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sexta-feira, janeiro 26, 2018

CHAPLIN, JORGE DE LIMA, HENRIQUETA LISBOA, TAVITO, SILVÉRIO TREVISAN, PAULA REGO, GIOCONDA AGUILAR, DANNY CALIXTO, ARTUR GOMES & O PARAÍSO BRASIL

O MUNDO NA JANELA – Imagem: ArtObjeto em madeira, da escultora Georgia Gioconda Aguilar. - Abro a janela, é manhã. Sinto que sou como um rio, uma nascente. E a minha vida é como a doce água na correnteza para o mar em um dia azul ensolarado de nenhuma nuvem, solto e livre, na companhia de pássaros aos voos, bem-te-vis, sabiás, canários, a festa dos cardumes. Assim voo vida afora, horizonte franqueado ao prazer da vastidão. É assim que me sinto nesta manhã, o mundo da janela. Um sentimento diferente, como se estivesse de ressaca – sempre estou feliz de ressaca, uma simples felicidade por me ver sem compromissos, ou afazeres previstos, missão cumprida. Feliz e grato, em estado de graça. Não sei das horas, pra quê saber? Telefone mudo, nada de noticiário, pra quê? A tevê desligada, silêncio de máquinas, passantes que saúdo rua acima ou ladeira abaixo, nada de moral baixo ou vagas amabilidades, passado esquecido, tristeza que nem sei, mesmo sabendo que os caras de Brasília e tantas outras supostas autoridades nas mais diversas regiões desse nosso imenso país, ou querem acabar com o Brasil ou com a gente, o que dá no mesmo, nós somos o Brasil, eles são apenas mandriões salteadores que assumiram o poder, logo passam, passarão, tudo passa, quer queira ou não, e amanhã há de ser outro dia e quero manter a paz e a felicidade de hoje. O mundo em paz pra mim, como se não sucumbisse a tantos problemas, ah, nem quero saber de problemas, bastam os meus que só quero saber amanhã ou depois de amanhã, hoje não, hoje é dia de me sentir bem, nem dá pra pensar o que faz a vida valer a pena, tudo vale a pena, as coisas de infância relembradas, os sonhos que não nos abandonam mesmo com a idade, a crença de um mundo melhor para todos, e que o pior de tudo que possa ocorrer, no mínimo a gente negocia, esquenta as orelhas e depois sorrir só por lembrar os apertos, revertérios, tudo passa, sem dúvida, até o mais emperrado acaba passando. Alguém passa e reconheço, não lembro o seu nome, cabeça essa minha, sempre ocupada e falhando vez em quando, senão sempre, nada demais, é a idade. Ele pergunta: cadê a alma? Um outro se aproxima e: e eu é que sei? Aceno e aponto pra eles o meu coração. Não entenderam, levaram como se fosse mais uma mentira escrota dessas que a gente vê em todo momento só para dispensar certas loas. Foram pra sua agenda, moldados pelo mundo, tudo é seu negócio, fazer bonito e fugir do flagra pra não queimar o filme, tudo na manada, padronizados, dependentes do êxito, não há espaço para fracassados, por isso estou bem porque dos tropeços tirei lições inenarráveis. Nunca quis só na boa, atalhos, ou deixar retardários ao retrovisor. Sempre um dia atrás do outro, adiante, passo firme. O que importa é não sentir cólicas, não enfrentar nenhum fila, remédio algum por paliativo, apenas o coração crescido de satisfação a vagar pelos corredores e cômodos da casa, ah, o prazer do banho, depois saborear bananas, laranjas, fatias de mangas, um copo d’água que nunca sentira o frescor, e belisco o pastelão sempre delicioso, verduras, legumes, exercícios de respiração e o espírito de gratidão, isso sim, sempre, agradeço todos os dias pelo amanhecer, pela vida, pelo Sol aquecendo minha pele, pela Terra minha morada aos meus pés, pelas árvores e seu oxigênio e por embelezarem a natureza – isso enquanto dendroclastas de plantão não desertificam tudo com suas ganâncias, pois não sou estoico pra sofrer de antemão, retribuo em defesa dos verdes campos e assim aspiro a vida em sua plenitude. Nisso sinto sou maior que a mim mesmo, mesmo sabendo que sou apenas um homem na janela, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o músico e compositor Tavito Carvalho cantando seus grandes sucessos & com Zizi Possi a música Começo, meio e fim; a cantora, compositora e instrumentista Danny Calixto interpretando seus trabalhos autorais: Oásis, Odum & Do avesso; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido. Trecho do filme O grande ditador (The Great Dictator, 1940), do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977), uma comédia dramática e uma sátira crítica ao momento histórico que se desenvolvia no período em que foi criado. Veja mais aqui.

O FECAMEPA & O ILUSÓRIO PARAÍSO BRASIL – [...] Em nenhuma outra região se mostrou o céu mais sereno, nem madruga mais bela a autora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é enfim o Brasil terrenal Paraiso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios, domina salutífero clima, influem benignos astros e respiram auras novissimas, que o fazem fértil e povoado de inumeros habitantes. Trechos extraídos da obra História da América portuguesa (W.M. Jackson Incorporated, 1952), do historiador, poeta e advogado português Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), uma pesquisa realizada em arquivos de ordens religiosas da Bahia, Rio de Janeiro e São Vicente, constituída de dez "livros", que tratam desde a chegada dos portugueses até as minas de ouro de Minas Gerais. Veja mais aqui.

MAIS DO PARAÍSO BRASIL – [...] Estava, agora diante de uma bandeja de queijos variados. - Ah, o Brasil, essa imensa ilha... – dizia o conde Bassuccello, entretido em cortar um pedaço de sbrinz dos Alpes. – De fato – aparteou Nepomuceno – estamos muito isolados na América. A língua mas também... – Oh, não. Não me refiro a isso, que não deixa de ser verdadeiro – retrucou o conde, acabando de mastigar. – Falo de uma dessas ilhas utópcas cuja lenda se perde na noite dos tempos. Os senhores talvez não saibam, mas o nome Brasil em geografia já existe desde o período medieval. – Mas o Brasil só foi descoberto bem depois... Não é mesmo, Herr Nepo? – admirou-se Júlia, entretida com um delicioso queijo stracchino lombardo. – Sim, mas antes do atual Brasil já existia na Idade Média uma ilha chamada Brasil – asseverou Basuccello. – Bem existiam muitas ilhas míticas imaginadas pelos povos de então. Todas representavam o paraíso terrestre, onde não haveria discórdias nem velhice nem doenças ou morte. Eram tão perfeitas que seus habitantes não precisavam sequer trabalhar para comer. Numa dessas ilhas, imaginem, as frutas caiam dope pontualmente às nove horas, para poupar os homens do trabalho de colhê-las. [...]. Trecho extraído da obra Ana em Veneza (Best Seller, 1994), do escritor, jornalista, dramaturgo, cineasta, tradutor e ativista brasileiro João Silvério Trevisan. Veja mais aqui.

O CURURUTudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes, o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-nã0-foi, tãs-tãs, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos, respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. [...]. Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já não podia andar, imobilizado; os olhos feiíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fica do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram, ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Trecho extraído de O anjo (Agir, 1959), do médico, escritor, tradutor e pintor Jorge de Lima (1893-1953). Veja mais aqui.

OS LÍRIOS - Certa madrugada fria / irei de cabelos soltos / ver como crescem os lírios. / Quero saber como crescem / simples e belos — perfeitos! — / ao abandono dos campos. / Antes que o sol apareça, / neblina rompe neblina / com vestes brancas, irei. / Irei no maior sigilo / para que ninguém perceba / contendo a respiração. / Sobre a terra muito fria / dobrando meus frios joelhos / farei perguntas à terra. / Depois de ouvir-lhe o segredo / deitada por entre lírios / adormecerei tranquila. Extraído da obra Lírica (José Olympio, 1958), da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

BRASIL - UMA PEQUENA MOSTRA DO ESTADO DE DEGRADAÇÃO DO LITORAL BRASILEIRO
sem meias palavras ando descalço
pra pisar a lavra da palavra chão
Brasil - Uma pequena mostra do estado de degradação do Litoral Brasileiro. Mostra Cinema Ambiental: 27 de janeiro, Estação 353 - Estrada do Estreito, 353 - Macuco - São Francisco do Itabapoana- RJ. Artur Gomes & Fulinaíma MultiProjetos & Studio Fulinaíma Produção Audiovisual.

Veja mais:
Dos destroços pra solidão criativa, a literatura de Fabian Dobles, a música de Rosa Passos, a fotografia de André De Dienes, a pintura de Joan Fullerton & a poesia de Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.
A mulher na Roma antiga, William Faulkner, Victor Hugo, Jacqueline Du Pre, Helena Saffioti, Brian De Palma, Jean-Baptiste Pigalle, Carmen Tyrrel, Elizabeth Short, Mia Kirshner, Lenita Estrela de Sá & Lia Helena Giannechini aqui.
Antonio Callado, Angela Yvonne Davis, Giovanni Lanfranco, Tavito Carvalho & Jane Fonda aqui.
A violência aqui.
O pensamento de Demócrito aqui.
O pensamento de Anaxágoras aqui.
O pensamento de Empédocles aqui.
O pensamento de Zenão de Eleia aqui.
O pensamento de Parmênides aqui.
O pensamento de Xenófanes aqui.
O pensamento de Heráclito aqui.
A fenomenologia de Husserl aqui.
O pensamento de Pitágoras aqui.
O pensamento de Anaxímenes aqui.
O pensamento de Anaximandro aqui.
Autoestima aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora portuguesa Paula Rego
Veja mais aquiaqui e  aqui.

sexta-feira, novembro 17, 2017

MOACYR SCLIAR, ESOPO, JULIETA DE GODOY LADEIRA, HENRIQUETA LISBOA, RENATA MAGDA & MARAIAL

E PRONDE É QUE VOU MESMO, HEM? - Imagem: Between the worlds, arte da pintora polonesa Renata Magda. - Nunca me dera por vexado de tudo, avalie, se bem que sempre entrei no mato longe demais, bicho solto não enxerga o rabo mesmo. Havia a impressão de atrasado, ô menino tonto sempre fora, correndo atrás e às pressas, não sei nem pra quê, coisa daquela de inheto de não parar quieto nem a pulso, só os mais velhos achando graça das minhas desmesuradas pelejadas. Tanto é que me davam por caçula de tudo, nem sabia que para quem engole corda e da muita, a queda é maior no espatifado. Apois, tá! Andejo, ah, sempre fujão pelas frestas das portas e brechas de portões dos jardins, esgueirando solto, rua acima, ladeira abaixo, peito aberto de beiço virado pronde davam as ventas. Logo cedo aprendi com as coercitivas lapadas, pisas às pinotadas, esfregões de repuxar o couro, beliscões e cascudos, dois metros de bico de quase de quase tombar: a vida não era bem o que eu pensava que fosse. Quando fui ver, quase à beira do abismo. Com a topada saía tirando fino, findava esfolado, samboque do couro pendurado no arame farpado, ronchas nos inchaços. Tive muito de torcer o nariz, fazer ouvidos de mouco, dar o braço a torcer e sair assobiando como se tudo aquilo nunca nem fora comigo, tá doido, nunca vi mais gordo, sabe, nem pintado a ouro, destá. Eu que me roía por dentro, cada um o Uriah Heep que merece, num é Dickens? Quantas bangueladas pro prêmio e, na tacada final, não era nada daquilo, fila errada, o prêmio era do outro lado. O pior era ter de encarar o insosso, nada que um esforçozinho a mais não relasse a casca da pereba por costume magoada e perenemente restaurada no machucão dolorido. Sempre atrasado, quando ia ver já era tarde, já tinham levado o que era bom, só sobravam porcarias pras trepeças, farelos de festa. Pra quem só se viu ao lado do bloco do eu sozinho, tive que me virar em ser a principal atração e a plateia, isso ao mesmo tempo! É-hé! Como? A-rá! Ora, cada um chuta o bombo por zabumba, mexe no triângulo, sopra no pife, assobia e chupa cana, pronto, está feito o xote pé-de-serra. No mais é só ficar decorando adivinhações e charadas, das que sejam mais caprichadas, sem que no final, pra mim, não sobre uma só que preste por enrascada. U-hu! De tanto insistir, foi aí que me tornei o cara mais sem graça do planeta. Eu que me importa! Só queria mesmo era mostrar o meu serviço e, se prestasse de mesmo, saísse com um trocadinho que fosse no bolso. Pois é, por isso vivi sempre liso como a moléstia que vem e volta pra sucumbir o enfermo. E ainda tem quem chegue implicando com lei disso, regra daquilo, código de ética, de postura, sanção como a praga, pra quê, porra? Ou a gente aprende a fazer direito, ou se não tem nada pra contar que fique calado! Cuidar do que fala, senão tem cada muriçoca indigesta, mosca graúda como a peste, que em boca fechada, já dizia o ditado, não entra mosquito nem pra indigestão! Tome tento! O que eu falei, está dito. Vamos pra outra! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: The Planets Suite, St. Paul’s Suit & Symphony in F Major The Cotswolds, do compositor, arranjador e professor inglês Gustav Holst; a interpretação da violoncelista estadunidense Alisa Weilerstein para o Concerto in D Major 1 de Haydn, Variations on a Rococo Theme op. 33 de Tchaikovsly & Hindemith Cellokonzert HR Sinfonieorchester; os álbuns Perto do coração, Mantiqueira, Só Xote e Música Popular Brasileira Contemporânea do produtor musical, arranjador, instrumentista, regente e compositor Nelson Ayres; e os álbuns Cidade Blues Rock nas Ruas & Salve a beleza da cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA lua pediu à sua mãe que lhe fizesse um vestido. – Um vestido? – perguntou a mãe, espantada. – Não é possível fazer um vestido para você, minha filha. – Por que não? – Hoje você está gorda, amanhã você está magra; um dia você é lua cheia, outro dia você é lua nova. E ainda, às vezes, não é nem cheia, nem nova. Impossível fazer um vestido para alguém como você. E como a lua teimava, a mãe acabou com o assunto: - Decida a quantas anda, antes de querer um vestido. Extraída do livro Esopo: fábulas completas (Cosac Naify, 2013), do escritor grego Esopo (620 a.C. -  564 a.C.). Veja mais aqui e aqui.

UMA HISTÓRIA SOBRE A TERRA - A Terra é o nosso mundo. O mundo tem sido nosso amigo, ele nos oferece tanto... ele nos dá cada fruta gostosa, cada tarde bonitya. Aconte que o mundo vem sendo maltratado, poluído, queimado. Pensam que ele não sofre com isso? Esta é uma história que conta como a Terra anda triste, chegando a pensar até em sumir. Não some porque existe gente mais sabida, que entra na história e não deixa que isso aconteça. Nesta aventura, de muita informação, poesia e fantasia, você vai ficar sabendo mais sobre o meio em que vivemos, sobre o ar que respiramos. E sobre a arca de Noé e os astronautas. Mistura danada: não. É como a Terra. Ela gira, gira, e as coisas mais diferentes vão acontecendo. Este livro mostra que a Terra se dá bem com a Lua, os anjos e as estrelas, mas tem medo das pessoas. A ideia, então, é fazer com que ela goste da gente, sem receio. Mas para que isso aconteça é preciso cuidar dela com amor. Recebendo cuidado e atenção, a Terra será melhor para todos nós. [...]. Extraído da obra Antes que a Terra fuja: uma história pela limpeza do meio ambiente (Moderna, 2002), da escritora Julieta de Godoy Ladeira (1927-1997). Veja mais aqui.

MARAIAL – O município de Maraial está encravada numa região que possuía palmeiras deste tipo, Maraial, dando origem à sua denominação, havendo, inclusive, registros de que uma família denominada Maraiá teria sido a primeira a se extabeler naquela locadlidade. O povoado, portanto, teve inicio com a construção da ferrovia para abastecimento de trablhadoras, sendo inaugurada a estação em 1884. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, subordinado à Palmares. Em 14 de janeiro de 1913 tornou-se vila e foi elavada à categoria de município em 11 de setembro de 1928, sendo intalado em 1 de janeiro de 1929. O município é formado pelos distritos sede e Sertãozinho de Baixo e pelo povoado de Sertãozinho de Cima. Veja mais aqui.

CANIBAL - Em 1950, duas moças sobrevoaram os desolados altiplanos da Bolívia. O avião, um Piper, era pilotado por Bárbara; bela mulher, alta e loira, casada com um rico fazendeiro de Mato Grosso. Sua companheira, Angelina, apresentava-se como uma criatura esguia e escura, de grandes olhos assustados. As duas eram irmãs de criação. O sol declinava no horizonte, quando o avião teve uma pane. Manobrando desesperadamente, Bárbara conseguiu fazer uma aterrissagem forçada num platô. O avião, porém, ficou completamente destruído, e as duas mulheres encontravam-se, completamente sós, a milhares de quilômetros da vila mais próxima. Felizmente (e talvez prevendo esta eventualidade), Bárbara trazia consigo um grande baú, contendo os mais diversos víveres: rum Bacardi, anchovas, castanhas-do-pará, caviar do Mar Negro, morangos, rins grelhados, compota de abacaxi, queijo-de-minas, vidros de vitaminas. Esta mala estava intacta. Na manhã seguinte, Angelina teve fome. Pediu a Bárbara que lhe fornecesse um pouco de comida. Bárbara fez-lhe ver que não podia concordar; os víveres pertenciam a ela, Bárbara, e não a Angelina. Resignada, Angelina afastou-se, à procura de frutos ou raízes. Nada encontrou; a região era completamente árida. Assim, naquele dia ela nada comeu. Nem nos três dias subseqüentes. Bárbara, ao contrário, engordada a olhos vistos, talvez pela inatividade, uma vez que contentava-se em ficar deitada, comendo e esperando que o socorro aparecesse. Angelina, pelo contrário, caminhava de um lado para outro, chorando e lamentando-se, o que só contribuía para aumentar suas necessidades calóricas. No quarto dia, enquanto Bárbara almoçava, Angelina aproximou-se dela, com uma faca na mão. Curiosa, Bárbara parou de mastigar a coxinha de galinha, e ficou observando a outra, que estava parada, completamente imóvel. De repente Angelina colocou a mão esquerda sobre uma pedra e de um golpe decepou o seu terceiro dedo. O sangue jorrou. Angelina levou a mão à boca e sugou o próprio sangue. Como a hemorragia não cessasse, Bárbara fez um torniquete e aplicou-o à raiz do dedo. Em poucos minutos, o sangue parou de correr. Angelina apanhou o dedo do chão, limpou-o e devorou-o até os ossinhos. A unha, jogou-a fora, porque em criança tinham-lhe proibido roer unhas – feio vício. Bárbara observou-a em silêncio. Quando Angelina terminou de comer, pediu-lhe uma falange; quebrou-a, e com a lasca, palitou os dentes. Depois ficaram conversando, lembrando cenas da infância etc. Nos dias seguintes, Angelina comeu os dedos das mãos, depois os dos pés. Seguiram-se as pernas e as coxas. Bárbara ajudava-a a preparar as refeições, aplicando torniquetes, ensinando como aproveitar o tutano dos ossos etc. No décimo quinto dia, Angelina viu-se obrigada a abrir o ventre. O primeiro órgão que extraiu foi o fígado. Como estava com muita fome, devorou-o cru, apesar dos avisos de Bárbara, para que fritasse primeiro. Como resultado, ao fim da refeição, continuava com fome. Pediu à Bárbara um pedaço de pão para passar no molhinho. Bárbara negou-se a atender o pedido, relembrando as ponderações já feitas. Depois do baço e dos ovários, Angelina passou ao intestino grosso, onde teve uma desagradável surpresa; além das fezes (achado habitual neste órgão), encontrou, na porção terminal, um grande tumor. Bárbara observou que era por isto que a outra não vinha se sentindo bem há meses. Angelina concordou, acrescentando: “É pena que eu tenha descoberto isto só agora.” Depois, perguntou à Bárbara se faria mal comer o câncer. Bárbara aconselhou-a a jogar fora esta porção, que já estava até meio apodrecida; lembrou os preceitos higiênicos que devem ser mantidos sempre, em qualquer situação. No vigésimo dia, Angelina expirou; e foi no dia seguinte que a equipe de salvamento chegou ao altiplano. Ao verem o cadáver semidestruído, perguntaram a Bárbara o que tinha acontecido; e a moça, visando preservar intacta a reputação da irmã, mentiu pela primeira vez em sua vida:- Foram os índios. Os jornais noticiaram a existência de índios antropófagos na Bolívia, o que não corresponde à realidade. Conto extraído da obra Melhores contos (Global, 2003), do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar (1927-2011) , organizado por Regina Zilbermann. Veja mais aqui e aqui.

O TEMPO É UM FIO, HENRIQUETA LISBOA
O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.
O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.
Com mais empenho
franças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.
O tempo é um fio
que vale muito.
Franças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.
O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.
Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.
Mas ainda é tempo!
Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!…
Poema do livro Poesia Geral (Duas Cidades, 1985); da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

Veja mais:

O pensamento de Lev Vygotsky aqui, aqui e aqui.
A literatura de Rachel de Queiroz aqui.
O pensamento de Jakob Böehme aqui.
A arte de Auguste Rodin aqui, aqui e aqui.
A literatura de Doris Lessing aqui, aqui e aqui.
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&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora polonesa Renata Magda.
Veja mais aqui.


segunda-feira, junho 29, 2015

ÉSQUILO, WILBER, VIEIRA, VILLA-LOBOS, HENRIQUETA, KIAROSTAMI, RUBENS, BINOCHE, EKATERINA & TOTH.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – A CULPA É DA DILMA - Lembro muito bem quando a atriz Berta Loran entrava em cena e a qualquer pergunta feita, ela respondia: - A culpa é do governo! E era mesmo. Pudera, a gente vivia uma ditadura braba, pega pra capar do estopô calango, neguinho (não só afrodescendente, mas mulato, cafuzo, branco, pardo, tudo) preso e desaparecido num piscar de olhos, e bastava qualquer sujeito biltre discordar de qualquer autoridade de carteirada, não dava outra: o Exército invadia de madrugada e pegava o cabra de pijama pelos fundilhos e dava destino certo pra tirar as medidas com missa garantida sete dias depois. Qualquer que fosse a petulância na reclamação de um direitozinho mínimo que fosse, oxe, o cara era taxado de comunista, subversivo e a chaga do cão sarnento! E não dava outra: ou desaparecia de nunca mais se ter notícia pela audácia da pilombeta, ou restava encardido por anos condenado no porão duma cadeia infecta e tão esquecido do quadro cair da parede pro resto da vida! E hoje? Tem quem ache que tá pior que isso, avalie. Na verdade, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988 – que o grande mestre Roberto DaMatta diz que foi feita pros franceses - e foi mesmo, afinal, ainda hoje tem uma tuia de gente que num sabe dum direito sequer -, que como sempre foi, só se aprende de goela adentro ou no reino da bofetada. Hoje a gente pode dizer que tudo é culpa da Dilma mesmo! Afinal foi ela que inaugurou o Fecamepa engalobando Cabral numa mutreta das grandes de chavecar os portugas pra invadir o Brasil em 1500 e ela ganhar uma comissão preta pra guardar nos bolsos; foi ela que recepcionou esses mesmo perós e ensinou a eles a afanar a Coroa lusitana, traficando 90% do que se explorava aqui e só mandando um restinho de quase 10% pra Corte; foi ela que roubou o ouro das Minas e de Serra Pelada pra usufruir quando sair dos 8 anos de governo; foi ela que numa tramoia cabeluda, reuniu igreja e maçonaria para induzir Pedro I para independência, ganhando propina das grandes no pagamento escuso pra Inglaterra; foi ela que deu uma lavagem cerebral nos positivistas e no Marechal Deodoro pra pisar a República de qualquer jeito; foi ela que trouxe a Carta del Lavoro pra ensinar Getúlio Vargas a ser o pai dos pobres; foi ela que num papel duplo se passando de esquerdista, manobrou um pool que fez com que a bronca da Petrobrás virasse golpe em 1964 – não bastando ela ficar virando a casaca, dedando todo mundo pros milicos e se passando de heroína pra botar os terroristas das esquerdas pra se escafeder; foi ela que fez o arrumadinho pra derrubar as Diretas Já e eleger Tancredo que não assumiria e, num golpe de mestre e de grandiosíssima eminência parda ensinar Sarney a como perder a caneta na assinatura dos decretos; foi ambiguamente contra o Real e ensinou FHC a privatizar, flexibilizar e terceirizar tudo; foi com um manto angelical pra se esconder da sua bruxaria que se tornou testa de ferro no governo Lula, pra findar Presidente! Enfim, digo mais: é dela a culpa da seca no Nordeste; do tornado no Sul, da chuva que cai alagando e inviabilizando São Paulo e todo país; de mandar na CBF, de ficar feliz com o fim do mundo que foi a lapada de 7 dos alemães, escalar Dunga e se lascar na Copa América; tudo isso e muito mais é culpa dela. Por isso, aí está legitimidade de se propor o seu impeachment! Agora ou nunca! Enquanto todo mundo cai de pau nisso tudo, parafraseando Xico Sá, eu digo que a coisa tá ruim mesmo e desde que nasci que ouço que a coisa tá ruim, cresci ouvindo de crise disso e daquilo e que tudo tava ruim pra burro, pra cachorro, pro diabo a quatro, e hoje não tá diferente. Descobri que a culpa é da Dilma: foi ela que estava aqui antes de eu nascer. A culpa é dela mesmo! Então vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: O Julgamento de Páris (1630), do pintor do Barroco flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo Floresta do Amazonas (1958 - Actus Classics Works, 1993), do compositor e maestro brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), com a soprano: María Luisa Tamez e direção do maestro, violinista e compositor mexicano Enrique Arturo Diemecke & Orquesta Sinfónica Nacional de México. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O PROJETO ATMAN – O livro O projeto Atman: uma visão transpessoal do desenvolvimento humano (Kairós, 1988), do filósofo e pensador norte-americano Ken Wilber, o criador da Psicologia Integral e do Movimento Integral, que concentra as ideias básicas da integração de todas as áreas do conhecimento, trata acerca do desenvolvimento da evolução como transcendência com o objetivo de alcançar Atman, que é a Consciência de Unidade Essencial é só Deus. O autor considera que todos os impulsos servem a este Impulso, todos os desejos dependem deste Desejo e todas as forças subordinadas a esta Força. E é a este movimento, em seu conjunto, que o autor denomina de projeto Atman, o impulso de Deus para Deus, de Buda para Buda, de Brahman para Brahman, impulso esse originado no psiquismo humano e cujos resultados vão do enlevado até o catastrófico. Da obra destaco o trecho: Olhemos para onde olhemos - disse o filósofo Jan Smuts - só veremos totalidades. E não só simples totalidades, mas também totalidades hierárquicas; cada totalidade forma parte de uma totalidade maior que, por sua vez, está contida dentro de outra totalidade ainda mais inclusiva. Campos dentro de campos que se acham dentro de outros campos, campos que se estendem ao longo de todo o cosmos inter-relacionando assim todas e cada uma das coisas. Mas além disso - prosseguia Smuts - o universo não é um conjunto estático e inerte –o cosmos não é preguiçoso – e sim ativamente dinâmico e inclusive, diríamos, criativo. O cosmos tende teleonomicamente (hoje em dia não diríamos teleologicamente) para níveis de totalidade cada vez mais elevados, totalidades cada vez mais inclusivas e organizadas. O desenvolvimento deste processo cósmico global no tempo não é outro que a evolução e ao impulso que conduz a unidades cada vez mais elevadas Smuts o denominou holismo. Seguindo com esta linha de pensamento poderíamos supor que, dado que a mente ou o psiquismo humano é um aspecto do cosmos, é possível descobrir nela a mesma disposição hierárquica de totalidades dentro de totalidades, de conjuntos dentro de conjuntos, abrangendo uma ampla fila que vai dos mais simples e rudimentares até os mais complexos e inclusivos. E isto é, precisamente, o que descobriu, em geral, a psicologia moderna. Nas palavras de Werner, “qualquer desenvolvimento tem lugar desde um estado de relativa globalidade e indiferenciação a outro de diferenciação, articulação e integração hierarquicamente superior”. Jakobson, por sua vez, fala “desses fenômenos estratificados que a moderna psicologia descobre no reino da mente”, nos quais cada novo estrato está mais integrado e é mais inclusivo que o anterior. Bateson chega inclusive a apontar que até a mesma aprendizagem é hierárquica e que discorre através de uma série de níveis principais, cada um dos quais é «meta» com respeito a seu predecessor. Poderíamos concluir, pois, como aproximação geral, que o psiquismo – igual ao cosmos - está multiestratificado (é «pluridimensional») e está composto de totalidades, unidades e integrações sucessivamente supraordenadas. No psiquismo humano, a evolução holística da natureza -que produz em qualquer parte totalidades cada vez mais inclusivas- manifesta-se como desenvolvimento ou crescimento. Deste modo, o mesmo impulso que deu lugar aos seres humanos a partir das amebas é o que termina convertendo o menino em adulto. Quer dizer, o crescimento ou o desenvolvimento psicológico de uma pessoa da infância até a maturidade é simplesmente uma versão em miniatura da evolução cósmica ou, dito de outro modo, um reflexo microscópico do desenvolvimento global do universo e que aponta para seu mesmo objetivo, o desdobramento de unidades e integrações de ordem superior. E esta é uma das razões principais pelas quais o psiquismo está, em realidade, estratificado. Do mesmo modo que ocorre com as formações geológicas, o desenvolvimento psicológico avança estrato a estrato, nível a nível, estágio a estágio, e o novo nível se sobrepõe sobre o anterior até chegar a incluí-lo (ou, como diria Werner, “envolvê-lo”) e transcendê-lo. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SERMÃO DO BOM LADRÃO – O livro O sermão do bom ladrão (1655) do escritor, religioso, filósofo e orador português da Companhia de Jesus, Padre Antônio Vieira (1608-1697), foi proferido na Igreja da Misericórdia de Lisboa (Conceição Velha), perante a corte de D. João VI, atacando e criticando aqueles que se valiam da máquina pública para enriquecimento ilícito e denunciando escândalos no governo, riquezas e venalidades de gestão fraudulentas. Indignado com a desproporcionalidade das punições, ele adverte quanto ao pecado da corrupção passiva e ativa, além da cumplicidade do silêncio permissivo, numa crítica ao comportamento imoral da nobreza. Da obra destaco o trecho: [...] Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. E se isto é assim, como logo mostrarei com evidência, ninguém me pode estranhar a clareza ou publicidade com que falo e falarei, em matéria que envolve tão soberanos respeitos, antes admirar o silêncio, e condenar a desatenção com que os pregadores dissimulam uma tão necessária doutrina, sendo a que devera ser mais ouvida e declamada nos púlpitos. Seja, pois, novo hoje o assunto, que devera ser muito antigo e mui frequente, o qual eu prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis. [...] Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi et publice exigunt: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: Nou cessat simul furta, vel punire, vel facere: Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. — Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só. [...] Veja mais aqui e aqui.

LÁBIOS QUE NÃO SE ABREM & AMARGURA DE MULHER – No livro Poesia Geral (1985), da poeta brasileira Henriqueta Lisboa (1901-1985), destaco, inicialmente o seu poema Amargura: Eu chegarei depois de tudo, / mortas as horas derradeiras, / quando alvejar na treva o mudo / riso de escárnio das caveiras. / Eu chegarei a passo lento, / exausta da estranha jornada, / neste invicto pressentimento / de que tudo equivale a nada. / Um dia, um dia, chegam todos, / de olhos profundos e expectantes. / E sob a chuva dos apodos / há mais infelizes do que antes. / As luzes todas se apagaram, / voam negras aves em bando. / Tenho pena dos que chegaram / e a estas horas estão chorando... / Eu chegarei por certo um dia... / assim, tão desesperançada, / que mais acertado seria / ficar em meio à caminhada. Também merece destaque o seu poema Modelagem/Mulher: Assim foi modelado o objeto: / para subserviência. / Tem olhos de ver e apenas / entrevê. Não vai longe / seu pensamento cortado / ao meio pela ferrugem / das tesouras. É um mito / sem asas, condicionado / às fainas da lareira / Seria uma cântaro de barro afeito / a movimentos incipientes / sob tutela. / Ergue a cabeça por instantes / e logo esmorece por força / de séculos pendentes. / Ao remover entulhos / leva espinhos na carne. / Será talvez escasso um milênio / para que de justiça / tenha vida integral. / Pois o modelo deve ser / indefectível segundo / as leis da própria modelagem. Por fim o seu lírico poema Lábios que não se abrem, lábios: Lábios que não se abrem, lábios / com seu segredo / calado / Segredo no ermo da noite / resiste à rosa dos ventos / alado. / Flauta sem a vibração / do sopro. / Luar e espelho, frente a frente, / em calada / vigília. / Fria espada unida / ao corpo. / Resto de lágrimas sobre / lábios / calados. / Borboleta da morte / em sorvo / pousada à flor dos lábios / calados / calados. Veja mais aqui.

PROMETEU ACORRENTADO – A tragédia grega Prometeu Acorrentado (452aC), faz parte da trilogia do dramaturgo e poeta trágico Ésquilo (525-466aC), trata da condição humana e da criação da cultura por meio do mito antigo em que Zeus, o maior dos deuses, decide acorrentar um ex-aliado: Prometeu, acusado de muitos crimes, um deles fora roubar dos deuses e dar ao homem o fogo. Porém, Prometeu guarda um grande segredo que bravata o poder de Zeus. Como insiste em não revelar, é condenado a um castigo muito mais bárbaro. Na mitologia, Prometeu era filho de Jápeto e de Ásia, irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio, e se tornou o progenitor de Deucalião. Muito amigo de Zeus, o ardiloso Prometeu ajudou o deus supremo a driblar a fúria de seu pai Cronos, o qual foi destronado pelo filho. O dom da imortalidade não o impediu de se aproximar demais do Homem, concedendo a este o poder de pensar e raciocinar, bem como lhes transmitiu os mais variados ofícios e aptidões. Mas esta preferência de Prometeu pela companhia dos homens deixou o enciumado Zeus colérico. A raiva desta divindade cresceu cada vez mais quando ele descobriu que seu pretenso amigo o estava traindo. Ao se dar conta de que estava sendo ludibriado, Zeus se enfurece e subtrai da raça humana o domínio do fogo. É quando Prometeu, mais uma vez desejando favorecer a Humanidade, rouba o fogo do Olimpo, pregando uma peça nos poderosos deuses. Zeus decidiu punir Prometeu, decretando ao ferreiro Hefesto que o prendesse em correntes junto ao alto do monte Cáucaso, durante 30 mil anos, durante os quais ele seria diariamente bicado por uma águia, a qual lhe destruiria o fígado. Como Prometeu era imortal, seu órgão se regenerava constantemente, e o ciclo destrutivo se reiniciava a cada dia. Isto durou até que o herói Hércules o libertou, substituindo-o no cativeiro pelo centauro Quíron, igualmente imortal. Zeus havia determinado que só a troca de Prometeu por outro ser eterno poderia lhe restituir a liberdade. Como Quíron havia sido atingido por uma flecha, e seu ferimento não tinha cura, ele estava condenado a sofrer eternamente dores lancinantes. Assim, substituindo Prometeu, Zeus lhe permitiu se tornar mortal e perecer serenamente. Da obra destaco o trecho: [...] PROMETEU - Dia virá em que Zeus se há de humilhar, a despeito de toda a arrogância de seu coração, por efeito das bodas que se apresta para celebrar. Essa união o derrubará, aniquilado, do poder e do trono. Então estará cumprida plenamente a praga rogada por Crono, seu pai, ao cair do trono secular. Nenhum deus senão eu poderia ensinar-lhe de modo claro como arredar de si tamanha desdita. Eu sei qual é e como conjurá-la. Assim, pois, pode ele entronar-se seguro de si, fiado nos estrondos que troam nas alturas quando brande nas mãos o dardo chamejante. Eles não lhe valerão nada para evitar a vergonha duma queda insuportável, tão potente é o adversário que ele agora para si mesmo apresta, um portento invencível, que inventará fogo mais forte que o raio e estrondo formidável maior que o trovão, e despedaçará o tridente, a lança de Posidão, flagelo marinho que abala a terra. Quando ele der de encontro com essa desgraça, conhecerá quanto vai de reinar e servir. CORO - Vamos lá! Tuas ameaças a Zeus não são mais do que desejos teus. PROMETEU - Predigo o que será e é também o meu desejo. CORO - Devemos esperar que alguém dê ordens a Zeus? PROMETEU - Sim, e que sofra penas mais pesadas que estas. CORO - Como ousas proferir semelhantes palavras? PROMETEU - Nada tenho que temer; não estou fadado à morte. CORO - Mas ele pode infligir-te suplício ainda mais doloroso que este. PROMETEU - Pois que o faça; nada me pode surpreender. CORO - Sábio quem se prosterna diante da Adrastéia. PROMETEU - Venera, implora, bajula tu o poderoso do dia. A mim me importa Zeus menos que nada. Que se avie, que exerça como quiser o seu poder de curta duração, pois não reinará sobre os deuses longo tempo. Eis à vista, porém, o correio de Zeus, o serviçal do novo tirano; por certo, vem comunicar-nos alguma novidade. HERMES - (entrando) Tu aí, velhaco, o mais intratável dos intratáveis, que lograste os deuses pondo os seus privilégios ao alcance dos seres efêmeros – estou me referindo ao ladrão do fogo – meu pai ordena que reveles qual casamento, segundo alardeias, o derrubará do poder. E nada de enigmas; fala ponto por ponto pelos termos próprios. Não me vás obrigar a uma segunda viagem, Prometeu; não é com rodeios, bem vês, que hás de aplacar Zeus. PROMETEU - Essa fala impertinente, cheia de soberba, é bem a linguagem dum lacaio dos deuses. Vós sois moços; recente, o poder que exerceis; imaginais, por isso, viver numa torre acima dos sofrimentos; já não vi eu dois reis expulsos dela? O terceiro, o atual reinante, eu o verei também cair de maneira ignominiosa e rápida. Pensas que temos os novos deuses e me encolho diante deles? Para isso falta muito; melhor, falta tudo. Desanda ligeiro o caminho por onde vieste, que de mim nada saberás do que indagas. HERMES - Semelhantes insolências já te trouxeram a ancorar neste suplício. PROMETEU - Pois saibas sem sombra de dúvida que eu não trocaria minhas misérias pela tua servidão; acho preferível estar escravizado a este penhasco a ser o mensageiro fiel de Zeus teu pai. A injúrias responde-se assim, com injúrias. HERMES - Pareces orgulhoso da tua situação. PROMETEU - Orgulhoso? Orgulhosos assim tomara visse eu os meus inimigos – e incluo-te nesta conta. HERMES - Culpas a mim também de teus desastres? PROMETEU - Francamente, odeio todos os deuses; devem-me favores e pagam-me com iniquidade. HERMES - Ouço palavras de louco, e a moléstia é grave. PROMETEU - Moléstia será, se odiar os inimigos for insânia. HERMES - Serias insuportável, se houvesses triunfado. PROMETEU - Ai de mim! [...]. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

COPIE CONFORME – O filme Copie conforme (Cópia fiel, 2010), do premiadíssimo cineasta, poeta, roteirista, produtor e fotógrafo iraniano Abbas Kiarostami, conta a história do encontro entre um autor britânico que acabou de fazer o lançamento do seu livro, e uma mulher francesa que é dona de uma galeria de arte numa pequena aldeia da Toscana. Destaque para a lindíssima atriz francesa Juliette Binoche que arrebatou com este filme o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2010. Durante a premiação ela protestou chorando contra a prisão do diretor Jafar Panahi pelo governo do Irã, em 2010, influenciando o governo a soltá-lo dois meses depois. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do cartunista, ilustrador e desenhista de animação estadunidense Alex Toth (1928-2006)

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Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, Literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, a pintura de Artemísia Gentileschi & Tom Wesselmann, a música de Sky Ferreira, a arte de Jean Cocteau & Luciah Lopez aqui.

E mais:
Caraminholas do miolo de pote, Escritos de Guillaume Apollinaire, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a pintura de Marie Fox, a fotografia de Jim Duvall & a arte de Luciah Lopez aqui.
O sábado é dia de amor & poesia aqui & aqui.
Fecamepa, Gestalt-Terapia de Friederich Perls, Novelas de La Fontaine, As rosas do cume de Laurindo Rabelo, Auto da alma de Gil Vicente, Crônica da cidade amada & Procópio Ferreira, a música de Diversões Lúdicas, a pintura de Ignaz Epper, Brincarte do Nitolino & Cia Ópera na Mala aqui.
O trâmite da solidão, O espectro da fome de Josué de Castro, a pintura de Mercedes Sosa, A Ilíada de Homero, Ana Botafogo In Concert, Conversação noturna & Martha Angerich, a pintura de Tamara de Lempicka, a arte de Eliezer Augusto & a poesia de Genesio Cavalcanti aqui.
Doro & a copa do mundo, Fritz Perls, Procópio Ferreira, a música de Moraes Moreira & Programa Tataritaritatá aqui.
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A Filosofia & História das calamidades de Abelardo, Nara Salles, Projeto Carmin & Cruor Arte Contemporânea aqui.
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A donzela arrevesada de Hermilo Borba Filho, a poesia matuta de Rubão, Dr. Zé Gulu & papos do Doro aqui.
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Betúlia, a belezura e os restos nos confins do mundo, Evolução e sentido do teatro de Francis Fergusson, Porto Calendário de Osório Alves de Castro, Kadish de Allen Ginsberg, a fotografia de Claudia Andujar, a pintura de Federico Beltrán Massés & Fayga Ostrower, a música de Consuelo de Paula & Iemanjá, Mãe D’Água de Petrolina - PE aqui
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...