domingo, março 01, 2026

PHILIPPA GREGORY, JANA ORLOVÁ, CAROLYN PORCO, LUIZ FELIPE PONDÉ & JAQUE MONTEIRO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Echolocation (1987), A Delay is Better (2004), A Secret Code (2021), Echolocation - Freedom to Spend (2021) e Simultaneous (2025), da compositora, performer e artista multimedia estadunidense Pamela Z.


 

Cômpito das emoções, desvelo da consanguinidade... - Depois de haver realizado os 12 trabalhos de Hércules e a jornada do herói de Campbell, o andejo Uiruuetê viu-se escolhido sem nem mesmo saber pra quê, errante por um sentido pra sua existência. Afinal, a seu ver, ninguém valia mais que a sua própria morte. E já que era filho da poderosa Uiraçu – a que desde os tempos em que o céu quase esmagou a terra dos Ikolen, salvando-os do desastre e totemizada em símbolo da conexão entre o céu e a terra -, vinha ele de lá degustando paisagens do Paraná, diuturnidades pelo Mato Grosso, alumbramentos pelo Rio de Janeiro, pouso emergencial em Campo Grande, já que repentinamente estava sob escolta e acontecências inexplicáveis. Matutava a querela de ter sido confundido com acauã – ah, por conta do agouro de morte e chamado sinistro da seca, lobrigou -, sendo por isso jogado num ninho de gaviões hostis. Pelava-se de medo, havia no ar a ameaça de ser devorado. Para quem fora abandonado pelo irmão e familiares, era mais uma provação. Uma velha tartaruga veio não se sabe de onde, só cuspir-lhe às faces, punindo-lhe o passado. Insultado ao limite, atacou com vingança até apropriar-se de todas as cores da quelônia. E sua revolta o fez inchar-se peremptório, a ponto de grasnar trovejante e, com toda ferocidade, agitou o brasão do Panamá e nasceu-lhe um penacho na cabeça, a coroa da sua monarquia; seu corpo encheu-se de penas, seus braços eram agora asas possantes e viu-se bípede nas patas com unhas aduncas. Desfez-se o mal entendido e logo foi incorporado à dança dos gaviões do povo Awá-Guajá e, rodopiando entre os Karawara, os espíritos da floresta, tornou-se imediatamente parente dos urubus-buzzards, milhafres-milhanos-queimados, harriers-tartaranhão, buteos e águias. Já estreitado, ele soube da inundação que emergiria dos confins do mundo e teria de partir visando salvar a parentela que deixara longe dali. Chegando lá, a surpresa: foi tratado como a vergonha da família, um pervertido demônio e enxotado aos apupos dos insensatos desafetos. Lamentou-se exilado no meio da tempestade que despencara pro dilúvio dos Tocantins. Sem razão pra viver deu o mergulho fatal e se deixou levar pela correnteza. Sentiu-se envolvido por uma harpia com seus ventos tempestuosos, resfolegou apavorado e, quase afogando-se, usou de sua rapidez, perspicácia e instinto de caça, até desvencilhar-se da morte a cantarolar uma modinha: Voa, voa, voa gavião \ Vai caçar noutro chão \ Vai se embora e volta não... Por um instante respirava aliviado, quando viu lá longe, no topo da montanha, um vulto de mulher. E pra lá se esgueirou apressado: Quem será? Aproximando-se reconheceu Moema, aquela de cujo ventre nasceu o bastardo Brasil, de Adriana Varejão. A nativa Tupinambá havia ressuscitado depois de afogar-se de paixão por seu amado Caramuru, que partiu sem dizer adeus. Tempos depois, um jovem Sioux por ela enamorou-se e, pela segunda vez, desabou em prantos. Estava ali provando da infelicidade: onde sua mãe virou águia para trazer a água e acabar com a seca que assolava. Ledo engano. Por sua incansável faina envelhecera e viera praqui depondo o seu próprio bico, penas e garras, para morrer e ressuscitar. Ainda a viu bicando pedras, mas ela ao avistá-la, logo voou senhora dos ares, rainha do céu, a mãe das aves, para nunca mais. O que fazer então? Assim, noites e dias. Ele, um gavião errante; ela, uma águia enlutada. E a lua era cúmplice das líricas confissões, o Sol esquentava nas veias o teor de arrebatadora paixão. Ali, solidários, o movimento das águas, a dança das estrelas, o mormaço dos corpos, a brisa da paixão. As águas baixavam e o alarme ecoou do monstro Voçoroca, uma ameaça destrutiva e precisavam agir sem demora. Antes, porém, completamente apaixonado, ele ousou indagar: Quem era sua mãe? Uiraçu. Como? Já iminente hora e voaram para cumprir cada qual sua missão. Até mais ver.

 

Wislawa Szymborska: Todo começo nada mais é do que uma sequência, e o livro dos acontecimentos está sempre aberto no meio... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Svetlana Alexievich: Um tempo cheio de esperança foi substituído por um tempo de medo. A era deu uma volta e retrocedeu no tempo. O tempo em que vivemos agora é de segunda mão... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juliette Binoche: Vivo sempre o presente. Aceito esse risco. Não nego o passado, mas é uma página que preciso virar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Você se senta diante da morte. \ Está quente e nas alturas \ Você vai arrancar a sua própria pele. \ para atender a uma marca.

II - Tudo é temporário. \ certamente até mesmo que você seja o denominador \ de todos os meus pensamentos \ Em termos de sentimento, há algo \ infantil, e ainda \ É melhor ser um herege do que um santo.

Poemas da poeta, curadora e teórica de arte checa Jana Orlová, autora de obras como: Čichat oheň (2012), Újedě (2017), Падло й інші вірші (2019), Mă fuţi din milă (2019), Choice of Lipstick (2020), Nie uciekniesz (2021), Neutečeš (2022) e Pus (2022).

 

TERRAS MARÉS – […] Ela havia encontrado, incrustada em seu coração, como um poste de campo submerso em um barranco de lama, uma grande determinação para viver. […] Ela permaneceu em silêncio em meio aos sons tranquilos da noite, e a certeza a invadiu. [...] Eram pessoas simples: quando alguém lhes dizia que não tinham nada a temer, sabiam que estavam em apuros. [...]. Trechos extraídos da obra Tidelands (Thorndike Pr, 2019), da escritora e acadêmica anglo-queniana Philippa Gregory, que também se expressa: Acredito em mim, na minha visão de mundo. Acredito na minha responsabilidade pelo meu próprio destino, na culpa pelos meus próprios pecados, no mérito pelas minhas próprias boas ações, na determinação da minha própria vida. Não acredito em milagres, acredito no trabalho árduo... Você precisa escolher o melhor, todos os dias, sem concessões... guiado por sua própria virtude e mais elevada ambição... Veja mais aqui & aqui.

 

NÓS & A TERRAUma poderosa sensação surge dentro de nós quando vemos nosso pequeno planeta azul oceânico nos céus de outros mundos. Num instante, percebemos o quão pequenos, frágeis e solitários realmente somos... Vamos ensinar aos nossos filhos, desde muito pequenos, a história do universo e sua incrível riqueza e beleza. É algo muito mais glorioso, impressionante e até reconfortante do que qualquer coisa que eu conheça, seja encontrada nas escrituras ou em qualquer conceito de Deus... Nós, humanos, embora problemáticos e belicosos, também somos os sonhos, os pensadores e os exploradores que habitam um planeta de beleza comovente, ansiando pelo sublime e capazes do magnífico... Pensamento da planetóloga, astrônoma e acadêmica estadunidense Carolyn C. Porco, que desenvolve o trabalho de exploração do sistema solar, tendo começado no Programa Voyager, nas missões aos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, nos anos 1980, líder do programa de imageamento da sonda Cassini-Huygens, em órbita de Saturno e atualmente atua na divisão de imageamento da sonda New Horizons, lançada rumo a Plutão, em 2006, e atuando como especialista em anéis planetários e no satélite natural de Saturno, Encélado. Veja mais aqui.

 

LUIZ FELIPE PONDÉ

Sem hipocrisia não há civilização - e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva...

Pensamento do filósofo, escritor, ensaísta e professor Luiz Felipe Pondé (Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé), autor de obras como: O homem insuficiente: Comentários de Antropologia Pascaliana (2001), Crítica e profecia: filosofia da religião em Dostoiévski (2003), Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto (2010), Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012), A filosofia da adúltera - Ensaios Selvagens (2013), A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo (2014), Guia Politicamente Incorreto do Sexo (2015), Filosofia para Corajosos (2016), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

&

VOU CONTAR ATÉ 100, JAQUE MONTEIRO

Acaba de ser lançado o livro Vou contar até 100 (Uiclap, 2026), da escritora e arte-educadora Jaque Monteiro, reunindo 100 microcontos e todos os microtextos com 100 caracteres. Ela é autora dos livros Estações de humor, do I Oficina de Catadupas do Brasil (2025) e As setigonistas ao quadrado (2026). Veja detalhes e muito mais aqui, aqui & aqui.

 

Luiz Vieira aqui

Arlete Salles aqui, aqui & aqui.

Paulo Bruscky aqui, aqui, aqui & aqui.

Tâmara Dornelas aqui.

Nhô Caboclo (Manuel Fontoura 1910–1976) aqui.

Janaína Esmeraldo aqui.

Irandhir Santos aqui.

Bruna Valença aqui.

Reynaldo Fonseca aqui.

Lourdes Nicácio aqui.