sexta-feira, agosto 11, 2023

LOUISE WARREN, OYINKAN BRAITHWAITE, ELIZABETH ANSCOMBE, RÁFAGAS & DIATRIBE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM (Panô).

Ao som dos álbuns Echolocation (ZED, CS 1987), A Delay is Better (CD ST, 2004), A Secret Code (Neuma Records, 2021), a Suite from Carbon Song Cycle com orquestra de cordas (Roulette Intermedium, 2022) e Attention (with Del Sol String Quartet), no teatro Kanbar Forum do Museu Exploratorium, em San Francisco, CA (2016), da compositora, performer e artista de mídia estadunidense Pamela Z.

 

REVERBERAÇÃO ONÍRICA (Ou o outro lado do espelho, molduras dissolvidas - poemeto prosado) - Na primeira carta de agosto eu lavava a alma na chuva sem ter onde cair morto, quase me arrependia por não abrir mão da minha teimosia inglória: desistiram de mim muito antes e nem dava conta. Salvava-me Miriam Leiva Garrido: Escrever é um processo de exorcizar, manifestar, chorar e somarmos. A palavra está em tudo... com tanta escuridão a palavra é a luz... E me danava no ritual da dor madrugada adentro: o ladrar dos cães, a promessa de tudo um dia daria certo, a carência e nada, o de antes quase sempre no depois, perverso sisifismo. Talvez exercício preparativos para a morte: os segredos que esqueci entre túmulos, quando a lâmina aguda do tempo era a fuligem talhando o crepúsculo para noite assombrosa. Ouvia Paulo Mendes Campos: Os mortos que fui governam o homem que sou. Sim e na segunda carta de agosto já seguia a paz do Sol vivo. E se eu tivesse de contar o que vi, muita hestória sem graça, quando não equivocada por dissimulações e espalhafatos, ridículos marmorizados na monotonia, pelo menos a salvo das arengas por cacarecos, quantas polegadas de ódio e cinismo. O melhor surgia com Cecilia VicuñaA vida é divina porque se divide e se multiplica a si mesma... Ser vivo é ser parte da divindade... Bastava um sorriso, tudo reflorava: não mais que isto desde longe e a vida podia ser leve. Para quem não tivera tréguas quisera sair com meu coração patético pela trepidação das horas, porque me dizia o ecopoeta chileno Andrés Espinosa Zuckel: Mira a tu alrededor... Olhava em volta e um gesto caía trazendo mãos distantes para que o coração inventasse descobertas a navegar à deriva inesperada. Simplesmente acontecia. E uma bela mulher voava nua sobre a praça dos meus sonhos. Não era tudo e nem ousava dizer o seu nome entreouvido sob afetos e suspeições. E lá vinha ela entre as perseidas, um meteoroide e Ouadan - o Olho do Saara. Trazia uma chuva de estrelas cadentes feito mulheres interplanetárias seminuas com suas coxas convidativas de pernas sinuosas entreabertas. Neste exato momento uma saudade não sei do que bulia no peito e o contágio denunciava minha vulnerabilidade. Chegou-me como um verso de Ernesto Cardenal: Voltarei com um pouco de lama no sapato e uma palavra de alegria para te dizer... E não era o Ano Novo, apenas os últimos dias da primeira quinzena de agosto, quando arrancava o meu sonho emparedado no amanhecer. Até mais ver.

 

COMO UM PÁSSARO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Como um pássaro, conhecido apenas por mim intrincada,

pequena ossatura conteúdo a ser levado pelo vento

 e escrever através do céu uma narrativa ininterrupta

 de aqui para lá e nada mais complicado

do que um arrepio de água sob uma asa

e nada que eu não possa deixar abaixo.

Poema da poeta canadense Louise Warren.

 

MINHA IRMÃ, A SERIAL KILLER - [...] Os pais e parentes mais amorosos cometem assassinatos com sorrisos no rosto. Eles nos forçam a destruir a pessoa que realmente somos: um tipo sutil de assassinato. [...] É porque ela é bonita, sabe. Isso é tudo. Eles realmente não se importam com o resto. Ela recebe um passe na vida. [...] Eu sei que não devo seguir orientações de vida de alguém sem uma bússola moral [...] Leva muito mais tempo para se livrar de um corpo do que de uma alma, especialmente se você não quiser deixar nenhuma evidência de crime. [...] Existe algo mais bonito do que um homem com a voz de um oceano? [...] “Ela não chora por mim,” ele diz, sua voz endurecendo. “Ela chora por sua juventude perdida, suas oportunidades perdidas e suas opções limitadas. Ela não chora por mim, ela chora por si mesma. [...] O amor não é uma erva daninha, não pode crescer onde quer... [...]. Trechos extraídos da obra My Sister, the Serial Killer (Doubleday, 2018), da escritora nigeriana Oyinkan Braithwaite.

 

VIDA HUMANA: FÉ EM TERREIRO DURO - [...] Aqueles que tentam abrir espaço para o sexo como mero prazer casual pagam o preço: tornam-se superficiais. De qualquer forma, a conversa que reflete e elogia essa atitude é sempre superficial. Eles desonram seus próprios corpos; segurando barato o que está naturalmente conectado com a origem da vida humana. [...]. Trecho extraído da obra Faith in a Hard Ground: Essays on Religion, Philosophy and Ethics (Imprint Academic, 2008), da filósofa inglesa Elizabeth Anscombe (1919-2001), influente na filosofia da mente e pioneira na teoria da ação contemporânea, além de autora de obras como Human Life, Action and Ethics: Essays (Imprint Academic, 2005).

 

RÁFAGAS ET ESCÂNCARAS: DIATRIBE

Minha poesia é qualquer coisa, menos edificante...

Trecho extraído da obra Ráfagas et escâncaras: diatribe - poesia desconfigurativa (CriaArte, 2023), do poeta e crítico literário Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui, aqui e aqui.