domingo, fevereiro 27, 2011

HENRY MILLER, FRANK ZAPPA, O HOMEM CÓSMICO DE JUNG, TIRESIAS, FÉLIX LABISSE, BERTHA LUTZ, ALDEMAR PAIVA, ORAÇÃO DA CABRA PRETA & TURISMO RELIGIOSO

Logo estarei em meu jardim de rosas. Logo. Estou esperando. Rosas cheias de espinhos. Aromas falsos. Melhores que os verdadeiros. O original é vulgar. Por seu passado. Foi só uma tentativa, uma tentativa. A ilusão não é o real. A cópia é perfeita. A cópia é perfeita... Como a vejo. Como a sinto. De volta ao meu jardim esta noite. Novamente rosas. Mesmo que só haja uma... Um lindo dia. Se você ao menos soubesse o que eu fiz para ser bonita...
Trecho extraído do drama Tiresia (2003), dirigido por Bertrand Bonello, baseado na lenda de Tiresias, conta uma mulher transexual que é sequestrada por um homem e deixada para morrer na floresta. Ela é salva por uma família e recebe o presente de contar o futuro. Pretende o filme uma releitura contemporânea do mito grego de Tirésias, o que coloca sua narrativa cinematográfica em relação a uma história exterior a ela. Tirésias era um profeta com dons adivinhatórios dados por Zeus como recompensa pelo fato de sua cegueira advir de um castigo de Hera. Certa vez, ao escalar o monte Citerão, deparou-se com duas cobras em cópula e separou-as. Conta-se ainda que teria matado a fêmea. Nas diversas variações do mito, mantém-se a separação das serpentes por Tirésias, o que teria lhe transformado em mulher. Passados sete anos, voltou ao mesmo monte Citerão e novamente encontrou duas cobras acasalando-se e mais uma vez as separou, o que lhe devolveu sua condição masculina.

A SOLIDÃO DE TIRÉSIAS – Nada mais me resta além da sina tebana e solitária. Depois do fato, eram duas cobras em cópula no monte de Citerão. Ao matar uma delas, a fêmea, fui transformado em mulher, disso me fiz prostituta famosa, do lar ao lupanar. Não me bastou, restituída a masculinidade, a cegueira por flagrar a nudez de Atena. Primeiro me veio a ninfa Liríope, a me interrogar sobre Narciso: a maldição dele em vê-lo a si próprio. As mulheres tebanas não me enfeitiçaram, mas a paixão pelos rituais báquicos trouxeram as bacantes para o monte Citéron com as serpentes em seus cabelos, amamentando gazelas e lobos selvagens, promovendo a fartura do vinho, do mel, do leite e água que brotavam do solo. Não previa que a prisão do deus Dioniso traria a punição com o gigante terremoto e o incêndio devastador contra a repressão de Penteu que foi vestido de mulher pelo deus, para ganhar um tirso e peles de cervo. Por isso veria embriagado dias Tebas e dois touros para levá-lo. Nada adiantaria a fama pela Acaia, recolhi-me ao Hades e recepcionei Ulisses no canto 11 da Odisseia homérica e adverti Édipo sobre sua própria sentença, e tomei parte da Divina Comédia de Dante, minhas tetas surrealistas de Apollinaire e me tornar Orlando para Virginia Wolf, inspirar o filme de Bertrand Bonello, de reinar nas Bacantes de Zé Celso Martinez Correa e ser cantado no Sermão do fogo na Terra inútil de Eliot: Eu, Tiresias, cego embora, palpitando entre duas vidas, / Um anciao de enrugados peitos femininos, posso ver / Na hora violeta, a hora crepuscular que se empenha / A caminho de casa, e faz voltar do mar o marinheiro, / E a datilografia, a hora do cha, tira a mesa do cafe, / Acende o fogo, e prepara a sua refeicao de conservas... Eu, Tiresias, um ancião de tetas enrugadas...  (E eu, Tiresias, como que sofri de antemão / Tudo o que se cumpriu nesse diva ou cama; / Tambem eu aguardava a esperada visita. / Ei-lo que chega, o carbunculoso moco, / Observada a cena, predisse o resto... Não sou nada mais que um adivinho e sábio cego no meu próprio inferno, capaz apenas de ver coisas invisíveis. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui & aqui.


La fille de Tirésias, 1973, do pintor, ilustrador e designer surrealista francês Félix Labisse (1905-1982)

DITOS & DESDITOS - A legislação civil vigente a nenhuma mulher dispensa justiça: nem à mulher fraca que se entrega ao homem sem a sanção da lei, nem à mulher forte da Bíblia, reduzindo-a pelo casamento a situação de menor. Pensamento da bióloga e advogada brasileira Bertha Lutz (1894-1976). Veja mais aqui.


ALGUÉM FALOU: Se você acabar com uma vida tediosa e miserável porque você ouviu seus pais, seus professores, seu padre ou alguma pessoa na televisão, dizendo para você como conduzir a sua vida, então a culpa é só sua e você merece. Droga não é o mal. A droga é um composto químico. O problema começa quando pessoas tomam drogas como se fosse uma licença para poderem agir como babacas. Sem um desvio do normal, progresso é impossível. A mente é como um paraquedas. Só funciona se abri-lo. Pensamento do compositor e multi-instrumentista estadunidense Frank Zappa (1940-1993). Veja mais aqui.

O HOMEM CÓSMICO – [...] O homem cósmico não significa apenas o começo da vida, mas também o seu alvo final, a razão de ser de toda criação [...]. Trechos da obra O homem e seus símbolos (Nova Fronteira, 1968), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), observando o ser humano acima dos instintos isolados e dos mecanismos intencionais. Veja mais do autor aqui & sobre a raça cósmica de José Vasconcelos aqui.

A HORA DOS ASSASSINOS – [...] Dá-lhe um nome feio: traição. Mas é justamente essa índole traiçoeira que o diferencia do resto do rebanho. É sempre traiçoeiro e sacrílego, se não literalmente pelo menos em espírito. Comporta-se, no fundo, como um traidor porque tem medo de sua própria humanidade, que aproximaria de seu semelhante. [...]. Trecho extraído da obra A hora dos assassinos (L&PM, 2004), do escritor estadunidense Henry Miller (1891-1980). Veja mais aqui e aqui.

CAFONETOSMinha amada exuberante / de alegria, coisa e tal / às vezes fica implicante / por um motivo banal. / Sua atitude petulante / nesse grilo pega mal / mas, como sou tolerante / fica na minha legal. / Ela bebe e ameaça / uma tragédia medonha / que eu sei entender de graça / no outro dia, risonha / pede perdão e me abraça / - Quem ama não tem vergonha. Poema extraído da obra Monólogos e outros poemas (Recife, 1987), do saudoso poeta, cordelista, radialista, compositor, produtor e publicitário Aldemar Paiva (1925-2014), com prefácio de Chico Anysio. Veja mais aqui.


A arte do pintor, ilustrador e designer surrealista francês Félix Labisse (1905-1982).


ORAÇÃO DA CABRA PRETA - Imagem: ilustração de J. Lanzellotti. História recolhida por João Climaco Bezerra. -Nesta encruzilhada eu me ajoelho agoniado e aflito chamando todos os cães e a Cabra Maldita. Na lombada da serra negra tem uma cabra amarrada; dá 7 litros de leite para alimentar todos os diabos, eles tem 3 cavaleiros fortes que são: Ferrabrás, Satanás e Caifás, eles 3 eu chamo à minha presencia que eu não terei medo que eu sei que eles vem mandados da Cabra Preta maldita; ainda Caifás, anda Satanás, anda Ferrabrás, trazei-me à minha presencia o animal e a milhar que tem de dar amanhã na loteria do Rio de Janeiro, com todos os pontos grandes e pequenos, que tu não trazendo eu te amarrarei com as forças do credo debaixo do meu pé direito. Observação: Deve ser rezada despido, à noite, numa encruzilhada deserta com uma vela acesa. De preferência em companhia de outra pessoa. Uma fica no centro da encruzilhada e a outra vai para o braço esquerdo da cruz de estradas. Uma puxa a reza e a outra segura a vela. Observação2: As cópias dessa oração são distribuídas às escondidas, que o pecado mortal é muito grande. E para que ela tenha toda a sua força, desenha-se no mesmo papel uma cabra com uma estrela vermelha na testa, quatro chifres e as patas dianteiras levantadas e com garras enormes. Oração muito corrente no interior do Ceará, segundo Caio Carneiro Porfirio. 
FONTE:
BEZERRA, João Climaco. Não há estrelas no céu. Rio de Janeiro: José Olympio, s/d.
DANTAS, Paulo (Org.). Estórias e lendas do norte e nordeste. São Paulo: Edigraf, s/d.

TURISMO RELIGIOSO - Conceito de Turismo Religioso: De acordo com Andrade (1991, p. 77): “Conjunto de atividades com utilização parcial ou total de equipamentos e a realização de visitas a lugares ou regiões que despertam sentimentos místicos ou suscitam a fé, a esperança e a caridade nos fiem de qualquer tipo ou em pessoas vinculadas a religião.” Isso mostra que para se praticar o turismo, seja ele em qualquer de sua segmentação e preciso ter motivação. O turismo religioso teve inicio quando os povos começaram a cultivar o habito de viagens de caráter religioso, no século III e IV na era cristã, visitavam mosteiros e conventos da síria, do Egito e de Belém a fim de encontrar-se com os “servos de Deus”para pedir-lhes conselhos, orações, bênçãos e curas. Foi também o inicio de visitas a igrejas e santuários onde nos terrenos se encontravam os restos mortais de mártires celebres e aos locais por onde Cristo seus apóstolos e discípulos passaram, viveram e morreram, alem de outros lugares celebrizados por eventos importantes do Antigo Testamento. No ano 333, há um registro dotado de um roteiro com itinerários bem detalhados para as viagens de devotos e fieis que partiram de Bordeus, na França rumo a Jerusalém. As indicações assemelham-se as utilizadas nos modernos roteiros técnicos. Atualmente a historia se repete e os destinos religiosos se multiplicam, à medida que surgem boatos ou fatos de aparições ou de realizações de milagres e curas efetuadas por algum religioso ou místico. As noticias e o marketing direto ou indireto nos locais onde acontecem os “feitos extraordinários” atraem os agentes turísticos, que em geral, se antecipam a qualquer medida ou manifestação de autoridades religiosas. O grande nó desta modalidade de turismo se encontra nas estruturas de conceituação que antepõe a perspectiva da necessidade enraizada na vivência religiosa contra a perspectiva da liberdade pelo fazer( lazer)  do turismo.  (Oliveira 2000) O turismo se utiliza da religiosidade, da fé, de crenças, de superstições ou mesmo da simples curiosidade popular para atrair pessoas a lugares que se não fossem pela motivação espiritual não seriam um destino atrativo como em outro segmento do turismo, o turismo religioso tem seus pros e contras. A massificação, congestionamentos, poluição, super lotação de igrejas e templos são alguns efeitos negativos, desse tipo de turismo, pois as cidades em sua maioria, não possuem uma estrutura para receber visitantes, são localidades simples, de comunidades humildes que com o tempo vão tomando dimensões maiores com a exploração turística. Por outro lado, este segmento é uma possibilidade de diversificação de renda e movimentação da economia local nas localidades receptoras. Localidades Religiosas mais visitadas: MECA- é a cidade santa do mundo árabe, berço de Maomé, onde a base econômica esta no comércio resultante da grande movimentação dos peregrinos. Todos os mulçumanos esperam ir em peregrinação. VATICANO- atrai uma multidão de fieis para receber a bênção do Papa na Praça São Pedro e é considerado o centro de fé cristã. SANTIAGO DE COMPOSTELA- chamada rota da fé na Espanha, as pessoas em peregrinação  buscam a cura, esperança e paz. A historia e o misticismo se confundem ao longo da rota medieval, com marcas por toda a paisagem. Atualmente é reconhecida pela Unesco como o primeiro Itinerário Cultural Europeu da Humanidade, com todos os monumentos históricos tombados. LOURDES- é dedicada a Bernadete, a Santa para quem a mesma Nossa Senhora teria aparecido em 1958. FÁTIMA- localizado em 130 quilômetros e duas horas de Lisboa, é acidade onde a Santa de mesmo nome teria aparecido para três crianças portuguesas em 1917. Se tornando em um dos maiores centros de peregrinação religiosa do mundo, comparável a Santiago, que também fica na Península Ibérica.  BASILICA NACIONAL DE APARECIDA- localizada a 170 quilômetros de São Paulo, considerada a capital brasileira da fé, apresentam, nos feriados religiosos, uma programação de eventos que estimula os visitantes a permanecerem na cidade.  É considerada a segunda maior do mundo, fica tomada de romeiros. Padroeira do Brasil, data do século XVIII, quando os pescadores lançaram as redes junto ao porto de Itaguaçú, no rio Paraíba do Sul, pescando a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição e, 1717. Era uma imagem esculpida em madeira escura com anjos aos seus pés. Em 1953 o dia 12 de outubro oficializou-se o Dia de Nossa Senhora Aparecida. JUAZEIRO DO NORTE- o nordeste brasileiro os devotos buscam a satisfação espiritual junto ao Padre Cícero, conhecido e venerado por romeiros da região. Como vimos em vários lugares do mundo e do Brasil existem localidades próprias para a realização do turismo religioso. No entanto, vimos que essas localidades são todas voltadas a religião dos “brancos”, ou seja, as maiorias desses lugares são de religião católica, onde na antiguidade os negros não podiam fazer suas orações, devido a repressão de seus senhores ao entrar em suas capelas e igrejas, pois não era vistos como filhos de Deus e sim do “demônio” . Com esse impedimento, os negros sentiram a necessidade de alternativas para realizar suas orações sem que fossem castigados por isso. Criando assim, sua própria religião, onde eles através de outros nomes cultuavam o mesmo Deus. Apesar da maioria dos brasileiros terem descendência negra ainda existe muito preconceito com relação a sua raça, cultura, religião, neste ultimo caso, muitas vezes serem mal interpretados pela falta de conhecimento geral, já que a população não procura conhecer sua cultura e acredita somente no que houve. 
REFERÊNCIAS
ACERENZA, Miguel Angel. Promoção Turística: um enfoque metodológico. São Paulo: Pioneira, 1991.
ANDRADE, José Vicente de Andrade. Turismo – Fundamentos e dimensões. São Paulo: Ática, 1999.
ANSARAH, Marilia Gomes. Turismo Segmentação de Mercado. São Paulo. Edtora Futura, 2000.
CARVALHO, J. J. de. Cantos Sagrados do Xangô de Recife. Brasília: Fundação Cultural Palmares/MEC, 1993.
DIAS, Reinaldo; AGUIAR, Maria Rodrigues. Fundamentos do Turismo: conceitos, normas e definições. Campinas:Alínea, 2002.
BARRETTO, Margarita. Manual de iniciação ao estudo do turismo. Campinas; Papirus, 2000.
BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. 5  ed., São Paulo: Editora SENAC, 2001.
MENDONÇA, Rita. Turismo ou Meio Ambiente: Uma falsa oposição. Amália Innês G. de Lemos (Org.). São Paulo: Hucitec, 1996.
MOTA, Keila Cristina Nicolau. Marketing turístico: promovendo uma atividade sazonal. São Paulo: Atlas, 2001.
RUSCHMANN, Doris. Turismo e Planejamento Sustentável: a proteção do meio ambiente. 8. ed. Campinas: Papirus, 1997.
TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi; NETTO, Alexandre Panosso. Reflexões sobre um novo turismo: política, ciência e sociedade. Série turismo. São Paulo. Aleph, 2003.
TRIGUEIRO, Carlos Meira. Marketing e turismo: como planejar e administrar o marketing turístico para  uma localidade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

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