ELA, INFINITO POEMA DE MUITAS PROSAS... – Era ela e seus
olhos me levaram para onde estou e vou. E o que seriam senão o desvelo nos
vitrais dos devires, para que eu visse mais longe e se fizeram maravilhas que
nunca vi e ninguém mais saberia. E na sua face, efígie atenta de vários signos,
não havia disfarces, o ouvido à respiração incorpórea, o meu sudário na sua boca
excitante, navegante ousadia, como quem respirava de mim para encher o mundo. A
sua mão pousada em meu ventre estremecido pelo toque fundo da paixão, ao afago
de seu dedilhado. Ambicionei seus seios repletos de nuvens desembaraçadas e singrei
o céu de seus prazeres, e neles a calmaria depois da catábase abissal. Almejei seu
coração e lá fiz morada, porque dela a espera que se fez redenção para minha
áspera solidão dessedentada. Em seus braços portas se abriram, hélices pro voo
de suas pernas nas escolhas da bifurcação de seu gesto: a chave do mistério
repleto de coincidência. E se dilatava às minhas arremetidas, o meu poema na
sua pele eriçada. Estendia-se inconsútil às minhas clivagens mais resolutas e
se distribuía imensa, porque no seu ventre repousava o inesperado, feita alvo à
mira, o pomar depois dos umbrais em que fui acossado. E passeei na sua nua alma
prismática, a apalpá-la esvoaçante, o imã sequioso de nosso eclipse, toda minha
louvação em profaná-la secreta e revia e seguia a enterrá-la viva, desdobrada,
amadurecida pelo galope de devassar sua herança, pródigo invasor, mãos cheias
no seu fôlego, a desatá-la febril predador, escavando seus meandros e me apossando
de seu ânimo de voluntária presa, para que reinasse servil ao súdito amotinado.
E repercutiu em meu poema, tudo renascia e nela chovia todas as premências de
desatá-la, a romper sua distância profunda, a nos superpormos perseguidores mútuos
e todo seu reinado na memória nas minhas pálpebras. E nela, noites e dias se
moveram tempestuosos para que dela roubasse todos os seus vendavais pro meu
canto solene, a minha alma solene na sua amplidão. E se fez o que havia de ser,
não havia mais para onde voltar, nela o meu porto seguro, sou inconcluso na sua
eternidade. Veja mais aqui.
DITOS &
DESDITOS
Nada vai acontecer se você ficar sentado
esperando... Sempre que me sinto sem inspiração, não me forço a sentar e
escrever. Só o faço quando sinto o impulso... E eu acho que o impulso criativo
feminino está intrinsecamente ligado, do ponto de vista biológico, à nossa
capacidade de dar à luz um filho, mesmo que nunca tenhamos... Eu nunca dei à
luz, mas sinto que faz parte da nossa psicologia...
Pensamento da atriz, escritora e roteirista
estadunidense Zoe Kazan. Veja mais aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU:
Sim, tive muita sorte de ter tido essa
oportunidade. É raro conseguir realizar quase todos os sonhos de infância... Muitos
daquela geração anterior, muitos deles, e eu já disse isso antes, sem nenhuma
conotação pejorativa, se viam como fracassados. A maioria deles, eu acho, pelo
menos entre os artistas, queria ser desenhista ou ilustrador de jornal, mas ou
não conseguiam fazer esse trabalho, ou descobriam que não conseguiam se
sustentar com ele por causa da natureza implacável do ramo jornalístico. Então,
acabaram fazendo histórias em quadrinhos e, acredite, histórias em quadrinhos
não eram uma alternativa culturalmente aceitável para a maioria desses caras...
Pensamento do escritor estadunidense Gerry
Conway (Gerard F. Conway – 1952-2026).
CAOSMOSE – [...]
É evidente que a arte não possui o monopólio da criação, mas ela leva ao
ponto extremo uma capacidade de invenção de coordenadas mutantes, de
engendramento de qualidades de ser inéditas, jamais vistas, jamais pensadas. O
limiar decisivo de constituição desse novo paradigma estético reside na aptidão
desses processos de criação se auto-afirmarem como foco existencial, como
máquina autopoiética [...] A caosmose não oscila, então, mecanicamente
entre zero e o infinito, entre o ser e o nada, a ordem e a desordem: ela
ricocheteia e brota nos estados de coisas, nos corpos, nos focos autopoiéticos
que utiliza a título de suporte de desterritorialização, ela é caotização
relativa através da confrontação de estados heterogêneos da complexidade. É o
caso, aqui, de um infinito de entidades virtuais infinitamente rico de
possível, infinitamente enriquecível a partir de processos criadores. É uma
tensão para fazer surgir a potencialidade criativa na raiz da finitude
sensível, “antes” que ela se aplique às obras, aos conceitos filosóficos, às
funções científicas, aos objetos mentais e sociais, que funda o novo paradigma
estético [...] Nas névoas e miasmas que obscurecem nosso fim de milênio,
a questão da subjetividade, de agora em diante, volta como um leitmotiv. Não
mais que o ar e água, ela não é um dado natural. Como produzi-la, captá-la,
enriquecê-la, reinventá-la permanentemente de modo a torná-la compatível com
Universos de valores mutantes? Como trabalhar pela sua liberação, ou seja, pela
sua ressingularização? A psicanálise, a análise institucional, o filme, a
literatura, a poesia, as pedagogias inovadoras, os urbanismos e as
arquiteturas, criadores... todas as disciplinas terão que conjugar suas
criatividades para conjurar as provações da barbárie, da implosão mental, do
espasmo caósmico, que se perfilam no horizonte, para transformá-las em riquezas
e alegrias imprevisíveis, cujas promessas, aliás, são igualmente tangíveis.
[...]. Trechos extraídos da obra Chaosmose (Galilée, 1992), do filósofo,
psicanalista, semiólogo, roteirista e ativista revolucionário francês Félix
Guattari (1930-1992), um dos
fundadores dos campos da esquizoanálise e ecosofia, propondo o ponto de
emergência caósmica, como sendo o cultivo das “potências do eterno retorno do estado nascente”. Veja mais
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
O
CÉREBRO DE HIMMLER SE CHAMA HEYDRICH - [...] Os mortos estão
mortos, e para eles não faz diferença se eu presto homenagem aos seus feitos.
Mas para nós, os vivos, isso significa algo. A memória não serve para os
lembrados, apenas para aqueles que se lembram. Construímos a nós mesmos com a
memória e nos consolamos com a memória.
[...] Quantos heróis esquecidos dormem no grande cemitério da história?
[...] A memória não serve para nada aos que são lembrados, apenas para
aqueles que se lembram. Construímos a nós mesmos com a memória e nos consolamos
com a memória [...] O que você faria se governasse o mundo?” O
gigolô respondeu que aboliria todas as leis. Barthes disse: “Até a gramática?
[...] Estou travando uma batalha perdida. Não consigo contar esta
história como deveria ser contada. Toda essa mistura de personagens, eventos,
datas e a infinita ramificação de causa e efeito — e essas pessoas, essas
pessoas reais que de fato existiram. Mal consigo mencionar um pequeno fragmento
de suas vidas, suas ações, seus pensamentos. Continuo batendo a cabeça contra a
parede da história. E olho para cima e vejo, crescendo por toda parte — cada
vez mais alto e denso, como uma hera rastejante — o padrão indecifrável da
causalidade... Quantos heróis esquecidos dormem no grande cemitério da história?
[...]. Trechos extraídos do livro HHhH (Bocket, 2013), do escritor e
professor francês Laurent Binet, autor de obras como La vie professionnelle de Laurent B (2004) e Rien
ne passe comme prévu (2012).
LOUVOR À TRISTEZA - Há pessoas, já
me disseram, que vivem do ar. \ Uns vivem com amor; outros, com sonhos. \ Alguns
vivem oscilações pela utopia \ que os mantém protegidos das ondas. \ Há aqueles
que vivem de segredos ou mentiras, \ de ilusões, miragens e quimeras. \ Eu juro
que você pode viver com tristeza, \ sentir como o vento que empurra o barco, \ como
a seiva que percorre as hastes, \ como a chama queimando folhas mortas; \ uma
tristeza profunda e solidária, \ comprometido com o trabalho mais pesado, \ como
fiel cavaleiro vigiando as armas; \ tristeza que alguns e purifica, \ que
combate desma e o transforma. \ Não é imortal quem vive da tristeza, \ Mas
ninguém é, viva como eu vivo. Poema extraído livro El tomb de les batalles (Sabadell, 2009), do escritor, sociólogo,
musicólogo e jornalista catalão Miquel-Lluís Muntané, L'esperança
del jonc (poesia, 1980), Crònica d'hores petites (contos, 1981), Llegat
de coratge (poesia, 1983), A influx del perigeu (poesia, 1985), De
portes endins (teatro, 1987), Antoni Coll i
Cruells, el valor d'una tasca (biografia, 1987), L'espai
de la paraula (ensaio, 1990), Actituds individuals per la pau
(ensaio, 1991), La penúltima illa (teatro, 1992), L'altra distància
(poesia, 1994), Millor actriu secundària (romance, 1997), El foc i la
frontera (poesia, 1997), Madrigal (contos, 2001), Migdia a
l'obrador (poesia, 2003), La fi dels dies llargs (romance, 2005), La
seducció dels rius (diário, 2006), Cultura i societat a la Barcelona del
segle XVII (ensaio, 2007), Encetar la poma. Escrits sobre cultura
(artigos, 2008), La hiedra obstinada (poesia, 2010), Hores tangents (poesia,
2012) e Qualitats de la fusta (poesia, 2016), entre outros. Veja mai
aqui.
POEMA PARA AS PERNAS – Entre os poemas da premiada escritora
e médica Lilian Maial, integrante da
Rede de Escritoras do Brasil e autora participante de diversas antologias,
destaco o Poema para as pernas: Sonho um sonho de pernas para o ar, / muitas
pernas, / sem corpo e sem caminhar. / Pernas sem pressa, / sem tropeços de
rimas, / pernas de sonhar. / Nunca havia reparado nas pernas, / não as minhas,
/ que as ruas estão apinhadas de pernas. / Cá do alto das letras, / espio as
pernas de serifas, / a serpentear o poema. / Para que as quero pernas, / se
deixo que tu me pises as carnes brancas, / que me enlaces, com as tuas, / as
minhas trôpegas e sonolentas, / num balé aflito? / Para que as uso, / se de ti
não corro, / se as asas nos conduzem / a bailar na sala? / Se já não vou, / se
já não pulo, / se nem pretendo esfolar / sola no sertão de versos? / As velhas
veias traem o fluxo. / O sangue embola com a rima. / Ah! Trombose! / Um novelo
- teu beijo - coagulado em minhas pernas! / Teu tronco, em trança, o calor, o
sangue... / Onde o chão de pisar? / Para que as quero, / se no teu quarto não
preciso delas para caminhar, / se passeio na escuridão da tua ausência? / Não!
Eu quero os braços / de acariciar cabelos, / as ventas de cheirar aromas, / a
boca de expiar culpas / e remoer temores. / Pintar um poema sem pé, nem cabeça,
/ de penas e plumas. / Pernas de destrancar volúpias, / desenhar traços e
versos / na tua pele nua, / e, na fumaça do cigarro, / brincar de esculpir teu
torso. / Pernas, para que as quero, / se a noite passa num longo embate, / que
maltrata, deixa insone e tira o fôlego? / Pernas para correr / e não alcançar.
/ Não quero pernas, / as velhas pernas, / de sinuosas veias, / que já esmagaram
a saudade, / pisotearam distâncias! / Quero o repouso sereno, / no sopé da
montanha, / para escalar lonjuras. Veja mais dela
aqui, aqui, aqui e aqui.






