▼

sábado, outubro 24, 2026

NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.



Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causados pelo aparecimento dum visionário taumaturgo. Outro? Ora, se! De novo? Pois é. Correria da muita aos cochichos, de boca e ouvido nos cantadores de cordel e providenciassem acordes pros motes e glosas, pipocando o assanhamento do povo pruma ineivada procissão. É mesmo? Mas, tá! Cadê o curandeiro? Ah, já foi arrastado pra casa do Barão caga-raio! Foi mesmo? Rapaz, nunca se viu aquele palacete tão iluminado! Aff! Oxe, tinha gente até de um olho só! Num diga! Dizem que pra lá foram os Rothschilds, os Rockefeller, os Wallenberg, os Walton, os Koch, os Mars, os Brenninkmeijer, os Bardi, Médici, Gondi, Fugger, Welser, Baring, Schröder, Goldman-Sachs, Contarini, Cornaro, Dandolo, Giustinian, Loredan, Mocenigo e Morosini e uma ruma de gente empaletozada de num acabar mais. Vixe, quanto nome difícil, patavina de entender quem são esses! Num sabe? Não! Ah, são os donos do mundo todo, bestão! Ricaços? Iapois! Igi! Até o papa estava pra chegar, mas deu um problema lá no teco-teco dele e foi representado, de última hora, pelo padre Quiba e um o bispo lá que nem sei quem é, nem nunca vi! Danou-se! Destá. Foi um festaço de arromba: o venerável da Maçonaria foi encasacado com meio mundo de urubu e com os caras lá do Rotary, mais os do Lions, da LBV, da Federação Espírita, da Assembleia de Deus e da Aliança Evangélica, até a extinta LBA ressuscitou lá! Eita! Tinha grã-fino até umas horas, gente casacuda como a praga! Pra quê mesmo, hem? Num tais sabendo? De quê? Do tal Doctor ZêZê Rasputin! Quem? Um danado dum peregrino klystys que veio dum lugar longe como a droga, lá das bandas da Sibéria, e que é ele na Terra e Deus no céu, somente! E que medonho é isso de, como é mesmo o nome? Klystys? Sim, nunca ouvi nem falar! Sei lá, tô só repetindo o que dizem dele e decorei, deve ser coisa boa, senão é malefício dos brabos. É mesmo. O cara é o fodão! Tais brincando? O hômi lá é sábio, véi! Como é? Pelo boato sabe-se que ele estudou muito, chega anda de peito inflado: Fiz num sei quê lá, desarnei num sei quê diga, essas coisas. Arreda! Oxe, até o padre Quiba se ajoelhou amoquecado aos gritos: Jesus voltou! Desmunhecou muito, foi? Só. E o convidado do além? Já tão chamando ele de xodó da Baronesa. Vixe! Tão dizendo por aí dos muitos milagres e que era só ele embeiçar uma talagada de cachaça-de-cabeça com pimenta malagueta, aí estralava a língua e os dedos, todo arrepiado, bulindo lá nele, uns muxoxos cheio dos pantins, caretas assombrosas e batia os pauzinhos nas coisas do outro mundo, invocando num sei quem numa novena e, pronto, desmanchava as ingresias lá, desenvultava e curava, tanto as câimbras da imperatriz, como qualquer moléstia dos enfermos, da coisa resolver-se tudinho na horinha mesmo! Valei-me, estuporado! A Madama Puxa-Encolhe mesmo saiu alardeando com as sinhás amigas dela lá: Ele me confortou, santa cura! É coisa escalafobética, meu! E num é! Ontem de noite mesmo armaram o palanque assim do lado e o milagreiro apareceu lá com meio mundo de gente no arousal, ele todo lisonjeado começou a falar mansinho num discurso, como se diz, anódino e teve até quem visse uma aureola angélica brilhar naquela cabeça santa. Deu o créu! Deus, mesmo! E depois, o bruxo lá ostentou na cipoada e, de repente, falava como quem trovejava, dos olhos dele saíram relâmpagos assustadores. Tanto é que, na hora, se eu tivesse bosta pronta, cagava de melar tudo, mas que torei aço do chicote deixou ficar o frosquete fazendo biquinho, com as pregas rapando tudo que viesse! Larga de ser frouxo! E num é! Ufa! O cabra é culto mesmo, né? O homem é de sete-ciências e bote lá mais, sabe tudo! E teve uma hora que gravaram o que ele disse, ouça, veja: Há mais de 100 anos, quando os interesses mais uma vez se amesquinharam, potencializando rivalidades para perpetuar a miséria humana, espoucou a mortandade e, ciclicamente, supostos heróis e vilões se digladiavam para a catástrofe. E quem pagou o pato dessas invectivas disparatadas? Sempre o povo miserável que é levado pelas ondas dos oportunismos, sucumbindo à gangorra dos dissabores! Em cada século a Lenda do Grande Inquisidor se repete... Os vilões, na verdade, somos cada um de nós; e os traidores pagarão nas mãos do inimigo celebrado, tenho dito! Foi aplauso do estopô calango de quase num acabar mais! Vixe! A coisa é séria! O que achou do discurso do forasteiro? Entendi nada, mas achei muito bonito e encorajador. Reconheceu, não? Nada. Num viu direito! Como? Aquilo é José Zon, só – dito ZéZon! Quem? Aquele, ora! Mesmo? Num lembra dele não? Não. Era ainda menino quando deixou de ser ajudante nas presepadas do Doro e, bandoleiro que só, seguiu os passos nebulosos de Tó Zeca: Esse tinha mais futuro, claro, era neto daquele barão que ninguém sabia soletrar o nome, né? Sim, sim! De anão encruado virou um varapau donzelão do bilau grande. Tá c’a gota! E num foi? Sei disso não! Ele aprendeu com o mentiroso e, segundo seu próprio juízo, foi muito mais além, pois, na maioridade, ele assuntou na aprumada e foi pras bandas do Padre Bidião: Muito melhor! Lembrou? Aaaah! Foi ele que decorou o Evangelho do reverendo, seguiu ao pé da letra na liturgia das beatas e sacerdotisas, comungou, tornou-se neófito e, na primeira iniciação, ousou um voo solo. Cabra sabido, hem? Vamos tirar a limpo isso: O doutor Zé Gulu já leu algum livro desse sabichão? Isso é um embusteiro, cagador de regra! Cuma? Tá ignorando os diplomas do letrudo, meu? Ora, ninguém nunca viu sequer um risco que fosse num taco de papel com o nome desse impostor! Oxe! Procure, vá! Será que é pinoia? Nada, dizem que ele está casado com uma princesa dita Sakina, filha duma tal de matriarca Begum Wilayat Mahal! Ah, foi assim que ele fez fortuna e passou a ser o bicho-papão das ciências e filosofias, então! Quem contou isso? Ele mesmo, ué? Quem já viu a princesa? Hum? Isso é um enrolão! Quem é doido de tirar a prova dos 9? Cá pra nós: o escroque parece que agora é conselheiro, ou coisa parecida, do Barão e da madame dele! Pronto, lascou! De que adiantou desmascarar? Deixa de tua apofenia, cara! Jamais vu! O povo é todo credo, paga no mesmo tanto pela leseira, sempre. Deixa quieto! Eu, hem? Até mais ver.

 

Sylvia Plath: Se você não espera nada de ninguém, você nunca está desapontada... E, a propósito, tudo na vida é gravável se você tem a coragem de sair para fazê-lo, e a imaginação para improvisar. O pior inimigo da criatividade é a autodúvida... Veja mais aqui.

Ezra Pound: Guerras são feitas para fazer dívidas... Um escravo é aquele que espera que alguém venha libertá-lo... Ou se move ou é movido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Graciliano Ramos: É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas... Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo. Uma estrela no céu, algumas mulheres na terra... Se a única coisa que o homem tem certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

EU SOU UMA MULHER

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ninguém consegue adivinhar \ o que digo quando me calo, \ quem vejo quando fecho os olhos, \ como me deixo levar quando me deixo levar, \ o que procuro quando estendo as mãos. \ Ninguém, ninguém sabe \ quando tenho fome, quando parto, \ quando caminho e quando estou perdida. \ E ninguém sabe \ que minha partida é um retorno \ e meu retorno é uma abstinência, \ que minha fraqueza é uma máscara \ e minha força é uma máscara, \ e que o que está por vir é uma tempestade. \ Eles pensam que sabem, \ então eu os deixo, \ e eu aconteço. \ Eles me colocam em uma gaiola para que \ minha liberdade seja um presente deles, \ e eu tenha que agradecê-los e obedecer. \ Mas sou livre diante deles, depois deles, \ com eles, sem eles. \ Sou livre em minha opressão, em minha derrota \ e minha prisão é o que eu quero. \ A chave da prisão pode ser a língua deles. \ Mas a língua deles está enrolada nos dedos do meu desejo, \ e meu desejo eles jamais poderão controlar. \ Sou uma mulher. \ Eles pensam que são donos da minha liberdade. \ Então eu os deixo, \ e eu aconteço.

Poema da escritora, jornalista e ativista cultural libanesa Joumana Haddad.

 

PEQUENO CONFORTO - [...] Eu queria escrever um livro sobre dinheiro e considerei diferentes maneiras de abordar o assunto. No fim, escrevi várias histórias que giravam em torno do dinheiro. Para este livro, pesquisei muito mais — li livros e conversei com pessoas. Por exemplo, tentei entender o que o dinheiro realmente é, infelizmente sem sucesso. Não acho que o valor, quando se trata de dinheiro, e o valor, quando se trata de pessoas, sejam a mesma coisa, exceto em um sentido puramente semântico. Mas é interessante como nossa linguagem é invadida por termos econômicos — como falamos sobre investir em um relacionamento ou ter "credibilidade" em certas situações. Também é estranho que meçamos o tempo em termos de dinheiro e deixemos essas duas unidades circularem juntas, mesmo que nosso tempo seja muito limitado e o dinheiro seja algo essencialmente fictício. [...]. Trecho da entrevista From fever dreams to fiction: the unscripted world of Ia Genberg (Al Majalla – Culture & Social Affairs, 2026), concedida pela escritora e jornalista sueca Ia Genberg (Ia Gabriella Genberg), sobre o seu livro de contos Small Comfort (2026), no qual reúne 5 contos, todos conectados com personagens recorrentes e tematicamente, expandindo as questões atinentes ao papel do dinheiro em uma sociedade que está passando por crises financeiras. Como resultado, ela também examina a ética e a moral em torno das finanças, o que faz da obra algo diferente e inovador. Os contos, a exemplo de Framgång Greger (uma entrevista com um ex-ator mirim que virou um ladrão fracassado) é um relato sobre um mensageiro de suborno farmacêutico desaparecido. O conto Tal vid ett bröllop / A Speech at a Wedding (um ator contratado para dar um discurso no casamento de um desconhecido); o Loser's Claustrophobia (notas sobre um experimento manipulado de Monopoly) e Klen tröst / Small Comfort (um casal divorciado fingindo viver em harmonia conjugal por causa de uma herança). Já no seu livro The Details (‎Harpervia, 2023), ela expressa que: [...] Vivemos tantas vidas dentro de nossas vidas — vidas menores com pessoas que vêm e vão, amigos que desaparecem, filhos que crescem — e nunca sei qual dessas vidas deve servir como moldura. [...] É só isso que compõe o "eu" — ou o chamado "eu": vestígios das pessoas com quem convivemos. [...] Alguns livros permanecem em seu íntimo muito tempo depois que seus títulos e detalhes já se apagaram da memória. [...]. Veja mais da autora aqui.

 

A TERRA DÁ, A TERRA QUER... – [...] O que é a cidade? É o contrário de mata. O contrário de natureza. A cidade é um território artificializado, humanizado. A cidade é um território arquitetado exclusivamente para os humanos. Os humanos excluíram todas as possibilidades de outras vidas na cidade. Qualquer outra vida que tenta existir na cidade é destruída. Se existe, é graças à força do orgânico, não porque os humanos queiram. [...] “O mundo é grande e tem lugar para todo mundo. O mundo é redondo exatamente para as pessoas não se atropelarem. [...]. Trechos extraídos do livro A terra dá, a terra quer (Ubu, 2023), do escritor, professor, sindicalista, ativista e líder quilombola, Nêgo Bispo (Antônio Bispo dos Santos – 1959-2023), que desenvolveu o conceito de contracolonização por meio de seus livros Quilombos, modos e significados (2007) e Colonização, Quilombos: modos e significados (2015). Veja mais aqui.

 


TUNGA – Em 2023 realizou-se a Semana Tunga na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares (PE), uma homenagem ao artista performático, escultor e desenhista Tunga (Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão – 1952-2016). Por resultado ocorreu durante o evento exposições, palestras, oficinas, vídeos e pocket show, resultando na publicação do livro Tungando a vida (CriaArt, 2024). O evento foi uma realização da Biblioteca Fenelon Barreto, Amigos da Biblioteca, Gabinete de Arte e zineblog Tataritaritatá, contando com apoio do Instituto Tunga, Usina de Arte & Semed-Palmares/Observatório de Leitura. Veja detalhes aqui.


 

LAJEDO – Este é 9º episódio das Aventuras do Nitolino no Valuna, desta feita no agreste meridional, em Lajedo, Pernambuco, contando da festa no céu e o cágado que despencou de lá, caiu na pedraria da Volta do Canhoto e escorregou pelos rios Quatis, da Chata e do Retiro, pelos riachos Bonito, Doce e do Serrote, até o pé do lajeiro onde a onça mora. Confira aqui.

 


NEUROEDUCAÇÃO & PRÁTICAS PÉDAGÓGICAS NO ENSINO-APRENDIZAGEM – Resultado do projeto acadêmico sob a temática Neuroeducação: relação escola, professor e aluno na Educação Pública de Maceió, apresentado no Grupo de Pesquisa Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, em 2015, envolvendo alunos e professores do Ensino Médio, bem como gestores de duas escolas do Centro de Estudos e Pesquisas Aplicadas (CEPA), notadamente na Escola Estadual Moreira e Silva, por meio da gestora Ely Quintela Lisboa Carvalho, e na Escola Estadual Princesa Izabel, com as gestoras Sônia Suely Araújo Ferreira e Valquíria Balbino da Silva, em Maceió – AL, destacando o papel da neuroeducação no processo de ensino-aprendizagem e na qualidade de vida de docentes e discentes. Confira aqui.

 


LITERATURA LAM – Reunião que incorpora desde a publicação da antologia poética Primeira Reunião (Bagaço, 1992), às publicações do Nitolino no reino encantado de todas as coisas (Nascente, 2010), O lobisomem zonzo (Nascente, 1998-2011), Trâmite da Solidão (1992-2010), Crônica de amor por ela (edição limitada, capa dura – 2010), Vers&prosa à menina azul (2006), Rol da paixão (2008), Ao redor da pira onde queima o amor (2009), As trelas do Doro, o bacharel das chapuletadas (2006), Proezas do Biritoaldo (2009), Tolinho & Bestinha (2009), Big Shit Bôbras (2008) e Fecamepa (2000). Confira aqui.

 


REENCONTRO MARCADO – Conta a hestória do menino Auquê que encontra o Senhor da Lua para realizar seus sonhos. Transformado no adulto Anteu, passa a viver nua paisagem onírica, em que se vê envolvido com Catxerê, Daumília, Merca e Alcionélia, numa persistente decisão de escolhas que, ao serem tomadas, malogram indefinidamente, numa trajetória de idas e vindas intermináveis. Trata-se do projeto de um romance ainda inédito que, em seguida, foi transformado em roteiro cinematográfico para curta metragem. Confira aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ISTO É PERNAMBUCO

Veja mais aqui.