quarta-feira, junho 30, 2021

ASSIA DJEBAR, DUHAMEL, AIMÉ CÉSAIRE, SUSANA YAMAUCHI, VALÉRIA VICENTE & BARREIROS

 

 

TRÍPTICO DQP –- Ritos do cotidiano... - Ao som de Onthos (1975), do compositor e maestro Aylton Escobar, com o conjunto Ars Contemporânea. - Valha-me! Tem gente que não enxerga um palmo além da venta e se acha o rei da coisa toda, misturando fezes, rezes e o escambau. Eu mesmo desconfio da minha sanidade mental, escuso o discernimento e fico na minha, tem hora que é preciso ter simancol, acho. Para muitos a estupidez e se arvorar, ô-rô! O bom é quando se encaminha para jogar conversa fora, só pro divertimento. Mas não, esses esdrúxulos levam qualquer papo na conta do sério, emborcando em cima da conspiração e, no final das contas, só dá contrassenso e nada edificante. Depois do desgoverno do Fecamepa, pegou crônico: inutilidades tomaram o ranking dos ministérios e os papagaios passaram a soletrar reiteradamente o cúmulo da mediocridade. Nada mais que advogar o indefensável, com escolhas discriminatórias que escapolem de listas duvidosas na eleição de que é melhor isso ou aquilo, só para atender os interesses ocultos que no fim só dá nas baboseiras de caturros macaqueando o labirinto dos fatos, ilações enigmáticas e plasmando ideias nada sofisticadas como certezas em pontos de interrogação, enfim, não há a mínima condição de desvelar o sentido, porque sabem mais da vida alheia do que de algo que tenha lá alguma valia. Disso só sai queda-de-braço, afora doidices de pedra por ressalva. O pior: ficam emburrados com suas próprias desmesuras idiossincráticas e a tudo desserve por que nada passa por negligenciável, desde o voo do besouro que picou a bunda apreciável da madame dum casacudo, ao deplorável jeitinho de botar gosto ruim na iniciativa de quem quer que seja, metendo o bedelho constrangedor. Não entendo lá muito bem as esquisitices dessa gente cenhosa, coisa só para programação da tevê. Já dizia José Martí: A ignorância mata os povos. Sim, verdadeiro flagelo. Até o Czeslaw Milosz esclarece: Somos feitos assim, metade contemplação desinteressada e metade apetite. Sei não. Tenho a impressão de que esse povinho é incapaz de sensibilidade diante de O bicho de Bandeira: Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem. Depois disso, logo sou execrado. Tem nada não. Em última análise, de alguma forma o inútil serve para algo que talvez não saiba, acho que tudo se perdeu por completo na aventura selvagem do cotidiano.

 


A jia encantada – Imagem: a bailarina coreógrafa e professora Susana Takayama Yamauchi. – Sabe daquela? Qual? Não sabe? Não. Seguinte: eram três irmãos. O mais velho deu rumo na venta, se despediu da família e caiu no mundo. Andou, correu, pelejou e se perdeu. Sem ter onde se arranchar, deu de cara com um casarão abandonado e decidiu ali se hospedar. Vai não, rapaz! Por que? É malassombrado, quem ali pernoitou, não viu o amanhecer. Ora! E foi. Ao se aboletar na rede, ouviu uma voz na escuridão: Caio? Por mim pode se espatifar todo. Buft. Depois que o troço caiu, silêncio. Aí de novo: Caio? Ora, pode se lascar se quiser! Teibei. Caiu? Lasquei-me. Qual é a sua? Nada. Ah, tem que ter alguma coisa! E saiu caçando sem enxergar nada, até que sentiu tocar em algo e pegou com força. Não me mate! Por que não? Dou-lhe algo se me poupar. O quê? Aquilo. Tô vendo nada. Aí apareceu uma botija cheia de ouro e brilhantes. Aí segurou no gogó da coisa: É meu? É, não vai me matar, né? Por que não? Dei riquezas. Sei não. Não me mate que dou mais. Cadê? Ali. Onde? Ali, vamos. E foram, daí a pouco viu-se o antigo casarão como um verdadeiro palacete. É meu? Tudo seu, agora me solte. Não venha com pantim pra minha banda. Não vou, pode ficar certo. Posso confiar? Pode. Aí depois de muito pensar, soltou. A coisa foi-se embora e nem sabia o que era. Com isso, arrumou-se todo e ficou no bem bom, calado, sozinho. O povo lá de fora só esperando o estrupício. Meses se passaram e o irmão do meio resolveu seguir o mais velho. Depois de virar dias e noites, deu-se o encontro entre ambos. E aí? Estou no trampo. E eu? Vá caçar serviço, não tenho onde cair morto! E foi. Cada pro seu lado, o mais velho fez segredo do que possuía e assim passaram o tempo. Depois de anos, o caçula também resolveu seguir o rastro dos irmãos. E foi. Depois de muito gastar solado, encontraram-se os três. E aí? Na luta. O que tem pra mim? Nada, vá catar o que fazer. Assim combinaram os três e cada um foi pro seu lado, encontrando-se uma vez ou outra. Assim ficaram até um dia se estranharem um com o outro. Tabefes, murros e pernadas, findaram os três sob o chicote do pai. Qual é? Os dois mais novos apontaram pro mais velho e em uníssono: Ele está escondendo o serviço, pai! Qual é? Era segredo: ele havia se casado com uma jia e não queria que ninguém soubesse. Nessa hora o leptodatilídeo apareceu, ou melhor, ela achegou-se e falou pro marido: Me dê um beijo! Tá doido! Ora, já lhe dei tudo, é só me beijar na boca que eu desencanto. E foi um puxa-encolhe, até que o cabra se abaixou, ajeitou-se cheio de asco e tascou um beijo na sapa. Buft! Ela se transformou numa linda princesa e, dizem as más línguas, que se não morreram todos, foram felizes para sempre. Vôte!

 


Lá de Barreiros... – Imagem: a arte da bailarina, artista, passista, professora e pesquisadora, Valéria Vicente, fundadora do Acervo RecorDança: Fui coletando cenas, fazendo improvisações e foram surgindo novos elementos. - Que patranha mais sem pé nem cabeça? Foi o Vicente Falafina quem me contou certa vez lá em Barreiros. Ora, ora. Ele resenhou e sumiu-se, fiquei sozinho por ali. Logo ouvi vozes. Uma era da escritora e cineasta argelina Assia Djebar (1936-2015): Eu disse: ação. A excitação tomou conta de mim. Como se, comigo, todas as mulheres de todos os haréns tivessem sussurrado ação. Quando o amor é feito com prazer, com verdadeiro prazer, a memória desperta. Viver sozinho me permite um tipo de exílio muito especial. Pelo visto, hoje era o meu dia de ouvir estranhices. Não demorou muito e logo ouvi o escritor francês Georges Duhamel (1884-1966): O homem é incapaz de viver só, e é incapaz também de viver em sociedade. O erro é a regra: a verdade é o acidente do erro. O bom mestre aprende com as lições que dá. Eita! Pelo jeito a coisa deu o créu mesmo. Afinal, que dia é hoje? Por resposta, só obtive do poeta francês Aimé Césaire (1913-2008): A fraqueza sempre tem mil meios e a covardia é tudo o que nos impede de listá-los. Cuidado, meu corpo e minha alma, cuidado acima de tudo de cruzar os braços e assumir a atitude estéril do espectador, pois a vida não é um espetáculo, um mar de dores não é um proscênio, e um homem que lamenta não é um urso dançarino. Agora os mortos resolveram levar um lero comigo. Será que endoideci ou morri e não sei ainda? Aí reapareceu Falafina trazendo uma encrenca sobre o causo que me foi contado, entre o ambulante Fortunato do vozeirão com o Nocrato que passava cheio dos quequeos, em cima do jegue e carregando água, com uma discurseira provocativa pras bandas dele. Foi! Não foi! Foi! Isso devidamente confirmado, segundo ele, por gente que nunca vi mais gorda e que na hora testemunharam tanto prós como contra, a exemplo do rol mencionado por ele, composto por Alcides Relojoeiro da Vespa, o tenor Galo, o garçom e pandeirista Mussurico, o Lula bebinho, os motoristas Mão de Onça e Sacatrapo, o engraxate tricolor Três Cocos, o assoviador Alvino que era irmão do engraxate zambeta Amaro Alicate, até os comunistas Biu do Caldo, Quinca Barbeiro e Benedito Sapateiro deram aval no acontecido, justo porque foi noticiado pelo serviço de alto-falante do locutor Callado. Como é? Isso mesmo, pode perguntar ao Tião Carangueijo, lá de Tamandaré do Rio Formoso, que ele confirma a história da rã encantada. E o que tem o cu a ver com as calças? Ué! Não levei além da lorota, mas cá pra nós: uma conversa dessa é da gente ficar com um pé na frente e outro atrás, né não? Mas foi tudo registrado nas Memórias barreirenses (Autor, 2007), do memorialista provinciano, Yvon Bezerra de Andrade. Ah, isso sim. E aí? Ele juntou uma banda da bunda e saiu rebatando com a outra, aos muxoxos e laralilarás atrás duma frevista que se requebrava rua afora. Até mais ver.

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terça-feira, junho 29, 2021

NABOKOV, LUO LI RONG, MAGDALENA ABAKANOWICZ & ANA DAS CARRANCAS

 

 

TRÍPTICO DQP –- O sonho era ela e a vida... - Imagem: arte da escultora e artista chinesa Luo Li Rong, ao som de Louise (Erato/warner, 2007), do compositor francês Gustave Charpentier, na interpretação de Rita Gorr & Felicite Lott, Orchestre Symphonique Opera Belgique, condutor Sylvain Cambreling. - Era ela a mais linda do universo, a criatura mais perfeita. Uma menina sardenta que me encantou à primeira vista. Não tínhamos mais que 10 anos de idade – ela nascera no dia 18 e eu, 22 de abril do mesmo ano. Com ela a quentura da vida, um precoce bigodinho e pelos nas axilas e púbis. Era a minha Anabel em carne e osso, a Dolores idealizada e eu o Humbert Humbert, só que da mesma idade. Se eu já tinha folheado o catecismo de Zéfiro, as páginas do Kama Sutra e sarrado com outras meninas e meretrizes, ela era o meu ideal de vida e, por causa dela, levei sério a vida e comecei a trabalhar, beber e fumar. Bastante requestada por sua lindeza, cada vez mais me via impelido por aquela escultura helenística em carne viva: deusa grega que eu sonhava vê-la nua em meus braços. Meus dedos de Donatello imaginavam correr a sua efígie, busto e quadris – todas as linhas geográficas delineadas no meu afã de onírico Brancusi. Mais afoito, retribui seus beijos sardentos, tostado pela volúpia. Os anos se passavam, a timidez reinava e ela cada vez mais atirada. Ousamos abraços, embolamos na cama, até me convidou para tomar banho. Ousadia demais. Estava tão obcecado que rompi e ela tomou um chá de inseticida recheado de comprimidos. Retomamos e não durou, os ciúmes corroíam. Vieram viagens, mudanças, a prisão da paixão. Emigrei para não mais voltar. Estava impregnado dela, negando-me a todo custo. Aprendi a jogar xadrez, mas nunca cassei borboletas de Zembla e nem tinha a mínima vocação para entomologista, muito menos para charadista de truques simplórios, quanto mais para escritor, mas me valia dos garranchos como se fosse um promissor Vasil Sirin-Shishkov e ela era a quimera embalada pelas minhas histórias metidas a Sebastian Knitht, nos meus versos de suposto John Francis Shade e nos meus inúmeros escritos perdidos de pretenso Kimbote. Por ela eu vestia todas as máscaras e carapuças. Tornei-me camaleônico e a roda da vida me fez depará-la quase 20 anos depois, um redemoinho no idílio e uma canção. E ela, o tempo e tudo sepultado no passado.

 


A pessoa em questão... – Imagens da artista polonesa Magdalena Abakanowicz (1930-2017) – Li Lolita na minha plena adolescência. E isso porque ouvia dos adultos sobre uma comédia dramático-romântica de 1962, dirigida por Stanley Kubrick. Contavam de uma ninfeta muito flertiva mascando chicletes a provocar a libido deles. Era a atriz estadunidense Sue Lyon (1946-2019) enfeitiçando o coração de muitos. O filme eu só vi quase aos 30 anos e eu continuava enredado com as maestrias literárias do autor, enquanto me encantava com a atuação da estrela. Confesso, bastante provocante. Algumas décadas depois tentei rever e na exibição dei conta de outro filme homônimo, do cineasta britânico Adrian Lyne, estrelado pela atriz estadunidense Dominique Swain. A impressão foi a mesma, supremacia do livro. E dele ficou a frase de Nabokov: É preciso que seja um artista e um louco, uma criatura de infinita melancolia, comum borbulhar de veneno no lombo e uma chama supervoluptuosa a arder permanentemente na delicada espinha (oh, como a gente tem de se avultar e ocultar-se!), para se discernir imediatamente, mediante sinais inefáveis... Neste mundo implacável de entrecruzadas linhas de causa e efeito... E desde que eu lera pela primeira vez, as pessoas, para mim, eram como se fossem seres vigorosos e radiantes, sobressaindo-se os músculos corporais e exibindo nenhuma cabeça.

 


Entre sopapos & carrancas – Muitas vezes me surpreendi na vida. E uma das vezes foi quando vi de perto a obra da artesã ceramista Ana das Carrancas, dona Ana Leopoldina dos Santos (1923-2008), também conhecida como a Dama do Barro, a Ana louceira e outros codinomes mais, com a sua arte expressa no barro. Ela disse-me que começou com panelas de barro na feira e, depois de um pedido devotado aos seus protetores, deu de cara com a imponência das carrancas nas proas das embarcações do Francisco nordestino. Foi ali às margens do Velho Chico que nasceram as ideias para tirar do barro o que era de madeira e transformá-las todas em obra de arte. Ao apreciá-las de perto e notá-las todas com os olhos vazados, ouvi dela: O barro é a minha vida, eu me sinto realizada com meu barro. Lá longe, ouvia-se Assum Preto, do mestre Luis Gonzaga: Mas Assum Preto, cego dos olhos, não vê a luz, ai, cantar de dor... Até mais ver.

 

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domingo, junho 27, 2021

EDWIN ROBINSON, JUAN SAUER, MARIA VELHO, HARRY PARTCH, ROB GONSALVES & SOM DA MADEIRA

 

 

TRÍPTICO DQP –- O espelho no travesseiro... - Ao som de Castor & Pollux - A Dance for the Twin Rhythms of Gemini (1952), do compositor estadunidense Harry Partch (1901-1974), na performance do Prism Quartet (2016) - Despertei, acho; ou não, sonhando, talvez. A cena, um libelo a céu aberto e eu não entendia o motivo para tanto, as causas desconhecidas, as ações injustificadas. O que é isso? Ali diante de mim militares truculentos desabrigavam desvalidos. Havia um rumor unânime: a pobreza é suspeita, dela sai latrocidas e outros facínoras. Será? Talvez não, alguém asseverou que era a secular proteção ao patrimônio criminoso dos suntuosíssimos privilégios dos deuses do mundo de hoje. Também acho. Sim ou não, no meio do pandemônio emergiu Bertha von Suttner: A organização militar da nossa sociedade foi fundada sob a negação da possibilidade de paz, desprezando o valor da vida humana e aceitando o desejo de matar. E passou a gritar: Abaixem suas armas: falem para todos, para todos! A guerra é a negação da evolução em todas as direções… Uma imensa ofensa cometida pelo homem de hoje contra o homem de amanhã! Apareceu quem a puxasse livrando-a de uma coronhada, de raspão. Afastei-me para não atingido. A tudo via: resmungos, estapeamentos, arrastados e ordens, uma desordem. Logo, ao lado, apareceu Voltairine de Cleyre engrossando as demandas gritantes: Deuses do Mundo! Suas bocas são idiotas! Suas armas falaram e são pó. Queimem as palavras vivas dos mortos escritas em vermelho. Escrito em vermelho, seu protesto está para os Deuses do Mundo verem! A classe trabalhadora tem de aprender, que seu poder não está necessariamente na força do voto! Empurrões e gestos obscenos, armas em riste. Era tudo muito confuso e eu sabia ali o espelho e o travesseiro: o que de mim diante da crueldade daqueles que pisam seus semelhantes, abrindo caminho às cotoveladas, tudo miseravelmente sujo pelas privações calamitosas, a cidade cheia de conjurações secretas e corrupção ubíqua desvelada fabulosamente, a desintegração da comunidade e a população derrotada pelos desmandos, esmagada entre belicosos, este o porvir. Sei mais nada. Foi Ambrose Bierce quem me alertou: A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares. Trouxe-me para um canto e confidenciou: Prudente: um homem que acredita em dez por cento daquilo que ouve, num terço daquilo que lê e em metade daquilo que vê. Assenti como se entendesse e nem ouvia direito a cena atroz, cotidiano para o noticiário. E cá comigo: quantos eus, quantas vidas.

 


Dois mundos aterram-me... - Imagem: arte do artista canadense Rob Gonsalves (1959-2017) – O que de real parece sonho, confundo datas e momentos. A vida é quase a mesma desde que nasci: loucura minha na confusão de outrora e agora - o mundo e seus imperativos ásperos. Restava-me ao menos só e, ao que parece, quase feliz, talvez. Inventei o diário nas minhas horas intermitentes: garranchos rascunhados, nem sei para o que servia. Foi a escritora portuguesa Maria Velho da Costa (1938-2020) quem me deu o mote: Sabe, durante muitos anos mantive um diário. Não que o tenha estudado ou pensado muito, mas uma coisa de que estou convencida é que ao registar por escrito os dias, é como se a memória se desobrigasse. Ouvi e a ela disse da intuição, simples associação livre e isso enquanto eu me via na pele do poeta estadunidense Edwin Arlington Robinson (1869-1935): O mundo não é uma prisão; é um jardim espiritual de crianças, onde milhões de pequenos desnorteados procuram formar a palavra “Deus” com letras erradas. E eu claudicava entre étimos, enquanto elucubrava no meio de solecismos. Estava deveras perdido. Nessa hora o escritor Juan José Sauer (1937-2005) me socorreu: O momento presente não tem outro fundamento a não ser seu parentesco com o passado. E eu não sabia como lidar com tudo isso, havia de fugir na invisibilidade.

 


O defunto LAM... - Imagem: arte da pintora e escritora estadunidense Bunny Pearlman & ao som de Paradoxo, do álbum De ponta cabeça (2015), de Renato Bandeira & Som da Madeira - Ah, seguinte: morri há uns cinco anos, por aí; na verdade, quase seis: um golpe no meu país varou meu coração. Só anteontem me dei conta: não era invisível coisa nenhuma. Era a certidão: bati as botas, de mesmo. Tá. Ainda bem que não tenho mausoléu, nem túmulo algum, muito menos necrológio ou epitáfio: como dissolvi no éter, não sobraram nem cinzas, graças – menos trabalho pros familiares. Como tudo se parecia como se eu estivesse nas páginas do Agá de Hermilo, fiz tal H. G. Wells e lavrei meu auto-obituário ou faz de conta, já tinha ido pro saco mesmo, ora. Era coisa tipo as memórias de Brás do Machado, só que sem valia alguma. Pudera, do que fiz durante a existência, na prova dos nove, dava nada. Além do mais, eu passava e ninguém me via – razão pela qual me achava invisível. Entretanto, mesmo assim, saudava a todos: Bom dia para os defuntos de Scorza. E, com o Literatura: primeiro território livre da América (Mariátegui, 2006), foi ele mesmo quem me disse: As estruturas de poder repousam na infraestrutura da palavra e, ao revés, somente a palavra pode corroer a estrutura de poder. Nenhuma mudança, nenhuma revolução é possível sem imaginações redutíveis às palavras. Para conquistar o paraíso requer imaginá-lo. Ah, do que imaginei, tudo se apagou. E fiquei mudo – logo eu que tinha a língua pelo cotovelo -, tímido, lacônico, esquivo. Relegado ao esquecimento, fugia das palavras hostis, mergulhado em nenhuma contrição de meus fracassos transpassados por sonhos triunfantes. E se parecia tudo muito penoso, não era: quem eu via parecia mais morto que eu. Como durante toda a vida me valia das encontradiças ninfas e bacantes, era o que havia de bom ou sobrava por troco, enquanto gozava da reputação de anarquista por dias sombrios, degenerado pelos detratores. Passou. O que tirei de mim foi a verificação de, mesmo tendo andado mundo afora, jamais transpus os muros do jardim. E foi justamente por isso que voltei à terra natal: um insuportável regresso, qual convalescente. E se fui recusado pelas minhas ilusões mais vãs, não podia mais dormir nem trabalhar, aterrorizado pelo passado que sequer lembrava e temendo o futuro que jamais verei. Coisa de doido. Apesar de tudo, mantenho minha férrea força de vontade diante das adversidades, afinal, como já estiquei as canelas faz tempo, ainda me rio de tudo isso. Até mais ver.

 

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sexta-feira, junho 25, 2021

JULIA KRISTEVA, SHAN SA, JANE SMILEY & EZTER LIU

 

 

TRÍPTICO DQP –- Era manhã e anoitecia... Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu & ao som de show do violonista francês Nicolas Krassik & Cordestinos - Era quem o menino senão eu diante do espelho pela primeira vez: uma esperança voava e pousou em meu peito, a alegria da infância de todas as manhãs. E eu crescia a sorrir. Com o passar dos anos, fizeram dela um gafanhoto predador e tornou o dia na noite do horror eterno, um minuto feito de século de nunca acabar. Nestes últimos de dor, tirei as sandálias e pisei o chão do quintal para a rua, abri o portão e ganhei o mundo peito aberto. Na carreira ouvi a estadunidense escritora, Jane Smiley, a me dizer: Uma criança protegida de todas as idéias controversas é tão vulnerável quanto uma criança protegida de todos os germes. A infecção, quando vier - e virá - pode sobrecarregar o sistema, seja o sistema imunológico ou o sistema de crenças. Se nada entendia, ela insistia na primavera: Todo primeiro rascunho é perfeito, porque tudo o que um primeiro rascunho precisa fazer é existir. E adolescia como o pé de planta que se tornava árvore pronta para frutos brotar. E se seguia errava e nada era melhor que aprender aos escorregões, porque ela insistia: Como a maioria dos educados, nutro uma predileção pelos pecados do meu passado ignorante. Pleno homem feito com o menino no coração, eu sonhava olhos abertos e mais me veria em pleno verão. Só agora sabia o que era a infecção e o que outra vez ela disse: Um romancista tem duas vidas - uma vida de leitura e escrita e uma vida vivida. Ele ou ela não pode ser entendido de forma alguma fora disso. E o que eu lia e vivia das tantas vidas com ela ao outono, previa o inverno de nada escapar: escombros no quintal e toda redondeza. Hoje a esperança voou e piso os destroços do meu país.

 


Duas noites a mais na escuridão... - Imagem: arte do artista estadunidense Robert Rauschenberg. - Era a tragédia instalada, sim, antevia e a meninice pulava do travesseiro como se ainda houvesse carnaval, festejos juninos e carrosséis de natal. Não mais. Outro o cenário devastado. Procurei do outro e tentei ajudá-lo; indiferente, não me reconhecia – era como se eu fosse estampado algoz. Ao falar não me ouviu ou fez que não. Em mim o eco de Julia Kristeva: Só conhecemos o outro quando o amamos. O amor é o apogeu da subjetividade. Só somos pessoas quando enfrentamos o outro, nunca isolados. O que nos torna pessoas é o vínculo com o outro, a relação de amor. Disso sabia meu coração, careca de saber; o outro que não e eu não era ninguém: um fantoche entre tantos outros e não me deixavam com eles. E me negava excluído, não podia ser, mesmo que aquela escritora chinesa, Shan Sa repetisse aos borbotões: A felicidade é algo que você sitia, é uma batalha como um jogo de bola. Vou segurar toda a dor e apagá-la. A vida tem sua vingança da vida. A morte prematura é o segredo da juventude eterna. E as vi como se fossem Filhas da Dor de um tempo sombrio tão escuro delas e tantas outras torturadas, desfalecidas, esquartejadas dos pedaços em minhas mãos e insepultas na memória de décadas. Só que eu não queria saber da morte porque a criança pulava em meu peito, mesmo que os meus e todos os demais me considerassem tão apenas uma paisagem desbotada.

 


Estava vivo, as fogueiras no coração... - Atravessei quantas noites e a solidão, a minha fogueira no meio de tantas outras e só me diziam de dor e sofrimento. Ficou tão difícil respirar, precisava seguir para viver. Logo, coisa boa: alguém se aproximou e me alegrei repentinamente - como era bom o prazer da companhia. E era Ezter Liu trazendo Breves fogueiras: Tem as que nascem azuis. As que morrem cinzas. Tem as que morrem cedo e as que nascem antes. As que derretem lâminas. E as que mal aquecem. Depois de um certo tempo, toda fogueira entardece. Até as mais intensas com percussão de estalos. As cavadas no terreiro e as pousadas na pedra. As do meio da mata. As da encosta gelada. E ao redor: a roda. E ao redor: bandeiras. Acalentando os frios e defumando as fomes. Quentes. Ardidas. Ligeiras. Aqui dançamos em torno de algumas breves fogueiras. E foi outra a hora porque instalou o aroma da brisa possível, eu vivia e como, ela trouxe o que estava perdido. Como era bom vê-la de perto, sorria eu de graça e a desconhecer o cenário de agora, como se por um momento tudo fosse diferente e pudesse ser feliz ali, ao seu lado. Isso me fez novamente a criança que nunca soprou nem deixou apagar a vela de quem quer que seja das fogueirinhas andantes de Galeano, porque eu queria brincar aos pulos e mãos nas mãos e pés por aí até nunca chegar e a desconhecer do escárnio e das trevas escondidas lá no fundo de cada gente esquecida de viver. Como era bom, eu podia sorrir e estar ao lado dela. Até mais ver.

 

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quinta-feira, junho 24, 2021

YVES BONNEFOY, ZELDA MISHKOVSKY, KAFŪ NAGAI, PLÍNIO MARCOS & CARLOS VASCONCELOS


  

TRÍPTICO DQP –- Tantos sangram na indiferença... - Ao som do concerto Espelho no espelho (2021), da Orquestra do Theatro São Pedro - No travesseiro o meu país é Stultifera Navis no desgovernado Fecamepa Coisonário, onde será que vai parar, ninguém sabe, já estamos no fundo do precipício. De lá ouço Mary McCarthy: Na violência, esquecemos quem somos. Na ciência, todos os fatos, por mais triviais ou banais que sejam, gozam de igualdade democrática. Isto meu país ignora, meu povo olvida. De repente, assim do nada, me aparece aquele filósofo austríaco suicida, o Otto Weininger (1880-1903), a me censurar pelo culto recorrente às mulheres, jogando-me na cara o seu polêmico Geschlecht und CharakterEine prinzipiellen Untersuchung (Severus, 2014): Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensaram seriamente a respeito delas. Hem? Ela se afasta, contorna a minha cama e fica um pouco distante, de um lado da porta do quarto. Fita-me com severidade e divido olhar entre ambos. Penso comigo: ora, como um próspero jovem judeu, no auge dos seus 23 anos, recebe seu doutoramento, torna-se cristão e publica um estudo científico-filosófico, em que distingue entre todas as coisas vivas a combinação de proporções variáveis de elementos masculinos e femininos, com denúncias que o levam a se matar, como é que pode? Ele mantém o olhar sisudo sobre mim. Neste mesmo instante vejo Wittgenstein atravessar a entrada da sala e, cabisbaixo, encosta-se à parede. Com meu olhar indago o que está havendo e ele dá de ombros: Com meu escrito não pretendo poupar aos outros o pensar. Porém, se for possível, incitar alguém aos seus próprios pensamentos. Olho para um e outro, ela está inquieta e mais quando sou surpreendido com a aproximação do dramaturgo e escritor japonês Kafū Nagai (1879-1959) que me entrega autografado o seu Histórias da Outra Margem (Estação Liberdade, 2013), a me dizer: Eu não tinha mais aonde ir. As pessoas que eu queria rever estavam todas mortas. Ele tomou pé da situação, saudou a todos com um gesto na cabeça e ancorou nela o seu olhar. Entreolhamo-nos uns aos outros e éramos então todos lídimos solitários, dividindo cada qual e ao mesmo tempo, a solidão.

 


A noite escura no espelho... - Imagens do fotógrafo Carlos Vasconcelos - Não sei quem era ao espelho, apenas seu olhar firme em mim e não era eu, isto eu sabia. Ficamos assim por um bom bocado de tempo, interrompidos pela chegada da poeta israelense Zelda Schneurson Mishkovsky (1914-1984): Eu pensei que era uma alma livre como um homem morto... E abraçou-me desamparada, deitando sua cabeça ao meu ombro. Nada mais disse e assim ficamos a desconhecer tudo ao redor. Até que se assustou com a chegada de alguém. Imediatamente, afastou-se como se me perguntasse quem era com um gesto aturdido e mãos espalmadas. Sei lá. Seguiu até a porta e cruzou olhar com a poeta Marceline Desbordes-Valmore, que a viu com ar desconfiado, mas ao me ver, apressou os passos e me abraçou apaixonadamente com um verso de sua lavra: Esta noite minhas roupas ainda estão perfumadas ... Venha e inspire em mim sua fragrância chamada. E me puxou com um beijo na escuridão.

 


Ela & Homens de papel - Ao abrir os olhos, despertando do profundo beijo, ela era outra, a Maria-Vai: Nós, todas as noites, enchemos a cara de cachaça. É o jeito. A vida é uma merda mesmo. Só com cachaça a gente escora... Era como se dividíssemos a cena de Dois perdidos numa noite suja, mas não era e ela retomava o seu texto: Ninguém está com a ganância pega. Nós sabe das coisas. Com trabalho ninguém se ajeita nessa merda de vida. Pra que dar duro? Pro Berrão ficar mais rico? Aqui, ó! Na verdade estávamos realmente perdidos e me beijou avidamente, enquanto se desnudava. Aí me largou, afastou-se desabotoando o sutiã para deixar seus seios rijos à mostra, acendeu o Abajur Lilás e a cobiça no meu sexo, enquanto me falava da Navalha na Carne que era a sua vida e me perguntou se eu soube a respeito do Assassinato do anão do caralho grande. Que coisa! E com um puxão me deitou sobre o seu corpo para que amássemos a noite madrugada afora, sem culpa nem fim. Deu-me a sua carne suculenta e misturamos nossas peles, lábios e sexos. Ao despertarmos fomos surpreendidos com a presença do Plínio Marcos, o repórter de um tempo mau, a nos dizer: Se eu não for sincero, estou para sempre perdido. O que foi? E ele debulhou Os dez mandamentos! Ele sabia que eu sabia há muitos anos atrás, quando eu pesquisava sobre o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP) e as peças teatrais de Hermilo Borba Filho, e o vi bem próximo do absurdo e da miséria. Foi na mesma época que o poeta francês Yves Bonnefoy (1923-2016) me disse em um verso de crepúsculo estival: Tudo isso eu vi acontecer quando minha alma explodiu em mistério e inspiração. Era tudo como se fosse num redemoinho de eventos e eu quase esqueci que esperava Pinheiros no Largo da Paz. Até mais ver.

 

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quarta-feira, junho 23, 2021

FRANÇOISE SAGAN, ALÍCIA DUARTE PENNA, ANZANELLO CARRASCOZA, SIMOA & VALUNA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez & ela... - Ao som do Harpconcerto - E minor op. 182 (1884), do compositor alemão Carl Reinecke (1824-1910), na interpretação da harpista belga Anneleen Lenaerts, Symfonieorkest Vlaanderen, regência de Jan Latham-Koenig - Deitei a cabeça ao travesseiro e era a Nascente do Bacuna, noutro lugar do agreste. Eu que vivia na mata, estava agora no descampado escuro e senti o toque de uma mão de mulher ao meu braço. Virei-me imediatamente e quem era ela, olhos vivos e um sorriso amável. Segurando a minha mão, me fez seguir o trajeto das estrelas. Sua cadenciada passada enfeitiçava a paragem até repousar numa pedraria para que eu sentisse o reinado da lua. Na verdade, ela que reinava ali. Então me disse ser Simoa, a filha mameluca de Kariri e do cabo Miguel do sítio da Tapera do Garcia, neta do desalmado bandeirante que desmantelou Palmares. Teve uma infância feliz e, moça feita, casou-se com o coronel Manoel, com quem viveu e logo enviuvou. E do sítio fez uma fazenda e me fez presenciar a distribuição de alforrias pros quilombolas ajoelhados ao seu redor. Ela levantou-se, foi até eles, chamou a escrava Domingas e fê-la buscar-me para mais perto dela. Todos se curvaram em sinal de respeito e homenagem, e ela se despediu como se jogasse beijos de flores para todos. E me levou por um caminho na noite escura e, nas proximidades de uma gruta, virou-se, apertou-me ofegante contra o peito, encostou sua face à minha, sua carne latejava, sua língua lambia meus lábios, sua boca devoradora a me beijar como se me levasse por Unhanhu, atravessando o sítio do Saco do Tapuia, até a barra do riacho Cajueiro, para que eu visse no seu seio correr o rio Mundaú. Repousou minha mão sobre o seu ventre e me fez conhecer o córrego do Culumin até chegar num local às margens do rio Canhoto para lá me arranchar e souber que foi ali que ela nasceu e queria me amar, porque eu era o notívago perdido pelas altas horas que daria para ela a eternidade. E me contou da viúva Secunda, aquela que foi acometida de doença grave e levada num carro de boi para sepultada pelo carreiro que, depois do enterro, também foi vitimado da mesma doença dela e morreu. Não, não era ela, porque me queria por ser a matriarca que reluzia no céu das Sete Colinas de Ronildo Maia Leite, com as ilustrações da sua gestação na arte de Sérgio Lemos, perpetuada na pintura de Renato Pantaleão e nas gravuras de Renato Silva. E era mesmo, porque naquele momento ela ascendeu encoberta pelos véus e, antes do amanhecer, desceu desnuda ao Brejo das Flores e me fez nela emergir a cidade.

 


Dois espelhos num só... - Imagem: Espelho diário de Rosângela Rennó. – Ela estava todo dia, no espelho. Conversas desconexas de eus e outras, convivência dela em mim. Vez em quando assaltava minha cama para me dizer um trecho do Morituri mortuis (Por uma vida sem catracas!), da Alícia Duarte Penna: A hora do enterro é, ainda, a hora da morte, que ainda será a da visita ao túmulo (nos Finados, nos aniversários, nas saudades). Fica na terra, da morte, das mortes, ainda um lugar, sempre o mesmo, a que se volta. E me dizia para que eu pudesse suportar o genocídio do desgovernado Fecamepa: milhares por dia sucumbiam e a irresponsabilidade doía e sangrava aqui, ali e acolá. De repente ela trouxe o bailarino e coreógrafo francês Patrick Delcroix: O espelho nos dá todo dia a mesma imagem, mas o que você vê não é sempre o que você sente, a sua imaginação pode levá-lo muito longe, porém o espelho não mente, o reflexo é sempre o mesmo. Ela sorriu e se fez Reflexos do Espelho como se estivéssemos no palco da Cisne Negro, para sussurrar ao meu ouvido um trecho de Por uma contradisciplina da história (UFPE, 2016), da professora e jornalista Christine Greiner: A dança, de certa forma, sempre soube este oficio de narrar cartografando memórias, uma vez que as suas histórias sempre foram histórias do corpo, do movimento e das singularidades das formas de vida. E dançamos até nos esquecer de tudo e de nós.

 


Três danças no espelho... - Imagem: Reflexo no Espelho (2004), da Cisne Negro Companhia de Dança - Amanheci com seus beijos de Sol, a me dizer Françoise Sagan: Amar não é somente querer, é sobretudo compreender. Amei até a loucura.  O que chamam de loucura é, para mim, a única forma sensata de amar... E falou de vida e flores, de rios e ontens, de gente e de nada, para que eu soubesse que de seu corpo toda a vitalidade e razão de viver. Já entardecia e ela era Valuna quando ela me chamou atenção para uma frase do escritor e professor João Anzanello Carrascoza: Somos todos histórias que se misturam, se alteram e se acabam. E me beijou atravessando a noite madrugada adentro para me ensinar o dia imenso de viver e amar. Até mais ver.

 

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terça-feira, junho 22, 2021

ANNE MORROW LINDBERGH, NORBERT ELIAS, EMMANUELLE SEIGNER, ZÉ DO CARMO, CÂMARA DE ESPELHOS & CATENDE

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uma vez mais vou danado de novo pra Catende... - Ao som de Vou danado pra Catende, no álbum Molhado de suor (Som Livre, 1974), de Alceu Valença - Ao travesseiro, bastou-me deitar a cabeça e lá estava eu nas paradisíacas paragens da Serra da Prata, aquela mesma que me deu a ideia do Bacuna pra me levar de novo danado pra Catende, nos versos de Ascenso pelo açude de Santa Rita, até a bica de Monte Alegre. De lá passar pelo casarão de Curupaiti no Roçadinho, depois a casa grande Tabaiaré, chegar nas águas dos rios Panelas ou Pirangi, timbungar o dia todo e comer uma pituzada na festa de Santana pra poder participar do concurso de Batida, Licores e Doces, ao som da pipocada estrondosa dos bacamarteiros de Miguel do Pirajá, lá na frente do Tiro de Guerra. Não era pouco, se eu caia solto, lá vinha o bumba-meu-boi do Matadouro, enquanto ouvia dos alto-falantes da Voz de Catende a sessão que ia passar no cinema Diamante. Enquanto isso, eu me maravilhava com as talhas de Zé Fernandes, a arte de Nelson José e Gabriel, a pintura de Jether Peixoto, Socó, Adgerton e José Adir; ao som da música de Tarcisio Accioli, Deo do Baião, Marcelo Montenegro e Zé Ripe. Era como se eu vivesse inteirinho nas páginas do romance Outro sol se levanta (Autor, 2007), do escritor Pelópidas Soares: As pessoas pelas calçadas, portas e janelas, achavam graça dos bêbados... A inveja e os delatores estão em toda a parte... E eu escapando ou saindo da estação para frevar no meio dos blocos da Filopança, Ferro e Fogo puxado pela Maria Fumaça, ou na Mulher da Sombrinha do saudoso amigo Marcos Catende, que me foi trazido à memória com os versos do poema recolhido do romance de Carlos Gaiza: Na calçada da igreja / fica ela a esperar / um homem da usina / que por lá vai passar... Eu não era da usina, mas era doido pra me travar com ela no meio dos versos de Bartyra, como quem recitasse nos braços da mulher amada dali, e despertar agoniado porque não passava de sonho e fizesse minhas as palavras do trecho de Mel de engenho, de Luiz Maia, extraído da obra Memória histórica de Catende (Autor, 2014), de Eduardo Menezes: Hoje, distante daqueles faustos e áureos anos sessenta, mais que nunca a saudade daquela cidade e de sua gente me faz morada, deixando-me uma dor no peito por saber que nada daquilo, absolutamente nada, mais existe... Pois é, eu escapulia dos sonhos para mandar ver na vida.

 


Dois pinotes diante do espelho... - Agoniado, levantei-me às pressas e nem deu tempo saber que horas seriam ou onde é que eu estava, porque era Déa Ferraz, câmara e luzes e ação, numa rua do Recife, a me perguntar a respeito das mulheres na Câmara de Espelhos. Vôte! Como é que pode, hem? Sabia lá como responder porque fui pego de surpresa. Além do mais, apareceu de repente Emmanuelle Seigner que me sorriu e disse: Tudo na vida, bom ou bom, faz você mudar e crescer - felizmente, porque se não mudasse, seríamos máquinas. Coisas muito piores acontecem às pessoas: câncer, doença, elas perdem um filho. Você pode encontrar uma força inesperada ou pode desmoronar. Eu não sou do tipo que desmorona. Nem eu que perdi meu filho e a vida me levou passarinho até agora sem saber o que fazer de tudo que vivi. Mas a estonteante lindeza dela me dava outro fôlego, aquele que jamais tivera. Estava embevecido, ela ali e mais seria, não fosse a intervenção de Anne Morrow Lindbergh: Se você se render completamente aos momentos que passam, enriquece a sua vida. Pessoas demais, requisitos demais, muito a fazer; pessoas competentes, ocupadas, apressadas - isso não é viver. Só o amor pode ser dividido infinitamente e ainda assim não diminuir. Sim, mas eu nunca caí, ou fiz que não, levei o tombo como se fosse empurrão e assim era porque o tanto era só viver. Aliás, cá comigo: quem me salva do espelho, eu não sei.

 


Três anjos cangaceiros...- Se não estava no céu, era perto: de primeira parecia bonecos de barro. Mas, não. E se eram anjos, não sei o que mais seriam. Na verdae, eram como se fossem. Foi aí que dei de cara com o Mestre Zé do Carmo (José do Carmo Souza – 1933-2019), que mangava de mim por ser mais um a ignorar os seus anjos cangaceiros. Aí ele me contou que Dom Hélder havia encomendado uma imagem do papa e ele prontamente atendeu; contudo, sua arte não foi aparovada pela autoridade eclesiástica: onde já se viu um papa com cara de cangaceiro? Caímos na gaitada, hehehehehe. Enquanto estourávamos de rir, apareceu Norbert Elias apareceu que me deu um toque esclarecedor: O crescente tabu da civilização em relação à expressão de sentimentos espontâneos e fortes trava suas línguas e mãos. E os viventes podem, de maneira semiconsciente, sentir que a morte é contagiosa e ameaçadora; afastam-se involuntariamente dos moribundos. Mas, para os íntimos que se vão, um gesto de afeição é talvez a maior ajuda, ao lado do alívio da dor física, que os que ficam podem proporcionar. Fiquei sério na hora, queria entender. Mas o quê? Ele também se ria e eu fui na dele. Afinal, de sério mesmo quero distância. Até mais ver.

 

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domingo, junho 20, 2021

LESLIE KAPLAN, ROBERT MENASSE, SHIRIN EBADI, SILVIA DE LUCCA & MESTRE SALUSTIANO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Umas e outras tiradas do espelho - Ao som de Um tributo ao contrabaixo (2014), da compositora, pianista e psicóloga Silvia de Lucca, na interpretação do Quinteto Puelli, formado por Karin Fernandes (piano), Adriana Holtz (violoncelo), Luis Amato (violino), Anderson Fernandes (viola), Alexandre Rosa (contrabaixo), no Centro Cultural de São Paulo, 2014. - O que aconteceu? Sei lá! Estava eu enredado com o Espelho cego (Companhia das Letras, 2000), do escritor austríaco Robert Menasse. Como assim? Lá estava eu em Viena, na pele do aspirante a filósofo, Leo Singer, e às voltas com a paixão pela musa, Judith Katz, que sequer se dera conta de mim. Pudera, um sujeito pobre e feio, sobrecarregado de grilos nas ideias um tanto estouvadas, às tentativas até então inúteis de conquistá-la, jogando-me para ela como quem tomou água de chocalho nas inúmeras páginas de livros. A esperança residia no seu riso generoso, decerto que não escondia sua errática condição de existencialista romântica, o que tornava o idílio minado por meus tropeços intelectuais. Tudo fiz, tanto pelejar. Daqui pracolá a minha efigie borrou e queimado o filme, ela arrefeceu e tudo desmoronou: autoestima para a lata do lixo, gargalhadas pelas costas. E eu mergulhado nas circunstâncias de um Brasil golpeado, sem conseguir escapar, maior embotamento: impossível ser feliz debaixo de vacilações e fraquezas, misturando o que vivo e o que penso e dá no mesmo, a mesma coisa: o passado que anima a crueldade do presente. Só que o tempo não espera e eu me valho do que penso, nada deu nem dará certo. Deu-se então de o próprio autor dar as caras assim do nada, a me dizer de uma outra obra sua, A capital (Dom Quixote, 2019):  Haverá arte que seja importante numa época, mas que depois seja, e com razão, esquecida? Não entendi. E como um cético refletindo sobre os fantasmas do seu tempo, em cima da bucha, ele sentenciou: Posso ter uma pátria sem ser nacionalista. Ouvi coisa parecida de Jarauta nalgum lugar, me parece. Ele deu de ombros, virou-se e fiquei a reboque da surpresa. Parecia que voltava, mas não, a chegada repentina da escritora irlandesa Jean Iris Murdoch (1919-1999), como se soubesse de tudo que se passara comigo: O amor é a compreensão extremamente difícil de que algo diferente de si mesmo é real. O amor e a arte e a moral são a descoberta da realidade. Um dos segredos de uma vida feliz é a sucessão de pequenos prazeres. O desejo esmagador de um corpo humano por outro em particular, e sua indiferença aos outros é um dos maiores mistérios da vida. E eu fisguei o seu olhar sem saber o que fazer naquela hora. Ela sorriu percebendo meu embaraço. Só podia transcender: o mergulho no espelho.

 


Duas ou mais coisas do travesseiro - Imagem: arte do quadrinista, artista plástico, escritor e arte-educador Nestor Isejima Lampros, ao som de Songs from my Heart: Morigasaki kaiigan - Melody, opus 279; Haha - Fantasy, opus 273; e. Ningen kakumei no uta/Sekai kofu no uta - Paraphrase, opus 272, do compositor, pianista, musicólogo e pedagogo Amaral Vieira, live performance at Tokyo Metropolitan Art Theater, 2010. - Entre um pulo de susto e o tombo de uma topada, vi Desidério quase se esparramar no chão da calçada. Segurei firme e ele se restabeleceu. Olhou para mim e como um bom cristão que era, sabia-se pecador e, por isso mesmo, corruptível, muito embora fincasse pé e não arredasse um centímetro de nada apalavrado, dito seu era líquido e certo. Ele temia os mortos e se assustava com facilidade aos trovões e relâmpagos, para ele, fúria do de lá de cima com alguma falta inadvertida. Como bom devoto, ele se benzia e batia três vezes na madeira mais próxima, nem faltava à missa domingueira para redimir seus pecados, lavando a alma na hóstia. Era bastante cuidadoso, mas resolvia tudo no sopapo - refletir não era lá o seu forte, pensava como um papa-capim num galho de laranjeira. Mas decidia, nisso era vaidoso, doesse em quem fosse, só ele pagava o pato no final, coitado. Nunca achou pérola em ostra e amealhou algum pé de meia oriundo de seus proventos de exemplar funcionário púbico, nada mais. Posava de probo inarredável: um assombrado que vivia como se usasse eternamente fraque. Vez em quando chato empolado, castigando falsa eloquência nos esses e erres, como se quisesse falar o que nunca conseguia dizer, o juízo atrapalhava. Atrás de um rabo de saia fácil não era lá tão escrupuloso assim. E se dizia e fazia questão de ser elevado em tudo, embutia na face amável o íntimo de papel de enrolar prego, pura tagarelice de só se render diante da exaustão da causa. Encarou na vida as ironias da realidade e teve de podar os desejos, viu-se a sombra de uma sombra. Olhou-me ali segurando o seu tombo na esquina, então, abraçou-me, deitou a cabeça ao meu ombro e chorou. O que houve? Afastou-se, fitou-me fundo aos olhos e saiu. Ao meu lado a jurista e ativista iraniana exilada, Shirin Ebadi compreendeu: A beleza da vida está em lutar contra as situações difíceis. Comparo minha situação com a de uma pessoa a bordo de um navio. Quando ocorre um naufrágio, o passageiro cai no oceano e não tem escolha a não ser continuar nadando. O que aconteceu em nossa sociedade foi que as leis derrubaram todos os direitos das mulheres. Eu não tive escolha. Eu não conseguia me cansar, não conseguia perder as esperanças. Eu não posso me dar ao luxo de fazer isso. Solidário, sabia todos nós exilados: a cabeça desamparada ao travesseiro.

 


Três pulos e outras tantas para nada... - Ao som de Lembrança de um beijo, do álbum homônimo (1994), do saudoso cantor e compositor Acioli Neto (1950-2000). - Lá estou eu pelos grafites das ruas assobiando o Recife. Errava sem pressa até que a poeta francesa Leslie Kaplan apareceu e sacou um verso do seu L’Enfer est vert (Luna Parque, 2018): Quem é você, palavra,/ e o que é que você quer dizer... E o inferno, será que se agarra o inferno/ não, não se agarra, se experimenta/ como é que se faz para experimentar sem conhecer? Não sei, mas se quiser eu topo! E veio quando o Sol abriu o dia na Guararapes como se fosse qualquer lugar no mundo, misturando as pernas e braços no meio do maracatu rural Piaba de Ouro, com os folguedos do cavalo marinho pelo Cais de Santa Rita, coco por Afogados, ciranda pela Imbiribeira, brincante pela tarde como dama e eu galante no Boi Matuto e às lorotas do Mamulengo Alegre, se aprontando pro pastoril no Iluminara Zumbi, da noite Tabajara na Casa da Rabeca. Lá pras tantas, ela tonta e risonha: Quem é? Ah, esse o artesão, ator, músico e compositor, Mestre Salustiano (Manoel Salustiano Soares – 1945-2008), rabequeiro que desde menino começou a trilhar os passos do pai, João Salustiano, e hoje se eterniza na arte dos filhos. E ficou maravilhada com a premiada narrativa dos capítulos da jornalista Mariana Mesquita: Família Salustiano – três gerações de artistas populares recriando os folguedos da Zona da Mata (FUNDAJ, 1999). E mais curiosa queria saber de tudo. Já na despedida da noite para outro dia, ela quis saber da minha: A vida entre um instante e outro – simulacros e bifurcações, emulação dos astros. E assim, sim. Até mais ver.

 

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