segunda-feira, julho 07, 2014

FEYERABEND, AMBER DAWN, NADIA ANJUMAN & SAMEERA MOUSSA

 Viva! A vida é arte! Vamos vidartear!...

 


QUANTO VALE UMA VIDA, GRACE… - Horizonte estreito e cabelos ao vento, aflição nas pernas e os disparos errantes: para fuga basta apenas o ermo ou a escuridão. Para caçada de gângsters ou policiais, quase não há saída. A bela Grace fugitiva atravessa a noite, paragens pelas montanhas rochosas e um lugar qualquer, onde o cão ladra e “todos têm pequenos defeitos facilmente perdoáveis", cada qual sua história. Uma mão amiga para os demais moradores dali. Ao primeiro contato relutam em aceitá-la e em receber sua ajuda, por fim aceitaram-na por duas semanas, seria decidida sua sorte. Ela treme ajudando-os nas tarefas cotidianas. O seu quid pro quo e a certidão: na vila devia esse favor a eles. E como prova do seu valor auxiliando a todos em suas necessidades. Não mais a forasteira Margaret, agora íntima nos trabalhos domésticos, cuidando dos pequenos, auxiliando no estudo dos jovens, ensaiando música com uma organista, acompanhando anciões noturnos. Pelo bom trabalho passou aos elogios, cumprimentos respeitosos, permitindo-se, enfim, que ali residisse, entre os simples habitantes daquela província. Continuava a realizar suas tarefas quando a implacável surpresa a denunciou com a afixação de cartazes pela polícia: desaparecida. Depois outra batida com novos cartazes: sua efígie no cartaz e a cabeça a prêmio. A inquietação levou ao agravamento. Agora fora da lei, novas exigências por refúgio. Do contrário, seria entregue. Para tanto teria de pagar muito mais pela proteção. Fez-se passiva aos reclamos e aos abusos foi submetida, consumida por todos. Até que tudo se precipita no meio da escravidão braçal e sexual: o estupro e todos fecham os olhos, sabem o que se passa no interior de cada recinto. Todos são evasivos, apenas tolerada. Assim, irrelevante: nada nesse mundo é de graça. Levada a ocupar a carroceria de um caminhão e, novamente estuprada, logo é jogada fora para que todos saibam da sua ingratidão pela tentativa de abandoná-los sem satisfação. Mais submetida a penitências impostas por todos. Agora com uma coleira ao pescoço, presa a uma pesada roda de carroça. Cativa, torna-se indefesa e violentada. Por fim denunciada, ao entregá-la aos captores não se previa o final tão trágico. Era a filha do chefão Mulligan e uma sentença atrás da outra, todos executados. Para ela: o mundo seria melhor sem aquele local, Dogville. Apenas o cão a ladrar, o martírio e a hipocrisia, o refúgio e a arrogância de opressores, o confronto entre o verdadeiro e o falso, quase a mesma coisa: a vingança na ponta da mira. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Se você quer alcançar algo, se quer escrever um livro, pintar um quadro, certifique-se de que o centro da sua existência esteja em outro lugar e que você esteja firmemente conectado à terra. Dessa forma, poderá manter a calma e rir dos ataques que virão. Pensamento do filósofo e físico austríaco, Paul Feyerabend (1924-1994), que na obra Contre la méthode (Seuil, 1988), expressou que: [...] O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale a pena. [...] É claro que a ideia de um método estático ou de uma teoria estática da racionalidade funda-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de sua circunstância social. Os que tomam do rico manancial da história, sem a preocupação de empobrecê-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de segurança intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precisão, objetividade, verdade), esses vêem claro que só há um princípio que pode ser defendido em todas os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo vale. [...] Unanimidade de opinião pode ser adequada para uma igreja, para vítimas temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e conformados seguidores de algum tirano. A variedade de opiniões é necessária para o conhecimento objetivo. E um método que estimule a variedade é o único método compatível com a concepção humanitarista. [...]. Já na obra La ciencia en una sociedad livre (Paidós, 1988), expressa que: [...] introduzir uma nova teoria implica mudanças de perspectiva tanto em relação aos traços observados como aos traços não observados do mundo, e as mudanças correspondentes nos significados dos termos, inclusive os mais fundamentais da linguagem empregada. [...] a influência de uma teoria científica compreensiva, ou de algum outro ponto de vista geral, sobre nosso pensamento, é muito mais profunda do que o admitem os que a consideram tão somente como um esquema conveniente para a ordenação de fatos. De acordo com esta primeira ideia, as teorias científicas são formas de ver o mundo e sua adoção afeta nossas crenças e expectativas gerais e, como conseqüência, também as nossas experiências e a nossa concepção de realidade. Podemos dizer, inclusive, que o que se considera natureza em uma época determinada é um produto nosso, no sentido de que todos os traços que nós lhe registramos foram, primeiro, inventados por nós e usados depois para outorgar ordem àquilo que nos rodeia. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Meu desejo é que o tratamento nuclear do câncer seja tão disponível e tão barato quanto a aspirina... Pensamento da física egípcia Sameera Moussa (1917-1952), que no dia 5 de agosto de 1952, pretendia voltar para o Egito, mas foi convidada para uma viagem. No caminho, seu carro caiu de uma altura de mais de 12 metros e ela morreu instantaneamente. O mistério em torno do acidente cresceu quando descobriram que o convite para a viagem não era verdadeiro, além do desaparecimento do motorista do carro que conseguiu saltar antes do acidente, fazendo algumas pessoas acreditarem em um plano de assassinato. Acredita-se que o serviço de inteligência israelense, o Mossad estaria por trás da sua morte.

 

COMO A POESIA SALVOU A MINHA VIDA - [...] Mentir é o trabalho de pessoas a quem dizem que suas verdades não têm valor. O trabalho de sobrevivência está carregado de mitos e mal-entendidos. O silêncio é obra de pessoas que não conseguem compreender que a mudança é possível. [...] Não, você não escreve sobre amor pela mesma razão que se recusa a aprender a andar de patins. Você não gosta da ideia de introduzir qualquer coisa que exija se machucar repetidamente antes de ficar bom nisso. [...] O silêncio é obra de pessoas que não conseguem compreender que a mudança é possível. [...] A profanação está ensinando? A violência é conhecimento? É assustador um tipo de vida? eu não tinha modelo para o renascimento. Nenhum plano de segunda vinda. [...] Aprendi o poder da identidade – a ideia de que mesmo uma mulher sem instrução, como eu, que não tivesse lido Mary Wollstonecraft ou Bell Hooks, poderia ser uma especialista em feminismo simplesmente por causa da sua identidade como mulher. [...] Eu... acredito que ler passivamente sobre ou testemunhar injustiças nos prejudica - aumenta a desconexão. A parte de nós que está sofrendo não cura no escuro; devemos acender a luz para olhar para ela. Devemos prestar atenção [...]. Trechos extraídos da obra How Poetry Saved My Life: A Hustler's Memoir (Arsenal Pulp, 2013), da premiada escritora canadense Amber Dawn, que também expressa: Quando eu estava pensando em Como a poesia salvou minha vida entrando no “grande mundo literário”, eu o via mais como um subgênero ou um livro oprimido porque ainda existem comparativamente poucos livros sobre trabalho sexual, especialmente de autores que já trabalharam nas ruas, como Eu tenho. Revelar para quem trabalha no trabalho sexual nas ruas ainda parece arriscado para mim. Além de Runaway, de Evelyn Lau (publicado em 1989), ainda não li um livro de memórias em primeira pessoa sobre trabalho de rua. Mais dessas histórias devem estar por aí – talvez eu ainda não as tenha encontrado.

 

DOIS POEMAS - UM GRITO SEM VOZ - O som de passos verdes é a chuva \ Eles estão vindo da estrada, agora \ Almas sedentas e saias empoeiradas trazidas do deserto \ Seu hálito queimando, misturado com miragens \ Bocas secas e cobertas de poeira \ Eles estão vindo da estrada, agora \ Corpos atormentados, meninas criadas na dor \ A alegria desapareceu de seus rostos \ Corações velhos e cheios de rachaduras \ Nenhum sorriso aparece nos oceanos sombrios de seus lábios \ Nem uma lágrima brota dos leitos secos dos rios de seus olhos \ Ó Deus! \ Não saberei se os seus gritos mudos alcançam as nuvens, \ os céus abobadados? \ O som de passos verdes é a chuva. UM POEMA - Não tenho vontade de abrir a boca \ Sobre o que devo cantar...? \ Eu, que sou odiado pela vida. \ Não há diferença em cantar ou não cantar. \ Por que deveria falar de doçura, \ quando sinto amargura? \ Oh, o banquete do opressor \ Bateu na minha boca. \ Não tenho companhia na vida \ Por quem posso ser doce? \ Não faz diferença falar, rir, \ Morrer, ser. \ Eu e minha solidão tensa. \ Com tristeza e tristeza. \ Eu nasci para o nada. \ Minha boca deveria estar selada. \ Oh meu coração, você sabe que é primavera \ e hora de comemorar. \ O que devo fazer com uma asa presa, \ que não me deixa voar? \ Fiquei muito tempo em silêncio, \ Mas nunca esqueço a melodia, \ Pois a cada momento sussurro \ As canções do meu coração, \ Lembrando-me do \ dia em que quebrarei esta jaula, \ Voarei desta solidão \ E cantarei como um melancólico. \ Não sou um choupo fraco \ que se deixa abalar por qualquer vento. \ Eu sou uma mulher afegã, \ só faz sentido gemer. Poema da poeta afegã Nadia Anjuman (1980-2005).

 


DOGVILLE – O filme Dogville (2003), dirigido pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier e estrelado pela atriz australiana Nicole Kidman, conta a história de uma bela fugitiva num lugarejo das montanhas rochosas. Ali ela recebe a acolhida da comunidade e se esconde para, em troca, realizar serviços para a população. Ao ser descoberta como procurada pela polícia, as exigências dos habitantes passam a ser maiores, a ponto de torná-la escrava braçal e sexual, sendo abusada e estuprada pelos moradores, até o momento em que ela é entregue aos gangsters prenunciando um final trágico. O filme faz parte da trilogia USA - Land of Opportunities. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

MAIS OUTRAS DIC’ARTES

 Curtindo o poema sinfônico Das Lied Von der Erde (A Canção da Terra - 1952), do compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911), com a Orchestra Wiener Philharmoniker, regida por Bruno Walter. Veja mais aqui e aqui.



GUSTAV MAHLER – O maestro e compositor austríaco Gustav Mahler (1860-1911) ligou a música do séc. XIX ao período moderno, combinando instrumentos e timbres que expressam as formas criativas, originais e profundas que utilizavam melhodias com grandes implicações para a harmonia, combinação de instrumentos em diversas escalas, além da voz e do coral combinados à forma sinfônica. Seu propósito era romper com os limites da tonalidade e estabelecendo um caráter sombrio ligado ao funesto. Sua indignação chegou ao ponto de certa vez expressar que: "Sou três vezes apátrida! Como natural da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na Alemanha; como judeu, no mundo inteiro. Em toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado!".

 Imagem: The Nude Above Vitebsk (Le nu au-dessus de Vitebsk, 1933), do pintor, ceramista e gravurista surrealista judey russo-francês, Marc Chagall (1887-1985).


ARTUR AZEVEDO E O TEATRO A VAPOR– O dramaturgo, escritor e jornalista brasileiro Artur Azevedo (2855-1908) foi um dos mais populares cronistas de seu tempo e notável comediógrafo. No período entre 1906/1908 escreveu inúmeros sainetes ou minidramas humorísticos que ganharam o título de Teatro a Vapor que apresentavam aspectos da vida teatral do Rio de Janeiro e envolvendo problemas urbanos e políticos, flagrantes da vida doméstica, escândalos e crimes que foram reunidos em livro pelo professor Gerald M. Moser, do State College, da Pensilvânia (USA) e publicado pelo convênio Cultrix/MEC, em 1977. A respeito dos sainetes do autor, o professor estadunidense diz na introdução: “Entre todos os críticos, cronistas e autores de teatro brasileiro, nenhum trabalhou com maior diligência para ver realizado o seu sonho: a criação de um teatro nacional, com seu próprio edifício, sua própria companhia e seu próprio repertório [...]”. Destaco um fragmento de um dos ótimos sainetes Um como há tantos: “Na sala de jantar do Borba, às 10hs da noite, depois do chá. Toda a família está sentada em volta à mesa. O Borba lê um jornal. D. Mimi, sua esposa, palita os dentes; Miloca e Gigi, suas filhas conversam [...] A cozinheira (entrando assustada): Patrão! Patrão! – Todos: Que é? Cozinheira: Tem gente ao galinheiro! Todos: Hein? Cozinheira: Para que são gatunos! Borba (tremendo): Gatunos? Cozinheira: As galinhas estão fazendo muita bulha! Borba: Que diabo! O copeiro não está aí? D. Mimi: Foi dormir fora. Borba: Então, não há um homem em casa? D. Mimi: Há você! Borba: Sim, mas acham que eu deva expor a vida por causa de umas miseráveis galinhas (À cozinheira) A porta do quintal e as janelas estão bem fechadas? Cozinheira: Estão, sim senhor. Borba: Então, eles que roubem as galinhas à vontade! Amanhã renova-se o galinheiro! O que isso pode custar? Uns cinquenta ou sessenta mil réis! D. Mimi: Mas você poderia passar o braço peça janela da cozinha e dar um tiro ao menos para assustar os ladrões.... Borba: Nada! Se eu abrir a janela, eles podem saltar cá para dentro! Não é por mim, é por vocês! Miloga e Gigi: Ora! Dê um tiro, papai! Borba: Não, minhas filhas, não vale a pena! Se fosse joias, sim, mas galinhas... deixá-los roubar à vontade!”. Veja mais aqui.


LAMPIÃO – O cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), o Lampião, é uma personagem da história nordestina. Muita literatura há acerca de sua vida e dos acontecimentos. Para ter uma ideia, prefiro registrar aqui fragmentos recolhidos do cantador e cordelista e Manoel D´Almeida Filho (1914-1995), no cordel Os cabras de Lampião, publicado em 1966: “[...] Na serra de Baixa Verde / Lampião estava acoitado / dentro dum rancho de palha / com os cabras descansado, / sem esperar nem por sonho / que ia ser atacado. [...] O fuzil de Lampião / na luta não tinha falha, / da boca saía fogo / parecendo uma fornalha / ou uma metralhadora / descarregando a metralha / Lampião era ligeiro / e corajoso também / no carrego e na descarga / ele manobrava bem, / se um cabra dava dez tiros / ele dava mais de cem [...]”. Também do poeta Ascenso Ferreira, no epílogo do seu poema Minha Terra: “[...] Os guerreiros da minha terra já nascem feitos. Não aprenderam esgruma nem tiveram instrução... Brigar é do seu destino: - Cabeleira! Conselheiro! Tempestade! Lampião!” (Poemas de Ascenso Ferreira. Recife: Nordestal, 1981). Veja mais Literatura de Cordel.


BEE SCOTT – A cantora e compositora catarinense Bee Scott possui uma das vozes que mais me surpreende. Tenho acompanhado seu trabalho há anos e não me canso de curtir seu talento e sua promissora carreira. Como hoje é o aniversário, quero desejar daqui meus parabéns de muito de sucesso! Parabéns, Bee, feliz aniversário e sucesso procê. Confira nossa homenagem pra ela aqui.


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