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domingo, maio 22, 2016

ÍTALO CALVINO, JOSUÉ DE CASTRO, ANGELA GHEORGHIU, BÉCAT, RENÉ MELS, EVELYN BENCICOVA & POESIA GREGA


FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DO TEMPO DO RONCA - Uma dor de cabeça e Zé Corninho quase doido. Uma causa, todos sabiam, ele também: as gaias dando curto circuito no quengo. Dessa vez, só isso não. Já se dava por hipocondríaco de tantos médicos consultados, meio mundo de cachete e nada: uma dor crônica. Já desconfiava em dar razão pra mundiça. Para ele, a essa altura do campeonato, só Padre Bidião ou doutor Zé Gulu de todas as ciências que resolviam. Logo, o mais fácil. Na porta do bar, soube que o doutor arribara carregado duns braquearos pra carburar as ideias com uma pilha de livros e uma reboladeira dengosa pro furunfado lá pras bandas duma ilha deserta. Já o padre Bidião, tomou ciência de que ele andara envultado no seu disco voador a dar trabalho à humanidade. E agora? Doro sugeriu Mãe-Lena, uma raizeira afamada que era tida por malquista catimbozeira pra população em peso. Quem? Vou nada! Ela vivia num conluio de décadas com o não menos doutor Baita, um farmacêutico que possui uma drogaria que vendia de tudo: desde raiz de pau a veneno de última geração – incluindo antraz, tabum, sarin e outras reengenharias químicas inventadas por ele e mais eficientes, só vendidas pra exportação pros gringos em guerra. Da união escondida entre ambos, nasceu um menino mais conhecido por O homem da cobra, propagandista do principal produto da botica: a salsa, caroba e cabacinha – a panaceia para todos os males. Tá doido? De primeira, o enfermo refugou: vai que ela prescreva lacrau prele comer e, ao invés de curado, ele morresse envenenado. O pariceiro persuadiu o renitente adoentado que a dita cuja era perita na cura de todas maledicências da face da Terra, vez que vem gente até do exterior pra se tratar com ela. Prova disso, era o fato de que fora ela a responsável pela saúde do ferro do padre Bidião: - Você já viu o padre arriado alguma vez? Deveras, o padre arrotava saúde. Como também o próprio Doro, testemunha viva das artes da benzedeira, isso desde que fora tratado, nunca mais soube o que era a tal da doença. Zé Corninho apertou o juízo, remexeu na cachola e mesmo com o juízo trabalhando na baixa, resolveu topar a coisa. Chegando lá, a prestimosa curandeira fez um exame detido da situação do acamado a base de passes e rezas, chegando ao diagnóstico que ele estava achacado dum mal dos brabos e que pra remediar só ele morrendo pra renascer de novo, porque perspectiva de cura alguma havia. Mas ela que não perdia nunca a viagem nem um paciente que fosse, resolveu encarar o desafio em cima da bucha e foi logo lá pra dentro, remexendo nas tranqueiras dela e trazendo um copo cheio dalguma coisa pra ele tomar: - Tome! Quéquéisso? Ayahuasca, cura-tudo! Ele olhou pro Doro desconfiado que lhe deu um empurrão mandando tomar logo o remédio. Vai, peste! Ingeriu a pulso, de biquinho, foi sorvendo com uma careta dos diabos! Toma, infeliz! Engoliu, tossiu, engasgou-se e quase vomita! – Segura frebento! Aí foi a hora dum ritual carregado de orações de benzeduras machas com um molho de matos e plantas amarrados e esfregado na venta do combalido, isso por horas. Tome tempo e ela sacudindo o mato nas fuças, tronco e membros do achacoso, dele queimar de febre e suar mais que tampa de chaleira. O cabra quase desaba de vez e bate as botas. Foi aí que ela emborcou o sujeito, dele ficar de cu pra cima, deu-lhe uma pisa de urtiga pra tirar todas as maleitas, depois sacudiu-lo embaixo do chuveiro com banhos de mais folhas e matos de toda espécie, fez uma defumação geral do cara quase morrer de tanto tossir, deitou-lo numa mesa forrada com toalha branca e copos com diversos líquidos e cheinhos pela borda, bateu bombo, saracoteou, baixou santo, falou com meio mundo de mortos, deu tapas, tabefes emurros nos costados do desinfeliz, revirou ele de todo jeito de quase botá-lo pelo avesso, até sacudi-lo em pé com uma ordem: - Pronto! Tá curado. E num é que tava mesmo!?! Ele até sorriu se dizendo bonzinho na hora, novinho em folha. Aí foi a vez das prescrições num receituário sem fim: banhos de manhã, de tarde e de noite; chás, infusões e sucos disso e daquilo com todo tipo de casco, pé de pau, raiz e inseto – êpa, isso não! -; essências, emplastros, óleos, unguentos, xaropes e infusões dum tanto de coisa com meizinhas diversificadas e, o mais importante, uma dieta a base de taioba, gengibre, açafrão, pimenta malagueta, barro, poejo, sabugueiro, linhaça, manjericão, avelóis, chicória – isso no por enquanto, de quinze em quinze dias tinha que ser tudo revisto na dieta geral, isso só em nova consulta- e fazer a oração da cabra preta como manda o rital: nu, meia noite em ponto, numa encruzilhada. Tudo isso pra não mais ser acometido de porqueira de doença nenhuma. Cruz-credo, pensou ele. Nu mesmo? Pelado de tudo! Vixe! A encruzilhada mais próxima da casa dele era a do cemitério. Virgem, santa! Deu com pé atrás. Como sinal de apoio, Doro se prontificou de acompanhá-lo na horagá. Mas num é isso! O que é? É que não sou bicho nem sou achegado a só comer mato, preciso de coisa que dê sustança pra mode dar vencimento nas mulheres. Ah, aí são outros quinhentos! Ou faz, ou morre, escolha. Seguiu à risca. E num é que o cabra não foi mais acometido por moléstia nenhuma, vez que toda vez que sentia algo estranho, corria logo pra prevenção: receita da Mãe-Lena, drogaria do doutor Baita! Pronto, pra ele, as gaias nunca mais deram curto circuito! E pra quem nunca caiou, não seria agora que ia passar vexame, né? Tinha as garrafadas à base de catuaba e outros afrodisíacos tirados do chão e que ela mesma aprontou pra ele de nunca passar vergonha. A bronca é que ele encheu a casa de bruguelos até de um olho só e, pra isso, não tem remédio que dê jeito: língua falou, pingulim funcionou, o cu pagou. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui. 

 Imagem: a arte do pintor, desenhista, gravador, escultor e ceramista belga René Mels (1909-1977).


Curtindo o álbum Diva (EMI, 2004), uma compilação dos melhores momentos da carreira da soprano e cantora lírica romena Angela Gheorghiu.

PESQUISA
Geografia da fome - o dilema brasileiro: pão ou aço (Brasiliense, 1957), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
Poesia moderna da Grécia (Guanabara, 1986), seleção, tradução, prefácio e textos críticos de José Paulo Paes, reunindo poemas do folclore, Kaváfis, Kazantzákis, Seféris, entre outros. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Italo Calvino by Wesley Merritt & Cloe/Las ciudades invisibles de Italo Calvino by Giagarofalo
No momento que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialisticas, o grande desafio para a literatura é o de saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralista e multifacetada do mundo.
Trecho extraído do livro Seis propostas para o próximo milênio (Vozes, 2000), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA 
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova, retratando motivos artísticos comuns com origens bíblicas, representações de violência e guerra, narrativa de mistério e questionamentos.

Veja mais sobre Bernard Shaw, Richard Wagner, Somadeva Suri, Mary Cassatt, Gilberto Gil, Betty Williams, Patrick Süskind, Pigmalião, Karoline Herfurth, Susan Strasberg & Pedro Du Bois aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Gravura do pintor, gravador e ilustrador francês Paul-Émile Bécat (1885-1960).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...