domingo, julho 05, 2026

WOLE SOYINKA, CINDY SHEEHAN, MONA AWAD & GORETTI VARELLA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da performance Live at Minotti (Berklee College of Music, USA-2025), dos Eps Rise (2026) e The Dawn (2024) e do álbum Sixth Week (Apple Music, 2026), da jovem pianista, compositora e prodígio do jazz japonesa, Ai Furusato, que possui trabalhos autorais lançados nas principais plataformas de streaming.


 

Bilaro, insólita fuga dum Zé de si mesmo!... - Zé Bilaro ficou órfão de pai e saiu pelo mundo. Olvidou os rogos maternos: não fizesse mais asneiras, bastavam os desatinos paternos agora enterrados. Mal saíra ele capenga dum grande amor, agora duplamente enlutado cogitava sequestrar a amada no dia do casamento dela. Endoidou mesmo, diziam. Ousou finca-pé na esparrela, depois: a cara mais lisa, lavada. Findou: Mas, mas... Depois de muitos atrapalhos, as errâncias dum malfadado. Foi-se: o olhar perdido na lonjura das léguas estiradas, misturando ideais e infortúnios, o regalo de uma módica sombra e o Sol na moleira. Arre! Alguém chamou por um nome que não o seu. Quem? Deu fé: os bichos falavam abeirados, as árvores tagarelavam longínquas, as pedras cochichavam genringonças, um pandemônio, temia caducar amalucado: Onde é que estou mesmo, hem? Ali o morro que perdeu a ponta, imenso. Vixe! E lá ia pelas trilhas de umburanas e grutas, os cânions e a pareidolia, chapadas e desenhos rupestres, a caverna e o sítio de Alcobaça, a Loca das Cinzas e a Gameleira de Buíque, a pedra do Cachorro e o Portal da Igrejinha, a merafusa de Sabadi tangendo seus fiéis pra caverna de Meu Rei, o Morro do Elefante e a caatinga, a Vila dos Breus e a Serra das Torres, a Jurema Preta e o Povoado de Aterrados, o marmeleiro-do-mato e o enxame de abelhas, o feijão-bravo e o Vale das Tartarugas, os Lapiais e o Véu de Noiva, a catingueira e os visíveis sinais do fogo corredor – o compadre e a comadre brincavam de esconde-esconde -, os encantados das furnas do holoceno, Homo floresiensis, Homo luzonensis - Oxe! -, os caboclos encantados, cobras aninhadas, um cachimbo velho e pequeno, ali tudo podia acontecer. Passou a vista e ouviu lá longe soar o uruá dos Kapinawá - sinal do sagrado Kwarup afastando maus espíritos, ou o rito de passagem da furação de orelha. Respondiam takuaras como se fossem o uirapuru – o coração partido do guerreiro Quaracá, a cantar de saudade pelo amor impossível de Anaí. Tal como ele, melancólico. Há quem surpreendido soubesse do canto o seu amuleto de sorte, o poema sinfônico de Villa-Lobos. Ele nem, nem. E se era Oribici chorava de amor, para outros. A surpresa foi possível com os gritos do gigante Mapinguari, quebrando galhos no interior do matagal – ali seu peludo casco de tartaruga, um olho apenas na testa e a boca no umbigo, pés de mão de pilão. Valha-me! Outros silvos, será da flauta de Pã, ou da de Krishna? Arredou, hesitante. Mal escapara e viu logo atrás do Mapinguari, o Ipupiara: ataque comendo parte dos corpos de desavisados, o demônio d’água, seus braços longos, pés de barbatanas, dentes pontiagudos, o corpo coberto de pelos e focinho com bigode. Ô. Ora, ora. Temeroso, ouviu amiudado cochicho: Pare, não responda, o sopro dele dilata o aço do cano da espingarda e você perderá a vida, quieto; os sobreviventes, aos aleijões e nódoas no corpo. Olhos pros lados, virou-se, girou: a paisagem e mais nada. Ué? Psiu! Salvou-se, achou: ares de Tejucupapo! Era Maíra, a Dona Clara com as heroínas guerreiras depois da Batalha, anônimas Marias. Boa tarde! E achegou-se esbaforida, abanando-se acalorada: Mormaço, hem? Era o meio da tarde, puxou conversa e o paradeiro. Ah, estava mesmo extraviado da lucidez. Hum? Acalmou-se com a brisa arranchando-se ao lado dela. E muito ouviu e tomou ciência: ensinou-lhe como o beijo dança contando toda hestória. Entardecia, o Sol cochilava escondendo-se. Ela foi-se apressada e tudo o mais acontecia no trâmite das horas. Anoiteceu com o burlão astucioso Malasartes aos espalhafatos, vinha do Cancioneiro da Vaticana para se encontrar com Cancão de Fogo: Você viu? Não. Inté. E logo seguido pela esperteza e deboche de Camonge, escapando dos bumerangues das armadilhas: Tá ouvindo o Esquenta-mulher? Aguçou as ouças: Não. Rola no oculto, espie direito: o terno da zabumba, cabaçal com o toque de Lampião. Hum? É a Zabé da Loca ensaiando. Logo viu os volteios apaixonados do caçador Papageno com sua amada Papagena, disfarçavam perseguirem no encalço de Sarastro, que raptou a filha da Rainha da Noite. E um cortejo seguia: os apaixonados Tamino e Pamina, o Peer Gynt de Ibsen nos tons de Grieg. Vieram depois Sethos de Terrasson e a Megara de Hafner, caborés e pífanos com as pantomimas das peripécias e artimanhas da farsa do mestre Scapin de Molière, tirando vantagem, como se fosse o filósofo do povo às piruetas inagarráveis, revelando interditos e hipocrisias. E o Fígaro de Beaumarchais completamente desatinado porque perdeu Suzanne e, em vingança, ousou exigir o jus primae noctis de todos os nubentes e dos já casados: Não somos seus servos! E repetia exigente: derecho de pernada, droit de cuissage. Condoeu-se, comiserado: o mesmo com ele. Ali tudo acontecia simultaneamente: o bambu de taboca, Zé Tapera & Teodoro com a roupa nova do rei de Andersen, as proezas de João Grilo, Mainá nas carapebas e Mazzaropi: larga de ser besta! Viu até o duelo da vida com a morte, quando um trio de montanhesas apareceram para roubar suas ideias. Entre elas uma mulher vestida de verde apontava grávida dele. Eu? Uma voz: Seja fiel a si mesmo. Aí deu a volta e aos rodeios passou-se por missionário, fausto comerciante de escravos e vestiu-se de beduíno para ser referenciado como profeta. Enganou a quem? Deu-se diante da Esfinge: pro hospício, imperador de si mesmo. Ah! Invocou socorro quando viu: Deus é o guarda de todos os tolos. E era um velho náufrago em auxílio sinalizando: Descobrisse onde os sonhos têm seu lugar. Hem? Aí foi julgado pelo que não fez, as músicas não cantadas, as obras desfeitas, as lágrimas não derramadas e as perguntas que nunca foram feitas na ameaça de sua alma torrar derretida: Quando foi você mesmo? Sei lá! Procurou confessar e deu de cara com o diabo: Sua vida está perdida, pra sua mãe sua morte nunca deu certo. E correu pra última encruzilhada e lá encontrou a amorante Solveig: Você não tem pecado, está perdido, por onde andou? Hem? E ela: Não direi mais nada... E ninguém sabia dos achaques e temores dele nas copas das árvores, a longuidão dos percalços, o mundo por vencer. Sentiu-se ali banido, acuado, preterido, rejeitado. E agora? Esfregou os olhos, o existir sozinho noutra manhã: o Sol na areia, a ventania libertadora, os túmulos e os cárceres, os pingos de chuva, a brandura das nuvens momentâneas e os vultos andantes. Via-se acontecer alhures ali na hora, sorvia o veneno bento e um pouco de tudo no imperdoável renascer da memória. Eram medonhas lembranças, os anos excedendo as denúncias e revertérios, o avesso de outrora e a descoberta dentro de si da centelha, antes escondida, a preencher seus vazios, num doidivano festejo de realizar-se, cônscio da erradia essência de viver: Estou vivo mesmo ou já morri? Presenciou in loco o Primum Mobile e o Empíreo: era o céu de Dante. Escapava fedendo, por um trisco de nada. Demorou lá mais outro tanto: “Não é um voo para as minhas asas”. Sonhava de olhos abertos no Vale do Catimbau. Até mais ver. 

 

Marcel Proust: Os paradoxos de hoje são os preconceitos do amanhã, já que os preconceitos mais desprezíveis e os mais deploráveis tiveram seu momento de novidade quando a moda lhes emprestou sua frágil graça... Somos curados do sofrimento apenas experimentando-o ao máximo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Edgar Morin: A loucura humana é fonte de ódio, crueldade, barbárie, cegueira... Estamos completamente imersos neste mundo que é o dos nossos sofrimentos, das nossas felicidades e dos nossos amores. Não sentir é evitar o sofrimento, mas também o regozijo. Quanto mais aptos estamos para a felicidade mais aptos estamos para a infelicidade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Botafogo: Muita coisa eu sei, mas muita coisa ainda vai ser surpresa para mim... Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez!... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

NOITE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tua mão pesa, Noite, sobre minha testa. \ Não tenho coração mercurial como as nuvens, \ para ousar. \ Exacerbação de teu arado sutil. \ Mulher como uma ostra, na crescente do mar. \ Vi teu olhar ciumento extinguir a \ fluorescência do mar, dançar no pulso incessante \ das ondas. E eu fiquei ali, exausta, \ submetendo-me como as areias, sangue e salmoura \ correndo até as raízes. Noite, tu choveste \ sombras serrilhadas através de folhas úmidas \ até que, banhada na quente difusão de tuas células salpicadas, \ sensações me atormentaram, sem rosto, silenciosas como ladrões da noite. \ Esconde-me agora, quando crianças da noite assombrarem a terra, \ não devo ouvir nenhuma! Estas células nebulosas ainda \ me desfarão; nua, sem ser convidada, no nascimento silencioso da Noite.

Poema do escritor, dramaturgo e ensaísta nigeriano Wole Soyinka, Prêmio Nobel de Literatura de 1986, que em 1967 foi preso durante a Guerra Civil Nigeriana, pelo governo federal do general Yakubu Gowon e colocado em prisão solitária durante dois anos, por ter se voluntariado como ator mediador não-governamental. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ROUGE – [...] A única jornada que importa no final, Filha de Noelle.” “Retinol?”, sussurro. “A alma. Uma jornada da alma, é claro. [...] Um espelho é apenas um espelho, Belle. Ele só reflete aquilo que desejamos e ansiamos. [...] Havia um espaço ali também, como aquele entre mim e a Mamãe. Como aquele entre mim e todos, dali em diante. Existe um espaço entre mim e tudo o mais desde que você virou fumaça. Existe uma parede de vidro. [....]. Trechos extraídos do livro Rouge (Globo, 2024), da escritora canadense Mona Awad, que noutra obra, Bunny (Globo, 2024), expressou que: […] Nunca deixei realmente de escrever, nunca fiquei sem um outro mundo criado por mim para onde escapar, nunca soube como estar neste mundo sem que a maior parte da minha alma estivesse sonhando com outro e vivendo nele. [...] Os poetas preparam-se para uma pobreza iminente e altamente instruída. [...]. Ela também é autora dos livros 13 Ways of Looking at a Fat Girl (2016), All's Well (2021) e We Love You, Bunny (2025).

 

MÃE SALVADORASou apenas uma mãe normal que tenta salvar vidas e ser o melhor ser humano que possa ser... O nosso país foi assaltado por bandidos assassinos, gangsters que cobiçam fortunas e poder... Quando eu estava crescendo, era 'Comunistas'. Agora é "Terroristas". Então você sempre tem que ter alguém para lutar e ter medo, para que a máquina de guerra possa construir mais bombas, armas e balas e tudo mais... Então, o que realmente me faz é esses chickenhawks, que enviaram nossos filhos para morrer, sem nunca servir em uma guerra. Eles não sabem do que se trata... Precisamos realmente deter as tendências imperialistas de países como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha... Cabe a nós, o povo, quebrar leis imorais e resistir. Assim que os líderes de um país vos mentem, não têm autoridade sobre vós. Esses maníacos não têm autoridade sobre nós. E eles podem ser capazes de colocar nossos corpos na prisão, mas eles não podem colocar nosso espírito na prisão... Não podemos permitir que nenhuma guerra pelo imperialismo ou pela ganância seja travada em nossos nomes. É por isso que temos de continuar a lutar... Se ficarmos juntos como um povo, podemos derrubar os criminosos de guerra que estão comandando nosso país agora... Pensamento da ativista estadunidense Cindy Sheehan (Cindy Lee Miller Sheehan).

 


O UNIVERSO LITERÁRIO DE ADÉLIA PRADO - O que a memória ama fica eterno... Fugir da dor é uma perda de tempo... O sofrimento não tem idioma... Dor não tem nada a ver com amargura. Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável. Cada dia mais rica de humanidade... Não tenho mais tempo algum, ser feliz me consome... O destino não existe. É de Deus que precisamos, e rápido... Quanto a mim dou graças pelo que agora sei e, mais que perdoo, eu amo... Pensamento da poeta, filósofa, escritora e professora Adélia Prado (Adélia Luzia Prado de Freitas). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GORETTI VARELLA

Arte da artista visual, arte-educadora e arteterapeuta Goretti Varella (Maria Goretti de Souza Ferreira), editora do blog Desenhos no meu quintal. Veja mais aqui.

 

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