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terça-feira, fevereiro 16, 2016

GUATTARI, FEYERABEND, MUNTANÉ, KAZAN, CONWAY, LAURENT BINET, BEM COMUM & LITERÓTICA

 


ELA, INFINITO POEMA DE MUITAS PROSAS... – Era ela e seus olhos me levaram para onde estou e vou. E o que seriam senão o desvelo nos vitrais dos devires, para que eu visse mais longe e se fizeram maravilhas que nunca vi e ninguém mais saberia. E na sua face, efígie atenta de vários signos, não havia disfarces, o ouvido à respiração incorpórea, o meu sudário na sua boca excitante, navegante ousadia, como quem respirava de mim para encher o mundo. A sua mão pousada em meu ventre estremecido pelo toque fundo da paixão, ao afago de seu dedilhado. Ambicionei seus seios repletos de nuvens desembaraçadas e singrei o céu de seus prazeres, e neles a calmaria depois da catábase abissal. Almejei seu coração e lá fiz morada, porque dela a espera que se fez redenção para minha áspera solidão dessedentada. Em seus braços portas se abriram, hélices pro voo de suas pernas nas escolhas da bifurcação de seu gesto: a chave do mistério repleto de coincidência. E se dilatava às minhas arremetidas, o meu poema na sua pele eriçada. Estendia-se inconsútil às minhas clivagens mais resolutas e se distribuía imensa, porque no seu ventre repousava o inesperado, feita alvo à mira, o pomar depois dos umbrais em que fui acossado. E passeei na sua nua alma prismática, a apalpá-la esvoaçante, o imã sequioso de nosso eclipse, toda minha louvação em profaná-la secreta e revia e seguia a enterrá-la viva, desdobrada, amadurecida pelo galope de devassar sua herança, pródigo invasor, mãos cheias no seu fôlego, a desatá-la febril predador, escavando seus meandros e me apossando de seu ânimo de voluntária presa, para que reinasse servil ao súdito amotinado. E repercutiu em meu poema, tudo renascia e nela chovia todas as premências de desatá-la, a romper sua distância profunda, a nos superpormos perseguidores mútuos e todo seu reinado na memória nas minhas pálpebras. E nela, noites e dias se moveram tempestuosos para que dela roubasse todos os seus vendavais pro meu canto solene, a minha alma solene na sua amplidão. E se fez o que havia de ser, não havia mais para onde voltar, nela o meu porto seguro, sou inconcluso na sua eternidade. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Nada vai acontecer se você ficar sentado esperando... Sempre que me sinto sem inspiração, não me forço a sentar e escrever. Só o faço quando sinto o impulso... E eu acho que o impulso criativo feminino está intrinsecamente ligado, do ponto de vista biológico, à nossa capacidade de dar à luz um filho, mesmo que nunca tenhamos... Eu nunca dei à luz, mas sinto que faz parte da nossa psicologia...

Pensamento da atriz, escritora e roteirista estadunidense Zoe Kazan. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

Sim, tive muita sorte de ter tido essa oportunidade. É raro conseguir realizar quase todos os sonhos de infância... Muitos daquela geração anterior, muitos deles, e eu já disse isso antes, sem nenhuma conotação pejorativa, se viam como fracassados. A maioria deles, eu acho, pelo menos entre os artistas, queria ser desenhista ou ilustrador de jornal, mas ou não conseguiam fazer esse trabalho, ou descobriam que não conseguiam se sustentar com ele por causa da natureza implacável do ramo jornalístico. Então, acabaram fazendo histórias em quadrinhos e, acredite, histórias em quadrinhos não eram uma alternativa culturalmente aceitável para a maioria desses caras...

Pensamento do escritor estadunidense Gerry Conway (Gerard F. Conway – 1952-2026).

 

CAOSMOSE – [...] É evidente que a arte não possui o monopólio da criação, mas ela leva ao ponto extremo uma capacidade de invenção de coordenadas mutantes, de engendramento de qualidades de ser inéditas, jamais vistas, jamais pensadas. O limiar decisivo de constituição desse novo paradigma estético reside na aptidão desses processos de criação se auto-afirmarem como foco existencial, como máquina autopoiética [...] A caosmose não oscila, então, mecanicamente entre zero e o infinito, entre o ser e o nada, a ordem e a desordem: ela ricocheteia e brota nos estados de coisas, nos corpos, nos focos autopoiéticos que utiliza a título de suporte de desterritorialização, ela é caotização relativa através da confrontação de estados heterogêneos da complexidade. É o caso, aqui, de um infinito de entidades virtuais infinitamente rico de possível, infinitamente enriquecível a partir de processos criadores. É uma tensão para fazer surgir a potencialidade criativa na raiz da finitude sensível, “antes” que ela se aplique às obras, aos conceitos filosóficos, às funções científicas, aos objetos mentais e sociais, que funda o novo paradigma estético [...] Nas névoas e miasmas que obscurecem nosso fim de milênio, a questão da subjetividade, de agora em diante, volta como um leitmotiv. Não mais que o ar e água, ela não é um dado natural. Como produzi-la, captá-la, enriquecê-la, reinventá-la permanentemente de modo a torná-la compatível com Universos de valores mutantes? Como trabalhar pela sua liberação, ou seja, pela sua ressingularização? A psicanálise, a análise institucional, o filme, a literatura, a poesia, as pedagogias inovadoras, os urbanismos e as arquiteturas, criadores... todas as disciplinas terão que conjugar suas criatividades para conjurar as provações da barbárie, da implosão mental, do espasmo caósmico, que se perfilam no horizonte, para transformá-las em riquezas e alegrias imprevisíveis, cujas promessas, aliás, são igualmente tangíveis. [...]. Trechos extraídos da obra Chaosmose (Galilée, 1992), do filósofo, psicanalista, semiólogo, roteirista e ativista revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992), um dos fundadores dos campos da esquizoanálise e ecosofia, propondo o ponto de emergência caósmica, como sendo o cultivo das “potências do eterno retorno do estado nascente”. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O CÉREBRO DE HIMMLER SE CHAMA HEYDRICH - [...] Os mortos estão mortos, e para eles não faz diferença se eu presto homenagem aos seus feitos. Mas para nós, os vivos, isso significa algo. A memória não serve para os lembrados, apenas para aqueles que se lembram. Construímos a nós mesmos com a memória e nos consolamos com a memória. [...] Quantos heróis esquecidos dormem no grande cemitério da história? [...] A memória não serve para nada aos que são lembrados, apenas para aqueles que se lembram. Construímos a nós mesmos com a memória e nos consolamos com a memória [...] O que você faria se governasse o mundo?” O gigolô respondeu que aboliria todas as leis. Barthes disse: “Até a gramática? [...] Estou travando uma batalha perdida. Não consigo contar esta história como deveria ser contada. Toda essa mistura de personagens, eventos, datas e a infinita ramificação de causa e efeito — e essas pessoas, essas pessoas reais que de fato existiram. Mal consigo mencionar um pequeno fragmento de suas vidas, suas ações, seus pensamentos. Continuo batendo a cabeça contra a parede da história. E olho para cima e vejo, crescendo por toda parte — cada vez mais alto e denso, como uma hera rastejante — o padrão indecifrável da causalidade... Quantos heróis esquecidos dormem no grande cemitério da história? [...]. Trechos extraídos do livro HHhH (Bocket, 2013), do escritor e professor francês Laurent Binet, autor de obras como La vie professionnelle de Laurent B (2004) e Rien ne passe comme prévu (2012).

 

LOUVOR À TRISTEZA - Há pessoas, já me disseram, que vivem do ar. \ Uns vivem com amor; outros, com sonhos. \ Alguns vivem oscilações pela utopia \ que os mantém protegidos das ondas. \ Há aqueles que vivem de segredos ou mentiras, \ de ilusões, miragens e quimeras. \ Eu juro que você pode viver com tristeza, \ sentir como o vento que empurra o barco, \ como a seiva que percorre as hastes, \ como a chama queimando folhas mortas; \ uma tristeza profunda e solidária, \ comprometido com o trabalho mais pesado, \ como fiel cavaleiro vigiando as armas; \ tristeza que alguns e purifica, \ que combate desma e o transforma. \ Não é imortal quem vive da tristeza, \ Mas ninguém é, viva como eu vivo. Poema extraído livro El tomb de les batalles (Sabadell, 2009), do escritor, sociólogo, musicólogo e jornalista catalão Miquel-Lluís Muntané, L'esperança del jonc (poesia, 1980), Crònica d'hores petites (contos, 1981), Llegat de coratge (poesia, 1983), A influx del perigeu (poesia, 1985), De portes endins (teatro, 1987), Antoni Coll i Cruells, el valor d'una tasca (biografia, 1987), L'espai de la paraula (ensaio, 1990), Actituds individuals per la pau (ensaio, 1991), La penúltima illa (teatro, 1992), L'altra distància (poesia, 1994), Millor actriu secundària (romance, 1997), El foc i la frontera (poesia, 1997), Madrigal (contos, 2001), Migdia a l'obrador (poesia, 2003), La fi dels dies llargs (romance, 2005), La seducció dels rius (diário, 2006), Cultura i societat a la Barcelona del segle XVII (ensaio, 2007), Encetar la poma. Escrits sobre cultura (artigos, 2008), La hiedra obstinada (poesia, 2010), Hores tangents (poesia, 2012) e Qualitats de la fusta (poesia, 2016), entre outros. Veja mai aqui.

 

DIÁLOGOS SOBRE O CONHECIMENTO, DE PAUL FEYERABEND - [...] Os diálogos recolhidos neste livro são imperfeitos sob muitos aspectos, 0 que e verdade especialmente para 0 segundo.Trata-se de minha réplica a uma variedade de escritos recolhidos para uma Festschrift em minha (des)honra. A maior parte dos ensaios tem a ver com um livro que escrevi em 1970, publicado em 1975, e que, no que me diz respeito, e agora água passada. Alem disso, os artigos me atribuem uma doutrina (sobre 0 conhecimento e sobre 0 método), ao passo que minha opinião era, e ainda agora, que nem 0 conhecimento nem a realidade podem ser aprisionados ou regulados por um resumo geral ou por uma teoria (as teorias científ1cas não são aquilo que os filósofos de inclinações realistas creiam que sejam). O segundo diálogo tenta explicar essa situa um pouco complicada. O primeiro reflete a situação do meu seminário em Berkeley; 0 doutor Cole tem pouco a ver comigo, mas algumas personagens (não identificáveis pelo nome) constituem uma homenagem a alguns alunos maravilhosos que tive. Os diálogos são filosóficos num sentido muito genérico e não técnico. Poderiam até ser chamados desconstrutivistas, se bem que 0 meu guia tenha sido Nestroy (que foi lido por Karl Kraus) e não Derrida. Quando fui entrevistado pelo diário italiano A Repubblica fizeram-me a seguinte pergunta: "0 que 0 senhor pensa dos atuais desenvolvimento da Europa Oriental e 0 que a filosofia tem a dizer sobre esses seus argumentos?" Minha resposta talvez explicaria um pouco melhor minha atitude. Estas são duas perguntas inteiramente diversas - eu disse. A primeira é dirigida a um ser humano vivo e mais ou menos adequadamente pensante, com seus sentimentos, seus preconceitos, suas necessidades, isto é, a mim. A segunda e dirigida a algo que não existe, a um monstro abstrato, a "filosofia". A filosofia e ainda a menos unitária das ciências. Existem escolas filosóficas que se conhecem pouco entre elas ou se combatem ou se desprezam reciprocamente. Algumas dessas escolas, a do empirismo lógico, por exemplo, não enfrentaram quase nunca os problemas que surgem agora; alem disso, não ficariam demasiado felizes de encorajar os sentimentos religiosos que tem acompanhado tais desenvolvimentos (em alguns países da América do Sul,a religião está na primeira linha na batalha pela libertação).Outras, por exemplo os hegelianos, traçam longos romances para descrever os eventos dramáticos e sem dúvida começaram a cantá-los - ninguém sabe com que resultados. Alem do mais, apenas raramente existe uma estreita relação entre a filosofia de uma pessoa e 0 seu comportamento político. Frege foi um pensador agudo sobre as questões de lógica e sobre os fundamentos da matemática, mas a política que comparece em seus diários e do tipo mais primitivo. E é exatamente essa a desgraça; acontecimentos como aqueles que sucedem agora na Europa do Leste e, notoriamente, em outras partes do globo e, de um modo mais geral, todos os eventos que envolvem os seres humanos, eludem os esquemas intelectuais - cada um de nós e chamado, individualmente, a reagir e quiçá a tomar uma posição. Se a pessoa que reage é humana, afetuosa, não egoísta, então pode ocorrer que 0 conhecimento da historia, da filosofia, da política e até da física (Sakharov!) sejam úteis, porque ele ou ela podem aplicá-los de um modo humano. Digo "pode ocorrer", porque  excelentes pessoas que se apaixonaram por filosofias abomináveis e explicaram suas ações de maneira desencaminhante e perigosa. Czeslaw Milosz e um exemplo e 0 discuti em Adeus à Razão . Fang Lizhi, 0 astrofísico e dissidente chinês é outro. Ele procura justificar sua luta pela liberdade, fazendo referencia aos direitos universais que "não consideram raça, língua, religião e outras convicções". O universo físico - diz ele - obedece a um "principio cosmológico" nele, todo lugar e direção equivalem a todo outro lugar e direção; a mesma coisa - diz ele - deveria aplicar-se ao universo moral. Essa é ainda a velha tendência universalizante e que vemos claramente aonde leva. De fato, se "não consideramos" as características raciais de um rosto, se não fazemos caso do ritmo de sons que fluem de sua boca, se eliminamos os gestos particulares e culturalmente determinados que acompanham 0 discurso, então não temos mais um ser humano vivo, temos uum monstro, que este morto, não livre. Alem disso, 0 que tem a ver 0 universo físico com a moralidade? Suponhamos, como os gnósticos, que ele seja uma prisão, deveremos, então, adaptar nossos comportamentos morais a suas características carcerárias? É verdade que hoje 0 gnosticismo não é popular, mas as descobertas mais recentes indicam que cedo também 0 "princípio cosmológico" poderia ser um assunto pertencente ao passado. Deveremos mudar nossos comportamentos morais quando isso ocorrer? Apenas raramente uma filosofia sensível encontra uma pessoa sensível que a usa então de um modo humano.Vaclav Havel constitui um exemplo e demonstra claramente que não é a filosofia que deve ser estimulada pelo evoluir das coisas, mas em cada pessoa individualmente. De fato, repetindo-me, a "filosofia" entendida como âmbito de atividade bem determinado e homogêneo existe tão pouco quanto a "ciência". Há as palavras, há também os conceitos, mas a existência humana não revela traço das fronteiras implícitas nos conceitos. DIÁLOGOS SOBRE O CONHECIMENTO – A obra Diálogos sobre o conhecimento, do filósofo e físico austríaco, Paul Feyerabend (1924-1994), ao abordar nas suas partes compostas pela fantasia platônica e ao termino de um passeio não filosófico entre os bosques, trata das ideias do autor que geraram grande interesse e polêmicas nos meios científicos e acadêmicos, dedicando-se à análise dos fundamentos das teorias físicas e da epistemologia da ciência, procurando esclarecer e circunscrever a natureza e o alcance dos pontos de vista quanto aos conceitos científicos e filosóficos aplicáveis à realidade e à atualidade. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
REFERÊNCIA
FEYERABEND, Paul. Diálogos sobre 0 conhecimento. São Paulo: Perspectiva, 2008.

BEM COMUM - A valorização do ambiente é indissociável das dinâmicas alocativas de uma “outra economia”; é mister um ordenamento social capaz de problemati-zar sua tessitura e oferecer um caminho de superaçãoem que a personalidade humana não seja um ente au -sente. Nesse contexto, o etnoconhecimento, com base em enfoques participativos e na busca pelo resgatedos diversos saberes, promove o diálogo e a interaçãoentre os atores envolvidos quanto às questões ligadasao conhecimento tradicional, promovendo proteçãoda diversidade biológica e sociocultural [...] A subjetividade e o bem comum só podem se reconciliar no plano de uma sociedade que não seja meramente calculista e em que o ser humano não destitua nem ao outro (política) nem a si (psique) na produção de um caminho ecossocioeconomicamenteengajado no caráter problemático de uma vida huma-na associada que não pode destituir, como elementoestruturante, o seu próprio processo de socialização. Trechos do artigo Bem viver para a próxima geração: entre subjetividade e bem comum a partir da perspectiva da ecossocioeconomia (Saúde Social, 2017), de Carlos Alberto Cioce Sampaio, Craig David Parks, Oklinger Mantovaneli Junior, Robert Joseph Quinlan e Liliane Cristine Schlemer Alcântara. Veja mais aqui.

HERBALISMO: AS PLANTAS CURAM – A obra As plantas curam (Vida Plena, 1997), de Alfons Balbach, trata sobre o preparo e a aplicação das plantas na ciência fitoterápica, noções de hidroterapia, plantas medicinais, enfermidades e aplicações das ervas e relação dos nomes científicos e populares das plantas. Veja mais aqui.

MEDICINA ALTERNATIVA – A obra Medicina alternativa de A a Z (Natureza, 2004), de Carlos Nascimento Spethmann, trata sobre agentes da saúde, enfermidades e tratamento, alimentos saudáveis que promovem a vida, o ar puro e a exposiição ao Sol, partindo da ideia de que “O homem é parte da natureza, e está sujeito às suas leis, como qualquer outro ser vivo“. Veja mais aqui.


POEMA PARA AS PERNAS – Entre os poemas da premiada escritora e médica Lilian Maial, integrante da Rede de Escritoras do Brasil e autora participante de diversas antologias, destaco o Poema para as pernas: Sonho um sonho de pernas para o ar, / muitas pernas, / sem corpo e sem caminhar. / Pernas sem pressa, / sem tropeços de rimas, / pernas de sonhar. / Nunca havia reparado nas pernas, / não as minhas, / que as ruas estão apinhadas de pernas. / Cá do alto das letras, / espio as pernas de serifas, / a serpentear o poema. / Para que as quero pernas, / se deixo que tu me pises as carnes brancas, / que me enlaces, com as tuas, / as minhas trôpegas e sonolentas, / num balé aflito? / Para que as uso, / se de ti não corro, / se as asas nos conduzem / a bailar na sala? / Se já não vou, / se já não pulo, / se nem pretendo esfolar / sola no sertão de versos? / As velhas veias traem o fluxo. / O sangue embola com a rima. / Ah! Trombose! / Um novelo - teu beijo - coagulado em minhas pernas! / Teu tronco, em trança, o calor, o sangue... / Onde o chão de pisar? / Para que as quero, / se no teu quarto não preciso delas para caminhar, / se passeio na escuridão da tua ausência? / Não! Eu quero os braços / de acariciar cabelos, / as ventas de cheirar aromas, / a boca de expiar culpas / e remoer temores. / Pintar um poema sem pé, nem cabeça, / de penas e plumas. / Pernas de destrancar volúpias, / desenhar traços e versos / na tua pele nua, / e, na fumaça do cigarro, / brincar de esculpir teu torso. / Pernas, para que as quero, / se a noite passa num longo embate, / que maltrata, deixa insone e tira o fôlego? / Pernas para correr / e não alcançar. / Não quero pernas, / as velhas pernas, / de sinuosas veias, / que já esmagaram a saudade, / pisotearam distâncias! / Quero o repouso sereno, / no sopé da montanha, / para escalar lonjuras. Veja mais dela aqui, aqui, aqui e aqui.


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