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sábado, outubro 08, 2016

TABUCHI, SARAH KANE, POLANYI, FINLEY, IANNI, MULHER FENÍCIA, NIETZSCHE, HUNTER-BLAIR, SHAHLA ROSA, SANDRONI, LAUSANNE, MANO MELO, ELIANE CAFFÉ, SUELI FINOTO & LARA MELO


INEDITORIAL: TEM DIA PRA TUDO, ATÉ PRO QUE EU NÃO SEI! – Olá, gentamiga, salve, salve! Como todos estão careca de saber, tem dia pra tudo – eu mesmo que não sei para que serve ter um dia pra alguma coisa, confesso! Principalmente aqui onde tudo dá-se ao contrário de tanta anomalia. Por exemplo, hoje se comemora o Dia do Direito à Vida! Hummmmm. Para mim todo dia é dia direito à vida! Ou não? Ou, por ser hoje o dia, os outros dias não são? Estou chacrinicamente botando o bedelho mesmo no negócio. Outro: hoje, também, é Dia do Nordestino! Eita! Seguindo a linha do meu raciocínio, faço a mesma indagação: e os outros dias, não? Além do mais, sou nordestino e não tenho nada pra comemorar nesse dia, nem em dia algum – exceto quando resolvo dar férias pro juízo e folgar no carnaval, nas festas juninas, ou num final de semana perdido pra cachaçada. Tanto é que tem gente doutras partes do nosso Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada que diz: faça um favor pro Brasil, mate um nordestino. E culpam exatamente a gente pelo atraso de séculos deste país! Atraso, mesmo, é uma coisa dessas! E ainda dizem que na Patriamada não existe preconceito. E se tivesse, hem? Chamar a nossa barbárie de gente civilizada é pinóia! Coisa do Brasil: tudo finda em piada. Ah, também hoje é consignado o Dia Nacional do Combate a Cartéis! Cuma? Oxe, e é? Ninguém está sabendo, pois nos supermercados e nos mais diversos estabelecimentos comerciais de todo canto, os preços são tudo igualzinho, só muda os centavos. Isso é o que, hem? Faça-me um favor. Por isso que tem o Dia de São Nunca, o Dia da Besteirada Toda, o Dia do Dia, o Dia do Homem, o Dia de Tudo e o de Nada, enfim, data é o que não falta para dar um jeitinho de virar feriado pra gente ter mais carnaval fora de época, ora! O que não consigo entender é que num país que é virado de pernas pro ar desde sempre, se comemora tanto tanta coisa! Ah, tem sempre um motivo pra embeiçar uma lapada boa pra clarear as idéias, segurar os nervos e jogar conversa fora. Do contrário, se a gente ficar só encarando o sério, finda é estourando da gente se espatifar batendo as botas. Eu, hem?!? Coisas de Brasil: contradições a fole! Mas vamos pras novidades do dia: na edição de hoje o destaque para A mulher fenícia e o pensamento sobre a poesia de Moses Finley, a era do globalismo de Octavio Ianni, o pensamento de Karl Polanyi, a Gaia Ciência de Nietzsche literatura de Antonio Tabuchi, o teatro de Sarah Kane, a coreografia de Béjart para Stravinsky, o cinema de Eliane Caffé, a entrevista de Mano Melo, a música de Clara Sandroni & Lara Melo, a arte de Sueli Finoto, a  pintura de Shahla Rosa e Arthur Hunter-Blair, muito humor, grafite & o escambau. Vamos então aprumar a conversa & tataritaritatá aqui.

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Proezas do Biritoaldo: Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão aqui.
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DESTAQUE: POR QUE POESIA?
[...] Por que poesia? A resposta, naturalmente, e que com "poesia" Aristóteles e os outros referiam-se tanto a poesia épica, a recente poesia lírica, como a de Píndaro, quanto a tragédia, que retratavam as grandes figuras e os grandes acontecimentos do passado. Não se tratava de saber se essa poesia era ou não historicamente confiável, ou até que ponto o era, no sentido em que hoje em dia fazemos o mesmo tipo de pergunta em relação aos épicos antigos; tratava-se, isso sim, da questão mais profunda da universalidade, da verdade sobre a vida em geral. [...].
Trecho extraído da obra Uso e abuso da história (Martins, Fontes, 1989), do historiador estadunidense Moses Finley (1912-1986).

A MULHER FENÍCIA – OS FENÍCIOS - Acredita-se que a origem dos fenícios autodenominados de cananeus remontam mais de 5 mil anos e eram migrantes do Mar Morto e Mar Mediterrâneo, ou segundo o historiador grego Heródoto (484ac-430ac) oriundos do Oceano Índico, localizando-se ao norte da Palestina onde atualmente está o Líbano. Os gregos os chamavam de vermelhos, Phoinix. Eram politeístas e excelentes comerciantes, criando os ideogramas – alfabeto composto de sinais fonéticos e gráficos. “Se a criança é fêmea, que a deixe crescer e... emergir. Se é macho, que ela deixe a vara e o cajado curvos emergirem”. A MULHER FENÍCIA – Os mercadores fenícios, segundo o historiador grego Heródoto,  tinham um interesse todo especial por moças bem feitas de corpo e por jovens de rija musculatura. Entre eles, era obrigação das mulheres ofertar a virgindade aos sacerdotes do tempo de Ashtart, a deusa da fertilidade. As mulheres eram sepultadas de toucas no lado esquerdo, os homens à direita. As mulheres e crianças contribuíam como mã0 de obra lucrativa na produção de tecidos. As mulheres não tinham a menor vergonha de manter relações com qualquer homem, sem escolha de hora nem local. Exemplo disso, são as mulheres de Biblos que davam inicio aos ritos secretos do culto de Adônis, no dia da extraordinária transmutação, que ocorria no templo de Baallat ou Baalat-Gebal, a deusa dos céus ou a mãe-terra dos fenícios, denominada por Adônis de Afrodite. Elas batem no peito, choram e lastimam-se, para, finalmente, quando findam seus choros e lastimas, fazer oferendas a Adônis, como se ele tivesse de fato morrido. Pouco depois, porem, constatava-se que Adônis torna a ressuscitar. Aí, então, passam a colocar sua imagem em diversos lugares, ao ar livre. A seguir, elas começam a raspar os cabelos de suas cabeças, como o faziam os egípcios, quando davam vazão às suas lástimas pela morte de Ápis. Todas as mulheres, porém, que se recusavam a permitir que lhes cortassem os cabelos, tinham de se sujeitar à seguinte penalidade: devem se dispor, ao longo de um dia, a alugar seus corpos. No lugar onde isso ocorria só tinha acesso os estrangeiros. Com o dinheiro obtido através das relações dessas mulheres com os que as procuram podia-se adquirir uma oferenda para Afrodite. Reiteram também historiadores que as mulheres se prostituíam pelo período de um dia, entregando-se a visitantes estrangeiros, provavelmente corporificando assim a fertilidade da terra que recebe novas sementes. Entre os antigos costumes orientais havia também o das mulheres decentes que iam oferecer suas graças femininas nos templos. No livro Logos Babilônico, Heródoto descreve que todas as mulheres do país tem de se apresentar ao templo de Afrodite (Ischtar-Astartéia), onde, pelo menos uma vez na vida, devem ter relações com um homem estranho. Elas ficam sentadas no recinto sagrado, trazendo na cabeça uma coroa feita de cordéis. São muitas mulheres, umas chegando, outras saindo. Existem no templo corredores muito retos, que se abrem nas mais diversas direções, nos quais se encontram as mulheres e por onde passam os estranhos interessados em escolher uma delas. Toda mulher que ali chegar, para sentar-se entre as demais, não pode mais voltar para casa, a não ser depois que um dos homens estranhos tenha jogado uma moeda no seu regaço, ao que ela se levanta para manter relações sexuais com ele fora do recinto sagrado. Ao entregar-se a ele, porém, ela se desincumbe de seus deveres sagrados para com a deusa e pode retornar ao seu lar. Daí por diante pode-se oferecer quanto se quiser a essa mulher que ela jamais irá entregar-se de novo a um estranho. Mas são apenas as mulheres bonitas e de vistoso porte que voltam logo para casa. As feias tem de ficar esperando por muito tempo, até poderem, um dia, cumprir o velho costume. Muitas delas ficam no tempo uns três a quatro anos. Também no culto da fertilidade, as mulheres entregam-se ou mantem relações sexuais com os hirodulos, que eram servos sagrados, os quais, homens e mulheres, se encontravam a serviço do templo para a pratica de atos de prostituição, o ser humano comunicava-se com o poder divino. A prostituição nos templos e a perda em público da virgindade ocorriam em todos os tempos orientais existentes entre o litoral do Mediterrâneo e o Hindustão. Os hierodulos prestavam seus serviços até mesmo nos mais antigos templos judaicos, onde eles recebiam o nome de Kedeschim, isto é, os iniciados. Na Capadócia, hoje Turquia, viviam seis mil dessas prostitutas a serviço dos templos. Tato em Biblos como em Tiro eram normais os encontros com essas mulheres. Foi exatamente o Cristianismo que provocou uma ruptura com essa tradição, admitindo e defendendo que o tempo era uma escola de ateísmo praquela gente desprezível que arruinava seus corpos entregando-se a um luxo excessivo. Os homens eram calmos e efeminados, ou seja, já não eram mais homens. Eles renegavam a dignidade de seu sexo. Através de um prazer conspurcado, acreditavam poder venerar a divindade. Para os cristãos, relações sexuais de todo condenáveis com mulheres, coisas imundas perpetradas às escondidas, outras ações indecentes e indescritíveis, tudo isso ocorria no templo. Conta-se ainda que havia uma mulher fenícia, bela e esbelta, que sabia fazer trabalhos maravilhosos. Um dia, chegaram os marinheiros fenícios que oferecendo quinquilharias em seus negros navios, a sequestraram. Eles se aproximaram dela quando fora lavar roupas, conversando das coisas que havia no navio e, por aí, entraram coisas de amor que tanto interessam às mulheres. Perguntaram-na quem era e de onde vinha, ao que falou da saudosa casa de seu pai, respondeu-lhe: ”Tenho a honra de pertencer à cidade de Sídon, de imensas riquezas, onde sou filha de Aribes, cuja riqueza não tem fim. Mas um dia, ao voltar do campo, fui sequestrada por bandidos e vendida à casa do rei da Síria”. Os fenícios perceberam com essa revelação que poderiam fazer grande negócio, perguntando-lhe se não queria retornar ao Líbano, recebendo a sua anuência. Deu-se então essa transação no leito do amor. Mas a sequestrada seduzida não chegou ao Líbano e foi jogada ao mar. Na religião fenícia havia a concepção do masculino e feminino.  O masculino representado pelo deus-sol, rei dos céus que possuía o poder fecundante. O feminino representado pela deusa-lua, que concebia o deus-sol e se confundia com a terra fecunda. As deusas possuíam o título geral de Baaltis-Baalit, ou seja, a dama, e a principal delas era Artartéa. ASTARTÉA – também conhecida como deusa Archera ou Ashera-Yam, a senhora dos mares, que em Biblos se denominava Baalat, palavra que se pode traduzir como “a nossa amada senhora”. Ela é venerada até hoje no culto maronita a Maria, existente no Líbano. Os amores da deusa com Thammur-Adonis compuham os ritos de Byblos. Era esposa de El, o Cronos grego. Ela regia sobre todo o âmbito em que predominavam os fenícios. Possuía a função de conselheira no concilio dos deus, só se manifestando quando lhe dirigiam uma pergunta específica. Como mulher, simbolizava as terras férteis e a fecundidade em geral. Era a Baalat que se pedia boas colheitas, filhos e longa vida. Para todas as pessoas ela representava a mãe celeste ou mesmo uma mãe terrena, capaz de satisfazer as necessidades instintivas de segurança e calor dos seres humanos. Ela também era venerada pelos sumérios, babilônios e assírios. Seu filho Baal-Adon-Eschmun-Melcart estava sempre com a mortalidade em jogo, já que a cada ano ele tinha de morrer para, em seguida, ressuscitar. Tornou-se um grande combatente e um amante ameaçador que se vangloriava de ter estado setente e sete vezes nos braços de amada, Anat. Arvorou-se a mencionar que chegou a amá-la oitenta e oito vezes numa só noite. Por fim, Anat sepultou seu marido, depois dele ter sofrido mais uma de suas muitas mortes, para, em seguida, ser assassinado  por Mot a quem Anat vingou-se cortando-o com uma foice, revirando-o com uma pá, deixá-lo queimando no fogo e triturando-o num moinho. Além disso, ela ainda espalhou a carne do assassino pelos campos para que servisse de alimento às aves. JEZABEL, A PROSTITUTA DE TIRO – Ela provinha do palácio de Hirão, rei de Tiro. Seu pau, Ithobaal, rei dos sidônios, tinha ocupado o cargo de sacerdote de Artartéa antes de usurpar o trono de Tiro. Ela deveria casar-se com Ahab, filho mais de Omri, em Samaria. Ao casar-se, ela mudou de nacionalidade, mas manteve a sua crença ignorando Javé, sendo devotada aos deuses de seu povo e esforçando-se por introduzir em Israel a religião dos fenícios. Ela era formosa e fora educada numa das cortes mais cosmopolitas da época, dominando com perfeição todos os truques da arte feminina da sedução, incluindo entre eles o da intriga. Ahab deixou-se dominar inteiramente por sua mulher, ela passou a fazer dele o que bem entendia. Com isso, pro povo de Samaria, ela era nada mais do que outro membro da classe empresarial que eles abominavem, corporificando e agente do capital estrangeiro. Para os guerreiros de Samaria, ela só estava interessada num maior enfraquecimento da nobreza. Nasce daí uma conspiração promovida pelos camponeses e pela nobreza militar visando destiuir a casa regente, causada pela comportamento de Jezabel. Sabia ela que a consciência judaica jamais a pouparia e sempre surgiria um profeta para apoiar a mutua aversão. E foi o que aconteceu quando surgiu Elias corporificando a ira dos crentes, o ídolo dos oprimidos e a secreta esperança dos insatisfeitos.  Pros cronistas bíblicos, era ela uma ditadora inescrupulosa, uma astuta intrigante e uma mulher ordinária mas de muito sangue frio. Entretanto, historiadores refutam as acusações dos cronistas bíblicos, observando que a pior ação criminal que lhe pode ser imputada é a de ter realizado uma trapaça no caso da vinha de Nabote, que não queria vendê0la ao marido de Jezabel. Todo o resto não é mais que boatos. Contam os cronistas bíblicos que ela se envolveu em vários casos, como o do cidadão de Israel negou-se a vender vinha ao seu marido, ela conseguiu que o homem fosse condenado à morte. Outro caso revela que a mesma ameaçou mandar matar o profeta Elias por insuflar uma sublevação contra os sacerdotes fenícios, conseguindo que o mesmo fosse expulso do país. Certa feita, ao se encontrar com o assassino que acabara de matar seu filho, ela perguntou como se sentia ele sabendo que não passava de um assassino. Foi amaldiçoada por Elias que profetizou: “Os cães comerão Jezabel junto ao antemuro de Jizreel. E o cadáver será como esterco sobre o campo, no pedaço de Jizreel, que se não possa dizer: Esta é Jezabel”. Quando tentaram sepultá-la, só encontraram a caveira, os pés e as palmas das mãos. DIDO, A SOBRINHA DE JEZABEL – Era conhecida por Elischa ou Elissa, neta do rei Marten, de Tiro. Quando seu avô faleceu, sucedeu-lhe ao trono seu filho Pigmaleão, o qual, no entanto, teve de repartir o poder com Elissa. Essa dupla soberania terminou sendo proveitosa para um terceiro, um sacerdote de Astartéia, denominado Acharvas. Nos conflitos entre o pai e a filha, ele fazia as vezes de fiel da balança, o que o tornava verdadeiro detentor do poder naquela cidade insular. Havia, porém, que Acharbas tinha tomado e guardado para si a herança financeira de sua mulher, que representava uma parte do capital da firma Tiro, para assim reduzir ainda mais o campo de ação de seu sogro. Este, porem, que não estava disposto a fazer o jogo do outro, mandou que dessem cabo de seu desafiante. O assassinato tornou a divergência ainda mais acentuada. Alguns patrícios de Tiro tomaram o partido da viúva enlutada e decidiram abandonar a cidade juntamente com ela e o seu tesouro escondido. Como porém, não possuíam numero suficiente de navios, planejaram uma refinada manobra de logro. Elissa, que evidentemente residia no continente, solicitou uma audiência a Pigmaleão, que lhe foi imediatamente condedida. O rei alimentava esperança de que sua filha voltaria para o seu lado, com o capital de que dispunha. Nessa convicção, enviou ao encontro dela navios e marinheiros. Fazendo isso, porém, ele agia exatamente como os fugitivos esperavam que ele o fizesse. Às escondidas, levaram o ouro para os navios, onde o esconderam, e, ao mesmo tempo, abertamente, foram colando sacos cheios de areia no convés superior, dizendo que eles continham o que Pigmaleão estava necessitando urgentemente. Ao chegar no canal entre Uchu e Tiro, Elissa começou a clamar por seus esposo falecido, fazendo gestos dramáticos. Pediu a ele que recebesse de volta o ouro que havia guardado para ela, pois estava manchado de sangue. Seus servos, que estavam esperando essa deixa, passaram a jogar no mar os sacos de areia. Os marinheiros de Pigmaleão ficaram olhando aquilo horrorizados. Aquelas eram as riquezas que eles haviam sido encarregados de buscar e que agora jaziam no fundo do canal. Ao chegarem à ilha, fizeram a tripulação dos navios cair na segunda armadilha. Dezoito jovens, prontas para serem defloradas no templo de Astartéia de Pafos, encontravam-se na praia e jogaram-se nos braços dos marinheiros fugitivos. Eram moças dispostas até a desistir da cerimônia normal nesses casos, para com eles viajarem para onde bem entendessem. E como os sublevados já tinham entrementes sido informados de que o ouro ainda se encontrava a bordo, sentiram-se suficientemente munidos para dar continuação á fuga. Essas foram as primeiras iniciativas do empreendimento chamado Cartago. AFRODITE – No livro Teogonia, do escritor grego Hesíodo, conta-se que certa noite, quando se encontrava justamente no leito de Géia, a mãe terra, foi surpreendido durante o enlace amoroso, por seu filho Cronos, que, atracando-se em luta com ambos, castrou o pai com uma foice. A seguir jogou no mar o membro assim cortado, que ficou boiando nas águas por muito tempo. Mas como não se tratava de carne igual à carne comum dos mortais, conseguiu cumprir suas finalidades, quando uma nuvem de espuma alvacenta começou a se formar em volta daquele pedaço de carne imortal e dela surgu uma mulher que foi conduzida pelas ondas na direção de Chipre. Ela alcançou terra firme nas cercanias de Pafos, atual cidade de Kitima. Nessa localidade, conta-se que surge uma beldade de cabelos cor de fogo, desnuda, que sai das águas e sobe para a praia com movimentos delicados, como estivesse ensaiando alguns passos de dança. Também nessa localidade, em túmulos de pedra fooram encontrados entre os achados um ídolo que acentuava grandemente a área triangular do sexo feminino. Por volta de 1200 a.C., os fenícios ali chegaram e começaram a realizar os ritos vinculados ao culto de Aschera-Astartéia, a deusa que mais tarde os gregos chamariam de Afrodite. Isso é confirmado por Heródoto ao mencionar que foram os fenícios que criaram o seu santuário na ilha de Chipre. Embora pertencesse aos doze maiorias da hierarquia celeste grega, Afrodite continuou sendo sempre a pequena prostuta que pode seduzir qualquer homem que lhe apraz e que, por isso, pode causar frequentemenete consideráveis malefícios. Ela também era chamada “Porné”, isso até o dia em que conseguiu finalmente dividir-se em duas personalidades. Sob o nome de Afrodite-Urânia ela tornou-se a grande mãe do céu, severa. Celevrava-se o seu culto com oferendas de flores e de incenso. A Afrodite vulgar eram ofertados animais do sexo másculo. Diante dos seus altares as sacerdotisas copulavam com jovens adeptos e as mulheres honradas entregavam-se aos peregrinos. Ares era o indômito amante de Afrodite. Ela também foi alvo da paixão de Pigmaleão, herói do conto de fadas da bela Galatéia. Ele aparece na qualidade de um rei cipriota, cuja paixão por Afrodite era tão intensa que chega a pintar um retrato da mulher amada, com o qual tenta manter relações sexuais. A deusa do amor fica tão impressionada com isso que se transforma num ídolo de marfim, totalmente entregue a ele. Já de novo no papel de Galatéia, ela lhe deu dois filhos. AS AFRODÍSIAS E A ILHA DE CITERA – Era o local onde também ocorriam prostituição nos templos e cerimônias orgiásticas. As afrodisias eram cultos divinos realizados em lugares de peregrinação e que se realizam todos os anos em Pafos, no mês de abril. Ali realizavam0se feiras, cuja maior atração eram as escravas cipriotas, famosas pela sua arte de amar. Além disso, faziam-se também competições, corridas com archotes, banhos à noite no mar, comilanças, leituras de obras poéticas, e, no interior do tempo, cerimônias de defloração das jovens. Os rapazes, por sua vez, recebiam também as suas primeiras lições práticas dos jogos amorosos, ministradas por sacerdotisas experimentadas e prostitutas a serviço do tempo. Quando voltavam, recebiam de presente de confirmação, um pequeno falo e um torrão de sal lembrando que a deusa tinha sido gerada no mar. As mulheres casadas recebiam menos atenção do que as solteiras, tanto que se concentravam em passar o tempo untando a pedra branca que representava a imagem de Astrate-Afrodite, famosa em toda região do Mediterrâneo. O RAPTO DE EUROPA – Europa era uma beldade fenícia que fora seequestrada por um touro de aspecto maravilhoso, testa branca como a neve, pele alvacenta, de enorme barriga e pequenos chifres que mais pareciam pedras preciosas. Esse touro era Zeus que se apaixonara por Europa, a fim de que assim, escapando à vigilância da sua mulher, pudesse se aproximar de Europa e trazê-la para Creta, onde ainda hoje há quem mostre o lugar em que ganhou a praia. Afirma-se que fica nas proximidades de Gortyn, no litoral sul da ilha. Todo turista que aí chega é conduzido ao bosque em que o lascivo deus estuprou a bela moça. AS FENÍCIAS DE EURÍPEDES – Tragédia escrita por volta de 411 aC, sobre a maldição anunciada pelo deus Ares no Oráculo de Apolo, comunicada por Cadmo, bisavô de Laio, de que ele não poderia ter filho homem. Mas cego de desejo, casou-se com Jocasta a quem lhe deu o filho Édipo. Temendo a maldição, despachou a criança na encosta do cume do monte Citéron que foi achada pelos pastores e levada ao rei Pólibo que dela cuidou juntamente com sua esposa. Quando já crescido, Édipo foi ao Oráculo de Apolo, encontrando Laio. Eles se desentenderam e o jovem matou-o. Nessa ocasião, a Esfinge acometia cruelmente toda Tebas, levando Creonte, irmão de Jocasta, a oferecer a coroa e a sua irmã a quem pudesse decifrar os enigmas da malévola: “O que é? O que é? Decifra-me ou te devoro”. Foi aí que Édipo enfrentou a Esfinge, decifrou seu enigma e a derrotou, casando-se, inocentemente, com sua própria Jocasta e dela teve 4 filhos, os meninos Etéocles e Polinices e as meninas, Ismene e Antígona. E quando Édipo descobriu que tivera filhos e irmãos com sua mãe, enlouqueceu pela desventura, perfurando seus próprios olhos e amaldiçoou os filhos que se matariam num duelo pelo palácio. Os dois irmãos, temendo que os deuses cumprissem esta maldição paterna, convencionaram que o mais novo, Polinices, deixasse a pátria pelo período de um ano, e que o trono ficasse co  Etéocles. Após esse período, ele voltaria para o revezamento do poder, com iguais direitos. Só que passado esse prazo, Etéocles se recusou a entregar o palácio, expulsando novamente Polinices da pátria. Desarvorado, Polinices juntou-se ao rei Ádrasto, de Argos, e reuniu muitos soldados para enfim invadir Tebas e tomar o seu trono devido. Jocasta sobrevive ao tomar conhecimento que é mãe e esposa ao mesmo tempo de Édipo, porque seu primeiro marido Laio não deu a devida atenção às advertências dos deuses, de que não deviam ter filhos. Os seus dois filhos homens, Polinice e Etéocles, se enfrentam em sangrenta disputa pelo trono. Ela apela aos sentimentos dos filhos, sofrendo com o ódio mortal no coração deles que se negam um ao outro pela ambição de poder. Não havendo paz, os dois perecem golpeados pelas espadas empunhadas por cada um. Ela, então, suicida-se. Antígona, desesperada, voltou ao palácio para contar a seu pai, Édipo, as tragédias que haviam ocorrido. Édipo recebeu a notícia com muita dor. Creonte, destruído por ter perdido o filho, soube que também perdera a irmã, e que o rei Etéocles e seu irmão Polinices já não mais existiam. Com isso, sendo assim o novo rei, expôs as determinações que Etéocles havia transmitido a ele: Antigona deveria se casar com seu filho Hêmon, Édipo deveria ser expulso da pátria, e o corpo de Polinices não deveria ser sepultado e sim entregue às aves carniceiras. Antígona ficou revoltada com a decisão e disse que iria enterrar o seu irmão. Creonte decretou a morte de Antígona, caso ela consumasse este feito. Édipo, mandado para o exílio, foi acompanhado por Antígona e, em seus momentos finais, refletiu que ele, um simples mortal, mesmo tendo derrotado a feroz Esfinge, tendo sido um herói para Tebas e feito só coisas boas, foi incapaz de mudar o seu destino, não tendo domínio sobre sua vida, estando vulnerável apenas a acatar as decisões dos deuses. FONTES BIBLIOGRÁFICAS: ALVES, Manuel dos Santos. As fenícias de Eurípedes: Uma paráfrase de Cândido Lusitano. Humanitas, 2012. EURÍPIDES. Ifigênia em Aulis; As fenícias; As bacantes. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993. HARDEM, Donald. Os fenícios. Libsoa: Verbo, 1980. HERM, Gerhard. A civilização dos fenícios. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979. ROMMILLY, J. de. A tragédia grega. Lisboa: Edições 70, 1997. SALVADOR, Evandro Luis. Mito, narrativa e audiência no monólogo d’As Fenícias de Eurípides. NEArco, Revista Eletrônica de Antiguidade, 2012. ______. Tradução da tragédia “As Fenícias” de Eurípides e ensaio sobre o prólogo (vv. 1-201) e o primeiro episódio (vv. 261-637). Campinas: UNICAMP, 2010. SCHULER, Donaldo. Eurípides: as fenícias. Porto Alegre: LP&M,. 2005. SNELL, B. A cultura grega e as origens do pensamento europeu. São Paulo: Perspectiva: 2001. Veja mais aqui e aqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo o álbum Cassiopeia (Independente, 2007) da cantora e professora de canto Clara Sandroni.


Imagem: Breton & the theme of sexuality - Oil on canvas, da artista plástica do surrealismo canadense Shahla Rosa.

A ERA DO GLOBALISMO - [...] Mais uma vez, no final do século XX, o mundo se dá conta de que a história não se resume no fluxo das continuidades, sequências e recorrências, mas que envolve também tensões, rupturas e terremotos. Tanto é assim que permanece no ar a impressão de que terminou uma época, terminou estrondosamente toda uma época; e começou outra não só diferente, mas muito diferente, surpreendente. Agora, são muitos os que são obrigados a reconhecer que está em curso um intenso processo de globalização das coisas, gentes e idéias. Está em curso novo surto de universalização do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório. O desenvolvimento do modo capitalista de produção, em forma extensiva e intensiva, adquire outro impulso, com base em novas tecnologias, criação de novos produtos, recriação da divisão internacional do trabalho e mundialização dos mercados. As forças produtivas básicas, compreendendo o capital, a tecnologia, a força de trabalho e a divisão transnacional do trabalho, ultrapassa fronteiras geográficas, históricas e culturais, multiplicando-se assim as suas formas de articulação e contradição. Esse é um processo simultaneamente civilizatório, já que desafia, rompe, subordina, mutila, destrói e recria outras formas sociais de vida e trabalho, compreendendo modos de ser, pensar, agir, sentir e imaginar. [...] Assim como a cidadania tem sido principalmente tutelada, regulada ou administrada, também a soberania nacional passa a ser crescentemente tutelada, regulada ou administrada. [...]. Trecho extraído da obra A era do globalismo (Civilização Brasileira, 1996), do sociólogo e professor Octavio Ianni (1926-2004), tratando sobre globalização e diversidade, mundo agrário, a cidade global, nação e globalização, regionalismo e globalismo, trabalho e capital, raças e povos, neoliberalismo e neo-socialismo, os desafios dos dilemas e horizontes que formam na sociedade global como uma realidade problemática, atravessada por movimentos de integração e fragmentação, simultaneamente à interdependência e à acomodação, desenvolvedo tensões e antagonismos, implicando em tribos e nações, coletividades e nacionalidades, grupos e classes sociais, trabalho e capital, etnias e religiões, sociedade e natureza, muitas as diversidades e desigualdades que se desenvolvem, algumas são antigas e outras recentes. Veja mais aqui.


Imagem: Capitalism (1971), do artista plástico inglês Arthur Hunter-Blair.

PERNSAMENTO DO DIA: [...] se os chamados motivos econômicos fossem naturais do homem, teríamos que julgar todas as sociedades primitivas como não naturais [...], pensamento do filósofo social, historiador da economia, antropólogo econômico, sociólogo e economista austríaco Karl Polanyi (1886-1964), autor da obra A grande transformação: as origens de nossa época (Compus, 2000), na qual ele expressa que: [...] A resignação sempre foi a fonte da força do homem e de suas esperanças renovadas. O homem aceitou a realidade da morte e construiu o sentido da sua vida física baseando-se nela. Ele se resignou à realidade de possuir uma alma que podia perder e que havia coisas piores que a morte. Sobre isto fundamentou a sua liberdade. Em nossa época, ele se resigna à realidade da sociedade que significa o fim dessa liberdade. Mais uma vez, a vida ressurge da resignação final. A aceitação, sem queixas, da realidade da sociedade dá ao homem uma coragem indômita e forças para afastar todas as injustiças e a falta de liberdade que podem ser eliminadas. Enquanto ele se conservar fiel à sua tarefa de criar uma liberdade mais ampla para todos, ele não precisa temer que o poder ou o planejamento se voltem contra ele e que destruam, através da sua instrumentalidade, a liberdade que ele está construindo. Este é o significado da liberdade numa sociedade complexa e ele nos dá toda a certeza de que precisamos. [...]. Nessa obra o autor trata sobre as convulsões sociais e políticas iglesas durante a ascensão da economia de mercado, uma invenção humana denominada de sociedade de mercado, cuja característica é que as mentalidades econômicas da humanidade foram alteradas, porque as pessoas tornaram-se economicamente mais racionais, comportando-se como a teoria econômica neoclássica poderia prever no capitalismo. Veja mais aqui e aqui.

ESTÁ FICANDO TARDE DEMAIS – [...] Alguns hotéis são estranhos, você tem a impressão de que os personagens célebres que os frequentaram deixaram ali as suas infelicidades, e quem, como eu, decidiu desaparecer prefere uma infelicidade anônima deixada pelos anônimos como ele que freqüentaram aquele mesmo quarto e olharam o rosto anônimo no mesmo espelho manchado em cima da pia. [...]. Trecho do belíssimo romance Está ficando tarde demais (Rocco, 2004), do escritor e professor italiano Antonio Tabuchi (1943-2012), narrando a saudade, paixões e os amores perdidos por meio de dezessete cartas independentes e sem conexão aparente, com homens e mulheres imaginárias que nunca responderão, retratando, portanto, as paixões humanas. Veja mais aqui.

BLASTED - A peça teatral Blasted, da dramaturga inglesa Sarah Kane (1971-1999), conta a história de um jornalista envolvido com um grupo de direita, sua namorada grávida e um paramilitar enlouquecido de ódio, que fazem de um quarto de hotel, na Inglaterra, o resumo dos horrores políticos e sociais contemporâneos. A peça começa com o jornalista tentando seduzir sua namorada emocionalmente frágil, que resiste e ele, por isso, destila sua misoginia, racismo e homofobia. Na manhã seguinte, ele faz nova tentativa e, durante uma cena de sexo oral ela o morde e ele se retira. Entra inesperadamente um policial com uma arma, quando o hotel é atingido por um morteiro. Em ruínas, fica evidenciada uma guerra em que estupros, genocídios e outras atrocidades, enquanto o soldado estupra a jovem namorada do jornalista. Depois o soldado se suicida, a jovem resgata um bebê que morre e o casal enterra em um buraco entre tábuas e folhas. No meio da guerra, o jornalista chora a morte do soldado e investe no buraco onde está enterrado o bebê e dele se alimenta, morrendo em seguida. Veja mais aqui e aqui. 

 Imagem: Stravinsky's Rite of Spring Celebrates, performed by the Béjart Ballet Lausanne (Photo by Francette Levieux).

NARRADORES DE JAVÉ – O drama  Narradores de Javé (2004), da cineasta Eliane Caffé, conta a história de uma pequena cidade que será submersa pelas águas de uma represa e seus moradores não serão indenizados por não possuírem a documentação dos seus imóveis. Inconformados, descobrem que o local poderia ser preservado se tivesse um patrimônio histórico de valor comprovado, decidindo, então, por contar a história da cidade e só um morador, o carteiro, sabe escrever. Dá-se, com isso, a maior confusão. O destaque vai para o elenco que conta, entre outros, com os atores José Dumont e Matheus Nachtergaele. Veja mais aqui.


AGENDA: VERTENDE, DE LARA MELO – No próximo dia 27 de outubro, a partir das 19hs, no Teatro de Arena, em Maceió – AL, dentro do projeto Quintas no Arena, acontecerá o lançamento do DVD Vertente, da cantora Lara Melo, celebrando os seus 30 anos de vida e 15 de estrada musical, com um show dirigido por Marilda Melo e acompanhada de excelentes músicos. Ela foi cantora do Coretfal e realizou turnês pelo Brasil e Europa. No repertório ela destaca canções dos compositores Chico Elpídio e Chico Buarque. Serviço: Vertente, com Lara Melo lançando seu dvd, dia 8 de outubro, às 19hs, no Teatro Arena, Maceió – AL, Projeto Quinta no Arena. 

ENTREVISTA MANO MELO - Alguns anos atrás o poeta, ator e roteirista Mano Melo me concedeu uma entrevista que me fez reunir parcialmente sua obra e destacar seu trabalho artístico. O resultado disso confira aqui e mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] O homem de um tal além, que quer discernir as mais altas medidas de valor de seu tempo, precisa, para isso, primeiramente “superar” em si mesmo esse tempo – é a prova de sua força – e, consequentemente, não só seu tempo, mas também a má vontade e contradição que ele próprio teve até agora contra esse tempo, seu sofrimento com esse tempo, sua extemporaneidade, seu romantismo...
Trecho extraído do Livro V – “O andarilho” fala - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Iemanjá, da escultora, artista plástica, fotógrafa e poeta Sueli Finoto.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



sexta-feira, junho 26, 2015

MAFFESOLI, SÁBATO, GIL, ELIANE CAFFÉ, MUNCH, ISABEL CÂMARA, FLORENT, BEATRIZ SEGALL & LEO LOBOS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA Imagem do poeta e artista visual chileno Leo Lobos – Quando parece que o mundo desabou – como se a vida desse uma de Hércules com a gente: Nec plus ultra; ou como o Corvo de Poe: Never more -, a gente se vê no aperto espremendo o rabo entre as pernas: o horizonte encolheu, virou uma fresta de nadinha de não dar pra passar nem invisível. É na hora que se sente uma ilha arrodeada de uma grande escaramuça por todos os lados e, por resultado, ficar pulando num pé só na maior prova de fogo. Imaginou? Não adianta cortar pra dezoito que quando o entretido passa, a dor é mais arrepiada. Melhor botar o pé no chão: se perdeu todas as dividas e passou de cavalo pra burro atravessando o rubicão, não adianta perder o rebolado, melhor é cantar: levanta, sacode a poeira e dá volta por cima. Ah, mas tá difícil, né? E vai ficar submerso em abnegados padecimentos, afinando o cocoruto na bolea da situação? Ah, sei. Limpou a vista, o dia virou noite e só restou tirar fino nas broncas e nas tocaias, só no fio da meada. Apois, tá. Compreendo que quando a gente se vê na lona, todo mundo vira um pasquino para meter a colher na nossa vida pregressa – parece mais que erramos em tudo na vida -, e a língua afiadíssima bem no meio das nossas feridas supuradas. Hummmm! Dói, e como dói. E, ainda, ficam apontando que a gente perdeu o bonde pros gozadores parvenus em festa – os que são, muitas vezes, meros privilegiados dos propinodutos de gatunildos e ladronacios. Passam tudo na cara: - Olhe lá, não vá amarrar seu cilício com as suas disciplinas, afinal cuspiu pra cima e não saiu, o cuspe na cara caiu. Ou você cospe no prato que come? Mexem com o nosso brio, reduzem a honra e, ainda por cima, parece mais que estão felizes com nosso farol baixo. Dói, fazer o quê? Passar esponja? Largar de mão e jogar favas no chão? Passar sebo nas canelas pra dar uma de Vila-Diogo com as calças na mão? Tais conversando? Não seria melhor avaliar se realmente o mundo está todo errado ou é a gente segurando o equívoco com o umbigo no mão? O mundo precisa mudar ou somos nós que precisamos rever nossas ideias, comportamentos e condutas para melhor nos conduzir e, com isso, procurar a construção de um mundo melhor? Afinal, tem-se constatado que a vida é uma vitória! É? Pois, é. Se levarmos em consideração quantos espermatozoides perderam a viagem pra você chegar no óvulo, aí a coisa muda de figura, não? A sorte está lançada! Ao invés da gente procurar mudar os outros, por que não revemos tudo de nós mesmos pra ver se não é a gente que precisa dar uma profunda analisada acerca do verdadeiro sentido da vida? Tá pra você! Veja mais aqui.

Imagem: Nude, Sitting on the Couch, do pintor do expressionismo norueguês Edvard Munch (1863-1944)

Curtindo Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo (Biscoito Fino, 2012), do cantor e compositor Gilberto Gil, acompanhando de um quinteto de cordas & Orquestra Petrobrás Sinfônica.


OPINIÃO PÚBLICA & OPINIÃO PUBLICADA – O livro Saturação (Iluminuras, 2010), do sociólogo francês Michel Maffesoli, aborda temas do seu conceito de tribo urbana, ligação social comunitária e a prevalência do imaginário nas sociedades pós-moderna, abordando assuntos sobre apocalipse, guerra civil, matrimonium, tratado de ecosofia, do progresso ao progressivo, o mito do Golem, Apokatastasis, geossociologia, entre outros. Da obra destaco o techo do Opinião pública/opinião publicada: A confusão das palavras acaba, sempre, por provocar a confusão das coisas. A literatura, bem como a experiência comum, mostra aonde isso vai dar, rapidamente: à confusão dos sentimentos, quer dizer, dos modos de vida. Assim, nos períodos de mudança é urgente encontrar palavras, se não totalmente adequadas, pelo menos que sejam o menos falsas possível. Palavras que, pouco a pouco, (re)transformam-se em palavras fundadoras, ou seja, que garantem a instalação do estar-junto que está emergindo. E, no meio de todas essas banalidades que é importante relembrar, está-se no limiar de uma nova era. E é inútil querer remendar as ideologias elaboradas nos séculos XVIII e XIX e com as quais fomos, em todos os sentidos da palavra, irradiados. Sim, é preciso revirar de cabeça para baixo as ideias rançosas, jogar fora as análises pomposas e um tanto insípidas. Em suma, descerrar os olhos. Mesmo sabendo que isso nunca é fácil, ainda mais levando em conta que está muito difundido aquilo que Durkheim chamava, justamente, de “conformismo lógico”. Ele favorece a preguiça intelectual e as diversas formas de inquisição, engendradas em todos os tempos por esse instinto de preservação que faz preferir o aprisionamento dogmático ao vasto espaço dos pensamentos amplos. [...] Veja mais aqui.


O ESCRITOR E SEUS FANTASMAS - O livro O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor, ensaísta e físico argentino Ernesto Sábato (1911-2011), trata sobre as ideias do romance, a literatura nacional, o romance psicológico e social, o escritor e suas viagens, o principal problema do escritor, o romance, a arte como conhecimento, entre outros assuntos. A respeito da condição mais preciosa do escritor, assinala o autor que: O fanatismo. É preciso ter uma obsessão fanática, nada deve antepor-se a sua criação, deve sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante por ser feito. Sobre os românticos alemães: [...] viam na arte a suprema síntese do espírito – mas agora apoiada numa concepção mais complexa, que, se não fosse pela grandiloquência da expressão, teria de denominar-se neo-romantismo fenomenológico. Penso que essa doutrina pode resolver os dilemas em que se vem esgotando a teoria: romance psicológico contra romance objetivo, romance de fadas contra romance de ideias. Concepção integralista à qual corresponde um integralismo das técnicas [...]. Sobre o romance e os tempos modernos: [...] o drama da civilização que deu origem a essa curiosa atividade do espírito ocidental que é a ficção romanesca [...] Nenhuma atividade do espirito nem um único de seus produtos podem ser entendidos e julgados isoladamente no âmbito estreito de sua cidadania: nem a arte, nem a ciência, nem as instituições jurídicas; mas muitíssimo menos essa atividade que tão estranhamente aparece unida à condição total e misteriosa do homem, reflexo e mostruário de suas ideias, angustias e esperanças, testemunho total do espirito de seu tempo [...] Sobre o despertar do homem: Dizia Donne que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere para o patíbulo e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: despertar o homem que vivia com destino ao patíbulo. Veja mais aqui e aqui.

HORA SAGRADA & OUTROS POEMAS – A escritora, dramaturga e atriz mineira Isabel Câmara (26 Poetas Hoje – Aeroplano, 2007), é autora de Coisas coió (Sette Letras, 1998) e da peça teatral As moças (Prêmio Molière, 1971). Da sua lavra destaco inicialmente Hora sagrada: Ti espero. / Sob o travesseiro / a tesoura segura / o Ouro / o Trigo / o abraço ligeiro / de quem tem cheiro / das coisas pagãs / anãs sob o linho fino / o vinho rastreiro. / Faço a feira. /vivo beirando a beira / da Orgia / que pia, escorrega, / cortando ligeira / a noite do dia que me alivia. / E aí só cria / meu mundo de fantasia / Agora vê se não chia / Você não é minha tia. Em seguida o seu poema Afirmativa: Na posição que me encontro / só no sono do barato / na zona franca, ausente / me sinto contente! Logo após o poema A very-important question: Qual mortal até hoje / pensou um / Unicórnio com medo / de cair-lhe o chifrinho / da testa? Também o seu poema Probel/Problemas: O futuro é uma ciência fodida pelo tempo / O presente é isso aí / O passado é a gavetinha onde a memória brinca / de obra e Arte. Ainda merece destaque o seu poema Carta: Olha eu te desejo / tanto que perdi / o recado. / Nada temo, tremo! / Sou poeta devassa / adorando a tua raça. / Lovely & lonely Bird / of my Youth, tell / me how to reach / The South of your Mouth. Por fim, o seu belíssimo poema Dezenove do oito de mil novecentos e setenta & quatro: Não entendo nada desta janela fechada / que me aperta a culpa / Doer não dói mais, / nem sangra – / Consegui o que queria: / ser despedida, ficar perdida / falida & alone / olhando o papel da Comédia. / Sei que me chamam Bel / Mel de paixão / sugado da boca louca / de onde sangra o coração / e chora a hora / do leito vazio / da falta de peito / do jeito do beijo / fácil, difícil, sutil. / A verdade é que vivo a mil / sonhando a morte em azul-anil. Veja mais aqui.


AS PEQUENAS RAPOSAS – A consagrada atriz brasileira de teatro, cinema e televisão Beatriz Segall, iniciou sua carreira profissional como professora de francês e foi estudar teatro no início dos anos 1950. A partir de então, dá-se a uma trajetória artística que se desenvolveu a partir dos trabalhos com Henriette Morineau e aos estudos em Paris. Foi no filme A beleza do diabo, de Romain Lesage, que se deu a sua estreia como atriz. Daí, todo seu talento foi distribuído em participações ora na televisão, ora no cinema, ora no teatro. Em 2004, com direção de Naum Alves de Souza, ela traduziu e protagonizou a peça teatral As pequenas raposas (The little foxes), da lendária escritora e dramaturga progressista estadunidense Lillian Hellmam (1905-2004) que enfrentou corajosamente o macarthismo e criou uma respetável obra em vários gêneros. A peça denuncia as distorções sociais e o cinismo da sociedade estadunidense em um enredo concentrado no sul, no inicio do séc. XX. O embate entre a nova ordem capitalista e as velhas famílias patriarcais, traz na trama a saga da família Hubbard com os seus problemas. Aqui fica o registro e a homenagem para a grande atriz Beatriz Segall. Veja mais aqui.


FALANDO DE CINEMA: ESPÍRITO EXPEDICIONÁRIO – A cineasta Eliane Caffé iniciou sua carreira com três filmes de curta metragem que são: O Nariz, Arabesco e Caligrama. Seu primeiro longa metragem é Kenoma (1997). Narradores de Javé (2003) é seu segundo filme longa metragem. Tratando sobre cinema em seu artigo Espírito Expedicionário (Bravo, 2004), ela assinala que [...] O ato criativo, igual a todas as relações no mundo moderno, está oculto e cada vez mais mediado pelas facilidades das novas tecnologia da comunicação: as relações ou pesquisas de conhecimento via internet, junto ao acesso fácil e imediato das diversas realidades visíveis no controle das tvs, dvds, cd-roms, etc., nutrem as discussões e decisões estéticas. Se tal oferta abre novas e mais amplas perspectivas de conhecimento à produção, também gera uma nova ordem geopolítica, que oculta novas formas de poder e dominação infiltradas no ato criativo (afinal, os conteúdos retirados das telinhas já foram interpretados e selecionados). Toda a questão da mediação das tecnologias é acima de tudo politica, porque a técnica já traz impressa no seu artefato as normas e representações do sistema político que a gerou (ou seja, homens de carne e osso, representantes do poder que sustenta as inúmeras pesquisas tecnológicas para o avanço dos seus territórios cibernéticos). Inclui-se nesse fato o aprendizado espontâneo que milhares de espectadores realizam a partir da referencia hegemônica do cinema imperialista de Hollywood, que ocupa 85% do mercador exibidor em todo mundo (as historias e os temas variam, mas – e aqui reside o terror – a forma narrativa para representa-los se restringe sempre a uma mesma gramatica audioviosual ou, ainda, a um mesmo ponto de vista ideológico). [...] Um conhecimento ou um criação massificada a que se constroi a partir das mesmas referencias disponibilizadas nos meios de comunicação tende à homogeneização e a reiteração [...] O confronto direto no corpo a corpo com a realidade que se pretende representar está cada vez mais entorpecido, cada vez menos exercitado. As viagens, o pé na estrada, o embate direto com as vidas, enfim, toda a experiência se traduz o espirito expedicionário de nossa época está sobre uma espessa neblina que a obscurece, imobiliza e rouba a sua força de agir e revelar. [...] Nesse estado, o artista intui relações muito mais vigorosas do que as que surgem no espaço resguardado, domesticado ao redor da mesa, em frente ao computador, onde só alguns dos sentidos estão operando. Nos imprevistos que marcam qualquer viagem investigativa, no corpo suado e encharcado do artista-expedicionário, reside a possibilidade de romper com as formas viciadas e domesticadas que a narrativa cinematográfica foi sedimentada. E, assim novamente descobrir a sua potencia de impacto, de expressão que remove as vísceras e principalmente os pensamentos. Hoje, estamos lançados numa realidade cada vez mais multifacetada, contraditória e repleta de aparências enganosas [...]. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Foto da série Poussière d’étoiles (Pó de Estrela) – dançarinos na lente do fotógrafo francês Ludovic Florent.

Veja mais sobre:
Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, Literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, a pintura de Artemísia Gentileschi & Tom Wesselmann, a música de Sky Ferreira, a arte de Jean Cocteau & Luciah Lopez aqui.

E mais:
Caraminholas do miolo de pote, Escritos de Guillaume Apollinaire, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a pintura de Marie Fox, a fotografia de Jim Duvall & a arte de Luciah Lopez aqui.
O sábado é dia de amor & poesia aqui & aqui.
Fecamepa, Gestalt-Terapia de Friederich Perls, Novelas de La Fontaine, As rosas do cume de Laurindo Rabelo, Auto da alma de Gil Vicente, Crônica da cidade amada & Procópio Ferreira, a música de Diversões Lúdicas, a pintura de Ignaz Epper, Brincarte do Nitolino & Cia Ópera na Mala aqui.
O trâmite da solidão, O espectro da fome de Josué de Castro, a pintura de Mercedes Sosa, A Ilíada de Homero, Ana Botafogo In Concert, Conversação noturna & Martha Angerich, a pintura de Tamara de Lempicka, a arte de Eliezer Augusto & a poesia de Genesio Cavalcanti aqui.
Doro & a copa do mundo, Fritz Perls, Procópio Ferreira, a música de Moraes Moreira & Programa Tataritaritatá aqui.
Blitz-krieg do Mineirão, Manuel Bandeira, a arte de Ana Botafogo & a música de Mercedes Sosa aqui.
A Filosofia & História das calamidades de Abelardo, Nara Salles, Projeto Carmin & Cruor Arte Contemporânea aqui.
A provocação aguda da paixão aqui.
A mulher, Lei Maria da Penha, Ginocracia & Daby Palmeira aqui.
A donzela arrevesada de Hermilo Borba Filho, a poesia matuta de Rubão, Dr. Zé Gulu & papos do Doro aqui.
O romance do pavão misterioso de João Melchiades da Silva aqui.
A arte fotográfica de Andréia Kris aqui.
Pechisbeque, 1984 de George Orwell, Legado & grito de Renata Pallottini, As casadas solteiras de Martins Pena, A realidade das coisas de Tales de Mileto, a música de Bach & João Carlos Martins, País de Cucanha, o cinema de Sidney Lumet & Sophia Loren, a arte de Antoni Gaudí, a pintura de Theo Tobiasse & Jean-Jacques Henner aqui.
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, Linquistica & Estilo, Carna, a música de Andrea dos Guimarães, Antologia pornográfica de Gregório de Matos & Alexei Bueno, Wunderblogs, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.
Crônica de amor por ela, a pintura de Pablo Picasso, a música de Roberto Carnevale, a fotografia de Claudia Andujar, Teoria da Literatura de Rogel Samuel, Os 120 dias de Sodoma de Marquês de Sade, a poesia de Ana Cristina César, o cinema de Chris Wilkinson & Linda Marlowe & a arte de Lygia Pape aqui.
Betúlia, a belezura e os restos nos confins do mundo, Evolução e sentido do teatro de Francis Fergusson, Porto Calendário de Osório Alves de Castro, Kadish de Allen Ginsberg, a fotografia de Claudia Andujar, a pintura de Federico Beltrán Massés & Fayga Ostrower, a música de Consuelo de Paula & Iemanjá, Mãe D’Água de Petrolina - PE aqui
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Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude woman reading, do artista plástico estadunidense Howard Chandler (1873-1952).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...