Ao
som dos álbuns Occam Ocean (2021), Chry-ptus — Geelriandre
(2021), Œuvres électroniques (2018), Naldjorlak (2014), Opus
17 (2013), Feedback Works (2012), Triptych (2009), Jetsun
Mila (2007), Adnos (2002), Trilogie De La Mort (1994) e Songs
of Milarepa (1983), da compositora francesa Éliane Radigue.
A paixão dos condenados... - Carambolo era um enxerido, não parava quieto. De namoricos a embromados
noivados com todo tipo lagartas, serpentes, quelônias e crocodilianas, driblava-as,
não se livrando de todo das ameaças mortais de injuriados familiares das
vítimas por seus arroubos sentimentais de galanteador Casanova. Isso afora
muitas outras e tantas peripécias incontáveis, a exemplo de ter sido parceiro do
aterrorizante criptídeo Lee County Lizard Man, uma alta
criatura bípede dos pântanos, com seus avermelhados olhos de fogo e mais de 2
metros de altura, escamas verdes, três dedos nos pés e garras afiadas. Assarapantavam
na estrada Scape Ore,
apavorando os moradores de Bishopville, atormentando caçadores e turistas. Noutra
foi cúmplice do ancestral capixaba da Pedra Azul, coparticipando das estripolias de guardião do território, não antes afugentarem curiosos e sabotarem as populações
circunvizinhas pelos rios de pedras e mares de areia, ficando só nessas duas
para não encompridar a pinoia. Mas eis que um dia lá, passeando pela lagoa de
Cerro do Jarau, avistou uma bela jovem e fez-se festa em seu coração açodado. Epa! Quem
era aquela que o enfeitiçava tão repentinamente? Era uma belezura anônima que vivia incógnita
pelo continente d’O Tempo e o Vento de Érico. Inquietou-se e
pensou ligeiro: Quer ir ao baile comigo? Não, não tenho o que vestir! Ora,
providencio tudo, você quer? Não. Faço o que você quiser! Não. Tanto insistiu
que, ao cabo de lábias e promessas, ela assentiu e marcaram horário e local. No
momento acertado, ele lá, ansioso, inquieto. Deu uma, duas, três horas de
espera e ela nada. Ih! Foi procurá-la e não teve êxito; vasculhou toda redondeza,
perguntou a um e outro, fez-se sentinela, não dormia nem se alimentava, solitário
pelas demoradas noites. Mais de meses depois findou balançando a cabeça tristemente
reprovativa, achando que havia sido passado para traz. Aí, ele deu um
freio de arrumação na vida: teve uma epifania de convertê-lo a coroinha, propondo-se
a galgar vida espiritual e se tornar definitivamente um santo, amém. Pronto, estava
feito. Na sua ascese tornou-se abstêmio, jejuou, libertou-se dos desejos da
carne e procedeu à eliminação do ego. Já se considerando completamente restaurado,
num remoto lugar de confundós ignotos, de súbito: ela. Ah, agora não me
escapará! Partiu alvoroçado e logo: Quer casar comigo? Você de novo! Como ele
estava irredutível no seu propósito, ela contou sua hestória: Sou Tijubina,
filha da amaldiçoada teiú Teiniágua Teiniaguá, uma princesa moura da família
Terra-Cambará, que vivia na lagoa de Cerro do Jarau. Por possuir um vistoso diamante
que luzia na testa - um rubi cintilante que atraía os homens fascinados, foi esconjurada
pelo Anhangá-Pitã, o Diabo Vermelho, que a fez uma bruxa lagartixa. Assim teve
uma vida muito difícil, mas foi salva e se casou com meu pai que morreu pouco depois,
me criou sozinha e ficou velha em Quaraí até sua própria morte. Esse o meu resumo:
ainda quer casar comigo? Não só quero, como vou casar com você ou eu me mato
agorinha! Estava resolvido. Depois de muitos sins e nãos e ora veja, foram para a igreja e o
irmão dela tratava da cerimônia, quando o Padre Quiba anunciou
peremptoriamente: Deus me livre de realizar este casamento! Por que? São
incompatíveis, um sacrilégio, xô! Foram enxotados dali e, desorientados, depois
de muito puxa-encolhe, foram levados ao juiz pelo cartório: Não pode, isso é
uma aberração! E os defenestrou porta afora. Vixe! E agora? Tudo tentaram com
insucesso. Ah, um milagre: o Padre Bidião – e o lema: o amor será sempre
festejado. Vamos às provas! Como? Na primeira prova Carambolo descobriu que Tijubina
era do Fogo da família Borges e não apenas um pequeno dragão que vivia
no fogo, como também um fabuloso anfíbio da última ressurreição da fênix e uma das
4 “raízes das coisas” fundamentais de Empédocles. Eita! Teve de escapar do maior fogaréu, de quase tostar-se todo. Ufa! A segunda prova
deu-lhe a constatação de que ela tinha um irmão gigante protetor, o Proteus Anguinus,
que mais parecia um dragão cego que torrava o rabo de todos que se aproximassem
dela ou fizessem a desfeita de iludi-la ou se bandeassem astutos com enrolação
pro lado dela. Danou-se! Astuto, ele escapou fedendo da fogueiratoda, ao dar um pito cambaleante no Proteus, mas não logrou êxito completo: um batalhão esperava-o na virada. Na
frente uma invocada teiú, com um diamante luzindo na testa, balançava a cauda
como um chicote e bufava esfumaçando: Vai pra onde, moço? Lascou-se! Era fogo no rabo e bafo
de lâmina afiada no focinho, maior viela – aí fodeu, cul-de-sac. Na
maior enrascada, não havia alternativa afora se submeter à terceira e última
prova. Teibei. Pensou: fodido por um, fodido por mil, vamos lá, manda! Atinou recurso: ao saber dos segredos dela, defendeu-se revelando os seus próprios, assim: sou Carambolo,
o Réptil Real, filho da Mulher que Ler, a viúva de óculos do Dulcídio das Palavras andantes de Galeano. Minha mãe me criou e vivia sentada na areia
fininha, com suas 7 saias cobrindo-lhe os pés, sempre na leitura de livros. Eu
adorava mamar alisando suas longas tranças. Assim nasci, cresci e vivo até hoje manso e sadio, depois que ela se foi. Aplausos gerais! No mais ou menos, finalmente, estavam vencidas todas as etapas de sua
jornada. Neste momento o pároco relevou a conferência e, em cima da bucha, convocou os padrinhos e convidados, quando Tijubina
que era jeitosa e sonsa, o que tinha de formosura, esbanjava nas ciladas e
vaidade, logo, na horagá, chamou a todos os seus parentes batráquios e vieram
aos montes tantos sapões, como rãs cururus, salamandras, pererecas, tritões e
cobras-cegas, mais uma tuia de girinos afilhados. Que é que é isso? Uma multidão em polvorosa. Até o quadrúpede alado
Pyrausta veio das fornalhas das fundições de Chipre e foi quem adentrou o
recinto puxando pela mão dela, toda reboculosa vestida de crinolina verde, saia
rodada com aplicações de renda, cabelos castanhos, entre os quais, um brilhante
faiscava ofuscante: tal e qual sua mãe, confirmava. Casaram-se engalanados num
sobrado na cidade de Santa Fé. Depois da cerimônia, mais maravilhado que nunca,
Carambolo, num estalo, gritou: A lera! Cadê os calanguistas? E todos se
organizaram: dois cantadores armados de heptassílabos às quadras se
apresentaram aos versos rimados, ao som da sanfona de 8 baixos e acompanhamento
duma viola caipira, pandeiro, triângulo, reco-reco e ganzá. Para engrossar a festança,
um acordeão soou de longe: Segura o refrão! O cavaquinho aumentou o tom no
solo, puxou sextilha pro desafio. Vamos de calango repicado. Isso é que é
calango corrido! Poeta, segura a linha da porfia! Agora pra linha do barandão! Traz
a tocha de bambu que é baile de barraca! A disputa corria solta: puxa calango
da bicharada! Todos bailavam e ele entrelaçado nela, com passos simples, no
maior forró, aos rodopios, requebros e desengoços, assim respondiam-se mutuamente
à provocação de ambos. Era quase final de festa, um alarido. Foi um corre-corre
medonho. O padre escapuliu, os convidados fugiram, outros morreram, só os dois
escaparam vítimas de letal pandemia, com não se sabe quantos defuntaram de
muitos. Ficaram de quarentena pro resto da vida. Repetia-se com ela o que
ocorreu com sua mãe: o sacristão aprisionou-a em uma guampa e foram viver numa
casa de taipa na caatinga, como se fossem os condenados a viver numa furna,
longe de tudo e de todos, sozinhos. Até mais ver.
Virginia Woolf: Se você não disser a verdade sobre si mesmo, não poderá dizê-la sobre os outros... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Elvira
Lindo: Mentir nem sempre é necessário, mas é algo a que nos
habituamos e que não conseguimos evitar... Dizem que o que mais sentimos falta
nos mortos são as peculiaridades que nos irritavam, e não a coerência de suas
ações... Não viver é não sofrer e não saber... Veja mais aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
Angela Davis: Não aceito mais as coisas que não
posso mudar. Estou mudando as coisas que não posso aceitar... Veja mais
aqui, aqui, aqui & aqui.
SEM COMPASSO
Imagem:
acervo ArtLAM.
Desvariando \ regressando
\ caindo \ rompendo a boca e os dentes \ fechando os olhos para evitar o punhal
verde \ guardando os ouvidos da broca \ sufocando de calor \ tocando as fotos
que foram relógio todos esses anos \ acariciando a terra que guarda amores
fugidos \ acariciando minha língua com sabores que me fazem texto \ sendo filha
recebida \ recuperando as horas de sono aconselhadas por Salerno \ resgatando
uma parte de mim que foge a cada dia \ deixando de ver o berço como bruma \ como
incêndio \ como ilha que se afasta do meu nado.
Poema da escritora, jornalista e pesquisadora venezuelana Lena Yau,
autora de obras como Trae tu espalda para hacer mi mesa (2015); Lo
que contó la mujer canalla (2016); Bienmesabes (2018); Bonnie
Parker o la posibilidad de un árbol (2018); Carne de mi carne (2018);
Nubes (2019); Escribir afuera (2021); Asintomática (2021);
Cuentos de Venezuela (2022) e En la desnudez de la luz. Poetas
venezolanas nacidas en la década del sesenta (2022). Veja mais aquí.
ÚLTIMA
PARADA
– [...] Às vezes, você só precisa sentir, porque merece ser sentido. [...] Quando
se passa a vida inteira sozinho, é incrivelmente atraente mudar-se para um
lugar grande o suficiente para se perder nele. Onde estar sozinho pareça uma
escolha. [...] Talvez eu ainda não saiba o que preenche esse espaço, mas
posso observar o ambiente ao meu redor, o que cria essa forma, e me importar
com o que o compõe, se é bom, se machuca alguém, se faz as pessoas felizes, se
me faz feliz. E isso pode ser o suficiente por enquanto. [...]. Trechos extraídos da obra One Last Stop (St. Martin's Griffin, 2021), da jornaista e
escritora estadunidense Casey McQuiston, que na sua obra I Kissed
Shara Wheeler (Pan Macmillan, 2022), ela expressou: […] Não acredito que
fazer algo na frente de todos torne isso mais significativo. Pelo contrário,
faz com que deixe de ser algo seu. [...] Ela se sente como a
lombada de um livro prestes a se romper e derramar todas as entranhas da
história de amor. [...]. Já noutra
obra Red, White & Royal Blue (Macmillan, 2022), ela expressa que: […]
Às vezes você simplesmente pula e espera que não seja um penhasco. [...] Devo te
contar que, quando estamos separados, seu corpo volta para mim em sonhos? Que
quando durmo, eu te vejo, a curva da sua cintura, a sardinha acima do seu
quadril, e quando acordo de manhã, parece que estive com você ontem mesmo, o
toque fantasma da sua mão na minha nuca, fresco e não imaginado? Que posso
sentir sua pele contra a minha, e isso faz cada osso do meu corpo doer? Que,
por alguns instantes, posso prender a respiração e estar de volta lá com você,
em um sonho, em mil quartos, em lugar nenhum? [...] Mas a verdade é,
também, simplesmente esta: o amor é indomável. [...].
CRUZADA
LINGUISTICA
– [...] uma cruzada pela
educação linguística. Quando eu era mais jovem, coletei muitas histórias de
vida porque precisávamos reconstruir a memória para recuperar a terra. [...] Do ponto de vista cultural, isso
permite falar de uma visão de mundo onde os seres humanos estão intrinsecamente
ligados à natureza. Estamos ligados às montanhas. Nossos nomes estão conectados
aos animais, aos pássaros: essa é a nossa identidade. [...]
O que aconteceu é que a reforma educacional não leva em
consideração as línguas ou os povos indígenas. Os projetos de aperfeiçoamento
docente também não os mencionam. A lei de inclusão fala sobre diversidade, mas
não se refere às línguas ou aos direitos dos povos indígenas. [...]. Trechos da entrevista Elisa Loncon:
A descolonização da linguagem (Revista Universitária PUC-Chule, 2016), concedida
pela linguista, professora e ativista chilena Elisa Loncón, defendendo a
decolonização linquística, a identidade, diretos culturais e linguístico do
povo mapuche e dos povos originários do Chile. Veja mais aqui, aqui, aqui &
aqui.
A ARTE DE GERALDO
AZEVEDO
Trechos da
entrevista O Brasil se viciou no colonialismo: Entrevista com o cantor
Geraldo Azevedo (Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade – RICS-UFMA,
2016), recolhida por João de Deus Barros, com o cantor e compositor Geraldo
Azevedo (Geraldo Azevedo de Amorim). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Luiz Gonzaga aquí, aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.
Antônio Maria
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Joana Lira aqui.
Jurandir Freire
Costa aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Clarice Falcão
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Gilberto Freyre
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Maria Goretti
Rocha de Oliveira aqui & aqui.
Francisco Augusto
Pereira da Costa aqui, aqui, aqui & aqui.

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