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quinta-feira, setembro 29, 2016

EINSTEIN, IMRE KERTÉSZ, NIETZSCHE, SAVIANI, MANUEL DIÉGUES, EVELYN HAMILTON, CIDA DEMARCHI & EUSTÁQUIO NEVES

INEDITORIAL: QUANDO A POLUIÇÃO TORNA O AR IRRESPIRÁVEL, A VIDA VAI PRO BELELEU! – Salve, salve, gentamiga! As últimas não são lá nada alvissareiras! O alarme dado pela Organização Mundial da Saúde de que nove entre dez habitantes do planeta convivem em ambientes de alta poluição, causados pelo consumo de combustíveis dos motores da indústria, dos veículos e das termoelétricas, foi bastante aterrador. Nossa, alarme desse não é pra deixar passar em branco! E, pelo visto, as providências necessárias viraram necas de pitibiriba. Só ouvidos de moucos. Confesso, deveras, meu desapontamento com a indiferença de todos diante de tal fato. Estamos cada vez mais anestesiados pela insaciável voracidade do consumo e do dinheiro, fechados na redoma do umbigocentrismo, nem se dando conta de que não é só com os outros que acontecem as coisas ruins: o enterro também volta pra nossa banda. E quando o funesto nos envolve, não vai adiantar ficar perguntando o que foi que fez, porque todos nós somos responsáveis pelo adoecimento e, consequentemente, pelo apodrecimento do nosso planeta. Gente, está na hora da gente abrir o olho de verdade! Dito isto, vamos pras novidades: na edição de hoje o pacifismo ativo de Albert Einstein, a diversidade cultural de Manuel Diégues Júnior, a literatura de Imre Kertész, a gaia ciência de Nietzsche, o Setembro Amarelo de Prevenção ao Suicídio, a educação de Dermeval Saviani, a fotografia de Eustáquio Neves e Cida Demarchi, a pintura de Evelyn Hamilton, a croniqueta com os erradios catimbós de Afredo e a música de Mafalda Veiga. No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui.

Veja mais sobre
Educação por água abaixo, Miguel de Unamuno, Miguel de Cervantes y Saavedra, Vitsentzos Kornaros, Plinio Marcos, Michelangelo Antonioni, Michelangelo Merisi da Caravaggio, Márcio Montarroyos, Bernard Picart, Monica Vitti, Anita Ekberg, Literatura Infantil aqui.

E mais:
Ciranda, Carlos Fuentes, Daniel Defoe, Margaret Edson, Martin Luther King, Érica García, Robin Wright, Walasse Ting, Toponímia Pernambucana, Análise Literária & Zine Tataritaritatá aqui.
As croniquetas do Tataritaritatá aqui.
As noveletas do Tataritaritatá aqui.
O existencialismo de Jean-Paul Sartre aqui.
Uma vez na gruta do céu, Platão, Manuel Vásquez Montalbán, Amos Gitai, Roberta Sá, Brad Fraser Bruno Steinbach, Sexualidade Humana, Yael Abecassis, Zine Tataritaritatá & Benvinda Palma aqui.

DESTAQUE:
Considero-me muito feliz por assistir a esta grande manifestação pacifista, organizada pelo povo flamengo. Pessoalmente sinto necessidade de falar diante de todos os que aqui participam, em nome daqueles que pensam como os senhores e têm as mesmas angústias diante do futuro: “Nós nos sentimos profundamente unidos aos senhores nestes momentos de recolhimento e de tomada de consciência.” Não temos o direito de mentir a nós mesmos. A melhoria das condições humanas atuais, constrangedoras e desesperadoras, não pode ser imaginada como possível sem terríveis conflitos. Porque o pequeno número de pessoas decididas aos meios radicais pesa pouco diante da massa dos hesitantes e dos recuperados.* E o poder das pessoas diretamente interessadas na manutenção da máquina da guerra continua considerável. Não recuarão diante de nenhum processo para obrigar a opinião pública a se dobrar diante de suas exigências criminosas. Segundo todas as aparências, os estadistas atualmente no poder têm por objetivo estabelecer de modo duradouro uma paz sólida. Mas o incessante aumento das armas prova claramente que estes estadistas não têm peso diante das potências criminosas que só querem preparar a guerra. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra. Um pacifismo que só ataque as políticas de armas dos Estados é impotente e permanece impotente. Que os povos compreendam! Que se manifeste sua consciência! Assim galgaríamos nova etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados!
Pacifismo ativo, extraído da obra Como vejo o mundo (Nova Fronteira, 1981), do físico, cientista e escritor alemão Albert Einstein (1879-1955). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS ERRADIOS CATIMBÓS DE AFREDO – Afredo não toma jeito! De tanto levar cipoada na vida, findou aprendendo uns bruxedos recolhidos duns livros escondidos da Mãe Zefa – diga-se de passagem, se tratar duma senhora do bem -, mas ele queria era aprender umas coisas de magia negra pra se vingar dos abusadores de sua boa vontade. Escondido dela, ele catou umas feitiçarias pra castigar seus desafetos e começou escrevendo nomes e mais nomes de gente, recortando direitinho e sacudindo todos à marra na boca de um sapo cururu de estimação. Depois ele armou-se de linha e agulha, costurou a boca do batráquio e ficou esperando a má sina pras bandas dos destinatários. Aí, enquanto a coisa se desenrolava, ele viu o Doro que ia passando e resolveu pedir-lhe dinheiro emprestado, já avisando que se ele não arrumasse, ia fazer um vodu da peste na vida dele. Oxe, isso é coisa de besta – disse o Doro -, tá feito mulherzinha, coisa de feitiçaria é pra mulher! Ingicou-se Afredo e zangado com o dá ou não dá, Doro alegando estar desprevenido o que levou o solicitante a sapecar um destá, você vai ver com quantos paus se faz uma canoa. E saiu injuriado largando ofensas aos ventos, quando encontrou Zé Corninho e fez o mesmo pedido, ao que o solicitado prometeu que se passasse amanhã de tarde depois que ele recebesse o salário no banco, ele arranjava. Afredo exultou, só faltou beijar os pés do Zé e acertou tudo para a tarde seguinte. Enquanto isso ele aprontou um trabalho pesado pro Doro, com todas as cargas malfazejas que pode arrancar de si e do mundo, catado a dedo dos alfarrábios da Mãe Zefa, juntou tudo e sapecou maleita braba pras bandas dele. Agora sim, dizia ele pra si, quero ver o Doro se sustentar em pé depois dessa! Eu sou a gota! E ficou só esperando a queda do excomungado. Eis que no dia seguinte, na hora aprazada, cadê Zé Corninho que não aparecia! Zanzou que só atrás do sortudo, nada dele dar as caras. Será que foi lesado de novo? Não podia, ele havia prometido. E saiu gastando solado e enchendo a rua de pernas, quando teve a notícia de que ele fora acometido de uma braba enfermidade, estando internado na UTI do hospital, entre a vida e a morte. Valei-me. Ele ficou quase chorando, o seu salvador, na horagá, estava pra bater as botas e ir pro saco de vez. Falta de sorte a dele. Aperreou-se, cagou raios e quase tem um troço. Peraí. Afredo ficou matutando: será que errei o alvo? A constatação chegou na hora quando viu o Doro bonzinho da silva e, pelo jeito, radiante e arrotando saúde. Danou-se! Foi se certificar, realmente, Zé Corninho estava na UTI entre a vida e a morte com uma doença desconhecida pros conhecimentos médicos. Vixe, santa! Errei o alvo, reclamou desalentado Afredo, de novo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

UMA MÚSICA
 Curtindo o álbum Mafalda Veiga ao vivo (2000), da cantautora e escritora portuguesa Mafalda Veiga.


PESQUISA: A PLURALIDADE CULTURAL DO BRASIL - [...] Num país como o nosso, em que a ampla extensão territorial é enriquecida pela diversidade de condições geográficas – e especial fisiográficas – é claro que a caracterização de regiões culturais constitui de partida fundamental para certos estudos, sobretudo para compreensão das diversidades culturais de hoje – e quase diria: pluralidade cultural – lastreado embora em unidade comum assegurada pela cultura portuguesa. Daí a importância de estudos regionais, não exclusivamente no sentido em que o compreendemos entre nós – monografias sobre Estados ou sobre áreas, ou ainda sobre aspectos peculiares dessa ou daquela unidade federada ou desse ou daquele município – mas ainda,e sobretudo, no sentido de estudos para compreensão e entendimento dos fenômenos brasileiros, da diversificação de técnicas a serem utilizadas, da diferença de situações que decorrem, em grande parte, de estilos de vida peculiares mantidos nas diversas regiões e, às vezes mesmo, em subáreas ou sub-regiões. [...]. Trecho extraído da obra Regiões culturais do Brasil (CBPE/INEP, 1960), do antropólogo, sociólogo, jurista e folclorista Manuel Diégues Júnior (1912-1991), tratando acerca da diversidade cultural do Brasil, as variadas culturas denominadas pelo autor de subsistemas culturais da cultura brasileira. Veja mais aqui.

UMA LEITURA: A LÍNGUA EXILADA
[...] Examinei essas fotografias espantado. Vi mulheres belas e sorridentes e jovens de olhos inteligentes, todos bem-intencionados, ansiosos por colaborar. Agora compreendo por que e como aqueles vinte minutos humilhantes de inação e impotência se apagaram de suas memórias. Quando pensei como tudo isso se repetiu da mesma forma durante dias, semanas, meses e anos a fio, tive a percepção do mecanismo do terror, descobri como foi possível voltar a natureza humana contra a vida do homem. Assim, prossegui, passo a passo, no caminho linear de descoberta; esse foi o meu método heurístico, se quiserem. Cedo descobri que não me interessava nem um pouco para quem e por que escrevia. Uma única questão me interessava: o que ainda tinha eu a ver com a literatura? Pois para mim era claro que uma linha intransponível me separava da literatura e dos ideais, do espírito associado ao conceito de literatura, e o nome dessa linha demarcatória - como o de muitas outras coisas - era Auschwitz. Quando escrevemos sobre Auschwitz, devemos considerar que Auschwitz - ao menos num certo sentido - suspendeu a literatura. Seria possível escrever um romance macabro sobre Auschwitz ou - perdoem a expressão - um seriado barato que começaria em Auschwitz e ainda duraria até os dias de hoje. O que significa que não aconteceu nada desde Auschwitz que a tivesse negado ou refutado. Nos meus escritos, o Holocausto nunca apareceu no passado. [...] sinto que o odor da submissão que exalo pode ser sentido à distância. Quem foi humilhado uma vez será humilhado sempre; quem é humilhado em casa é humilhado no exterior, texto meus axiomas. [...] A sombra da Hungria projeta-se sobre mim sempre, em todo lugar [...] envolvo-me nela obstinado, como se me cobrisse espontaneamente.
Trecho extraído da obra A língua exilada (Companhia das Letras, 2004), do escritor húngaro Imre Kertész (1929-2016), premio Nobel de Literatura de 2002 e judeu sobrevivente do holocausto.

PENSAMENTO DO DIA: A EDUCAÇÃO BRASILEIRA - [...] Esperava-se que estendendo a escola para todos poder-se-ia alcançar a democracia, ou seja, a escolarização seria a base para a democracia burguesa. Na medida em que a burguesia se tornou classe dominante, ela elaborou seu projeto, organizando um sistema de ensino em nível nacional, visando com isto que, através da alfabetização, através da instrução, o povo fosse esclarecido e, tendo sido esclarecido, pudesse tomar decisões mais corretas e soubesse escolher melhor os seus governantes, contribuindo para a formação de uma democracia consistente: a democracia enquanto "governo do povo, pelo povo e para o povo". O que ocorreu, com a evolução histórica, foi que esse projeto - um projeto da própria classe dominante, que organizou a educação enquanto sistema escolar a partir da concepção de que a escola é direito de todos, devendo, portanto, ser estendida a todos - o que se constatou foi a não obtenção do resultado esperado. Quer dizer, apesar de alfabetizados, apesar de instruídos, os elementos do povo não escolhiam bem os seus governantes. [...] Na medida em que descobre que a educação é um fenômeno condicionado, determinado pelo modo de produção, pela estrutura da sociedade, pela correlação de forças, pelo controle político exercido através da dominação e hegemonia, esboroa-se toda aquela ilusão de poder. Aqui, admito, há o risco de se passar de um otimismo ingênuo para um pessimismo, no meu modo de ver, igualmente ingênuo, acreditando-se, agora, que a determinação da sociedade (leia-se classe dominante) é tal que retira da educação toda e qualquer chance de contribuir positivamente para a transformação da sociedade. Retomando-se as considerações que fiz no final da palestra (a consciência dos condicionantes objetivos ao mesmo tempo que destrói o poder fictício, constrói um poder efetivo) creio ser possível superar seja o otimismo ingênuo, seja o pessimismo ingênuo, em direção àquilo que eu chamaria, na falta de uma expressão melhor, entusiasmo crítico. Trecho extraído da obra Educação: do senso comum à consciência filosófica (Autores Associados, 1996),do filósofo e pedagogo Dermeval Saviani. Veja mais aqui.

UMA IMAGEM:
A arte do fotógrafo Eustáquio Neves.

AGENDA: SETEMBRO AMARELO – A coordenadora do Grupo de Pesquisa Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, professora Janne Eyre Melo Sarmento de Araujo, participará com o tema Epidemiologia do suicídio em Maceió, no evento Setembro Amarelo: Mês Internacional de Prevenção em Suicídio, que se realizará nesta quinta feira, a partir das 18:30hs, no auditório do curso de Direito do Centro Universitário Cesmac, numa promoção do curso de Psicologia. Na ocasião também participarão os professores Franklin Bezerra e Liércio Pinheiro com a temática Suicídio e Psicopatologia, o professor Claudio Jorge Gomes com a temática Aspectos psicossociais do suicídio; e o professor Manoel Henrique com a temática Suicídio e Espiritualidade. A coordenação dos trabalhos será realizada pelo professor Lamartine Vasconcellos. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA

 [...] Como é difícil viver, quando se sente o juízo de muitos milênios contra si e em torno de si! É provável que por muitos milênios o conhecimento esteve impregnado de má consciência e que muito desprezo própria e secreta miséria há de ter entrado na historia dos maiores espíritos.
A reputação firmada, trecho extraído do Livro IV, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica estadunidense Evelyn Hamilton.
Veja  mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra com A moça, da fotógrafa Cida Demarchi.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


sexta-feira, maio 09, 2008

POE, MIGUEL TORGA, MARX & SUICÍDIO, ANA PADRÓN, PADRE BIDIÃO & BOCA DE FRÔ


 
Art by Ana Padrón

LITERÓTICA: PROFANAÇÃO (Ou: o gosto perene da primeira vez) – Prólogo: descortinando os mistérios – a revelação. (Qualquer coisa a haver com o paraíso, Mílton Nascimento & Flávio Venturini, Ângelus). À hora do Ângelus, ela espera. Ungida e provocante no trâmite das horas. Emborcada de Mandel: a nudez do corpo esguio à meia luz (Isso: lenço na cabeça, terço entre os lábios, crucifixo nas mãos). A espera na noite: uma alma desnuda no oratório. Apenas duas velas num castiçal e uma esperança fincada alumiando a pele acetinada que aguça o meu desejo de ontens. (Formoso perfil de Vasti – lindeza de Leonor Watling na cena de Almodóvar. Fervorosa fé de Rute, orações exaltadas de Ester: o olhar na crença e mãos sobre a Bíblia). Resignadas orações: escapulário e hozanas imaculadas lavando culpas, dores e passado. Não se dá conta na réstia da obscenidade do meu beijo ateu: a profanação de véspera, partícipe do ritual. Ela contrita, resignada; eu, danação. Atração de opostos, conflitos redundam. Mas convergem, porque de mim: bem-aventurado o que goza porque dele é o reino parais(s)o. Estribilho: a hóstia & comunhão – a carne do sal da terra. (Um anjo, Egberto Gismoti, Zig Zag) Flagro o instante e a pele acetinada aguça o desejo de ontens: tudo candura dela e perversidade de mim (seu sangue, meu vinho). E o meu olhar insolente na aura destrancada: um anjo caído. Meu corpo e a salvação pro que é, foi e será: um feito deus sem criação, sem éden, sem nada. Misérias de ser encanto de mulher. Pela angelical candura sou atraído até me perder nas linhas da palma de sua mão (um convite ao turbilhão atávico de suas reencarnações). Nela, juro que me perco a bel prazer. E numa tentação advena alcançando seus dedos, um carinho na graça manual. Tomo seu pulso e logo seus braços, seios, ombros, faces, tudo é magia pura como irrevelável segredo desvelado. E vou me perder mais ao roçar-lhe a boca com o anular: respiração e espasmos. Rezas, suspiros e pálpebras cerradas. (Revirando os olhos, mordendo os lábios, lambendo meu dedo). E mais me perdendo me encontro com sua voz sussurrada a tomar meu nome ofegante de rei adorado. Manhosa de sangue quente no bico da chaleira fervendo. Dengosa revel aos caprichos das minhas investidas certeiras. E faz de conta que alheia num truque sagaz quando cheiro seus cabelos em desalinho nos olhos – grandes olhos inocentes e fugazes - até o pescoço num beijo que lambe o ombro e dá na mandíbula pra expirar devagar por trás das orelhas, até sentir sua pele eriçada no seu corpo clareira e eu ébrio com o aroma exalado. E se contorce serpente irresistível e desfalece se esfregando ao meu toque. E se submete e subjugo: nossa liturgia profana. E envolvo a cintura até os seios de mil ternuras e cravo-lhe os dentes na carne, encosto o meu membro ativo ao que rebola com ar de menina dengosa, ah, minha doce pessoínha exalando uma aura de zis infâncias da adulteza alada. Fica minha e inteira e toda e de suas costas imantadas emerge de bruços toda eletricidade atrativa do convite irrecusável: o cálice do paraíso no gozo da carne, a glória da vida eterna que equivale a se afogar no redemoinho de nossas mais indecentes poses íntimas. Refrão: a marca aguda na memória da pele (Naávu Javassarê, Edson Natale & Carmina Juarez, Lavoro). Ah, ela nua é linda, um anjo destamaínho: no meu tope. A pele e o desejo. Iluminou-se de mim agarrada às cortinas do templo irreal. Sabia: meu café da manhã, almoço e janta. Era ela. (A cruz entre os dentes na vulva. A saliva reluz meu cetro como hóstia dessacralizada). Ah, minha estóica de peitinhos miúdos, franzina e sedutora, safada e minha, me aproprio de seu corpo louvando todas as suas maravilhas: não existem asas nos flancos, só o hálito de sangue, sexo e prazer. (A beleza que vem de dentro). E eis que suspira esfolada com voz rouca safada, se derretendo inebriante sob o seu garanhão puro-sangue - a pressão do meu membro contra a sua pele translúcida de válvula aberta, fantasias delirantes no delta inexplorado. (O lenço à boca para sufocar suspiros maiores às alturas de um forno que não há como escapar). Apoio-me em seu dorso para salpicar sua fonte de areia movediça. E se acende o gozo que se faz luz no meu prazer. Só noite e gemidos – o bramir das ondas da tesão. Epílogo: a glória altissonante na satisfação do amor (Romance de Minervina, romance nordestino procedente do séc. XIX, recriado por Antonio José Madureira para Orquestra Armorial, Do Romance ao Galope Nordestino) Descalça e nua, faz de mim seu refúgio: carinha de anjo e olhos nas estrelas, aquele molho de prazer. Ri como quem habita o céu depois do batismo, crisma e beatificação – riso de sol no mar -, depois dos gemidos e salmos. Depois do gozo na noite interminável. Resta espremida exausta quase encolhida nos meus braços: apascentada fera que cavalgou delícias franziu semblante e se esgoelou inteira a se deleitar com as minhas investidas pelos terraços, salas e oitões. E pendendo sobre mim no impulso do afeto, vou retesado arrimo e aprumo. Nada dito: só o flagra do triunfo. E exulta meu nome cantando louvores. E eu feliz e grato, retomo o repasto. Um gozo renovado. Revolvidas entranhas e trevas da noite, chega a se aninhar até dormir em mim com todas as bênçãos e misericórdias para todos os sacrifícios. (Para a felicidade, todo prazer é doloroso). E, de mão beijada, se espalha toda sob o bombardeio das carícias a dar conta de tudo que é vida entre nós. E em paz deita como num repouso seguro, agora e para sempre dentro de mim, amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.



PENSAMENTO DO DIA (da Primavera de Ginsberg): Uma indagação: pra que tanta lei, meu Deus, se apesar da compulsoriedade jamais será cumprida?

O SUICÍDIO - [...] ser considerado um sintoma da organização deficiente de nossa sociedade; pois, na época da paralisação e das crises da indústria, em temporadas de encarecimento dos meios de vida e de invernos rigorosos, esse sintoma é sempre mais evidente e assume um caráter epidêmico. A prostituição e o latrocínio aumentam, então, na mesma proporção. Embora a miséria seja a maior causa do suicídio, encontramo-lo em todas as classes, tanto entre os ricos ociosos como entre os artistas e os políticos. A diversidade das suas causas parece escapar à censura uniforme e insensível dos moralistas. As doenças debilitantes, contra as quais a atual ciência é inócua e insuficiente, as falsas amizades, os amores traídos, os acessos de desânimo, os sofrimentos familiares, as rivalidades sufocantes, o desgosto de uma vida monótona, um entusiasmo frustrado e reprimido são muito seguramente razões de suicídio para pessoas de um meio social mais abastado, e até o próprio amor à vida, essa força enérgica que impulsiona a personalidade, é frequentemente capaz de levar uma pessoa a livrar-se de uma existência detestável. [...] está na natureza de nossa sociedade gerar muito suicídios [...] a própria existência do suicídio é um notorio protesto contra esses desígnios ininteligíveis. Falam-nos de nossos deveres para com a sociedade, sem que, no entanto, nossos direitos em relação a essa sociedade sejam esclarecidos e efetivados, e termina-se por exaltar a façanha mil vezes maior de dominar a dor ao invés de sucumbir a ela [...] que tipo de sociedade é esta, em que se encontra a mais profunda solidão no seio de tantos milhões; em que se pode ser tomado por um desejo implacável de matar a si mesmo, sem que ninguém possa prevê-lo? [...] [...] o suicídio na é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral [...] A opinião é muito fragmentada em razão do isolamento dos homens; é estúpida demais, depravada demais, porque cada um é estranho de si e todos são estranhos entre si [...] Trecho extraído da obra Sobre suicídio (Boitempo, 2006), de Karl Marx. Veja mais aqui e aqui.

LEONOR – [...] De mãos dadas, durante quinze anos, vaguei eu com Leonor por este vale, antes de o Amor penetrar em nossos corações. Era uma tarde, ao cerrar-se o terceiro lustro da sua vida e o quarto da minha: nós estávamos sentados, abraçados um no outro, debaixo das árvores-serpentes e contemplávamos as nossas imagens refletidas no espelho das águas do Rio do Silêncio. Nem mais uma palavra pronunciamos durante o resto daquele doce dia, e na manhã seguinte ainda as nossas palavras eram tremulas e raras. Do fundo das águas havíamos tirados o deus Eros, e agora sentíamos que havíamos ateado dentro de nós as almas ardorosas dos nossos maiores. As paixões que durante séculos haviam caracterizado a nossa raça acudiam agora de tropel com as fantasias que os haviam igualmente distinguido e bafejavam venturas e benções sobre o vale de Many-Coloured Crass. Tudo como por encanto mudou. [...] O encanto de Leonor era o de um serafim; mas ela era uma adolescente ingênua e simples como a curta vida que vivera entre as flores. Nenhum artificio marcava o amor que lhe estuava no coração, e ela examinava comigo os seus mais íntimos recessos, quando juntos passeávamos no vale de Many-Coloured Crass e conversávamos sobre as notáveis transformações que nele ultimamente se haviam operado. Um dia, finalmente [...]. Trechos do conto Leonor, do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1840), recolhido da antologia Maravilhas do conto amoroso (Cultrix, 1961), organizada por Fernando Correia da Silva. Veja mais aqui.

VIA SACRADuro caminho de chegar à morte! / E dura condição / de ser nele / como eu, / conjuntamente o Cristo e o Cireneu! / Condenado, / açoitado, / a cair / e a sangrar / sob o peso do lenho, / se me quero sentir humano e ajudado, / o recurso que tenho / é cantar como um carro carregado. / É pedir a coragem dos meus passos / à força dos meus versos. / Versos que são apenas o sudário, / solidário / e crispado / do meu rosto de carne, desenhado / no chão da caminhada. / Como ajuda que desse ao próprio corpo / a sombra por ele mesmo projetada. Poema do poeta, teatrólogo e ensaísta português Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha – 1907-1995). Veja mais aqui e aqui.


Art by Ana Padrón

A VERSÃO VERDADEIRA DO CASO NARDONI!!!!

Gente, é o seguinte: Tudo começa quando padre Bidião resolve fazer uma série de clones para representá-lo nos mais diversos acontecimentos em que é requisitado devido sua notoriedade e sapiência. Acontece, porém, que um dos clones se rebelou, tornando-se por artes de magia negra, escura, azarada e dos tinhosos todos dos infernos e Hades, de sair cometendo atrocidades e se envultando logo em seguida. Foi exatamente este clone que numa paranóia entre ficar invisível e se estatelar num concreto armado, Foi parar naquele famigerado edifício London, justo naquela horinha em que o casal Nardoni chegava em casa reclamando com os filhos. Foi aí que ele não agüentando a zoada, tascou um corretivo de nocautear o marido, sacudiu um bruguelo na privada, outro na despensa e, por fim, depois de seviciar e estuprar a dona da casa, quando foi flagrado pela pequenina Isabela, pegou-la pelo gogó e saiu arrastando às porradas e estrangulamento até a grade proteção do quarto, sacudindo a menina de lá de cima para se livrar da pacutia dela. Depois disso, quando voltou para mulher com o fito de concluir o serviço atrapalhado pela garota, viu que a mesma era uma trambolho feiosa muito da ruim e berrou de arrependimento. Com o seu choro de arrependimento logo se envultou e sumiu sem deixar qualquer vestígio nem mesmo uma pista sequer no recinto. Pronto, aí está a verdadeira verdade para inocentar o casal Nardoni do crime que estão sendo acusados. E tem mais: por causa disso a policia intergaláctica está secretamente no encalço deste clone rebelde para desmascará-lo e puni-lo com o rigor da justiça universal. Ponto final, dou fé.
Leitora comemorando o Tataritaritatá!

AS CAÇAROLAS DO LOMBRETA-BOCA-DE-FRÔ - Lombreta Boca-de-frô é um respeitável motorista-de-fogão. Menos. E com licença da má palavra, o cabra é mesmo um mestre-cuca da porra! Foi ele quem ensinou a Ana Maria Braga a cozinhar quando teve um affair com a distinta, levando um chute na bunda porque era metido a galante e preguiçoso demais. Foi também mestre de sujeitinhos reles como Álvaro Rodrigues, Edu Guedes, Olivier, Daniel da Band e de outros menos renomados e mais elitizados cozinheiros do planeta. Não fosse ele achegado a um pai-de-santo, um chibiu disponível e uma conversa-mole, seria ele hoje, sem sombra de qualquer dúvida, o maior culinarista do planeta. E só não é porque ele mete as mãos pelas pernas e finda todo atrapalhado com problemas de ordem familiar, religiosa e social. Mas, sem mais delongas, desta vez ele sapeca a bondosa iniciativa de trazer a primeira receita do seu primoroso acervo alimentar. Trata-se – atenção marmanjos!! - do Prândio Selistérnias! Alguém conhece ou já ouviu falar? Nunca, nunquinha, meu fio! Apois, aprume a conversa e meta as catanas: 1 saco de 5kg de arroz, 1 saco de 1kg de feijão, 2 pacotes de espaguete, 5 kg de filé mignon e l garrafa de 5 litros de Moet Chandon. Regabofe suntuoso, né? Mas pode ir se aquietando que quem tem boca grande não entra. Ele só recomenda este prestigioso banquete para o cidadão endinheirado acompanhado somente de 5 mulheres. Claro, pra quem aprecia, salienta ele, é bom saber de antemão que mulher come como a praga, viu? Isso quem diz é ele, apenas treanscrevo aqui. E cinco mulheres juntas, já viu! O segredo está em tudo ser mal-passado e que as mulheres, segundo exigência dele, devem estar impecavelmente vestidas, porém, sem calcinhas, entenderam? Por que? Pergunte a ele. Porque foi justamente por causa duma comilança dessa quando a distinta esposa do apaideguado estava viajando e retornou antes do dia aprazado, que ele foi jogado fora de casa pendurado pelas orelhas e sacudido nos cafundós de Judas afora pelo flagra. Ah, quer mais? Veja mais das Caçarolas do Boca-de-frô!


Veja mais sobre:
Confissões de perna-de-pau, Arthur Rimbaud, Nina Simone, John French Sloan, Eliane Giardini, Guy Green, Alexis Smith, Yénisett Torres, Lendas Alemãs, Psicologia & compromisso social aqui.

E mais:
A música de Ruthe London aqui.
Constitucionalização do Direito Penal aqui.
Do espírito das leis de Montesquieu aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando as mazelas dão um nó, vôte! A bunda de fora parece mais tábua de tiro ao alvo aqui.
A pingueluda aqui.
A arte de Marcya Harco aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...