domingo, novembro 08, 2020

MICHAEL SANDEL, CHRISTER HENNIX, KERTÉSZ, ANNE SEXTON, TURGUÊNIEV, MUHAMMAD IQBAL, TORQUATO NETO, CURRIN, DIVA DE FARIA & PAULO DINIZ

 


 

TRÍPTICO DQC: POEMANDANTE, PALAÁVORAS - (Aos acordes da canção Pronta pra cantar, de Caetano Veloso, nas vozes de Nina Simone & Maria Bethânia) – A minha vida à janela, pés no chão ao rés da vida - as nuvens namoram os morros limítrofes e os cobrem com as suas saias brancas por dias sem fim, enquanto o Sol cochila manso com a algazarra dos pássaros que mudam de cor a cada gorjeado, cruzando uns aos outros, num colorido de vida. Sou levado, velovoz minha primaveraneio, chuvoutonal, sai do rio pelo canavial, atravessa a província morracima, quedabaixo, estradependali acolalhures - e a cidade ora é um pastoril com margens opostas aos desaforos e injurias mútuas, quem do cordão encarnado que venha, quem do cordão azul que se vá; ora é a farra pelos quatro cantos de velas, fé e perdição. Ah, essa manada catatônica para lá e para cá noites e dias de finados, feiras e bissextos, provam apenas que o mundo é uma bola e as anedotas e desgraças pairam no ar e aquecem a vida e os sonhos dos munícipes, sempre grados e furiosos, ora com o calor escaldante, ora com o frio das névoas dos terrores. As mulheres, ah, as mulheres, todas sempre radiantes e fogosas no meu coração com sua carne incendiária, elas nem sabem que vão e carregam os olhares de cobiça no desfile delas, impunes e sedentas, como são aprazíveis e talvez a melhor entre as melhores coisas daqui. E os homens, cabeças de fósforos, vivem de alisar o polegar ao anular, coçando os escrotos e pensando que tudo é possível como nos sonhos e pesadelos: vivem de atrapalhar a si e a vida dos outros, quando não mudam de ideia e querem que o curso dos rios siga aos caprichos de forte sobre mais fracos e submissos. Entre os endinheirados devotam comícios de aplausos – meia dúzia de alma penada que amealhou, sabe-se lá como, muque, punho e munheca, e alternam poderes nas quatro festas do ano, feriados e celebrações umbigocentristas. Outros, entre os menos abastados, fazem e desfazem conforme o apadrinhamento e interesse. Entediante, senão desapontador tudo isso. Levanto a vista e o cenário superior é melhor e logo me aparece Torquato Neto da Paupéria: Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. E riu e muito. No meio da sua gaitada frouxa emergiu o poeta e filósofo paquistanês Muhammad Iqbal (1877-1938): A vida é um movimento de assimilação progredindo sem cessar. No seu caminho suprime todos os obstáculos, assimilando-os. A sua essência é a criação contínua de desejos e de ideais. O Eu procura libertar-se eliminando todos os obstáculos à sua passagem. Em parte é livre, em parte é determinado. Numa palavra a vida é um esforço no sentido da liberdade. E rimos muito e muito. Foram embora e me deixaram sozinho apreciando a panorâmica da janela. É hora de ir e lá vou eu Quixote & Bispo do Rosário, almanhã, noitadeus, velavoz galapada & peitaberto: do meu pro seu txai coração.

 


ESSA TAL MERITOCRACIA, QUAL É, HEM? – Curtindo Symphonie op.21 (1928), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), com a Berliner Philharmoniker, Pierre Boulez conducts (Deutsche Grammophon, 1996) - Sim, sim. No Brasil a educação é uma fôrma! Sim, isso mesmo, todos moldados no que é cristão, militarista, servil e, com aquela sabe como é - de fazer o certo, muito embora aqui o certo seja bastante escuso! Estou com Mark Twain do primeiro ao quinto, dezena, centena e milhar! Principalmente depois do fanatismo do evangélico neopentecostal! E por falar nisso, o que é da meritocracia, hem? Ah, nada melhor que ao livro A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? (José Olympio, 2020), do filósofo e escritor estadunidense, Michael J. Sandel: Quem faz sucesso tende a achar que é graças a si mesmo. Destaca ele com todas as letras que A ênfase constante na ascensão individual através da educação superior tinha um insulto implícito: se você não tiver obtido um diploma universitário e se não tiver prosperado na nova economia, seu fracasso é culpa sua. Não há ninguém a quem culpar exceto a você mesmo. Parte do problema é que as elites meritocráticas de hoje em dia sofrem uma falta de humildade. É o que chamo de arrogância meritocrática, e desafiá-la é um primeiro passo importante. E sobre a pandemia? Ele solta na lata: Uma pandemia salienta nossa dependência mútua e exige um alto nível de solidariedade social. À medida que o vírus avançava, ia ficando cada vez mais claro que aqueles que suportavam as cargas mais pesadas e realizavam os maiores sacrifícios, e que sofriam mais perdas de vidas, eram aqueles que tinham sido deixados para trás na prosperidade das últimas quatro décadas. Nem pude digerir direito, chegou logo o Ivan Turguêniev em cima da bucha: As pessoas fracas nunca põem fim a nada – ficam à espera do fim. Se esperarmos o momento em que tudo, absolutamente tudo, esteja pronto, nunca começaremos nada. Sim? Nem tomei fôlego direito e era o Imre Kertész: Não se pode viver a liberdade no mesmo lugar onde se viveu a servidão. Claro, viver é outra forma de nos matarmos a nós próprios: a desvantagem é que é um processo horrivelmente longo. Bombardeio deste, quem sai com o juízo aprumado no meio dos algoritmos & noticiários com suas ideologias de mercado e consumo mundializado, hem? Minha orelha espreita um ninho de pulgas desconfiadas, viu?

 


DO AMOR NOS TEMPOS DE TORTURA & REPRESSÃO – Imagem: arte do artista visual estadunidense John Currin. Curtindo Unbegrenzt (Blank Forms, 2020), da artista sonora, escritora, compositora, filósofa e matemática sueca Catherine Christer Hennix, associada à música drone e filiada ao AI Lab do MIT no final dos anos 70 e mais tarde foi empregada como professora de pesquisa em matemática na SUNY New Paltz - Era ela, como sempre, inusitada no palco do meu coração: Sou Diva, Maria Diva de Faria: Teve uma tortura que aconteceu na véspera do Sete de Setembro. Sei que foi esse dia porque a gente escutava o ensaio das bandas. Me levaram para uma sala com acústica de madeira. Tocava uma música de enlouquecer. Era um som como se estivessem arranhando a parede. A música foi aumentando cada vez mais. Quando eu saí de lá, minha cabeça estava latejando. Por pouco eu não enlouqueci. Lá no DOI-Codi, todo dia eu ia para o interrogatório, e as torturas eram de todas as formas, como na cadeira do dragão, e sempre nua. E eles ameaçavam as pessoas que a gente conhecia. Um dia me chamaram e eu vi o Paulo Stuart Wright encapuzado. Reconheci-o pelo terno que ele estava usando, que fui eu quem tinha dado para ele, e também pela voz. Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia. Uma vez, eles me chamaram para um interrogatório com um homem negro que diziam ser um psicólogo. Isso foi muito tocante para mim, porque é claro que chamaram um homem negro para eu me sentir identificada. Um dia, eles me chamaram no pátio e lá estava o satanás encarnado, o capitão Ubirajara (codinome do delegado de polícia Laerte Aparecido Calandra), apoiado num carro, e um outro ao lado dele em pé, e um bando de homens do outro lado. Ele me pôs para marchar na frente dele, para lá e para cá, para lá e para cá, durante um bom tempo. E os homens falando: “Ô negra feia. Isso aí devia estar é no fogão. Negra horrorosa, com esse barrigão. Isso aí não serve nem para cozinhar. Isso aí não precisava nem comer com essa banhona, negra horrorosa”. E eu tendo de marchar. Imagine só, rebaixar o ser humano a esse ponto… Sim, sou Diva, enfermeira presa e que até hoje não esqueço essas tiranias. Sou também, como ela, Gastone Lúcia, sou Nilda, Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri & todas as Filhas da Dor & dói demais ser viva e mulher! Fui para perto dela, beijei suas pálpebras ensopadas de lágrimas e meu abraço guardou o seu soluço por longo tempo. Depois ela levantou-se e caminhou no meu quarto, tudo cantava ao seu redor, invicta beleza e giravalada certeira que me amparava pelos cantos entre agrados e favores, a sua fome fêmea e a festa do corpo. Depois de zanzar para lá e para cá, acercou-se de mim e recitou a escritora estadunidense Anne Sexton (1928-1974): Viva ou morra, mas não envenene tudo. Eu estou sozinha aqui em minha mente. Não há mapa e não há estrada. Sim, mapas não temos, estradas quaisquer. Para mim, abraçá-la era o mesmo que a sorte de estar vivo diante da deusamante, deusalada, o privilégio de habitá-la e o beijo de sua boca vinho algum revida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE PAULO DINIZ

Meu nome é marca ferrada / Ferrada com sangue e suor / Que o fogo da vida castiga / Castiga sem pena e sem dó / Nos longos caminhos da lida / Mistura de água e pó / Meu nome é marca ferrada / Porteira fechada de quem anda só / Eu chego lá, eu chego lá / Eu chego em cima / No alto da colina / Ninguém vai me derrubar.

É Marca ferrada (1978), música do cantor, locutor, ator e compositor Paulo Diniz, que teve entre seus parceiros Odibar e Juhareiz Correya, e musicou poemas de Drummond, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Entre seus álbuns musicais figuram Brasil, brasa, braseiro (1967), Quero voltar pra Bahia (1970), Paulo Diniz (1971), E agora, José? (1972), Lugar Comum (1973), Paulo Diniz (1974), Estradas (1978), É marca ferrada (1978), Canção do exílio (1984), Pegou de jeito (1985) e reviravolta (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.