terça-feira, outubro 23, 2007

PROEZAS DO BIRITOALDO


PROEZAS DO BIRITOALDO

III

Quem é bom já nasce troncho, apesar da água benta no quengo do sopiado


Quem testemunhou o inusitado nascimento do Biritoaldo não ignorará, por certo, as sapecagens que ele será capaz de, num triz de raio, montar e desfazer.
Não fossem a bem-aventurada índole e paciência de Ancheta e Terência, vizinhos de boa cepa, não se deixaria por irrelevante e na conta do menos, a presepada do desinfeliz de invadir o domicílio alheio, além do sacrossanto leito matrimonial deles, de forma tão impune quanto folclórica se tornara pela sucedência corriqueira dos fatos.
O mancebo, depois de tudo, ainda expunha fisionomia lisa que só cara de anjo que nada fizera de demais então. No entanto, quem conhecera a maneira insólita de como abriu a porteira do mundo, num berreiro sem precedentes e da forma desalinhada em que se encontravam os planetas, propiciando augúrios e encantamentos, certifica-se, de antemão, dos maus bofes que dotara aquele arteiro, bruguelo de uma figa.
Um maloqueiro, deveras, destamaínho, já se insinuava quando gostava de tirar catôta da venta e ficar amolegando entre os dedos e depois engolir a bolotinha. Eca!
- Palmatória não é santa, mas obra milagres! -, ameaçava a progenitora devido o mau costume do menino.
O danado, desde miudinho, parecia que tinha um cotôco no rabo de tanta travessura e de não parar quieto em canto algum. Era todo levado da breca.
Quando os pais chegavam com a feira, ele saía espragatando tomates, laranjas, cajús, frutas outras e verduras tantas, deixando a sala da casa toda meleguenta com seu pesunhado. Ou então, tomava da vassoura e saía sacudindo as panelas penduradas na prateleira das caçarolas. E não se intimidava: fazia das portas da petisqueira o seu balancim. Tei bei! E era uma vez pratos, xícaras, talheres, tudo espatifado no chão com a queda do móvel em cima dele. Nem chorar, chorava.
Pouco? Não podia ver gaiola no alpendre que jogava pedras, passarinho fugia e ele com um bodoque para derrubar o avoador.
Outra? Era muito comum, nas horas de aperto, sacar do urinol e ficar cantando, horas e horas ali, enchendo a privadinha.
- Mama, sodado! Mama, sodado!
A mãe gritava aflita. O menino com o penico na cabeça e a merda rala escorrendo pela cara sebosa. Eita!
Doutra feita queria do sabonete seu patim, levando um escorregão de abrir duas janelinhas no meio da boca: o sangreiro espirrou pela casa toda. E bote emboança nisso.
Para não perturbar a paz alheia, foi que a mãe, com a sua premonição peculiar, dava de amarrá-lo aos pés da mesa, tudo para conter a travessura do peralta reinante.
Ora, piscou de um olho, estava a mesa escangalhada no meio de um farelo que virara os pratos e utensílios de louça que lá se depositavam.
Bisquís? Quantos houvessem ele varria com ira aos baques do rodo.
Brinquedo? O negócio dele era ver a queda dos outros.
Visse um portão aberto, hum, só encontrava esgueirado depois de tantos quarteirões numa carreira de levantar poeira.
Quantas e quantas vezes não matou a mãe de vergonha numa carreira desabalada, até ser capturado horas depois e ficar levantando a saia da genitora para se desvencilhar da pisa ali na hora.
- Óia a caçola dela! Óia a caçola dela!
E todo mundo olhando, no meio da rua, aquele espetáculo.
O quê? Um beliscão parecia uma pisa de dez horas de tanto soluço. Chorava mais que cachoeira das Sete Quedas.
Mais? As amigas nem podiam visitar a mãe porque morriam de vergonha. Ruborizavam cada vez que ele, alegando calor ou se fazendo por doente, deitava no chão só para ver os fundilhos das tias. Adorava ele ficar investigando as intimidades delas.
- Esse menino tem um vício feio, mulher!
- Um é pouco!
- A quem será que ele puxou, deus meu?
A tia Nevinha era a maior vítima dele. Saísse ela do banheiro do banho, ele tramava temor da rua e se escondia - zapt! - por baixo da toalha, mexendo na aranhola dela.
- Sai prá lá, menino! -, e não adiantava ralhar, ele nem aí.
Mal ele começara a balbuciar algumas sílabas e já pedia o que lhe viesse na telha.
- Tia, dêisa eu pedar no teu pitito!
- Tome jeito, cabra!
- Tia, dêisa eu pedar no teu pitito!
- Num amola, menino!
- Deixa de encrencar com o menino, Nevinha -, reclamava o pai.
- Ele é bom, come sal com ele, vai!
E por falar nisso, não tinha fastio algum. Amolava os dentes direitinho. Era o primeiro a sentar à mesa, ficar enfiando o dedo em tudo e o último a sair puxado pelas orelhas. Certa feita queimara os dedos na sopa.
- Tá tente! Tá tente!
Disso aprendera logo uma lição, mas me diga quem não viu pau nascer torto num morrer envergado?
Pois bem, chegou a hora, enfim, do batizado do bruguelo. Padrinho que era bom, nem dera as caras. Ficara apadrinhando o treloso apenas a avó e a tia Nevinha, as corajosas. O vigário que ali realizava o sacramento inicial de todas as religiões cristãs, se arregalava a cada travessura do pestinha. Foi que o chupêta virou a igreja de pernas pro ar, imagem no chão, banquetas desviradas, ritual atropelado e, de tanta peraltice, água benta que já era, veio então um bule quente e batizou-lo ali mesmo. Fora o sacristão que escorregara numa casca de banana que o trastezinho havia jogado no assoalho do templo. Queimou-se em terceiro e quarto graus da fervura do bule.
E vem mais por aí, aguarde no próximo capítulo.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo.

VEJA MAIS:

Fecamepa, Arthur Schopenhauer, Comenius, Luís da Câmara Cascudo, Malcolm Liepke, Júlia Lemmertz, Brian De Palma, Rebecca Romijn, Edward Hopper, Sandra Duailibe & Wanderlúcia Welerson Scott Meyer aqui.


Egumbigos no país dos invisíveis, Frédéric Chopin, Marcial, Tzvetan Todorov, Jacques Rivette, Artur Moreira Lima, Oduvaldo Vianna Filho, Jane Birkin, Sandro Botticelli & Carmen Silvia Presotto aqui.  


Fernando Pessoa, William Shakespeare, João Ubaldo Ribeiro, Charles Chaplin, Humor e educação, Michael Ritchie, Jeremy Holton, Connie Chadwell & Marilyn Monroe aqui


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU TATARITARITATÁ
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.

RILKE, HUYSSEN, MARIA IGNEZ MARIZ, ANTÔNIO PEREIRA, LUCIAH LOPEZ & ARTE NA PRAÇA

PRIMEIRO ENCONTRO: MEU OLHAR, SEU SORRISO – Imagem: arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez . - Da tarde a vida fez-se ...