terça-feira, novembro 10, 2020

ÉDOUARD DUJARDIN, EMMANUELLE RIVA, HENRY VAN DYKE, TAMARA KVESITADZE, KURBAN SAID, NINON DE LENCLOS & ISA PONTUAL

 

TRÍPTICO DQC: VIDEVERVA, VIVAMOR - A vida retangular, meus dias à janela – manhãs, tardes e noites que se confundem pelas horas de claroscuros. Como eu queria as mãos no barro da terra, os pés pelas poças das calçadas, faces aos ventos, sabores de frutas maduras... O sonho recolhido na minha clausura. Remexo livros amontoados e monturos de coisas empilhadas pelos cantos. Entre os imprestáveis - presumo, como juntei tanta coisa, meu Deus, não sei mesmo -, uma lâmpada empoeirada: O que é isso? Não me lembro de tê-la adquirido, nem nunca a vi por perto. Curioso, tento remover a poeira e, com isso, uma fumaça emerge pelo bico: Será o gênio de Aladim? Não, não era: o escritor e dramaturgo francês Édouard Dujardin (1861-1949) lendo um trecho do seu livro Os loureiros estão cortados (Les Lauriers sont Coupés - Brejo, 2005): Um entardecer de sol se pondo, ar distante, céu profundo, e massas confusas, ruídos, sombras, multidões, espaços de extensão infinita, um vago entardecer… Pois sob o caos aparente, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam. Nem havia me dado conta e já anoitecia: O tempo passava e sequer percebia. Ele sorriu enquanto eu cantarolava Gonzaguinha: Vida, vida, vida! E seja do jeito que for! Mar, amar, amor!... Ouvi sua gargalhada, mas não era mais dele, era Friedrich Schiller: O amor só é conhecido por aquele que irremediavelmente persiste no amor. Sim, sim, sei. E desapareceu do mesmo jeito como aparecera. Senti falta dela, há dias não dava as caras por aqui. A ausência dói e o amor, aquela semente que brota nos lugares mais improváveis.

 


DO AMOR & CIRCUNSTÂNCIAS ADVERSAS - Imagens: do premiado drama Amour (Amor, 2012), escrito e dirigido por Michael Haneke, contando a história de um casal de idosos aposentados, em que Anne é submetida a uma cirurgia mal sucedida na carótida que a deixa com um lado do corpo paralisado, destacando a atriz protagonista. – Na parede oposta uma projeção do filme me fez esquecer a solidão da noite. Durante a assistência, a porta se abre e ela adentra com um poema da atriz símbolo do amor da Nouvelle vague e poeta francesa Emmanuelle Riva (Paulette Germaine Riva – 1927-2017): Seu nome vai para a cama / em minha boca / Quando eu acordar / você já esta ai / meu sorriso / está sob seus dedos / você me mantém à distância / Eu tenho um curativo / no sextante / o corpo está à deriva / indo para o tempo / são os editos / da noite / (a) doçura louca / da liberdade. Logo se aproximou com um beijo e achegou-se ao meu lado acompanhando a projeção até o final. Fitou-me firmemente e recitou o escritor estadunidense Henry van Dyke (1852-1933): Amar não é receber, mas dar. Não um sonho ávido de prazer nem a loucura do desejo: não, nada disso é amar! O amor é bondade, respeito, paz... é simplesmente viver. E cobriu de vida a minha solitária existência e noite interminável.

 


DO QUE É CAPAZ O AMOR – Imagem: Ali & Nino - Man and Woman (2007), da escultora e artista georgiana Tamara Kvesitadze. Ao som da suíte sinfônica Pantanal (1990), de Marcus Viana, com a Transfônica Orkestra, Sagrado Coração da Terra & Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob a regência do maestro Lincoln Andrade. – Ao amanhecer era ela a escritora francesa Ninon de Lenclos (1620-1705): Nunca tive outra idade senão a do coração. No amor, a economia dos sentimentos e dos prazeres é a única metafísica apreciável. O amor é a comédia na qual os atos são mais curtos e os intervalos mais compridos. Como, portanto, ocupar o tempo dos intervalos senão com a fantasia? E me convidou das cinco às nove da noite para um evento no seu salão literário, estabelecido no Hôtel de Sagonne, para a encenação da comédia histórica em um ato misturada com vaudevilles e criada em sua homenagem e com seu nome, pelo Henrion – Armand Henri Ragueneau de la Chaianay (1875-1958). Aconteceriam também no mesmo horário o sarau com versos que o físico, matemático, astrônomo e horologista neerlandês Christiaan Huygens (1629-1695) fez para ela: Ela tem cinco instrumentos pelos quais estou apaixonado: / os dois primeiros, as mãos; / os outros dois, seus olhos; / Para o mais belo de todos, / o quinto que resta, / você tem que ser arrojado e ágil; a leitura do romance Memórias de Ninon de Lenclos, Cortesana del Siglo XVII (1857 – Hachette Bnf, 2017), do escritor e jornalista francês Eugène de Mirecourt (Charles Jean-Baptiste Jacquot - 1812–1880); a exposição das séries em histórias de quadrinhos Les Sept viés de l’éperier (1983/1991) / Masquerouge (2009) / Le Fou du Roy (Glenat, 1998) / Ninon secrète (Glenat, 1992), todas do artista francês Patrick Cothias; e o lançamento do livro Ninon De Lenclos: mulher de pensamento, homem de sentimento (WMF Martins Fontes, 1990), da jornalista e crítica francesa France Roche (1921-2013). Seria uma noite de consagração e com muitas homenagens, todas para ela, nada mais que merecido. Ela estava fulgurantemente linda, um colosso em forma de gente de tão exultante e glamourosa. À saída, não dispensou mencionar o poeta, escritor e jornalista argentino José Hernández (1834-1886): A oportunidade é como ferro: devemos batê-lo enquanto estiver quente. Melhor do que aprender muito é aprender coisas boas. E fomos de mãos dadas para a efeméride pelas estradas da nossa fantasia. Ao término da função, caminhamos até o boulevard de Batumi, e enamorados, vivemos a história dos amantes (E.P., 1937), do escritor azerbaijano Kurban Said (1905-1942): eu, o muçulmano Ali; e, ela, Nino, a princesa cristã georgiana, separados pela invasão soviética. E ali nos amamos para que o universo fosse festa naquela noite até outro amanhecer em nós. Até mais ver.

 

A ARTE DE ISA PONTUAL

A arte da artista plástica Isa Pontual. Veja mais aqui & aqui.