domingo, julho 11, 2021

SEI SHÔNAGON, TAMARA KAMENSZAIN, NINA MORAES & ARMANDO LÔBO

 

 

TRÍPTICO DQP –- Mais um dia... – Ao som da música Atrás das máscaras, do álbum Técnicas modernas do êxtase (Delira, 2011), no filme-ópera Último dia (2021), de Armando Lôbo, com Natália Duarte, Virginia Cavalcanti, Surama Ramos, Walmir Chagas e Marcelo Sena (Veja mais abaixo) – Acordei com o movimento do travesseiro e os sons da manhã. Procurei tomar pé da situação e qual não foi a minha surpresa: era O livro do travesseiro (34, 2013). Como assim? Isso mesmo. Estava inscrito na capa: Sei Shônagon - aquela mesma do The Pillow Book de Greenaway. Investiguei, desconfiado, como podia tal transformação. Ultimamente tem me ocorrido cada uma. Pois é, ajeitei-me na cama e comecei a ler. A cada página uma surpresa: ali estava tudo o que vivi e sou - devaneios, quedas, sucessões de idas e vindas. Atento a cada parágrafo, frase por períodos e, pelo volume, vi que era um tanto a vencer. Persegui e era como se estivesse procurando o começo ou o fim de O Livro de Areia de Borges e relesse mais curioso que antes: ... porque nem o livro nem a areia têm princípio ou fim... Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo... Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta... Refleti. E depois surgiu um trecho de outro conto dele, O espelho e a máscara: ... A guerra é o belo tecido dos homens e a água da espada é o sangue. O mar tem seu deus e as nuvens predizem o futuro... E se misturava com trechos do Evangelho apócrifo da infâmia. O que é isso? Outros labirintos ou será que estou enlouquecendo, o que está acontecendo? Mais desconfiado que antes, esfreguei os olhos e lá estava inscrito o que me tocou profundamente: Quanto a pássaros, embora pertença a terras estrangeiras, é muito enternecedora a cacatua. Dizem que ela imita tudo o que falam as pessoas. O cuco-pequeno. A galinha d’água. A narceja. A gaivota, pássaro-da-capital. O pintassilgo-verde. A papa-moscas... Ah, sim, agora era ela como se me descobrisse um xexéu incorrigível. Cabreiro, além da conta, compreendi o que ela quis dizer: uma sensação inenarrável de quem não estava só ali. E não estava mesmo, logo a sua presença preencheu meu quarto e era ela mesma a me dizer: Um homem que não tem nada em particular para recomendá-lo discute todos os tipos de assuntos ao acaso, como se soubesse de tudo. Na vida, existem duas coisas confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura... Sim isso eu já tinha lido no outro livro dela. E o que está havendo? Ela sorriu, beijou-me as faces e saiu como nunca mais. E me fez pensar na vida. Era só mais um dia. Sim, mais um dia, agora é só viver.

 


A vida imita a arte... - Imagem da artista visual & grafiteira Nina MoraesA leitura do livro me trouxe outras cenas fora das suas páginas e ao meu redor aconteceram coisas estranhas. Tudo parecia muito real naquela hora e dali eu presenciava um fato ocorrido e tão lamentável como aquela triste situação em que foi detratado o tenente Gustl do Arthur Schnitzler: Deus do céu, tanto faz se outro sabe ou não!... eu sei, e isto é o que importa! Sinto que sou outro, já não sou o que fui há uma hora. – Sei que estou desqualificado e por isso devo estourar os miolos... Que vexame! E me sentia como se eu fosse ele diante daquilo tudo e não conseguia concatenar direito. Não sabia onde por os pés, as mãos, nem para onde ir. Da mesma forma aquela outra deplorável circunstância em que me vi na pele do Marlow da Juventude de Conrad a perorar: Lembro da minha juventude e de um sentimento que nunca mais haverá de voltar – o sentimento que eu poderia durar para sempre, mais do que o mar, do que a terra, do que todos os homens; o ilusório sentimento que nos atrai para alegrias, para perigos, para o amor, para o vão esforço – para a morte... O sentimento da desolação me trazia aqueles versos da Tamara Kamenszain: Quem por palavra fala de seus sonhos / quando a vigília os está vigiando ou / quando na tela do lençol se grafa / o que com esses sonhos vai envolto? Tudo me ocorria ao mesmo tempo, como se em mim outras pessoas trafegassem e ora eu me via na misériade Abel ou nos relampejos da borboleta Dinalva. Tudo me dava conta de que viver é muito difícil. Ou melhor, como repetia Guimarães Rosa: Viver é muito perigoso. Para mim nunca foi possível viver alheio ao horror, como se arrancasse os olhos, perdesse a audição, nenhum tato, paladar ou olfato, vivesse ao vento como se caísse no poço para nadar pelas águas, entre ondas e abismos oceânicos, alcançando grandes alturas atmosféricas, percorrendo distâncias de tudo isso. Não, não é possível, a tentação das contradições do mundo e as minhas instâncias se engalfinhavam, eu sabia, a vida é luta...

 


O último dia... – Não sei onde fui parar, sei que ouvi uma estrofe de Antero de Quental que eu esquecera com o tempo e tudo mudava claroscuramente para que eu visse uma porta e, atrás dela, um palco. Ao atravessá-la, cochichos nas coxias, agucei as ouças: Que nada, meu! Do pescoço pra baixo tudo é canela, deu-se as costas às punhaladas. Quem o otário para levar vantagem, o sabido pronto para a rasteira e a cama-de-gato! Não entendia direito a que se referiam e muito menos me dei conta da morte a rondar dançante com seus tamancos enormes. Êpa! Mais adiante mulheres solfejavam e eu não conseguia atinar. Uma voz irrompeu, era de um morto. O que ele disse era de si e de seus infortúnios. Ao silenciar, percebi os resmungos de uma mulher: o brasileiro só é solidário... Quem? Logo deu pra perceber que não era apenas uma mulher, mais. Sim, mais de uma, porque a morte passou por perto, acompanhei seus passos até um trio cantatriz que carpia - terços, novenas, lamúrias, o que Freud viu na festa dos sacrifícios. O defunto então se mexeu, eu vi, ninguém mais, acho. Depois se levantou e depôs: Todo mundo é bom, apesar do lulixo! Todos ouviram e se entreolharam questionadores. Nem eu, nem ninguém, quem explicasse. Logo a saudação dos que ali estavam era um misto de espanto e asco, razão pela qual comemoraram hesitantes: Ele está vivo, viva! Vivôoooo! Afetos e antipatias se deram, era o último dia e a paráfrase nelsonrodrigueana: o brasileiro só é solidário na desgraça! Tanto já era carnaval desde não sei quando. Assim, todo dia passa, evoé. Até mais ver.

 

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