quinta-feira, fevereiro 18, 2016

SILVINA OCAMPO, BALDWIN, HARAWAY, CAPMANY, SOLNIT, FREUD & ZÉ PEIÚDO

 


SACANAGENS, RESUMO DA OPERETA – Zé Peiúdo sempre foi na vantagem. O que aprontou? Nem lhe conto: cacunda alheia, seu poleiro. Volta e meia, os dentes arreganhados insuspeitáveis, conversa tinha de afiada, de derrubar avião, trovejar no verão e tocar fogo embaixo d’água. Deixasse e o truque escurecia o Sol, acendia a Lua e dava voltas no vento dele chegar bem mansinho na brisa da mordida. E do ajeitado duma mão à outra, o maior caqueado: a hipnose da afanação. Vai ver e logo um desavisado: Roubaram minha carteira! Num diga, quem terá sido esse salafrário? Ele paparicando ali o ofendido. Se fosse comprar, vendia; se era para pagar, tomava; e o alesado sorria felizardo eternamente grato. Oi? Assim é ele se achegando, dentadura arreganhada no quarador, com o héhéhé ufano no barrunfo do bafo, a volta grossa pelo pescoço com um crucifixo exibindo o peitoril musculoso, uma pulseira larga no punho esquerdo, um relógio no pulso direito e uma fivela enorme com H maiúsculo sustentando a pança saliente, tudo ourinado de engomadinho, camisa por dentro da calça vincada nos saltos do par de botas, se passando por pobre coitado, seu criado. Batia no peito: Não tenho esposa! Só, como ele mesmo dizia às intimidades, concubinas, meia dúzia de sonsas fulanas que, todo dia, manhã, tarde e noite, no cavoucado, passeava nelas montado na lambreta do seu veraneio de pernas pro ar, sua eterna vilegiatura. Na vera: um harém exclusivo, mesmo. Sogra? Deus me livre, é muita chateação, nem avisa e inventa enredo com dente trincado - razão de seu endereço incerto, domicílio escuso. Ademais, o seu drama: Só trato com gente séria! E chama todos pelo apelido, seja cangalha ou zambeta, estranhos e embecados, seus cupinchas de corriola, a levá-los na pontinha dos dedos, conforme os secretos ventos semeados e tempestades colhidas, todo dissimulado: Bata quem dê as cartas, a gente joga e faz o jogado. Outro dia mesmo, sem quê nem pra quê, sacou do bolso um molho de pedras que, pra ele, cochichando: valia uma fortuna, mais que ouro. Como assim? Ora, segredava: era como as disfarçava pra ninguém botar o olho grande de querê-lo roubar. Xô, pra lá! Oxente! Era nesse brincado a enrolada de areia como tesouro, mato feito riqueza, capim o bem mais valioso, assim, assim. E nisso vendia gato por lebre, gabiru por bezerro de elite, calangos por cavalos de corrida, enfim, fazia de tardígrados, rotíferos e mixobolos os mais avultados criatórios de seus negócios milionários. Sou lá besta de entregar de bandeja fortuna pra bandido! Vai nessa não, é fria! A transação empacou? Ou vai ou racha! Ganhava a guerra no grito, aproveitando-se do eclipse pra fazer o rapa. Ah, meu, vacilou, só se vê é o coice de se estrepar. Foi de lascar. O que escapuliu ficou pelo caminho, direção é qualquer lugar com o fim longe. Vai no apurado: de gigolô a proxeneta abastado, os truques de tais e coisas, tudo na base do jabaculê, a usura nefanda, muambas, jogatinas, meretrício, fraudes, trampolinagens, tudo no seu clandestino esconderijo, com todos os ardis aos malassombros, de, um quarto de hora depois, roncar sossegado: Cada qual sua cota de merda, da coisa na penumbra estourar no furico alheio, com salves pelo estrupício. Passava a perna e aguentava os perdigotos do freguês, o falatório dos bedeguebas na caixa dos peitos: Ora, ora, é a vida, é só dar a volta por trás do acaso, oxe, tinindo, não se agrada a todo mundo. Dizem dele a cretinice no corpo todo emendado: intervenções cirúrgicas, reitera faroso. Mas, menino, respeite as caras! A ficha corrida na boca do povo, os cacarecos de magníficos e vassalos cobrando seu dono, a dança da morte no cabo da foice, zás, findou prostrado pela peixeirada dum desafeto. Essa foi uma, afora as outras de tanto, taí, a carne toda lapeada, marcado delito, cada um. Vamos e venhamos, gente não é alimária, hoje esquentou e amanhã vai chover. Ele aos pinotes. Dou fé.

 

DAS COISAS QUE VÃO & VOLTAM

QUANDO O FUTURO CHEGA AO PRESENTE

ARENGA DE ANTANHO

CONTANDO HISTÓRIA

CANDIDATO FAZ TUDO CARA DE PAU NA MAIOR RESPONSA

A VOLTA DE ZÉ PEIÚDO



 

DITOS & DESDITOS - O amor não começa nem termina da maneira como parecemos pensar. O amor é uma batalha, o amor é uma guerra; o amor é um amadurecimento... Você acha que a sua dor e a sua mágoa são inéditas na história do mundo, mas então você lê... Toda arte é uma espécie de confissão, mais ou menos oblíqua. Todos os artistas, se quiserem sobreviver, são forçados, por fim, a contar toda a história; a vomitar a angústia... Pensamentro do escritor e dramaturgo estadunidense James Baldwin (James Arthur Baldwin – 1924-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A verdade precisa ser dita porque se não for dita não existe. Não existe verdade interior diferente da verdade que se fala, e por isso aprendemos a mentir para nós mesmos, a fingir, a ter medo do risco das palavras... A desilusão nada mais é do que o desaparecimento súbito de uma certeza... Pensamento da escritora, ativista, feminista e dramaturga catalã, Aurèlia Capmany (Maria Aurèlia Capmany i Farnés – 1918-1991). Veja mais aqui.

 

OS HOMENS EXPLICAM TUDO – [...] Homens continuam me explicando coisas. E nenhum homem jamais pediu desculpas por explicar, de forma equivocada, coisas que eu sei e eles não. [...] Algumas mulheres são apagadas aos poucos; outras, de uma só vez. Algumas reaparecem. Toda mulher que surge trava uma batalha contra as forças que a querem fazer desaparecer. Ela luta contra as forças que pretendem contar a sua história em seu lugar, ou excluí-la da narrativa, da genealogia, dos direitos do homem e do Estado de direito. A capacidade de contar a própria história — seja em palavras ou imagens — já é uma vitória, já é um ato de revolta. [...] Há uma abundância de estupros e violência contra as mulheres neste país e nesta Terra, embora isso quase nunca seja tratado como uma questão de direitos civis ou direitos humanos, nem como uma crise ou sequer um padrão. A violência não tem raça, classe, religião ou nacionalidade, mas tem gênero. [...]. Trechos extraídos da obra Men Explain Things to Me (Haymarket Books, 2014), da escritora estadunidense Rebecca Solnit, autora de obras como The Faraway Nearby (2013), Storming the Gates of Paradise: Landscapes for Politics (2007), A Field Guide to Getting Lost (2005), Hope in the Dark: The Untold History of People Power (2004) e Wanderlust: A History of Walking (2000). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ESPELHOS - Seria inútil cobrir espelhos \ para que as pessoas lá dentro não saiam \ que se alojaram lá \ esperando que alguém seja refletido \ e ameaçadora ou piamente, despercebido, \ poderiam deixar o luminoso \ habitando onde vivem, \ para nos atacar ou nos proteger ou nos perverter. \ Desde o seu início que me lembro \ uma corte celestial e diabólica me assistiu: \ quando minha babá Celestina abotoou seu casaco \ (É verdade que ela estava tingindo o cabelo \ e para surpreendê-la aventurei-me ao lado de sua reflexão) \ quatro libélulas esvoaçavam sobre \ anunciando chuva, um raspou minha bochecha e eles saíram \ da área onde ela foi refletida; \ eles me seguiram sempre ou a seguiram, \ com a sua morte desapareceram, \ exceto na véspera de uma tempestade. \ Quando minha mãe se vestiu para ir ao baile \ e prendeu a banda em seu cinto de veludo roxo \ um anjo partiu com ela quando ela apagou a luz \ acompanhou-a até o carro \ e é por isso que acredito que ela voltou naquela noite \em que eu tremia de medo pela sua morte. \ Quando o professor de ballet \ curtsied dentro do quadro de ébano, três pessoas com máscaras \ saiu cantando e me visitou em um sonho. \ Quando o médico ascende no elevador \ fixo sua gravata \ cinquenta rostos com aventais brancos, \ que eu não consegui examinar, furtivamente brotou \ daquela pequena lua perfeitamente iluminada. \ Quando a Susana me disse na loja de doces \ meu cabelo está uma bagunça, \ ela olhou para si mesma na tampa do compacto, \ imprudentemente eu disse "Deixe-me ver", \ Eu me inclinei para o círculo brilhante: \ um diálogo turbulento nos sobressaltou, \ três jovens com colares, \ fino, de ter sido fechado em um círculo minúsculo, \ malicioso, \ sentou-se à nossa mesa. \ Desde aquele dia, todos eles interferiram \ em nossas chamadas telefônicas. \ Meu cachorro, que se admirava atentamente uma vez, \ latido insistentemente, \ mais astuto ele tinha visto uma certa corporalidade \ deixando o espelho: \ um coelho branco macio me visitou uma tarde. \ Mas não vou listar os gatos, \ os cavalos, as gazelas, as tartarugas, \ os necrofílicos, \ os canibais, os não nascidos, \ os gnomos, os gigantes, os onanistas, \ que saiu dos espelhos onde imprudentemente \ Olhei ao lado de outras pessoas que não os viram \ cegos pela sua própria imagem. \ Agora já não partilho um espelho com ninguém \ porque se o meu reflexo aproveitar a oportunidade \ para deixá-los livres, exércitos de outras pessoas, \ um mundo demasiado numeroso \ estará tomando forma embora seja difícil parar \ porque o espelho dirá "cresce e multiplica" \ a ponto de desalojar o universo \ secretamente esperando por isso \ depois de ter repetido tanto tempo \ na água, na obsidiana, \ em metais e em espelhos subsequentes. \ Também não devemos pensar que a coisa toda é horrível. \ Os sem-abrigo vão abrigar-se \ dentro dos espelhos \ (eles nunca terão vivido em lugares tão luminosos) \ eles sairão por sua vez \ quando os que estavam refletindo \ contemplar-se esquecendo de sua experiência. Poema da escritora argentina Silvina Ocampo (Silvina Inocência Ocampo – 1903-1993). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

VIVER COM O PROBLEMA – [...] Importa com quais matérias pensamos outras matérias; importa quais histórias contamos para contar outras histórias; importa quais nós dão nós em nós, quais pensamentos pensam pensamentos, quais descrições descrevem descrições, quais laços atam laços. Importa quais histórias criam mundos, quais mundos criam histórias. [...] Nossa tarefa é causar agitação, provocar uma resposta contundente a eventos devastadores, bem como acalmar águas turbulentas e reconstruir lugares de tranquilidade. [...] O Antropoceno marca descontinuidades severas; o que vier depois não será como o que veio antes. Acredito que nossa tarefa é tornar o Antropoceno o mais curto e breve possível e cultivar, uns com os outros e de todas as formas imagináveis, as épocas vindouras capazes de restaurar refúgios. [...] Já são tantas as perdas, e haverá muitas mais. Um florescimento generativo renovado não pode brotar de mitos de imortalidade ou da incapacidade de "tornar-se-com" os mortos e os extintos. [...]. Trechos extraídos da obra Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene (Duke University Press 2016), da filósofa e zoóloga estadunidense Donna Haraway (Donna J. Haraway), autora do Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX (1985) e de Simians, Cyborgs, and Women: The Reinvention of Nature (1995). Veja mais aqui & aqui.

 


CHRISTIANE TORLONI
– A trajetória da atriz Christiane Torlone - La Torloni, é mercada por participações engajadas em movimentos históricos como Diretas Já, a luta pela democracia e o fim da ditadura, entre outros envolvimentos em causas sociais. Ela iniciou no teatro com As preciosas ridículas (1979), Bodas de papel (1980), As lágrimas amargas de Petra von Kant (1981), Tio Vânia (1984), O lobo de Rayban (1988), Orlando (1989), 10 elevado a menos 43 – Extasis (1993), Hamlet (1994), Salomé, Salomé (1997), Joana D’Arc, a revolta (2000), Blue Room (2002), A paixão de Cristo: o auto de Deus (2004), Mulheres por um fio (2005) e A loba de Ray-ban (2009). No cinema ela estreou com Ariella (1980), O beijo no asfalto (1981), Eros, o deus do amor (1981), Rio Babilônia (1982), Das tripas coração (1982), O bom burguês (1983), Aguenta, coração (1984), Águia na cabeça (1984), Besame mucho (1987), Eu (1987), Perfume de Gardênia (1993), Cinema de lágrimas (1995), Ismael e Adalgisa (2001), Onde andará Dulce Veiga? (2007) e Chico Xavier (2010). Fez muito sucesso na televisão participando de novelas e seriados. Veja mais aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.

DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS, DE SIGMUND FREUD - [...] Minha impressão é de que o quadro da vida sexual de uma criança apresentado nessa observação do pequeno Hans está muito de acordo com o relato que forneci (baseando meus pontos de vista em exames psicanalíticos de adultos) nos meus Três Ensaios. Mas antes de entrar nos detalhes dessa concordância, devo tratar de duas objeções que serão levantadas contra o fato de eu fazer uso da presente análise para esse fim. A primeira objeção é quanto ao fato de que Hans não era uma criança normal, mas (como os eventos - a própria doença, de fato - mostraram) tinha uma predisposição para a neurose, e era um jovem “degenerado”; seria ilegítimo, portanto, aplicar-se a outras crianças normais conclusões que talvez pudessem ser verdadeiras em relação a ele. Devo adiar a consideração dessa objeção, de vez que ela só limita o valor da observação, e não o anula completamente. De acordo com a segunda e menos comprometedora objeção, uma análise de uma criança conduzida por seu pai, que foi instilado ao trabalho com meus pontos de vista teóricos e infectado com meus preconceitos, deve ser inteiramente desprovida de qualquer valor objetivo. Uma criança, dirão, é necessariamente muito sugestionável, e muito mais por seu próprio pai do que talvez por qualquer outra pessoa; ela permitirá que qualquer coisa lhe seja forçada, por causa da gratidão a seu pai por lhe dar tanta atenção; nenhuma das suas afirmações pode ter qualquer valor de evidência, e tudo o que ela produz sob a forma de associações, fantasias e sonhos tomará, naturalmente, a direção para a qual está sendo pressionada por todos os meios possíveis. Mais uma vez, em suma, a coisa toda é simplesmente `sugestão’ - a única diferença é que, no caso de uma criança, ela pode ser desmascarada muito mais facilmente do que no caso de um adulto. Coisa singular. Lembro-me, quando comecei a me intrometer no conflito de opiniões científicas há vinte e dois anos atrás, de com que zombaria a geração mais velha de neurologistas e psiquiatras dessa época recebeu as afirmações sobre a sugestão e seus efeitos. Desde então a situação mudou fundamentalmente. A aversão original converteu-se numa aceitação por demais pronta; e isso aconteceu não só como consequência da impressão que o trabalho de Liébeault e Bernheim e de seus alunos não podia deixar de criar no curso dessas duas décadas, mas também porque desde então se descobriu que grande economia de pensamento pode ser feita com o uso da chamada `sugestão’. Ninguém sabe e ninguém se importa com o que seja sugestão, de onde ela vem, ou quando surge - basta que tudo de estranho na região da psicologia seja rotulado de `sugestão’. Não compartilho do ponto de vista, que está em voga atualmente, de que as afirmações feitas pelas crianças são invariavelmente arbitrárias e indignas de confiança. O arbitrário não tem existência na vida mental. A não-confiabilidade das afirmações das crianças é devida à predominância da sua imaginação, exatamente como a não-confiabilidade das afirmações das pessoas crescidas é devida à predominância dos seus preconceitos. Quanto ao resto, mesmo as crianças não mentem sem um motivo, e no todo são mais inclinadas para um amor da verdade do que os mais velhos. Se fôssemos rejeitar a raiz e os ramos das declarações do pequeno Hans certamente deveríamos estar-lhe fazendo uma grave injustiça. Ao contrário, podemos distinguir claramente as ocasiões em que ele estava falsificando os fatos ou guardando-os sob a força compelidora de uma resistência, as ocasiões em que, estando indeciso, concordava com seu pai (de modo que aquilo que ele dissesse não fosse tomado como evidência), e as ocasiões em que, livre de qualquer pressão, ele explodia numa torrente de informação sobre o que estava realmente acontecendo dentro dele e sobre coisas que até então ninguém sabia, a não ser ele mesmo. As declarações feitas por adultos não oferecem maior certeza. É um fato lamentável que nenhum relatório de uma psicanálise possa reproduzir as impressões recebidas pelo analista enquanto ele a conduz, e que um sentido final de convicção nunca possa ser obtido pela leitura sobre ela, mas somente experimentando-a diretamente. Contudo, essa incapacidade aplica-se em igual grau a análises de adultos. O pequeno Hans é descrito por seus pais como uma criança alegre, franca, e assim ele deve ter sido, considerando-se a educação dada por seus pais, que consistia essencialmente na omissão dos nossos costumeiros pecados educacionais. Enquanto podia levar avante suas pesquisas num estado de feliz naïvété, sem nenhuma suspeita dos conflitos que estavam para surgir a partir destas, ele não escondeu nada; e as observações feitas durante o período anterior à fobia não admitem dúvida ou reserva. Foi com a eclosão da doença e durante a análise que começaram a aparecer as discrepâncias entre o que ele dizia e o que ele pensava; isso acontecia em parte porque o material inconsciente, que ele era incapaz de controlar, de repente se estava forçando sobre ele, e em parte porque o conteúdo de seus pensamentos provocava reservas em relação às suas relações com seus pais. Minha opinião imparcial é que essas dificuldades não resultaram maiores do que em muitas análises de adultos. É verdade que durante a análise teve que ser contada a Hans muita coisa que ele mesmo não podia dizer, ele teve de ser apresentado a pensamentos que até então ele não tinha mostrado sinais de possuir, e sua atenção teve de ser voltada para a direção da qual seu pai estava esperando que surgisse algo. Isso diminui o valor de evidência da análise, mas o processo é o mesmo em todos os casos. Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa. Em uma psicanálise o médico sempre dá a seu paciente (às vezes em maior e às vezes em menor escala) as ideias conscientes antecipadas, com a ajuda das quais ele se coloca em posição de reconhecer e de compreender o material inconsciente. Há alguns pacientes que necessitam mais de tal assistência e alguns que necessitam menos, mas não há nenhum que passe sem alguma assistência. Leves distúrbios podem, às vezes, ser levados a um fim pelos esforços não auxiliados do sujeito, mas nunca uma neurose - uma coisa que se colocou contra o ego como um elemento estranho a ele. Para obter o melhor de tal elemento, outra pessoa precisa ser trazida para dentro, e na medida em que essa pessoa puder auxiliar, a neurose será curável. Se está na própria natureza de qualquer neurose afastar-se da `outra pessoa’ - e isso parece ser uma das características dos estados agrupados sob o nome de demência precoce -, então, por esta razão, tal estado será incurável por quaisquer esforços de nossa parte. É verdade que uma criança, devido ao pequeno desenvolvimento dos seus sistemas intelectuais, requer uma assistência especialmente enérgica. Mas, afinal, a informação que o médico dá ao seu paciente deriva, por sua vez, de experiência analítica; e, de fato, isso é suficientemente convincente se, à custa dessa intervenção do médico, ficamos habilitados para descobrir a estrutura do material patogênico e, simultaneamente, para dissipá-lo. Contudo, mesmo durante a análise, o pequeno paciente deu sinal de independência suficiente para colocá-lo acima da acusação de `sugestão’. Como todas as outras crianças, ele aplicava suas teorias sexuais infantis ao material à sua frente, sem ter recebido qualquer encorajamento para agir assim. Essas teorias estão extremamente distantes da mente adulta. Na verdade, nesse caso eu realmente deixei de avisar ao pai de Hans que o menino seria impelido a aproximar-se do tema do parto por meio do complexo excretório. Essa negligência da minha parte, apesar de ter levado a uma fase obscura na análise, foi, todavia, o meio de produzir uma boa parte de evidência da legitimidade e da independência dos processos mentais de Hans. Ele se tornou de repente, ocupado com `lumf‘: sem que seu pai, que se supunha estar praticando sugestão sobre ele, tivesse a menor ideia de como ele tinha chegado a esse tema, ou o que iria sair daí. Seu pai também não pode ser sobrecarregado com nenhuma responsabilidade pela produção das duas fantasias do bombeiro, que surgiram com o `complexo de castração’ de Hans, adquirido muito cedo. É preciso confessar aqui que, fora o interesse teórico, ocultei inteiramente do pai de Hans minha expectativa de que acabaria havendo um pouco de tal conexão, de modo a não interferir no valor de uma parte de evidência que não vem muitas vezes à compreensão da pessoa. [...] O assunto contido nas páginas a seguir será de duas categorias. Primeiramente, fornecerei alguns extratos fragmentários oriundos da história de um caso de neurose obsessiva. Esse caso, julgado por sua extensão, pelos danos de suas consequências e pelo próprio ponto de vista do paciente a seu respeito, merece ser classificado como um caso relativamente sério. O tratamento, que durou cerca de um ano, acarretou o restabelecimento completo da personalidade do paciente, bem com a extinção de suas inibições. Em segundo lugar, partindo-se desse caso e levando-se em consideração outros casos que analisei anteriormente, farei algumas assertivas de caráter aforístico, fora de conexão, sobre a gênese e o mecanismo mais estritamente psicológico dos processos obsessivos; assim, espero desenvolver as minhas primeiras observações sobre o assunto, publicadas em 1896. [...] Aquilo que se descreve oficialmente como uma `ideia obsessiva’ mostra, por conseguinte, em sua deformação a partir de seu teor original; vestígios da luta defensiva primária. Sua deformação possibilita que esta persista, de vez que o pensamento consciente é, pois, impelido a compreendê-la mal, como se fosse um sonho; isso porque também os sonhos são um produto da conciliação e da deformação, e são mal compreendidos pelo pensamento desperto. [....] A predileção dos neuróticos obsessivos pela incerteza e pela dúvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferência para aqueles temas perante os quais toda a humanidade está incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dúvida. Os principais temas dessa natureza são paternidade, duração da vida, vida após a morte e memória - na qual todos nós costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade. Nas neuroses obsessivas, a incerteza da memória é utilizada em toda a sua extensão como auxiliar na formação de sintomas; e conheceremos diretamente o papel desempenhado no conteúdo real dos pensamentos do paciente pelas questões sobre a duração da vida e a vida depois da morte. Contudo, como uma transição mais adequada, considerarei em primeiro lugar um vestígio particular de superstição em nosso paciente, ao qual já aludi, e que, sem dúvida, terá confundido a mais de um de meus leitores. DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS – A obra Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos, de Sigmund Freud, trata acerca da análise de uma fobia em um  menino de cinco anos, abordando o caso clinico e análise, discussão, pós-escrito, e notas sobre um caso de neurose obsessiva, abordando extrato do caso clínico, o inicio do tratamento, sexualidade infantil, o grande medo obsessivo, iniciação na natureza do tratamento, algumas ideias obsessivas e sua explicação, a causa precipitadora da doença, o complexo paterno e a solução da ideia do rato, considerações teóricas, algumas características das estruturas obsessivas, algumas peculiaridades psicológicas dos neuróticos obsessivos, sua atitude perante a realidade, a superstição e a morte, a vida instintual dos neuróticos obsessivos e as origens da compulsão e da dúvida, addendum: registro original do caso e um apêndice com alguns escritos de Freud que tratam da ansiedade, das fobias em crianças e de neurose obsessiva. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
FREUD, Sigmund. Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.


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