POR
ENTRE AS PALMAS DESTE LUGAR...
(Aprumando a conversa com Geraldo Azevedo) – Fiz duas entrevistas com
Geraldinho. A primeira, quando ele gozava o prestígio de lançar o premiado
álbum De Outra Maneira (Echo/RCA, 1986). Lá estava eu me dirigindo ao
camarim do Circo Relâmpago, em Recife, cantarolando sua canção Coqueiros,
sua parceria com Marcus Vinicius. Recepcionado pela produtora Beth Salgueiro,
logo fui apresentado ao artista que me recebeu com bastante espalhafato e
intimidade. É que fui logo passando às suas mãos, os meus livros Intromissão do
Verbo (Pirata, 1982) e Raízes & Frutos (Bagaço, 1985), além dos folders do
meu show Por um novo dia (1985/86). Elogiou muito e não parou de admirar
estupefato: Rapaz, queria ser organizado assim! E rimos muito
pernambucanamente. Sentamo-nos um de frente pro outro no pequeno espaço
disponível e, sem delongas, tasquei perguntas pra cima e pra baixo, as quais
passo a relatar: Pernambucano de Petrolina, Geraldo Azevedo de Amorim aprendeu
a tocar violão aos 5 anos de idade, depois de ganhar de presente o instrumento
confeccionado por seu próprio pai. Logo falou de Jatobá, local na área rural
onde nascera à beira do rio São Francisco; da sua mãe, a professora Dona
Nenzinha, que cantava e promovia eventos culturais na escola que funcionava em
sua própria casa. Autodidata, na adolescência encantou-se com a música de João
Gilberto e começou a trabalhar na difusora da cidade, no programa de rock de
Reinaldo Belo. Com a criação da emissora de rádio rural, A Voz do São
Francisco, ele apresentou o programa Por Falar em Bossa Nova, ocasião em que
passou a integrar o grupo Sambossa. Mudou-se, então, para o Recife, quando ele
viu pela primeira vez o mar: Rapaz, que açudão! Hehehehe. O seu objetivo na
capital pernambucana era de cursar Arquitetura, momento em que ganhou de
presente dos colegas de curso o seu primeiro violão profissional, passando a
trabalhar como projetista arquitetônico. Neste período conhece Naná Vasconcelos
e Teca Calazans, abandonando o curso e integrando o grupo Construção. Fundou o
grupo Raiz, em 1965, para apresentar o programa Chegou a Vez, na TV Jornal do
Commércio e atuar nas artes teatrais, literárias e musicais nas peças de
Hermilo Borba Filho. Ôpa, que coincidência! Palmarense como você, né? Outras
gargalhadas. Em parceria com Carlos Fernando, compõe melodias para os poemas
dos espetáculos do Teatro Popular do Nordeste, ocasião em que ganhou o 1º lugar
no Festival de Música Popular do Nordeste, com a canção Aquela Rosa, em
parceria com Carlos Fernando, gravada por Teca Calazans. No ano seguinte ele
assumiu a direção do 2º Festival de Música do Nordeste e, foi por esta época,
que conheceu a cantora e atriz Eliana Pittman, mudando-se para o Rio de Janeiro
para integrar a banda da cantora nos shows Eliana em tom maior e É preciso
cantar, atuando ao lado dos músicos Antonio Adolfo, Novelli, Marcos Vinicius e
Victor Manga. Em 1969, ele passou a integrar o Quarteto Livre, ao lado de Naná
Vasconcelos, Nelson Ângelo e Franklin da Flauta, que, a partir de então,
passaram a acompanhar Gerado Vandré. Abre-se aí um parêntese, por conta da
pergunta que fiz sobre a parceria e a Canção da Despedida. Foi que durante a
ditadura, Vandré se exilou e concluiu a parceria de ambos: a Canção da
Despedida. O grupo se dissolveu e ele passou a atuar no Teatro Gláucio Gil,
coletando assinaturas, ao lado de Glauber Rocha, Caetano Veloso, entre outros,
de um manifesto contra a censura. Por conta disso, foi preso por 40 dias,
duramente torturado, e, a sua esposa, Vitória, passou 80 dias na prisão. Ao ser
solto voltou a trabalhar como projetista numa empresa de engenharia e a
desenhar para publicações e jornais, em protesto contra o regime ditatorial
militar. Novamente foi preso pela ditadura militar, em 1974, ele e sua esposa,
Vitória, grávida e obrigada a ouvir os gritos de tortura do marido. Logo ela
foi solta e ele ficou na solitária, duramente maltratado, sendo solto, depois
de ser obrigado a tocar e cantar durante os interrogatórios pros torturadores.
O clima deveras baixou no papo e eu já levantava a bola proutra pergunta,
quando de repente, alguém avisou que era hora da passagem do som. Já havíamos
transcorrido 1 hora de gravação e quase no meio da 2ª fita, quando ele insistiu
para que eu fosse com ele passar o som. Aceitei e, na subida da escadaria, ele
virou-se pra mim: Que música eu canto na passagem? Na ponta da língua: Moça
bonita. Ele então gritou pros músicos: Moça bonita, gente! Chegamos ao palco,
uma multidão já esperava. Gente, agora é só a passagem do som, tá? Moça bonita
pro meu amigo Luiz Alberto Machado! Foi uma ovação. Encostado ao lado do palco,
eu assistia e gravava aquele momento do público cantando com ele. Houve um
improviso e, depois, ele avisou pra plateia que voltava já. Às pressas me
chamou e descemos para o local de antes. Foi aí que ele falou que no início dos
anos 1970, ele recepcionou o conterrâneo Alceu Valença afirmando: Tinha
desistido da música, estava traumatizado com a tortura sofrida e só voltei pro
palco por causa da insistência dele! A parceria artística entre ambos resultou
no álbum Quadrafônico (Copacabana, 1972), afora participações em festivais e
apresentações ao lado de Jackson do Pandeiro. Compôs músicas para o teatro e a
televisão, quando conheceu Elba Ramalho. Lançou o álbum Geraldo Azevedo (Som
Livre, 1977) e, dois anos depois, o álbum Bicho de 7 Cabeças (CBS, 1979), este
com participação da sua mãe, Dona Nenzinha do Jatobá e de Dori & Danilo
Caymmi, Dominguinhos, Robertinho de Recife, Amelinha, Zé & Elba Ramalho. Em
seguida veio o álbum Inclinações musicais (Ariola, 1981), com participações
especiais de Sivuca, Jackson do Pandeiro e Dori Caymmi. E, no ano seguinte, o
álbum For all para todos (Ariola, 1982). Aí reuniu-se, então, com Xangai, Vital
Farias e Elomar, para lançar os álbuns Cantoria 1 & 2 (Kuarup, 1984/1988)
e, ao mesmo tempo, lançar seu álbum Tempo tempero (Barclay/Ariola, 1984), com
participação de Nana Caymmi e arranjos de Wagner Tiso e Hugo Fattoruso. A
partir disso desenvolveu o projeto autoral independente Luz do Solo, lançando o
álbum ao vivo, Geraldo Azevedo (1985), com participações de Zé & Elba
Ramalho. Independente de gravadoras, ele, por fim, lançou o premiado álbum De
outra maneira (1986), no qual se destacaram as parcerias com Fausto Nilo, os
sucessos Chorando e cantando e Dona da minha cabeça, bem como a autoral O
princípio do prazer, com participação de Nana Vasconcelos. Papo vai, papo vem
sobre as músicas e a recepção positiva de público e crítica, o que nos levou a
tantas gargalhadas e comemorações. Era chegada a hora do show, fui convidado
novamente pra subir ao palco com ele e a banda, avisando logo que eu tinha que
retornar para editar a entrevista e lançá-la no dia seguinte no Destaque do meu
programa Panorama, na Quilombo FM. Abraçamo-nos afetuosamente e nos despedimos
antecipadamente, não antes eu gravar e curtir do palco a interação entre
artista e público na apoteose da arte. Tudo isso foi registrado na entrevista
exclusivíssima para o programa que, neste domingo, bateu o recorde de
audiência. Saravá! ETERNO PRESENTE... - A segunda entrevista com Geraldo
foi 2 anos depois, uma coletiva de lançamento do álbum Eterno Presente
(RCA/ BMG Ariola, 1988), seu oitavo disco solo. Lá estava eu no salão de
eventos do então Hotel 4Rodas, ao lado de trocentos jornalistas e
sobrecarregado de expectativas para saber das novidades musicais. Todos abrimos
os microfones e gravadores e ele começou a falar da proposta do trabalho, suas
expectativas e perspectivas, pouco mais de 20 minutos. Encerrada a entrevista,
servimo-nos dos comes e bebes, tentando uma brecha para puxar uma exclusiva.
Foi impossível, bastante assediado, mesmo assim ele me abraçou ao receber meu
livro Canção de Terra (Bagaço, 1986), não deixando de sapecar um espalhafatoso:
Arretado! Ele me abraçou de novo e nos despedimos. Outra vez o Destaque dominical do meu programa Panorama na Quilombo FM bateu novo recorde de audiência, com a entrevista e o
desfile de músicas como Sétimo Céu (Fausto Nilo/Geraldo Azevedo), Parceiro das
Delícias (Capinam/Geraldo Azevedo) e Tanto Querer (Geraldo Azevedo/Nando
Cordel), sem contar com a participação especial de Dominguinhos na faixa Todo
Jeito Ela Tem. Assim foram as duas entrevistas que ele me concedeu. Posteriormente publiquei as entrevistas no meu tabloide impresso Nascente - publicação lítero cultural na edição de nº 8, de 1997. Evidente
que não deixei de acompanhar a trajetória dele noutras emissoras de rádio que
trabalhei. Tanto que acompanhei o lançamento do álbum Bossa Tropical
(Ariola, 1989), do internacional e independente Berekekê (1992), do
premiado Geraldo Azevedo ao vivo... Comigo (1994), do projeto Dueto que
redundou n’O Grande Encontro 1 & 2 (1996/97), com Alceu, Zé & Elba, bem
como do álbum Futuramérica (1996), do álbum duplo Raízes e Frutos
(BMG, 1998 – coincidentemente título do meu 3º livro a ele presenteado na
entrevista de 1986. Também os álbuns Hoje Amanhã (BMG, 2000), O
Brasil Existe em Mim (Sony&BMG, 2007), Salve São Francisco
(Biscoito Fino/Geração/Bacana/Terra Brasilis, 2011), Assunção de Maria e
Geraldo Azevedo (Biscoito Fino/Geração/Nossa Música, 2011) e É O Frevo,
É Brasil (ONErpm, 2019). Dele acompanhei tudo que me foi possível: das
trilhas sonoras pro cinema e teatro, da sua direção e participação como
Severino no filme A noite do espantalho (1974), do Sérgio Ricardo; da sua
participação no cordel Estória de João-Joana, com textos de Drummond, música do
Sérgio Ricardo & Orquestra Sinfônica; e de solfejar invariavelmente seus
grandes sucessos nas parcerias com Fausto Nilo (Dona da minha cabeça, Sétimo
Céu & Chorando e cantando), com Capinan (Moça Bonita & Ser dos seres),
com Nando Cordel (Tanto querer), com a esplendorosa Neyla Tavares (Mulher) e a
inesquecível com Renato Rocha (Dia Branco), entre tantas outras. Enfim, deste
grande compositor, cantor e violonista, que se tornou um dos mais
representativos artistas brasileiros, contribuindo para a difusão da arte
musical nordestina, com expressividade rítmica que unem frevo, forró, xote,
maracatu e baião, com canções que fazem um bem danado ao coração brasileiro,
pra ele, a mais infinita reverência do meu efusivo, espalhafatoso & de pé:
aplausos! Veja mais dele aqui.
DITOS &
DESDITOS
A fama sempre
traz consigo a solidão. O sucesso é tão frio e solitário quanto o Polo Norte...
A coragem vem e vai. Aguente firme até a próxima dose... A paciência é parte
integrante do talento... Existem atalhos para a felicidade, e dançar é um deles...
Pensamento da
escritora e roteirista austríaca Vicki Baum (Hedwig Baum – 1888-1960).
Veja mais aqui, aqui & aqui.
ALGUÉM FALOU
Foi depois da faculdade que comecei a dizer a mim mesma que precisava
perseverar, que precisava lidar com o desconforto e deixar que todas as dúvidas
e perguntas tivesse... às vezes elas simplesmente têm que ficar ao seu redor, e
você não consegue respondê-las...
Pensamento da atriz, diretora e escritora franco-estadunidense Pauline
Chalamet (Pauline Hope Chalamet). Veja mais aqui.
CARTA DE AMOR – Eu gostaria de ser um santuário, para que eu possa aprender com as
orações das pessoas a história dos corações. Eu gostaria de ser um lenço para
que eu possa colocá-lo sobre o meu cabelo e entender outros mundos. Eu gostaria
de ser a voz de um cantor soprano para que eu possa me mover através de todas
as fronteiras e vê-los desaparecer com cada nota de feitiços. Eu gostaria de
ser claro, então eu ilumino o escuro. Eu gostaria de ser água para encher
corpos para que possamos flutuar suavemente juntos indefinidamente. Eu gostaria
de ser um limão, ser raspas o tempo todo, ou uma oliveira para brilhar prata na
terra. Acima de tudo, eu gostaria de ser um poema, para alcançar seu coração e
ficar. Texto da poeta, dramaturga, tradutora, editora e professora haitiana
na Universidade de Nova York, Nathalie Handal, que no seu livro The
Neverfield Poem (Post Apollo Pr, 1999), expressa o poema: O poeta que vi
uma vez... \ mas cujas palavras há muito tempo estão em minha mente, \ janelas
de velas invencíveis...
AVALON - [...] Às vezes,
alguém atraente não é quem aparenta ser, exceto pela sua beleza... isso é
inegável... [...] dobrar a vontade de um inimigo pela força militar
é a última maneira que uma nação deve usar para resolver seus problemas. [...] Trechos extraídos da obra Avalon High (Haper
Collins, 2005), da escritora e roteirista Meg Cabot (Meggin Patricia
Cabot e o pseudônimo de Jenny Carroll), autora de obras como: Sanctuary
(2011), Haunted (2004), Big Boned (2007), Darkest Hour
(2001), Princess on the Brink (2007), Forever Princess (2009), Queen
of Babble in the Big City (2007) e Airhead (2008). Sobre suas
obras ela expressa: Se você ama algo, deixe-o
livre. Se era para ser, voltará para você. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
É ISTO UM HOMEM? - Vocês que vivem
seguros \ em suas cálidas casas, \ vocês que, voltando à noite, \ encontram
comida quente e rostos amigos, \ pensem bem se isto é um homem \ que trabalha
no meio do barro, \ que não conhece paz, \ que luta por um pedaço de pão, \ que
morre por um sim ou por um não. Pensem bem se isto é uma mulher, sem cabelos e
sem nome, \ sem mais força para lembrar, \ vazios os olhos, frio o ventre, \ como
um sapo no inverno. \ Pensem que isto aconteceu: \ eu lhes mando estas
palavras. Gravem-na em seus corações, \ estando em casa, andando na rua, \ ao
deitar, ao levantar; \ repitam-nas a seus filhos. \ Ou, senão, desmorone-se a
sua casa, \ a doença os torne inválidos, \ os seus filhos virem o rosto para
não vê-los. Poema extraído da obra É isto um homem? (Rocco, 1988), do
químico e escritor italiano, Primo Levi (1919—1987), autor de obras
como: Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as
penas, as impunidades (Paz e Terra, 2004), L'altrui mestiere (Einaudi,
2001), Another monday- three poems (The American Poetry Review, 2011), La
chiave a stella (Einaudi, 1978), La ricerca delle radici: antologia
personale (Einaudi, 1981), Se não agora, quando? (Companhia das Letras,
1999), A tabela periódica (Relume Dumará, 1994), A trégua (Companhia
de Bolso, 2010), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
A CONQUISTA – No livro A conquista
(1899), do escritor e professor Coelho Neto (1864-1934), um romance de formação
e de vida boêmia, narra as aventuras e desventuras (e falta de dinheiro e às
vezes até de perspectivas de sucesso) de sua geração de poetas, teatrólogos,
jornalistas, intelectuais, boêmios na cidade do Rio de Janeiro nos anos do
final do século XIX, em que a campanha abolicionista e o movimento republicano estão
a pleno vapor e que culminam com a libertação dos escravos no Brasil. Da obra
destaco o trecho: [...] Imagina a minha
situação. Tenho um caso de amor, amor fino; o meu lunch de hoje vai ser um fruto
proibido. É uma dama da elite: loura, de olhos azuis, uma cabecinha de Bottielli.
Vive a bocejar entre os sessenta anos gelados e impertinentes do marido e a ferrenha
catadura do avô reumático, que enche a casa de gemidos quando a não abala com os
roncos. Esse lírio formoso espera-me hoje às 3 horas da tarde, enquanto o marido
discute no Senado uma prudente medida de salvação nacional e o avô toma o seu choque
elétrico. A ocasião é das mais favoráveis. Dá-se, porém, o caso grave de eu não
ter, no momento, calçado idôneo. As mulheres têm o olhar curioso e essa então, que é pudica, no primeiro instante
baixará os olhos e dará pelos meus sapatos, que começam a descambar em alpercatas.
Tenho ali um par de botinas, mas apertam-me como credores, e tu compreendes que
um homem que vai para tão arriscada fortuna deve ir preparado para todos os casos,
principalmente para correr. Imagina que morre um senador e suspendem a sessão ou
que, por excesso de umidade não funciona a máquina elétrica, como hei de eu, com
os pés entalados, fugir à cólera do marido ou à fúria do avô? Um é bravio na oposição,
deve ser tremendo em se tratando da honra doméstica; o avô foi revolucionário, viu
muito sangue, e feroz. Demais, as minhas botinas (falo-te como a um irmão) têm um
vício inveterado que me fazer perder um tempo precioso sempre que delas me sirvo.
Tenho os minutos contados, devo seguir diretamente, aladamente se possível for,
para Laranjeiras e, se eu as puser nos pés, sei que vou ter à secretaria de Agricultura. [...] Veja
mais aqui. 





