segunda-feira, junho 01, 2026

SVETLANA ALEXIJEVICH, FATIMA BHUTTO, TIM MARSHALL & MARTHA BATALHA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Preludiando (Accoustic, 1997), da compositora e pianista Carolina Cardoso de Menezes Cavalcanti (1913-2000), com composições de sua autoria e releituras de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Hekel Tavares/Joracy Camargo e Henrique Vogeler.


 

Logorreia in media res... - Num esconderijo recolheu-se altivo A: braços cruzados, pernas abertas, recostado, nem mais aí com nada. Aí bisonho B foi bulir com quem estava quieto e perguntou: O que é que houve? Nem perguntou direito e carrancudo C chegou bem chato: Vem ou não? E aumentou a gritaria com dadivoso D logo insinuando: Isso é um vitupério! Pronto, embananou tudo porque efusivo E ajustou na fivela: Fique na sua! E tentava escapar das garras de facundo F nos puxões aos agarrados: Vai virar suruba! Engrossou o caldo garboso G: Ôpa, nessa que vou, quero também! Nem deram conta de humilde H: Ah, não – será um assalto? Enquanto ileso I passava de fininho com os estribilhos de seus epitáfios. Aí jactante J fisgava todos na isca: peras devassas, morangos adúlteros, safadas mangabas... Ali lépido L assistia toda logopeia de hybris e kitsch: Vai que dá certo e finda bom, hem? Assustou-se mesmo foi com manhoso M que veio com a cama de gato: da goela pra baixo tudo era perna! E notório N chamava atenção pra sua idolopeia: Ninguém sai nem entra! E fez sinal chutando a caixa do zoadeiro e obeso O caiu na folia, misturando tudo na roda com dissonantes diminutivos: Boínho-inho-inho! Do outro lado potente P gritava: Vamos botar ordem na confusão! E robusto R se arranhava batendo o pé invocado: Isto tem mais jeito não! Mais serpenteava S só e repelia gaiato empurrando pra dança: Vambora, putada! Levava de rodo tênue T de braços abertos: Bora, cambada, vale tudo, carpe diem! E ufano U escapulia: Tô fora, ora essa! Arrastado por viril V que se adiantava puxando todos pro chão: Fora, nada: Abre-te, Sésamo! Até que xingador X extorquiu clichês na tronchura dos ditirambos: Vai ou não? Zangou-se Z ameaçando: Senão, crau! Seguiu-se mise-en-scène pelo folgado jogral: consoante tocava alaúde na loa anacreôntica, a vogal dançava nonsense aos circunlóquios, a exclamação aos pulos anafóricos, a interrogação aos abafos do burlesco, dígrafos perdidos, cacófatos às explosões, antônimos sem vigência, locuções vituperadas, vocábulos desfeitos, verbetes a pá lavrada nos palimpsestos, lexemas pinotaram, ecos de rimas extravasadas, dicionários dissolveram-se, enciclopédias viraram cinzas dissipadas, as palavras enlouqueceram, os vocábulos surtaram, morfemas se empirulitaram, enunciados se escafederam, locuções que arribaram, línguas sumidas, dialetos enterrados, desditos quantos nem ditos nem mais apalavrados, siglas esfumaçadas, sílabas evadidas, muito menos afixos ou desinências pelas garatujas sumidas na disortografia, nem um rabisco pra remédio, gírias atrapalhadas, uma verdadeira logomaquia, será? Não teve gramático nem linguísta que desse jeito: umbigo & artefato, impromptu e deus ex machina. Não tem mais abecedário na cabeça de mudo, novilínguia e falante sem fala, palíndromos de volapuque e vozes caladas, acrônimos de esperanto e escritas perdidas, heterônimos desfeitos, epigramas assanhados, não se dizia mais nada aos ossos e caroços nos calembures derretidos, caligramas borrados e cadavres exquis era uma vez pra sempre. Deixou de ser, babau! E tudo sumiu como por encanto. Moral da hestória: a certeza de quem nem sabia pra dúvida de quem quase sequer não sabia tudo. Até mais ver.

 

Walt Whitman: Mantenha sempre o rosto voltado para o sol, e as sombras ficarão para trás... Deixe sua alma permanecer serena e equilibrada diante de um milhão de universos... Cada momento de luz e escuridão é um milagre... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Can Xue: Sonhar acordado era uma forma de relaxar, uma espécie de entretenimento, uma espécie de terebintina saborosa. Agora tudo havia mudado. Meus devaneios não eram mais divagações; agora tinham um objetivo... Veja mais aqui & aqui.

Pia Tafdrup: Minha poesia nasce entre dois polos: entre a fome de viver e o medo da morte, entre a excitação e a reflexão, a linguagem e o silêncio. O processo nunca é o mesmo, mas — prolongado até vibrar entre extremos — contém uma necessidade imperativa que raramente pode ser explicada de outra forma senão: não posso fazer outra coisa, portanto, devo fazê-la... Veja mais aqui & aqui.

 

SINTO SEUS LÁBIOS MACIOS

Imagem: Acervo ArtLAM.  

Eu sinto seus lábios macios \ contra os meus. Seria isso \ mágica? \ Seria isso verdade? \ Quantas noites \ eu sonhei com isso? \ Venha \ para os meus braços mais uma vez. \ Deixe-me sentir que você está aqui. \ Tanto tempo \ se passou desde \ a última vez que te abracei tão forte. \ Diga-me que me ama. \ Deixe-me ouvir essas doces palavras \ sussurradas em meus ouvidos. \ Não consigo acreditar \ que você está aqui comigo. \ Contei os segundos \ para que este momento chegasse. \ Mas agora \ que você finalmente está aqui, \ me diga, \ quando \ você vai desaparecer?

Poema da escritora paquistanesa Fatima Bhutto (Fatima Murtaza Bhutto), autora de Whispers of the Desert (2005). Veja mais aqui.

 

AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS - [...] Como podemos preservar nosso planeta, onde meninas deveriam dormir em suas camas e não jazer mortas na estrada com tranças desfeitas? E para que a infância nunca mais seja chamada de infância em tempos de guerra. [...] Para uma criança, a perda de um dos pais é a própria perda da memória. [...]. Trechos extraídos da obra The Last Witnesses: A Hundred of Unchildlike Lullabys (Penguin, 2019), da escritora ucraniana Svetlana Alexijevich (Svetlana Aleksandrovna Aleksiévitch), prêmio Nobel de 2015. Veja mais aqui.

 

FUTURO DA GEOGRAFIA - [...] Se não conseguirmos encontrar uma maneira de avançar como um planeta unificado, haverá um resultado inevitável: competição e possivelmente conflito jogados no novo cenário do espaço [...] Os Acordos de Artemis (2020) são o melhor exemplo. Eles pretendem estabelecer diretrizes atualizadas para atividades na Lua. Algumas partes estão em harmonia com o Acordo da Lua: ambos promovem o Estado de Direito na exploração espacial, concordam em fornecer assistência a todos os astronautas e espaçonaves, independentemente da nacionalidade, e exigem a divulgação dos dados científicos coletados na Lua. […] Envolvido na imensidão infinita dos espaços dos quais nada sei e que nada sabem de mim, estou aterrorizado. [...]. Trechos extraídos da obra The future of geography: how the competition in space will change our world (Simon & Schuster, 2023), do escritor, jornalista e radialista britânico Tim Marshall (Timothy John Marshall), que no seu livro The Power of Geography: Ten Maps That Reveals the Future of Our World (Elliott & Thompson, 2021), ele expressa que: […] Nos séculos anteriores, o domínio da Terra dependia do posicionamento estratégico de forças terrestres e navais, que protegiam zelosamente as rotas marítimas e as entradas e saídas de pontos de estrangulamento, como o Estreito de Gibraltar ou o Estreito de Malaca. No século XX, o poder aéreo tornou-se uma necessidade. No século XXI, o posicionamento de recursos no espaço terrestre é imprescindível, a menos que um Estado esteja disposto a ficar muito atrás de seus rivais (e aliados). [...] Existe uma visão que pressupõe que as grandes potências buscarão dominar o espaço para alcançar a supremacia comercial e militar. Isso é realpolitik para o espaço – astropolitik. [...] A geografia não é o destino – os humanos têm voz no que acontece – mas ela importa. [...].

 

CHUVA DE PAPEL, DE MARTHA BATALHA

[...] Ninguém estaria esperando por ele em casa. Ele nem tem casa [...] a perna quebrada, dezoito pontos na testa e inúmeras escoriações [...] – Mas e a mudança? – Glória pergunta. Leandro diz que trouxe tudo. – Tudo? – Glória repetiu, de um jeito que deixa os pertences ainda menores. – Eu tenho um abajur – diz Joel. – Abajur todo mundo tem, ué. E os livros? ... – Nunca vi intelectual sem livro... – Glória diz [...] “Não fui aeromoça. Não fiz faculdade. Não viajei. Ano entrando e saindo, fiz empadão [...] Quando as primeiras notícias da pandemia começaram a aparecer na TV, isolam do mundo um homem e uma mulher, vivendo juntos em quartos separados [...] Ele nunca passou tanto tempo no mesmo lugar. O mesmo lugar do qual ela nunca saiu [...]. Vai ser impossível viver estes dias vazios dedicados somente a mim [...] Perguntado sobre o número de mortos pela covid, o presidente responde: E daí? [...]

Trechos extraídos da obra Chuva de papel (Companhia das Letras, 2023), da escritora e jornalista Martha Batalha, autora dos livros A vida invisível de Eurídice Gusmão (2016) e Nunca houve um castelo (2018). Veja mais aqui e aqui.

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DAS ÁGUAS DO UNA À ARTE: HISTÓRIA, MEMÓRIA & CULTURA EM PALMARES!

Dia 02 de junho, na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares (PE). Veja mais aqui.

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CALIFASIA: CORPO-VOZ & EXPRESSIVIDADE!

Dia 03 de junho, das 8 às 12 e das 13 às 17, no Centro de Formação Douglas Marques, Palmares (PE). Veja mais aqui.

 

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