ERA UMA VEZ ZÉ CORNINHO!... – Era imensamente junho e Zé Corninho estava enfezado: só levava desacerto - o destino desapiedado aos empurrões: Toma jeito, fi-duma-égua! Ingresia inclemente. Ao certo, era notório que ele fugia das contendas, não valia a pena, nada de litigar, pacato. Aos tombos, as advertências castigavam seu toitiço, ele se benzia e abeirava de soslaio a fuga. Vivia daqui pracolá, sem paradeiro, até que chegou em Alagoianhanduba, gostou da comarca e ali dava por escorreito, pau pra toda obra. Laborava com afinco e prosperava, dava pro gasto. Esforçava-se além do tanto, suas aptidões clandestinas obravam milagres, dizia. Com o estandarte dos festejos juninos, uma chance sorria: a lindeza toda frochosa e receptiva. Menino, ele endoidou o cabeção! Atirou-se: Seja lá o que Deus quiser! E a primeira chegou inteira de felicidade, formosura triplicada aos seus olhos, tangidos pela atração. Dias e noites ele franqueava atenções exageradas, abusava das cortesias, cheio de lábias pegajosas, engambelava às cócegas, doido por aconchego. E ela se ria mimosa, pactuando das leseiras dele. Foi vuque-vuque destrambelhado, até que ela: Sai pra lá, infeliz das costas ocas! Desertora! Vou-me! E foi-se. Quem com ela pode? Era levado na pontinha do dedo, quando queria o ajeitado das coxas. Ingrata, desfigurou sua paixão. Ela já era e ele desistia de crer, maldizia, convinha seguir adiante sem olhar para trás. E esqueceu o passado, partiu pra outra, a topar foragidas. Catava, desenrolava afiado com as astúcias malabaristas, dava ao espavento e logo estava nas nuvens guiado pelas juras amorosas doutra reboculosa. Era a desforra avultada à revelia dela, longínquas léguas, com todos os préstimos só pra ficar de boca e barriga cheias, banzeiro, aos regalos. Não demorou muito e ela logo estremeceu com suas olhadelas: Bota o olho gordo pra lá, traste! Estava revogado aos esculachos, escorraçado sem valia. A segunda, também, defenestrava. Sem demora rareou e nem escolheu, outra saia repleta de rosas pra se esquivar, ô valhacouto! Gemeu, impou e se lambuzou todo de ficar na mão: Outra vez! Muitas vieram e se foram, logo elas enjoavam da sua meladeira pegajosa, estragando seus gozos. A cada intervalo irremediável entortava o oco por dentro, sua pouca sorte, dele ficar no alpendre todo embrulhado de cócoras, reincidente espremido, o bico do beiço virado, emburrado, cabeça às voltas dos giros incertos, escapulia o vão querer às escondidas, embaixo de 7 capas. Embuçava irado: Bocado de cria de cobras, tudo coisa mandada! Quantas esposou? Não se rendia aos empecilhos. Renovava o plantel a cada escorregada. Foi acusado de bigamia e muito mais calúnias no vespeiro. Era hora de botar moral e deixou o bigode rabugento cobrindo os beiços, uma costeleta ineivada pruma mandíbula raivosa, franziu o cenho, lubrificou a carequice, abochechou-se raivoso, rangia os dentes, bateu no peito meticuloso, o nariz crispado: Dagora em vante, só na minha lei! Oxe! Bastou um oi e engasgou-se, o sangue esquentado, as vísceras em convulsão pela taradice. Dessa foi descascado do muito, amarelo de vergonha, amargou grossas peiticas, a ponto de estourar, doidice sua não era exclusiva. Achava que era imortal, não era: a cada hora a certeza se esvaía. Do escuro emergia imprevisíveis revertérios: socou o ar com todas as revoltas: Cada uma que me aparece! Exilava-se discordando das batidas do coração, de queixo caído, dessensibizado, destampou seu segredo: Vou buscar a danada! E saiu uma por uma, de porta em porta, levando desaforo na cara. Ele não sabia e era o dito popular: só amealhou chifres, o botão na casa errada, desonra nos seus flagelos, vexame de derrotas escondido pelo gorro na cabeça. Em legítima defesa: Sou, assumo e assino! Quem quiser que venha me destratar, cambada! A brabeza era só sua, todo mundo sabia da mansidão: batesse o pé, carreirão da gota! E deu uma de Hussain Aref Saab: Se gaia virasse dinheiro eu era podre de rico (e olhe que o que ele amealhou de duas de quinhentos não tá no gibi, viu?)... Pobreza é tudo mundiça! Aí deu outra, repara: Parecia que ele não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher que arranjou de última hora e partiu pra aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de bruguelo aos buás, diziam: nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas amigadas dele e que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabia, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu até estrada afora, quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta e a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. E ele: É dum dia pro outro que a gente vai vivendo, do muito que aprendi, confesso, nada sei. E confira mais das desventuras do Zé Corninho aí:
ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!
BATENDO UMA REAL: UNS & OUTROS
FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DOTEMPO DO RONCA
COM QUANTOS DESAFOROS SE FAZ UMA ELEIÇÃO
PRA QUEM QUER O FIM, A COISA SÓ TERMINA QUANDO ACABA
QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA
PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO
A VIDA DUPLA DE CAROLYNE & SUA CHEBA BEIÇUDA
ZÉ CORNINHO NO BIG SHIT BOBRAS
CURIOSIDADE: PRA QUE TANTA GENTE NOCONGRESSO NACIONAL, HEM?
UMA JACA NA CABEÇA DE NEWTON, POIN!
SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE!
DITOS & DESDITOS - Deve haver aqueles com quem possamos nos sentar e chorar,
e ainda assim sermos considerados guerreiros... Meu coração se comove com tudo
o que não posso salvar: tanto foi destruído que preciso unir meu destino
àqueles que, era após era, de modo perverso, sem nenhum poder extraordinário,
reconstituem o mundo... Pensamento da escritora, professora e feminista
estadunidense Adrienne Rich (Adrienne Cecile Rich –1929-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU: Uma mulher forte é aquela que anseia por amor como se
fosse oxigênio; caso contrário, ela fica azul e sufoca. Uma mulher forte é
aquela que ama intensamente, chora intensamente, sente um medo intenso e tem
necessidades intensas. Uma mulher forte é forte nas palavras, nas ações, nas
conexões e nos sentimentos; ela não é forte como uma pedra, mas como uma loba
amamentando suas crias. A força não reside nela, mas ela a manifesta assim como
o vento preenche uma vela... Pensamento da escritora e ativista social
estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui, aqui & aqui.
EDUCAÇÃO
SENTIMENTAL - [...] É difícil
comunicar qualquer coisa com exatidão, e é por isso que é difícil encontrar
relacionamentos perfeitos entre as pessoas. [...] O coração
das mulheres é como aqueles móveis com esconderijos secretos, cheios de gavetas
encaixadas umas nas outras; você tem um trabalhão, quebra as unhas e, no fundo,
encontra uma flor murcha, alguns grãos de poeira — ou o vazio! [...] Há
homens cuja única missão, entre outras, é servir de intermediários; cruzamos
por eles como se fossem pontes e seguimos adiante. [...] Enquanto há
vida, há esperança. [...] Sou o tipo de homem condenado ao fracasso, e
irei para a sepultura sem jamais saber se eu era ouro de verdade ou apenas
ouropel! [...]. Trechos extraídos da obra L'Éducation
Sentimetale (Hachette,
2000), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui &
aqui.
SOB
UMA PEQUENA ESTRELA - Peço
desculpas ao acaso por chamá-lo de necessidade. \ Peço desculpas à necessidade
se, afinal, eu estiver enganado. \ Por favor, não se irrite, felicidade, por eu
a considerar como algo que me é devido. \ Que meus mortos sejam pacientes com a
forma como minhas memórias se desvanecem. \ Peço desculpas ao tempo por todo o
mundo que ignoro a cada segundo. \ Peço desculpas aos amores passados por
pensar que o mais recente é
o primeiro. \ Perdoem-me, guerras distantes, por trazer flores para casa. \ Perdoem-me,
feridas abertas, por furar meu dedo. \ Peço desculpas pelo meu registro de
minuetos àqueles que choram das profundezas. \ Peço desculpas àqueles que
esperam nas estações de trem por estar dormindo hoje às cinco da manhã. \ Perdoe-me,
esperança perseguida, por rir de vez em quando. \ Perdoe-me, desertos, por eu
não correr até vocês com uma colherada d'água. \ E você, falcão, imutável ano
após ano, sempre na mesma gaiola, \ seu olhar sempre fixo no mesmo ponto no
espaço, \ perdoe-me, mesmo que no fim das contas você tenha sido empalhado. \ Peço
desculpas à árvore derrubada pelas quatro pernas da mesa. \ Peço desculpas às
grandes perguntas pelas pequenas respostas. \ Verdade, por favor, não me dê
muita atenção. \ Dignidade, por favor, seja magnânima. \ Tenha paciência
comigo, ó mistério da existência, enquanto eu puxo um fio ocasional da sua
cauda. \ Alma, não se ofenda por eu só ter você de vez em quando. \ Peço
desculpas a tudo por não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. \ Peço
desculpas a todos por não poder ser cada mulher e cada homem. \ Sei que não
serei justificado enquanto viver, \ pois eu mesmo me atrapalho. \ Não me guarde
rancor, discurso, por eu tomar emprestadas palavras pesadas e \ depois me
esforçar tanto para que pareçam leves.
Poema da escritora. Crítica e tradutora polonesa Wisława Szymborska (Maria
Wisława Anna Szymborska – 1923-2012), Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Veja
mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
MORTE DO AUTOR - [...] A literatura é esse neutro, esse composto, esse
oblíquo para o qual todo sujeito escapa, a armadilha onde toda identidade se
perde, a começar pela própria identidade do corpo que escreve. [...] O
escritor moderno (*scriptor*) nasce simultaneamente ao seu texto; ele não é, de
forma alguma, dotado de um ser que preceda ou transcenda a sua escrita; ele não
é, de modo algum, o sujeito do qual o seu livro é o predicado; não há outro
tempo senão o da enunciação, e todo texto é eternamente escrito aqui e agora.
[...] O leitor é o espaço onde se inscrevem todas as citações que compõem
uma escrita, sem que nenhuma delas se perca; a unidade de um texto não reside
na sua origem, mas no seu destino. Contudo, esse destino já não pode ser
pessoal: o leitor não tem história, biografia ou psicologia; ele é simplesmente
aquele que reúne, num único campo, todos os traços que constituem o texto
escrito... A crítica clássica jamais prestou atenção ao leitor; para ela, o
escritor é a única figura da literatura... sabemos que, para dar um futuro à
escrita, é preciso derrubar o mito: o nascimento do leitor deve ocorrer à custa
da morte do Autor. [...]. Trechos extraídos da obra The Death of
the Author (Hill & Wang, 1977), do sociólogo, escritor, crítico literário,
semiólogo e filósofo francês Roland Barthes (1915-1986),
autor de obras como Mourning Diary (2009), A Lover's Discourse:
Fragments (1977), Camera Lucida: Reflections on Photography (1977), The
Pleasure of the Text (1973) e Mythologies (1957), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
DIFERENÇAS SOCIAIS - [...] Em alguns
casos, as diferenças sociais são mascaradas — são consideradas naturais — e a
raça é um exemplo perfeito. Existem diferenças na cor da pele entre nós,
diferenças na textura do cabelo e assim por diante, mas essas diferenças não
correspondem muito bem às raças. Há pessoas de uma determinada ancestralidade
que não aparentam ser dessa ancestralidade. Portanto, como a raça também parece
estar, pelo menos em parte, relacionada à ancestralidade, não se trata apenas
de características superficiais e parece ser algo mais. O que eu teorizo é: o que poderia ser a raça se não for um conjunto de diferenças puramente naturais entre nós? Pode ser compreendida principalmente em
termos de diferença
social? Não exatamente,
porque existe uma suposta conexão
com o biológico. Esses são os tipos de categorias que mais me
interessam, onde as diferenças
físicas
percebidas ou imaginadas são
tais que dão origem a
diferenças sociais em
um contexto específico.
A crença ou a percepção de que alguém possui uma determinada cor de pele
influencia suas oportunidades sociais e seu posicionamento social em relação
aos outros. Na minha visão, tanto raça quanto gênero são posições sociais que
os indivíduos ocupam em virtude de seus corpos serem interpretados de uma
determinada maneira. [...]
Uma questão na filosofia política é como definir justiça. O que conta como
justo depende, em parte, do que somos capazes de fazer. Não criamos sistemas
educacionais para pedras ou plantas porque isso não lhes faria nenhum bem. Elas
não são capazes de serem educadas. Criamos sistemas educacionais para humanos
porque temos uma gama de capacidades de aprendizado; Um sistema educacional
justo levará em consideração nossas diferentes capacidades e oferecerá
oportunidades para desenvolvê-las. Historicamente, acreditava-se que mulheres e
minorias careciam de certas capacidades por natureza e, como resultado, não
tinham acesso às mesmas oportunidades que os homens brancos. Isso dá origem a
duas estratégias no pensamento político feminista e antirracista. Uma
estratégia é observar que as diferenças físicas — diferenças consideradas
“naturais” — não são fixas. Uma importante diferença física entre homens e
mulheres é a capacidade (ou a falta dela) de engravidar. No entanto, o controle
da natalidade nos dá certo controle sobre isso, e isso teve um enorme impacto
nas oportunidades das mulheres. O mesmo se aplica às deficiências. Temos a
capacidade de intervir na natureza. É para isso que serve a tecnologia! Outra
estratégia é chamar a atenção para o fato de que as diferenças que são presumidas
como naturais são, na verdade, resultado dos tipos de interpretações e
suposições problemáticas que acabei de descrever: como se presume que mulheres
(ou minorias) tenham ou não certas capacidades com base em suposições (falsas)
preconcebidas, elas são tratadas de uma certa maneira e, às vezes, de fato,
acabam sendo tratadas dessa forma. E isso reforça as suposições. Se você me
considera ineducável e, portanto, me priva da educação, então eu não
desenvolverei certas capacidades e poderei me tornar, em alguns aspectos
importantes, ineducável, pois pode haver tipos de fluência que não se consegue
alcançar após um certo ponto da vida. Se isso ocorrer, a suposição original
parece justificada. Mas, é claro, não é. Eu não nasci ineducável, eu me tornei
assim. Portanto, a suposta linha divisória entre o natural e o social é de importância
crucial para as teorias da justiça: o “natural” não é tão fixo quanto podemos
pensar, e o “social” pode ser muito mais fixo do que imaginamos. Algumas
diferenças entre nós devem ser respeitadas, mas outras devem ser superadas —
mas quais são quais? [...]. Trechos da entrevista O que é 'natural' e o
que é 'social'? (MIT News, 2013), concedida pela filósofa Sally
Haslanger, diretora do programa de Estudos de Gênero e Feminismo do
MIT e autora da obra Resisting Reality: Social Construction and Social
Critique (Oxford University Press, 2012), uma coletânea de ensaios sobre
gênero e raça. A respeito do tema em questão, ela ainda expressa que: Em vez
de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho
que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o
que, se é que queremos que sejam alguma coisa. A respeito do tema Justiça
Social: alguém pode realmente fazer a diferença?, ela expressa que: Vivemos num
mundo onde a injustiça é desenfreada. A injustiça assume muitas formas e é
mantida de várias maneiras. Nas últimas décadas, os teóricos reconheceram que o
poder de sustentar a injustiça não é apenas um instrumento de controle que
alguns indivíduos têm e outros não têm, mas faz parte do campo social para
todos os agentes sociais. Sobre isso de poder, estamos todos implicados na
supremacia branca, no capitalismo e na dominação masculina à medida que
promulgamos práticas cotidianas. Ela também é autora dos estudos Feminism
and metaphysics: Negotiating the natural (Cambridge University Press, 2000a),
What is a (Social) Structural Explanation? (Philosophical Studies, 2016),
What Are We Talking about? The Semantics and Politics of Social Kinds (Hypatia,
2005) e Gender and Race: (What) Are They? (What) Do We Want Them to Be? (Noûs, 2000).
MASOQUISMO – O amor não conhece virtude, nem proveito; ama, perdoa e sofre
tudo, porque é seu dever. Não é o nosso juízo que nos guia; não são as
vantagens nem os defeitos que descobrimos que nos fazem abandonar-nos ou que
nos repelem. É uma força doce, suave e enigmática que nos impulsiona. Deixamos
de pensar, de sentir, de querer; deixamo-nos levar por ela e não perguntamos
para onde... Eu via a sensualidade como sagrada, aliás, a única
sacralidade; via a mulher e sua beleza como divinas, pois sua vocação é a
tarefa mais importante da existência: a propagação da espécie. Via a mulher
como a personificação da natureza, como Ísis, e o homem como seu sacerdote, seu
escravo; e a imaginava tratando-o com a mesma crueldade da Natureza, que,
quando não precisa mais de algo que lhe serviu, o descarta, enquanto seus
abusos, aliás, seu assassinato, são sua lasciva felicidade... Quem se
deixa açoitar, merece ser açoitado... O homem deseja, a mulher é
desejada. Essa é toda a vantagem decisiva da mulher. Através das paixões do
homem, a natureza o entregou nas mãos da mulher, e a mulher que não sabe como
torná-lo seu sujeito, seu escravo, seu brinquedo, e como traí-lo com um sorriso
no fim, não é sábia... O homem é aquele que deseja; a mulher, aquela que é
desejada. Essa é a vantagem — total, porém decisiva — da mulher. Por meio das
paixões masculinas, a natureza entregou o homem às mãos da mulher; e a mulher
que não sabe como torná-lo seu súdito, seu escravo, seu brinquedo — e como
traí-lo com um sorriso ao final — não é sábia... Uma maçã verdadeira é mais bonita do
que uma pintada, e uma mulher de verdade é mais bonita do que uma Vênus de
pedra... Vocês,
homens modernos, filhos da razão, não conseguem sequer começar a apreciar o
amor como pura felicidade e serenidade divina... Pensamento do escritor e
jornalista austríaco Leopold von Sacher-Masoch (Leopold Ritter von
Sacher-Masoch – 1836-1895), autor da polêmica obra Venus in Furs (Penguin,
2000), que, em 1869, com sua amante, a Baronesa Fanny Pistor, assinaram um
contrato que o tornava escravo dela pelo período de seis meses, especificando
que a baronesa vestisse peles com frequência, especialmente quando estivesse se
sentindo cruel. Para isso ele adotou o apelido de "Gregor", um nome
estereótipo para serventes masculinos, e disfarçou-se de servidor da baronesa.
Os dois viajaram de trem para a Itália, em um vagão de terceira classe,
enquanto ela ocupava um assento na primeira, até Veneza (Florença, na novela),
onde os dois não eram conhecidos e não despertariam suspeitas. Mais tarde, ele pressionou
sua primeira esposa, Aurora von Rümelin, com quem se casara em 1873, a viver as
experiências do livro, contra as preferências dela. Assim, acabou achando sua
vida familiar pouco excitante e terminou por divorciar-se de Aurora, casando
com uma assistente. A vida dele foi exposta com a publicação das memórias de
Aurora von Rümelin, Meine Lebensbeichte (Confissões de Minha Vida,
1906), sob o pseudônimo Wanda v. Dunajew. Veja mais aqui & aqui.
DEVANEIO & JOGO DE LUSÃO – A escritora Ione Perez reúne sua produção literária
no Recanto das Letras, expondo seus
poemas, textos de humor, contos, prosas infantis e poéticas. Da sua produção
destaco inicialmente o poema Devaneio: O pássaro no galho da
árvore Fica a cantar, Entre as folhas e flores do maracujá. O vento sopra os
cabelos Deixando o tempo passar...
Também o seu poema Jogo de ilusão: É pura
sedução É frisson É pensar ter na mão a carta certa É vitória cega Intenção É
tesão, só imaginação Destino traçado É lençol molhado Frustração É perigo
iminente Tentação É preliminar de uma decisão É aceitar e calar Loucura numa
noite escura ensolarada É paixão ardente, queima sem cicatrizar Amor que rima
com dor, fazendo a gente pecar E não vale tentar persuadir É um jogo e como
todo jogo, há regras: Só sai, só perde quem se iludir! Veja mais aqui. 





