BIRITOALDO: A VINGANÇA NO FORMIGUEIRO - Biritoaldo, meu
Deus, esse veio de encomenda! Ele até que se esforça, mas pense num horror! Imagine
o que é um ré-pra-trás! Imaginou? O cara não acerta uma, sequer! O parvo é só o
sol na moleira com o sal se pisando pra banda dele! Primeiro veja o bronco: a
camisa, a gola desajeitada, o colarinho troncho, a carreira de botão cada um na
casa errada, a calça cu-de-mochila, queimando o arroz, uma perna maior que a
outra no desabanhado e, o pior, pegando borboleta! A mangação: - Vixe, que
coronha! Quando não: - Ei! De braguilha aberta, mô fio?!? Bote vexame no
riscado! Quando vê um cachorro, se estranham dele fugir das mordidas; quando
cruza com um gato, o bicho que se arrepia todo. Jumento? Olhe o coice,
desgraçado. Quando feliz, pisa num tolote de bosta. Ih, tira o pé da merda,
zé-roela! Se vai na calçada todo nos trinques da domingueira, tem de algo
acontecer pra jogar lama e botar tudo a perder! Vai pegar condução, destino
errado. Se vai falar, logo se vê que se trata de um conselheiro Acácio. Amizade?
O último amigo abotoou o paletó faz tempo. Livrou-se dele. Os dentes queiros
tudo encruado na boca, imagine tudo doendo duma vez só! Por isso, nunca entende
direito o que falam - Ô cara tapado da porra! Se é da mulher, só leva
desacerto; dos vizinhos, xingamentos; da família, reprovação. Ou seja: além
queda, cotovelada nas fuças! Se cai de costa, quebra a pomba; se leva topada,
empena o espinhaço. Avalie, só vive com o pau da venta arranhado e levando
pisada na unha encravada. Ai, doeu. Quando se deita na cama, o lastro arrebenta
e acorda todo mundo! Maior buruçú pra tudo que é lado. Ah, quando dão espaço,
maior folga: cheio das intimidades. Oxe, o cara não tem o menor simancol! Só é
bronca na caixa dos peitos e muito grito por desaforo na lata. Isso quando não
é Alceste pra todo lado no maior esporro! Pelo visto, já viu, né? O cara não
tem moral nenhuma: o que apanha da vida, não tá no gibi! Exceto... ah, quando
não tendo mais de onde levar bordoada, se tranca no banheiro pra chorar. É aí
que aparece a sua vingança! É que na hora da micção, aparece lá no vaso sanitário,
uma desavisada duma formiguinha zanzando ao léu. Aí meu, ele apruma a pontaria
do pingolim e só fica satisfeito quando leva a bichinha na força do mijo pra morrer
afogada. Pronto, feliz da vida. Vingado! De peito lavado! Agora, sim. E fica
esperando pra ver se aparece outra prele esmagar com a força do mijo. Eita,
apareceu! A hora da vingança II. E lá vai ele empurrando a formiguinha pra
descarga! Fica horas nisso. Não sei onde ele arruma tanta carga pra detonar! Aí
dá a curiosidade de ver se tem mais: achou uma tuia delas fazendo carreirinha
na borda do vaso. Oxe, lá vai a força do jato da mangueira dele pra atacar suas
inimigas! Agora foi. Não deixa uma só pra remédio. Por conta disso, já deu até
de se ajeitar no arruado lá da casa dele, de não poder avistar um buraco na
terra que, pra ele, vira formigueiro. Inclusive, criou uma técnica pra não ser
flagrado pela polícia mijando na rua. Sabe como é? Ele chega, ajeita a perna da
calça, apruma o calcanhar como uma biqueira bem na loca das formigas e deixa a
urina escorrer pra causar maior maremoto de urina na morada delas. Ô vingança!
Freud explica? Jung, por favor! (Luiz Alberto Machado). Veja mais das Proezas
do Biritoaldo aqui, aqui, aqui e aqui. DITOS &
DESDITOS
Sonhar é uma
linguagem... A poesia está presente em todas as formas de criação. É ela que
lhes confere beleza — uma beleza que é um despertar, um grito de alerta... A
poesia é tanto a crítica do sonho quanto a sua forma mais extrema... Em cada
pintura, penso eu, é como se “Deus estivesse desistindo de acabar com o mundo”...
Pensamento do poeta,
ensaísta e tradutor francês Yves
Bonnefoy (1923-2016). Veja
mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
Creio que todos
somos nossos próprios cemitérios; habitamos entre os túmulos das pessoas que
fomos. Se estamos saudáveis, cada dia é uma celebração, um Dia dos Mortos, no
qual agradecemos pelas vidas que vivemos, e se somos neuróticos, ruminamos,
lamentamos e desejamos que o passado ainda estivesse presente...
Pensamento do
escritor, cineasta e artista visual britânico Clive Barker.
DEUS ALEIJADO – […] Não basta desejar um mundo melhor para as crianças. Não basta protegê-las
com facilidade e conforto. Lostara Yil, se não sacrificarmos a nossa própria
facilidade, o nosso próprio conforto, para tornar o mundo do futuro um lugar
melhor, então estaremos amaldiçoando os nossos próprios filhos. Deixamos-lhes
uma miséria que não merecem; deixamos-lhes uma infinidade de lições não
aprendidas. […] E agora a página diante de
nós se turva. Uma era findou. O livro deve se fechar. Somos entregues à
história. Ergam mais uma vez o estandarte esfarrapado Dos Caídos. Olhem através
da fumaça que flutua Para as manchas escuras no tecido. Este é o sangue de
nossas vidas, este é o Pagamento de nossos feitos, tudo prestes a ser
Esquecido. Nunca fomos o que as pessoas poderiam ser. Fomos apenas o que
éramos. Lembrem-se de nós. [...]. Trechos extraídos da obra The Crippled God (Tor
Books, 2011), do escritor, antropólogo e arqueólogo canadense Steven Erikson (Steven Rune Ludin), autor de obras como Toll the Hounds (2008),
The Bonehunters (2006), Midnight Tides (2004), House of Chains
(2002), Memories of Ice (2001), Deadhouse Gates (2000) e Gardens
of the Moon (1999).
CREPÚSCULO DO TORMENTO – [...] Sob
estas latitudes onde o céu não é nem abrigo nem refúgio, ser mulher é matar o
próprio coração [...] Era indispensável que cada um
reconhecesse o universal onde ele estava: na diversidade dos modos de expressão. [...] Tanto nos roubaram. Arrancaram partes inteiras de
nós mesmas. Pedaços de nossa alma. É isso o que buscamos. Como nos tornarmos
novamente nós mesmas por inteiro [...]. Trechos extraídos da obra Crépuscule du tourment (Pocket, 2016), da escritora camaronesa Léonora
Miano. Veja mais aqui.
MEDUSA - Quando eu disse que nada aconteceu
\ Eu menti-te. \ Acontece, acontece todos os dias, \ em pontes, em espaços
abertos. \ Porque eu me cedi ao amor \ Eu caminho, para alguns um objeto de
vergonha, \ para outros um espelho. Quem olha para mim \ é transformado em
pedra, \ congelado. \ Quando eu disse que nada aconteceu \ Simplesmente
esqueci. \ Desde aquele dia \ todos os cavaleiros, todos os pedestres \ carregaram
meu nome(Vergonha) \ como um escudo. \ Se uma pedra é jogada em mim \ Respondo
com pedra... \ Quando eu disse que nada aconteceu, \ Acabei de mentir. \ É isso
que acontece: eu respiro, eu existo. \ Meu coração é um tumor sufocante, perto
da mama. \ Recortei as músicas, \ a música maligna, metástase \ que traz de
volta as vozes dos dias perdidos. \ Meu coração é um celandine, \ ressequidos.
\ Meu amor, pode valer a pena? \ À noite minha cabeça pendura no meu pescoço
por um único cabelo \ então de manhã, e a dor da ferida cicatrizada \ e começa
tudo de novo. Poema da poeta, linguista, publicitária e professora georgiana Diana
Anphimiadi, autora dos livros Shokoladi (2008), Konspecturi
Mittologia (2009), Alhlokhedvis Traektoria (2012) e Chrdilis
Amoch’ra (2015).
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: AQUI É O CU DO MUNDO! - É ou não é, quem não tem coragem não amarra
negro! Tais pensando o quê? Aqui é terra de ninguém: quando não falta água,
falta luz! Nada vai pra frente, tudo anda para trás! Também, pudera: o povo
todo é só boi de cambão! O graudão pinta e borda, faz e desfaz, todo mundo sabe
no amiudado, ninguém tem coragem de dar com língua nos dentes, quem é doido?
Tudo lagartixa, frouxos que só. Também, tudo acoloiado: o bispo ajeita dum
lado, os padres arremedam do outro; os pastores seguem o ditado, os espíritas
no mesmo riscado, xangozeiro, coroinha, catimbozeiro, todas as ladainhas,
político, contador, empresário, matador, polícia, caçador, maçom e
prestidigitador, saco bem avantajado, lá vai tudo na sopa do maior misturado,
quem é que pode abjurar desse balaio de gato sabido? Com eles, não precisa
diploma de bacharel, basta dar duas ou três caracrachás no peito, tudo
resolvido! É só cantando: Caranguejo é
doutor, o siri capitão, aratu por ser pequeno é inspetor do quarteirão.
Aqui é assim: Viveu de fé, morreu de esperança, enterrou-se na caridade. Eita,
desgraceira! Biloca saiu pra comprar carne de sol e, do nada, estranhou-se com
um lá, levou duas facadas, uma em cada peito, bateu as botas e era uma vez. O
Tubiba tomou uma de perder a ideia: baixou a lomba de corno, matou a mulher e
retalhou em postas, arrancou o couro e ficou exibindo; agora ele anda sem
aguardente nem saia. Quando não é de morte matada, se morre do mesmo jeito ou
do coração. A vida é nadica de nada, um vintém furado. A política ajeita todo
mundo, amansa e dá rumo – só que ninguém sabe para qual precipício, são muitos.
Se for mulher, ainda é pior: de primeira como uma flor, a maior azaração pros
regalos; depois como uma maldição, mãozada no focinho e soando maior badalo. O
cenário é este mesmo, ninguém, mas ninguém mesmo, menino, marmanjo ou idoso,
tudo de nada. Tá, mas vamos aprumar a conversa: e o tal do Canoeiro, hem? Você
não sabe? O cabra é ladino! Oxe, foi preso e lá dentro da delegacia, ele
arrepiou a cabeleira e arrochou o pau nas costelas do delegado, tapou-lhe a
boca com mãozadas e bofetes e, depois de desancar aquelas autoridades todas,
passou pitu em todo mundo, saiu pela rua, atravessou o asseiro, levou nos
peitos o trecho encoivarado do roçado, entrou no canavial, timbungou no rio
Tapirahy e penetrou as funduras de não ser mais visto. O joão meia dúzia
pipocou que só, foi tiro pra mais de hora e parece que não acertaram o alvo,
tudo munheca ruim, pontaria desvalida. Danou-se de gente na água de rede
barredoura, gente que veio de anzol, de jerer, de tarrafa, como a onça para
pegar o macaco. Eu quero é novidade, isso eu já soube porque o sujeito tem
arrancada do diabo e foi se esconder das rebordosas lá na caixa pregos. Ninguém
ficou sabendo de nada do paradeiro dele, sabe onde ele estava? Como é? Estava
era com a Berimbela, aquela coquete rabuda que tem umas barroquinhas nas
bochechas que ao riso se abrem tão engraçadinha, aquela mesma que era a duquesa
do linguarudo, sabe quem é? Ora, se sei. Aquela menina da saia branca, da
janelinha do meio, deu-lhe uma gota d’água das borrachinhas do seio, dele se ri
e ela também feito flor desabrochando, ele só provocando mais a musa, na maior
versejaria: Sou amante da branquinha, do caju sou camarada, o copo na
viradinha, vira vira uma bicada. E tome peiada dela se achegar e ele só
pedindo: Deixa eu ficar no seu cangote. Oxe, foi no sopapo dela e por todos
seus bruxedos de branquela, benzodeus, logo aquela, os dois esperneavam na lama,
vuque-vuque avexado, enquanto ele impava com as odoríferas exalações do seu
perfumado cangote. Pode um negócio desse? O cara é rola doce! Ah, tem mais, o
cara é fogo na roupa! Mesmo? Destá, depois de se lambuzar com ela, deu um trato
na Maria Caxuxa, sabe aquela dançarina de primeira que deixa todo mundo
afogueado e doido pra chambregar com ela? Claro que sei. Pois foi: ela acodiu
ao gosto dele com aquele jeitinho dela abrir as pernas de fazer barra que ainda
hoje tá assentada bailando no cajado dele, dela gritar: Ô sapateado bom e
gostoso que só canjanja! Dizem que pegaram os dois, ele com os olhos revirando
e pendurado no remelexo dela, chega poetava de todo mundo decorar: Dengosa,
linda morena, minha flor de tiririca, gosto mais de você do que dum prato de
canjica! Vixe! O cara é virado! Só sei que ele está bastante encrencado. Eita! Isso
é pouco, ora, está é mesmo para lá de embaraçado no molho de bronca! Ainda
antontem viram ele enganchado na filha do Coronelão! De novo? Ora, se. Isso
depois já do sequestro? E apois! Então ela gostou. E toda macharia quer
pegá-lo, maridos, namorados, amantes, inconformados, solteiros, emancebados,
tudinho cobrindo seus passos para esfolá-lo vivo! Deixa pra lá, o problema é
dele, mas me diga uma coisa, como é que anda a mixórdia das eleições? Ah, tem
muita gente mexendo esse pirão, cada um que bote o seu mau gosto dando pitaco e
direção, da coisa ficar monstruosa, desindireitada e pronta pra danação. O que
se pode prever é que só os graduados que se entendem não sei como, os demais, a
gente e os da gente, nem comendo bosta de cigano dá para adivinhar ou entender.
Isso é só aqui! Viva a gente do Buraco, viva o buraco da gente! Eita, língua
solta! Desocupe o beco, bora!... Veja mais aqui.
ELA, AFORTUNADA...
Ela capitula e
se rende nua, cede e sucumbe crua, com toda gula se desprende, não mede e
pretende ser subjugada, mais se excede, transcende exacerbada e me incumbe a
alçada de incliná-la veemente, a vergá-la indecente, como quem nula se concede e
acende a medula afortunada, ascende encantada pro meu deslumbre de plena
gozada.




