Imagem: Acervo ArtLAM.
Aroma da
memória, flor despetalada... – Bella não era
Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta
patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina,
muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina
Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do
ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o
frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda
com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita,
a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não
havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa
atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê
desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele
mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase
envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado
numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas,
doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele
dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora,
foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas
fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E
dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com
mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par
perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois
de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e
falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só
queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos
lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de
semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se
engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia,
dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de
afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de
quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou
fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros
quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela,
já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de
repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava
aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih,
essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou
botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio
jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou
a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela
me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no
absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto
de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida,
capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados,
fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram
uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu
tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro
veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos
a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e
ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu
fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou
reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se
retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os
dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou.
Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie
do Michelet e
Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes
assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo
desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao
assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo
mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram
um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de
costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu
o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou
perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era
a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível,
parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável,
bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia,
inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor
da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável
sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe
o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a.
Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele
arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente
por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às
puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os
socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a
violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la
sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada.
Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de
morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada
de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no
amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.
Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.
Wislawa
Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos,
de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma
coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se
tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.
Rebecca
Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode
segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba
portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será
preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras
intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e
marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com
o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.
POBRE
POEMA
Eu escrevi
um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê?
\ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce,
incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros
\ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão
tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste
mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio
que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil
pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?
Poema do
poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido
como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela
linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou
por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi
eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os
vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor
sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente
declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma
linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos
da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os
outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram
tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa —
quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada
na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro,
hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são
a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as
finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que
deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é
neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua
política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi
e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia
mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine,
art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and
Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras
como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My
Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook
of Disappointed Fate (2018).
GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou
consumo. [...] No fim das contas, a
neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo
precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer
um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz
necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a
positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o
senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto...
Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências
negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da
necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...]
Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o
poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se
formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados
a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse
princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna
inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a
maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo
prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance:
não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente
impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há
evidências consideráveis de que é o condicionamento físico — e não o excesso de gordura — que mais importa, e de que esse
condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a
confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da
obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa
australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled:
How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of
Misogyny (Oxford Press, 2017).
DEBATE: POLÍTICA
& VIOLÊNCIA
[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma
espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição
presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no
sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do
momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na
esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o
programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade
das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no
Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou
seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter
seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades,
em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um
mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e
superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil.
[...].
Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de
política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo
historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones
Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na
obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha
pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.
CURUMIM NO
MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú
Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e
diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o
trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América
Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das
redes pública e privada. Confira aqui.
ARTEXPRESSÃO
- O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para
a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido
como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de
Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os
professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que
versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.
VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que
envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil,
como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia
Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna.
As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.
PROEZAS DO
BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística
acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu
estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado
casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.
E veja mais Pernambuco aqui.








