domingo, janeiro 18, 2026

ELISA LONCÓN, LENA YAU, CASEY MCQUISTON & GERALDO AZEVEDO


 Imagem: acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Occam Ocean (2021), Chry-ptus — Geelriandre (2021), Œuvres électroniques (2018), Naldjorlak (2014), Opus 17 (2013), Feedback Works (2012), Triptych (2009), Jetsun Mila (2007), Adnos (2002), Trilogie De La Mort (1994) e Songs of Milarepa (1983), da compositora francesa Éliane Radigue.



A paixão dos condenados... - Carambolo era um enxerido, não parava quieto. De namoricos a embromados noivados com todo tipo lagartas, serpentes, quelônias e crocodilianas, driblava-as, não se livrando de todo das ameaças mortais de injuriados familiares das vítimas por seus arroubos sentimentais de galanteador Casanova. Isso afora muitas outras e tantas peripécias incontáveis, a exemplo de ter sido parceiro do aterrorizante criptídeo Lee County Lizard Man, uma alta criatura bípede dos pântanos, com seus avermelhados olhos de fogo e mais de 2 metros de altura, escamas verdes, três dedos nos pés e garras afiadas. Assarapantavam na estrada Scape Ore, apavorando os moradores de Bishopville, atormentando caçadores e turistas. Noutra foi cúmplice do ancestral capixaba da Pedra Azul, coparticipando das estripolias de guardião do território, não antes afugentarem curiosos e sabotarem as populações circunvizinhas pelos rios de pedras e mares de areia, ficando só nessas duas para não encompridar a pinoia. Mas eis que um dia lá, passeando pela lagoa de Cerro do Jarau, avistou uma bela jovem e fez-se festa em seu coração açodado. Epa! Quem era aquela que o enfeitiçava tão repentinamente? Era uma belezura anônima que vivia incógnita pelo continente d’O Tempo e o Vento de Érico. Inquietou-se e pensou ligeiro: Quer ir ao baile comigo? Não, não tenho o que vestir! Ora, providencio tudo, você quer? Não. Faço o que você quiser! Não. Tanto insistiu que, ao cabo de lábias e promessas, ela assentiu e marcaram horário e local. No momento acertado, ele lá, ansioso, inquieto. Deu uma, duas, três horas de espera e ela nada. Ih! Foi procurá-la e não teve êxito; vasculhou toda redondeza, perguntou a um e outro, fez-se sentinela, não dormia nem se alimentava, solitário pelas demoradas noites. Mais de meses depois findou balançando a cabeça tristemente reprovativa, achando que havia sido passado para traz. Aí, ele deu um freio de arrumação na vida: teve uma epifania de convertê-lo a coroinha, propondo-se a galgar vida espiritual e se tornar definitivamente um santo, amém. Pronto, estava feito. Na sua ascese tornou-se abstêmio, jejuou, libertou-se dos desejos da carne e procedeu à eliminação do ego. Já se considerando completamente restaurado, num remoto lugar de confundós ignotos, de súbito: ela. Ah, agora não me escapará! Partiu alvoroçado e logo: Quer casar comigo? Você de novo! Como ele estava irredutível no seu propósito, ela contou sua hestória: Sou Tijubina, filha da amaldiçoada teiú Teiniágua Teiniaguá, uma princesa moura da família Terra-Cambará, que vivia na lagoa de Cerro do Jarau. Por possuir um vistoso diamante que luzia na testa - um rubi cintilante que atraía os homens fascinados, foi esconjurada pelo Anhangá-Pitã, o Diabo Vermelho, que a fez uma bruxa lagartixa. Assim teve uma vida muito difícil, mas foi salva e se casou com meu pai que morreu pouco depois, me criou sozinha e ficou velha em Quaraí até sua própria morte. Esse o meu resumo: ainda quer casar comigo? Não só quero, como vou casar com você ou eu me mato agorinha! Estava resolvido. Depois de muitos sins e nãos e ora veja, foram para a igreja e o irmão dela tratava da cerimônia, quando o Padre Quiba anunciou peremptoriamente: Deus me livre de realizar este casamento! Por que? São incompatíveis, um sacrilégio, xô! Foram enxotados dali e, desorientados, depois de muito puxa-encolhe, foram levados ao juiz pelo cartório: Não pode, isso é uma aberração! E os defenestrou porta afora. Vixe! E agora? Tudo tentaram com insucesso. Ah, um milagre: o Padre Bidião – e o lema: o amor será sempre festejado. Vamos às provas! Como? Na primeira prova Carambolo descobriu que Tijubina era do Fogo da família Borges e não apenas um pequeno dragão que vivia no fogo, como também um fabuloso anfíbio da última ressurreição da fênix e uma das 4 “raízes das coisas” fundamentais de Empédocles. Eita! Teve de escapar do maior fogaréu, de quase tostar-se todo. Ufa! A segunda prova deu-lhe a constatação de que ela tinha um irmão gigante protetor, o Proteus Anguinus, que mais parecia um dragão cego que torrava o rabo de todos que se aproximassem dela ou fizessem a desfeita de iludi-la ou se bandeassem astutos com enrolação pro lado dela. Danou-se! Astuto, ele escapou fedendo da fogueiratoda, ao dar um pito cambaleante no Proteus, mas não logrou êxito completo: um batalhão esperava-o na virada. Na frente uma invocada teiú, com um diamante luzindo na testa, balançava a cauda como um chicote e bufava esfumaçando: Vai pra onde, moço? Lascou-se! Era fogo no rabo e bafo de lâmina afiada no focinho, maior viela – aí fodeu, cul-de-sac. Na maior enrascada, não havia alternativa afora se submeter à terceira e última prova. Teibei. Pensou: fodido por um, fodido por mil, vamos lá, manda! Atinou recurso: ao saber dos segredos dela, defendeu-se revelando os seus próprios, assim: sou Carambolo, o Réptil Real, filho da Mulher que Ler, a viúva de óculos do Dulcídio das Palavras andantes de Galeano. Minha mãe me criou e vivia sentada na areia fininha, com suas 7 saias cobrindo-lhe os pés, sempre na leitura de livros. Eu adorava mamar alisando suas longas tranças. Assim nasci, cresci e vivo até hoje manso e sadio, depois que ela se foi. Aplausos gerais! No mais ou menos,  finalmente, estavam vencidas todas as etapas de sua jornada. Neste momento o pároco relevou a conferência e, em cima da bucha, convocou os padrinhos e convidados, quando Tijubina que era jeitosa e sonsa, o que tinha de formosura, esbanjava nas ciladas e vaidade, logo, na horagá, chamou a todos os seus parentes batráquios e vieram aos montes tantos sapões, como rãs cururus, salamandras, pererecas, tritões e cobras-cegas, mais uma tuia de girinos afilhados. Que é que é isso? Uma multidão em polvorosa. Até o quadrúpede alado Pyrausta veio das fornalhas das fundições de Chipre e foi quem adentrou o recinto puxando pela mão dela, toda reboculosa vestida de crinolina verde, saia rodada com aplicações de renda, cabelos castanhos, entre os quais, um brilhante faiscava ofuscante: tal e qual sua mãe, confirmava. Casaram-se engalanados num sobrado na cidade de Santa Fé. Depois da cerimônia, mais maravilhado que nunca, Carambolo, num estalo, gritou: A lera! Cadê os calanguistas? E todos se organizaram: dois cantadores armados de heptassílabos às quadras se apresentaram aos versos rimados, ao som da sanfona de 8 baixos e acompanhamento duma viola caipira, pandeiro, triângulo, reco-reco e ganzá. Para engrossar a festança, um acordeão soou de longe: Segura o refrão! O cavaquinho aumentou o tom no solo, puxou sextilha pro desafio. Vamos de calango repicado. Isso é que é calango corrido! Poeta, segura a linha da porfia! Agora pra linha do barandão! Traz a tocha de bambu que é baile de barraca! A disputa corria solta: puxa calango da bicharada! Todos bailavam e ele entrelaçado nela, com passos simples, no maior forró, aos rodopios, requebros e desengoços, assim respondiam-se mutuamente à provocação de ambos. Era quase final de festa, um alarido. Foi um corre-corre medonho. O padre escapuliu, os convidados fugiram, outros morreram, só os dois escaparam vítimas de letal pandemia, com não se sabe quantos defuntaram de muitos. Ficaram de quarentena pro resto da vida. Repetia-se com ela o que ocorreu com sua mãe: o sacristão aprisionou-a em uma guampa e foram viver numa casa de taipa na caatinga, como se fossem os condenados a viver numa furna, longe de tudo e de todos, sozinhos. Até mais ver.

 

Virginia Woolf: Se você não disser a verdade sobre si mesmo, não poderá dizê-la sobre os outros... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Elvira Lindo: Mentir nem sempre é necessário, mas é algo a que nos habituamos e que não conseguimos evitar... Dizem que o que mais sentimos falta nos mortos são as peculiaridades que nos irritavam, e não a coerência de suas ações... Não viver é não sofrer e não saber... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Angela Davis: Não aceito mais as coisas que não posso mudar. Estou mudando as coisas que não posso aceitar... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SEM COMPASSO

Imagem: acervo ArtLAM.

Desvariando \ regressando \ caindo \ rompendo a boca e os dentes \ fechando os olhos para evitar o punhal verde \ guardando os ouvidos da broca \ sufocando de calor \ tocando as fotos que foram relógio todos esses anos \ acariciando a terra que guarda amores fugidos \ acariciando minha língua com sabores que me fazem texto \ sendo filha recebida \ recuperando as horas de sono aconselhadas por Salerno \ resgatando uma parte de mim que foge a cada dia \ deixando de ver o berço como bruma \ como incêndio \ como ilha que se afasta do meu nado.

Poema da escritora, jornalista e pesquisadora venezuelana Lena Yau, autora de obras como Trae tu espalda para hacer mi mesa (2015); Lo que contó la mujer canalla (2016); Bienmesabes (2018); Bonnie Parker o la posibilidad de un árbol (2018); Carne de mi carne (2018); Nubes (2019); Escribir afuera (2021); Asintomática (2021); Cuentos de Venezuela (2022) e En la desnudez de la luz. Poetas venezolanas nacidas en la década del sesenta (2022). Veja mais aquí.

 

ÚLTIMA PARADA – [...] Às vezes, você só precisa sentir, porque merece ser sentido. [...] Quando se passa a vida inteira sozinho, é incrivelmente atraente mudar-se para um lugar grande o suficiente para se perder nele. Onde estar sozinho pareça uma escolha. [...] Talvez eu ainda não saiba o que preenche esse espaço, mas posso observar o ambiente ao meu redor, o que cria essa forma, e me importar com o que o compõe, se é bom, se machuca alguém, se faz as pessoas felizes, se me faz feliz. E isso pode ser o suficiente por enquanto. [...]. Trechos extraídos da obra One Last Stop (St. Martin's Griffin, 2021), da jornaista e escritora estadunidense Casey McQuiston, que na sua obra I Kissed Shara Wheeler (Pan Macmillan, 2022), ela expressou: […] Não acredito que fazer algo na frente de todos torne isso mais significativo. Pelo contrário, faz com que deixe de ser algo seu. [...] Ela se sente como a lombada de um livro prestes a se romper e derramar todas as entranhas da história de amor. [...]. Já noutra obra Red, White & Royal Blue (Macmillan, 2022), ela expressa que: […] Às vezes você simplesmente pula e espera que não seja um penhasco. [...] Devo te contar que, quando estamos separados, seu corpo volta para mim em sonhos? Que quando durmo, eu te vejo, a curva da sua cintura, a sardinha acima do seu quadril, e quando acordo de manhã, parece que estive com você ontem mesmo, o toque fantasma da sua mão na minha nuca, fresco e não imaginado? Que posso sentir sua pele contra a minha, e isso faz cada osso do meu corpo doer? Que, por alguns instantes, posso prender a respiração e estar de volta lá com você, em um sonho, em mil quartos, em lugar nenhum? [...] Mas a verdade é, também, simplesmente esta: o amor é indomável. [...].

 

CRUZADA LINGUISTICA – [...] uma cruzada pela educação linguística. Quando eu era mais jovem, coletei muitas histórias de vida porque precisávamos reconstruir a memória para recuperar a terra. [...] Do ponto de vista cultural, isso permite falar de uma visão de mundo onde os seres humanos estão intrinsecamente ligados à natureza. Estamos ligados às montanhas. Nossos nomes estão conectados aos animais, aos pássaros: essa é a nossa identidade. [...] O que aconteceu é que a reforma educacional não leva em consideração as línguas ou os povos indígenas. Os projetos de aperfeiçoamento docente também não os mencionam. A lei de inclusão fala sobre diversidade, mas não se refere às línguas ou aos direitos dos povos indígenas.  [...]. Trechos da entrevista Elisa Loncon: A descolonização da linguagem (Revista Universitária PUC-Chule, 2016), concedida pela linguista, professora e ativista chilena Elisa Loncón, defendendo a decolonização linquística, a identidade, diretos culturais e linguístico do povo mapuche e dos povos originários do Chile. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GERALDO AZEVEDO

[...] Na verdade, eu comecei na década de 60, como músico. Na década de 70, eu já virei um compositor, já tinha um trabalho, já estava criando um trabalho mais. [...] eu acho que eu tomei muito consciência foi na segunda prisão, quando eu fiquei preso. Primeiro morreu uma pessoa do meu lado sendo torturada. Foi muito torturado. E aí. Foi aí que eu comecei a fazer uma reflexão sobre a minha vida. [...] Desde a década de 90 que eu venho falando da água. Isso antes de todo mundo, de ter essas secas assim. Porque eu nasci no rio São Francisco e quando foi na década de 90 que comecei a fazer shows pelo Nordeste, de volta e passei por algumas cidades do rio São Francisco eu fiquei chocado. Na década de 90. O rio São Francisco... Cheguei em Penedo, as pessoas atravessavam o rio andando em lugares em que passavam embarcações... [...] O Brasil é um país que tem que orgulhar quem nasce no Brasil. Mas o fato é que é um país que se rende demais, que se viciou no colonialismo. [...] O que me inspira mesmo no trabalho, o que me liga ao trabalho, a primeira coisa é o amor. O amor, a relação da vida com a vida. Mas a natureza de um modo geral. Eu fui criado... eu conheci a natureza de pé no chão, tomando banho de rio, sem luz elétrica, sem motor. A minha relação com a natureza foi muito viva. [...].

Trechos da entrevista O Brasil se viciou no colonialismo: Entrevista com o cantor Geraldo Azevedo (Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade – RICS-UFMA, 2016), recolhida por João de Deus Barros, com o cantor e compositor Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo de Amorim). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

Luiz Gonzaga aquí, aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.

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