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quarta-feira, janeiro 16, 2019

GUATTARI, MAYARA MAGRI, GILBERTO MENDONÇA TELES & CAMÕES CAMONGE


AS PRESEPADAS DE CAMÕES CAMONGE – Muitas me contaram desde menino das presepadas de Camões e Camonge que, no frigir, era um só. Lembro-me bem de algumas delas, outras nem tanto. Só sei que ria demais, quantas lorotas versejadas ou amiudadas jocosamente sobre mulheres perdidas e taradas, viúvas reboculosas e prinspas afogueadas; muitas pinoias sobre princesos destronados, cavalo-mago, pederastia, fodelança, vivacidade, acerto de contas, quiprocós e lá vai teibei, tudo levado no tom do risível para entretenimento das patotas mais libertinas. Aquela mesmo dele entrar num desafio com um sábio que expôs uma maçã e ele, em resposta, um pão. Depois um dedo, ele dois; três dedos e ele a mão fechada como enfiando, remexendo e, por fim, dando uma banana. O sábio reconheceu ser ele a maior sabedoria já encontrada. E não era, né? Quem sabe dessa vai achar arretada a anedota. Também a que ele aprontou com o padre: precisando de dinheiro, achou ele de cagar na frente da catedral da matriz. Excretando aquele tolotaço, colocou o chapéu por cima, escondendo o crime. Lá vinha o padre: Meu filho, aquele chapéu num é seu? É sim, senhor. Oxe, por que não o põe nesse sol quente? É que peguei um passarinho e quero achar uma gaiola. Um passarinho? Sim, uma sabiá que além de cantora é compositora, das boas. Ah, quer vender? Vendo. Pago 100. Se me der 200 tá fechado. Então vá pegar a gaiola na casa do sacristão. Só se o senhor me pagar logo e emprestar o cavalo para eu ir buscar lá. Então, tá. E lá foi ele atrás do sacristão. E demorou, nem voltou mais. O padre perdeu a paciência e quanto foi pegar o passarinho, melou as mãos na maior fedentina. Amaldiçoado! Fidapeste! Uma senhora ia passando: Padre, chamando nome feio? Ora, ora. Ah e as apostas dele com o rei, venceu todas. Findou numa trama de ser aprisionado num saco e levado por caboetas para ser jogado num poço fundo. No meio do caminho, pararam para descansar. Aproveitando-se disso, ele começou a gritar que não queria casar com a filha do rei. Um boiadeiro ia passando e ouviu aquilo: Como é que é, hem? Tô nesse saco porque não quero casar com a prinspa! Oxe, eu quero. E libertou Camões Camonge e ficou no lugar dele: Eu quero casar com a filha do rei! Eu quero! A trupe dos capangas quando viu aquilo, sacudiu-lo no poço e era uma vez. Por sua vez, Camões Camonge saiu com uma boiada bonita e foi mostrar ao rei: Como pode você estar aqui? Ah, Deus ajuda a quem só faz o bem. Como assim? Fui jogado num poço dentro de um saco e cada vez que eu dava uma timbungada pegava um boi e sou dono, agora, dessa boiada. Ah, eu quero, vá me bote num saco e me jogue nesse poço. Ora, o senhor já é rico, tem tudo! Quero mais, vá! Olhe lá, seu rei. Vá, tô mandando. Tudo bem. O rei mandou a cabroeira carregá-lo até o poço que jogaram o suposto Camões e, como líquido e certo, era uma vez um rei. E Camonge casou com a rainha. Aí veio a festa no céu. Seguinte: São Pedro estava recebendo muitas reclamações dos animais. Ele foi ter com o Todo-Poderoso que disse que ele resolvesse com os animais, que não mudaria nada da sua criação. São Pedro então resolveu convidar todos os animais, excetuando os macacos que são trelosos demais e os cachorros que na horagá do metiê fica enganchado na cadela. Aí Deus, justo como sempre, disse: Ou faz uma festa para todos ou para nenhum. Atrapalhou os planos de São Pedro. Aí lá vinha Camões Camonge recebendo reclamação dos cachorros e macacos, então sabendo da armação do santo: Ah, isso não pode. Vamos lá. E foi interceder em favor deles. Subiu pro céu e lá foi logo dizendo: Queéqueéisso, SumPedo? Ah, não se preocupe, eles já podem entrar, Deus liberou. Os cachorros mais que afoitos logo tentaram entrar, mas foram barrados! São Pedro advertiu: Só se deixarem o fiofó pendurado na entrada para não atrapalhar a festa. Aí cada cachorro foi, pendeurou o oiti-goroba lá no cabide certo e danou-se lá pra dentro, deixando Camões Camonge do lado de fora: Bando duns fi duma chola perdida. Aí, armando das suas, reuniu os macacos e cochichou: Quando vocês entrarem, troquem os frosquetes dos cachorros, uns dos outros; eles vão ver. Assim fizeram: trocaram os furicos dos cachorros e saíram aprontando das suas no meio da festa. Três dias depois, os cachorros saíram com o toba trocado, um cheirando o cu do outro para conferir até hoje. Camões Camonge só na risada! Ah, depois conto mais, tá? Vamos aprumar a conversa, fui! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Estamos diante de uma escolha ética crucial: ou se objetiva, se reifica, se “cientifica” à subjetividade ou, ao contrário, tenta-se apreendê-la em sua dimensão de criatividade processual. [...] A análise não é mais interpretação transferencial de sintomas em função de um conteúdo latente preexistente, mas invenção de novos focos catalíticos suscetíveis de fazer bifurcar a existência. Uma singularidade, uma ruptura de sentido, um corte, uma fragmentação, a separação de um conteúdo semiótico – por exemplo, à moda dadaista ou surrealista – podem originar focos imitantes de subjetivação. [...] Cabe à função poética recompor universos de subjetivação artificialmente rarefeitos e re-singularizados. [...] O capital esmaga sob sua bota todos os outros modos de valorização. O significante faz calar as virtualidades infinitas das línguas menores e das expressões parciais. O ser é como um aprisionamento que nos torna cegos e insensíveis à riqueza e à multivalência dos universos de valor que, entretanto, proliferam sob nossos olhos. [...] a máquina fala com a máquina antes de falar com o homem e os domínios ontológicos que ela revela e secreta são, em caso, singulares e precários. [...].
Trechos extraídos da obra Caosmose: um novo paradigma estético (34, 1992), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A premiadíssima jovem bailarina brasileira Mayara Magri é a primeira solista do The Royal Ballet. Nascida na comunidade carente de Maracaí, num morro do Rio de Janeiro, conseguiu iniciar seus estudos artísticos por meio do projeto social “Dançar a Vida”, que beneficia crianças e adolescentes moradores das comunidades carentes da Tijuca, no Rio de Janeiro, com dança e arte. Daí ela ganhou uma bolsa de estudos aos oito anos de idade, seguindo para a P'tetite Danse School, no seu estado. Depois ganhou o Senior Age Division do Youth America Grand Prix e o Prix de Lausanne Scholarship and Audience Prize em 2011. Em seguida foi para a The Royal Ballet School e se formou na Companhia em 2012. Ela foi promovida a First Artist em 2015, a Soloist em 2016 e a First Soloist em 2018. Hoje ela conta com 25 anos de idade e segue conquistando o mundo com a sua arte. 
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O MITO CAMONIANO DE GILBERTO MENDONÇA TELES
[...] A existência no folclore brasileiro de entidades de natureza pícara, como a de Pedro Malasarte, do "Menino Sabido", da raposa, do coelho, do jabuti (que vence pela astúcia), misturada com as personagens de natureza mítica, como o Saci, o Caipora, o Romãozinho e tantas outras, concorrem para a criação de uma figura móvel e generalizada que age como anti-herói, juntando astúcia e malandragem, inteligência e sensualidade e dando esse notável sincretismo mítico-lingüístico do Nordeste - o Camonge, mistura dos significantes e dos significados concernentes a Camões e a Bocage. Daí, se não um "ciclo", pelo menos uma "corrente" camoniana na literatura oral e de cordel do Nordeste brasileiro, onde se criam, talvez por compensações biográficas, alguns parentes (irmão, filho) de Camões. Vejamos então como através desses aspectos o nome e a obra de Camões se foram "da lei da morte libertando" e se tornando cada vez mais popular, embora, como o confessava Mário de Andrade, a obra mesmo nem sempre tenha sido convenientemente lida e estudada. [...] E se há realmente um episódio a que ele está preso, só pode ser o do Camões cuja vida foi cheia de contrastes: de gentil-homem e trinca-forte, de herói e mendigo, de soldado e náufrago. Esses elementos biográficos juntaram-se aos elementos antitéticos da epopéia (sobretudo os da luta de mouros e cristãos) e ganharam repercussão na alma coletiva [...] De qualquer forma, o termo é o mesmo - um Camonge cujo significante e significado provém da mistura mitológica de Camões e Bocage, os escritores portugueses que mais atuaram na cultura popular do Brasil. [...]
Trechos de O mito camoniano: a influência de Camões na cultura brasileira (Revista de Letras, 1980/81), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles. Veja mais Lendas aqui e aqui. E mais do autor aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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segunda-feira, março 13, 2017

GILBERTO MENDONÇA, ORLANDO ALVES, LIA RODRIGUES, BELLE CHERE & DAVID NGO, NÚBIA VÍTOR SOUZA




TODO DIA O PRIMEIRO PASSO - O embalo dos sonhos constrói uma entre tantas metas, a escolha entre muitos objetivos: ser isso ou aquilo, ou. Qual? Este ou aquele, ou aqueloutro? Dúvidas permeiam sempre, mesmo assim, tem de se fazer alguma coisa na vida. Pitacos e simpatias se misturam, opções da muita, conselhos persuasivos, alguns sensatos, diversos nem tão simpáticos, o uso do discernimento. Chega a hora de dar o primeiro passo, senão sempre: a razão de levantar de manhã e ter algo pra fazer na ciência de que no reino do efêmero nada é definitivo, nada mais. É preciso fazer alguma coisa, executar uma tarefa, desenvolver projetos, empreender esforços para alcançar a meta e o sucesso pra ser feliz, ah, felicidade no garimpo das pepitas da recompensa, oh não se revele prêmio quimérico de uma grande ilusão. Agora é realizar: dar o primeiro passo. Esquecer quantos outros passos foram dados ao fracasso ou não levaram a lugar algum, ou às quedas e tropeços, às desistências e constatações de que se não deu certo, por certo, houve algum equívoco ou erros na travessia, algo do desleixe ou do despreparo. Agora não, ou se está pronto ou nada, ir em frente: pra quem vai há sempre o caminho da volta. Vale o desafio e a excitação, dúvidas e trajetos: quem faz pode desfazer ou refazer, ou deixar como está, se aprouver. É só começar, mesmo que não se saiba pra onde, a expectativa da chama entre armadilhas, resistências, obstáculos, árduos despenhadeiros à luz das possibilidades e limitações. É seguir até as fronteiras, sobrepujar precipícios: só sabe o acerto quem provou do errado e, quem sabe amanhã, um seja o outro e vice-versa. Vale a tentativa, ascender ou não é por conta do aprendizado, até mesmo diante da intolerância ao heterodoxo, mesmo quão paradoxal se pareça. Aonde vai, quem sabe, a andança é chegar lá, alhures, o que não significa o fim, pode ser o ponto de partida, a vez do recomeço: não há repouso pras novas satisfações. Ir adiante e além por mais difícil que seja, ao longe. Ao final, resultados e avaliações, depois do intermitente e culminante prazer, o vento apaga as pegadas e, ao invés do alívio da conquista, o vazio. Não era bem isso o que se queria e, à beira do desânimo, o que era o triunfo aos olhos, reduziu-se a nada. Pode ser tudo, ou não. É hora de recomeçar, rever a jornada é o que importa, o valor da caminhada seja pra onde for, não mais o destino que é apenas um passo e a lição: a cada passo a subida na escalada, a cada dia o cume de uma montanha. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo as obras Fantasia (1997), Invariâncias (2003), Disposições Texturais (2003), Inserções I, II, III e IV (2005), Sincrofonia I e II (2004-2005), Pantominas I, II, III e IV (1997-2001), entre outras, do premiado compositor erudito, professor da UFPb e coordenador do Compomus, José Orlando Alves.

Veja mais sobre:
Carl Gustav Jung, Giórgos Seféris, Euclides da Cunha, Mario Vargas Llosa, Fito Páez, Cacaso, Anne Rice,Alexej von Jawlensky, Antônio Conselheiro, Flávio de Barros, Dana Delany & Big Shit Bôbras aqui.

E mais:
Sócrates & a sofística no pensamento grego aqui.
Pirangi, Rabelais, Máximo Gorki, Jocy de Oliveira, Cícero, Ítala Nandi, Patrice Chéreau, Konstantin Razumov, Kerry Fox, Tchello D´Barros & Família Eudemonista aqui.
A justiça & a injustiça aqui.
Violência aqui.
O pensamento de Demócrito de Abdera aqui.
Serviço Público & Nênia de Abril aqui.
O pensamento de Anaxágoras de Clazomena aqui.
Aprumando a conversa na volta da Teibei & lorotas prontas do Brasilsilsilsil aqui.
O pensamento de Empédocles de Agrigento aqui.
O pensamento de Zenão de Eléia aqui.
Do que foi pro que é quase nada, Friedrich Nietzsche, Vaughan Williams, Suzanne Valadon aqui.
Coisas do sentir que não são pra entender, Marco Túlio Cícero, Emil Nolde & Nivian Veloso aqui.
O que é de sonho quando real, Yukio Mishima, Marisa Rezende & David Alfaro Siqueiros aqui.
O beijo dela de sol na minha vida de lua, José Régio, Ceumar & Luciah Lopez aqui.
Gato escaldado pra se enturmar é um pé na frente e outro atrás, Sonya Bach, Mariana Beltrame & Umberto Boccioni aqui.
Odisseia de um curau no Oriente Médio & Alexej von Jawlensky aqui.
Fecamepa aqui.
Um verso desesperado de amor, Raymundo Alves de Souza & Programa Tataritaritatá aqui.
As cinzas de Gramsci, de Pier Paolo Pasolini aqui.
Epigramas de Goethe, Seminário de Lacan, Princípio do Prazer de Freud & Produtos CCE aqui.
Poema em linha reta & outros poemas de Fernando Pessoa aqui.
Tomás de Iriarte, Gerusa Leal & Programa Tataritaritatá aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
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O premiado espetáculo Aquilo de que somos feitos (2000), da Lia Rodrigues Companhia de Danças, criação da coreógrafa e artista Lia Rodrigues, com música de Zeca Assumpção.

DESTAQUE: UN PAS DE TROIS, DE GILBERTO MENDONÇA TELES
Houve um reino qualquer e três sereias
Que afinavam seu canto na linguagem:
A virgem, a casada e a que passava seus dias na janela.
E havia a forma de sirene e silêncio, essas metades,
Renda de bilro, milongagem, força oculta e sem governo,
Latejantes nas têmporas do mito.
A primeira voltou à sua estância,
Leu Bandeira, fez versos, desnudou-se.
E, cumprindo o ritual, como sereia,
Foi banhar-se num rio de água doce.
A segunda voltou-se para o mar,
Tomou banho lustral de fevereiro,
Fez cirandas na area e ouviu lendas
Da lira pendurada no coqueiro.
A terceira me deu esta janela
Com desenho de peixe na vidraça.
E está acenando lá fo fundo
Do rio que não passa.
Un pas de trois, poema do livro Coreografia do Mito, extraído da obra Hora aberta: poemas reunidos (Vozes, 2003), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Teles. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da modelo e atriz Belle Chere na fotografia de David Ngo.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à amiga pedagoga especilista em Psicopedagogia e Funcionária Pública Maria Núbia Vítor de Souza.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.

domingo, setembro 04, 2016

JOHN POWELL, GILBERTO MENDONÇA, OTTO LARA, LUIZ DE AQUINO, CARMEN TYRRELL, PATRÍCIA JORDÁ & MONA GADELHA

QUEREM ME MATAR!!!!! - Duas razões incontestáveis deram ao Doro motivo suficiente para que chegasse a uma conclusão drástica e trágica na sua vida. A primeira, num chamego medonho, aos fungados no cangote e xambregado miudinho no maior rastapé com uma distinta reboladeira salão adentro, eis que, de supetão, dona Marcialita pegou-lo no flagra com tudo dele dentro da botija da moça! Um escândalo! Findou caçarolada com mãozada de pilão no quengo do rapaz, vitimado por um chute bem dado na bunda dele, de quase se desmantelar com dor no osso do mucumbu: - Ela quase me arrebenta os quibas! Sacudido à força no meio da rua, começou a desconfiar que os brucutus irmãos dela queriam desforra de arrancar sua pele fora. Coisa de louco. Ah, a segunda e não menos grave, foi que ele cheio dos quequeos inventou de recuperar sua popularidade com o eleitorado que andava minguado pras suas bandas, num comício relâmpago em cima dum tamborete, arreando a lenha na reputação do prefeito e, por extensão, esculhambando a patota das autoridades locais que viviam mancomunadas feito lambecus do chefe da administração municipal. O negócio ficou feio dele se ver aos empurrões duns brutamontes que, na verdade, queriam capá-lo por ordem superior. Pé na bunda, meu. Sem parentes nem aderentes, passou a viver na rua caçando lugar seguro pra dormir. Eram sonos sobressaltados, agonias noturnas assaltando seus sonhos, vivendo carregado de sofreguidão. Sabia que estava sendo perseguido, não conseguia identificar quem. Pra onde fosse, tinha a certeza de que alguém estava com ele em mira, seguindo todos os seus passos. Incomodava não conseguir sacar qual o inimigo, tinha sempre a percepção de que era o alvo e que, a qualquer momento, investiriam contra ele. Dia após dia nesse estado e foi se tornando a sua paranóia. Desconfiado, seguia digitígrado e espaventado pelos cantos hora que fosse do dia ou da noite, furtivamente encostado às paredes, com a bola dos olhos dum lado pro outro, ligado em tudo e se precavendo de qualquer tocaia. Que desassossego. Quase não conseguia mais dormir, assustando-se até com seu próprio ronco. Tanto é que certa noite, ele aos gritos: - Querem me matar! A cidade inteira acordou com seus berros. Deram-lhe um imprensado dele ficar completamente transtornado: - Não me mate, agora não! Oxe, o cabra estava desmiolado, todo mijado e cagado de medo. – Esse tá doido! Leva pra Tamarineira! Dia desse mesmo vi-lo passar denunciando que a Nasa queria capturá-lo por suas descobertas ocultas. Coitado, dizem que a política comeu seu juízo e agora vai ter de esperar a outra, porque nessa eleição, ele já está impugnado por antecipação: tornou-se inimputável! E ele: - Pelo menos não sou filho da outra, só tô enjeitado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais das Trelas do Doro aqui e aqui. 

 Curtindo o álbum Praia Lírica, um tributo à canção cearense dos anos 70 (Brazilbizz, 2011), da cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha.

PESQUISA:
[...] Como um jogo, a preocupação é uma maneira imatura de se lidar com as dificuldades. O preocupado geralmente entra num círculo vicioso: vai e volta várias vezes ao mesmo tema sem chegar a lugar algum (ao final, no entanto, pode desenvolver uma úlcera). Repete inutilmente seu problema; ensaia diversas alternativas sem se decidir por nenhuma; enumera todas as possíveis consequências de cada alternativa várias vezes. O preocupado talvez se sinta culpado por não fazer alguma coisa construtiva, assim ele faz alguma coisa: preocupa-se. Em termos psicológicos, a preocupação está relacionada à ansiedade que resulta de uma sobrecarga de emoções reprimidas (por exemplo, a hostilidade com ou sem qualquer ameaça externa). O preocupado crônico se sente aflito sem saber o quê o está incomodando realmente. As pressões internas de emoções reprimidas nem sempre precisam de estímulos externos para produzir essa condição de desconforto. É um dos altos preços que pagamos pela repressão emocional.
Trecho extraído da obra Por que tenho medo de lhe dizer quem sou?: insights a respeito do autoconhecimento, do crescimento pessoal e da comunicação interpessoal (Crescer, 1989), do professor e jesuíta humanista estadunidense John Powell.

LEITURA 
A minha vida foi sempre assim / me fecharam um porta / eu abria outra / me fecharam uma porta / eu abria outra / me fechavam uma porta / eu abria outra / a minha vida foi sempre assim / só abrindo as portas que não tem fim.
As portas de ouro que se vão abrindo, poema extraído da obra Hora aberta: poemas reunidos (Vozes, 2003), do poeta, advogado e professor universitário Gilberto Mendonça Teles, que tive oportunidade de entrevistar em 2003. Veja aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: 
[...] De tanto ver, a gente banaliza o olhar – vê... não vendo. Experimente ver, pela primeira vez, o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é: o que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa retina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que você vê no caminho, você não sabe. De tanto ver, banaliza o olhar. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o porteiro. Dava-lhe bom dia e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro faleceu. Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos nunca conseguiu vê-lo. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se, um dia, e, seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser, também, que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver: gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos  para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez, o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que raramente vê o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos... é por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Vista cansada, crônica extraída da obra Bom dia para nascer (Folha de São Paulo, 1993), do jornalista e escritor Otto Lara Resende (1922-1992), a quem o dramaturgo Nelson Rodrigues homenageou no título de uma de suas peças: Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Cenas da peça teatral Vooyeur (Sólo puedes mirar), escrito pela atriz espanhola Patrícia Jordá, encenada pelo Teatro Infanta Isabel.

Veja mais sobre Coágulos, coágulos, Marilena Chauí, Sacha Guitry, António Nobre, Antonin Artaud, Anton Bruckner, Dominique Ingres, Pola Ribeiro, Angeli & Literatura Infantil aqui.

E mais: Matizes, Eurípedes, Jean de La Fontaine, Luís da Câmara Cascudo, Celine Imbert, Clítia, o Cartesianismo Científico, Woody Allen, Gustave Courbet, Hans Hassenteufel & A morta que virou rainha aqui.

DESTAQUE
 Há sede de sedas, / de verbos, de versos. / Bastam-nos os sons / das unhas nas sedas, / de arrulhos nos versos, / de bêbados verbos / que entornam-me o cálice, / derramam metáforas, / embebem-me o poema. / As musas que me dessedentem.
Sede e seda, poema do escritor, jornalista e professor Luiz de Aquino Alves Neto, editor do blog Pena & Poesia.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Female nude – fiogure 4, by Carmen Tyrrell.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...