabelinho nas fuças. Mulher braba, capota choca. Brincasse não. De manhã ela agarrava o marido da vez, do cabra pedir penico. Ela ia pra casa do outro e tome pregada do fulano ficar com a língua de fora. Desassossegada, ia pro terceiro que já findava raquítico de não dar mais vencimento. Ela enterrou um por um e renovou a frota. Até menino taludo corre da desgramenta. Morreu no meio duma gozada sem fim. Inda hoje ela caça e ataca toda sexta-feira treze do mês, qualquer transeunte desavisado que ande nas ruas tarde da noite, de desaparecer pra nunca mais voltar. Pronto, o cartório é aqui. Seja bem-vindo. Obrigado. Desse dia em diante, sempre volto por lá. Tem das muitas. Depois conto mais desse aprazível e estranhíssimo lugar. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui. 

 Imagem: Sereia, do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi (1896-1988).


Curtindo o álbum City Reading - Tre Storie Western (Astralwerks, 2003), da banda francesa Air com narrações das obras Cidade, Pássaro, La puttana Di Closingtown e Caccia All’Uomo do escritor, diretor e performer italiano Alessandro Baricco.

PENSAMENTO DO DIA
Quando o Sol der na barra dia, não adianta morrer de véspera! Estique as canelas e vá traçando tudo. Agora, se uma Esfinge estiver na boca do gol, bote fé e dê seus pulos que você não é quadrado, ora. É só mandar ver de Davi, encare o Golias, bola na rede e vá pra galera! Afinal, você nasceu pra ser feliz! (LAM).

POEMIUDINHO
Imagem: Caçador de estrelas, do fotógrafo Valter Patrial.
HÁ QUATRO MESES
Perdia de vez a noção de ser feliz
Noite de breu no meu coração
E uma estrela brilhou no caminho
Era ela ensinando a ressurreição.
(LAM). Veja mais aqui.

Veja mais Carlo Ginzburg, Arrigo Barnabé, Aluísio de Azevedo, Ítala Nandi, Francisco Pereira da Silva, Robert Doisneau, Otto Lingner, Mano Melo & Claudia Cozzella aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico chinês Xue Yanqun.
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...