domingo, agosto 30, 2020

BAUDELAIRE, GAUTIER, DÉLIA FISCHER, MONTESSORI, ANGELI, SÉRGIO GODINHO & BETH DA MATTA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... LEVIANDADE DEMAIS... - Apesar dos milhares de mortos diários e do estouro de casos de reinfecção, a vida parece normalizada para muitos indiferentes. Depois de quase seis meses enclausurado, saio às ruas e as pessoas para lá para e para cá, como se nada de extraordinário acontecesse no planeta. Fiéis de todos os credos saúdam entre si e não uns aos outros, o que me chamou atenção, uma discussão entre rivais religiosos. Longe de mim os donos do que dizem não mais que farsa do berço ao túmulo, os que governam sobre aqueloutros nem tão incautos assim, teimosos que são sabidos e submetem a quem do mando a caolhice para a verdade mais absoluta. Assim o fazem como se donos de tantos outros, a se acharem doutos do destino alheio para obediência e temor dos subalternos. É assim e definem o que é permitido ou proibido de sua crença furiosa com seus castigos. Faça não, senão eles inventam no exótico de suas excentricidades sofismáveis o que possa caber no entendimento das verossimilhanças mais esdrúxulas. Ah, são eles lá coisonários e se acusam de infames, sequer ouviram Maria Montessori: As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. E guerras fazem com o seu embusteiro e apoplético credo, jurando ao deus para que haja um céu pros seus escolhidos e um inferno pros desafetos. Assim, só os asseclas e só eles são os irmãos da verdade, em fé e vida, para o bem e o certo, os demais excluídos que fervam nas caldeiras demoníacas das desgraças escatológicas. Enquanto isso, explodem escândalos no noticiário com seus guias e mentores, nem se dão conta, os seus mesmo que cometam crimes cabeludos, são santos e absolvidos na fé exclusiva. Pois é, a vida passa sob todos os seus juízos sectários, incapazes da diferença. A vida passa, eu sei, vou com Théophile Gautier: Nascer é apenas começar a morrer. E viver, uma dança transformadora e muito longe disso tudo. Vou nessa.

DOIS ESTALOS E UM MONTE DE IDEIAS – No meu recolhimento de sempre, ouvia uma bela música, imagens tantas surgiram por cenário e me davam um futuro possível da conquista embalado pelos tons. No começo um tanto disformes, depois tomavam corpo e se apresentavam reais à palma da mão. Sabia de Charles Baudelaire: A imaginação é positivamente aparentada com o infinito. Como foi a imaginação que criou o mundo, ela governa-o. A canção instrumental me embalou numa viagem imagética interminável até outra canção soar com afago: era Délia Fischer cantando bonito o Meu tempo (Tempo mínimo, 2019) e a me dizer amável & linda: Exatamente, a minha busca é essa. Busco a música, tem um acorde aqui, uma levada lá. Fico querendo entrar na música como um todo. Me vejo a cada dia mais aberta para interpretar e buscar uma visão própria, que tenha a minha marca. E do seu talento desde o Duo Fênix vou curtindo umas e tantas interpretações, a vida é outra que não esta de tanta calamidade, uma vida feita de sonhos em que viver em paz e com todos é fundamentalmente possível. Nessa também vou.

TRÊS ESTALOS & UM OUTRO OLHAR PARA AS COISAS – Ah, os meus dias, persigo tão desajeitado quanto distraído, e algo me chama atenção nas entrelinhas das coisas, isso sempre e a ponto de atentar para mínimos detalhes entre o fecundo e o necessário. É nessa hora que ouço a troça de Angeli: Quando a gente vai ficando velho, percebe que a adolescência é mais longa do que se espera. Sequer senti o tempo passar tão rapidamente, nem o envelhecimento. Ainda ontem eu pulava o muro do quintal para pegar a bola que pulou fora e a vizinha nua se bronzeando na grama, aos gritos com minha intromissão. Quantas de anteontem ou do mês passado, acho, sei lá, um dia desses aí e nem lembro. Mesmo com as dificuldades motoras, as dores nos quartos e coluna, aqueles esquecimentos imprevisíveis, mesmo assim o coração assobia como se menino entre pássaros e flores no quintal, com o Sérgio Godinho poeticamente cantando: Sem cordas que os amarrem a descoberta de novos campos. Sem memórias, livres correm velozes ou a passo, por dias soltos. Bonito esse seu Primeiro dia, assim voo e vivo. Até mais ver.

A ARTE DE BETH DA MATA
Nossa história precisa ser reescrita. Como artista e cozinheira, abri uma nova pesquisa que é a comida brasileira a partir dos índios, que têm muitas técnicas que foram apagadas da história. Aqui já havia a prática do pirão, bebida fermentada e o domínio da mandioca, por exemplo, antes dos europeus chegarem. Os povos indígenas foram muito silenciados. Há pouco conhecimento sobre sua cultura. Após essa experiência de descolonização, estou em reconciliação com quem sou de fato.
A arte da artista plástica e performática, curadora e gestora pública Beth da Matta (Judith Elizabeth da Matta Ribeiro), que também possui formação em Gastronomia e é atual diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM). Veja mais aqui & aqui.


sexta-feira, agosto 28, 2020

CZESŁAW MIŁOSZ, GOETHE, LILIANE DARDOT, RYANE LEÃO & ITAMARACÁ


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... CORAÇÃO PAÍS, PAÍS CORAÇÃO... - Quando só coração, sou mortal e apenas uma certeza no meio de emoções, afetos, epiderme e vísceras, sístoles, diástoles. Ademais, interrogações demais. Assim seja. Ouço Czesław Miłosz: A voz da paixão é melhor do que a voz da razão. Quem não tem paixão não pode mudar a história. E sobrevivo três refeições do dia, paixões demais, sono incontrolável, sede, esperas e previsões, dias livres e fartos, senão felizes ou não, diferente que seja destes tão deprimentes, horrores e ameaças. Lá fora talvez algum consolo, ninguém sabe pior ou melhor, valho-me do que sou: duas mãos, braços, pernas, olhos, músculos, ossos, ah quem tem um não tem nenhum, melhor três, assim tudo era melhor, por que não quatro ou mais, não sei, desperdiçam até o que tem de pouco e querem mais só por querer, talvez tédio ou insatisfação do possuído, só pelo maravilhamento da posse, ou lembrar do que tem ou não, afinal para alguma coisa serve a memória ao que do coração e o insondável, a inevitável catábase para que saiba da sujeição e resistência, interstícios e totalidade, a queda para as dores da tirania e depressão, abandono e torpor. É a vida e seja como for eu vou.

DOIS SUPAPOS & UM SUSTOImagem: Arte da pintora, desenhista, gravadora e professora Liliane Dardot. - Quando não só coração entre notícias e alarmes, avisos de que a vida passa e eu sozinho entre músicas para alegrar o âmago e ver que a vida não é tão grave assim. E Goethe me diz que: Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira. E da felicidade que sei eu além dos instantes a cada semáforo para saber aonde fui ou onde estive, o rio corre solto ali enquanto preciso de recursos para me dizer quando seguir ou parar, segurança e prevenção. O verde diz estar livre, talvez por isso desmatem ou queimem tantas matas e florestas; o amarelo diz atenção, talvez por isso a riqueza não seja para todos, careça de cuidado para não se empanturrar e enlouquecer; o vermelho diz do perigo, tudo tão iminente agora, talvez por isso o sangue da vida não valha nada, razão pela qual se lavam honras e abatem-se vivos, quantos mortos que não são só estatísticas, um a mais e a dói fundo na alma. E tudo se faz de silêncios, barulhos, choros e risos, açodamentos e preocupações, suspeitas e danos. Entre otimismo e pessimismo vivo, eu sei mais: acho que nem tudo é só péssimo e ótimo, cada qual suas diversas formas de percepção e gradação, na verdade era só necessário um pouco mais de compaixão, eu sei e a dor é grande.

TRÊS VERSOS & MEIA PROSA – De coração para coração, eu aqui e outro ausente, são confusões sem ter nem pra quê, coisa do vai ou racha, e acelerar, frenar, debrear, seguir adiante, paralisar, não quero nada disso, só quero amar. Ih! E agora? Muitos contrariados esbravejam, poucos contemplados seguem felizes e a vida é essa corda bamba ou sorteio de loteria. O poder está louco, eu sei, e enlouquecemos juntos nessa meritocracia, mera dissimulação, escolhas escusas, eu sei e tudo vai escorrendo e descendo a ladeira, escapo o que posso para não ser levado de roldão e naufragar na areia movediça desse tempo louco. Então abro os olhos e parte do que posso compreender me é revelado, ainda bem. Ao fechá-los, o universo acontece em mim: clausura e voo entre o lírico e o épico, mansardas de antinomias, falar ou não, ter o que dizer, lembrar ou fazer e eu vencido num canto da sala. Até que tudo nela brilha e queima & ela, Ryane Leão: ouça suas cicatrizes só elas sabem o segredo da sua cura. Preciso curar minhas dores e já. Ao ver-me escurecido, quase inválido ali aos trapos, ela me disse um verso amável: meu corpo enredo pedindo o seu carnaval. Quase salto aos olhos, já nem sei quem governa o tempo porque nunca soube, ninguém sabe, nem quero saber, porque assim vivo quase sem saber de nada que acontece do outro lado da rua nem da esquina em diante, essa vida entre a vontade e a loucura, entre os instantes de gozo e o que há de tanta espera. Assim sou e há muito mais, combatente ou ambulante, sigo e voo. Até mais ver.

ITAMARACÁ, UMA CAPITANIA FRUSTRADA
[...] a freguesia da ilha de Itamaracá, que compreendia tanto a ilha como uma porção do continente que ficava limítrofe com Igarassu, já em Pernambuco. Na ilha, a vila da Conceição, com a matriz de Nossa Senhora, Casa da Câmara, candeia e pelourinho, era o principal centro, enquanto à beira mar ficavam duas povoações, a de Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora do Ó. Na ilha existiam três engenhos de açúcar e várias salinas [...]. No continente localizava-se o povoado de Pasmado [...]. As facas fabricadas em Pasmado foram famosas até as primeiras décadas do século XX. A importância desta freguesia era grande, de vez que, além das atividades artesanais, da produção de açúcar dos seus cinquenta e um engenhos, da produção de sal, da criação de gado, da pesca, de variadas lavouras, dispunha de cinco mil e seiscentos e trinta e cinco fogos e vinte e quatro mil e trinta e quatro pessoas de desobriga. [...].
Trecho extraído da obra Itamaracá, uma capitania frustrada (CEHM-Coleção Tempo Municipal, 1999), do escritor, historiador, geógrafo, advogado e professor Manuel Correia de Andrade (1922-2007). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, agosto 27, 2020

AMADO NERVO, BETINHO, AGOSTINHO DA SILVA, MAN RAY & GENINHA DA ROSA BORGES


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DAS COISAS DESSES TANTOS BRASIS... O Doro nunca se emendou, agora quer consertar tudo! Agora, pode um negócio deste? Nunca é tarde, mas pergunto: Vai dar tempo? Quem sabe. Desde que ele virou a cabeça fã daquela atriz que dizia durante a campanha de 2002 que tinha medo, ele mesmo passou a repetir por aí: Eu tenho medo do Brasil virar uma desgraceira braba! Ele, como a atriz, tinha medo de tudo, até da esperança equilibrista, do Natal sem fome e até do Betinho, aquele ser incandescente de dignidade: O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida. Isso o Doro não ouviu e na última eleição, idem ação da sua idolatriz, também coisou: com ele deu Coisonário na cabeça do primeiro ao quinto, no grupo, centena e milhar. Pois é, o tempo passa. Nem bem um ano e meio depois, ele entra em estado de soslaio: Como é, hem? Hummmm... E começou a assuntar: manchas de óleo nas praias do Nordeste, fogo assassino do Dia D na Amazônia e no Pantanal, Queiroz sumido da rachadinha e depois preso e com grana na primeira dama, o terraplanismo (oxe, mas a terra num é redonda, meu?), o negacionismo (ah, sim, nego enquanto puder e de pés juntos, abro não!), perdão das dívidas das evangélicas e do agronegócio em plena pandemia e isso, aquilo, aqueloutro, peraí! Como é que é? Etceteras outras e peibufe cois&tal, até adesão ao jogo do Centrão – aquele da velha política fisiologista formada por deputados dos PP, Republicanos, Solidariedade, PTB, PSD, MDB, DEM, PROS, PSC, Avante, Patriota & Pêessedêbê (PSDB meeeeesmo) e num sei quantos fdps dos pqps, articulados em torno da liderança do presidente do Congresso Nacional (quem é?!?) e, vixe, ainda perguntam por que o Maia não aceitou os trocentos pedidos de empeachment!?! Dá para entender ou quer que eu desenhe? Que é que foi, Doro? Rapaz, o negócio é sério! Como assim? Fui enganado, estou pior que corno quando descobre a furunfada da nega véia lá de casa com safadeza pra cima dum pintudo amolegado e saindo na minha testa! Que é que há, rapaz? Eu pensei que o cara fosse limpo, mas é mais sujo que pano de chão depois da maior farra, com a especialidade de matar e de usar tanto óleo de peroba a ponto de mentir chega o cu dele apita que ouço daqui, meu! Eita! Como é que fui cair numa esparrela dessa? Ah, Doro, você e 57 milhões de eleitores caíram nessa, até gente instruída, coisa inacreditável, afora mais de 42 milhões de votos nulos e mais de 2 milhões e meio em branco! Ah, eu sei, estou de olho neles, alguns tão acordando; outros, nossa, que povo mais dorminhoco! Pois é, Doro, o ódio já passou dos limites. É, vou chamar na grande: Acorda, gente! Ainda hoje passou por mim rouquinho da silva de tanto gritar!

DUAS CENAS & UM TEATRO SURREAL – Imagem: Black and White (1926), do fotógrafo, pintor e anarquista estadunidense Man Ray (1890-1976). - Cena 1: Duas lindas garotas discutiam com o garçom que se negava atendê-las. O atendente chamou o gerente e este reiterou a impossibilidade de atendê-las. Ora, mas por quê? Não dava para entender. Armou-se o maior escarcéu, protestos gerais. Já me levantando para mandar o garçom servi-las que eu pagaria, quando uma lindíssima jovem apareceu do nada – tinha as faces maquiadas com pétalas de gerânio e as sobrancelhas marcadas com cinza de fósforo, olhos vivos, lábios salientes, decote atravessando os seios, vestido colado às suas formas corporais e ao longo da cintura pelas coxas e pernas aos dedinhos dos pés delicados. Cena 2: A encantadora jovem que parecia não ter nada a ver com as duas insatisfeitas, arregaçou a saia até o joelho, pôs o pé na cadeira e subiu na mesa para um discurso com voz estridente: Nunca mais ponho o pé nesta espelunca! Sem chapéu, sem sapatos e sem calcinha! E levantou o vestido até a cintura, de fato: cabelos soltos, descalça e nua! Uma ovação. Cena 3: Intervi e contornei tudo, acertando logo com o garçom e o gerente, mandei servi-las no que quisessem, enfim, levei tudo a bom termo apaziguando o pandemônio, o que me fez ganhar a simpatia delas, logo aboletadas à minha mesa. Pronto. Conversa vai, conversa vem. Como é seu nome, linda? Kiki (na verdade Alice), falava pelos cotovelos nervosamente: Eu estava tão feliz que a pobreza não me afetou. A palavra pesar era como hebraico para mim. Simplesmente não significa nada. Olhava pros lados, inquieta, instigadora e, de repente, virou-se para mim e disse: Você fala muito sobre amor, mas não sabe como fazê-lo. Eu, como assim? Bláblábláblá! Olhei para as outras duas que apenas riam de tudo, inclusive de mim. Dei minhas risadas, mesmo sem entender as piadas ou o que eram delas. Ela então fitou decididamente nos meus olhos e inquiriu: Qual é a sua? Aí dei uma de Man Ray: As ruas estão cheias de artesãos admiráveis, mas tão poucos sonhadores práticos. Uma das satisfações de um gênio é sua energia e obstinação. Os truques de hoje são as verdades de amanhã. A conversa rolou meio sem sentido, com esquisitices, afirmações soltas e senso atordoado pela embriaguez, de bar em bar, no cinema, pensei pintá-la ou fotografá-la, ela recusou: Fotografia não é arte, hehehehe, eu e elas, noite madrugadadentro nem sei como, sei que amanhecemos juntos e ela topou posar nua para minha arte.

TRÊS OLHADELAS, NENHUMA CONCLUSÃO – Imagem do fotógrafo, pintor e anarquista estadunidense Man Ray (1890-1976) – Poderia dizer que já vi de tudo; não, acredito que não, mas já vi um bocado de coisa que fugiu do sensato para a calamidade. Sim, coisa para lá de impensável, doidice das grandes, mesmo para quem que, como eu, professo aquela do Agostinho da Silva: Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo, cada um deles só exprime metade da vida. Sou do paradoxo, que a contém no total. Sim, pois medo de nada nem da morte, enxergo razoavelmente bem apesar da idade, só tenho dores nas costas da coluna ou dos dentes, ou no anular da mão direita, entrevado que só ou um talho qualquer de perder o esparadrapo, esqueço de tudo, péssimo com datas, não sei do calendário e ando impressionado com o tanto de estúpidos que aparecem cada vez mais a cada momento, e lamento muito o crescente número de mortes deste genocídio, ouvindo Amado Nervo: Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Aqui, pontualmente não sei que horas são e se vai dá pé, não sei. Sei que há sinais por todo canto e para todo lado, é só olhar direito, os sinais estão para serem descobertos. Descubra, eu persigo na minha. Até mais ver.

GENINHA DA ROSA BORGES, A DAMA DO TEATRO
É preciso sonhar, ousar e trabalhar. Assim os sonhos se realizam. Não tenho preferencias, qualquer personagem depois de vencida é por mim vivida e interpretada sempre com muito carinho e honestidade. Quando conseguimos senti-la integralmente é o que basta e estamos compensados. Fizemos um bom papel.
Trechos extraídos da obra Geninha da Rosa Borges, a dama do teatro (AIP/CEPE, 1997), de Márcia Botto, sobre a trajetória da premiadíssima atriz Geninha da Rosa Borges.
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quarta-feira, agosto 26, 2020

CORTÁZAR, EDUARDO GALEANO, AGRIPPINA VAGANOVA, APOLLINAIRE & MARACATU


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... ANDANÇAS, ERRÂNCIAS... - Não há outra coisa a fazer do que rever o feito diante do futuro que só tenho neste exato momento, ou nenhum. Ou seja, ruminar o que fiz ou deixei de fazer. Sei, a primeira vez que larguei o pé no mundo, não lembro, acho, aos dez anos: bigodinho precoce segurando a venta sobre os beiços, uma baforada contra o vento, uma espiada pela fresta da porta de uma delas, uma lapada de dois dedos no copo, era tudo que não podia e coragem no gole, vontade além da conta – era a minha contribuição para sobrecarga da Terra. Fiz e refiz, peito estufado, menino-homem, ah, se era. Fui e tantas vezes regressei dali em diante, andejo, nariz empinado em qualquer direção, carregado de lembranças e sonhos, estrada afora, jornada de muito, até agora. Nesse curso, bem lembrou Julio Cortázar: Cada vez irei sentindo menos, e, recordando mais. A memória é um espelho que mente de forma escandalosa. Fabulação à toa, aos montes, contei no amiudado do tempo corrido, e ele também me falou das andanças de dedos na caneta pro papel: Escrever é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta. De fato, rabiscos e reminiscências, outras tantas garatujas de rememorações. Acabei de crer: sou um sujeito de esquecimentos e recordações involuntárias, parece mais corda repassando fatos uns por sobre outros, imagens tantas do que fui e nem sou mais, vou nessa, muita trilha pra tirar.


DUAS PASSADAS, CAMINHOS, PARAGENS... - Quanta estrada, abundantes histórias, de umas e outras inventadas, quantos envultamentos, maiores assombrações. Oriunda das crendices, coisas que foram ficando, e no meio de algumas delas identificadas patranhas emergentes. Na maior parte, metáforas cuspidas da sabedoria. Disso Eduardo Galeano me disse: Os contadores de história, os contadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seu filhotes. Sim, só aqui não tem neve e a coisa pinta assim no pingo do meio dia. Já vi gente contar cada uma de parar o tempo, a correnteza do rio, tudo paralisado, e a gente tremendo de medo. Com efeito, de menino até crescido, no pé do ouvido, lá barulhava recorrentes narrativas dos da terrinha – coisas de antanho, do arco da velha -, da minha avó esquecida do acalanto, malsinações, encantamentos, dos aboios dos vaqueiros e das toadas dos matutos sabidos, coisa da boa dos prazeres da Literatura de Cordel e dos alfarrábios do Cascudo. Ah, coisa mais maior de grande no coração.

TRÊS PEGADAS, DESTINOS, VISAGENS... – Imagem: a bailarina e pedagoga russa Agripina Yakovlevna Vaganova (1879-1951), pelo fotógrafo tcheco František Drtikol (1883–1961) – Sou muitas histórias, sim sou, daquelas indefinidas, intermináveis – coisa de quem tomou água de chocalho, de soltar lorota de manhã e bater a língua nos dentes tarde afora, emendar tagarela noite adentro e no final ainda perguntar: quer outra, ah, hahahahahaha. É muita corda prum Pinóquio da ventriloquia, feito Nitolino no Circo Itinerante. Ainda conto inúmeras, para cima e para baixo, indo e voltando, quase infinitas porque ainda tenho não sei quantas ainda para contar. Como aquela em que ela, tal Agrippina Vaganova, linda, nua, maravilhosa, bailou no meu prazer. Coisa de jamais esquecer! Ah, ela, para sempre inesquecível! Mesmo que Guilhaume Apollinaire insista no verso: Vamos passando, passando, pois tudo passa / Muitas vezes me voltarei / As lembranças são trompetas de caça / Cujo som morre no vento. Vamos, vamos mesmo, vambora. Dos passos nódoas de um enorme passado, fuga da memória e paisagens limítrofes, ave de arribação. Qual o quê, as mãos expressam o dia do desiderato, o que sou nesta terra que me fez. No meu corpo as dores de moedas inválidas, excesso de chão na sola dos pés, caminhos, destinos, paragens. A gente tem que ir, fomos feito pra isso, seguir e viver. Carpe diem! Até mais ver.

MARACATU DE BAQUE SOLTO
Apesar da pobreza em que há tanto tempo se debate o Nordeste, do ponto de vista da Cultura do nosso Povo tem uma força que me comove e alenta. [...] e chama que temos o dever legal aos que se seguem, renovada e recriada para expressar nosso país, nosso povo e nosso atormentado e glorioso tempo.
Trechos do prefácio de Ariano Suassuna para a obra Maracatu de baque solto (Quatro Imagens, 1998), de Pedro Ribeiro e Maria Lucia Montes, tratando sobre a cana, os brincantes, a festa, maracatu e maracatus, no cenário dos municípios de Carpina, Nazaré da Mata, Aliança, Igaraçu, Vicência, Tracunhaem, Pau d’Alho, Araçoiaba, Glória do Goitá, Lagoa de Itaenga, Feira Nova, Lagoa do Carro, Buenos Aires, Chã da Alegria, Goiana, Itaquitinga e Condado, em edição bilíngue e fartamente ilustrado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


terça-feira, agosto 25, 2020

BYUNG-CHUL HAN, NIETZSCHE, NANCY HOLT, JOSUÉ MONTELLO, GRANJA SÃO BENTO & AS FACES DO DR LAO


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... UMA ENTRE OUTRAS FACES DO HORROR - Ninguém sabe de nada, calendário incerto, vida de um olho a outro no horizonte e a mortandade em ascensão, rondando e escapulo, quantos sucumbem desde as previsões da Johns Hopkins e o simpósio Evento 201, em outubro. Tem horas chego arrepiar, porque trouxe à tona o terror de The eyes of darkness (1981), de Dean Koontz, com o primeiro caso que estourou janeiro em Macau, quando em Pequim passaram a usar máscara na estação de trem e durante as buscas no mercado atacadista de Wuhan, enquanto a contaminação já avançava na Malásia e ganhava o mundo se espalhando rapidamente. No Brasil, tudo aqui em férias, só se falava de carnaval como sempre depois da virada do ano, todo mundo nem aí e Koots era o gatilho para as teorias da conspiração, já que o surto pandêmico grassava e saiu varrendo o mundo. Quando passou a folia, foi que a gente tomou pé da situação e ninguém mais soube de nada daí em diante, nem a do Eric Toner atuando desde 1980 na preparação da saúde para eventos catastróficos, gripe pandêmica e resposta médica ao bioterrorismo, autor de inúmeros artigos a respeito, inventou de organizar várias reuniões com líderes mundiais e grandes corporações, visando a preparação de hospitais para enfrentamento da crise pandêmica, resultando, mesmo com a antecedência dos anúncios da Hopkings, em pleno fracasso. A iniciativa antecipada do capitalismo de combater a pandemia malogrou e, como no passado, tudo é encoberto e os dados manipulados. E daí uma coisa apenas é certa: mesmo com subnotificação, ausência de testes e má vontade política, milhares diariamente vão desaparecendo para nossa real consternação e incerteza. Essa uma das faces do horror, respirar está ficando cada vez mais difícil.

DUAS PRAS SETE - Vi As sete faces do doutor Lao (1964), o premiado circo itinerante de George Pal, a despertar curiosidades e constrangimentos. Vi uma a uma delas, cada uma, e me impressionei. Baseado na obra homônima do professor, abolicionista e avivalista estadunidense, Charles G. Finney (1792-1875), uma metáfora sobre o poder e os desejos mais ocultos e obscuros de cada um. A mim me parecia cada uma delas aquilo que fui e sou. Vi e era Apollonius, Merlin, Pã, a serpente gigante, a Medusa, o homem das neves, afora me tornar o magnata Stark e, ao mesmo tempo, o seu opositor Cunningham para a realização dos sonhos da bibliotecária viúva, Angela, tendo tempo ainda de sonhar com a excitação sensual da Kate Lindquist na cena com Pã, nada mais real para a minha criativa solidão. Aí a falta de energia me deixou fora do ar. Nessa hora Nietzsche soou humano, demasiado humano: Por falta de repouso nossa civilização caminha para a barbárie. É o que confirma na Topologia da violência (Vozes, 2017), o filósofo Byung-Chul Han: Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização. Sem descanso e insone a gente vai persistindo, perseverando, impossível dormir e acordar do sonho, nefelibata e somítico até não aguentar mais. Esta a nossa guerra diária, o lamentável expediente da guerra.

TRÊS IDEIAS E É POSSÍVEL SONHAR: AINDA HÁ ESPERANÇA... (Imagem: Sun Tunnels: Sunset, 1976, da escultora e artista conceitual estadunidense Nancy Holt (1938-2014) – O Sol nasce no horizonte e a esperança me leva outra vez para vida. É maravilhoso viver. Ouço a voz de Nancy Holt na sua performance do Boomerang (1974): Sim, posso ouvir meu eco! Na sua voz, alimento minhas utopias, são tantas, assim vivo. Em apoio, Josué Montello: O que caracteriza a utopia é constituir uma aspiração que ultrapassa o indivíduo que a formulou, e o tempo imediato, para ser uma aspiração de muitos, e para muitos, num tempo futuro. Pode-se dizer, sem receio de erro, que a utopia é consubstancial à condição humana. Ninguém realiza sem sonhar. Para realizar eis a minha esperança: o poder de sonhar cada vez mais e sempre é o que me faz viver plenamente. Até mais ver.

O MASSACRE DA GRANJA SÃO BENTO
Houve um tempo no Brasil, não muito distante, de criminalização do pensamento. O pensar diferente que exerciam o poder pela força das armas levou milhares de pessoas às masmorras da ditadura, ao sofrimento físico e moral das torturas, do banimento, à clandestinidade, e às famílias as dores da morte e angústia sem fim do cruel desaparecimento. A repressão política agiu sempre ao arrepio de todos os princípios jurídicos reconhecidos pela Ordem Internacional para assegurar os direitos humanos e as garantias individuais, com desrespeito aos tratados e até mesmo às próprias normas internas impostas no período ditatorial que buscavam simular um estado democrático de direito. Nesse quadro, diversos foram os acontecidos a marcar a brutal violência imposta aos militantes da oposição pelos agentes do Estado a serviço dos que exerciam com mão de ferro o poder expresso pelo uso da força. [...].
Trecho do prefácio do advogado Humberto Vieira de Mello, para o livro O massacre da granja São Bento: a história de como um traidor e um torturador se aliaram em um dos crimes mais brutais da ditadura militar no Brasil (CEPE, 2017), do jornalista Luiz Felipe Campos, um apelo contra o esquecimento sobre o assassinato de quatro homens e duas mulheres militantes contra a ditadura militar, em um sítio da região metropolitana do Recife, em 1973. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, agosto 24, 2020

JORGE LUIS BORGES, CRISTINA PISANO, LEMINSKI, CAROLYN WELTMAN, LEO FERRÉ & BETE GOUVEIA


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... OPERA OMNIA - O quê de ontem no que é tão recente, pouco mais de um ano e a modorra preme, espreme a fadiga, o horror transmuda-se camaleônico, enquanto alguns tantos se estapeiam e negam aos gritos: não há nenhum reparo a ser feito! Como não, cara pálida? As cloacas se escancaram e nem rangem insuspeitas, nem se sabe direito o que é: algo não está conforme. Só excreções e quem sucumbe nelas, das homofagias: cada qual só excreta o que tem na bolsa da valsa e valores, na balsa e nas bolhas, só o sentido do inferno e a cegueira de quem vê e nada, tudo como um simples jogo eletrônico, um peteleco ou tiras de quadrinhos. Nem é para dá a mínima, a cada um o que lhe falta, qual fronteira a se romper, só a do procto, enfim, ou se matam ou se danam. Jorge Luís Borges vem na sirene de alerta das ambulâncias: A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis. As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a idiotia. Por isso todas as cabeças enlouqueceram no muitos e tantos Brasis. E a peste dizima na desimportância de cento e tantos que serão duzentos ou milhões de mortos e quantos mais, e daí, nada demais.

DOIS ANTEONTENS & OUTRO ONTEM HOJE - Olhei no espelho e não era, tudo como em campo minado, como se não houvesse o que retratar no cotidiano, nenhuma beleza, nenhum prazer e lembranças escuras que se reviram com o verso de Paulo Leminski: Haja hoje para tanto ontem. Acordei e me olhei no espelho ainda a tempo de ver meu sonho virar pesadelo. Nada além do quarto escuro na noite enluarada de nuvens pesadas. Baixinho escuto La Solitud de Leo Ferré: Eu sou de um outro país, de um outro bairro, de uma outra solidão. Eu invento atalhos. Eu não pertenço mais... Já não há nada... Na verdade não é outro país é o meu com minha gente nem sei como, e o asceta perdeu o dia e as horas, porque um teve um derrame e nunca mais viu, outro enfartado e o tempo lhe comeu o tutano do talento e correu os demais, enquanto eu só queria a maçã de Cézanne, as tintas no chão de Pollock, quase nada sobrou além da hora minguante e solitária.

TRÊS MINUTOS & NADA MAIS DE NADA - Tudo muito decadente, esse o meu desencanto: a extinção inevitável. Valho-me agora da ternura de sempre da Cristina de Pisano: Assim como os corpos das mulheres são mais suaves que os dos homens, sua compreensão é mais aguçada. Claro, sou dela e sempre serei porque se não fosse a nudez de Carolyn Weltman com a promessa do amor na minha noite desastrada, não teria mais razão para viver, nenhuma mesmo. Quem ao desejo não se submete se é o vetor da loucura com tensão entre códigos e quereres, os pactos conjurados, estereótipos, reacionarismo, crises existenciais, ascensão e queda disso e daquilo, tudo se desmoronando porque é muito falso, quando não hostil: esperanças viram pragas; vida humana ou pedra, tanto faz; um migrante carregando um sonho que seja despido de outros tantos e muitos sonhos que se dissolveram e nunca deixaram de existir. Voo e até mais ver.

A ARTE DE BETE GOUVEIA
[...] a família, muito conservadora, nunca apoiou a opção pela arte. Queria que fosse dona-de-casa ou, no caso de ter uma formação acadêmica, que seguisse Arquitetura ou Direito. [...].
Trecho do depoimento concedido pela premiada artista, pesquisadora e professora universitária Bete Gouveia (Ana Elisabete de Gouveia) para Mulheres nas artes visuais em Pernambuco: um resgate (Comitê de História, Teoria e Crítica de Arte da ANPAP – 25º Encontro – Porto Alegre, 2015), de Madalena Zaccara. Bete Gouveia é professora do Departamento de Artes da UFPE e como artista já realizou exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais e contemplada com um vídeo da série Versa do Departamento de Teoria da Arte e Expressão Artística, produzido pelo Núcleo de Audiovisual da Pró-Reitoria de Comunicação, Informação e Tecnologia da Informação (Procit) da UFPE. Veja mais aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, agosto 21, 2020

IGIABA SCEGO, MONTELO, AGNES DENES, BENTO PRADO, PAULA GLENADEL, ANA LISBOA & SOMA SOMA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DÍVIDA IMPAGÁVEL... Quem aquele só por ter nascido já o culpado de sempre, sem nem ao menos cometer um mínimo ato ou qualquer ação. Quem aquela inocente do amor já com a pena da inveja de todas as acusações, sequer uma escolha que lhe cause o desagrado. De uma, a borboleta carrega as culpas da lagarta, isso é outra coisa, todos pagam. De outra ainda é quem do nada para todos os olhos, o brilho da beleza, a festa do escolhido, algozes ocultos, ardis e manobras. Ou Adua (Nos, 2018), de Igiaba Scego: [...] Sabia que visavam a meu corpo. Não era tão ingênua. Sabia que antes ou depois eu teria que pagar aquele imposto. [...]. E aquela voz da historia e a melhor forma possível de contá-la sobre seus sonhos mais distantes, a mutilação genital e a infâmia. Ou seja, quem herdeiro vítima das previsíveis insatisfações dos postulantes ao poder, ou dos ali agarrados e o rondam no afã da queda, ou a mais inaudita das frustrações mais enraizadas no íntimo daqueles ruminantes contendores de nenhuma perda aceitável para si e só o ganho a qualquer custo e forma. Esses assaltam posse alheia, o direito, o justo; são vencedores na marra com seus golpes de sempre, tristes infelizes por jamais suportarem a felicidade alheia, tristes daqueles com suas ideias inferiores à medição do seu próprio tamanho, porque aos tacanhos os seus próprios destroços e nenhuma poesia há de lhe cair à graça jamais, porque o poema é a redenção e só a quem merece.

DOIS VERSOS E OUTROS DA SAUDADE RECORRENTE – Imagem: ilustração do EP Saudade (Record Sleeve Design, 2019), da banda Soma Soma, cujo som se dá com a fusão de samba, hi-life, afrobeat e bossa – Quem da boca para fora o coração aceso pode sorrir sem sangrar a ausência doída. Aonde for se paisagem esplêndida ou corrimão solitário, o talho de ontem e agora na língua desde a dor anímica. Feito o verso de Bento Prado Júnior: Resta a exaustão, / mãos trêmulas, a cara contra o chão, / resta o lamento. Resta o reinício, / a longa e calcinada espera. Resta-me / reter a força para o outro gesto. O poema lava a alma e eu aprendi com Josué Montelo: Quem tem saudades nunca está só. E a minha voz é o eco das vozes comigo de todos os choros e risos.

TRÊS SÃO PORQUE TUDO É POESIA – Choro e sorrio, a saudade é extrema, a vida prossegue. Sou pela poesia e nela me refaço a todo o momento, como no Teardrop – Monument to Being Earthbound (1984), da artista conceitual húngara Agnes Denes: Lamento muitas coisas sobre a vida humana, sobre a natureza humana. Eu me preocupo com o lado inferior da humanidade, o pensamento ruim versus o bom. Admiro muitas coisas sobre a humanidade, mas também estou ciente de muitos erros que vamos cometer. Isso pode me fazer querer me preocupar com o futuro. Mas acho que vamos conseguir. E é a poesia que me leva até onde não sou e posso estar para enfim ser, como no versar da poeta Paula Glenadel: Atualmente, assim se mostra a poesia para mim: uma ginástica interior visando a uma liberdade maior, a uma espécie de alforria, um modo de naufragar bem, quer dizer, de naufragar bastante e alegremente, de entrar no não-saber da coisa toda, de sustentar o vício da dúvida entre perceber e conhecer, tudo isso na certeza visceral de que pensar pesa. E assim voo porque tudo é poesia, a poesia é tudo. Até mais ver.

ROSAS A MACHADO, DE ANA LISBOA
A arte da gravadora, artista plástica, pesquisadora e professora universitária Ana Lisboa - Ana Elizabeth Lisboa Nogueira Cavalcanti. Veja mais aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, agosto 20, 2020

CORA CORALINA, DÉCIO PIGNATARI, KARL KRAUS, MARTHA MEDEIROS, ROMAN VISHNIAC & ARGEMIRO PASCOAL


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... O EXTRA NO HORROR DE CADA DIA... Passos errantes, de mil em mil, todo dia, conto nos dedos. Sigo na cidade a céu aberto e gente de gelo por ruas e descampados nem sabem dos que morreram desde anteontem, ou melhor, desde o outono, depois das festas do carnaval. As minhas mãos são rios florestais, raios e trovoadas, auroras de mares boreais e geografias inventadas ao deleite, porque a vida está difícil, quase impossível respirar nessa hora de zoadas, indiferenças e aflições. Se colho frutas na estrada, dos galhos não sei envenenados e insetos que nunca vi na fuligem negra do asfalto, enquanto meus pés varrem o mundo na poeira dos ventos e na faixa de pedestre o semáforo apita iminência, para Cora Coralina avisar: O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. Desço a ladeira de pedras e quebro a redoma, a cidade desaba do céu escuro, com todas as paisagens dissolvidas, como se a amanhã fosse a tarde anoitecida e daí, não sei mais de nada.

DE DOIS PARA MAIS DE MIL A CADA DIA (Imagem: The Last Days of Mankind – A Visual Guide to Karl Kraus’ Great War Epic, Artwork by Deborah Sengl). – Dois mundos saem do labirinto, e daí eu não sei qual deles sobreviverá, talvez nenhum. Qual é. Sou esse trânsito louco engasgado na encruzilhada, aos gritos e buzinas, ninguém se entende, estranhos com ofensas mútuas de desumanos aos esparros, todos aos esculachos recíprocos, a nossa barbárie, quantos selvagens, isso somos afinal, reduzidos a isso – a amígdala cerebral encolhida, tão se encolhendo mais, num estalo, sumiu e não mais Homo sapiens ou faber ou ludens ou Deus de Harari, nem nada mais. O chão é móvel e me leva para longe deles. Do zoadeiro da gente de gelo e dos sorridentes de Arcimboldo, em cada esquina uma medusa atônita com o Grito deMunch repete em eco de Décio Pignatari: Poesia é a arte do anticonsumo, e ele, logo atrás me diz: O que me interessa hoje? Passar da tecnologia para a sabedoria. E passam por mim, e são muitos os vultos e envultados multicores e o riso de cada um deles é um quebra-cabeça cheios de charadas, enigmas de não sei quando, ah esse mundo não é mais o mesmo, eu sei; essa vida a qualquer hora vai parar, eu sei, o mundo já parou e ninguém sabe é se haverá quem esteja vivo depois que tudo isso passar, ou se a espécie humana se salvará da extinção daqui mais algumas décadas, não sei, que o diga Karl Kraus: A guerra, a princípio, é a esperança de que a gente vai se dar bem; em seguida, é a expectativa de que o outro vai se ferrar; depois, a satisfação de ver que o outro não se deu bem; e finalmente, a surpresa de ver que todo mundo se ferrou. Ele sorri e ironicamente arremata: O progresso técnico deixará apenas um problema: a fragilidade da natureza humana. Baixei os olhos diante disso e ele se foi com ar de desencanto. Eu sei, quando não somos os carrascos de nós próprios, somos as vítimas para todos nós. Coisas de humanos.

TRÊS IDAS & QUASE NENHUMA VOLTADiante da ameaça de extermínio que nos ronda há tempos, me bate aquela sensação sentida ao ler as obras do fotógrafo e microbiologista russo Roman Vishniac (1897-1990), famoso por filmar a cultura judia antes do Holocausto: Estes são os rostos de crianças que abracei, beijei e amei. Não posso imaginar que eles estejam mortos, que ninguém sobreviveria... Um milhão e meio de crianças entre os seis milhões... Mas isso eu sabia... Eu queria salvar seus rostos, não suas cinzas. Você pode fazer alguma coisa com isso? Sim, você pode chorar. E chorei muito, tanto até e Martha Medeiros sussurrou na minha desolação: Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho. Sim, eu sei. E pude abraçá-la para dizer sim e sou pau-brasil solitário na devastação, em extinção e pronto. Celebro a vida sobre todos os mortos do outono ao inverno, a vida deles para todos viverem. E os levo, pé na estrada, cidade a céu aberto. Gente de gelo nas ruas ermas, passos errantes conto nos dedos. Até mais ver.

ARGEMIRO PASCOAL
A arte do dramaturgo Argemiro Pascoal (1948-2012), criador do Teatro Amadores de Caruaru (TAC), em 1957, e do Teatro Experimental de Arte (Arte), em 1962, criador e realizador do Festival de Teatro Estudantil do Agreste (FETEAG), a partir de 1982, e é autor das peças O testamento, Festa de casamento, O bordel, A epopeia do beato, Um canto de amor, País de Caruaru. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.