domingo, fevereiro 08, 2026

FRANCES HARDINGE, KATHERINE FREESE, ANNEMARIE JACIR, SAMICO & SETIGONISTAS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns reEncanto - Live at Union Chapel (2024), Manga (2019), Lovely Difficult (2013), Studio 105 (2010), Stória, stória... (2009) e Navega (2006), da cantora e compositora cubana Mayra Andrade.

 

A folia de 1 dia por 5 até o ano inteiro!... – Ao soarem as 18 badaladas daquela sexta de pré alvoraçada, o céu escureceu de repente, as luzes acenderam os bombos e ao primeiro toque das baquetas, todas as almas foram sacudidas e os defuntos despertaram abrindo suas covas para atormentarem todos os vivos, atendendo ao chamado da deusa Melinoe com sua legião de fantasmas para atormentar todos os viventes da hora. Logo se viram envolvidos pelo ritmo do frevo e se deixaram levar pelo balanço das pedras do calçamento, bambeando todo o asfalto para a correria arrepiada, que logo tomou vulto aos pulos e saltos naquela noite. A cidade então entrou em polvorosa trazendo o céu de Madalena, como se pretendesse barrar tudo e suplantando juntas todas as festividades do Rio, de Salvador e Recife. Tudo seguia embalado pelas batucadas das bochechas sopradoras dos Assassinos do Frevo, logo aparecendo atrás da orquestra insidiosa a primeira agremiação carnavalesca, Buzuntões de Catuama, com o bordão: Vou com tudo! O seu desfile trouxe uma cópia monumental do Galo da Madrugada, que encantou de tão real e arrastou todo mundo com o Frevo de Rua: Se deu nó cego, bora desatar! Foi tão desproporcional que logo caíram no passo do bloco da Escola d’Os Descontentes do Fecamepa com o enredo: Antes que os USA fodam tudo! Engrossando o caldo com a ala: Todo mundo nu por Abya Yala!, seguida do Reino da Caquistocracia! Em seguida atravessou o coreto a trupe Néstogas que chegava com o tema: Entre os devires e distopias, uma alegoria dos Lábios da Sibila e a salvação da Pítia, com a ala das baianas destacando as 4 bailarinas de Opuntia & Peyotl, que os deixou ainda mais doidões, levados pelos da Musa do Grand Guignol: a mulher muitas vezes morta, pra grande estardalhaço e comoção popular! Aí veio a ala da Mulher do pôr do Sol com as Claras e Marias do Tejucupapo, puxada pelo Jesuisis do Jegue de Paul, as evoluções de Aijuna e o Amor Imortal, o Rei Momo arrodeado de arlequins com o pinto de fora, o Pierrot Vampiro atrás da Colombina sedutora para mordê-la nua cheia de confetes e serpentinas. Logo vieram cordões de caboclinhos, maracatus, folia de Olinda & o escambau! No cortejo apareceu um trio elétrico fenomenal com a cantora Kantocu dos Tasvirs puxando gente até de um olho só, para logo embocar na avenida um outro com os solos rasgados da Bia Villa-Chan, endoidando a rapaziada e mexendo com o esqueleto de tudo que houvesse. Ninguém dormia, ninguém se escorava, porque a Corja das Bombas levantou a poeira com o carnaval 2 caras, muito óleo de peroba no Bumba da Patetada, o Papa-Figo & a viúva Alma Penada, a La Ursa quer dinheiro quem não dá é pirangueiro, logo atrás a troça do Fabo, com os kamikazes Cabeças de Fósforos e um Coisonário todo presidiário e fazendo arminha: tatatatá! E gritavam: Segura a gaia, camboio de corno! E seguiam súcias, récuas, catervas, maltas e bandos. Ao dobrarem a esquina logo se anunciou a cambada do Bicho do Vau que veio fantasiada de despenteados tortos Jânios, com faixa presidencial falseada amarrando seus amarrotados conjuntos pijânios, colarinho aberto sem gravata, um sanduiche de mortadela no bolso, caspas de talco nos ombros e o refrão do Varre, varre, vassourinha, Che Guevara! & a ala: Em 2026 vamos varrer os golpistas inimigos do Brasil do Congresso Nacional! Nem deu tempo fungar ou cochilar direito, logo o bloco da Muriçoca desfilava com todo mundo nu, usando apenas um tapa-sexo e bunda inflável: Vou picar todo mundo! O negócio foi tão barulhento e tantas Alvoradas se passaram que ninguém sabia mais se já era Sábado de Zé-Pereira, Domingo-de-Aleluia, Segunda da Ressaca ou Terça-Feira Gorda. Só se via a multidão solta que nem se dava conta das bizarrices mais insólitas, como a incursão duma desorientada tripulação de um porta-avião do Turcomenistão, enganchados ao passeio de dois turistas do Kiribati, que se extraviaram da rota e deambulavam à toa, no encalço de um paciente terminal que escapuliu proibido de morrer de Longyearbyen e empurrava numa mão o suporte do soro e, na outra, o cilindro de oxigênio móvel, até quem já morreu há séculos ali ressuscitou misturando-se ao mar de foliões exaltados, acompanhados de um astronauta desgarrado à cata do foguete de resgate, um escafandrista que não sabia onde ficava o rio mais próximo, um paraquedista à procura da Base Aérea, um desenvultado dipsomaníaco agarrado aos goles da Teibei, e, no rabinho quilométrico da turba um trio de marcianos saídos dum ménage, um casal de rinocerontes empurrando às pontadas toda bagaça, sob as ordens atiçadoras do urso Wojtek com sua farda do exército polonês: Bora! Bora! Quando enfim, a troça da Tanajura Raimunda levou todo mundo pro Baile de Carnaval já tarde da noite. Foi aí que o Padre Bidão deu as caras anunciando a Santa Folia e foi saudado como sempre: Salve o homem da bimba santa! Viva!!! Atrás dele um Séquito de Vestais convocando os não foliões prum retiro, enquanto se saiam soltas na frevada. No meio delas Biritoaldo fantasiado de shiTrump, segurando uma bandeira com a inscrição USA-ME que sou teu!, a ponto de nem ouvir os apupos e questionamentos: Será o Coisonário agalegado? Os biriteiros seguiam-no: Justiça é uma só! Pra quê Tribunal Militar, só pra perpetuar as benesses das herdeiras dos generais! Também Mamão injuriado por perder a hora apaixonado pela morta, arretou-se e bancou a fantasia do Marja duodecimano xiita Ali Khamenei, ostentando o balsão tricolor islâmico: Sou pelo Irã! Que é que é isso, véi! Tô mordido do porco, sai pra lá! Nem ele sabia o que era. E veio a turma do Agente Secreto com a camisa da Pitombeiras, ostentando o lábaro: Ainda estou aqui! E os do Viva Galateia, a Vênus do Quintal!, o da Rainha de Caudales com o Anel de Giges, outros fantasiados de médico: Saúde é negócio, salvo vidas, me dá uns dólares aí! Um ou outro: Sai da frente que sou juiz! Para encurtar a hestória: o furdunço só parou de madrugada quase amanhecendo, quando o Bacalhau do Batata retomou as atividades da quarta-feira de cinzas e se estendeu alucinadamente até o amanhecer da quinta de branco, ao que todo mundo resolveu: Pernas pro ar que ninguém é de ferro. E assim o frevo comeu no centro de Alagoinhanduba e pipocou pelo ano inteiro! E bastou a certa altura do campeonato ouvirem as 18 badaladas daquele outro dia qualquer e que nem se sabia mais qual era, todos caíram no sono, de só despertarem no reino do Sol amanhecido dum dia perdido e com uma única certeza: Se houver fim será sempre recomeço!...

 

Katharine Ross: A idade é tão imaterial. Não é tudo só o piscar de olhos?... O inferno com o processo de envelhecimento. Isso acontece com todos - você apenas mantém sua mente ativa, você se mantém fisicamente ativo... O tempo é uma criação humana - nenhuma mulher jamais teria inventado o tempo... Veja mais aqui & aqui.

Åsne Seierstad: Não crescemos isolados. Crescemos em sociedade... sei que as guerras raramente resolvem os problemas... Não dizer nada significa dar o seu consentimento... Veja mais aqui & aqui.

Judy Blume: Nossas impressões digitais não desaparecem das vidas que tocamos... Meu único conselho é: fique atento, ouça com atenção e peça ajuda se precisar.... Acredite em si mesmo e você poderá alcançar a grandeza em sua vida... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SORVETE DE PISTACHE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Disseram-me que os \ árabes deram nomes às estrelas \ Algol, Sirius, Aldebaran… \ Os olhos em forma de azeitona da minha mãe \ os pés calçados em sandálias \ me conduziram a séculos \ de vastos impérios \ tesouros esquecidos \ Agora, só restam ruínas. \ Este foi o verão em que me banhei em azeite \ e me sentei nas calçadas de Jerusalém \ comendo sorvete de pistache \ com o velho \ cujo rosto antigo \ tentava me explicar \ que lutávamos com o coração \ e não com a cabeça \ — portanto, nunca venceríamos. \ Estou morta para a minha tribo \ nunca aprenderei \ todos os seus segredos salgados \ Então, esta noite, \ quero dormir com Vega, Deneb, Altair… \ porque eles desaparecerão \ com o sol da manhã,  e só restarão ruínas.

Poema da cineasta, fotógrafa e poeta palestina Annemarie Jacir.

 

UMA PELE CHEIA DE SOMBRAS - [...] Se alguém deixa de lado o orgulho e implora de todo o coração, e se o faz em vão, então nunca mais será a mesma pessoa. Algo dentro dela morre, e algo mais nasce. [...] Os humanos são animais estranhos e adaptáveis, e eventualmente se acostumam a tudo, até mesmo ao impossível ou insuportável. ... O terror é cansativo e difícil de sustentar indefinidamente, então, mais cedo ou mais tarde, precisa ser substituído por algo mais prático. [...] Mas, por outro lado, os mortos costumam ser mais fáceis de elogiar do que os vivos. [...]. Trechos extraídos da obra A Skinful of Shadows (Macmillan Children's Books, 2017), da escritora britânica Frances Hardinge, autora de obras tais como: Fly by Night (2005), The Lie Tree (2015), Well Witched (2007), A Face Like Glass (2012) e The Lost Conspiracy (2009).

 

MATÉRIA ESCURA - […] a matéria escura compõe a maior parte da massa do universo. Nossos corpos, o ar que respiramos, a cadeira em que estou sentado, as estrelas, os planetas, tudo… é feito de átomos, que são feitos de quarks. Mas tudo isso representa apenas 5% do conteúdo do universo. Os outros 95% são o lado escuro. São 25% de matéria escura e 70% de energia escura. Acreditamos que a matéria escura seja composta de partículas fundamentais cuja identidade ainda não descobrimos. E essas partículas fundamentais estão por toda parte, bilhões delas atravessando nossos corpos a cada segundo. É importante entender do que são feitos os 95% restantes do universo. [...] em princípio, poderíamos usar estrelas escuras para identificar a natureza da matéria escura, que tem sido um mistério por 90 anos. [...]. Trechos da entrevista QnAs with Katherine Freese (Proceedings of the National Academy of Sciences - PNAS, 2024), concedida pela física estadunidense Katherine Freese, que em seu artigo On Dark Matter Developments (Sean Carroll, 2014), acrescenta que: [...] A maior parte da massa das galáxias, incluindo a nossa Via Láctea, não é composta de material atômico comum, mas sim de matéria escura ainda não identificada. O objetivo dos caçadores de matéria escura é resolver esse enigma. [...]. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE GILVAN SAMICO

[...] É um pouco o que acontece com alguns artistas que, abordando mais de uma técnica, são mais reconhecidos em uma, em detrimento das outras. Eu gostaria de ter o prestígio que tenho, não só como gravador, mas também como pintor. Se não tenho como mostrar minha pintura, boto cor na minha gravura. [...] Não foi um trajeto racional. Até hoje, tenho um processo de criação que escapa ao raciocínio [...] Não tinha intenção de fazer arte religiosa, mas os temas litúrgicos me atraíam. Santo é de todo mundo, e eu gravei as interpretações caboclas de todos eles [...] Pois é, eu inventei uma lenda que eu estava andando na rua, distraído, e bati a cabeça no poste, daí desandei a falar [...].

Trechos da entrevista O Ser e o Tempo de Gilvan Samico (Big Mouth Strikes Again!, 2009), do editor, professor e escritor Artur Dantas, concedida pelo gravurista, desenhista, pintor, professor e xilogravurista Gilvan Samico (Gilvan José Meira Lins Samico  - 1928-2013), destacando-se os livros Samico (Bem-Te-Vi, 2012), Samico: 40 anos de gravura (CCBB, 1997) e Samico - Do desenho à gravura (Pinacoteca, 2004). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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AS SETIGONISTAS AO QUADRADO: UMA DANÇA POÉTICA

Registramos o lançamento do livro As Setigonistas ao quadrado uma dança poética (2026), das poetas jaque monteiro e noi soul. Trata-se de um livro de setígonos, um novo gênero poético brasileiro criado em Pernambuco, por Admmauro Gommes, Cícero Felipe e José Durán y Durán. Veja detalhes do livro aqui & mais a respeito aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Hermilo Borba Filho aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Bete Gouveia aqui.

Kleber Mendonça Filho aqui, aqui, aqui & aqui.

Ezter Liu aqui & aqui.

Zé Dantas aqui, aqui & aqui.

Rachel Daisy Ellis aqui.

Evaldo Cabral de Mélo aqui & aqui.

Camila Sales Luna aqui.

Newton Moreno aqui & aqui.

Inalda Xavier aquí.

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O frevo em pesquisa: folia & carnaval aqui.