REVIVO NELA AS MIL & UMAS NOITES DE AMOR... – A ânsia do inevitável
e a vejo pela vidraça no outro vão: está de costas, linda de morrer. O olhar
atento inquieto à minha procura, dá-me o perfil de sua feição embelezada, mão
cobrindo a boca. Ela não vê e olha pro outro lado, o nariz adunco, os lábios protuberantes
arfam salientes, as alças nos ombros acolhedores, a blusa branca colada ao
corpo, os contornos de sua assimetria aconchegante, braços inquietos, a cintura
antecipa suas ancas na beleza de seus glúteos formosos e dançantes na saia
vermelha justa, pronunciando suas coxas voluptuosas, deixando-me passear meus
olhos pela fresta de suas pernas torneadas sobre o salto alto. Meu coração
dispara antecipado e apresso o passo ao seu encontro, contorno todo o vão até a
entrada para divisá-la ao longe, olhos arregalados com sua extrema alegria, a
correr em minha direção, inebriando-me com sua escandalosa aproximação. Ali ela
transpira sedução por todos os poros, olhos nos olhos, devoradora, conspirando
pegação atrativa. Sinto-a inteira a se jogar em mim, o hálito perfumado do
batom nos lábios, o sorriso fulgurante, o decote denunciando seus apetitosos
seios instigantes ao meu dispor. Abruptamente beija-me e me puxa pela mão:
Vamos! Leva-me desesperadamente apressada pelos corredores, até divisarmos a
porta, solta minha mão, chave na fechadura, acende a luz e me puxa, mala e
cuia, pro seu regaço. Descontroladamente ela se remexe levantando lateralmente
a saia, tira a calcinha e me presenteia: Toma, sou toda tua! Abre-me os braços:
Vem! E seu braço de saudades me envolve e me beija súbita a descabelar-se revolvendo-me,
sua mão repousa sobre meu sexo, aperta-o, agarra-o, apossa-se e, loucamente,
desfivela meu cinto, desataca minha calça, baixa o zíper e sua mão se enfia por
dentro da cueca, apoderando-se do meu pênis revolto enrijecido, agarra-o com a
saia levantada, puxando-o para guardá-lo entre as coxas, deslizando nele seus
lábios vaginais, resolutamente a suspirar gemente. Envolvo-a com meus braços, solto
a presilha do sutiã, removo-lhe as alças e seus seios transbordam em meu peito,
arrasto-a até esmagá-la contra a parede, sua coxa envolve-me e ronrona com a
insinuação da minha glande intrusiva por sua gruta afogueada com o inchaço
púbico esborrando seus desejos. E se derrama extravasando-se delirante, lavando-me
a alma inteira, dançante esfregação com o deslizado penetrante por suas
entranhas subterrâneas, e ela é pródiga extasiada a gritar exultante a reviver
toda plenitude de nosso mútuo gozo arraigado pelo reencontro. Veja mais aqui
& aqui.
DITOS &
DESDITOS
Alma encontra alma nos
lábios dos amantes... Não temas o futuro, não chores pelo passado... Um poeta é
um rouxinol que se senta na escuridão e canta para alegrar sua própria solidão
com doces sons...
Pensamento do
poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
ALGUÉM FALOU
Quando o tempo
marca nossos rostos, conta nossa história. Através dela, podemos vislumbrar a
beleza de nossas almas.... Não se deve destruir um sonho, mesmo que pareça um
pouco louco... Eu clamo por ternura... Leve-me para dançar esta noite...
Pensamento da
cantora e escritora francesa Michèle Torr.
AS MEMÓRIAS DE CANETTI – [...] Tudo o que um homem vivenciou, ele deve levar consigo. Se
o esqueceu, deve ser lembrado. O que dá valor a um homem é incorporar tudo o
que experimentou. Isso inclui os países onde viveu, as pessoas cujas vozes
ouviu. Inclui também suas origens, se ele puder descobrir algo sobre elas...
não apenas a experiência pessoal, mas tudo o que diz respeito ao tempo e ao
lugar de seus começos. As palavras de uma língua que alguém pode ter falado e
ouvido apenas na infância implicam a literatura na qual ela floresceu. A
história de um exílio deve incluir tudo o que aconteceu antes, bem como os
direitos reivindicados posteriormente pelas vítimas. Outros caíram antes e de
maneiras diferentes; eles também fazem parte da história. É difícil avaliar a
justiça de tal reivindicação à história... Devemos saber não apenas o que
aconteceu com nossos semelhantes no passado, mas também do que eles eram
capazes. Devemos saber do que nós mesmos somos capazes. Para isso, muito
conhecimento é necessário; De qualquer direção, a qualquer distância que o
conhecimento se apresente, devemos buscá-lo, mantê-lo vivo, regá-lo e
fertilizá-lo com novos conhecimentos. [...]. Trechos extraídos da obra The Memoirs of
Elias Canetti: The Tongue Set Free/The Torch in My Ear/The Play of the Eyes
(Farrar, Straus and Giroux, 2000), do escritor búlgaro Elias
Canetti (1905-1994), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1981 e que
na sua Crowds and Power (Farrar Straus
Giroux, 1984), ele expressa que: [...] É sempre o inimigo
quem começa, mesmo que não seja o primeiro a falar, certamente estava
planejando; e se não estava planejando, estava pensando nisso; e, se não estava
pensando nisso, teria pensado nisso. [...] É somente em meio à multidão
que o homem pode se libertar desse medo de ser tocado. Essa é a única situação
em que o medo se transforma em seu oposto. A multidão de que ele precisa é a
multidão densa, na qual corpo se pressiona contra corpo; uma multidão, também,
cuja constituição psíquica seja densa, ou compacta, de modo que ele não perceba
mais quem está pressionando contra ele. Assim que um homem se entrega à
multidão, ele deixa de temer o seu toque. Idealmente, todos são iguais ali; nenhuma
distinção importa. Nem mesmo a de sexo. O homem pressionado contra ele é o
mesmo que ele mesmo. Ele o sente como se sente. De repente, é como se tudo
estivesse acontecendo em um mesmo corpo. [...] A mão que recolhe a água
é o primeiro recipiente. Os dedos de ambas as mãos entrelaçados formam a
primeira cesta. [...]. No
seu livro Die gerettete Zunge: Geschichte einer Jugend (Fischer
Taschenbuch, 1977), expressa que: […] Atravessar as fronteiras nos Balcãs, onde
guerras sangrentas foram travadas, não era considerado um prazer; em muitos
lugares, era até impossível, e as pessoas evitavam. Mas, enquanto passeávamos
na charrete e depois, quando desmontamos, vimos pomares e hortas exuberantes,
berinjelas roxas escuras, pimentões, tomates, pepinos, abóboras gigantes e
melões; fiquei maravilhado com a variedade de coisas que cresciam ali. "É
assim aqui", disse minha mãe, "uma terra abençoada. E é uma terra
civilizada, ninguém deveria se envergonhar de ter nascido aqui. [...]. Na
sua obra The Secret Heart of the Clock: Notes, Aphorisms, Fragments,
1973-1985 (St Martins Press, 2005), expressa que: […] O processo de
escrita tem algo de infinito em si. Mesmo sendo interrompido todas as noites, é
uma única notação, e isso parece ainda mais verdadeiro quando se dispensa
qualquer tipo de artifício artístico. [...]. No seu livro
Kafka other trial: The letters to Felice ( Marion Boyars Publishers, 2000),
encontrou-se que: […] Como eu, tolo que sou, poderia continuar sentado no meu
escritório, ou aqui em casa, em vez de pular num trem com os olhos fechados e
abri-los apenas quando estiver com você? [...] Já no The voices de Marrakech (
Marion Boyars , 2002), destaco: […] Viajando, aceita-se tudo; a indignação
fica em casa. Observa-se, escuta-se, e o entusiasmo é despertado até pelas
coisas mais terríveis, simplesmente porque são novas. Os bons viajantes são
insensíveis. [...] E
no seu The human province (Farrar Straus & Giroux, 1986), pode-se
destacar: […] Quero continuar me destruindo
até me sentir inteira. [...] Nada entre todas
as emoções humanas é mais belo e mais desesperançoso do que o desejo de ser
amado por si mesmo, e somente por si mesmo. Afinal, quem é você, diante de
incontáveis outros, para merecer tal preferência? Não queremos ser
intercambiáveis; que ninguém possa nos roubar essa distinção. Uma
inconfundibilidade figurativa que se pretende espacial e ritualística. Como se
a Terra tivesse apenas um céu, e o céu apenas uma Terra, reivindicamos a
validade de ambos e, se possuímos um, queremos ser o outro. Na realidade,
porém, somos repletos de planetas, e incontáveis céus nos abrem suas portas. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
TODOS OS HOMENS SÃO MENTIROSOS - [...] Você
quer que esses leitores conheçam a verdade, conceito perigoso, se é que um dia
existiu. Você quer redimir Bevilacqua em seu túmulo. Você quer dar a Bevilacqua
uma nova biografia urdida com pormenores baseados em lembranças reconstruídas
com palavras. E tudo isso pela mísera razão de que a mãe de Bevilacqua nasceu
no mesmo canto do mundo que você. Que empresa vã, meu amigo! [...] Não
leve a mal meus comentários: Bevilacqua não era um desses mal-educados que
sentam no sofá e depois você não consegue desgrudá-los dali nem com benzina. Ao
contrário. Era uma dessas pessoas que parecem incapazes da menor grosseria, e
era essa mesma qualidade que tornava tão difícil pedir a ele que fosse embora.
Bevilacqua tinha uma espécie de graça natural, uma elegância simples, uma
presença anônima. Magro e alto como era, movia-se lentamente, como uma girafa.
Sua voz era ao mesmo tempo rouca e tranquilizadora. Seus olhos túrgidos,
latinos, eu diria, davam-lhe um ar sonolento e se fixavam na gente de tal
maneira que era impossível olhar para outro lugar quando ele falava. E quando
estendia seus dedos finos, amarelos de nicotina, para segurar a manga de seu
interlocutor, era preciso deixar-se segurar, sabendo ser inútil qualquer
resistência. Só na hora da despedida eu percebia que ele me fizera perder a
tarde inteira. [...] Veja se me entende: Bevilacqua diferenciava o falso
verdadeiro do verdadeiro falso, e o primeiro lhe parecia mais real. Você sabia
que ele adorava documentários, quanto mais áridos melhor? Antes de saber que
estava publicando um romance, eu jamais teria imaginado que ele tivesse talento
para escrever ficção, pois era a única pessoa que eu conhecia capaz de passar
uma noite vendo um desses filmes que contam a vida num frigorífico das Astúrias
ou num sanatório de Algámitas. [...] A questão é que eu não sei se essas histórias
que ele contava eram minhas, dele ou de outra pessoa. Você passa a vida entre
palavras, ouvindo, tentando dar sentido ao que diz e ao que imagina que os
outros estão lhe dizendo, acreditando que algo em particular aconteceu assim ou
assado, como resultado disso ou daquilo, com estas ou aquelas consequências.
Mas nunca é tão simples, não é? Suponho que, se lêssemos sobre nós mesmos em um
livro, não nos reconheceríamos, não perceberíamos que aquelas pessoas fazendo
certas coisas e se comportando de determinada maneira somos nós. Eu sempre
acreditei que conhecia Alejandro, que o conhecia intimamente, como se conhece
uma boneca que você desmontou. Mas não era verdade. [...] “Você não
entende imediatamente algo assim, mesmo quando lhe explicam claramente. Você
não entende porque não sabe como entender. Falta-lhe espaço na mente para
assimilar. Você é incapaz de acreditar na possibilidade do que lhe estão
dizendo, porque nada parecido jamais lhe aconteceu antes. [...]. Trechos extraídos da obra Todos los hombres son
mentirosos (Lugar, 2012), do escritor, editor e tradutor argentino Alberto
Manguel, um divertido romance contando do jornalista Jean-Luc Terradillos investigando a vida de
Alejandro Bevilacqua, autor de uma obra-prima literária intitulada Elogio de la mentira, e que foi morto em circunstâncias
misteriosas. Ouve-se então quatro personagens, cujas vozes compõem um quadro
nem sempre coeso da personalidade e da vida de Bevilacqua. O conterrâneo é descrito
pelo autor como: [...] Agora me ocorre que a vida de Bevilacqua foi
apenas um esboço de vida. Em termos literários, não passa de uma compilação de
fragmentos, de retalhos, de episódios inconclusos. Qualquer um deles serviria
para dar início a um grande romance de mil páginas, profundo e ambicioso. Em
compensação, a biografia que lhe conto é bem ao estilo do personagem: indecisa,
indefinida, inepta. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
CANÇÃO DE OUTONO - Perdoa-me, folha seca, \ não posso
cuidar de ti. \ Vim para amar neste mundo, \ e até do amor me perdi. \ De que
serviu tecer flores \ pelas areias do chão, \ se havia gente dormindo \ sobre o
próprio coração? \ E não pude levantá-la! \ Choro pelo que não fiz. \ E pela
minha fraqueza \ é que sou triste e infeliz. \ Perdoa-me, folha seca! \ Meus
olhos sem força estão \ velando e rogando àqueles \ que não se levantarão... \ Tu
és a folha de outono \ voante pelo jardim. \ Deixo-te a minha saudade \ - a
melhor parte de mim. \ Certa de que tudo é vão. \ Que tudo é menos que o vento,
\ menos que as folhas do chão... Poema da escritora, jornalista, pintora e
professora Cecília Meireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles –
1901-1964). Veja mais aqui.







