Imagem: Acervo ArtLAM.
Ao
som dos álbuns Palavra e Som (2017), Fiz uma Viagem – Songs of
Dorival Caymmi (2017), 50 (2018),
Brasileiras Canções (2022) e o Mar É Mulher (2025), da cantora, compositora
e instrumentista Joyce (Joyce Silveira Moreno), autora dos livros Fotografei
Você na Minha Rolleiflex (1997) e Aquelas Coisas Todas (2020), das séries
Cantos do Rio (1999) e No Compasso da História (2010) e do
projeto Pequenos Notáveis (2012). Veja mais aqui & aqui.
Parlenda de Truvunca & Quelônia, Acta est
fabula... – Virado da breca esse Truvunca, pense numa
criatura fuçadora: apronta as suas semostradoras presepadas e, eximindo-se do
revide das lapadas, abre um buraco no chão e se entoca de ninguém mais vê-lo. De
tanto cavar túneis disparatados, logo viu-se enamorado pela Maria Fumaça,
o que parecia ser um bom negócio pra ele, claro. Mas, não. Ela nem nem: só
andava na linha e, pra encará-la, só de papel passado. Vixe! Perdeu a viagem e
pinotou fora. O melhor era mesmo da loca explorando forames, caboucos, antros,
covas, grotas, cavernas e grutas. E de tanto desbravar bateu no domicílio duma Branquiura,
eita, saia-justa: caxangá, siri siripuã! Ela: Qual é a tua, dasipodídeo? Tava
passando por perto... Tais pensando que o céu é perto? Não... Segura a carapaça
senão finda leproso, visse! Vim só dá boa tarde! Ela então abriu a porta e mostrou
uma tuia de aratu, caranguejo-uçá e azul, guaiamu, boca-cava-terra, grauçá,
chama-maré, Maria-farinha e santola, tudo de boca aberta para tirar proveito:
Vem cá, tatu, que eu quero fazer charango! Quirquincho, venha dançar fandango!
Quero fazer cesto e do rabo a flauta! Quero comer aaru, meu beiju, peralta! S’esconda
não, bota fumaça na toca que eu quero pegá-lo! Oba, banquete com a carne de
todos os outros animais! Pulou fora, evadiu-se. Depois dessas tentativas
malogradas, jurou nunca se apaixonar. E como cuspiu pra cima e debaixo não
saiu, nem deu tempo de sustentar a promessa: viu-se enredado num grande amor
com Araminta de Goldoni, uma beldade tracajá. Foi de peito aberto, a
plenos pulmões: esmerou-se no vinco, alinhou-se no ajeitado, dançou e melou; ao
resolver os documentos do casório, ela se enjicou com ele, arriando o rosário,
cabum! Debulhando o miúdo da surpresa: era uma Arsínoe de Molière, uma
cágada desaforada: Já enganei onça e só gosto de carniça e rabo de lagarto! Ih!
Tem coragem ou vai abrir da vela? Mas, mas... Sai pra lá, banguela! E
sacudiu-se toda pras bandas dum Zé-prego que apareceu vistoso, dele ficar só
com as mãos balando e a ver navios. Essa doeu dele despencar de vertigens,
falta de ar, perdeu a noção das coisas, claudicante, arrastou-se pela lama, findou
sofrente na sarjeta: as grandes dores deixam marcas indeléveis, dele cambalear
por muito tempo, até levar uma topada e pegar no tranco. Ufa! Nem se resguardara
direito, lá estava ele se enrolando com Ródope de Hebbel – uma jabota sonhando Gyges
und Sein Ring. Diante de tanta formosura, ele mergulhou de cabeça e caiu com
toda boca na botija, chega lambuzar-se todo. Calma, meu nego, que vexame é
esse, tatu eté? Vem cá, frochosa! Tatu peba de capote, com seu chapéu voador,
parece mais um caçote que perdeu o seu andor! Dou-lhe tudo de meu! E foi de
topete desembestado. Alto lá! Pra quê retranca? Enrole, não! Tô gamado! Então, procure
outra, papa defunto! Danou-se! E quando viu: estava ela enganchada no pescoço
dum carumbe. Ele deu a porra e virou das catrâmbias, encolheu-se feito bola, zonzinho
da silva: sucumbira de novo aos tormentos do seu inferno particular, quase perecer de amargura. Foi difícil segurar as pontas, curto-circuito e
dor-de-cotovelo: doíam os chifres e, na recaída, quase bota todos os bofes boca
a fora: tatu também é gente, também morre em sofrimento! Caiu na gandaia feito
um Aretino injuriado: pintou resoluto, bordou dissoluto e arretou-se
determinado a se emburacar no chão e sair do outro lado do mundo! Assim fez e
findou atribulado num aquífero. Eita! Quando voltou a si: Onde estou? Você
quase morre afogado! Quem é você? Sou Quelônia, muito prazer. Você me salvou?
Só puxei você pra praia. Quer casar comigo? Já vejo que retomou os sentidos e
agora está melhor, até. Não, pelamordedeus, preciso agradecer. De nada. E ela
se foi pelas ondas do mar aberto, deixando-o inconsolável. Não fosse a prestimosa
intervenção dum primo distante, jamais sairia do seu embotamento. Como é que
tá, parente? Tamanduá, você viu aquela? Vi, sim. Quem é ela, hem? Ah, parente,
nem queira saber: a cosmófora! Que é isso? A reencarnação de Vishnu, Bodhisattva.
Quem? Os 4 pilares da origem algonquina! Piorou. O escudo de Órion dos maias.
Deixa de onda! Ela é o pilar que segura o céu. Tais de brincadeira! Ela é a
cítara de Mercúrio, a esposa do Sol dos Vaupés! A sabedoria no Bhagavad Gita! Peraí.
Uma vez ela subiu num poste. Como assim? Mistério... Oxe! Não entendeu ainda?
Quero casar com ela! Não é pro seu bico! Ajuda, primo! Tire o cavalinho da
chuva, meu! Preciso, vai! E no meio de disso e daquilo, lá estava ele com o
aparentado remando num barco mar adentro. Lá no alto, só as águas beirando o
céu, o remador foi ajeitar a direção e, sem querer, derrubou Truvunca tragado
pelas ondas revoltas: Pronto, agora reze prela salvar e tudo feito! A sorte
está lançada! Deu-se então um tsunami. Lascou! E aí? Um dia lá, muito tempo
depois: viram-se à praia. Eita, pensei que o parente estivesse ido dessa pra
melhor desde daquele tempo; mas não, tá com a anja da guarda, né? Eu e tu fomos
salvos por ela, bestão! Que bom. Casamos e vamos aprender a voar. Calma, disse
ela. Também sei nadar! Mas quase se empirulitou por duas vezes, não acha que já
tá bom desse brincar de morrer, não? Hum? Veja só: Voar é outra coisa, cuidado
com gente! Os humanos só fazem guerra! Pois é. Então, ali ela entregou pra ele um
arco e duas espigas de milho: uma madura para semear, outra leitosa para
grelhar. O que faço com isso? Ensinou-lhe o hino homérico a Hermes: Saúdo-te,
natureza amável, és para mim de um mui feliz presságio... Levar-te-ei à minha
casa... Ah, tá, Cabeçuda! Repetiu tudo e ela fez volta-no-meio do
tatu-velho! Sou seu capitari, piloso primo do canastra-gigante, do tamanduá e
do bicho-preguiça, que quero mais? Segure o fandango! Aí, lá pras tantas resolveram
juntar os Tês seguidos por uma enfieira de têzinhos que espoucavam seguindo o
rastro dos festeiros: Tartu-bola, peba, mão amarela, tartupoiú! Tartu-cascudo,
peludo, rabo-de-couro, galinha do sul! Como é que pode? Ora. Acta est fabula,
parlenda: Salve, tartaruga; e viva o rabo do tatu! Até mais ver.
Linda Buck: Faça algo que te apaixone, algo que você simplesmente precise entender, porque é daí que vem a alegria, e também, eu acho, é daí que vêm as grandes descobertas... Veja mais aqui.
Mairead Corrigan: Se quisermos colher os frutos da paz e
da justiça no futuro, teremos que semear as sementes da não violência, aqui e
agora, no presente... Veja mais aqui, aqui & aqui.
Shirley Hazzard: Existe equilíbrio na vida, mas não
existe justiça. Na verdade, não se ganha nada com a experiência; aprende-se
apenas a prever o próximo erro. Às vezes, certamente, a verdade está mais
próxima da imaginação ou da inteligência, do amor, do que dos fatos? Ser
preciso não é o mesmo que estar certo... Veja mais aqui, aqui & aqui.
OF WOMAN TORN
Imagem:
Acervo ArtLAM.
Filha de
palestine \ fazer amor pode ser tão perigoso \ como toques de recolher
quebrados \ guerrilheiros escondidos \ você se junta agora aqueles que não vão
embora \ a terra assombra minha \ dormir quem observa o meu \ de volta sempre
que eu colocar \ os suicídios forçados o \ mortes por dote e \ nora \ decapitado
por \ seu pai sobre seu proibido \ lua de mel ele desfilou \sua cabeça através \
cairo para provar sua \ masculinidade isso é 1997 \ e eu só posso esperar \ você
tinha uma canção especial a \ poema memorizado um segredo \ que te fez sorrir \
Isto é um amor \ poema cause i love \ você agora mulher \ quem viveu tentou \ amor
neste mundo de \ facões e pecado \ Eu sinto o cheiro de suas cinzas \ de zaatar
e amêndoas \ sob a minha pele \ Eu carrego seus ossos.
Poema da
escritora e ativista político palestino-estadunidense Suheir Hammad, autora das obras Born Palestinian, Born Black (Harlem River Press, 1996), Drops of This
Story (Harlem River Press, 1996), Zaatar Diva (Cypher Books, 2006) e
Breaking Poems (Cypher Books, 2008).
SOBRE O ESTUPRO –
[...] Se um homem lhe
der um soco no olho, não se espera que você tenha implorado para que ele não o
fizesse para que o crime seja considerado agressão. Se você estiver sentada no
caixa e alguém exigir o dinheiro, você não será acusada de consentimento se
simplesmente entregar o dinheiro. Somente em casos de estupro é que a prova de
resistência se torna relevante. [...] Assim como não é o pênis que comete
estupro, nem a testosterona que o motiva, nem mesmo um desejo sexual
avassalador, a castração, seja cirúrgica ou química, não eliminará o ódio dos
homens pelas mulheres. [...].
Trechos extraídos da obra On Rape (Bloomsbury Publishing, 2018), da escritora
e jornalista australiana Germaine Greer. Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
ME CHAMARAM DE LEOA: A LUTA DE UMA MENINA PALESTINA PELA LIBERDADE – [...] O riso
transmite uma mensagem poderosa: ainda estamos vivos, ainda estamos rindo e
amamos a vida. [...] Não somos cidadãos de Israel; tampouco temos voz ou
direitos políticos no Estado que controla todos os aspectos de nossas vidas.
Estamos presos à incapacidade de planejar nosso futuro, de viajar livremente ou
mesmo de nos deslocarmos pelo nosso território de cidade em cidade sem ter que
cruzar postos de controle militar. Precisamos de permissão para construir
nossas casas, para viajar, para trabalhar — todos os direitos e liberdades
básicos que você poderia considerar garantidos vivendo em uma sociedade civil
simplesmente não existem quando se vive sob ocupação militar. Não é uma vida
fácil, e ainda assim, é a única que conheço. [...] Peço também que se
lembrem da sua humanidade, porque é ela que vai determinar o que farão quando
virarem estas últimas páginas e fecharem este livro. Vão se solidarizar com a
causa palestina e ajudar da forma que puderem — seja conscientizando outras pessoas,
pressionando o governo ou se informando mais sobre o que está acontecendo? Ou
vão ignorar o que aprenderam, largar este livro e seguir com a vida como
sempre? A escolha é sua. [...] Os palestinos representam 20% da
população de Israel e, apesar de viverem em sua própria pátria, Israel os
relega a um status de cidadãos de segunda ou até terceira classe. Um dos meus
colegas descobriu que mais de cinquenta leis discriminam os cidadãos palestinos
de Israel com base unicamente em sua etnia. Outro comentou como os recursos
governamentais são desproporcionalmente direcionados aos judeus, deixando os
palestinos com os piores padrões de vida na sociedade israelense, com as
escolas para crianças palestinas recebendo apenas uma fração do investimento
governamental destinado às escolas judaicas. Eles também falaram sobre a
dificuldade que os palestinos enfrentam para obter terras para moradia,
negócios ou agricultura, porque mais de 90% das terras em Israel pertencem ao
Estado ou a agências paraestatais (como o Fundo Nacional Judaico) que
discriminam os palestinos. E lamentaram o fato de que, se eles ou algum parente
se casassem com um palestino da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza, não poderiam transmitir
a cidadania israelense ao cônjuge, devido à Lei de Cidadania e Entrada em
Israel. O cônjuge sequer conseguiria obter o status de residente para morar com
eles em Israel. Isso significaria que seriam forçados a deixar Israel e se
separar de suas famílias para viver com o cônjuge. […]. Trechos extraídos
da obra They Called Me a Lioness: A Palestinian Girl’s Fight for Freedom
(One World, 2022), da ativista palestina Ahed Tamimi.
A ARTE DE PALLY
SIQUEIRA
Queremos, sim,
mais produções lideradas por mulheres, protagonizadas por mulheres e com
questões pertinentes a nós. Somos a maioria da população e já estamos fartas de
ocupar o segundo plano... As pessoas em sua maioria se sentem perdidas, cheias
de dúvidas, eu me enquadro muito nessa porcentagem. Mas o que me assusta tem
sido ver a onda fascista que tem se levantado, eles agem de uma forma muito
organizada e bélica. Quando perdemos a capacidade da empatia algo está errado...
Trechos da
entrevista concedida ao jornalista Vinícius Nader (Correio Brasiliense, 2018),
pela atriz, autora e artista plástica Pally Siqueira. Veja mais aqui
& aqui.
&
Ascenso Ferreira
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Selma do Coco
aqui.
Antônio Nóbrega
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Micheliny Verunschk
aqui, aqui & aqui.
Luiz Marinho
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Katia Mesel aqui,
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Cecília Brennand
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Solano Trindade
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Educação
Linguística aqui.
&
Grêmio Cultural
& Noites Palmarenses aqui.





