UMAS DAS MAIORES DE ZÉ BILOLA
– Estava ele aperreado com o andar da carruagem eleitoral e aos apupos: Pronde
tu vais, Bilola-doida-da-peste!?! Ah, vão se lascar, comboio de fresco! Ele
havia planejado um método de prospecção de eleitores e contabilizava
diariamente o quanto de abraços, os bons dias, as boas tardes, boas noites,
apertos de mãos, isso sem pregar o sono madrugada adentro, totalizando as
contas, umas e outras, sem piscar o olho: Pelo jeito, tô ganho! Aí Ximênia,
a patroa dele peiticou pela zoada: Vai dormir não, ô amolestado, ou vai virar
tetéu? Eita! Já tá quase amanhecendo, seu canto gelado e como é? Quantas vezes
eu já disse hoje que te amo? Nenhuma! Então vou dizer zilhões de vezes repetidamente
e encarreado! Pare lá, se tais pensando que vai amolecer a decente aqui procê
ganhar meu voto pra vereança, nem se ajeite e tire o pangaré da chuva: nunquinha!
Engoliu seco o insulto, destá. Ô mulher braba da gota! E saiu chutando tudo
afora, desencantado com sua performance na candidatura. O que é que eu faço? Como
não decolava nem com pé-de-cabra na alavancagem, o negócio enfeiava pra banda
do bocó. Tô endoidando! Ué, onde a manipulação? Era o seu desespero à flor da
pele. Só havia uma saída: ou engrenava de vez ou largava tudo e se matava!
Pronto. Cascavilhou e iluminou-se todo: Ou eu parto pra vender o voto, aí! Oxe,
vendia o dele e o dos outros: da mãe, pai, irmãos perdidos, primos dos
descampados, parentes distantes, achegados. E tapiava, se fazendo que mantinha a
candidatura que já foi prele mesmo pro espaço: Todo castigo pra corno é pouco!
Como ele nunca deu certo em nada, um ninguém esmolambado que só tinha de seu o
esculhambado corpo e ideias, seguiu firme: Sou o imperador de Alagoinhanduba!
Oxe, o Barão quando soube mandou logo os capangas dar um peteleco nele: Cara,
você é um bosta, pura doidice, vou perder meu tempo com você não, foda-se! Mas,
mas... E fugiu da bronca, andou que só a má notícia, até bater no cansaço de
cair sem saber nem onde estava. Anoitecia lua cheia, as altas marés, a agitação
insone, o lobisomem rondando e a bala de prata perdida, o urutau enxugando as
lágrimas prateadas de Mama Quilla e ele se remoendo: mais fracassou na carreira
fugindo duma capivara, de se ver desolado aos pensamentos tomados no meio duma
violência de trapaceiros e mercenários das gangs de rua, a precariedade e os estropiados
esmoleres, gente de duas caras, as bruscas mudanças climáticas e as drogas pros
fungados, a sordidez das guerras e o sexo jejuado, o efeito Mandela e a pirataria
de tudo, o ódio na gritaria dos crentes, paranoias de assombrados, tudo aquilo
era um zoo de coisas estranhas e aterradoras, monstruosidades inomináveis, que
o tolhiam no seu abandono. Desprevenido foi agarrado e injetaram na sua veia
coisa de malignidade irônica: De novo? Ah, não. Fui enrabado! E teve
alucinações, ouvia vozes e sentia coisas do outro mundo, demônios persecutórios
bafejavam na sua cachola e uma voz buzinava ao ouvido: Vou te pegar! Saía
escapando das táticas do perseguidor, desembestado que só. Foi tangido por uma
multidão de zombeteiros, entrou na briga e defenestrou seu anfitrião que presenciava
ali ao cisma da confusão. O que é isso? Parou confuso e cismava: estava diante
da múmia Itsaria de Nazca, impressionado com os seus 3 dedos levantados e
cabeça alongada, dizendo: Deus o quer mulher. Oxe! Lascou! E é o Schreber?
Tô mole. Espie direito, alesado! Um recado cifrado? O seu juízo tosco só
entendia que forças intergalácticas, reptilianos ou sabe-se lá, estavam prontas
pro ataque. Vixe! Enrolou-se com os teoremas da imersão de Nash, teorias
conspiratórias, coisas do outro mundo e pernas no mundo. Esse cara ou é um
idiota ou um mitômano muito doido! Ih! O apocalipse? Vou alertar todo mundo! Danou
a língua nos dentes e aos gritos, só parou porque o deus calango
Lango Tango queria ser jacaré! Agora, deu! A deusa guardiã de Opará,
Piratininga, apareceu-lhe e ofereceu o copo com o doçor das águas da inundação
catastrófica e uma rapadura mágica: Coma, pra se salvar! Tomou e, com a
primeira dentada. passou a adivinhar as coisas: previu a queda do ovo da pata
do colo de Ilmatar. Eita, é mesmo! E as coisas endoidaram todas: coaxavam
muitos sapos e rãs ao seu redor, uivos de tantos lobos por todos os lados,
traquinagens de coelhos e lebres aos montes pra lá dá cá e além de acolá, por
onde vinha Lara Croft nuazinha de braços abertos. Corre, fidapeste! Ouviu e se
amedrontou: Que foi? Ela vem te matar, desgraçado! Na correria, quase coração
saindo pela boca, língua de fora estirada: pra Serra da Prata? Sim, achar o
caminho de Peabiru pra Yvy Maraey. Pra quê? Ora, corre! Findaram atolados
quando as águas do riacho contaram da Guata Porã. Como é que é? Desconfiado,
fez uma simulação – achava que seu corpo era imortal, não era, estava todo
desconjuntado pra morrer. Tá doido? Na defensiva viu o papavento depois da
trovoada: Olha o sinal! Uma chuvada com o arco-íris: Quanta doidice! É o rato
de Rockland – o rato de 11 milhões de anos? Não, o híbrido demiurgo que vai
salvar tua tontice! Foge! Pé na bunda. Só despertou atarantado, às cabeçadas
pelas paredes, arranchando-se num canto da casa, desvalido, fazendo bico aos
estalos, vibrato ao mexido do dedo na boca, besourado blu-blu, zunido
estralado, bilu teteia nos beiços. Ih, pirou de vez! Oxe, lascou-se mesmo!
Arreda.
ZÉ BILOLA ACENDE O FACHO & TOMA NA TARRAQUETA
XOXOTOPOLIS: QUANDO ZÉ BILOLA ACHA O CAMINHO DA CASA DA PESTE!!!!
DEPOIS DA TEMPESTADE NEM SEMPRE UMA BONANÇA
QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA
PS: Ximênia não se fez
rogada, fitou o estado deplorável dele e sapecou: Bem empregado, eu que num vou
ter pena de cuidar dessa trepeça! E foi-se. Veja mais dela ingicada aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
DITOS & DESDITOS
- Aproveite o momento. E, se você me
perguntar por que deveria se dar ao trabalho de fazer isso, eu poderia dizer
que o túmulo é um lugar belo e reservado, mas acho que ninguém se abraça lá. Nem
cantam, nem escrevem, nem discutem, nem veem a pororoca no Amazonas, nem tocam
em seus filhos. E é isso que há para fazer: aproveitar enquanto pode — e boa
sorte nessa empreitada... Pensamento da jornalista, escritora e ensaísta
estadunidense Joan Didion (1934-2021). Veja mais aqui,
aqui, aqui, aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
Eles não se reconhecem nas imagens de mulheres. Elas os desestabilizam. Sem
mencionar o medo da castração... Pensamento da quadrinista, cartunista editorial,
escritora e pintora francesa, Chantal Montellier, a primeira cartunista
editorial feminina na França e pioneira no envolvimento das mulheres em
histórias em quadrinhos..
TONI MORRISON – No livro Amada (Companhia
das Letras, 2007), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de
Literatura de 1993, Toni Morrison, conta a história de uma ex-escrava que foge duma fazenda para refugiar-se
numa cidade, na qual ela se vê envolvida com o fantasma de uma filha morta
dezoito anos atrás. Da obra destaco o trecho: [...] Dez minutos para cinco letras. Com mais dez ela podia ter conseguido
“Bem” também? Não tinha pensado em perguntar a ele e ainda a incomodava aquilo
ter sido possível — que em troca de vinte minutos, meia hora digamos, ela podia
ter conseguido a coisa toda, todas as palavras que tinha ouvido o pregador
dizer no enterro (e tudo o que havia para dizer, com certeza) entalhado na
lápide: Bem-Amada. Mas o que ela havia conseguido, que escolhera, era a única
palavra que importava. Ela achou que podia bastar, copular entre as lápides com
o entalhador, o filho dele, menino, olhando, tão velho o ódio em seu rosto; bem
novo o apetite nesse rosto. Aquilo com certeza devia bastar. Bastar para
responder a mais um pregador, a mais um abolicionista e a uma cidade cheia de
aversão. Contando com a quietude de sua própria alma, ela esquecera a outra: a
alma de sua filha bebê. Quem haveria de dizer que um velho bebezinho pudesse
abrigar tanta raiva? Copular entre as lápides sob os olhos do filho do
entalhador não bastou. Não só ela teve de viver seus anos numa casa paralisada
pela fúria do bebê por lhe terem cortado a garganta, como aqueles dez minutos
que passou esmagada contra a pedra cor de amanhecer salpicada de lascas de
estrelas, os joelhos tão abertos como o túmulo, foram os mais longos de sua
vida, mais vivos e mais pulsantes que o sangue do bebê que encharcaram seus
dedos como óleo. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui. A
BRUXA, BELLADONNA - [...] O homem caça e
luta. A mulher trama e sonha; ela é a mãe da fantasia dos deuses. Ela possui a
segunda visão, as asas que lhe permitem voar em direção ao infinito do desejo e
da imaginação. [...] Trecho extraído da obra La Sorcière (Garnier-Flammarion, 1966), do historiador
e filósofo francês Jules Michelet (1798-1874), que inspirou o filme de
animação japonês do gênero drama erótico, Kanashimi no Belladonna (1973),
realizado e escrito por Eiichi Yamamoto, a terceira parte da trilogia de filmes
eróticos Animerama. Veja mais aqui.
HISTÓRIA
DA SUA VIDA – [...] Apesar de
conhecer a jornada e aonde ela leva, eu a abraço e acolho cada momento. [...] O
amor incondicional não pede nada, nem mesmo que seja retribuído. [...] A
liberdade não é uma ilusão; ela é perfeitamente real no contexto da consciência
sequencial. No contexto da consciência simultânea, a liberdade não tem sentido,
mas a coerção também não; é simplesmente um contexto diferente, nem mais nem
menos válido do que o outro. É como aquela famosa ilusão de ótica: o desenho
que pode ser visto tanto como uma jovem elegante, de rosto voltado para longe
do observador, quanto como uma velha de nariz verrugoso e queixo encostado no
peito. Não existe uma interpretação “correta”; ambas são igualmente válidas.
Mas não se consegue ver as duas ao mesmo tempo. Da mesma forma, o conhecimento
do futuro era incompatível com o livre-arbítrio. O que tornava possível exercer
a liberdade de escolha também tornava impossível conhecer o futuro. Por outro
lado, agora que conheço o futuro, jamais agiria de modo contrário a ele — o que
inclui contar aos outros o que sei: aqueles que conhecem o futuro não falam
sobre ele. Aqueles que leram o Livro das Eras jamais admitem tê-lo feito [...].
Trechos do conto extraído da obra Stories of Your Life and Others
(Tor Books, 2002), do escritor taiwanês Ted Chiang, que inspirou o drama
de ficção científica Arrival (2016), dirigido por Denis Villeneuve e
escrito por Eric Heisserer.
VEJA, PERMANEÇA NA INFINIDADE SEM ESTRELAS – Que o infinito seja sem estrelas, \
que a curva do tempo se endireite. \ E perca seu brilho, \ quando um planeta
oscila no wensu e nos vestígios da explosão primordial. \ Categoria: Aquelas
notícias recebidas \ desde o início das galáxias, do imenso vazio, \ Hoje, luz
fóssil. \ Belos paradoxos que anunciam \ o que passou e postulam o futuro no
passado. \ Universo de puro sopro: \ um espaço que flui como um rio \ e um
tempo sem presente, opaco e frio. \ O tempo da espera e do esquecimento. Poema
do escritor, jornalista e crítico cubano, Severo Sarduy
(1937-1993).






