quinta-feira, fevereiro 18, 2016

WISŁAWA SZYMBORSKA, FLAUBERT, HASLANGER, BARTHES, RICH, PIERCY, PROUDHON, SACHER-MASOCH & ZÉ CORNINHO

 


ERA UMA VEZ ZÉ CORNINHO!... – Era imensamente junho e Zé Corninho estava enfezado: só levava desacerto - o destino desapiedado aos empurrões: Toma jeito, fi-duma-égua! Ingresia inclemente. Ao certo, era notório que ele fugia das contendas, não valia a pena, nada de litigar, pacato. Aos tombos, as advertências castigavam seu toitiço, ele se benzia e abeirava de soslaio a fuga. Vivia daqui pracolá, sem paradeiro, até que chegou em Alagoianhanduba, gostou da comarca e ali dava por escorreito, pau pra toda obra. Laborava com afinco e prosperava, dava pro gasto. Esforçava-se além do tanto, suas aptidões clandestinas obravam milagres, dizia. Com o estandarte dos festejos juninos, uma chance sorria: a lindeza toda frochosa e receptiva. Menino, ele endoidou o cabeção! Atirou-se: Seja lá o que Deus quiser! E a primeira chegou inteira de felicidade, formosura triplicada aos seus olhos, tangidos pela atração. Dias e noites ele franqueava atenções exageradas, abusava das cortesias, cheio de lábias pegajosas, engambelava às cócegas, doido por aconchego. E ela se ria mimosa, pactuando das leseiras dele. Foi vuque-vuque destrambelhado, até que ela: Sai pra lá, infeliz das costas ocas! Desertora! Vou-me! E foi-se. Quem com ela pode? Era levado na pontinha do dedo, quando queria o ajeitado das coxas. Ingrata, desfigurou sua paixão. Ela já era e ele desistia de crer, maldizia, convinha seguir adiante sem olhar para trás. E esqueceu o passado, partiu pra outra, a topar foragidas. Catava, desenrolava afiado com as astúcias malabaristas, dava ao espavento e logo estava nas nuvens guiado pelas juras amorosas doutra reboculosa. Era a desforra avultada à revelia dela, longínquas léguas, com todos os préstimos só pra ficar de boca e barriga cheias, banzeiro, aos regalos. Não demorou muito e ela logo estremeceu com suas olhadelas: Bota o olho gordo pra lá, traste! Estava revogado aos esculachos, escorraçado sem valia. A segunda, também, defenestrava. Sem demora rareou e nem escolheu, outra saia repleta de rosas pra se esquivar, ô valhacouto! Gemeu, impou e se lambuzou todo de ficar na mão: Outra vez! Muitas vieram e se foram, logo elas enjoavam da sua meladeira pegajosa, estragando seus gozos. A cada intervalo irremediável entortava o oco por dentro, sua pouca sorte, dele ficar no alpendre todo embrulhado de cócoras, reincidente espremido, o bico do beiço virado, emburrado, cabeça às voltas dos giros incertos, escapulia o vão querer às escondidas, embaixo de 7 capas. Embuçava irado: Bocado de cria de cobras, tudo coisa mandada! Quantas esposou? Não se rendia aos empecilhos. Renovava o plantel a cada escorregada. Foi acusado de bigamia e muito mais calúnias no vespeiro. Era hora de botar moral e deixou o bigode rabugento cobrindo os beiços, uma costeleta ineivada pruma mandíbula raivosa, franziu o cenho, lubrificou a carequice, abochechou-se raivoso, rangia os dentes, bateu no peito meticuloso, o nariz crispado: Dagora em vante, só na minha lei! Oxe! Bastou um oi e engasgou-se, o sangue esquentado, as vísceras em convulsão pela taradice. Dessa foi descascado do muito, amarelo de vergonha, amargou grossas peiticas, a ponto de estourar, doidice sua não era exclusiva. Achava que era imortal, não era: a cada hora a certeza se esvaía. Do escuro emergia imprevisíveis revertérios: socou o ar com todas as revoltas: Cada uma que me aparece! Exilava-se discordando das batidas do coração, de queixo caído, dessensibizado, destampou seu segredo: Vou buscar a danada! E saiu uma por uma, de porta em porta, levando desaforo na cara. Ele não sabia e era o dito popular: só amealhou chifres, o botão na casa errada, desonra nos seus flagelos, vexame de derrotas escondido pelo gorro na cabeça. Em legítima defesa: Sou, assumo e assino! Quem quiser que venha me destratar, cambada! A brabeza era só sua, todo mundo sabia da mansidão: batesse o pé, carreirão da gota! E deu uma de Hussain Aref Saab: Se gaia virasse dinheiro eu era podre de rico (e olhe que o que ele amealhou de duas de quinhentos não tá no gibi, viu?)... Pobreza é tudo mundiça! Aí deu outra, repara: Parecia que ele não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher que arranjou de última hora e partiu pra aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de bruguelo aos buás, diziam: nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas amigadas dele e que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabia, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu até estrada afora, quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta e a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. E ele: É dum dia pro outro que a gente vai vivendo, do muito que aprendi, confesso, nada sei. E confira mais das desventuras do Zé Corninho aí:

 

ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!

A COMILANÇA DO ZÉ CORNINHO

BATENDO UMA REAL: UNS & OUTROS

A FILHARADA DE ZÉ CORNINHO

FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DOTEMPO DO RONCA

CULPA NO CARTÓRIO

AS PEDRAS DE BUTUA

A SEREIA DA LOROTA

ARENGA DE ANTANHO

AQUELE TORNEIO DE CHIMBRA

PESCARIA INEIVADA

COM QUANTOS DESAFOROS SE FAZ UMA ELEIÇÃO

CONTANDO HISTÓRIA

A TRUPE DOS COSCUVILEIROS

PRA QUEM QUER O FIM, A COISA SÓ TERMINA QUANDO ACABA

A SENSABORIA DE ZÉ-CORNINHO

EITA, ZÉ BESTÃO!

AMOR EM ALAGOINHANDUBA

ATÉ TU, ZÉ-CORNINHO!?!

QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA

PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO

A VIDA DUPLA DE CAROLYNE & SUA CHEBA BEIÇUDA

ZÉ CORNINHO NO BIG SHIT BOBRAS

BIG SHIT BÔBRAS

O MARIDO DA MARCELA

A COMADRE MORTE

E A SAÚDE? JÁ ERA, MEU!

AD CAPTANDUM VULGUS

CURIOSIDADE: PRA QUE TANTA GENTE NOCONGRESSO NACIONAL, HEM?

OROPA, FRANÇA E BAÍA!!!!

SORTE GRANDE: DUAS DE 500

E A TAL DA INVEJA, HEM?

O VEXAME NO XAMBREGO

A ZOADA DO PADROEIRO

RESPEITE O SANTO, CABRA!

UMA JACA NA CABEÇA DE NEWTON, POIN!

BRINCANDO DE MORRER

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE!

TESTAMENTO DO BOCÓ


 

DITOS & DESDITOS - Deve haver aqueles com quem possamos nos sentar e chorar, e ainda assim sermos considerados guerreiros... Meu coração se comove com tudo o que não posso salvar: tanto foi destruído que preciso unir meu destino àqueles que, era após era, de modo perverso, sem nenhum poder extraordinário, reconstituem o mundo... Pensamento da escritora, professora e feminista estadunidense Adrienne Rich (Adrienne Cecile Rich –1929-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Uma mulher forte é aquela que anseia por amor como se fosse oxigênio; caso contrário, ela fica azul e sufoca. Uma mulher forte é aquela que ama intensamente, chora intensamente, sente um medo intenso e tem necessidades intensas. Uma mulher forte é forte nas palavras, nas ações, nas conexões e nos sentimentos; ela não é forte como uma pedra, mas como uma loba amamentando suas crias. A força não reside nela, mas ela a manifesta assim como o vento preenche uma vela... Pensamento da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL - [...] É difícil comunicar qualquer coisa com exatidão, e é por isso que é difícil encontrar relacionamentos perfeitos entre as pessoas. [...] O coração das mulheres é como aqueles móveis com esconderijos secretos, cheios de gavetas encaixadas umas nas outras; você tem um trabalhão, quebra as unhas e, no fundo, encontra uma flor murcha, alguns grãos de poeira — ou o vazio! [...] Há homens cuja única missão, entre outras, é servir de intermediários; cruzamos por eles como se fossem pontes e seguimos adiante. [...] Enquanto há vida, há esperança. [...] Sou o tipo de homem condenado ao fracasso, e irei para a sepultura sem jamais saber se eu era ouro de verdade ou apenas ouropel! [...]. Trechos extraídos da obra L'Éducation Sentimetale (Hachette, 2000), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SOB UMA PEQUENA ESTRELA - Peço desculpas ao acaso por chamá-lo de necessidade. \ Peço desculpas à necessidade se, afinal, eu estiver enganado. \ Por favor, não se irrite, felicidade, por eu a considerar como algo que me é devido. \ Que meus mortos sejam pacientes com a forma como minhas memórias se desvanecem. \ Peço desculpas ao tempo por todo o mundo que ignoro a cada segundo. \ Peço desculpas aos amores passados por pensar que o mais recente é o primeiro. \ Perdoem-me, guerras distantes, por trazer flores para casa. \ Perdoem-me, feridas abertas, por furar meu dedo. \ Peço desculpas pelo meu registro de minuetos àqueles que choram das profundezas. \ Peço desculpas àqueles que esperam nas estações de trem por estar dormindo hoje às cinco da manhã. \ Perdoe-me, esperança perseguida, por rir de vez em quando. \ Perdoe-me, desertos, por eu não correr até vocês com uma colherada d'água. \ E você, falcão, imutável ano após ano, sempre na mesma gaiola, \ seu olhar sempre fixo no mesmo ponto no espaço, \ perdoe-me, mesmo que no fim das contas você tenha sido empalhado. \ Peço desculpas à árvore derrubada pelas quatro pernas da mesa. \ Peço desculpas às grandes perguntas pelas pequenas respostas. \ Verdade, por favor, não me dê muita atenção. \ Dignidade, por favor, seja magnânima. \ Tenha paciência comigo, ó mistério da existência, enquanto eu puxo um fio ocasional da sua cauda. \ Alma, não se ofenda por eu só ter você de vez em quando. \ Peço desculpas a tudo por não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. \ Peço desculpas a todos por não poder ser cada mulher e cada homem. \ Sei que não serei justificado enquanto viver, \ pois eu mesmo me atrapalho. \ Não me guarde rancor, discurso, por eu tomar emprestadas palavras pesadas e \ depois me esforçar tanto para que pareçam leves. Poema da escritora. Crítica e tradutora polonesa Wisława Szymborska (Maria Wisława Anna Szymborska – 1923-2012), Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MORTE DO AUTOR - [...] A literatura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo para o qual todo sujeito escapa, a armadilha onde toda identidade se perde, a começar pela própria identidade do corpo que escreve. [...] O escritor moderno (*scriptor*) nasce simultaneamente ao seu texto; ele não é, de forma alguma, dotado de um ser que preceda ou transcenda a sua escrita; ele não é, de modo algum, o sujeito do qual o seu livro é o predicado; não há outro tempo senão o da enunciação, e todo texto é eternamente escrito aqui e agora. [...] O leitor é o espaço onde se inscrevem todas as citações que compõem uma escrita, sem que nenhuma delas se perca; a unidade de um texto não reside na sua origem, mas no seu destino. Contudo, esse destino já não pode ser pessoal: o leitor não tem história, biografia ou psicologia; ele é simplesmente aquele que reúne, num único campo, todos os traços que constituem o texto escrito... A crítica clássica jamais prestou atenção ao leitor; para ela, o escritor é a única figura da literatura... sabemos que, para dar um futuro à escrita, é preciso derrubar o mito: o nascimento do leitor deve ocorrer à custa da morte do Autor. [...]. Trechos extraídos da obra The Death of the Author (Hill & Wang, 1977), do sociólogo, escritor, crítico literário, semiólogo e filósofo francês Roland Barthes (1915-1986), autor de obras como Mourning Diary (2009), A Lover's Discourse: Fragments (1977), Camera Lucida: Reflections on Photography (1977), The Pleasure of the Text (1973) e Mythologies (1957), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIFERENÇAS SOCIAIS - [...] Em alguns casos, as diferenças sociais são mascaradas — são consideradas naturais — e a raça é um exemplo perfeito. Existem diferenças na cor da pele entre nós, diferenças na textura do cabelo e assim por diante, mas essas diferenças não correspondem muito bem às raças. Há pessoas de uma determinada ancestralidade que não aparentam ser dessa ancestralidade. Portanto, como a raça também parece estar, pelo menos em parte, relacionada à ancestralidade, não se trata apenas de características superficiais e parece ser algo mais.  O que eu teorizo é: o que poderia ser a raça se não for um conjunto de diferenças puramente naturais entre nós? Pode ser compreendida principalmente em termos de diferença social? Não exatamente, porque existe uma suposta conexão com o biológico. Esses são os tipos de categorias que mais me interessam, onde as diferenças físicas percebidas ou imaginadas são tais que dão origem a diferenças sociais em um contexto específico. A crença ou a percepção de que alguém possui uma determinada cor de pele influencia suas oportunidades sociais e seu posicionamento social em relação aos outros. Na minha visão, tanto raça quanto gênero são posições sociais que os indivíduos ocupam em virtude de seus corpos serem interpretados de uma determinada maneira. [...] Uma questão na filosofia política é como definir justiça. O que conta como justo depende, em parte, do que somos capazes de fazer. Não criamos sistemas educacionais para pedras ou plantas porque isso não lhes faria nenhum bem. Elas não são capazes de serem educadas. Criamos sistemas educacionais para humanos porque temos uma gama de capacidades de aprendizado; Um sistema educacional justo levará em consideração nossas diferentes capacidades e oferecerá oportunidades para desenvolvê-las. Historicamente, acreditava-se que mulheres e minorias careciam de certas capacidades por natureza e, como resultado, não tinham acesso às mesmas oportunidades que os homens brancos. Isso dá origem a duas estratégias no pensamento político feminista e antirracista. Uma estratégia é observar que as diferenças físicas — diferenças consideradas “naturais” — não são fixas. Uma importante diferença física entre homens e mulheres é a capacidade (ou a falta dela) de engravidar. No entanto, o controle da natalidade nos dá certo controle sobre isso, e isso teve um enorme impacto nas oportunidades das mulheres. O mesmo se aplica às deficiências. Temos a capacidade de intervir na natureza. É para isso que serve a tecnologia! Outra estratégia é chamar a atenção para o fato de que as diferenças que são presumidas como naturais são, na verdade, resultado dos tipos de interpretações e suposições problemáticas que acabei de descrever: como se presume que mulheres (ou minorias) tenham ou não certas capacidades com base em suposições (falsas) preconcebidas, elas são tratadas de uma certa maneira e, às vezes, de fato, acabam sendo tratadas dessa forma. E isso reforça as suposições. Se você me considera ineducável e, portanto, me priva da educação, então eu não desenvolverei certas capacidades e poderei me tornar, em alguns aspectos importantes, ineducável, pois pode haver tipos de fluência que não se consegue alcançar após um certo ponto da vida. Se isso ocorrer, a suposição original parece justificada. Mas, é claro, não é. Eu não nasci ineducável, eu me tornei assim. Portanto, a suposta linha divisória entre o natural e o social é de importância crucial para as teorias da justiça: o “natural” não é tão fixo quanto podemos pensar, e o “social” pode ser muito mais fixo do que imaginamos. Algumas diferenças entre nós devem ser respeitadas, mas outras devem ser superadas — mas quais são quais? [...]. Trechos da entrevista O que é 'natural' e o que é 'social'? (MIT News, 2013), concedida pela filósofa Sally Haslanger, diretora do programa de Estudos de Gênero e Feminismo do MIT e autora da obra Resisting Reality: Social Construction and Social Critique (Oxford University Press, 2012), uma coletânea de ensaios sobre gênero e raça. A respeito do tema em questão, ela ainda expressa que: Em vez de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o que, se é que queremos que sejam alguma coisa. A respeito do tema Justiça Social: alguém pode realmente fazer a diferença?, ela expressa que: Vivemos num mundo onde a injustiça é desenfreada. A injustiça assume muitas formas e é mantida de várias maneiras. Nas últimas décadas, os teóricos reconheceram que o poder de sustentar a injustiça não é apenas um instrumento de controle que alguns indivíduos têm e outros não têm, mas faz parte do campo social para todos os agentes sociais. Sobre isso de poder, estamos todos implicados na supremacia branca, no capitalismo e na dominação masculina à medida que promulgamos práticas cotidianas. Ela também é autora dos estudos Feminism and metaphysics: Negotiating the natural (Cambridge University Press, 2000a), What is a (Social) Structural Explanation? (Philosophical Studies, 2016), What Are We Talking about? The Semantics and Politics of Social Kinds (Hypatia, 2005) e Gender and Race: (What) Are They? (What) Do We Want Them to Be? (Noûs, 2000).

 

MASOQUISMOO amor não conhece virtude, nem proveito; ama, perdoa e sofre tudo, porque é seu dever. Não é o nosso juízo que nos guia; não são as vantagens nem os defeitos que descobrimos que nos fazem abandonar-nos ou que nos repelem. É uma força doce, suave e enigmática que nos impulsiona. Deixamos de pensar, de sentir, de querer; deixamo-nos levar por ela e não perguntamos para onde... Eu via a sensualidade como sagrada, aliás, a única sacralidade; via a mulher e sua beleza como divinas, pois sua vocação é a tarefa mais importante da existência: a propagação da espécie. Via a mulher como a personificação da natureza, como Ísis, e o homem como seu sacerdote, seu escravo; e a imaginava tratando-o com a mesma crueldade da Natureza, que, quando não precisa mais de algo que lhe serviu, o descarta, enquanto seus abusos, aliás, seu assassinato, são sua lasciva felicidade... Quem se deixa açoitar, merece ser açoitado... O homem deseja, a mulher é desejada. Essa é toda a vantagem decisiva da mulher. Através das paixões do homem, a natureza o entregou nas mãos da mulher, e a mulher que não sabe como torná-lo seu sujeito, seu escravo, seu brinquedo, e como traí-lo com um sorriso no fim, não é sábia... O homem é aquele que deseja; a mulher, aquela que é desejada. Essa é a vantagem — total, porém decisiva — da mulher. Por meio das paixões masculinas, a natureza entregou o homem às mãos da mulher; e a mulher que não sabe como torná-lo seu súdito, seu escravo, seu brinquedo — e como traí-lo com um sorriso ao final — não é sábia... Uma maçã verdadeira é mais bonita do que uma pintada, e uma mulher de verdade é mais bonita do que uma Vênus de pedra... Vocês, homens modernos, filhos da razão, não conseguem sequer começar a apreciar o amor como pura felicidade e serenidade divina... Pensamento do escritor e jornalista austríaco Leopold von Sacher-Masoch (Leopold Ritter von Sacher-Masoch – 1836-1895), autor da polêmica obra Venus in Furs (Penguin, 2000), que, em 1869, com sua amante, a Baronesa Fanny Pistor, assinaram um contrato que o tornava escravo dela pelo período de seis meses, especificando que a baronesa vestisse peles com frequência, especialmente quando estivesse se sentindo cruel. Para isso ele adotou o apelido de "Gregor", um nome estereótipo para serventes masculinos, e disfarçou-se de servidor da baronesa. Os dois viajaram de trem para a Itália, em um vagão de terceira classe, enquanto ela ocupava um assento na primeira, até Veneza (Florença, na novela), onde os dois não eram conhecidos e não despertariam suspeitas. Mais tarde, ele pressionou sua primeira esposa, Aurora von Rümelin, com quem se casara em 1873, a viver as experiências do livro, contra as preferências dela. Assim, acabou achando sua vida familiar pouco excitante e terminou por divorciar-se de Aurora, casando com uma assistente. A vida dele foi exposta com a publicação das memórias de Aurora von Rümelin, Meine Lebensbeichte (Confissões de Minha Vida, 1906), sob o pseudônimo Wanda v. Dunajew. Veja mais aqui & aqui.

 

DEVANEIO & JOGO DE LUSÃO – A escritora Ione Perez reúne sua produção literária no Recanto das Letras, expondo seus poemas, textos de humor, contos, prosas infantis e poéticas. Da sua produção destaco inicialmente o poema Devaneio: O pássaro no galho da árvore Fica a cantar, Entre as folhas e flores do maracujá. O vento sopra os cabelos Deixando o tempo passar... Também o seu poema Jogo de ilusão: É pura sedução É frisson É pensar ter na mão a carta certa É vitória cega Intenção É tesão, só imaginação Destino traçado É lençol molhado Frustração É perigo iminente Tentação É preliminar de uma decisão É aceitar e calar Loucura numa noite escura ensolarada É paixão ardente, queima sem cicatrizar Amor que rima com dor, fazendo a gente pecar E não vale tentar persuadir É um jogo e como todo jogo, há regras: Só sai, só perde quem se iludir! Veja mais aqui.

DO PRINCÍPIO FEDERATIVO, DE PROUDHON - [...] A ideia de federação é certamente a mais alta a qual se elevou até os nossos dias 0 genio político. Ela ultrapassa de muito longe as constituições francesas promulgadas desde setenta anos atrás, não obstante, a revolução cuja curta duração tão pouco honra 0 nosso pais. Ela resolve todas as dificuldades que suscita 0 acordo da Liberdade e da Autoridade. Com ela nao temos mais de recear afundarmo-nos nas antinomias governamentais; de ver a plebe emancipar-se proclamando uma ditadura perpetua, a burguesia manifestar a seu Liberalismo levando a centralização ao exagero, 0 espirito público corromper-se nesse deboche da devassidão copulando com o despotismo, 0 poder regressar incessantemente às maos dos intriguistas, como lhes chamava Robespierre, e a Revolurção, segundo as palavras de Danton, ficar sempre para os mais pérfidos. A razao eterna finalmente é justificada, 0 ceticismo vencido. Nao se acusam mais da infelicidade humana a falha da Natureza, a ironia da Providencia ou a contradição do Espfrito; a oposição dos princfpios aparecerá finalmente como a condição do equilíbrio universal. DO PRINCÍPIO FEDERATIVO – O livro Do princípio federativo, do filósofo político, econômico e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), definido como o socialista utópico por Karl Marx, que defendia o favorecimento de associações de trabalhadores e cooperativas no desenvolvimento da prorpeidade coletiva dos trabalhadores em relação aos meios de produção. Proundhon defendia a revolução social por meio de formas pacíficas. Nessa obra aborda temas como o princípio da federação, o dualismo político: autoridade e liberdade, oposição e coneção destas noções de autoridade e liberdade, concepção a priori da ordem política, o regime de autoridade e de liberdade, as formas de governo, a transação entre os princípios, origem das contradições da política dos governos de fato, dissolução social, posição do problema político, o princípio de solução emengencia da ideia de federação, constituição progressiva, atraso das federações, idealismo político, eficácia da garantia federal e sanção econômica. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIA
PROUDHON, Pierre-Joseph. Do princípio federativo. São Paulo: Nu-Sol - Imaginario, 2001.


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