terça-feira, março 04, 2008

KAFKA, JOSÉ PAULO PAES, VOLTAIRE, DIANE ARBUS, GISELA PANKOW & DEMOCRACIA

 
A arte da fotógrafa e escritora estadunidense Diane Arbus (1923-1971).

PENSAMENTO DO DIA – O artista tem o poder de penetrar no âmago das coisas [...] capta essa ameaça de nossa existência, e é capaz de dar forma a esse perigo. [...]. Pensamento extraído da obra O homem e seu espaço vivido (Papirus, 1988), da neuropsiquiatria e psicanalista francesa Gisela Pankow (1914-1998). Veja mais aqui.


COMO É DIFICIL SER FELIZ - [...] Zadig convenceu-se de que o primeiro mês do casamento, como está escrito no livro do Zenda, é a lua-de-mel, e que o segundo é a lua-de-fel. Pouco tempo depois viu-se obrigado a repudiar Azora,que se tornara difícil de aturar, e procurou satisfação no estudo da natureza. “Ninguém é mais feliz – dizia ele, - que um filósofo que lê o grande livro aberto por Deus diante dos nossos olhos. São suas as verdades que descobre: alimenta e educa a alma, vive tranqüilo; nada receia dos homens, e sua meiga esposa não vem cortar-lhe o nariz.” Cheio destas idéias recolheu a uma casa de campo à beira do Eufrates, onde não se ocupava a calcular quantas polegadas de água correm por segundo sob os arcos de uma ponte, ou se no mês do rato cai uma linha cúbica de chuva a mais do que no mês do carneiro. Não cuidava de fazer seda com teias de aranha, nem porcelana com cacos de vidro, antes estudou sobretudo as propriedades dos animais e das plantas, não tardando a adquirir uma sagacidade que lhe apontava mil diferenças onde os outros homens viam só uniformidade. Certo dia passeando na orla de um bosque, viu aproximar-se um eunuco da rainha seguido de vários oficiais que pareciam tomados da maior inquietação, e corriam de um lado para outro como pessoas extraviadas em busca da maior preciosidade perdida. - Moço – perguntou-lhe o eunuco, - por acaso não viu o cachorro da rainha? Zadig respondeu modestamente: - Creio tratar-se de uma cadela e não de um cachorro. - Tem razão – volveu o eunuco. - É uma cachorrinha de caça que deu cria há pouco tempo; manqueja da pata dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas. - Viu-a então? – Tornou o eunuco esbaforido. - Não – respondeu Zadig, - nunca a vi e nem mesmo sabia que a rainha tivesse uma cadela. Justamente nessa ocasião, por um capricho muito comum da sorte, o mais belo cavalo das coudelarias do rei fugira das mãos de um palafreneiro para as campinas da Babilônia. O monteiro-mor e todos os outros oficiais andavam atrás dele com tanta apreensão quanto a do eunuco atrás da cadela. O monteiro-mor dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se não vira passar o cavalo do rei. - É o cavalo que melhor galopa - respondeu Zadig; - tem cinco pés de altura e os cascos muito pequenos; sua cauda mede três pés de comprimento e as rodelas do seu freio são de ouro de vinte quilates; usa ferraduras de prata de onze denários. - Que caminho tomou ele? Onde está? – perguntou o monteiro-mor. - Não sei – respondeu Zadig; não o vi nem nunca ouvi falar nele. O monteiro-mor e o eunuco ficaram certos de que Zadig tinha roubado o cavalo do rei e a cadela da rainha, e levaram-no à presença do grande Desterham que o condenou ao knut, e a passar o resto do seus dias na Sibéria. Mal havia terminado o julgamento, foram encontrados o cavalo e a cadela. Os juízes viram-se na desagradável contingência de reformar a sentença, mas condenaram Zadig a pagar quatrocentas onças de ouros por dizer que não vira o que tinha visto. Primeiro ele teve que pagar a multa, e só depois lhe permitiram defender a sua causa perante o conselho do grande Desterham onde falou nesses termos: - Estrelas de justiça, abismos da ciência, espelhos da verdade, que tendes o peso do chumbo, a dureza do ferro, o brilho do diamante e muita afinidade com o ouro: já que me é consentido falar diante desta augusta assembléia, juro-vos por Orosmade que nunca vi a respeitável cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do rei dos reis. Aqui está o que me sucedeu: andava eu passeando pelo pequeno bosque onde depois encontrei o venerável eunuco e muito ilustre monteiro-mor. Percebi na areia pegadas de um animal, e facilmente concluí serem as de um cão. Leves e longos sulcos, visíveis nas ondulações da areia entre os vestígios das patas, revelaram-me tratar-se de uma cadela com as tetas pendentes, e que, portanto, devia ter dado cria poucos dias antes. Outros traços em sentido diferente, sempre marcando a superfície da areia ao lado das patas dianteiras, acusavam ter ela orelhas muito grandes; e como além disso notei que as impressões de uma das patas eram menos fundas que as das outras três, deduzi que a cadela da nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim posso me exprimir. “Quanto ao cavalo do rei dos reis, sabei que estando a passear pelos carreiros desse bosque, avistei as marcas das ferraduras de um cavalo, todas colocadas a igual distância. ‘Eis aqui – disse comigo, - um cavalo que tem o galope perfeito’. A poeira das árvores. Num caminho não mais de sete pés de largura, mostrava-se um pouco revolvida a direita e a esquerda, a três pés e meio do centro da rota. ‘Este cavalo – tornei a considerar nos seus movimentos para a direita e para a esquerda, varreu essa poeira’. Vi depois sob as árvores, que formavam um docel de cinco pés de altura, alguns ramos cujas folhas tinham caído recentemente, e concluí que o animal as roçara com a cabeça, tendo, portanto cinco pés de altura. Seu freio deve ser de ouro de vinte e três quilates, pois tendo batido numa pedra que verifiquei ser uma pedra de toque, pode em seguida identificá-lo. Enfim, pelas marcas das ferraduras deixadas em pedras de outra espécie, deduzi que estava ferrado com prata fina.” Todos os juízes admiraram o profundo e sutil discernimento de Zadig; a notícia chegou aos ouvidos do rei e da rainha. Só se ouvia falar de Zadig nas antecâmaras, nas salas e gabinetes; e embora alguns magos opinassem que ele devia ser queimado como feiticeiro, o rei ordenou que lhe devolvessem a multa de quatrocentas onças de ouro a que havia sido condenado. O escrivão, os oficiais de justiça e os procuradores foram a sua casa em grande aparato levar-lhe as quatrocentas onças, das quais apenas retiveram trezentas e noventa e oito para as custas do processo, além dos honorários reclamados pelos servidores. Zadig compreendeu que às vezes era perigoso ser demasiado sábio, e prometeu a si mesmo não tornar a dizer o que porventura houvesse visto. A ocasião não tardou a apresentar-se. Um prisioneiro do Estado tendo fugido, passou por baixo das janelas de sua casa. Zadig interrogada nada respondeu, mas provaram-lhe que ele havia olhado pela janela. Por esse crime foi condenado a pagar quinhentas onças de ouro, e ainda agradeceu a benevolência dos juízes, como é costume na Babilônia. – “Santo Deus! – Exclamou para si, - quanto é lastimável ir-se passear a um bosque onde passaram a cadela da rainha e o cavalo do rei! Como é perigoso a gente chegar à janela, e como é difícil ser feliz neste mundo.” [...]. Trecho extraído da obra Zadig ou o destino: história oriental (Saraiva, 1957), do escritor, dramaturgo e filósofo iluminista francês Voltaire (François Marie Arouet/1694-1778). Veja mais aqui e aqui.

O BRASÃO DA CIDADE - [...] No início tudo estava numa ordem razoável na construção da Torre de Babel; talvez a ordem fosse até excessiva, pensava-se demais em sinalizações, intérpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunicação, como se à frente houvesse séculos de livres possibilidades de trabalho... O essencial do empreendimento todo é a idéia de construir uma torre que alcance o céu. Ao lado dela tudo o mais é secundário. Uma vez apreendida na sua grandeza essa idéia não pode mais desaparecer; enquanto existirem homens, existirá também o forte desejo de construir a torre até o fim... Cada nacionalidade queria ter o alojamento mais bonito, resultaram daí disputas que evoluíram até lutas sangrentas. Essas lutas não cessaram mais... As pessoas porém não ocupavam o tempo apenas com batalhas, nos intervalos embelezava-se a cidade, o que entretanto provocava nova inveja e novas lutas... A isso se acrescentou que já a segunda ou terceira geração reconheceu o sem-sentido da construção da torre do céu, mas já estavam todos muito ligados entre si para abandonarem a cidade. [...] Trecho extraído da obra O brasão da cidade (Folha de São Paulo, 1993), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

INUTILIDADESNinguém coça as costas da cadeira. / Ninguém chupa a manga da camisa. / O piano jamais abandona a cauda. / Tem asa, porém não voa, a xícara. / De que serve o pé da mesa se não anda? / E a boca da calça, se não fala nunca? / Nem sempre o botão está na sua casa. / O dente de alho não morde coisa alguma. / Ah! Se trotassem os cavalos do motor... / Ah! Se fosse de circo o macaco do carro... / Então a menina dos olhos comeria / Até bolo esportivo e bala de revólver. Poema do poeta, ensaísta, jornalista e tradutor José Paulo Paes (1926-1988). Veja mais aqui.


A arte da fotógrafa e escritora estadunidense Diane Arbus (1923-1971).


DEMOCRACIA – A democracia, com base nos ensinamentos de Ignácio da Silva Telles, é uma palavra oriunda do grego "Demos", que quer dizer distrito, país, região, aldeia; quanto povo, povo simples, habitantes, homens livres; e "Cratos", que significa força, capacidade, potencialidade. O seu significado também abrange poder político, regra, lei, uma autoridade, um governo. Etimologicamente democracia significa poder, lei ou governo do povo; ou pelo povo; ou para o povo. E uma outra definição se baseia em três idéias básicas: liberdade, igualdade e regime de representação política do povo. A partir disso, observa-se que a democracia já se manifestava na Grécia antiga, por volta do séc. V a.C., caracterizada pelo próprio povo legislando e as pessoas exercendo as leis emanadas do povo. Ao longo dos tempos vários filósofos, cientistas e estudiosos se debruçaram sobre o desenvolvimento da democracia, desde Aristóteles e Platão, na antiga Grécia, como Thomas Hobbes, Imanuel Kant, Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Aléxis Tocqueville, até Georges Burdeau e Norberto Bobbio, dentre outros.
A democracia já suscitou estudos na Grécia antiga quando os sofistas consolidaram as discussões em nível teórico, tendo se manifestado, segundo Nelson Sandanha, desde a efêmera república hebraica do sinédrio. Na Grécia antiga Platão expressara que a democracia era adoção de um sistema em que o povo seja autor das leis de sua sociedade. Também Aristóteles, no mesmo período, defendia que "não será legítimo o governo senão quando é exercido em proveito dos governados e não apenas em proveito dos governantes". Querendo dizer que a democracia deve estar voltada para a realização do bem comum e para legitimar-se, representando a todos, seja em que nível for, seja nos anseios que se pautar. Neste sentido, ele distingue a oligarquia da democracia, estabelecendo que: O argumento parece mostrar que o número de integrantes do governo, seja ele pequeno como em uma oligarquia ou grande como em uma democracia, é acidental devido ao fato de que os ricos, em qualquer lugar, são poucos, enquanto os pobres são numerosos. Portanto (...) a diferença real entre democracia e oligarquia é a pobreza e a riqueza. Onde quer que os homens governem devido à sua riqueza, sejam eles poucos ou muitos, há uma oligarquia, e onde os pobres governem, há uma democracia. Desta forma, defende o autor que a democracia é o governo constitucional, enquanto a oligarquia é o governo da aristocracia e a tirania é a perversão da monarquia. Para ele ao povo só é licito fazer as leis, as quais necessariamente visam o geral. E a este respeito M. I. Finley observa que: Na antigüidade, os intelectuais, em esmagadora maioria, desaprovavam o governo popular e apresentaram um grande número de explicações para sua atitude e uma variedade de propostas alternativas. Hoje seus congêneres, em especial os do ocidente, mas não apenas estes, concordam, provavelmente na mesma esmagadora proporção, que a democracia é a melhor forma de governo, a mais conhecida e a melhor que se possa imaginar. Contudo, muitos também concordam que os princípios que tradicionalmente a justificaram, na prática, não estão funcionando. Observa-se, com isso, que o regime democrático desenvolvido na Grécia antiga adotou o conceito de um sistema de governo do povo, pelo povo e para povo, recebendo críticas tanto de Aristóteles quanto de Platão.
No período republicano de Roma, assinala M. I. Finley e Nelson Saldanha que houve instituições que podem ser consideradas de tipo democrático com movimentos sociais no sentido de atender as reivindicações igualitaristas,
Na Idade Média, George Burdeau, John Dewey e Nereu Corrêa observam que ocorreu um período em que os diversos povos do ocidente estavam organizados em monarquias e voltados para a ordem social feudal, também pode ser registrado a existência de concepções igualitaristas dentro das heresias religiosas que contestavam as estruturas vigentes.
Na época moderna, G. Jorgensen e Nelson Saldanha registram que mesmo sob a vigência do absolutismo monárquico, ocorreram revoluções liberais combatendo a concentração de poder. E é a partir do Renascimento que Thomas Hobbes identifica a democracia como uma assembléia de todos os que se uniram, mesmo sendo ele o criador da teoria que fundamenta o Estado Soberano com poderes ilimitados e defendendo que este se enfraqueceria com a separação dos poderes. Mais adiante, John Locke, um dos clássicos do liberalismo político, defendeu que todos os homens são livres, iguais e independentes por natureza, e que estes reunidos na constituição de uma comunidade ou governo, são incorporados e formam um corpo político no qual a maioria tem o direito de agir e resolver por todos. Neste sentido, propôs uma articulação entre a igualdade e a liberdade naturais dos homens, dentro do direito individual num governo limitado pelo consentimento e na supremacia da lei, na defesa do regime representativo com separação dos poderes, supremacia da sociedade sobre o governo e a exigência da limitação do poder soberano baseado nos direitos individuais. Foi o filósofo e moralista francês Montesquieu que formulou os princípios fundamentais da democracia moderna ao estabelecer os critérios do governo republicano fundamentado na virtude e das leis relativas à democracia, estabelecendo que o povo como um todo possui o poder soberano, assinalando “(...) uma lei fundamental da democracia que só o povo institua as leis” e a liberdade política garantida pelos poderes fundamentais do Estado: executivo, legislativo e judiciário. Em seguida, o pensador jusnaturalista contratualista francês, Jean-Jacques Rousseau, traz a idéia de que a democracia está sedimentada na construção coletiva da igualdade e da liberdade garantida pelo ideal republicano. No entanto, este defendia a democracia no sentido de que sua existência só é possível quando a comunidade diretamente e sem intermediários tomar as deliberações, sendo, portanto, adversário do modelo democrático representativo por colidir com a lei natural pelo fato da maioria governa minoria. Observa-se, portanto, que desde os ideais do Iluminismo e mesmo depois com pensadores como Hegel, Comte, Marx e Spencer, todos sintetizaram os ideais democráticos na bandeira da bem-aventurança e nos princípios de liberdade e igualdade. Dentre eles havia uma associação de idéias, apesar dos posicionamentos díspares, de que a democracia seria o atendimento real de todas as necessidades humanas. Já Alexis de Tocqueville defendia que as leis da democracia tendem ao bem do maior número, pois emanam da maioria dos cidadãos tendo em vista esta ser um atributo do Estado caracterizada na liberdade e igualdade dos cidadãos. No entanto, ele sinalizava para uma antinomia entre igualdade e liberdade, sob o argumento de que numa estrutura social formada pela primeira suprimirá a segunda totalmente. Isto é, se fundamenta na igualdade de todos e todos devem ser iguais, alguns requererão mais igualdade, e sob essa condição suprimirão a liberdade de alguns. Mais amiúde: se ricos requererem igualdades entre eles próprios, suprimiriam a liberdade de quem não esteja tal qual eles, visto que excluiriam, como ainda hoje excluem quem não se encontre entre as classes abastadas, formando verdadeira segregação. Tal observância é considerada por Georges Burdeau ao observar que: Racionalmente e de fato, a democracia está indissoluvelmente ligada à idéia da liberdade. (...) É um sistema de governo que tende a incluir a liberdade na relação política, isto é, nas relações entre mando e obediência. A autoridade subsiste, sem dúvida, mas de tal maneira conduzida que fundamentada na adesão daqueles que lhe são sujeitos, permanece compatível com a liberdade. Esta condução leva a entender que nem sempre a liberdade está associada à igualdade, quando se postula, contudo, que ambas devam estar juntas para gerar o princípio democrático. No entanto, é conveniente anotar que na França, por exemplo, a democracia foi utilizada apenas para unir o terceiro estamento francês às suas elites durante a revolução, ou seja, aliar a burguesia ao clero e à aristocracia, servindo então à igualdade proferida por Aléxis de Tocqueville que era identificado mais como liberal do que democrata, prezando pela liberdade e igualdade. Por esta razão, G. Jorgensen defende que o princípio democrático está assentado no: (...) processo geral do desenvolvimento tendendo sempre ao maior igualamento das liberdades para sempre mais dilatadas esferas da população. (...) a democracia pode ser conceituada como processo no sentido de igualamento e da libertação. Entende-se, assim, que a democracia é o tipo de governo onde os cidadãos dotados de direito e representando o povo ou a totalidade da população reconhecida nos costumes e na lei, participa efetivamente do controle e das decisões políticas da coletividade. Na esteira de tal análise, encontram-se as idéias expressas por J. A. Schumpeter entendendo a democracia como um método que legitima a competição pela liderança, dando direito a livre concorrência pelo voto e pelo poder e um sistema institucional destinado à tomada de decisões políticas, marcadas por lutas competitivas pelo poder que permite a escolha da liderança em eleições livres e voto livre. Neste sentido, o autor define que o modelo democrático está assentado no mecanismo de escolha e autorização dos governos, a partir da existência de grupos que competem pela governança, associados em partidos políticos e escolhidos por voto; na função dos votantes que não é a de resolver problemas políticos, mas a de escolher homens que decidirão quais são os problemas políticos e como resolvê-los – a política é uma questão de elites dirigentes; na função do sistema eleitoral em criar o rodízio dos ocupantes do poder, tendo como tarefa preservar a sociedade contra os riscos da tirania; no modelo político baseado no mercado econômico fundado no pressuposto da soberania do consumidor e da demanda que, na qualidade de maximizador racional de ganhos, faz com que o sistema político produza distribuição ótima de bens políticos; e na natureza instável e consumidora dos sujeitos políticos obrigando a existência de um aparato governamental capaz de estabilizar as demandas da vontade política pela estabilização da "vontade geral", através do aparelho do Estado, que reforça acordos, aplaina conflitos modera as aspirações. Com isso, para o autor mencionado, o papel do povo é formar o governo diretamente ou através de um corpo intermediário e também de dissolvê-lo. Isto significa a aceitação de um líder ou de um grupo de lideres, uma vez que a função do voto é eleger a liderança, o voto é a marca da aceitação. Já para Anthony Downs entende que a democracia é entendida sob a ótica da teoria da escolha racional, como o método importante para se ter à estabilidade necessária para a racionalidade. Para ele, então, é fundamental a liberdade de expressão, de criticas e de opinião que devem ser respeitadas e fazem parte do jogo político. Na ótica de Robert Dahl, a democracia é o regime de governo que garante aos cidadãos formular, expressar e ter suas preferências consideradas sem discriminação, onde existem instituições democráticas que lhe proporcionam estas funções. Por esta razão, defende ele que a democracia é um regime que lida com conflitos de interesses, oposição, participação, mas que garante as preferências da maioria sem desprezar os interesses da minoria, a relação entre liberalização e inclusividade permite um equilíbrio democrático de opiniões. Desta feita, assinala que a democracia é um regime regulador de conflitos, onde o governo possui o papel de mediador e, por esta razão, defende o autor o modelo poliárquico que a seu ver para isso é fundamental a participação do cidadão e a presença das instituições democráticas para o processo de democratização nas democracias. Chega-se a esta altura dos estudos que o termo democracia é tão rico possibilitando a criação de incongruências conceituais que são levantadas pelo cientista político Norberto Bobbio ao mencionar que "entende-se por democracia quando o poder não está nas mãos de um só ou de poucos, mas de todos, ou melhor, da maior parte". E acrescenta que: Definição mínima de democracia, segundo a qual, por regime democrático, entende-se primariamente um conjunto de regras de procedimento para a formação das decisões coletivas, em que está prevista e facilitada a participação mais ampla possível dos interessados. (...) Se se inclui no conceito geral de democracia a estratégia do compromisso entre as partes através do livre debate para a formação de uma maioria, a definição aqui proposta reflete melhor a realidade da democracia representativa, pouco importando se se trata de representação política ou de interesse, que a realidade da democracia direta: o referendum, não podendo colocar os problemas a não ser sob a forma de excludência, de escolha forçada entre duas alternativas, obstaculiza o compromisso e favorece o choque, e exatamente isto é mais adequado para dirimir controvérsias sobre princípios do que para resolver conflitos de interesse. Vê-se, portanto, a existência de modelos democráticos conferindo uma tipologia específica, tais como a democracia de natureza direta, semidireta e representativa.
A democracia direta é compreendida, conforme Norberto Bobbio, como a "participação de todos os cidadãos em todas as decisões a eles pertinentes". Isto é, a seu ver para que exista uma democracia direta no sentido próprio da palavra, onde o indivíduo participa ele mesmo nas deliberações, é preciso que entre indivíduos deliberantes e a deliberação não exista nenhum intermediário. Com isso, os institutos da democracia direta no sentido próprio da palavra são dois: a assembléia dos cidadãos deliberantes sem intermediários e o "referendum". No entanto, com base nisso deduz-se que nenhum sistema complexo como é o de um Estado moderno pode funcionar apenas com um ou com outro, e nem mesmo com ambos conjuntamente, porque em decorrência da vastidão do território, do número de habitantes e da multiplicidade dos problemas que devem ser resolvidos, não é possível a democracia direta devendo-se então recorrer à democracia representativa.
A democracia representativa foi idealizada pelo abade Emmanuel-Joseph Siéyes ao propor a unidade da nação e do Terceiro Estado, este último representando o povo. E é vista por M. Duverger como aquela que apresenta a democracia como um sistema representativo em que o cidadão escolheria seus representantes para legislar e governar em seu nome: Uma vez que os cidadãos, pessoalmente, não podem participar do governo, designarão entre eles seus representantes, os quais constituirão, e somente eles, a Assembléia Nacional de onde vem o nome de democracia representativa. Já Norberto Bobbio conceitua como sendo a democracia representativa: As deliberações coletivas, isto é, as deliberações que dizem respeito à coletividade inteira, são tomadas não diretamente por aqueles que dela fazem parte mas por pessoas eleitas para essa finalidade (...) As democracias representativas que conhecemos são democracias nas quais por representante entende-se uma pessoa que tem duas características bem estabelecidas: na medida em que goza da confiança do corpo eleitoral, uma vez eleito não é mais responsável perante os próprios eleitores e seu mandato, portanto, não é revogável; e, não é responsável diretamente perante os seus eleitores exatamente porque convocado a tutelar os interesses gerais da sociedade civil e não os interesses particulares desta ou daquela categoria. Mediante tais colocações é conveniente abordar que além da direta e da representativa, ainda se encontra a tipologia democrática semidireta ou participativa que, conforme Anderson Sant’Ana Pedra é aquela que identificada como participativa, caracterizada pela “(...) pela coexistência de mecanismos da democracia representativa com outros da democracia direta (referendo, plebiscito, revogação, iniciativa popular e etc.)”. Entende ele que ela é assim denominada de semidireta porque além da representatividade do sistema político, admite, também, a utilização intervencionista que compreende o referendo, o plebiscito, o veto popular, a iniciativa popular e o recall na direta ação dos governados em certas deliberações dos governantes. Defende ele que a democracia representativa não encontra legimitidade no Estado Moderno, principalmente no Brasil, pela insatisfação dos representados face ao comportamento dos seus representantes, que, em regra, se comportam como substitutos do povo. Já Maria Victoria Benevides traz a tipologia da democracia republicana, conceituando-a como o regime da soberania popular, fundada no exercício da liberdade, no respeito à res pública - isto é, ao que é comum a todos e insuscetível de apropriação provada - e na afirmação da igualdade. Por fim, encontra-se que, remontando os estudos até agora realizados, Aristóteles já na antiga Grécia defendia que o carro-chefe da sociedade não poderia ser entregue ao povo em todas as suas funções e minúcias, pois, a existência de um grupo pensante e elitizado é fundamental para que a condução ao menos pragmática da sociedade fosse mantida, o que remonta a idéia de que a democracia, com sua ênfase da palavra, jamais poderia existir. Em Jean-Jacques Rousseau há a perspectiva de que "(...) uma verdadeira democracia jamais existiu nem existirá", argumentando que "(...) se existisse um povo de deuses, governar-se-ia democraticamente. Mas um governo assim perfeito não é feito para os homens". Tal assertiva rousseauneana traz a dimensão utópica que se encontra impregnada no princípio de conceituação democrática. Nesta discussão, Norberto Bobbio assinala que: As transformações da democracia sob a forma de promessas não cumpridas ou de contraste entre a democracia ideal tal como concebida por seus pais fundadores e a democracia real em que, com maior ou menor participação, devemos viver quotidianamente (...) daquelas promessas não cumpridas - a sobrevivência do poder invisível, a permanência das oligarquias, a supressão dos corpos intermediários, a revanche da representação dos interesses, a participação interrompida, o cidadão não educado ou mal-educado - algumas não podiam ser objetivamente cumpridas e eram desde o início ilusões; outras eram, mais que promessas, esperanças mal respondidas, e outras por fim acabaram por se chocar com os obstáculos imprevistos. Todas são situações a partir das quais não se pode falar precisamente de degeneração da democracia, mas sim da adaptação natural dos princípios abstratos à realidade ou de inevitável contaminação da teoria quando forçada a submeter-se às exigências da prática. Também Robert Dahl observa que a democracia em seu ponto máximo não existiu em nenhum regime atual ou contemporâneo e que o ideal democrático se parece muito com conceito de "tipo ideal" proposto por Max Weber, servindo para avaliar os regimes quanto a seu processo de democratização. Desta forma, ele considera as democracias existentes pobres aproximações do ideal democrático, por este motivo sugeriu que estas democracias fossem chamadas de poliarquias, tendo em vista que estas são as formas da democracia no mundo moderno, caracterizadas pelas diversidade das condições sociais, culturais e econômicas dos indivíduos e pela multiplicidade de interesses em jogo e as condições necessárias e suficientes para o seu desenvolvimento. Assim, a sua teoria oferece um modelo de democracia para a produção de políticas publicas, para a participação e representação política e, para a responsabilidade e responsividade do governo assentada num modelo pluralista que se caracteriza pela diversidade de interesses no mundo moderno e de que o individuo orienta suas ações para o calculo máximo de seus interesses. E que a existência de associações e partidos políticos é considerada necessária para a vigência da democracia em larga escala, uma vez que eles são o veiculo da participação dos cidadãos nas democracias modernas. Em suma, há de ficar entendido que a democracia está fundamentada nos direitos civis, sociais e políticos, inseridos pela liberdade do cidadão que engloba segurança, locomoção, trabalho, salário justo, saúde, educação, habitação, liberdade de expressão, de voto, de participação em partidos políticos e sindicatos, dentre outros. E, a partir disso, tem-se a visão mais completa e não menos controversa do que se possa conceituar o preceito democrático, onde, indubitavelmente, se aliaria a liberdade à igualdade e aos direitos e deveres do cidadão. E tal condução está articulada com as idéias expressas por T.H. Marshal quando este assinala que o período de formação democrático surge com os anseios da cidadania, tendo seu começo no início do século XIX, quando os direitos civis ligados ao "status" de liberdade, já haviam conquistado substância suficiente para justificar que se fale de um "status" geral de cidadania, formulando que as bases democráticas da cidadania está assentada nos direitos civis surgidos no século XVIII, nos políticos surgidos no século XIX e os sociais, no século XX. Assim, a democracia, pois, significa de forma geral a autonomia de um povo. Como tal, a idéia democrática está indissoluvelmente ligada ao valor de liberdade, concebida esta, justamente, como a faculdade de todos e de cada um se definirem ou agirem segundo sua própria determinação de totalidade, compelindo para a participação da igualdade e à consciência solidária de conjunto que resulta, impreterivelmente, na cidadania.
Ao efetuar uma abordagem analítica acerca da democracia ao longo dos séculos, desde a Grécia antiga até a contemporaneidade, encontra-se uma diversidade no seu desenvolvimento, desde a manifestação direta dos gregos, até os modelos representativos e semidiretos ou participativos dos tempos atuais. A grande discussão gira em torno das questões utópicas debatidas, quando desde a antiguidade o pensamento aristotélico já mencionava a não possibilidade de existência da democracia com a força de sua significação, chegando à expressão das promessas não cumpridas contemporaneamente, defendida por Norberto Bobbio, merecendo, pois, um aprofundamento necessário nos estudos acerca do desenvolvimento da democracia. É claro que o entendimento acerca do significado do termo democrático remonta a idéia de sua emanação do povo e de ser exercido o seu poder para este mesmo povo, a exemplo do que ficou estabelecido como Estado Democrático de Direito instituído no Brasil pela Constituição Federal de 88, a tão propalada carta cidadã. Com isso, há que se observar que o Estado se constitui no povo, território e governo com a finalidade do bem comum. A partir disso, surge o Estado de Direito assentado na legalidade e na juridicidade estatal. A democracia, por seu turno, traz implícita a efetiva participação popular visando decidir sobre os destinos do Estado, traduzindo, portanto, que o verdadeiro titular do poder é o povo, mesmo que este seja representado por aqueles que foram submetidos à vontade popular. A partir de tais conceitos, chega-se a entender que o Estado Democrático de Direito, em suma, evidencia a idéia de um Estado legitimado que seja administrado e governado em obediência à lei e aos principais democráticos da soberania popular, propiciando a superação das desigualdades e implantação da justiça social. Com isso apreende-se que a democracia traduz o respeito à pluralidade das idéias, etnias e culturas na convivência livre, justa e solidária da sociedade, emanando do povo e exercido em seu proveito.

REFERÊNCIAS
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______. Obras completas. Porto Alegre: Globo, 1958.
SALDANHA, Nelson. Democracia. São Paulo: Saraiva, 1977.
SCHUMPETER, J.A. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
SIEYÈS, Emmanuel Joseph. A constituinte burguesa. Rio de Janeiro: Liber Juris, 1986.
TELLES, Ignácio da Silva. Democracia. São Paulo: Saraiva, 1977.
TOCQUEVILLE, Alexis. A democracia na América. São Paulo: Abril Cultural, 1979. Confira mais aqui e aqui.


Veja mais sobre:
Quando os anjos pagam o pato pela bagunça no céu!, Karlheinz Stockhausen, Rubem Braga, Catulo da Paixão Cearense, Dominique Regnier, Herbert James Draper, Julio Conte, Bob Swaim, Sigourney Weaver & Psicologia da aprendizagem aqui.

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Aristóteles, Rachel de Queiroz, Ariano de Suassuna, Chick Corea, Costa-Gavras, Aldemir Martins, José Terra Correia, Teresa Ann Savoy, Combate à corrupção, Garantismo penal & provas ilícitas aqui.
As trelas do doro: o bacharel das chapuletadas aqui.
Yoram Kaniuk, Sarah Kane, Robert E. Daniels, Meir Zarchi, Thelonious Monk, Eugene de Blaas, Tono Stano, Eliane Auer, Prefeituras do Brasil, Juizados Especiais & A responsabilidade civil bancária aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, março 03, 2008

SEFÉRIS, COCTEAU, GEDEÃO, PAULO MENDES CAMPOS, THOMAS ASTLE, TANATOLOGIA & REINO DAS PERNAS

 
A arte do pintor, desenhista e professor Guerino Grosso (1907-1988).


PENSAMENTO DO DIA – Ninguém ignora que a poesia é uma solidão espantosa, uma maldição de nascença, uma doença da alma. Pensamento do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963). Veja mais aqui e aqui.

A FALA & A ESCRITA - [...] A mais nobre aquisição da humanidade é a fala, e a arte mais útil é a escrita. A primeira distingue eminentemente o homem da criatura bruta; a segunda, dos selvagens sem civilização. [...] Trecho extraído da obra The origin and progresso f writing (Autor, 1784), do antiquário e palqueador inglês Thomas Astle.

PARA MARIA DA GRAÇAAgora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?” Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta. Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?” Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste. Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria. Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça. Extraído da obra Primeiras leituras: crônicas (Companhia das Letras, 2012), do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui e aqui.

ENQUANTO - Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio / e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé / para ver como é; / enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas / e correr pelos interstícios das pedras, / pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas; / enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, / órfãs de pais e de mães, / andarem acossadas pelas ruas / como matilhas de cães; / enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto / com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente, / num silêncio de espanto / rasgado pelo grito da sereia estridente; / enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio / cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas / amassando na mesma lama de extermínio / os ossos dos homens e as traves das suas casas; / enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser / verdade, / enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, / o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade: / ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA. Poema extraído de Poesias completas (Sá da Costa, 1987), do poeta e professor português António Gedeão (1906-1997). Veja mais aqui.


REINO DAS PERNAS – Ei-la que vem no ballet do andar pra incidiar minha libido quando aterrissa do seu salto alto com suas lindas torres gêmeas que eu Sansão cego de exaltação quero vencer e vergar e dominar no meu xeque mate, dissimulada cruza as pernas em xis fechando a porteira, o bailado cruzado em LA para abrir escala escancarando tudo pra mim e se agacha como quem faz UU com os glúteos e eu Uh!, ao vê-la rodopiar num pé só e estirar a perna pra tocar o meu sexo com os dedos pros caminhos dos pés descalços e o realce das unhas pintadas na inquietação de sua dança louca lúbrica, com a planta dos pés alisando meu pênis indomável e enrijecido a prendê-lo entre eles e a me expor seu tornozelo que contorno para prender-lhe os calcanhares e alcançar suas panturrilhas como quem domina a dobra do joelho – o istmo que me leva  às correntezas dos seus mares profundos e vê-la amanhecer entre as coxas com uma cruzada sensual de provocante Sharon Stone no meu instinto selvagem e distinguir a cor da calcinha para baldear seus quadris e nas suas ancas arrancá-la para saborear o que mata a minha sede e deixa brincar a minha língua na vulva de todos os seus desejos pra minha possessão até se afastar engatinhando pro close de sua fortuna secreta que eu exalto despudorado pra beijar-lhe o sexo, o ânus e a alma e lambê-la arrepiada a desvelar a catarse do seu iniciático orgasmo de égua nua pro meu deleite de cavaleiro templário guardião exclusivo no seu trote a subjugá-la as pernas em V pra descobrir-lhe o gozo ao crepúsculo até sermos um – Yin & Yang - na entrega carnal e anímica de nós dois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais:

O ímpero de possuir-te docemente amanheceu desnudo – do escritor grego Giórgios Seféris (1900-1971) com a arte do pintor, desenhista e professor Guerino Grosso (1907-1988). Veja mais aqui.



TANATOLOGIA - A Tanatologia se preocupa com o estudo da morte visando a consciência humana deste evento tão submetido a tabus e mal-entendidos. Historicamente doutrinas filosóficas, religiosas e científicas têm estudado a morte e seus eventos promotores de angustias, temores e ansiedades para a humanidade, notadamente quando foi encarada como um fenômeno físico submetido a apreciações e estudos exaustivos, sendo, no entanto, apesar dessas pesquisas, ainda um mistério.
A Tanatologia é originária, segundo Torres e Torres (1983), do grego “thánatos”, identificado na mitologia grega como o deus da morte. Este deus grego, Tânatos, convivia com Eros, deusa do amor, no contexto mitológico grego. Tal origem traz a representação de que Tanatologia é a ciência que estuda a morte, onde as suas correlações com a vida em diversos momentos históricos deixam entendidas todos os anseios e temores humanos diante da morte.
Historicamente, a herança cultural sobre a morte vem das gerações mais antigas por meio das culturas que, segundo Bock, Furtado e Texeira (2201),.foram legadas pela modernidade, desde estudos realizados por arqueólogos e antropólogos onde se descobriu que o homem de Neanderthal já se preocupava com seus mortos.
Na pré-história, conforme Martins (1983), os mortos dos povos antigos eram cobertos por pedras, principalmente acobertando seus rosto e a cabeça, visando a proteção do cadáver da ação de animais, como também na tentativa de se evitar o retorno de mortos ao mundo dos vivos. Considera, ainda, Martins (1983, p. 32) que “Mais tarde, eram depositados alimentos e as armas do morto sobre a sepultura de pedras e o esqueleto era pintado com uma substância vermelha”.
Os egípcios da antiguidade, conforme os estudos de Kastenbaum e Aisenberg (1983), deixavam ver que em sua sociedade bastante desenvolvida do ponto de vista intelectual e tecnológico, consideravam a morte como uma ocorrência dentro da esfera de ação, uma vez que possuíam um sistema que tinha como objetivo, ensinar cada indivíduo a pensar, sentir e agir em relação à morte.
Também os malaios, segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983, p. 132): Os malaios, por viverem em um sistema comunitário intenso, apreciavam a morte de um componente, como uma perda do próprio grupo. Desta feita, um trabalho de lamentação coletiva diante da morte era necessário aos sobreviventes. Ademais, a morte era tida não como um evento súbito, mas sim como um processo a ser vivido por toda a comunidade. Deixam claro os autores, portanto, que na antiguidade, após a morte, o justo irá para o paraíso enquanto as versões nórdicas rejeitavam a idéia de paraíso porque não esperavam as mesmas delícias que os orientais, após a morte. Tais curiosidades trazem no bojo o entendimento de que, na Antiguidade, o ser humano deseja, ao menos após a morte, obter o conforto que não conseguiu em vida. E que as pessoas podiam escolher onde iriam morrer; longe ou perto de tais pessoas, em seu lugar de origem; deixando mensagens a seus descendentes.
Para Kovács (1998), outras exposições são encontradas, por exemplo, na mitologia do budismo onde é ocorre a busca por afirmar a inevitabilidade da morte. Também na mitologia hindu, a morte é encarada como uma válvula de escape para o controle demográfico. Os Antigos de Constantinopla mantinham os cemitérios afastados das cidades e das vilas, bem como os cultos e honrarias que prestavam aos mortos, tinham como objetivo mantê-los afastados, de modo que não "voltassem" para perturbar os vivos.
Na Idade Média, conforme Martins (1983), a visão de morte é encarada a partir da disposição dos cemitérios cristãos que se localizavam no interior e ao redor das igrejas, significando lugar onde se deixa de enterrar. Há de se considerar que a Idade Média foi um período critico com turbulências sociais violentas, período marcado pela mudança radical do homem encarar a morte. É neste sentido qie Kastenbaum e Aisenberg (1983, p. 138) relatam: A sociedade do século catorze foi assolada pela peste, pela fome, pelas cruzadas, pela inquisição; uma série de eventos provocadores da morte em massa. A total falta de controle sobre os eventos sociais, teve seu reflexo também na morte, que não podia mais ser controlada magicamente como em tempos anteriores. Ao contrário, a morte passou a viver lado a lado com o homem como uma constante ameaça a perseguir e pegar a todos de surpresa.Esse descontrole, traz à consciência do homem desta época, o temor da morte. Com isso, entende-se que as atitudes perante a morte, nas sociedades do Ocidente cristão, da Idade Média aos dias atuais, vão da aceitação predominante na primeira Idade Média, depois a simplicidade, a socialização do homem com a morte, a parca ou nenhuma preocupação com o destino futuro dos corpos, observando-se, inclusive, que no século XII, a morte é vista com maior dramaticidade, individualidade, quando o homem vai descobrindo a "morte de si mesmo" e a morte adquire características eróticas e de morbidez.
Com o século das Luzes e do Barroco, a morte começa a ser dramatizada, exaltada. Toma sentido a "morte do outro", e a morte assume o sentido de ruptura, passa a ser indesejável, embora admirada pela beleza que lhe dá o romantismo.
A morte do século XIX é acompanhada, no leito do moribundo, por ritos e manifestações de choros, gestos dramáticos, uma afetividade macabra, pela religião emotiva do catolicismo romântico ou do petismo protestante. Surge o culto contemporâneo dos túmulos individuais ou familiares, da sepultura como propriedade particular e perpétua e o culto da saudade, com as periódicas peregrinações aos cemitérios. A civilização urbana e industrial intervém nas novas atitudes funerárias. A morte, no século XIX é um tabu, que substitui o tabu do sexo de há pouco tempo ou da era vitoriana. E ao penetrar nessa superfície constituída por relato literário, o cientista social depara com camadas profundas de dados culturais interessantes e significativos. Eles incluem um variado conjunto de crenças e ritos relativos à morte e aí se encontram. São prescrições próprias do catolicismo em graus variáveis de consonância com a ortodoxia; são crenças e ritos de procedência africana, combinada e recombinadas, entre grupos africanos culturalmente diferentes e entre essas diferentes crenças africanas e as variações próprias do cristianismo do colonizador católico.
No Brasil, o tema da morte é praticamente inexplorado; pelo menos dentro de um tratamento da demografia e das atitudes, comportamentos e representações das sociedades do passado. Os historiadores pouco se voltaram para o assunto. São os antropólogos primeiro, seguidos dos sociólogos e psicólogos que vão desbravando as primeiras veredas.
Numa abordagem conceitual a morte é descrita através de várias perspectivas na literatura de todo o mundo. Em primeiro lugar, a morte ou óbito são termos que se referem duplamente ao fim da vida de um determinado ser, ou o estado deste ser depois da ocorrência do seu fim. Razão pela qual, biologicamente, a morte ocorre na parte do ser, ou em todo ser, ou em ambos os casos. Por isso, a morte é vista na perspectiva de várias teorias, dentre elas, segundo Stedeford (1986), a da Extinção Absoluta, mais conhecida como teoria materialista que entende acaba a permanência da vida quando ocorre a morte física.
Na teoria Teológica, mais conhecida como Teoria do Céu e Inferno, Stedeford (1986), entende os anseios humanos de que numa vida eterna além da física é determinada pela conduta na vida física.
Na Teoria do Renascimento ou da Reencarnação, Stedeford (1986) explica em seus estudos que através de renascimentos sucessivos em corpos físicos e com diferentes experiências de vida para alcançar a expansão de consciência e perfeição espiritual. Também é a morte, na maioria das vezes, usada, para o autor mencionado, numa definição mais conservadora de morte: a interrupção da atividade elétrica no cérebro como um todo, e não apenas no neocórtex. Tal entendimento leva a apreensão de que, segundo Stedford (1986, p. 71): A irreversibilidade é constantemente citada como um atributo da morte. Cientificamente, é impossível trazer de novo à vida um organismo morto. Se um organismo vive, é porque ainda não morreu anteriormente. No entanto, muitas pessoas não acreditam que a morte física é sempre e necessariamente irreversível, enquanto outras acreditam em ressuscitação do espírito ou do corpo e outras ainda, têm esperança que futuros avanços científicos e tecnológicos possam trazê-las de volta à vida, utilizando técnicas ainda embrionárias, tais como a criogenia ou outros meios de ressuscitação ainda por descobrir. Alguns biólogos acreditam que a função da morte e primariamente permitir a evolução da espécie. A partir disso encontra-se que atualmente, quando requerida, a morte geralmente, conforme Stedford (1986), é esclarecida como morte cerebral ou morte biológica: pessoas são dadas como mortas quando a atividade cerebral acaba por completo. Presume-se que a cessação de atividade elétrica no cérebro indica fim de consciência. Porém, aqueles que mantêm que apenas o neocórtex do cérebro é necessário para a consciência, argumentam que só a atividade elétrica do neocórtex deve ser considerada para definir a morte.
A partir daí, várias são as expressões entendidas acerca dos conteúdos que se demonstram negativos por causa das associações da morte aos flagelos, torturas, conteúdos macabros e perversos, relacionando-se a castigo e punições perturbadoras nos seres humanos desencadeando um completo estranhamento acerca do seu evento. Além disso, a morte dos mais próximos e amigos passa a ser uma das mais importantes formas da tipologia da morte a causar problemas nos seres humanos, trazendo até conseqüências devastadoras quando da ocorrência de falecimento de entes queridos e desconhecidos, discutindo-se o seu significado religioso, filosófico, social, dentre outros.
Os estudos freudianos recolhidos por Stedford (1986, p. 75) registram que a morte de um ente querido revolta por levar consigo uma parte do próprio ser, uma vez que “Para a psicanálise, a intensidade da dor frente à uma perda, se configura narcisicamente como a morte de parte de si mesmo”.
A morte, na contemporaneidade, é vista, conforme Kübler-Ross (1997), culturalmente, não incorporada à vida, mas sim como castigo ou punição, principalmente quando são cada vez mais intensas e velozes as mudanças sociais, expressas pelos avanços tecnológicos, onde o homem tem se tornado cada vez mais individualista, convivendo com a idéia de que uma bomba pode cair do céu a qualquer momento. Para Kübler-Ross (1997, p. 69), "Diminuindo a cada dia sua capacidade de defesa física, atuam de várias maneiras suas defesas psicológicas", ao mesmo tempo que as atrocidades se transformam em verdadeiras pulsões de destruição, detectando, portanto, a dimensão visível da pulsão de morte. Também a morte é encarada como ruptura de um vínculo. Ou como fracasso, a impotência, a depressão, a negação, a evasão. Portanto, a morte em si está ligada a uma ação má, a um acontecimento medonho, a algo que em si clama por recompensa ou castigo.
Na sociedade onde predomina o homem da massa, em detrimento do homem como indivíduo e com o distanciamento cada vez maior do homem em relação à morte, cria-se um tabu, como se fosse desaconselhável ou até mesmo proibido falar sobre este tema. É neste sentido que Torres e Torres (1983, p. 110) expressam: Esse quadro atual nos revela a dimensão da cisão que o homem tem feito entre vida e morte, tentando se afastar ao máximo da idéia da morte, considerando sempre que é o outro que vai morrer e não ele. Nos lançamos então à questão da angústia e do medo em relação à morte. Com isso Torres e Torres (1983, p. 112) entendem que, por meio da Psicanálise Existencial, esta revela a dimensão da angústia da morte: "A angústia mesma nos revela que a morte e o nada se opõe à tendência mais profunda e mais inevitável do nosso ser", que seria a afirmação do si mesmo. Recolhem os autores que a partir de Freud situa ou na reação a uma ameaça exterior, ou como na melancolia, ao desenrolar de um processo interno. Fato este que leva Kastenbaum e Aisenberg (1983) a entender que o ser humano lida com duas concepções em relação à morte: a morte do outro, da qual todos nós temos consciência, embora esteja relacionada ao medo do abandono; e a concepção da própria morte, a consciência da finitude, na qual evitamos pensar, pois, para isto, temos que encarar o desconhecido. Daí, entende Kovács (1998, p. 84) que: "O medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independente da idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso". Isto porque, para o autor, o homem é o único animal que tem consciência de sua própria morte.
Contemporaneamente as discussões filosóficas, científicas, psicológica e psicanalítica, principalmente a partir de Bataille (2004), trazendo a noção a partir das pulsões de morte, transgressão, nascimento e morte, redundando nos debates atuais. A questão envolve a discussão alusiva a afinidade entre a reprodução e a morte, quando, segundo Bataille (2004), se delineia a morte, a decomposição e a renovação da vida. É neste sentido que Bataille (2004, p. 84) assinala que “[...] as interdições responderam à necessidade de afastar a violência do curso habitual das coisas”, quando, mais adiante, assinala que “A morte e a reprodução se opõem como a negação à afirmação”, sendo que, no entanto, considera que a vida é a negação da morte, uma vez que a mesma é a sua exclusão. Diz Bataille (2004, p. 85) que: A vida é sempre um produto da decomposição da vida. Ela é tributária em primeiro lugar, da morte, que cede o lugar; em seguida, da decomposição, que sucede a morte, e recoloca em circulação as substancias necessárias à incessante vinda ao mundo de novos seres. Neste tocante o autor acentua a dicotomia entre vida e morte, reprodução e decomposição, delineando, no entanto, a noção antagônica, porem complementar entre si que as relacionam e as tornam complementares em suas essências. No entanto, mais adiante Bataille (2004, p. 92) assinala que: [...] a morte sozinha assegura um constante reflorescimento sem o qual a vida declinaria. Recusamo-nos a ver que a vida é a armadilha oferecida ao equilíbrio, que ela é inteiramente a instabilidade, o desequilíbrio no qual se precipita. É um movimento tumultuoso que atrai incessantemente a explosão. Mas a explosão incessante não cessa de esgotá-la, e ela só continua sob uma condição: que os seres que ela engendra, e cuja força de explosão está esgotada, detem lugar a novos seres, que entram na roda com uma nova força. É neste sentido que o autor advoga a relação existente entre o nascimento e a morte, a reprodução e a decomposição, assegurando que a sexualidade e a morte não são nada além de movimentos agudos de uma festa que a natureza celebra com inesgotável multidão de seres, ambos tendo o sentido do desperdício ilimitado ao qual a natureza vai ao encontro do desejo de durar que é próprio de cada ser, mesmo diante da constatação de finitude, da condenação ao fim existencial, da certeza de que a vida um dia terá um fim determinado na morte e na decomposição. É a partir disso que fica claro nas idéias do autor em questão, que a teoria já difundida e bem retumbante nos meios psicanalíticos, filosóficos e científicos de que o ser humano nasce morrendo, indicando assim a contagem regressiva de sua existência e, deixando claro, portanto, que a morte não é a tragédia nem o evento fatal da existência humana, mas a conseqüência das transformações vitais como um acontecimento natural a ser entendido como tal.
Estudar a Tanatologia é, conforme visto, abordar a morte no seu mais amplo sentido, mesmo que ela, a morte, não tenha um significado único geral. Isto quer dizer, portanto, que o entendimento dessa variedade de significação do termo morte, leva-se a um necessário aprofundamento acerca do tema proposto no presente trabalho. Em razão disso, em primeiro lugar há que se entender o tabu que representa a abordagem do tema morte, um evento que assusta, causa temor, apavora e leva a depressão ou insatisfação da vida. No entanto, há que se entender que este comportamento diante da morte, é um comportamento cultural: desde as mais antigas civilizações do planeta, a morte causa fascínio e temor. É exatamente por meio do estudo realizado pela Tanatologia que se pode evidenciar um caminho para se aprofundar estudos e pesquisas que levem á superação das pessoas diante do evento da morte e suas conseqüências na vida humana. Entende-se, com isso, que é a Tanatologia que proporcionará uma consciência da finitude humana e do evento natural da morte para o ser humano, cabendo necessariamente ampliação nos debates acerca de tão importante temática na vida de todas as pessoas.

REFERÊNCIAS
BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: Atx, 2004.
BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO Odair; TEIXEIRA Maria de L. Trassi. Psicologias; uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.
KASTENBAUM, R. e AISENBERG, R. Psicologia da morte. São Paulo: EDUSP, 1983.
KOVÁCS, Maria Julia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.
KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1979.
MARTINS, José de Sousa. A morte e os mortos. São Paulo, Hucitec, 1983.
STEDEFORD, A. Encarando a morte. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
TORRES, W. e TORRES, R. A psicologia e a morte. Rio de Janeiro: FGV, 1983. Veja mais aqui, aqui e aqui .


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A poesia nossa de cada dia, Mario de Andrade, Gerardo Mello Mourão, Jacques Tati, Camille Saint-Saëns, Empédocles de Agrigento, Jeremy Lipking, Ismael Nery & Maria Claudia Maciel aqui.



E mais:
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Big Shit BÔbras: quando deram um jorge e depois uma júlia num encontro de quarto grau com um ET - a reaparição do padre Bidão! (será?!) aqui.
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Tolinha & Bestinha: Quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado aqui.
As trelas do Doro: escambau aqui.
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