quinta-feira, maio 09, 2019

ASCENSO FERREIRA, HUMBERTO MATURANA, CICI PINHEIRO, CASS BIRD, CARNEIRO VILELA & O DISFARCE DA EMPAREDADA


O DISFARCE DA EMPAREDADA – Naquela rua, um olhar invisível e imantado, perseguia meus passos. Todos os dias e vezes, a qualquer hora, essa impressão me acossava por todo percurso. Não conseguia identificar, tanto que procurasse. Foi preciso um dia de chuva torrencial. Ao me abrigar, meus sentidos se aguçaram. Pude vê-la, ali ao meu lado, com seu olhar cândido em minha direção. Era ela. A ventania e o molhadeiro trouxeram-na mais para perto. Ali estávamos espremidos com outros desabrigados. Fui me ajeitando e encostei nela, trêmula e delicada, inquieta e achegada. Ousei falar: Que chuvada! Ela encolheu-se de frio, vulnerável. E fitou-me firme, desamparada. Ajeitei-me para deixá-la mais confortável, de repente virou-se como se procurasse algo distante, deu-me as costas e apoiou-se a mim. Senti seu perfume, minhas mãos tímidas à sua cintura, tateando delicadamente, deu-me a dimensão de sua escultural emanação. Logo, com a aproximação e contato, ela se arrepiava com minha respiração à nuca e melhor se acomodava indefesa e comprimida entre meus braços. Aproveitamos o possível desse longo tempo de intimidade. Retirei meu casaco e coloquei sobre seus ombros aquiescentes, protegendo-a. Tomou-me as mãos, recolhendo-as aos fartos seios, agradecida. Cada vez mais íntima com o temporal que trazia mais gente para ali se abrigar no aperto. Demoramos assim e ao estiar, de repente, puxou-me por uma das mãos apressadamente, seguimos sem saber para onde me levasse, entramos por uma íngreme e estreita escadaria que deu num corredor mal-iluminado de muitas portas fechadas, até alcançarmos uma área livre do primeiro andar que dava para o mundo e lá, volveu seu corpo de costas contra a parede e puxou-me para beijá-la prolongadamente. Ela arfava enquanto minhas mãos audaciosas e buliçosas contornavam sua geografia, a concavidade dos seus seios de deusa luxuriante, gigantesca e admirável. Levantei seu vestido, não usava roupa íntima, nuínha por baixo das vestes, sexo úmido, entregue, lânguida, inebriada, indulgente, pronta para ser penetrada flutuando com a intromissão do meu sexo no seu, toda resplandescente e tantalizada. Gozamos despudoradamente. Abraçados, ela me sussurrou: Preciso de você. Assim, todos os dias seguintes, o vício, o amor, o desejo imperioso por escadarias, vãos, corredores, recantos, cortinados, esquinas, genuflexório, pilastras. Obcecada por minha virilidade, ela se dissolvia aos meus toques e apertos, contagiada por minhas estocadas e repetia sussurrando: Não consigo ficar longe disso. Como um animal selvagem no cio, ela se agachava a se masturbar, enquanto sua língua sedenta deslizava suavemente a minha glande com lambidas prazerosas, as mãos friccionavam todo meu pênis que pulsava febril para que pudesse beber meu sêmen, recolhendo o líquido precioso do amor. Dias, semanas, meses, um ano depois, quase nenhuma palavra, até me dizer que nela jazia oculta tragédia. Contou-me. Ao completar 15 anos, o presente de aniversário: Fui molestada por meu pai. Todas as noites ele me estuprava no quarto escuro do quintal. Indaguei da minha mãe, ela completamente anulada. Sofri sua dor, sofremos juntas. Ao me flagrar no sexo com meu namorado, supliquei-lhe não delatar ao meu pai, nosso acordo: o meu amor tornou-se seu amante. Nossa cumplicidade. A relação incestuosa perdurou até o dia em que engravidei, meu pai soube e queria saber quem me emprenhou. Delações deram-lhe o paradeiro, o assassinato. Perdi meu amor e, minha mãe, seu amante. Meu pai tomou ciência de tudo, era estéril e eu não era sua filha, não sabia disso. Procurei minha mãe, ela em estado de choque, omitiu mergulhada em lágrimas. Por vingança, meu pai me atacou pela última vez e encerrou-me num cubículo, emparedada, fui enterrada viva. Meu pai fugiu com minha mãe e deixou-me ali sufocada, agonizante. Isso há mais de um século. Minha mãe morreu louca, meu pai voltou para me ver anos depois e eu o atormentei até ele se jogar no precipício da sua ruindade para nunca mais. Desde então, preciso falar: sou viciada e incorrigivelmente insaciável, atraída e fixada por um belo e duro pênis, ah, que lindeza, preciso de homem a todo instante, uma necessidade sórdida de ser demolida e seviciada, sou obstinada pelo prazer. Preciso ser violentamente possuída, subjugada, corrompida, aniquilada, espremida contra a parede, ardendo para ser penetrada e devastada pelas carícias de sexo bestial, preciso, suplico, imploro. Estou perdida. E desapareceu com todo pesar na sua voz, criada por uma lenda. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Então, a ciência, como um domínio cognitivo, existe e se desenvolve como tal sempre expressando os interesses, desejos, ambições, aspirações e fantasias dos cientistas, apesar de suas alegações de objetividade e independência emocional [...] somos observadores no observar, no suceder do viver cotidiano na linguagem, na experiência da linguagem. Experiências que não estão na linguagem, não são. Não há modo de fazer referência a elas, nem sequer fazer referência ao fato de tê-las tido [...] A existência é independente do observador. [...] há tantas realidades – todas diferentes, mas igualmente legítimas – quantos domínios de coerências operacionais explicativas, quantos modos de reformular a experiência, quantos domínios cognitivos pudermos trazer à mão [...] As explicações científicas não se referem à verdade, mas configuram um domínio de verdade. A ciência é um domínio cognitivo válido para todos aqueles que aceitam o critério de validação das explicações científicas [...] Assim, pensar é agir no domínio do pensar, refletir é agir no domínio do refletir, falar é agir no domínio do falar, e assim por diante, e explicar cientificamente é agir no domínio do explicar científico [...] A diferença entre nossa operação na vida cotidiana como cientistas e como não-cientistas depende de nossas diferentes emoções, de nossos diferentes desejos de consistência e impecabilidade em nossas ações e de nossos diferentes desejos de reflexão sobre o que fazemos [...] As noções de falseabilidade, verificabilidade ou confirmação aplicar-se-iam à validação do conhecimento científico apenas se este fosse um domínio cognitivo que revelasse, direta ou indiretamente, por denotação ou conotação, uma realidade transcendente independente do que o observador faz, e se a segunda condição do critério de validação das explicações científicas fosse um modelodessa realidade transcendente, em vez de um mecanismo gerativo que faz surgir a experiência a ser explicada tal como é apresentada na primeira condição [...].
Trechos extraídos da obra Cognição, ciência e vida cotidiana (Ed UFMG, 2001), do neurobiólogo chileno e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer, Humberto Maturana, que na obra A ontologia da realidade (EdUFMG, 2002), explica que o sistema autopoiético é o acoplamento estrutural e a deriva natural, uma vez que tal sistema é uma unidade definida pela sua estrutura autopoiética, que constitui um domínio fechado de relações especificadas e que compõem essa organização. Estas relações, segundo o autor, são: constitutivas, cujos componentes constituem a materialização da autopoiese, seus limites físicos, sua topologia; de especificação, cujos componentes são definidos por sua participação na autopoiese, por sua identidade, pelas propriedades de seus componentes; e de ordem, cuja concatenação dos componentes nas três relações sejam especificadas pela dinâmica da organização autopoiética. Assim sendo, o sistema autopoiético é definido a partir das condições para se estabelecer um espaço autopoiético, o que se dá através da organização autopoiética num ambiente, onde os componentes podem atuar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

O TEATRO DE CICI PINHEIRO
Não dou confiança para mágoas. Minha luta no teatro foi tão desigual. Fui perseguida, fui massacrada, mas saí íntegra.
O teatro da teatróloga, cineasta e atriz Cici Pinheiro (Floracy Alves Pinheiro - 1929-2002), fundadora da primeira Companhia de Teatro Profissional de Goiás, a Cia. Cici Pinheiro, atuando como diretora de radionovelas e telenovelas, bem como pioneira do cinema naquele estado. Sua estreia foi na peça Vila Rica, da Agremiação Goiana de Teatro, em Goiânia, em 1949, passando em seguida a integrar o elenco do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), enveredou pelo cinema com a produção do filme O Ermitão de Muquém, até encerrar sua carreira em 1989, com a peça teatral Gimba, O Presidente dos Valentões. Veja mais aqui.

A FOTOGRAFIA DE CASS BIRD
A arte da fotógrafa e artista visual e multimídia estadunidense, Cass Bird. Veja mais aqui.

A EMPAREDADA DA RUA NOVA
[...] Durante as noites, acontecia-lhe acordar sobressaltado como se houvessem soado ao pé de si gemidos lúgubres e abafados. Outras vezes parecia-lhe ver surgir ao seu lado o espectro esquálido e medonho da sua mulher ou a figura branca e vaporosa de sua filha. [...].
Trecho do romance A emparedada da Rua Nova (1886), republicado entre os anos 1909-1912, como folhetim no Jornal Pequeno, de Recife, pelo escritor Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913). A obra inpirou George Moura, Sérgio Goldenberg, Flávio Araújo e Teresa Frota a escreverem a minissérie Amores Roubados (2014), da Rede Globo. Depois, foi transformada na minissérie Jugar com fuego (2019), adaptada por Julia Montejo e José Luis Acosta, para a Telemundo. Veja mais aqui.
&
A OBRA DE ASCENSO FERREIRA
Minha filhinha, Papai Noel! É uma figura tragicômica! Não se iluda com os seus enredos! Pois que no meio dos seus brinquedos! Virá um dia a bomba atômica!
A obra do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965) aqui, aqui, aqui & aqui.