quinta-feira, fevereiro 25, 2021

VLADY KOCIANCICH, JOANNA BAILLIE, CRISTIANA REALI, IDEIA VILARIÑO & RECIFE

 

 

TRÍPTICO DQC: Mistério, a poesia de todas as coisas - Ao som do concerto Live at the Montreux Jazz Festival (2012), do violonista Paco de Lucía (1947-2012). - Meus olhos se perdem pelas entranhas do mundo aberto à minha janela. Neste momento, dou à luz o que é impossível falar, o que desajuda e mais eu pudesse nesta hora o incontrolável entre órbitas e células, quantos redemoinhos abissais: o tempo que é meu com afluentes que desaguam onde não é mais possível, pelo menos agora ou nunca, diante do precário indizível do cotidiano, a derradeira apreensão por tudo diluído na minha sincera tolice para além do timbre comovido. Tudo é só solidão e, como se quisesse me salvar, ouvi a escritora argentina Vlady Kociancich me contando O segredo de Irina (Tusquets, 2016): Já vimos tudo o que existe. Gostaria de realmente ir mais longe. Bem longe. Sim, mais longe que o calor escaldante do mar imenso de um céu longínquo, mais longe que uma alma cansada pelas ruínas de Chichén Itzá, muito além da vida e da morte numa jornada inevitável além das aparências. Mesmo assim não imagino qualquer destino, quisera morrer em pleno gozo, no ato: vida é uma palavra desmedida até onde fui e o que tiver de ser feito o farei já. O mistério é a poesia de todas as coisas. Vamos.

 


DOIS: DAS DORES DE AMOR - Ao som do Concerto para Violino E minor, op. 64, do compositor alemão Felix Mendelssohn (1809-1847), na interpretação da violinista estadunidense Hilary Hahn e a Frankfurt Radio Symphony Orchestra, condutor: Paavo Jarvi (Korea, 2012) - Não sei mais onde estou, se entre vivos e mortos, o maldito e o santo, a injustiça e a tirania, tudo se dissolve e é muito horrível! Joanna Baillie me aparece no meio da noite: Onde as formas dentro da memória são vistas, / Formas fracas ou vívidas, variando frequentemente, que parecem / Como objetos em movimento em um sonho seriado... E me conta o melodrama gótico sobre o medo e a loucura de Orra (A tragedy in five acts - The Plays on the Passions, 3 vols. - LibriVox, 2018). Ouço atento e qual o tempo, se agora ou no medievo quatrocento, o castelo assombrado na Floresta Negra, o exilio da paixão dela por Theobald, tudo em vão: Sua mente dentro de si mesma contém um mundo escuro / De fantasias sombrias e formas horríveis! / Não lute mais com ela. Ela à beira do terror abjeto pelas maquinações nefastas do cavaleiro ciumento, depois da recusa para casar-se com o filho do seu pupilo: o medo, a segregação, o declínio da força de vontade e a sobrevivência na loucura. Não mais direito à liberdade, o desafio às leis da ordem patriarcal são tão trágicas quanto preconceituosas. Ela se apaga e é eliminada da história: Mas a dor da mulher é como uma tempestade de verão, por mais curta que seja violenta. Assim que sussurrou a última palavra da frase, ocorreu a suspensão do fornecimento de energia elétrica. Mais nada disse, as horas se passaram. Com o retorno da luz muito tempo depois, me certifiquei que estava só, contando as estrelas à janela.

 


TRÊS: DO QUE VAI E NÃO VOLTA MAIS – Ao som do concerto Lee Konitz New Quartet - Jazzwoche Burghausen (Germany, 2012), do compositor e saxofonista estadunidense Lee Konitz (1927-2020). – A noite é íntima e a ausência dela atravessa amanheceres por ondas crepusculares. Perdi a hora de tudo porque os pensamentos viajam por cenas, como daquela vez que ela reapareceu carregada com uma coleção de livros organizados pelo livreiro e colecionador francês, Alexandre Dupouy, e era a belíssima Cristiana Reali diante do meu encanto, era a redenção. Não, não era, engano meu, logo ela desfez e meio sem jeito, entre um passo e outro para lá e para cá: Falar que beleza não ajuda é mentira. Mas falar que só ajuda também é mentira. É diferente dos anos 40 ou 60. Hoje, se você for bonita, tem que mostrar mais personalidade e mais inteligência. Tenho o lado doce, sensível, frágil de meu signo, Peixes, e ao mesmo tempo sou esforçada, curiosa, vulcânica, como se diz em francês. Depois disso ficou silenciosa, inquieta. E me recitou um poema da poeta e compositora uruguaia Ideia Vilariño (1920-2009):  Já não será / já não / Não viveremos juntos / Não criarei teu filho / Não coserei tua roupa / Não te terei a noite / Não te beijarei ao ir-me / nunca saberás quem fui / por que me amaram outros. / Não chegarei a saber / por que nem como nunca / nem se era de verdade / O que disseste que era / nem quem foste / nem que fui para ti / nem como seria / viver juntos / querermos / esperar-nos / estar. / Já não sou mais que eu / para sempre e tu / já não serás para mim / mais que tu. / Já não estás / em um dia futuro / Não saberei donde vives / com quem / nem se te recordas. / Não me abraçarás nunca / como essa noite / nunca. / Não voltarei a te tocar. / Não te verei morrer. E saiu sem um aceno como se fosse para nunca mais. Dias depois, lá estava ela, linda como nunca, amante como sempre: uma deusa entronizada e nua nos meus braços e reino de nada. Agora não mais, tudo dela inesquecível e recorrente, doendo no peito túrgido como se a lembrança sangrasse feito um talho imenso em carne viva. Até mais ver.

 

EI, PESSOAL! VAMOS CONHECER O RECIFE!



[...] O carnaval pernambucano tem características próprias por sua diversificação de agremiações carnavalescas [...] Mas na “quarta-feira ingrata, que é de fazer chorar”, não perdiam o Bacalhau do Batata e o Bloco dos Irresponsáveis, que desfilava, à tarde, pelas ruas de Água Fria [...]

O livro Ei, pessoal! Vamos conhecer o Recife (Edificantes, 1997), da escritora Marileide Tavares e do historiador, escritor, músico e artista plástico Edvaldo Arlégo, contando uma história com um completo roteiro histórico cultural para se conhecer o Recife, falando em seus capítulos sobre o Marco Zero, o Mercado de São José, a feirinha, os bairros de Santo Antônio e São José, da Boa Vista, o carnaval, os subúrbios, o metrô, o baile de máscara, o frevo, retalhos e outras coisas. Veja mais aqui e aqui.